De pessoas, astros e sonetos
O dom da razão, essa especialidade que diferencia o ser humano dos outros animais, é que o credencia a chamar, a si mesmo como espécie, de Homo Sapiens. De lambuja, nos julgamos detentores do próprio destino ou no mínimo predestinados ao livre-arbítrio.
Mas esta presunção, a de que somos senhores do próprio destino, não passa do mais retumbante e esfarrapado equívoco. A razão atua nas parcelas mas não no montante da operação. Daí seu resultado ser pífio no tocante ao todo. Somos capazes, isto sim, de desenvolver ferramentas e como exímios ferramenteiros saímos da pedra lascada e chegamos ao foguete de propulsão a laser. Saímos da comunicação por fumaça e chegamos à rede mundial de computadores. Percorremos um longo caminho de objetos cortantes, da faca obsidiana ao nano-robô-bisturi, propelido a bactérias.
Mas nada disso é capaz de desviar o suporte da vida, o planeta em que vivemos, da rota de colisão com um mundo de insalubridade. Nada muda nosso destino fatal e desditoso. Nada seria capaz de prolongar a existência desta espécie de primatas racionais sobre a terra. A racionalidade é uma equação de soma zero. A soma de todas as cabeças pensantes é um curto circuito, um ataque de epilepsia.
A noção de livre-arbítrio é apenas uma um azougue, uma embriaguez, um mito, uma superstição gestada nos últimos séculos, que se agita no interior da fatalidade, enquanto seguimos incólumes os caminhos traçados por um determinismo ancestral. Livre-arbítrio é a escolha dentre as alternativas colocadas. Mas a alternativa correta , a que nos redimiria, não está disponível no conjunto de opções sobre a mesa. Ou quando está, por alguma fatalidade inerente à condição humana, somos incapazes de escolhê-la. Como na noção de Cioran, o destino da espécie não está menos determinado do que a de um soneto ou a de um astro.
O pior aspecto da racionalidade é sua tendência ao auto-engodo, à auto-sabotagem e por meio desse cacoete caminhar de costas para o alvo, alvo que não é outro senão a catástrofe pessoal e a dizimação da espécie.
É bem provável que a civilização nunca foi demandada por uma atitude coletiva e racional como agora, diante da devastação do meio ambiente e do aquecimento global. E a humanidade fará um esforço concentrado? Agirá com racionalidade, colocará em operação aquilo que nos faz diferentes dos demais bichos da terra? Não. Não, mesmo. Os sinais de nossa estultícia estão por toda parte. É difícil passar um mês sem que a gente ouça algum órgão de proteção ambiental alardeando, como se isso fosse a salvação da lavoura, que este ano o desmatamento da Amazônia foi menor tantos por cento. Que o cerrado ou a mata atlântica, ou mesmo o pantanal tiveram redução nas derrubadas em relação a um período anterior.
Isto não é resultado da racionalidade, mas da auto-sabotagem. A informação correta deveria ser que determinado bioma foi dizimado em mais tantos por cento. E não menos. Que o colapso do ambiente é cada vez mais próximo. Quando ouviremos que algum desses biomas teve parte recuperada? Enquanto isso, vamos tendo uma constatação de bêbado, como o daquele da anedota antiga:
O sujeito chega no boteco e pede cinco doses de pinga. Bebe as cinco de golada. Minutos depois pede mais quatro e torna a beber. Depois pede três, depois duas e por fim pede apenas uma. E, já mancando das duas e falando engrolado, proclama aos circunstantes:
- Mas que diabo, rapá, quanto menos eu bebo mais tonto eu fico!
Nossos dirigentes estão bebendo pinga de doses (Sem qualquer conotação ao hábito secreto do presidente Lula). Pelo menos parece ser a lógica esquizofrênica que norteará os governantes que irão agora a Copenhague para a conferência do clima, onde desfilarão com a empáfia e a ingenuidade de manequins de moda da estação.
O planeta já está nas últimas e os políticos vão levando propostas de reduzir até 2020, 30% (uns mais, outros menos) do que iriam lançar normalmente de carbono na atmosfera, numa projeção otimista de crescimento econômico. Em outras palavras, o que estão é se comprometendo a jogar pra cima mais 70% de gás letal nos próximos 10 anos, como se isso fosse alguma solução para o monumental problema. Isso parece ser próprio da racionalidade que foi inoculada na espécie. Qualquer coisa que não leve à autodestruição foge à lógica fatalista de nossa índole.
Outro exemplo é o fato de que as grandes cidades brasileiras estão praticamente paralisadas com o excesso de carro nas ruas, de quebra empesteando o planeta com a queima de combustível fóssil. E o governo, ao invés de investir em projetos de transporte de massa, achou por bem isentar os carros de impostos (IPI) para fomentar ainda mais o consumo, mesmo que isso inviabilize o carro como meio de transporte e jogue no ralo qualquer propósito de redução do CO2.
O Homo sapiens age como uma espécie de erva daninha que ao invadir um roçado tem o propósito de proliferar-se até exaurir o solo e depois morrer pela inanição que ela mesma provocou.
Nossa racionalidade, insisto, parece funcionar muito bem para a ocupação e o exaurimento do solo. Mas não na parcimônia no uso dos recursos naturais. É espantoso, mas todas as inteligências somadas se anulam e o que resta do Homo Sapiens é um processo de estupidez sem par, produzindo, numa velocidade vertiginosa, sua própria ruína sobre a Terra.
E não se espante que a última dose de oxigênio respirável seja gasta na construção de uma máscara contra gases tóxicos.





