De catástrofes e lixas de unha
Não seria temerário dizer que toda geração tem uma percepção extremista de si mesma. Nos momentos de euforia pensa que se encontra no ápice do progresso, ou de um processo evolutivo, a ponto de se convencer que as novas gerações não darão conta de manter a peteca no ar. Nos momentos de depressão, pensa que se vive o instante mais turbulento da história, que o operador do apocalipse já se acha no exercício de suas funções e as tribulações divinas já vão é bem adiantadas.
Falo aqui de um sentimento médio, de uma geração média, tomando de empréstimo o conceito de homem médio da filosofia do direito, que é aquela pessoa que não é nem tosca demais, nem refinada demais, para quem o direito é objetivado em forma de leis.
Vale ainda um reparo sobre a noção de progresso, que foi muito mais ressaltada a partir da primeira revolução industrial, no século 18, quando os usos, costumes, conceitos e ferramentas foram sendo atualizados numa velocidade cada vez mais crescente, até chegar nos dias de hoje, quando a noção de progresso já traz embutida a noção de obsolescência. Pois bem, o início da revolução industrial permitiu que o progresso fosse sentido na pele pelo homem médio (recorremos novamente ao conceito jurídico), no seu dia a dia e não apenas pelos relatos orais dos antigos, pelos escritos nos incunábulos, pelos rolos de pergaminhos, pelas cunhas de argila, ou mesmo pelas inscrições rupestres.
Talvez movido por este sentimento extremado a que me referi, ouso aventar que a nossa geração se acha assentada na ponta de um processo-limite, e que se tornou inadiável uma tomada de decisão que pode alterar profundamente o destino da terra. Ou pelo menos o nosso destino sobre a terra. Nunca antes na história deste planeta a vida esteve tão em risco. A vida de quem, cara pálida? — perguntaria aquela bactéria sem eira nem beira, com cara de consciência crítica.
E com razão, porque segundo a corrente mais aceita, a vida apareceu no planeta, há cerca de 3,5 bilhões de anos, entre lamas fétidas e brumas sulfurosas, num ambiente muito mais parecido com o que os teólogos descrevem como o inferno do que o paraíso do Éden. E a partir de um único organismo monocelular, a vida foi ganhando massa e diversidade, a ponto de já ter em seu portfólio, ativo e inativo, mais de 50 milhões de espécies. E nós, o Homo sapiens (algo como bicho sabido), somos um ramo retardatário dessa árvore, que só bem recentemente (em termos paleontológicos) se descolou do mesmo galho, de onde também saíram os nossos primos gorilas e chimpanzés.
Com a vida diversificada e adaptada a todas as condições climáticas, o que está em risco é o Homo sapiens e outras espécies até mais suscetíveis que a nossa (a cada 3 minutos uma espécie exala da face do globo). Não somos dos mais fortes, mas também não somos dos mais molengas. Estamos no meio, tendendo para o lado mais frágil. No entanto, há formas de vida tão bem adaptadas que não há intempéries previsíveis que possam erradicá-las do planetinha azul de clima ameno, sem igual no horizonte, pelo menos até onde nossa vista (ampliada pelo Huble) pode alcançar. Existem, por exemplo, as bactérias termófilas, que podem viver confortavelmente num botijão de nitrogênio e de vez em quando passar uma temporada numa panela de pressão, com a naturalidade de um comerciário numa colônia de férias do SESC.
Mas para nós humanos, que não suportamos alteridades tão profundas, a vida corre risco, sim. Pela primeira vez na história (olhaí a pretensão geracional de novo) o homem se coloca numa posição que, pelo menos em boa dose, pode interferir no seu próprio destino, de forma ativa e consciente. Para o bem ou para o mal. Se bem que num outro artigo defendi a ideia de que a inteligência e a burrice são atributos individuais, mas que a coletividade é neutra e caminha como que guiada por um fatalismo “climático”, ou espírito de manada.
Boa parte da população pensante acredita na tese do aquecimento global provocado pela ação do homem. Os partidários desta crença (estou inclinado a me situar nesta ala) acreditam que o progresso com suas devastações, remoções de terra, queimas de combustíveis fósseis e todo tipo de intervenção na natureza, vem provocando uma aceleração maior na degradação da biosfera do que o que seria razoável no atual momento geológico. E que o homem, com suas máquinas turbinadas, pode frear esta tendência, atrasando o processo e retardar o momento em que fatalmente chegaremos a um situação de singularidade, em que as leis da natureza começam a não funcionar mais como antes. Como um coração que é feito para bater numa frequência regular, mas a partir de determinadas condições, entra em processo de taquicardia ou mesmo de um infarto fatal.
Outra parte acredita que o aquecimento global não passa de um discurso ideológico das esquerdas que tendo uma vez ficado sem suas bandeiras da ditadura do proletariado, inventou um discurso verde, para continuar botando gosto ruim e pedra nos sapados do progresso que, independente de qualquer coisa, tem que ir com tudo.
Essa ala é extremamente otimista e tende a ver os problemas não como problemas, mas como oportunidades. Para eles, o derretimento das calotas polares permitirá o acesso ao petróleo (e dizem que não é pouco) que repousa nessas áreas do globo. A invasão das metrópoles pelas águas dos mares representa uma oportunidade de ouro para as empresas de incorporação (que nada tem a ver com candomblé) e para os países cujas cidades se encontram nessas condições. É que os custos da demolição e da reconstrução, por incrível que pareça, entram igualmente na constituição do produto interno bruto, fator importantíssimo no ranqueamento dos países, no comparativo internacional.
Para esses progressistas sem limites, o calorão que se abaterá sobre as populações representará a oportunidade de vender produtos da linha branca (ventiladores, geladeiras, aparelhos de ar condicionado etc.), além de produtos gelados como sorvetes, picolés, refrigerantes, cervejas e outros). Estão mais interessados no resultado positivo do balanço financeiro da empresa do que nas condições de sobrevivência do galho mais recente da árvore da vida, que leva o singelo nome de Homo Sapiens. São escravos de uma necessidade cruenta e imediata de juntar bens sobre a terra e acredita que vencer na vida é morrer anexo ao maior volume de tranqueira possível. Esses esperam que se houver catástrofe, realmente, eles a assistirão pela TV.
Há uma terceira ala que não quer fazer sacrifício nem abrir mão do conforto pessoal no presente e espera em Deus um milagre para resolver tudo isso. Espera que Deus, na hora H, como um guincho de socorro, vai surgir grande e generoso de uma nuvem no céu, revogar a iminente convulsão da terra e restaurar para suas criaturas o paraíso perdido. Espera de Deus uma ação que parece definitivamente não ser de seu feitio. Afinal Ele “deixou” os hebreus, seu povo predileto, serem escravos dos egípcios, “deixou” seu filho primogênito ser surrado e morrer na cruz a ponto de o próprio filho estranhar sua falta de atitude naquela hora (Ó, Pai, por que me abandonaste!?).
Essa ala espera a intervenção de um Deus que estava lixando as unhas e vendo buracos negros degustando constelações de estrelas nos confins do universo, enquanto o Haiti, era devastado por um terremoto irado. Logo o Haiti, que é um país desgraçadamente miserável e, pelo menos do ponto de vista humano, seria digno por demais da misericórdia divina.
Só não vale dizer que essa desgraça é por conta de que os haitianos são praticantes da religião vodu.





