Da Vinci e a natureza humana

Leonardo da Vinci representa aquele ponto de exagero em que a natureza não fez economia e reúne em uma só entidade biológica o maior concentração de inteligência e habilidades possível. Poderíamos contra-argumentar, alegando que da Vinci apenas teve sorte, por estar na gênese do movimento renascentista, e como a civilização vive ainda um desdobramento da Renascença, qualquer um que estivesse no lugar de da Vinci seria considerado um megagênio pelas futuras gerações, assim como o são os filósofos gregos (Sócrates, Platão e Aristóteles) os fundantes da decantada e pouco entendida Civilização Ocidental.
Tudo bem, da Vinci teve a “sorte” de estar na base e no centro de um levante cultural, de uma retomada da civilização que se sairia vitoriosa num período da história, que ainda está em curso. Mas afora este fato, aquele bastardo, filho de um notário com uma camponesa, que comprava pássaros engaiolados para soltá-los, era realmente um homem de gênio.
Há 500 anos ele se ocupava como poeta, músico, matemático, botânico, anatomistas, escultor, pintor, arquiteto, engenheiro, inventor e não deixou de fazer filosofia e até profecia em suas anotações em escrita às avessas, para não ser facilmente roubado. Suas ideias de invenção, para as quais não havia material disponível na época, ainda estão se aperfeiçoando, como o helicóptero, o tanque de guerra, a energia solar, a bobina automática. Até mesmo a comprovação de sua teoria geológica das placas tectônicas ainda está em andamento.
Além de conhecer as formas e a natureza das coisas, ele conhecia sobretudo a natureza do homem. Em seu tempo ainda não existia a teoria capitalista da Adam Smith a apregoar que a soma dos egoísmos individuais resulta no bem-estar coletivo. Não havia acontecido os massacres dos ameríndios, nem a Revolução Francesa com suas guilhotinas afiadas, nem a Segunda Guerra com o Holocausto, nem o genocídio do Burúndi, o desmatamento da Amazônia, nem o processo de desertificação dos cerrados. Não havia ainda a globalização econômica e as megaempresas com supremacia política, econômica e moral sobre as nações e os estados nacionais, Wall Street ainda não havia chantagiado e estorquido o mundo, nem o consumo eleito como a medida de todas as coisas, enfumaçando o ar. Mas da Vinci deixou registrado em seu livro de anotações, sua percepção sobre a natureza sinistra da criatura:
“Haverá criaturas na Terra que sempre estarão lutando umas com as outras, com pesadas perdas e mortes frequentes de ambos os lados. Não haverá limites para a sua maldade; por seus membros fortes, as vastas florestas do mundo serão devastadas; e quando estiverem fartas de comida, irão satisfazer seus desejos distribuindo morte, aflição, trabalho, terror e exílio; e de seu orgulho ilimitado elas desejarão conquistar os céus, mas o peso excessivo de seus membros as reterá.
“Nada restará sobre a terra, sob a terra ou nas águas sem ser perseguido, perturbado ou pilhado, e o que está num país será transferido para outro. E seus corpos se tornarão o túmulo e a consusbstaciação de todos os corpos vivos que elas terão tomado.
“Ó terra, por que não te abres e não as precipita nas fissuras profundas dos teus vastos abismos e cavernas, por que não tiras da vista dos céus um monstro tão cruel e horrível?”
As cenas por ele aventadas até lembram um certo filme inspirado no Calendário Maia. Mas diferentemente do filme, cujo apocalipse parece ser gratuito, o desejado por da Vinci está alicerçado em uma única e justificada razão: expurgar da Terra a natureza sinistra da criatura humana.





