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POR EM 06/01/2010 ÀS 10:24 AM

A Virgem Maria, o urso polar e as razões para crer

publicado em

Já se tornou um lugar-comum, um apotegma do conhecimento, dizer que o homo sapiens se diferencia dos outros animais pela capacidade de raciocínio e pelo poder da comunicação.

Esse entendimento está inserido em nossa cultura desde os primórdios, tanto assim que Moisés, o escritor javista, autor do Gênesis e mais quatro livros (o Perntateuco, ou Torah dos Judeus) afirma que Deus teria determinado ao homem peremptoriamente: “Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que se move sobre a terra”. Não satisfeito, complementa no versículo seguinte : “ ...todo verde é para mantimento”. Moisés só pôde ter sacado essa ideia megalomaníaca e arrogante porque já era naquele tempo uma noção corrente de que sendo o ser humano dotado de inteligência e de capacidade de comunicação ele teria o direito e até o dever e arrasar o planeta para alastrar a sua própria colônia.

Segundo o biólogo neo-evolucionista Richard Dawkins existem três más razões para se crer em alguma coisa, que são elas: tradição, autoridade e revelação. E por incrível que pareça essa noção de que somos superiores está eivada dessas três pragas do conhecimento. Moisés cristalizava em seu texto um entendimento já firmado pela tradição; ele era um patriarca, portanto senhor de direito para proclamar a verdade, e por último, Moisés escrevia, sem questionar, apenas revelando o pensamento de Deus.

Esse equívoco é extremamente perduradouro. Só a partir da segunda metade do séc. XIX foi que ele começou a ser combatido por Darwin, para quem o homo sapiens é apenas mais uma espécie, de peso específico semelhante ao das demais que dividem o minifúndio terreno.

Mas uma convicção tão duramente arraigada não larga a civilização de uma hora pra outra. Por conta desse alvará divino, dando condição moral para construirmos de tudo destruindo a natureza, chegamos onde chegamos, no limiar de uma condição singular, onde a mãe natureza começa a escoicear suas crias. E nesse processo da natureza de rejeitar seus filhos que lhe causam danos, o homo sapiens está entre os mais fracotes, junto com o mico-leão-dourado, a arara-azul, o urso polar e o jumento do Nordeste.

Voltando a essa questão da verdade e das razões para crer, peguemos hipoteticamente um hindu, um cristão, um muçulmano e um candomblé e lhes façamos alguma pergunta sobre a criação do mundo, por exemplo. Cada qual vai nos dar uma resposta sobre a qual não restam dúvidas. Mas cada uma diferente da outra, cada outra excluindo a uma. Como pode ser quatro verdades diferentes sobre o mesmo fato.  O mais provável é que todos estejam errados. Mas, por uma impossibilidade lógica, não tem como todos estarem todos certos. É que suas respostas foram fundadas em suas respectivas tradições.

Ainda sobre a crença, Maria mãe de Jesus foi muito pouco citada pela Bíblia, e quando o foi, foi mais como coadjuvante, como sub-rogadora de útero (barriga de aluguel) que ficou grávida por um processo místico que a preservou virgem mesmo depois de dar à luz e sem o recurso da cesariana, e também como baby-sitter de um menino que estava escalado pra ser Deus. Por conta da bíblia, podemos deduzir que Maria quando morreu, teve o mesmo destino dos outros mortais: perdeu os marcos divisórios de seu corpo e se diluiu na natureza, passando pelo banquete dos vermes decompositores. Mas em 1950, o Papa Pio XII cismou de firmar o dogma da Assunção de Maria mãe de Deus, que teria subido ao céu, com a alma vestindo o seu próprio corpo e ainda virgem. Os católicos de todo o mundo tiveram que engolir mais essa, afinal quem estava dizendo era o sumo pontífice. Então tinha que ser verdade e ponto final.

E se alguém tivesse tido a petulância de perguntar ao Papa como ele teve essa notícia ocorrida há quase dois mil anos, de que Maria ainda virgem teria subido aos céus com o corpo envolvendo a alma, certamente teria ouvido a resposta curta e grossa: me foi revelado! Simples assim.

Após falarmos das três más razões para a crença (nas quais não vejo razões para duvidar), voltemos à nossa proposição inicial: o homem por ser inteligente e se comunicar com palavras, pode fazer qualquer bandalheira para se estabelecer?

Depois que Darwin proclamou em sua Teoria da Evolução das Espécies que para o ente chamado Vida a espécie humana tem a mesma expressão que as outras séries animais, pesquisadores têm demonstrado que nossa inteligência é apenas mais complexa que a dos outros seres, mas eles também têm lá suas inteligências e suas motivações racionais. Alguns símios têm provado uma capacidade lógica e matemática até superiores a um ser humano médio. Sem contar a noção espacial dos morcegos e a noção de rumo dos pombos.

Quanto à capacidade de comunicação, há muitas espécies animais que são até superiores a nós sob certos aspectos. As abelhas, por exemplo, têm um sistema complexo de códigos de comunicação que envolve, sonorização, toques, exalação de produtos químicos, dança de requebros e rodopios. Com esse processo de comunicação uma abelha ao voltar de uma expedição exploratória, é capaz de contar às outras tudo o que viu, onde encontrou as floradas em que condições, volume, distâncias, ocasião mais favorável e tudo o mais.

Esse mesmo conhecimento é repassado à rainha que, por sua vez, repassa à sua prole. Ou seja, a abelha nova já vem ao mundo com todo o conhecimento herdado das abelhas velhas. Em outras palavras, a civilização das abelhas não corre o risco de sofrer um período cultural embaçado, como a civilização ocidental cristã sofreu na idade média. Um processo em que o filho perdeu a capacidade de aprender o que o pai sabia, por uma série de injunções obscurantistas perpetradas por interesses de quem detinha o mando da vez.

Uma cigarra, na estação propícia, é capaz de desferir um discurso mais eloquente do que Rui Babosa ou padre Antônio Vieira. Eu não sei exatamente o que ela diz, no entanto a comunidade cigarral a entende perfeitamente e tudo prossegue como tem de ser entre os indivíduos da espécie.

Nosso erro de entendimento sobre nossa posição no conjunto dos seres só serviu para fomentar uma civilização apegada à destruição e à tranqueira sem limites, que chamamos inocentemente de bens. Se perpetuarmos no erro implantado por Moisés, em breve seremos extintos pela própria estultícia. Para o bem das formigas, das abelhas, dos cupins, dos vírus, dos fungos e bactérias. Logo eles que, em nossa jactância de espécie, convencionamos chamar de “seres inferiores”.  

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Comentários (18)

  • Prezado Eleno Ribas, o Brasigois Felício fez a seguinte sugestão de errata:"Todo verde é para mantimento", os homens deveriam ler:"Todo verde é para ser mantido". Já o Valdivino Braz aventou que "é para mantimento" tem o mesmo significado de "é para ser mantido". Já o seu entendimento é de que o mandamento bíblico determina que " ...não usarás o verde para outros fins que não o mantimento". Como ninguém é dono da verdade, são três posições interessantes que alargam as possibilidades de reflexão. Não sinto que meu argumento esteja sendo descontruído. Muito grato pela participação. Abraço!


    2 anos atrás por Edival
  • Caro Edival, a passagem:

    “ ...todo verde é para mantimento”

    para mim tem uma interpretação óbvia:

    " ...não usarás o verde para outros fins que não o mantimento"

    Ou seja, é justamente um argumento de preservação.

    Desculpe desconstruir sua retórica.


    2 anos atrás por Eleno Ribas
  • Prezado Julio, obrigado pela manifestação. Abraço.

    2 anos atrás por Edival Lourenço
  • Paulo Telesse, muito oportuno seus links. Que há uma ideologização do aquecimento não há dúvida. Porém , mesmo que o aquecimento não seja uma ameaça, o nosso modelo de exploração do planeta é sem dúvida ameaçador. Precisa ser repensado. O presidente Bush(não estou fazendo ironia) pensava abertamente que o aquecimento global é uma balela. Barak Obama, não admite, mas pelas atitudes pensa assim também. Se eles estiverem errados, o mundo corre o risco de perder a hora de se reposicionar diante dessa (possível) ameaça! Obrigado pela participação!

    2 anos atrás por Edival
  • O Aquecimento Global é a maior fraude da história.
    Um artigo para pensarmos: (http://bit.ly/6227R2) e aqui um blog com alguns dados: (http://agfdag.wordpress.com/)

    2 anos atrás por Paulo Telesse
  • Rogério Lucas, belas observações as suas. Mas vc há de convir que esse diferencial na inteligência humana não vem sendo usado para preservar o equilíbrio da vida no planeta. Nossa inteligência tem um viés (auto)destrutivo irremediável. Ifelizmente. Estou feliz em encontrar aqui o velho amigo. Abração!

    2 anos atrás por Edival
  • Marta, muito grato pelo comentário. Abraço!

    2 anos atrás por Edival
  • Boa Edival, vc é sempre ferino e de uma visão acurada. Mas eu queria ver uma abelha lendo seu texto e reproduzindo suas ideias. Ou uma cigarra difundindo-se com a tecnologia multiplicadora desta rede virtual. Mas vc deve estar absolutamente certo em uma coisa: somo um dos elos mais frágeis desta cadeia. Quando incomodarmos mais um pouco, livram-se de nós com facilidade. Abraços, enquanto este dia não chega.
    Rogério Lucas

    2 anos atrás por Rogério Lucas
  • Fiquei sensibilizada com o texto.

    2 anos atrás por Marta
  • Orlando Carvalho, obrigado pela manifestação. Abraço!

    2 anos atrás por Edival
  • Brasigóis, creio que se o Moisés visse como o mundo está sendo estragado não teria dúvida em aproveitar sua sugestão...

    2 anos atrás por Edival
  • Sensacional seu texto.

    2 anos atrás por Orlando Carvalho
  • Errata: onde no texto bíblico se lê;"Todo verde é para mantimento", os homens deveriam ler:"Todo verde é para ser mantido".

    2 anos atrás por Brasigois Felicio
  • Belo texto. O futuro do homem é a extinção.

    2 anos atrás por Júlio
  • Prezada Anny, obrigado pelo comentário.

    2 anos atrás por Edival
  • Prezado Braz, a ideia é essa. Se não faltar fôlego ao escriba, reunir essas reflexões e lançar um livro com o título Animau Çinixtro. Obrigado pelo comentário.

    2 anos atrás por Edival
  • Gostei.

    2 anos atrás por Anny

  • Bom, Edival. Você mantém o seu prumo de nível. Essa temática planetária tem-me apoquentado a massa cinzenta; tenho até tido idéias para algo em forma de livro, mas daí até o "esprito" incorporar-se, demanda ruminações. Quanto à "virgém" Maria, nunca, desde menino, engoli essa; engula-a quem quiser; degluta bem o alimento, se puder... Desde que comeram a "maçã" de Eva Angélica (gostou?), no Éden, toda mulher é mulher, no bom sentido, graças a Deus, por intermédio da serpente, cria d´Ele, que "a tudo criou", como está escrito. Logo, devia ter lá os seus propósitos nesta história de Eva e Adão, maçã e serpente...

    2 anos atrás por Braz


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