A Virgem Maria, o urso polar e as razões para crer
Já se tornou um lugar-comum, um apotegma do conhecimento, dizer que o homo sapiens se diferencia dos outros animais pela capacidade de raciocínio e pelo poder da comunicação.
Esse entendimento está inserido em nossa cultura desde os primórdios, tanto assim que Moisés, o escritor javista, autor do Gênesis e mais quatro livros (o Perntateuco, ou Torah dos Judeus) afirma que Deus teria determinado ao homem peremptoriamente: “Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que se move sobre a terra”. Não satisfeito, complementa no versículo seguinte : “ ...todo verde é para mantimento”. Moisés só pôde ter sacado essa ideia megalomaníaca e arrogante porque já era naquele tempo uma noção corrente de que sendo o ser humano dotado de inteligência e de capacidade de comunicação ele teria o direito e até o dever e arrasar o planeta para alastrar a sua própria colônia.
Segundo o biólogo neo-evolucionista Richard Dawkins existem três más razões para se crer em alguma coisa, que são elas: tradição, autoridade e revelação. E por incrível que pareça essa noção de que somos superiores está eivada dessas três pragas do conhecimento. Moisés cristalizava em seu texto um entendimento já firmado pela tradição; ele era um patriarca, portanto senhor de direito para proclamar a verdade, e por último, Moisés escrevia, sem questionar, apenas revelando o pensamento de Deus.
Esse equívoco é extremamente perduradouro. Só a partir da segunda metade do séc. XIX foi que ele começou a ser combatido por Darwin, para quem o homo sapiens é apenas mais uma espécie, de peso específico semelhante ao das demais que dividem o minifúndio terreno.
Mas uma convicção tão duramente arraigada não larga a civilização de uma hora pra outra. Por conta desse alvará divino, dando condição moral para construirmos de tudo destruindo a natureza, chegamos onde chegamos, no limiar de uma condição singular, onde a mãe natureza começa a escoicear suas crias. E nesse processo da natureza de rejeitar seus filhos que lhe causam danos, o homo sapiens está entre os mais fracotes, junto com o mico-leão-dourado, a arara-azul, o urso polar e o jumento do Nordeste.
Voltando a essa questão da verdade e das razões para crer, peguemos hipoteticamente um hindu, um cristão, um muçulmano e um candomblé e lhes façamos alguma pergunta sobre a criação do mundo, por exemplo. Cada qual vai nos dar uma resposta sobre a qual não restam dúvidas. Mas cada uma diferente da outra, cada outra excluindo a uma. Como pode ser quatro verdades diferentes sobre o mesmo fato. O mais provável é que todos estejam errados. Mas, por uma impossibilidade lógica, não tem como todos estarem todos certos. É que suas respostas foram fundadas em suas respectivas tradições.
Ainda sobre a crença, Maria mãe de Jesus foi muito pouco citada pela Bíblia, e quando o foi, foi mais como coadjuvante, como sub-rogadora de útero (barriga de aluguel) que ficou grávida por um processo místico que a preservou virgem mesmo depois de dar à luz e sem o recurso da cesariana, e também como baby-sitter de um menino que estava escalado pra ser Deus. Por conta da bíblia, podemos deduzir que Maria quando morreu, teve o mesmo destino dos outros mortais: perdeu os marcos divisórios de seu corpo e se diluiu na natureza, passando pelo banquete dos vermes decompositores. Mas em 1950, o Papa Pio XII cismou de firmar o dogma da Assunção de Maria mãe de Deus, que teria subido ao céu, com a alma vestindo o seu próprio corpo e ainda virgem. Os católicos de todo o mundo tiveram que engolir mais essa, afinal quem estava dizendo era o sumo pontífice. Então tinha que ser verdade e ponto final.
E se alguém tivesse tido a petulância de perguntar ao Papa como ele teve essa notícia ocorrida há quase dois mil anos, de que Maria ainda virgem teria subido aos céus com o corpo envolvendo a alma, certamente teria ouvido a resposta curta e grossa: me foi revelado! Simples assim.
Após falarmos das três más razões para a crença (nas quais não vejo razões para duvidar), voltemos à nossa proposição inicial: o homem por ser inteligente e se comunicar com palavras, pode fazer qualquer bandalheira para se estabelecer?
Depois que Darwin proclamou em sua Teoria da Evolução das Espécies que para o ente chamado Vida a espécie humana tem a mesma expressão que as outras séries animais, pesquisadores têm demonstrado que nossa inteligência é apenas mais complexa que a dos outros seres, mas eles também têm lá suas inteligências e suas motivações racionais. Alguns símios têm provado uma capacidade lógica e matemática até superiores a um ser humano médio. Sem contar a noção espacial dos morcegos e a noção de rumo dos pombos.
Quanto à capacidade de comunicação, há muitas espécies animais que são até superiores a nós sob certos aspectos. As abelhas, por exemplo, têm um sistema complexo de códigos de comunicação que envolve, sonorização, toques, exalação de produtos químicos, dança de requebros e rodopios. Com esse processo de comunicação uma abelha ao voltar de uma expedição exploratória, é capaz de contar às outras tudo o que viu, onde encontrou as floradas em que condições, volume, distâncias, ocasião mais favorável e tudo o mais.
Esse mesmo conhecimento é repassado à rainha que, por sua vez, repassa à sua prole. Ou seja, a abelha nova já vem ao mundo com todo o conhecimento herdado das abelhas velhas. Em outras palavras, a civilização das abelhas não corre o risco de sofrer um período cultural embaçado, como a civilização ocidental cristã sofreu na idade média. Um processo em que o filho perdeu a capacidade de aprender o que o pai sabia, por uma série de injunções obscurantistas perpetradas por interesses de quem detinha o mando da vez.
Uma cigarra, na estação propícia, é capaz de desferir um discurso mais eloquente do que Rui Babosa ou padre Antônio Vieira. Eu não sei exatamente o que ela diz, no entanto a comunidade cigarral a entende perfeitamente e tudo prossegue como tem de ser entre os indivíduos da espécie.
Nosso erro de entendimento sobre nossa posição no conjunto dos seres só serviu para fomentar uma civilização apegada à destruição e à tranqueira sem limites, que chamamos inocentemente de bens. Se perpetuarmos no erro implantado por Moisés, em breve seremos extintos pela própria estultícia. Para o bem das formigas, das abelhas, dos cupins, dos vírus, dos fungos e bactérias. Logo eles que, em nossa jactância de espécie, convencionamos chamar de “seres inferiores”.





