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POR EM 24/03/2010 ÀS 09:37 AM

A vala comum dos deuses vencidos

publicado em

Contava eu lá com meus 8, 9 anos. A gente morava no sertão. Sertão como não se vê mais no Centro-Oeste de hoje em dia. Era um sertão profundo, praticamente sem estradas, vizinhança escassa, onde Deus ficava muito alto e o governo distante demais. 

Como o suprassumo da invenção humana, o rádio já existia. Não em nossa casa. Mas na casa do senhor da terra, onde a gente ia de vez em quando, no início da noite, para ouvir músicas. Não raras vezes fiquei olhando ao redor do rádio para ver por onde os cantores entravam e ali espremidos conseguiam cantar e ainda davam boa-noite com tanta alegria. Já existiam também os almanaques Capivarol e Biotônico Fontoura mas, a não ser pelas figuras, restavam inúteis, porque ler a gente não sabia. Meu pai soletrava alguma coisa, que não dava para entender nada. Parecia mais gagueira do mesmo a expressão de alguma ideia.           

Nessa época era atribuída a mim a tarefa de levar a comida acondicionada em cuias e a água numa cabaça para meu pai que cuidava de um pequeno roçado. Certo dia, ele trabalhava com mais dois vizinhos, limpando a roça de milho. Levei a comida e a cabaça d’água, como sempre fazia. O pessoal almoçou sentado em troncos de árvores, abrigados em alguma sombra de árvores remanescentes. Depois comeu um naco de rapadura a título de sobremesa. Meu pai foi à cabaça, apoiada no chão, tirou a tampa e a entornou sobre o copo, que estava num declive. Deixou a água derramando enquanto observava atento um gavião enorme que passava, compenetrado em seu voo de viagem. 

Quando o copo estava quase cheio, o reequilíbrio do peso fez com que a cabaça se levantasse feito um joão-bobo. Meu pai abaixou-se, pegou o copo e bebeu naturalmente, enquanto o vizinho se espantou: você é mágico! 

Aí meu pai me fez ir até uma nascente ali próxima e trazer água bastante para completar a cabaça. Ele demonstrou que não era magia. Fez-nos ver que quando a cabaça estava entornada e perdia o peso que a fazia entornar, ela se levantava por si mesma, devido a alteração na distribuição do peso. 

Mais tarde quando eu soube que a Terra era arredondada e cuja superfície é formada por dois terços de água, entre salgada e doce, passei a imaginar nosso planeta como uma enorme cabaça. Uma cabaça sui generis, cuja água não é contida pelas paredes sólidas, mas pelo ponto ideal das forças centrífugas e centrípetas, que permitem que as coisas sejam com são, formando o nosso lugar de viver. A biota ou biosfera dos estudiosos. 

Essa noção de planeta-cabaça tem me levado a outras lucubrações. Nosso planeta tem a posição atual, o seu caminho de translação, sua rotina de rotação, que permanecem imutáveis há milhões de anos, em razão alocação das massas, da distribuição do peso em sua superfície. E teria tudo para continuar assim, indefinidamente. 

Mas há mais ou menos 100 mil anos chegou o homo sapiens, o dono da festa, aquele que tem o direito e até o dever outorgado por Deus de entulhar a Terra e sujeitá-la e dominar sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo animal que se move. É bem verdade que a gente demorou acordar para esse empreendimento furioso. Desses 100 mil anos, mais de 90 mil a gente passou fazendo hora, coletando aquilo que sobrava da natureza, em seu processo natural de reprodução sem interferência humana. 

No entanto, um dia em que o tempo estava bom, resolvemos sair da caverna, com ânimo definitivo e nunca amais voltamos. Criamos a agricultura, domesticamos animais, com o excedente dessas atividades começamos a criar as cidades e murá-las e a desenvolver a cultura da vida em comunidade. Nesse meio prazo inventamos a roda, dominamos o fogo, criamos crenças, totens e deuses, que aliás são cultuados, usados até a exaustão e depois jogados fora, como uma bucha de laranja que não tem mais caldo. Rá foi descartado, Thor foi descartado, Zeus foi descartado, Elohim, foi descartado,  Javé, pouca gente ainda o cultua e Jesus Cristo, quando será jogado na vala comum deuses vencidos pelo tempo de uso? 

Do surgimento da roda até a criação da roda tracionada por motor a explosão, alimentado por combustível fóssil, foi um tempo relativamente longo, tomando nossa civilização como paradigma. No tempo da roda tracionada pelo braço humano ou pela força animal, nossa intervenção na natureza foi brincadeira de nenéns do jardim-de-infância, se comparada com nossa atividade turbinada, nos últimos cem anos, desde que o primeiro Ford T deu suas primeiras fumegadas na face do planeta. 

Nestes últimos 100 anos foi que o progresso tecnológico andou bem como queria o Deus do Gênesis. Enchemos a terra, dominamos sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu. A gente ligou o foda-se e quis ver o oco. Não quisemos somente apedrejar as aves do céu. Fomos além, lançamos nossos estrumes gasosos pelo firmamento, furamos a camada de ozônio, jogamos mais lenha no clima, que interfere sobre os peixes do mar e enche a terra (tomada aqui como a parte seca) de desequilíbrios. 

O homem, bicho da terra tão pequeno, na sentença autopiedosa de Camões, com sua intervenção sem precedentes, consegue poluir a terra e o céu, derretendo os gelos dos pólos, numa velocidade estonteante. As águas estocadas há milênios em forma de blocos gelados nas calotas polares, ao dissolverem-se, estão se encaminhando rapidamente para o meio do planeta. Não saberia medir nem avaliar o impacto dessa migração das águas. Mas está viva em minha memória a cena da cabaça que empina, alterando o próprio eixo, quando tem parte da água migrada. 

Não há dúvida de que a Terra perde massa considerável nos círculos polares ártico e antártico e ganha um peso imensurável na região dos trópicos. Essa perda de peso não acontece proporcionalmente entre norte e sul. As geleiras do pólo norte estão derretendo numa velocidade mais acelerada, comparativamente às do pólo sul. A Terra está ficando mais pesada proporcionalmente no pólo sul e nos trópicos. Se a Terra fosse uma cabaça de fato, já teria dado um pinote e provocado um sacolejão de proporções catastróficas. 

Mas o processo empreendedor do homem, animau çinixtro, está em marcha e ninguém em sã consciência pode afirmar que alguma coisa como um rodopio planetário não esteja prestes a acontecer. E se acontecer, quais as conseqüências? Estaríamos entrando em um mundo de singularidades. Toda a verdade estabelecida, inclusive as leis naturais, da física e da biologia, poderão sofrer graves alterações. Como ficariam as correntes aéreas e marinhas? Como ficaria o clima geral, o regime das chuvas? Teria lugar para a agricultura como tal a conhecemos? Os desertos virariam savanas? As matas se tornariam desertos? O peso descomunal no abdômen do planeta não atuaria sobre as placas tectônicas, provocando terremotos apocalípticos, numa reacomodação da Terra à nova situação? Novas áreas secas emergiriam do fundo do mar? Áreas secas e habitadas seriam inundadas de uma hora para outra sem tempo até de a gente vestir o colete salva-vidas e tocar seu apito de afogado? 

Enquanto isso, estamos penalizados pelas vítimas do clima no Haiti, no Chile e em outras partes e até mandando alguma esmola para que sobrevivam com o mínimo de dignidade. Mas estamos mesmo é de olho no resultado do balanço das empresas, das quais temos algumas ações, estamos de olho é na balança de exportações, estamos de olho é no PIB do mundo, pois a produção de riqueza não pode parar, a despeito de qualquer estrago que possamos provocar em nossa própria casa. 

O homo sapiens é um bicho ingênuo e comovido, que chega a acreditar que, como na música de Belchior: Tendo dinheiro, não há coisas impossíveis. E assim sendo, o planeta-cabaça que se rodopie. 

 

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Comentários (7)

  • Obrigado Edival. Depois de lê-los, direi minha humilde opinião sobre na forma de duas resenhas (não-acadêmicas) sobre os livros. abs

    8 meses atrás por Ricardo Silva
  • Oi, Ricardo, obrigado pelo comentário. A pedido do Carlos Willian, lhe enviei ontem pelo correio, dois romances: A centopeia de neon e Naqueles morros depois da chuva. Veja lá o que vc acha. Abs.

    8 meses atrás por Edival lourenço
  • Edival o nosso "planeta-cabaça" já não está suportando o peso da ignorância humana, da sua estupidez gigantesca.
    Logo também estaremos afundados na vala, não dos deuses vencidos, mas das criaturas derrotadas por sua própria burrice.

    8 meses atrás por Ricardo Silva
  • Herondes, muito grato pelas sábias palavras!

    2 anos atrás por Edival Lourenço
  • Que interessante alguém achar que tema assim crucial, e tão bem exposto, tenha se esgotado! A questão é a seguinte: e quando se esgotar a água da nossa ilusoriamente inesgotável "cabaça"?

    2 anos atrás por Herondes
  • Valeu, Antônio Carlos!

    2 anos atrás por Edival Lourenço
  • Gosto muito dos seus textos. Gostei do atual. Mas existe, ao que parece, certo esgotamento nos temas. Fica a dica..

    2 anos atrás por Antônio Carlos


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