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POR EM 28/12/2009 ÀS 03:35 PM

A lã, o linho e os farrapos da criatura

publicado em

O conhecimento na antiguidade, mesmo que advindo da experiência e da constatação, para adquirir fundamento de validade era preciso ser atribuído a Deus. Só Deus detinha o dom de proclamar o conhecimento e a verdade. Daí que a ciência e a fé caminhavam juntas e habitavam o mesmo compartimento mental e valorativo.
           
Questão de moda. Hoje em dia, se você residisse num país periférico e ainda assim fosse um físico autônomo genial, e nessa condição formulasse  uma fantástica “teoria da corda-brana”, que determina a mecânica e o ritmo dos corpos celestes, o máximo que iria lhe acontecer é ser tachado de doidinho pela vizinhança ignara e escarnecedora.
           
No entanto, anunciando a mesma doideira, mas residindo num país central e trabalhando ligado a uma instituição de excelência tecnológica como MIT (Massachusetts Institute of Technology), por exemplo, você seria, sem desconfiança, guindado à condição de gênio da raça, de sumidade científica. E não demoraria muito para que fosse agraciado com um Nobel, com toda grana e prestígio que isso proporciona. Daí poderia até aceitar convites para júri em concurso de misses, para dar o primeiro lance no leilão dos óculos de Elton John ou para descerrar a placa de inauguração do monumento aos pamonhas do mundo. Os outros cientistas que se descabelassem para demonstrar a validade ou não de sua teoria extravagante. Mas enquanto isso sua teoria maluca seria engolida como drágea de verdade científica.
           
Nos tempos de Moisés e seu Pentateuco, ou Torá para os judeus, o centro de excelência tecnológica era Deus. O sujeito constatava que comer carne de porco, nas condições de higiene precária de então, era uma fonte certa e segura de lombrigas e doenças. O observador escrevia uma recomendação para que seu povo não comesse daquela carne. Estava certíssimo. Mas para receber a chancela de credibilidade devida ele dizia que o aconselhamento fora ditado diretamente por Deus.
           
Há dessas proibições na Antiguidade, cujas razões são facilmente reconhecíveis, como esta de não comer carne de porco, para evitar a verminose. Mas existem umas que a Antropologia, a Teologia, nem mesmo a História conseguiram decifrar. Exemplo dos casos constantes do Levítico e do Deuteronômio, que proíbem juntar no mesmo tecido os fios de lã e linho ou semear espécies diferentes no mesmo campo. Muito menos cruzar espécies ou raças diferentes de animais ou fazer enxerto de plantas. Pesquisadores têm se debruçado sobre tema ao longo da História e nunca lograram encontrar uma razão plausível. Por que Deus teria proibido essas misturas tão inocentes?
           
Diante dos últimos acontecimentos, não tenho ainda uma certeza cabal, mas já posso formular uma boa conjectura. O que seriam essas misturas proibidas pela lei de Moisés? Transportando para o nosso tempo, elas nada mais seriam do que a nossa tão decantada Convergência Tecnológica, fenômeno que saudamos com entusiasmo pueril.
           
Começou assim, tudo muito singelo. Misturando no mesmo tecido fios de lã e linho. Plantando no mesmo campo feijão e milho. Mas daí para se pretender misturar os DNAs do linho e da ovelha para se obter uma fibra híbrida foi um pulo.

Os utensílios, do mesmo modo, começaram a ser misturados. Despertador com telefone e toca-discos, óculos com ipod e assim por diante. Mas com o apoio da engenharia genética a Convergência Tecnológica da informática e o corpo humano já começou. Apenas começou, abrindo caminho para possibilidades vertiginosas. O caminho é longo, mas como hoje em dia tudo é urgente urgentíssimo, de forma que o que vai ser já é e o que é já era, logo chegaremos onde nem João com seu Apocalipse delirante vislumbrou um dia. Mas o Levítico e o Deuteronômio, intuitivamente, haviam vislumbrado; e proibido.
           
Acho que o aconselhador do Pentateuco, munido de suas premonições e ciências infusas, já temia pelo ser humano que resultaria dessa mistura, dessa Convergência Tecnológica agora em marcha veloz. Tenho fundadas suspeitas de que, se não formos barrados antes por um evento de monta como aquecimento global (o fracassado da COP15 nos liga a este evento), esgotamento dos recursos naturais por excesso de contingente, ou atolamento irremediável nos próprios dejetos, muito em breve perderemos a condição humana como tal a conhecemos.
           
Mais dia menos dia um software bio-psico-digital será capaz de reduzir as faculdades humanas, em toda a sua fortuna e amplitude, a um algoritmo binário. Aí poderemos ser plugados num PC da lan house da esquina e nosso espírito e todo o estofo sensorial serão baixados para um HD ordinário.

Aproveita-se para fazer um upgrade do nosso complexo neural. Faz-se um descarrego, uma limpeza de jeito, para nos livrar dos traumas, das culpas, das neuras e dos pensamentos ruins. E então, turbinados e livres das mazelas pretéritas, poderemos viver indefinidamente numa comunidade virtual de habitat orkut, second life, farm ville ou coisa que o valha. Seremos uma biota inédita num paraíso virtual, na rede mundial de computadores sem remorso.

Todas as emoções e sentimentos vitais serão emulados por funções e comandos hi-tec, num sistema amigável. Talvez acionado pelo pensamento. Pensamento este que será alimentado pelo próprio sistema, numa simbiose viciosa, de escravidão consentida. Poderemos usufruir de nirvanas robóticos e orgasmos cibernéticos intermináveis. Poderemos comer churrasco de picanha 3D, tomar chope simulado ao pôr do sol e cheirar carreirões de equação na balada.

A morte será abolida para sempre e a noção de Deus deletada como um phishing ou um trojan. Ainda que estejamos o tempo todo sob a espreita de bugs e corjas de malwares. Que bichos seremos nós em circunstâncias tão singulares? Que bens vamos prezar, que valores vamos eleger? Que imagem faremos de nós diante de um espelho virtual? De qualquer forma, não seremos mais à imagem e semelhança de Deus. Seremos o próprio; um Godware.
           
Algo me diz que é por estas, e não outras, que os temores intuitivos do autor do Pentateuco se tornam repletos de significados. E assombro.       

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Comentários (16)

  • Prezado Henrique Jordão, pena de morte é um tema dos mais controvertidos sob todos os aspectos. É um bom tema para se refletir. Posso lhe adiantar: sou contra por princípio. Obrigado pela participação! Abraço!

    2 anos atrás por Edival
  • Prezados Júlio, Renato Gonçalves, Mário, Clara Dawn, Thalitha Miranda, Elisa, Paulo Oliveira, Hélverton Baiano, sensibilizado, agradeço pelos comentários. Peço desculpas pela demora em me manifestar. É que eu estava ilhado no sítio. Desejo a todos um feliz ano-novo. Abração!

    2 anos atrás por Edival
  • Edival sempre nos surpreendendo positivamente. Até eu, que tenho DNA de Calango, logo, logo vou abrir minha entrada USB pra ficar galado e botar ovo.

    2 anos atrás por Hélverton Baiano
  • José Carlos dos Santos, não li sobre essa pesquisa, mas essa concepção na realidade é anterior ao Gênesis e vem da epopeia mesopotâmica Enuma Elish, em que a dividade Marduc organiza o mundo a partir de objetos caóticos pré-existentes. E o Gênesis bebeu nessa fonte, segundo John L. Mackenzie, teólogo americano. De qualquer forma, criar Céu e a Terra, ou separar o Céu e a Terra exige uma força igualmente descomunal. Obrigado pela participação!

    2 anos atrás por Edival
  • Paulo Sérgio, acho que no geral a tecnologia aproxima as pessoas na superfície e afasta na esscência. Há exceções excelentes: sem tecnologia talvez não nos encontrássemos para estas indagações! Obrigado pela participação.

    2 anos atrás por Edival
  • No futuro, um pedaço de plástico poderá de forma prática e rápida dar origem a um objeto desejado. Perdeu a tampa da bateria do celular, ou a filha quer a coroa de princesa que viu na TV? Em alguns anos, esses itens poderão ser criados em casa, com impressoras tridimensionais. Bastará fazer o download do modelo do objeto, ter a matéria-prima, e mandar imprimir. “No futuro, todo mundo terá uma impressora como essa em casa”, disse Hod Lipson, professor da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, que liderou um projeto para a criação de uma impressora 3D. “Imagine poder imprimir uma escova de dentes, um garfo, um sapato.” Pois é Edival, acho que aquele churrasco de picanha 3D não irá demorar muito.

    2 anos atrás por Paulo Oliveira
  • Qual a sua opinião sobre a pena de morte?

    2 anos atrás por Henrique Jordão
  • Um cientista inglês, Kevin Warwick que se declara o primeiro cybercientista da história, implantou chips no corpo para mostrar como o homem pode interagir com máquinas. Ele anuncia que, no futuro, crianças com chips implantados no cérebro vão aprender, em segundos, o que levariam anos estudando na escola. Também afirma que a Terra será um planeta povoado por seres humanos que estarão fisicamente conectados a máquinas e computadores. Diante disso eu pergunto: como fica Deus nesta história?

    2 anos atrás por Elisa
  • O Edival.... arrasou! Muito top... huhumm tô certa!!

    2 anos atrás por Thalitha Miranda
  • Caro Edival Lourenço,
    Parabéns pelo tão bem escrito artigo. Sempre a frente do seu tempo, com ideologias acima da concepção de tantos. "Diretrizes" ainda não aceitáveis a respeito das imagéticas bíblicas. Como escreveu um dia Blaise Pascal: "Os homens jamais fazem o mal tão completamente e com tanta alegria como quando o fazem a partir de uma convicção religiosa." Eu de cá onde estou, no meu precário discernimento da evolução humana, penso que chegará o dia em que construiremos sim, essas máquinas descritas no seu artigo, então não precisaremos mais de um deus e nem as máquinas de nós.



    2 anos atrás por Clara Dawn
  • Caro Renato, na barra lateral (sugestões de livros) poderá comprar a nova edição de "Centopéia de Neon". Para os outros livros o e-mail do Edival é (edivallourenco@hotmail.com)

    2 anos atrás por Carlos Willian
  • Belo texto. "O homem é um animal irracional, exatamente como os outros. A única diferença é que os outros são animais irracionais simples, o homem é um animal irracional complexo. É esta a conclusão que nos leva a psicologia científica, no seu estado atual de desenvolvimento. O subconsciente, inconsciente, é que dirige e impera, no homem como no animal. A consciência, a razão, o raciocínio são meros espelhos. O homem tem apenas um espelho mais polido que os animais que lhe são inferiores". (Fernando Pessoa, in 'Reflexões Sobre o Homem')



    2 anos atrás por Mário
  • Caro Edival Lourenço, você a cada semana me surpreende. Gostaria de ler os seus livros, onde encontrá-los?

    2 anos atrás por Renato Gonçalves
  • Belíssimo texto. Parabéns.

    2 anos atrás por Júlio

  • Ellen van Wolde, da Universidade de Radboud, na Holanda, afirma que a primeira frase da Bíblia, “No começo, Deus criou o Céu e a Terra”, não é uma tradução fiel do texto original, em hebreu. Segundo a pesquisadora, a palavra “bara”, que aparece na frase, não significa “criar”, e sim “separar”, no sentido espacial. Deste modo, o significado original da frase seria “No início, Deus separou o Céu e a Terra”.


    2 anos atrás por José Carlos dos Santos
  • Diante disso eu pergunto: a tecnologia aproxima ou afasta as pessoas?

    2 anos atrás por Paulo Sérgio


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