Desenho de  Wendy MacNaughton
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  • O Homem de La Mancha, com Sophia Loren

POR EM 09/04/2008 ÀS 10:08 AM

Será o Benedito?

publicado em

 

Todas as manhãs, ao acordar, somos solicitados a tomar posição diante das coisas do mundo. Trata-se de uma escolha, como escolhemos a pasta de dentes que usamos, a primeira manchete que vamos ler do jornal ou o caminho que nos leva até o trabalho. 

Mais que escolhas, o mundo nos solicita uma tomada de posição sobre a própria vida, os fatos que fazem com que ela seja de melhor ou pior qualidade e que nos apaziguam em relação à nossa consciência. Não há escapatória, todo dia é dia de tomada de posição, sob pena de nos sentirmos inadequados, omissos, coniventes com os horrores que os homens provocam – quem não tem posição está condenado a uma solidão no limbo, no nada, na neutralidade que, nesses tempos, passou a ser sinônimo de covardia e carneirice. Será que se pode ficar neutro diante das imagens brutais que as TVs divulgam todos os dias? Há neutralidade possível diante do cinismo e a prepotência de tantos políticos assaltantes de cofres públicos, seguros de que o dinheiro do roubo garantirá sua inocência? Como se manter no meio-termo ouvindo a arrogância do presidente a afirmar que “o país não está em crise, quem está em crise é o Corintians”, enquanto o país se embanana em epidemias, assaltantes governam cidades, doentes imploram por auxílio, ameaças se multiplicam?
 
Se for verdade, como dizem os cânones filosóficos, que tudo é relativo, se existem apenas versões e não fatos, como ensinam os manuais de jornalismo, se até os assassinos têm justificativa para seus atos, é preciso tomar posição. Caso contrário a enxurrada de notícias, fatos e versões, nos levarão de roldão para a cova rasa dos sem-opinião, pior ainda, dos passivos-complacentes-acomodados, inocentes úteis.
 
“Não quero me aborrecer” dizem por aí esses tipos que acreditam que sua opinião e atitudes não mudarão o curso das coisas, fingem que não é com eles, pensam que mergulhar nas suas festinhas regadas a cerveja e champanhe neutraliza os podres do mundo. É comum assistir formadores de opinião como homens públicos, jornalistas, empresários e afins não emitirem opinião – um contra-senso – para não se desagradarem nem desagradarem camadas da população, leitores, eleitores, etc...são cópias redivivas de um certo político mineiro, Benedito Valadares, modelo da famosa frase “não sou contra nem a favor, muito pelo contrário”.
 
Não fosse a neutralidade acomodada e o mundo seria outro, teria contingentes de pessoas com posição tomada e expressada diante de barbaridades cotidianas, pressionaríamos os governos, enfrentaríamos os desrespeitos, encararíamos o cinismo que humilha, nos desvencilharíamos de muitas fontes de dissabores, cumpriríamos dignamente nosso papel da “mosca-que-caiu-na-sua-sopa” de que falava o Raul.
 
Mas é mais fácil não tomar partido – vivemos a época do fácil. É preciso marcar posição até mesmo contra coisas simples que incomodam e aproveito este espaço pra ser a mosca e tomar partido do Brasil diante do desfile de chapéus, música e roupas de “cowboy” texano da pecuária que vem aí em maio; tomo partido de Goiás frente à programação pejorativa e alienante do que chamam TV Cultura em Goiás; francamente do lado do bom gosto quando me defronto com o humor tipo “a-praça-é-nossa” de certas “peças” e comediantes do teatro popular goiano que teimam em considerar o caipira brasileiro tão idiota quanto eles, idiotas que riem; prefiro defender a rústica e autêntica pamonha que fingir sofisticação diante de uma cozinha dita refinada apenas porque tem nome estrangeiro; ou dar aulas sobre vinhos baseado no que saiu num jornal; debocho das festas chiques onde todas as personagens são sempre as mesmas, se fingindo de finas – lá fora o mundo desmorona; fico perplexo ao ver que ainda se discute intelectualismos insossos só pra demonstrar erudição enquanto somos enganados por discursos indigentes; lanço olhares desatentos a apresentadores de TV que agem como marionetes repetitivas e automáticas, sem opinião; demonstro pena, o pior sentimento do mundo, quando cruzo com certos políticos metidos em seus ternos mal talhados que jamais disfarçam o recheio de ar de que são feitos e nunca estendo a mão a eles quando me estendem a sua; lanço risos de escárnio diante de algumas idéias que nos são impingidas por publicitários que se acham geniais – provocam mais riso que programas de humor porque a presunção é cômica...e rio de mim mesmo por achar que rir de tudo isso pode servir para alguma coisa.
 
Se não serve, pelo menos nos livra da vala comum dos alienados neutros.

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POR EM 08/04/2008 ÀS 11:54 AM

Filmes

publicado em

A vida secreta das palavras
Direção: Isabel Coixet
Site Oficial:
www.lavidasecretadelaspalabras.com
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Filme recomendado demais é um perigo. Jogaram um confete danado nesse. Daí aluguei. Não é que seja desgraçado. Tem bons momentos. Mas há furos importantes de verossimilhança. Por exemplo, o vocabulário rico e fluência em inglês de uma refugiada da Bósnia. A “cegueira” fajuta do Tim Robbins (“problema na córnea”, dizem os personagens, mas dá pra ver bem como as córneas do cara estão perfeitas). Aliás, 100% das vezes que o cinema se mete a lidar com o tema (cegueira) faz bobagem. Que o digam o melodrama com Val Kilmer e Mira Sorvino (me esqueci do título) e o musical do Lars Von Trier com a Bjork (Dançando no escuro, se não me engano). Mas o que mata mesmo o filme é o discurso da tutora dinamarquesa. A vida secreta das palavras não é um filme. É um discurso.

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POR EM 08/04/2008 ÀS 10:54 AM

Uma oração para canalhas

publicado em

 

Quem suportaria de forma impassível ou indiferente às barbáries perpetradas por Silvia Calabresi et alli? Por muito tempo manteve crianças num cárcere hediondo, mas agora começa a provar do próprio veneno. No poema uma constatação: o sol sempre brilhará para todos, apesar das canalhas e patifes: 
 
Quantas Calabresis não se encontram escondidas, disfarçadas, infiltradas, dissimuladas, em nossos lares e corações?
Vês, na obra de Goya, Saturno devorando o próprio filho?
Simulas indignação, desprezo, repulsa?
Como não tivesses incrustadas nos recônditos de tu’alma as palavras de Machado:
“O cinismo é a sinceridade dos patifes”.
Extorques e acusas o outro... Cretina!
Roubas e o ladrão é o outro... Mesquinha!
Corrompes e quem é canalha senão o outro? Torpe e soturna!
Liquidas, exterminas, assassinas e eis que sentencias o outro.
Urdes, engendras e conspiras contra a pátria e o outro é o traidor.
Em que te diferes de Saturno?
Não és tu a insana canibal a acusar o outro de sê-lo?
Quantos filhos devoraste impiedosamente enquanto acusavas o outro
do infanticídio, do aborto?
Em que te diferes de Saturno, mulher?
Não és tu que corrompes de maneira vil e torpe a verdade e cultuas satanicamente
a mentira, ao tempo em que propagas ao mundo que corrupto e mentiroso é o outro?
Não cultuaste tão diligentemente a Cannabis sativa – a que apelidaras “doce marijuana” – para agora avançares sobre o outro acusando-o de viciado, peçonhento, maconheiro?
Devoras o fruto de teu ventre e acusas Saturno?
Promoves a intriga e apontas o dedo para o primeiro que vislumbras?
Ensinas a covardia e abusas da mais tenra e amada criança ¬–
e quem assediou acabou de fugir?
Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos –
e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro?
Tua fantasia doce, angelical, cândida e inofensiva – tecida para embair o mundo –
desmoronou... e vestes ‘coitadinha’, calças ‘sofridinha’, maquilas ‘vitimismo’.
Já não podes posar de cavaleira impoluta.
Praticas aos olhos do mundo o adultério –
e, doidivanas, acusas todos os homens de cometê-lo?
Jamais relutaste em atirar a primeira, a segunda e a terceira pedra.
Jamais renunciaste às tuas prioridades absolutas:
Tu sempre em primeiro lugar
Tu sempre em segundo lugar
Tu sempre em terceiro lugar
És Judas, o Iscariotes, e te queres Santa Joana d’Arc.
És Joaquim Silvério dos Reis, o coronel venal, e te queres Tiradentes.
És Calabar e te queres Maria Quitéria.
“Acuse-os sempre de fazer o que você faz” é teu lema, teu jargão, teu valor mais
nobre e soberano.
Não, mulher, tu não consegues mais surpreender qualquer homem de bem.
Como não recordar Nietzsche: “Todo homem vai se tornando aquilo que é”?
E Terêncio: “Sou homem. Nada do que é humano me é estranho”?
Não declares que no mundo só existem traficantes, suicidas e latrocidas
por teres reduzido teu universo a uma sórdida, nefasta e insalubre masmorra.
Não declares o fim da bondade, da humildade e do altruísmo
porque integras a súcia, a récua, a farândola, a caterva das máfias e quadrilhas dos malfeitores lobos do homem...
Lobos ferozes e insanos em pele de cordeiro.
Queres conduzir todas as batalhas – quem hoje não sabe? – para a lama fétida
onde fermenta o pior do excremento humano.
Saibas, urge que compreendas: o mundo pulsa, a vida lateja – vigorosa, voluptuosa,
graciosa – de homens e mulheres dignos, éticos, honestos.
Fervilha, em cada casa, em cada rua, em cada esquina,
uma multidão de anjos guerreiros, nobres paladinos da justiça.
Milhões e milhões de sábios valentes que diuturnamente pelejam
para resgatar o mundo de patifes, canalhas e cafajestes como tu,
que desdenham e odeiam a verdade,
que veneram e cultuam a mentira,
que idolatram e tecem loas à traição e à ignomínia.
O mundo, mulher, não duvides, foi, é, e será sempre dos bons, dos justos, dos simples!
Como não orar para que canalhas e patifes percebam que o sol não morreu
tão-somente porque o horizonte encontra-se crispado de nuvens densas
e sombriamente carregadas?
Não, mulher, para glória de Deus e dos homens,
Tu não mataste o sol.
O mundo não será das Calabresis!
O universo regozija-se, pois que dá de ombros ao jogo nauseabundo
das Calabresis!

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POR EM 08/04/2008 ÀS 10:40 AM

Dos estereótipos

publicado em


 

Nosso conhecimento tem como um de seus alicerces o estereótipo. No afã de conhecer, classificamos, agrupamos, estereotipamos. Quando se fala de alemão, pronto, lá vêm aquelas idéias de frieza, de competência tecnológica, de arrogância e amor pelo totalitarismo. E pensar que o Romantismo, não só como tendência estética mas também como corrente de pensamento, é produto alemão. 

Essa idéia me ocorreu na semana passada quando um amigo meu voltou do Rio Grande do Sul. Ele sabe que nasci em Taquara, cidade que fica a cerca de 73 km de Porto Alegre. Meu amigo, que é uma pessoa muito gentil (não sei se é paulista, goiano ou espanhol, só sei que é gentil), resolveu fazer-me um agrado que era ao mesmo tempo uma surpresa. Chegou aqui em casa, para trocarmos impressões sobre o que ele vira em minha terra, com um pacote na mão. Um pacote na mão e um sorriso enigmático no rosto. 

Depois de falarmos sobre diferenças que ele descobriu no Rio Grande, fez um longo silêncio, cravou-me os olhos, provavelmente auscultando meus sentimentos, e lascou a primeira pergunta:
 
- Você pode adivinhar o que tem dentro deste pacote?
 
Não, nunca fui muito bom de adivinhações. Foi o que eu disse para sua decepção. Fez outra pausa, provavelmente, agora, escolhendo outro flanco por onde me atacar.
 
- Pense bem, é uma coisa de que todo gaúcho gosta.
 
Pensei muito, por isso também descobri muita coisa. Mulher, churrasco, música, futebol, passeios no campo, andar a cavalo, dançar a chula (nem me lembro mais se é assim mesmo). Então olhei para o pacote na mão de meu amigo. Mulher e churrasco não caberiam ali, claro, nem futebol, cavalo ou dança. Então me senti iluminar: música. Um aparelho minúsculo de som, uma série de CDs, qualquer coisa assim.
 
Ele me olhou abismado como se estivesse perante um monstro desconhecido. Pelo menos foi o que senti em seus olhos abismados.
 
- Qual a coisa de que mais o gaúcho gosta?
 
- Da vida - respondi na lata.
 
Sua decepção não podia aumentar, por isso ele resolveu entregar-me o pacote, pedindo para que eu o abrisse.
 
Era um quilo de erva mate, uma cuia e sua respectiva bomba. Consegui fazer um ar de surpresa que muito bem poderia ser confundido com um ar de alegria. Um belo presente, agradeci. E que delicadeza a sua, trazer de tão longe algo que é símbolo de meu estado. Ele ficou mais contente, e acho que até pensou que, por não ter adivinhado, minha surpresa foi ainda maior.
 
Tive muita sorte, pois ele não me pediu para fazer uma demonstração de como se toma chimarrão. O pacote de erva, a cuia e a bomba serão troféus na minha estante, para que jamais esqueça que todo gaúcho gosta da infusão de erva mate, sorvida por sucção através de um canudinho metálico.
 
Não resisto à tentação de perguntar: Todo brasileiro gosta de futebol, de carnaval? Toda brasileira mora em Ipanema e é linda, cheia de graça?
 
Ah, os estereótipos! 

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POR EM 08/04/2008 ÀS 10:38 AM

Signos em rotação

publicado em

 

Até bem pouco tempo, professor era aquele que professava algo, tinha o que dizer, valia-se da sua cátedra para incutir conhecimentos, semear o bem, os mais edificantes ensinamentos. Tempo de Mestres, não somente de títulos, mas de fato, e de artes, ser universal, de uma alma grande e profícuo conhecimento.
 
O que aconteceu com tão valioso ser? Praticamente inexiste. Sobraram poucos e esta geração quase não teve ou tem a oportunidade de conviver com um desses, uma vez que a nossa realidade acadêmica é caótica, já não comporta os grandes mestres: magister, os que aí estão, quase sempre, não passam de oportunistas de um mercado em ascensão, já que não deram certo nas suas profissões originárias, descambaram para uma área, que, à primeira vista, parece tudo acolher, daí a tragédia em que vivemos.
 
Se por um lado não existem mais os mestres, certamente não há razão para existência de discípulos, muito mais ainda num tempo de muita exaltação midiática e pouco aprofundamento nas questões essenciais, como pensar o outro, a solidariedade, a ética, o meio ambiente, sem falar na nossa rica e preciosa Língua Portuguesa, que de tão maltratada e vilipendiada, perdeu força e prestígio, um exemplo claro disso está nas universidades, mais especificamente nos cursos de comunicação social.
 
Como vemos, se não há uma valorização da Língua Portuguesa, nem mesmo nos cursos em que ela é de fundamental importância, como jornalismo e publicidade e propaganda, quem dirá nos outros cursos, onde ela “não é tão importante assim.” Mas tudo bem! Dirão uns. - Tudo isso faz parte da modernidade, vivemos na era da imagem, precisamos dominar a técnica, e acabou! Vociferarão outros. Ninguém sentirá falta da Língua, muito menos dos grandes Mestres, uma vez que não se pode sentir falta daquilo que não se conhece.
 
A realidade é dura e triste, mas o que me dá um dó danado é ninguém fazer nada, é deixar gente tão incompetente, sem conhecimento mínimo das questões básicas, como ensino e aprendizagem, movidos apenas pela vaidade e a ganância do mercado, passar-se por mestre, por dono do saber, conduzir pessoas, destinos, desconsiderando a própria ignorância.
 
Como dizem: a vida é cíclica, e, por isso, talvez, ainda venhamos, nas gerações pósteras, a reaver os mestres que se foram, reformados no ânimo e no sangue dos vindouros homens de bem, e aí, um outro ser, que também sou eu, numa crônica como esta, não lamentará ausências, mas falará de feitos e bondade, de respeito e solidariedade, tudo isso escrito em bom Português.
 
*Título tomado de empréstimo ao escritor Mexicano Octávio Paz.

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POR EM 08/04/2008 ÀS 10:19 AM

A guerra dos bárbaros

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Descalça, Tereza esfregava um pé no outro. A barra da saia ora descia até os joelhos, ora subia até o princípio das coxas. A mão direita alisava o pano. As unhas pintadas se confundiam com as bolinhas vermelhas que ornavam o fundo azul do tecido. Pequenina aranha passeava entre uma das pernas da mesa e a parte inferior da tábua. Na parte superior, um livro aberto, e sobre ele a outra mão da moça. “Sujeito é o ser a respeito do qual”(...) Tentou cobrir todas as letras, espalmando a mão sobre o livro. “Sujeito oculto”. Olhou para a rua. Um chapéu, uma cabeça, um pescoço apareceram e desapareceram num relance. Tudo brilhava, como se caísse uma chuva de estilhaços do Sol. A menina fechou o livro e abriu um caderno. “Tive um sonho horrível ontem”.

O rosto de Ruggero brilhava, suado. E parecia mais bonito assim. Os raios do sol tingiam de amarelo pedaços do chão coberto de folhas secas. Talvez, debaixo delas, cobras preparassem botes. Pisassem com leveza, como se voassem. E por que não voarem? Ruggero já havia voado, num filme. Tereza pouco ia ao cinema. Tudo uma porcaria, no dizer de seu pai. Coitado, as onças já o teriam comido. Seu Joaquim surgiu, então, montado num cavalo. Por onde tinha andado? Ruggero agachava-se, catava mangas no chão e se punha a chupá-las. Muito doces. Joaquim aproximava-se de sua filha e segredava: ele vai morrer envenenado. As mangas encerravam veneno de cobra. O italiano estirava-se no chão, a gritar.

Na parede alguns rabiscos a lápis. Certamente obra dos irmãos de Tereza. Coisa de bárbaros. Há quantos dias os estrangeiros se encontravam na cidade? Se ainda não haviam realizado nada, pelo menos a apatia do povo andava sumida. Uns até exageravam na euforia. Aqui e ali apareciam crianças fantasiadas de índios. Como se fosse carnaval. Muitos, porém, não acreditavam na palavra dos estranhos. Filme coisa nenhuma. No mínimo, espionavam. E deviam ser russos ou americanos. Falavam italiano e português para engabelar todo mundo.

Tereza riu e brincou com a caneta. Na janela da casa defronte da sua, meio corpo de Dona Gal vasculhava a rua. Talvez houvesse muita gente na praça. Abriu o caderno. “Sentei-me no banco da praça, para descansar ou pensar”. Súbito surgiram meninos a gritar. Logo após, os carros dos italianos. Todos sorridentes. Iam para os sítios, o meio da serra. Há dias haviam chegado, em grande alvoroço. Pareciam gente de circo. A meninada até se enganou e alegrou. No entanto, a notícia imediatamente se espalhou. Nada de circo; tratava-se do pessoal do filme. Que filme?

A moça deu um salto. Voou até o quarto, abriu o guarda-roupa, uma gaveta, meteu as mãos entre livros e cadernos. Cantarolava. Fez tudo ao contrário, até sentar-se à mesa de estudos. Abriu o caderno buscado. E foram aparecendo rostos bonitos e famosos: Burt Lancaster, Anthony Quinn, Yul Brynner. Como os achava maravilhosos, embora nunca os tivesse visto em movimento. E Ruggero Vasari? Por que as revistas não estampavam o rosto dele? Passou outras folhas: Brigitte Bardot, Sophia Loren, Claudia Cardinale. Ah! ainda seria atriz. Primeiro iria embora daquela porcaria de cidadezinha. Conheceria astros e estrelas. Sua mãe choraria muito. Seu pai diria “não”, esbravejaria e seria capaz de amaldiçoá-la para o resto da vida.

Abandonou o álbum e retornou ao diário. Moscas voaram e novamente pousaram na mesa. “O filme se chamará A Guerra dos Bárbaros. Distribuíram folhetos. Precisam de centenas de figurantes. Como se fossem índios de verdade. Basta vestirem tanga e se pintarem de jenipapo e urucu. Muita gente aqui tem mesmo cara de índio. E eu nem imaginava que aqui tivesse vivido índio. Muito menos sabia dessa guerra. Os folhetos trazem informações novas para mim. E, certamente, para quase todos nós. Essa guerra teve início em 1687. Os nativos do Nordeste se levantaram contra os brancos. Por isso nos documentos da época o movimento foi também denominado Levante Geral dos Tapuias. Eu não quero ser apenas figurante. Só me interessa papel importante. Ao lado de Ruggero”.

Tereza viu de novo Dona Gal à janela. Parecia sorrir. Coçou a coxa. Um homem cumprimentou a mulher e sumiu. A moça abriu o livro: “Sujeito determinado”.

Fantasiado de índio, um rapazote chegou à porta, esbaforido. “Menina, chame sua mãe, depressa”. Tereza assustou-se. “Seu Joaquim esfaqueou um homem no mercado”. A mocinha se levantou: “Mamãe, mamãe”. O visitante suava e tremia. “Parece que morreu. Discussão por causa dos estrangeiros, do filme”. A mulher chegou coberta de espumas. “O delegado prendeu Seu Joaquim”.

Um enxame de moscas levantou vôo, feito um bando de bárbaros.

 


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POR EM 08/04/2008 ÀS 09:45 AM

A gente que vai e vem

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Apesar da largueza toda e de suas voltas, o mundo muitas vezes é pequeno demais e a gente percebe e decanta com boa surpresa. No entanto, os percalços e as imensidões afastam tanto a gente, que só a saudade e a nostalgia amenizam e enfatizam a necessidade que temos de viver e sonhar. A vida é feita de eternos encontros e desencontros. É certamente óbvio, mas ilustra a vida de todo mundo.
 
Fiquei a reparar, desde cedo, na alegria do convívio daqueles ali, no interior, onde crescemos uns apegados aos outros, em contato quase visceral, certamente fraternal, na infância e na adolescência. Daí a procurar seu tento, cada qual se escafedeu no ermo, na tentativa de encontrar um rumo e arrumar sua vida e a dos seus. De repente, aqueles que viviam todos juntos, se encontrando a todo instante, para conversar, pilheriar, festar, vadiar e brincar, cortam abruptamente o cordão da união, num parto forçado pelas circunstâncias e ânsias.
 
Jorgina que amava Pedro, que tropeçava de paixão por Clara, que morria de amores por Cláudio, este que namorava Anita. É a história de um poema drummondiano. Maria foi obrigada a se casar com o mascate, porque o pai não queria mais uma mulher em casa “uma puta”. E a menina inocente e besta foi com ele para a capital de um estado que nem conhecia e a brutalidade deixou para trás a paixão por Sinfrônio.
 
Fiinho foi pro Pará, viver do garimpo. Nélio foi pra Salvador, continuar os estudos. Lico se mandou pra São Paulo. Neto foi pra Goiânia. Alguns se mandaram pra Brasília, outros pro Mato Grosso, Minas Gerais, Alagoas, Ceará, Maranhão. Tina se casou nova e hoje é mães de quatro filhos, que hoje voltam para visitar os avós que ficaram lá. Mário é coronel da polícia do Mato Grosso, Chico Tixé morreu atropelado em São Paulo, Renilda é dona de Bordel em Salvador, Paulo é funcionário público em Brasília, Mércia casou-se comum ricaço de Belo Horizonte e Gilda vive bem em Florianópolis. Inúmeros destinos e tantas histórias.
 
Tanta gente foi, tanta gente nasce e há tanta gente indo, que 20, 30 anos fazem uma diferença estrondosa. A geração é outra e quando você retorna só conhece os pais, o lugar está diferente, tudo fica mais distante, principalmente se você não consegue amenizar as lonjuras. Isturdia, uma conterrânea me disse por e-mail que a cidade estava se perdendo dela. Eu entendi seu sentimento, sem deixar de perceber que havia alguma coisa que ainda a puxava para as raízes, além dos pais que lá ficaram e vivem.
 
Há também os que voltaram, para continuar essa saga que não termina nunca, enquanto história houver para contar e vida para se viver. Fica de bom o que a gente se lembra e, de vez em quando, também se abraça nas vezes em se encontram por aqui ou por lá. A gente vai para cumprir destino e sina, mas nunca sai de lá, enquanto raiz, história e pensamento tivermos pra nos apegar.

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POR EM 08/04/2008 ÀS 09:36 AM

Ainda Os Demônios

publicado em
Discuti na semana passada que “Os Demônios” de Dostoiévski, escrito em 1870, foi profético ao tratar do caráter (ou falta de) de revolucionários e niilistas. Daí o nome do livro que nas primeiras versões no idioma de Camões foi traduzido como “Os possessos”. Esta diferença é explicada pelo tradutor da Editora 34, Paulo Bezerra: “o título original é Biêsi que significa demônios (biês no singular), bem diferente de odierjímie (possessos)”.
 
Aqui uma pausa. Quando escrevo Dostoievski (sem acento agudo) o processador de texto do Word nada assinala, mas se uso o acento Dostoiévski, como nos livros da Editora 34, ele é sublinhado como palavra errada. Daí o acento no meu texto.
 
Enfim, nesta mesma edição (2005, 697 p.), Paulo Bezerra faz uma resenha. Como não poderia deixar de ser, começa contando o caso Nietcháiev que motivou Dostoiévski a escrever um livro inovador, pois coloca na trama uma personagem menor que narra à posteriori, ou mesmo em simultaneidade, os acontecimentos, o que “leva o leitor a sentir a proximidade da história narrada e envolver-se com ela”. Joseph Frank afirma que Dostoiévski já havia usado este expediente na novela “O Sonho do Tio” (prometo ler qualquer dia pra lhe confirmar, prezado leitor).
 
E então, Bezerra fala do Dostoiévski que profetizou os horrores do totalitarismo e do terrorismo. Nas palavras dele, o livro é: “O primeiro romance da história sobre o terrorismo (...) uma antecipação em miniatura dos horrores que se registrariam nos séculos XX e XXI (...) Stálin, Hitler, a Revolução Cultural chinesa, Pol Pot, o terrorismo das ditaduras latino-americanas contra seus povos, o terrorismo de Estado com seus “assassinatos seletivos” contra o povo palestino e a resposta também terrorista desse povo, o terrorismo tecnológico de Bush contra o povo iraquiano, etc., são elos de uma única cadeia de tragédias que Dostoiévski antecipou com sua percepção genial das tendências da história (...).”.
 
Perceberam? Para Bezerra, os terroristas palestinos apenas existem em resposta ao terrorismo de Estado judaico. É como se estes demônios palestinos, estivessem apenas se defendendo, ao convencer jovens à se tornarem homens-bomba e matarem, além de si mesmos, pessoas inocentes.
 
Tem mais, para Bezerra é o presidente americano Bush que faz terrorismo contra o povo iraquiano! Mas afinal, meu caro leitor, o ditador Saddam fazia o quê contra os seus ou outros países e povos? E hoje, quando carros explodem em Bagdá, são os americanos que os enchem de bombas?
 
Sinceramente não li em “Os Demônios” nada sobre “terrorismo de Estado”. Claro que Dostoiévski estava ciente de que se tomassem o poder, os biêsi não deixariam por menos e continuariam executando os desafetos com julgamentos sumários. Fidel Castro fez isto poucos anos atrás, com aqueles que seqüestraram a lancha. Pois é pessoal, mas o Sr. Bezerra não menciona o ditador que ajudou na “canonização esquerdista” de Guevara e agora só veste Adidas. O barbudo nem deve se lembrar de quantos ele mandou pra prisão ou para covas rasas. Acho que é difícil um cara como Paulo Bezerra, tradutor de inúmeras obras russas, ter cometido um lapso de memória e esquecido de falar sobre Fidel, mesmo tendo citado duas vezes G. Bush.
 
Para o Sr. Bezerra só me resta lembrá-lo, partindo de sua própria tradução, as palavras do demônio principal de Dostoiévski, Piotr Stiepánovich: “(...) Os nossos não são apenas aqueles que degolam e ateiam fogo (...) Gente assim só atrapalha (...) o professor de colégio que ri com as crianças do Deus delas e do berço delas, já é dos nossos (...). O promotor que treme no tribunal por não ser suficientemente liberal é dos nossos. Os administradores, os escritores, oh, os nossos são muitos, um horror, e eles mesmos não sabem disso!”.

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POR EM 06/04/2008 ÀS 03:58 PM

Tudo o que você precisa é amor

publicado em

Dentre inúmeras frivolidades, uma delas eu cultivo sem nenhum constrangimento: sou beatlemaníaco. Carrego comigo a paixão pela banda inglesa desde a infância (provavelmente, ainda na confortável estadia do berço placentário). Ignorância musical? Gosto ultrapassado? Ora, amigo, a boa música é resistente ao tempo, aos modismos e à globalização da idiotice. Aliás, de tanto ouvir porcarias nas rádios brasileiras, ando cada vez mais saudosista e neurastênico. Fico preocupado com a geração atual. Do ponto de vista musical, ela está órfã. Não sei a que tipo de referência vão se agarrar no futuro. O receio é que naufraguem no vácuo.

Nasci em setembro de 1965. Nessa época, os quatro garotos de Liverpool já contabilizavam seis ou sete anos de carreira. Estavam no auge da fama e reviravam o mundo de cabeça para baixo com seu comportamento irreverente, carisma e talento musical. Muitas vezes, tenho a sensação de ter nascido na época errada. Adoraria ter vivido a minha adolescência nos anos sessenta. Sempre impiedosos, os amigos garantem que estou mesmo é envelhecendo e ficando careta.

Há poucos dias, a imprensa internacional noticiou o acordo selado entre o sexagenário ex-beatle Paul Mcartney e sua ex-esposa perneta Heather Mills, que teve uma das pernas estraçalhada num acidente de trânsito. Movida pela tragédia pessoal, a moça fez campanhas para arrecadar donativos e os doar às pessoas vítimas de mutilações provocadas por minas explosivas subterrâneas, especialmente, crianças. O casamento melou, o diálogo melou e o casal foi digladiar nos tribunais. De acordo com os noticiários, a despeitada loira (cegos de paixão, os fãs nunca perdoam os algozes de seus ídolos...) vai embolsar a bagatela de vinte e poucos milhões de libras (consta que o seu pedido inicial era duas vezes maior). Apesar do Paul (olha só a minha intimidade com o ídolo...) ser milionário e famoso, tive pena dele e explico por quê. Nada a ver com a grana. O sujeito é detentor de uma das maiores fortunas do planeta.

A fama cobra um alto preço, e pode transformar a vida de um ser humano numa clausura infernal. O ídolo pop é prisioneiro da própria imagem e do mundo virtual em que está inserido. Além de ter a liberdade limitada, praticamente tolhida, o famoso está constantemente exposto ao assédio de pessoas com os mais variados interesses, quase sempre unilaterais, egoístas e perniciosos. Imagine-se, caro leitor, na pele de uma celebridade. Você é um pop-star. Como distinguir quem o ama verdadeiramente, daqueles que amam mesmo é o seu dinheiro e a sua fama? Como se assegurar da amizade sincera, desinteressada, e do amor puro que não vislumbra contrapartidas materiais? Deve ser duro dormir e acordar com dúvidas deste quilate. Não é por acaso a solidão e o vício fazem parte da biografia de inúmeras celebridades do presente e do passado. Aliás, a desgraça dos famosos é prato cheio para os paparazzi, magazines de fofocas, e diverte o público que se regozija com os escândalos e o sofrimento alheio. Nada como ver um famoso se lascando... Em se tratando de show-business, aquela estória que dinheiro não traz felicidade nunca me pareceu tão verdadeira.

Então, o que é felicidade? Vencer um biguibróder? Pagar um divórcio só de vinte e quatro milhões de libras, ao invés de quarenta e oito? Rever um amigo muito amado que andava sumido? Matar a própria fome? Voltar a caminhar depois de um acidente gravíssimo? Quitar o apartamento? Ficar sozinho de frente ao mar? Ter orgasmos? Ter uma morte rápida, inesperada e sem sofrimento? É... Realmente, a vida é complexa demais para se entender. Bem que Lennon e Mcartney avisaram (e eu fiz questão de usar o nome de uma canção que eles assinam como título desta crônica): “All you need is love”. Todo o resto é irrelevante.

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POR EM 06/04/2008 ÀS 03:57 PM

A marcha dos mortos vivos

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Que tempo é este, tão falto de verdade e paz que torna impossível o encontro humano? Tempo de absoluta confusão, em que mentes estreitas nos governam, por meio de astúcia política e mediocridade ululante adquiridas - e se envaidecem de sua ignorância arrogante! Em ondas de normose reprodutiva os mortos vivos atentam contra a vida, onde quer que estejam - e assim aceleram o trágico espetáculo da decadência humana.
           
Tudo o que não é essencial passa, sem deixar no chão do vivido, vestígios de verdade que não teve. Jogos de egos e posturas de personas mascaradas cessam sua algaravia egocêntrica de maneira veloz - indo do sublime ao ridículo, a ponto de não se saber para que sobreviveu ao oblívio da morte. Outras vezes, em face do absurdo a galopar nas estruturas do mundo, chegamos a não saber se os mortos estão vivos, ou se os vivos estão mortos. 
           
Por que pessoas que se revestem com armaduras de autoridade, empavonando-se em posturas de vaidosura e arrogância são as menos confiáveis. Um texto publicado na revista Theosophy, em Los Angeles, nos idos de 1926, responde com notável lucidez: "Confiança é algo que só pode ser depositado com segurança no indivíduo consciente que, durante as horas em que está em processo de vigília, permanece no controle constante e positivo de seus métodos de ação, sendo precisa e atenta em todas as ocasiões. Ser confiável significa viver no presente, concentrado aqui e agora, e não deixando as tarefas pela metade enquanto sonhamos com um futuro glorioso".

Os índios não carregam caminhões de certezas vazias, nem se fazem didatas de verdades que não sabem. Um dia acreditam em Deus, no outro não acreditam mais. E não sofrem por isto. Ao contrário dos "selvagens", os ditos "civilizados" fazem questão de armazenar montanhas de crenças, idéias, opiniões - saberes de segunda mão, que lhes servem de escudo, em forma de curriculum encobridor de sua incompetência crassa e inabilidade de existir. São os casos crassos e escorreitos das sumidades e PHDs a vomitar doutorices, mesmo que não saibam viver. E ainda assim arrostam falsa importância - mesmo sendo a flatulência de uma vitalidade vazia, com seu brilho de purpurina de personas postiças, que já não podem viver sem suas máscaras.

A revolução do neocinismo triunfante faz que se acelere, de forma trágica e sinistra, a marcha da destruição. Que tempo é este, em que templos se multiplicam como pequenos ou grandes negócios - máquinas da fé, organizações comandadas por malandros de gravata, experts em esfolar rebanhos de néscias e incautas ovelhas em busca de milagres para a salvação de suas mal sucedidas espertezas. Negócios de oportunidade (livres de impostos e emolumentos) escorchantes e implacáveis aos que trabalham honestamente - em que ávidas hienas rapaces cevam suas contas bancárias, na certeza de serem imensos os lucros e dividendos!
           
Num tempo assim, povoado de crimes hediondos, falar de árvores chega a ser uma falta - mero delírio de lunáticos ecochatos. Neste tempo avacalhado o homem trivial torna-se suspeito, sendo perseguido como sempre pela raça dos Morcenigo, a soldo da normose reprodutiva. Tempo haverá, tempo haverá em que o Homem terá se tornado tão humano que volte a ser criança - flexível, amoroso e mutante como tudo o que vive a reverdecer-se em flor do instante em amor e esperança?

Vivemos em tão gritante e avassaladora inversão de valores, que prostitutas de luxo dão entrevistas pagas - como coisa que não acontece em relação a cientistas e humanistas benfeitores da humanidade. Pessoas tornadas célebres por atos de crueldade, como a Calabresi que torturou uma criança durante anos, manifestam intenção de escrever livros sobre o perdão. Que reivindica para ela própria, é claro. A lucidez profética de T.S. Eliot lança luz sobre a questão: "Assim acaba o mundo/não com um estrondo/mas com um gemido". Talvez a morte se faça cada vez mais viva pela tenacidade com que a humana raça multiplica suas desgraças no ódio ao vivo que perpassa os gestos insensatos dos que em nós grassam como vitória da sombra, a ameaçar tudo o que vive.
 
Litania ladina
 
Construímos uma relação de poder com Deus. Nós o queremos consultor financeiro para nossos negócios de oportunidade, e o elegemos leão de chácara de nossas propriedades. Queremos Deus para nosso capacho e para dirimir pendências de desarvoro constante e leniência de praxe.

Que o barbudo celeste remova céus e terra, para que triunfemos em nossas guerras. Pelo sim pelo não, que nos dê um caminhão de felicidades gratuitas.
 
Que perdoe as nossas dívidas, enquanto cobramos com ruído e furores os nossos devedores. Que avie as receitas para as doenças de alma mas que não nos cure de vez, que precisamos de firmeza para perpetrar maldades de fino jaez.
 
Não desejando renunciar às nossas maldades contumazes e nossos atos perversos, nos abençoe assim mesmo. Quem sabe em outra encadernação,montados em nota preta, tomemos coragem para tomar preceito. Por ora vamos pecando com gosto e enquanto oramos a vós perdoamos a nós mesmos!

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