Pensamentos contaminados
09/12/2008
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O calor insuportável parecia fundir os miolos. Tanto assim que pensamentos desconexos e ilógicos brotavam na minha mente feito um surto. Eram duas horas da tarde. Trânsito louco parado à minha frente. Motoristas estáticos, estressados, músculos fermentados com adrenalina, peles suadas em visgo apesar do ar condicionado ligado no último pique.

“Jogue suas mãos para o céu / e agradeça se acaso tiver / alguém que você gostaria que / estivesse sempre com você / na rua, na chuva, na fazenda / ou numa casinha de sapé”.

Dentro daquele contexto tão insalubre, a canção antiga do Hyldon parecia a trilha sonora mais apropriada. Tanto assim que aumentei o volume do rádio, batuquei os dedos no volante e cantarolei, dando uma pausa à própria angústia. O motorista do carro ao lado, companheiro de prisão temporária, balançou a cabeça em sinal de desaprovação. É assim mesmo, vivemos para por defeito na felicidade dos outros. Impaciente enfiou a mão na buzina tentando fazer o congestionamento à sua frente evaporar. É claro que a apelação não fez o trânsito andar, mas contribui com o caos.

Há cenas do cotidiano que ainda me surpreendem. Surgido assim do nada, um homem passou entre os carros carregando uma enorme harpa sobre o ombro. De tão surreal, a imagem até parecia uma tela de Salvador Dali.  Não enxerguei o seu rosto, escondido atrás do instrumento. Logo, não pude precisar que idade teria. Eu sabia que era homem por causa das roupas que trajava. Pelo caminhar fazia supor tratar-se de um homem mais velho, um idoso, quem sabe. Em vão, estiquei o pescoço na tentativa de visualizar o seu rosto, mas ele dobrou a esquina.

Quando a gente observa detidamente o comportamento das pessoas nas ruas e calçadas de uma cidade grande como Goiânia, ficamos ainda mais convencidos do quanto vivemos uma rotina tola. A terrível sensação de representar um quase nada no contexto metropolitano dá margem ao desvario.

Hoje em dia, nos principais semáforos da capital, há sempre um bando de gente distribuindo panfletos. A Prefeitura Municipal tentou coibir a ação dos panfleteiros, mas não deu conta. Liberou geral. Espírito natalino ou incompetência? É papel à beça. Folders muito bem produzidos para convencer as pessoas a comprarem aquilo que nem precisam. Movidos pelas metáforas alvissareiras do Presidente Lula, que pediu para o povo comprar e comprar e comprar, a onda consumista está aí, com ou sem enxurradas, com ou sem bolsas quebradas.

Nas vésperas das festas de final de ano, então, ficamos endemoninhados para demonstrar o nosso amor gastando dinheiro, presenteando as pessoas que gostamos (e até aquelas que nem gostamos tanto) como se fora um pedido de desculpas por termos sido tão negligentes de carinho durante o ano inteiro. É mais fácil dar um panettone do que um abraço.

Eu até preferia estar na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapé. Mas não dava. Dos versos do poeta, acabei ficando mesmo foi com a rua. O povo anda tão demente que eu chego a me perguntar se o problema não está na água que chega até as torneiras dos moradores. Quem sabe, um veneno diluído, resultante de reações químicas impensáveis nas estações de tratamento de água, esteja deixando todos fora de juízo.

Não conheço as estatísticas, mas tenho convicção que nunca estivemos tão mentalmente adoecidos. Síndrome do pânico, transtorno bipolar, depressão. Doenças sem germes. Micróbios que não se enxergam com lupas e microscópios. Quisera nossas neuroses fossem tumores palpáveis, factíveis da compaixão de pinças e bisturis. Pudera cortar o mal pela raiz e sermos felizes. Se não pela busca da felicidade, por que estaríamos penando neste planeta?  

Já fazia dez minutos que estava preso no congestionamento. Os delírios, sim, continuavam bem soltos. Algum acidente teria bloqueado o trânsito mais adiante. Que fosse, ao menos, um acidente grave, com vítimas fatais, uma tragédia que justificasse tamanho transtorno à cidade. Tanta raiva sentida por causa de uma batidinha besta? Apenas danos materiais? Ah, não... Isso não. Merecíamos coisa pior. Corpos mutilados sobre o asfalto quente. Sangue na sarjeta. Pedestres curiosos assistindo às vítimas agonizantes. “_Ninguém toca nos corpos até a chegada do resgate!”, alguém teria alertado.

Aproveitando a sede e a desordem, ambulantes formigaram vendendo água mineral falsa e bilhetes de loteria. Ah, seu eu ganhasse o Primeiro Prêmio... Empanturraria os bancos com dinheiro. Porque, este sim, é provedor de segurança e felicidade. Só não traz mesmo a paz de espírito, porque aí já seria pedir demais.

Por onde andaria aquele misterioso homem e sua harpa?

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