Se não sabeis, contarei: quase cheguei a ser primo do Elvis Presley. Ou podia ter sido, se tivesse acreditado em um primo lunático. Ou melhor: como fui morto por sua morte, despojado que fui de um desejável parentesco com ele. Num dia antigo e triste, de minha vida desolada, em que eu me encontrava (e me perdia) nas ruas, amargo como a bile, a vende doces para as pessoas, eu tive um primo que me roubava os únicos míseros centavos que ia embolsando, à medida em que vendia ameixas para uns sacanas de uns mecânicos.
O que mais me desesperava, no sacana do meu primo, não era o fato de o cara me roubar, sistematicamente, todos os dias, utilizando estratégicas fantásticas e diversas. De tal acostumado a ser roubado, eu já saia contabilizando as perdas & danos, já conformado em levar uma surra homérica - a sova diária - que minha mãe me aplicava, pelo crime de me deixar roubar diariamente, assim me fazendo cúmplice de primo-ladrão.
O que mais me atazanava era ouvir do primo, antes ou depois de ser roubado, que ele era primo do Elvis Presley, que o rei do rock mandava para ele roupa de ouro, sapatos de ouro, guitarra de ouro, tudo de ouro dezoito. Tornara-se um Midas suburbano, na periferia do capitalismo. O mentiroso contumaz mentia e roubava de maneira inapelável e não evitável, contra toda vigilância e toda lógica, como se tivesse parte com o demônio. Vendíamos ameixas, pelas ruas da Campininha das flores.
Era descuidar, piscar um olho, e lá ia, lépida e solerte, a sua mão sorrateira surrupiava de meu bolso a grana minguada, que teria de levar à minha mãe. Como quase nunca a levava (pois que era levada pelo safardana, à socapa e à sorrelfa, o couro descia em meu lombo, enquanto ele ficava olhando, com falsa piedade.
Eu era tão cretino que jamais o peguei em flagrante botando a mão na minha grana, nunca pedi para ver a roupa de ouro, que o Elvis Presley todo mês lhe mandava e, o que é ainda mais grotesco: sendo primo do primo do Elvis Presley, era de se prever (e de se querer) que o rei do rock, dono de quase tudo no mundo, (inclusive de uma fome pantagruélica, que o levou deste vale de tele-lágrimas), - era de se esperar que o Elvis, sendo primo do meu querido algoz e primo, fosse também meu primo, meu parente, por indestrutíveis laços de sangue. Sentindo o peso de chumbo da menos valia, eu me sentia um deserdado.
Jamais me ocorreu - embora não acreditasse muito nele, perguntar porque sendo por que sendo ele primo do Elvis, por que eu também não o seria, se eu era primo dele. Seguia ele contando suas papiatas e lorotas, enquanto o tempo foi passando, e o Elvis saindo da moda - dito de outro modo: enquanto o rei do rock ia passando, trocado por uns cabeludos ingleses, que jovens do mundo inteiro amavam histericamente, como já tinham amado os Rolling Stones.
Foi o meu primo crescendo e eu também, trocando de fantasias e ilusões. Quanto ao rei do rock propriamente dito, não se conformava em ser esquecido: passou a comer sanduíches desbragadamente, à guisa de compensação, uma vez que se transformara em página virada da história. Junto à sanduichama que mandava para a pança, seguiam pílulas perigosas, de efeito antidepressivo, dadas por um médico mui amigo. Resultado do imbróglio: bateu com as botas, esticou as canelas, degringolou o topete, foi de encontro ao Cujo.
A esta altura, as roupas de ouro de tolo, que o Elvis mandava a seu primo brasilindio achavam-se enferrujadas, em um canto mofado. Não caberiam no figurino de um comum mortal. A guitarra de ouro que o rei do rock lhe mandara virou cama quentinha de ninhadas de ratos. O caso mais estúrdio deu-se, contudo, não com a decepção do meu primo, àquelas alturas já esquecido do primo-ídolo, e já idolatrando os Beatles, os novos reis do pedaço e das estranjas.
É que o cachorro do Elvis Presley, inconformado com a morte de seu dono, perguntou ao psicanalista: por que alguém se mata, se comida não lhe falta? Na verdade, tão cheia estava que nela não caberia nem mais um sanduíche ou guloseima. Nem o doutor psi, nem lacanianos ou reicheanos que vieram depois puderam responder à indagação cachorral.
Por que o Elvis se matou, se comida era o que mais havia em sua formidável mansão, dotada de mil quartos translumbrantes, e salas de café, de chá e de chocolate? No céu, para onde deve ter ido quando chegou o seu tempo de deixar este vale de telelágrimas, o cachorro do Elvis Presley ainda nos late com sua metafísica indagação cachorral: por que o meu dono se matou, se a geladeira estava cheia?



