Uma história da Guerra Civil Americana
Não há guerras românticas, mas duas guerras são quase românticas ou pelo menos são cantadas como tal, a Guerra Civil Americana (1861-1865) e a Guerra Civil Espanhola (1936-1939).
As duas guerras dividiram seus países ao meio. Com o próprio povo se matando.
Na primeira, venceu a voz progressista de Abraham Lincoln, o notável presidente norte-americano (Edmund Wilson, num ensaio perspicaz, diz que a prosa enxuta que desaguou em Hemingway, antes passando por Mark Twain, surgiu com os discursos de Lincoln), mas à custa de 600 mil mortos. A editora M. Books lança um livro muito interessante, com excelentes fotografias e capa dura — "História da Guerra Civil Americana" (224 páginas, tradução de Roger Maioli dos Santos. O título do original é mais preciso: "A Chronology of the American Civil War"), de John D. Wright. Recomendo vivamente o romance "A Marcha" (Editora Record, 416 páginas), de E. L. Doctorow. É notável para se entender, com cores e movimentos, a vida dos americanos, todos envolvidos numa guerra que, no fundo, era de alguns mas se tornou a guerra de uma nação contra si mesma. Dos escombros, felizmente para o povo americano, (re)nasceu uma grande nação.
Na segunda, venceu a voz dita conservadora do general Franco. Mas é possível dizer que a vitória de Franco evitou a expansão do totalitarismo comunista na Europa, pelo menos até 1945. A Espanha não se tornou o primeiro Vietnã.
James Salter é um artista do conto
Na semana passada, comentei rapidamente as belas memórias ou reminiscências do escritor americano James Salter, “Dias Intensos” (Editora Imago, tradução de A. B. Pinheiro de Lemos, 354 páginas). Poucos escritores escreveram tão bem sobre a guerra (no caso, a coreana), o trabalho dos pilotos (Salter foi piloto e derrubou aviões soviéticos) e, sim, Paris. Suas páginas sobre Thomas Wolfe, Saint-Exupéry, Irwin Shaw e Faulkner são de uma beleza rara, tanto pela delicadeza quanto pela perspicácia. Trata-se de um Sebald com sentimento? Talvez.
Não li o romance “Um Esporte e um Passatempo” (Editora Imago). Estou lendo “Última Noite e Outros Contos” (Companhia das Letras, tradução de Samuel Titan Jr., 174 páginas). Trata-se de obra-prima, que deve passar batida, pois Salter não está na moda.
O conto “Última Noite” conta a história do tradutor Walter Such, de sua mulher Marit e da amiga Susanna.
O narrador não menciona a palavra câncer, mas a doença que “começara no útero e passara de lá para os pulmões” só pode ser câncer. Marit decide morrer.
Antes, sai para jantar num restaurante, com o marido e Susanna. Bebem um vinho caro e voltam para casa. Marit deita-se. O marido busca a seringa e, depois de relutar, aplica alguma coisa na veia de sua mulher.
Walter volta para a sala, Susanna havia saído, por não suportar a eutanásia, palavra não mencionada. Walter e Susanna se encontram e fazem amor, com certa volúpia, ferocidade e insensibilidade. Eram amantes. Salter diz quase nada, deixa os atos “falarem” por si e convida o leitor para ajudá-lo a confeccionar a história.
Mais tarde, suspense: Marit desce as escadas e diz, para Walter: “Você deve ter feito alguma coisa errada”. O quê, como o narrador nem os personagens dizem, não ficamos sabendo. “Os livros grossos sobre surrealismo”, olhados mas não lidos por Marit, talvez tenham algo a dizer. Só não posso contar o que aconteceu com Walter e Susanna. Para não desmanchar “prazeres” (as aspas sugerem alguma coisa).
Os contos são muito bons, a edição e a tradução são impecáveis, mas a Companhia das Letras informa errado o ano de nascimento de Salter. Ele nasceu em 1925, não em 1926.
As respostas da ficção à tragédia do 11 de Setembro de 2001
Leitores me perguntam sobre o melhor texto literário sobre o 11 de Setembro de 2001. O melhor, não sei, até porque não li todos. Posso citar alguns romances muito bons que discutem, direta ou indiretamente, o atentado contra os Estados Unidos, a maior potência mundial que se mostrou tão vulnerável quanto qualquer outro país.
O decano John Updike lançou “Terrorista” (Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Britto, 330 páginas). Don DeLillo publicou “Homem em Queda” (Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Britto, 256 páginas). O inglês Ian McEwan pôs a mão na massa com “Sábado” (Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 344 páginas). Todos são excelentes, mas, cá entre nós, o melhor mesmo foi escrito por um garoto, Jonathan Safran Foer, de apenas 31 anos. Seu romance “Extremamente Alto & Incrivelmente Perto” (Editora Rocco, tradução de Daniel Galera, 360 páginas) é inventivo, muito bem escrito (a tradução é de primeira) e não é chato. Foer é, acima de tudo, um narrador eficiente, como soe ser todo bom escritor.
Os ficcionistas deram respostas rápidas e adequadas ao atentado contra, mais do que às torres gêmeas, os Estados Unidos e milhares de pessoas inocentes. Talvez tenham se saído melhor do que historiadores e jornalistas. Digo “talvez” porque há bons livros factuais e analíticos a respeito do assunto, a maioria escrita por jornalistas. Um deles é “O Vulto das Torres — A Al-Qaeda e o Caminho Até o 11/9” (Companhia das Letras, 504 páginas), de Lawrence Wright.

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