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Valdivino Braz

POR EM 26/04/2008 ÀS 11:02 AM

Três poemas no varal das rimas

publicado em


VERTIGEM 

 

Tagore Biram
 
 
Se é claro viajo nuvens,
se escuro viajo estrelas.
Num vendaval de vertigens
fico acordado noites inteiras.
 
A vida é questão de segundos:
sinto que vou como quem fica.
Voragem que não se explica:
olhar partido em dois mundos.
 
Suspenso à luz das esferas,
a tudo dei mais do que pude.
“É primavera”
Tem a janela sua certeza.
Mas a paisagem não me ilude:
é um disfarce da natureza.
 
*
 
MUSEU DAS MUSAS
 
Pio Vargas
 
 
As musas, todas elas,
morreram belas
e agora ninguém as chama
 senão pelas chamas
 de algumas velas.
 
O mistério que as ungia
a maquiagem que as tingia
os lençóis as fantasias
hoje apenas enfeitam
o traje trágico
das lousas frias. 
 
O museu que as tolera
ainda guarda
o flagrante susto
da primavera
o medo que o encontro
tem da espera
e o remorso
do que um dia foi jamais
hoje é quem dera.
 
As musas
reclamam músicas
para o enterro.
 
*
 
MUSAS INDECOROSAS
 
Valdivino Braz
 
 
O que se anima das rimas,
uma por baixo, outra por cima,
por amanho de medusas?
 
Na ardósia de seus mijos,
o que medra e rima de musgo,
o apojo esponjoso das musas?
 
Musas, mijos,
e viver-se de brisa?
E os beijos?
E o paraíso?
Nunca lhe prometi um mar de rosas,
o livro.
 
Um hálito de eucalipto,
a boca de seus encantos
e arquejos.
 
Ardume de coentro,
misto de poejo
e lúbricas,
nos nichos ou esconderijos
da gruta.
 
 Variações do coito
e do mesmo tema.
 
Harpejos da carne
em chamas,
aranhas de olhos acesos,
no labirinto.
 
Mariposas,
bruxas,
peludas borboceletas
— atente-se para isso —,
feito tarântulas.
 
Cenas obscenas
do crime.
 
A fome da carne,
o crime carnal,
contra a moral
e os bons costumes.
 
O escarcéu,
o carnaval,
por trás das cortinas
e persianas.
 
O crime
que a todos redime
na retina de quem se ama
na cama.
 
Plumas,
papoulas
e petúnias.
 
Os nomes
espúrios
da rosa,
nos mistérios gozosos
e dolorosos
das musas
de cama e mesa.
 
Hipócrita
é quem reza
na cama,
coberto de pétalas
e asas
de borboletas que dormem
com as bocas abertas
e sangrentas.
 
Que coisa!
 
Esdrúxula
beleza
— assemelham-se a bromélias —,
as pernas abertas
das musas
indecorosas.

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POR EM 15/04/2008 ÀS 08:04 PM

O jogo das forças opostas

publicado em


Antes do quebra-quebra, propõe-se um minuto de silêncio pelos mortos de fome, razão por que um dos cadáveres se levanta afirmando não poder participar de um ato público deste naipe, talvez por ter mais arregalado os olhos da perplexidade no bojo da crueldade das coisas, e mais não lhe restar estômago para figurar num teatro em que a maioria se permite viver sem vomitar. Daí que inusitado morto inicia o insólito discurso:

“O Poder, ao contrário do que se pensa, não quer o silêncio das massas, nem mesmo um simbólico minuto de silêncio, mas o tumulto das bocas, pois no tumulto não se pensa, ou se pensa pouco, sem pensar-se o tumulto. No tumulto, o rebanho se molda, massa de manobra. Silentes, as massas são frias, inertes, por isso menos interessantes, quando os tempos são outros e o Poder é carente. Mas se as massas marcham com suas faixas, o Poder resgata seu espaço com a farsa que a repressão disfarça. Ativas, as massas avivam e legitimam o Poder.

Ah, nunca se precisou tanto do calor das massas participantes! E não será isso um prenúncio do triunfo das massas? Não será coisa sobre a qual se pense? Pois que se pense um pouco sobre isso. Força é mudar as táticas, inovar as práticas. Força é mobilizar a força da inércia: parar, completamente, a Máquina. Este sim, o silêncio que se requer. O país do silêncio, para o mundo capitalista ouvir e se incomodar, até que se faça a justiça social que se quer.

Fora disso, fora da pressão da inércia, será sempre atirar-se carne fresca ao cão policial, alimentar-se a violência do canil, amontoar-se a carniça no aço frio da Medicina Legal. A não ser que se tenha vocação para saco de pancada, os ossos moídos segundo a “lei do porrete e da dentada” * . Afinal, no jogo das forças opostas, com a predominância dos interesses de classes, a quem interessa, verdadeiramente, o sangue das massas? A quem o trampolim do sucesso, e a quem o cassetete? Que se pense também sobre isso. E se acharem que tudo não passa de maluquice, então deixa como está, não se fala mais nisso.”

E mais não disse o cadáver falante, linchado que foi pelos sopapos e apupos do tumulto, após alguém brandir o punho cerrado e bramir que o tumulto é que faz a História.


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POR EM 10/04/2008 ÀS 03:14 PM

Devoções de Dona Dalva

publicado em

 Pequeno e jocoso tratado do espiritismo         

Mulher sofrida, de alma calejada, e que já passara por tantas peripécias na vida, como ela mesma dizia, nem por isso esmorecia na luta pela sobrevivência. Mesmo com todas as vicissitudes, ainda que despojada de seus bens, enfrentava as situações adversas; saía a campo com o seu espírito de luta, buscava recursos, trazia soluções. E nada a impedia de dedicar boa parte da vida a praticar a caridade, ajudar os semelhantes.
           
Azuis, os olhos pareciam clarear a penumbra e as teias de aranhas no coração de cada um, como se ali vasculhassem velhos papéis, por isso não deixavam de causar um certo incômodo. Assim, com os olhos agudos feito facho de lanterna, Dona Dalva penetrava o interior das pessoas, ia dizendo tudo que havia dentro delas. Mexia com o passado, arrancava segredos, jogava as verdades todas pra fora. Pessoas havia que se envergonhavam, e umas que choravam, mas Dona Dalva compreendia e punha consolo. Benzia, dava passes mediúnicos, dava conselhos, ensinava simpatias, passava remédios e pregava o Evangelho Segundo o Espiritismo, a doutrina codificada por Allan Kardec. Foi indo, enveredou-se por caminhos que só levavam às encruzilhadas da fé e das crendices, superstições e desconfiança. Deu de misturar joio ao trigo kardecista, por assim dizer, num misto de centro espírita e terreiro de umbanda. Foi indo e veio vindo até o fim da vida de idas e vindas. Por onde a vida vai e se esvai, é no tempo e nas intempéries de seus caminhos que ela vai se esvaindo, até que vai indo e não vai mais. Volta e meia, a vida vai e não volta pra contar como é que foi. Às voltas consigo mesma, de si mesma se perde numa de suas voltas. Tantas as voltas que o mundo dá em torno do sol, que nem se sabe a quantas uma vida anda. Foi meio assim que Dona Dalva se perdeu no emaranhado das devoções, no cipoal de sua fé. Foi indo pelas sendas do kardecismo, enveredou-se por um desvio e acabou nuns terreiros umbandistas, indo-se de “aparelho” (médium) do kardecismo a “cavalo” da umbanda, ora servindo de “cambão” pra preto velho, ora se deixando “tomar” por entidades ruins, espíritos truculentos, desses que chegam bufando e escoiceando feito bode. E tome marafo, amiúde uma cachaça da pior espécie, e tome fedorentas baforadas de charuto barato ou cigarro de fumo igualmente ordinário, “macaia legítimo”, na irônica expressão de alguns. Velas pretas e vermelhas — uma vez Flamengo, sempre Flamengo — sobre as linhas de giz das simbologias; o cinco-salomão dentro de um círculo, e flechas, espadas e pequenas estrelas ao redor do cinco-salomão. Pontos de invocação aos espíritos desencarnados, pretos-velhos bonachões e outras entidades, se dando que também baixasse no terreiro algum “encosto”, espírito mau ou apenas atribulado, inconformado com a desencarnação e ainda apegado às coisas terrenas; espírito de pouca luz, em estado de choro e tristes gemidos, podendo que ali fosse chamado a fim de ser consolado e doutrinado; ou ainda, sem ser chamado, viesse de intrometido ou por conta própria um exu a mando da quimbanda, o lado negro do espiritismo, o baixo espiritismo, calcado em rituais de sangue, bruxaria, satanismo, a magia negra, enfim. Arruaceiro dos brabos, ali com os seus cascos, criador de casos e dotado de força bruta, um “esprito” desses dá muita canseira aos médiuns, assim como enfrentar um bêbado brigão, botando pra quebrar no bar da esquina de suas estripulias. De resto, a velha peleja do bem contra o mal, se bem que há males que vêm pra bem, embora nem sempre o bem seja o melhor que se tem. Também o Diabo não é tão feio como se pinta, como dizem, e até já existe a expressão “doce pimenta”, corroborando o velho ditado de que pimenta no curió dos outros é refresco. Tudo é relativo, diria Einstein, cuja Teoria da Relatividade tem sido questionada, variando-se o prisma conforme o movimento ou ponto de vista. E tem esse negócio de tudo que é ruim ser culpa do Diabo. Esse maniqueísmo do bem e do mal. Já pensou se o mal acaba? O que seria do bem? Só poderia ser o bem absoluto, a ir-se pela doutrina do persa Mani — donde maniqueísmo — ou Manes, lá no século III. Outra margem é supor que, se o Diabo morrer, Deus fecha o boteco. E vai viver de quê, aqui na Terra? Nesse caso, os guardiões dos rebanhos, presumidos representantes de Deus neste mundo, irão plantar batatas — o maná da gleba prometida pela reforma agrária —, para alimentar os famintos que assolam a face da Terra.          
         
O Diabo, o Diabo, o Diabo. Os pactuados afirmam que o cabra até que é um bom sujeito e prazerosa companhia, bom violeiro, bom jogador de sinuca e de truco, chegado numa pinguinha de engenho, ou pinga de alambique, e mulherengo que só ele, manhoso, molemolengo, todo cheio de dengos e chamegos por um rabo de saia, tão certo quanto ferrenho numa queda-de-braço, batuta numa briga e ligeiro num rabo-de-arraia, golpe traumatizante em que o capoeirista apóia as mãos no solo, gira o corpo sobre a cabeça e procura atingir com os calcanhares a cabeça do adversário. E se o adversário segura um dos pés do capoeirista, este usa a mão do inimigo como ponto de apoio para o rabo-de-arraia com um pé só. Dá pra encarar-se um demônio desses? Então vai lá e vê se encara.
         
Das coisas hilárias que se contam, uma delas é que Mané Preguiça, da turma de pinguços do naipe de Zé Bolacha e Bunda Murcha, foi ao terreiro de umbanda — aonde, na verdade, ia em busca do marafo dos pretos velhos —, e disse pro “guia” que estava com a vida atrapalhada, por causa de algum “encosto”. Recebeu a inesperada e exata resposta de que ele estava era precisando de caçar serviço e deixar de viver encostado nos outros. 
         
Dezembro de 1847. Coisas estranhas ocorrem na casa da família Fox — John Fox, sua mulher e as duas filhas mais novas, Margaret, de quatorze anos, e Kate, de doze anos —, em Hydesville, condado de Wayne, no Estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. Fenômenos de casa assombrada, que deram origem ao Espiritismo, a partir das investigações realizadas por Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, ilustre pedagogo francês, médico e discípulo de Pestalozzi. Anos depois, Margaret e Kate confessaram à imprensa que tudo não passara de uma farsa e que não podiam mais viver com aquilo — o segredo, o peso na consciência e o sentimento de culpa —, e que se sentiam bastante arrependidas pelo que fizeram, obrigadas pela irmã mais velha. Por fim, pediram perdão às pessoas, por tê-las enganado. Na época dos fenômenos paranormais, que atraíram muitas pessoas à casa da família, e por causa deles, os Fox foram acusados de bruxaria e tiveram que se refugiar na casa da terceira filha, a mais velha, que morava em Rochester.
         
Codificado, mais tarde, por Kardec — antes da confissão de fraude das irmãs Fox —, o Espiritismo sustenta a existência de um mundo invisível, dissemina a tese da reencarnação dos espíritos e de estágios de aperfeiçoamento espiritual na Terra. No plano terreno — pois há o plano celestial —, a doutrina espírita difunde o Evangelho e se pauta pelos princípios humanitários, com a prática da caridade: Fé, Esperança e Caridade, o seu lema. Esperança é a última que morre, podendo que morra logo de saída, dada a sua mania de sempre sair na frente. O kardecismo, ou espiritismo kardecista, repassa o ensinamento da purificação: “Limpai o corpo e o espírito, como se limpa, por fora e por dentro, o copo e o prato”. Diante da assertiva de que a fé, mesmo do tamanhozinho de um grão de mostarda, remove montanhas, Dona Dalva pegava-se com todos os espíritos de luz, entre eles Eurípedes Barsanulfo, Bezerra de Menezes, Batuíra, André Luiz e Dr. Fritz. Pras bandas da umbanda, ia-se de apego pelo ícone de Zé Pelintra, um preto todo de branco — terno, chapéu e sapatos, típicos do antigo malandro carioca —, a cujo espírito ela servia de “cavalo”. Mas ela pegava pra valer mesmo era com o Divino Pai Eterno e a Santa Maria Madalena. Na verdade, pegava com Deus e tudo que era santo. Ao deitar-se para dormir, rezava assim: “Com Deus eu me deito, com Deus eu me levanto, com a graça de Deus e do Divino Espírito Santo”. Pela manhã, fazia a oração de São Bartolomeu, guardador de casas contra todo mal, sobretudo o roubo, além de protetor das mulheres na hora do parto. Pedia também a proteção de Santo Expedito, o santo das causas perdidas ou impossíveis. Conta-se dele, como se conta de todos os santos, uma história interessante: fora ele comandante da XI Legião Romana e, certo dia, tocado pela graça do Espírito Santo, decidiu converter-se. Surge-lhe, então, o espírito do mal sob a forma de um corvo, gritando: “Cras! Cras!” — palavra latina que significa “amanhã”. Mas Expedito não queria adiar sua conversão, por isso matou e esmagou o corvo, gritando por sua vez: “Hodie!” — hoje. Não é por menos ser ele invocado pra resolução de problemas urgentes e de difícil solução. O mais que se conta, e aqui falto de maiores detalhes, é que o convertido Expedito foi vítima da ira do imperador Deoclesiano, sendo sangrado até morrer e então decapitado.
        
 Dona Dalva tinha lá os seus oratórios e colocava pinga num dedal, pra adular Santo Onofre ao fazer-lhe pedidos, ou já como recompensa pelas graças obtidas; caso contrário, enterrava o santo — a pequenina imagem — de cabeça pra baixo, avisando-o que só o desenterraria quando ele cuidasse de suas obrigações e atendesse-lhe aos tais pedidos. Devota por demais, festejava os Santos Reis, a 6 de janeiro, e os três santos juninos, cujas datas, 13, 24 e 29, serviam-lhe de dezenas para uma fezinha no jogo do bicho, ou de uma possível milhar em frações lotéricas. Fechava o ano com o presépio de Natal, seguido pelo “Réveillon de pobre” — dizia com resignada ironia —, saudando o Ano Novo com um vinho tinto de má qualidade e sardinha enlatada, igualmente ordinária.         
         
Em outros tempos, Dona Dalva levara uma vida melhor, mas foi perdendo tudo pelas demandas da vida e terminou pobre, quase na miséria absoluta, vivendo da caridade alheia, ela que tanto já fizera pelos outros. O espiritismo, ela mesma dizia, não traz riqueza material — embora se possa dele sobreviver, como em outras religiões, algumas até, diga-se de passagem, primando pela descarada extorsão financeira ou de bens alheios, jóias, imóveis, automóveis, via de hipnose coletiva ou de lavagem cerebral que atinge as raias do fanatismo e a impunidade criminal, sob o manto constitucional da liberdade de credo, que, aliás, deveria ser revista, sob certos aspectos, no âmbito nocivo de suas práticas. Pobre Dona Dalva! Temerosa por sua casa construída em beira de córrego — invasão de área pública —, temia e esperava sempre pela tromba-d’água na cheia de São José, a 19 de março, mas não arredava pé de sua precária propriedade, pois era só o que tinha de seu, por direito adquirido de terceiro e pago com o dinheiro de seu suor, como enfatizava, alegando ainda os gastos feitos para ampliação da casa e outros benefícios, como instalação de água e luz, portanto pagando taxas e também o imposto predial. De resto, mesmo ali com a casa sendo alvo de enchentes, e constantemente perseguida por fiscais da prefeitura e do Estado, Dona Dalva fincava o pé e sempre se valia puxando pela lei de usucapião, desta forma protelando as perseguições, e para tanto gastando, sem poder, com advogados. Arraigada no sincretismo de sua religiosidade, por ocasião da Festa do Divino, em julho, partia a pé para as romarias. Na Festa de Nossa Senhora do Rosário — a santa dos pretos —, ou das Congadas, ia ver a santa e os pretos com suas danças e sedas coloridas. Outro santo de sua devoção era Sebastião, já nas trovoadas e chuvas de janeiro — “trovoadas de São Sebastião”, diziam os antigos —, aquelas que precediam o dia 20. E uma de suas santas preferidas era a protetora dos olhos, Santa Luzia, a 13 de dezembro, dia de banharem-se as vistas com água e alecrim ou aquela veludosa “plantinha de Santa Luzia”, deixados, de véspera, numa vasilha d´água, pra que a santa os santificasse e lhes desse o poder preventivo aos males da visão. As crianças sempre curiosas com aquele par de olhos azuis que a santa trazia num prato.
         
Abaixo de Deus, só Jesus era rei. Ainda assim, a polivalente Dona Dalva entrava em rodas de Pombagira, como também beijava a barra do estrelado vestido de Iemanjá e, nas causas de maior embaraço, recorria aos préstimos de Sete Flechas e do poderoso Tranca Rua, já que São Jorge Guerreiro, a 23 de abril, andava ocupado com o dragão na lua, senão campeando famigerados exus ou envolvido com os orixás nos candomblés da Bahia, e sabe-se lá se num rodopio de capoeira, vez que na Bahia basta um berimbau pra uma rasteira baiana, e qualquer coisa parecida com tambor pra começo de carnaval. Dizem que em noites de candomblé uma tal de cabocla Jupira é recebida por médium do sexo feminino, daí escolhe um dos homens e o leva a um quarto, pra fazer sexo com ele — quanto privilégio! Não se tem notícia de que Dona Dalva pegasse com a sensual Jupira, mas a cabocla Jacira era uma de suas tantas invocações. De permeio com Allan Kardec, ou de um transe a outro, havia o ritual umbandista de mãos dadas, formando uma corrente, e o punhal apontado pra lua; suscetível aos arrepios aquele que se deixasse envolver pela atmosfera do momento. E vá-se entender uma mulher como Dona Dalva: kardecista, umbandista e católica. Justificava-se afirmando que, assim como os homens se assemelham perante o Pai Celestial, todas as religiões são iguais em nome de Deus. Contudo, não escondia sua intolerância para com os Crentes, embora lhes tenha algumas vezes visitado a igreja e até deixado que a mergulhassem nas águas de um simbólico rio Jordão!
         
Na casa de Dona Dalva, certas sessões espíritas pontuavam-se por práticas burlescas e até um pouco de farsa, perceptível ao freqüentador atento ou mínima e necessariamente cético para então perceber, senão que ele próprio se dando ao jogo do fingimento, ou ainda, tomado pelo transe e sentindo-o arrefecer, mantendo-o de modo forçado. Por certo enganasse a alguns, mas não a outro igualmente atento, a não ser que um e outro fizessem por manter-se a farsa, mantida a cumplicidade. Lavem-se as mãos e leve-se Pilatos ao banco dos réus.
         
Bom mesmo, pros meninos que acompanhavam os pais nas sessões espíritas, era a incorporação dos gêmeos Cosme e Damião; os médiuns sentados no chão e, com a fala dengosa das crianças, pedindo brinquedos, guaraná e balinhas, exigindo que os meninos presentes brincassem com eles e compartilhassem balas e refrigerante. Uma festa, e uma graça aquelas entidades gêmeas, em corpo de gente adulta, arremedando o comportamento infantil, fazendo beicinho, emburrando e dando birra.
        
 “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas”, admoestação do Evangelho que amiúde se repetia ali nos trabalhos do Centro. Já em suas horas de instrução solitária, além das obras de Kardec, Dona Dalva lia A Cruz de Caravaca, o Livro de São Cipriano com capa de alumínio e, sob o argumento de que se deve conhecer as armas e malefícios do inimigo, folheava também o Livro Negro de São Cipriano, voltado para os feitiços. Costurando-se a boca de um sapo com o retrato da pessoa lá dentro, é o mesmo que costurar perereca de mulher puladeira de cerca. Isso não está no livro, é apenas um exercício ou excesso de imaginação aqui do autor; mas sabe-se que, a exemplo da galinha preta, não se descarta o sapo nas práticas de feitiçarias, tão certo quanto costurar-se na boca de um cavalo morto o nome da pessoa a quem se deseja o mal ou mesmo a morte. Também era certo que Dona Dalva sabia das coisas, tais como as orações de São Marcos Manso e São Marcos Bravo, além do Credo de trás pra frente e outras artimanhas ou invencionices. “Senhor, faça de mim um instrumento da vossa paz”, da oração de São Francisco de Assis, estava sempre em seus lábios, talvez pelo fato de ter sido uma mulher contraditória, caridosa por um lado e por outro muito conflituosa com os outros e consigo mesma, vítima de uma pilha de nervos. Quando não estava fazendo nada, jogava pedras nos entes queridos, mas queria bem a todos, não mais a este nem menos àquele, como fazia questão de ressaltar; caridosa e amorosa a seu modo, criava os filhos dos outros, pois ela mesma não podia concebê-los, em virtude de um “útero infantil”, ou útero virado, vá se saber. Gostava de agradar às crianças e tratar bem aos animais, acolhendo-os em sua casa, sempre cheia de meninos, gatos e cães. No dia de Cosme e Damião, 27 de setembro — fala-se em datas gêmeas, 26 e 27 —, promovia a festa de doces e bolos pra meninada, e de sete em sete anos, pelas graças concedidas por Deus num momento periclitante da saúde, cumpria a promessa de alimentar sete cachorros, colocando diante de cada um deles o prato de comida farta.
         
Pra não faltarem as coisas em casa — nem comida, nem dinheiro, nem saúde —, atirava ao fogo um punhado de grãos de arroz e feijão, açúcar e café, farinha de mandioca e cascas de alho e cebola. Pra purificar a casa dos maus fluidos, provindos do mau-olhado, da inveja ou olho-gordo, acendia incenso, defumador Indiano ou Pai Jacó. Na sexta-feira, botava para feder um chifre queimado — e não é que era até agradável? —, fumegando todos os cômodos da casa e, assim, afugentando de seu lar os espíritos malignos e outros flagelos que andam pela face da Terra. Um banho de descarrego, à base de ervas, livrava a pessoa de todas as urucubacas e de suas próprias inhacas, bodum, cecê ou catinga de sovaco, que o mais se curava à custa de taca com raminho de arruda ou de alfavaca, tudo rimando em aca e banhando-se com álcool e arnica.
         
Dona Dalva era “doutora”, conforme se gabava, meio que brincando, meio que se levando a sério. Dizia que Allan Kardec, professor ginasial de Lyon (França) e ordenador do Espiritismo, fora um médico e ela achava que também deveria ter estudado medicina e se tornado uma doutora de verdade. Outra hora, dizia que bom seria se fosse advogada, afeita que era aos argumentos em defesa de causas alheias ou advogando em causa própria. Já como doutora não precisava de nenhuma ferramenta pra realizar operações; ao contrário de outros médiuns, não enfiava bisturi, tesoura ou pinça no olho ou nos bofes de ninguém; operava apenas com os toques e os passes das mãos mediúnicas, a chamada operação espiritual, sem a sangria de cortes ou a traumática supuração de repulsivos tumores. Antes, havia o ritual de um corpo médico, por assim dizer, em torno do paciente; os médiuns compenetrados e serenos com as palavras e movimentos. O cenário lembrava mesmo uma sala de operações num hospital, mas dava a impressão de estar-se numa outra dimensão da realidade. “Para tudo é preciso preparação de espírito”, segundo Exupéry —, e os preparativos dos médiuns pareciam, com efeito, espiritualmente sintonizados. Ninguém menos do que o doutor Eurípedes Barsanulfo, ou então Dr. Fritz, via de orações e profunda concentração dos médiuns, descia no recinto para realizar a cirurgia. Curioso era que, mesmo estando de olhos fechados, ajudando a firmar a corrente, a gente podia até senti-los, a modo de vê-los em seus preparativos, calçando luvas, como fazem os médicos antes de uma operação. Isso era mesmo curioso, uma vez que luvas ali não existiam; então eram vistas por uma sugestão da mente concentrada, como se ali acompanhasse todos os movimentos. E com aquelas operações espirituais, acredite se quiser, havia quem se dissesse realmente curado.
         
Dona Dalva também fazia revelação do paradeiro de pessoa desaparecida ou de objeto perdido, dinheiro, jóias, retrato ou peça íntima de alguém, desconfiado de que a fotografia ou a peça fora roubada pra se fazer feitiço, tão comuns que eram, naquele tempo, as mandingas de encruzilhada, onde não faltavam a farofa de galinha preta e a garrafa de pinga ou cerveja, das quais faziam bom proveito os boêmios que, às seis da manhã, retornavam de farras etílicas, de porres homéricos, das sem-vergonhices nos cabarés da vida. Havia todo um preparativo pra realizar-se a revelação: Dona Dalva jejuava, tomava um banho de ervas, se vestia de branco e se fechava sozinha num quarto já purificado pela limpeza; alvura de nuvens no céu, ou de capuchos de algodão ao sol, os lençóis e fronhas sobre os quais ela então se deitava e se concentrava de olhos fechados, certamente depois de invocar São Longuinho, da Seção de Achados e Perdidos dos Correios e Telégrafos. Alguma coisa sempre se encontrava naquelas revelações, ainda que não fosse o objeto perdido ou a pessoa procurada; no mínimo, não se logrando os fins pretendidos pela revelação, obtinham-se as palavras de consolo, consolidadas pelo poder de Nossa Senhora da Consolação.
         
Os remédios, Dona Dalva receitava-os sempre naturais: ervas, raízes, sementes e pétalas de rosa. Curava toda sorte de mazelas deste mundo velho, e descobria até ouro enterrado e perdido nos cafundós do tempo — na verdade, de suas noturnas empreitadas pelas fazendas, à procura de supostas tachas cheias de moedas de ouro, e cavando-se a terra segundo suas mediúnicas orientações, houve notícia de terem encontrado apenas uma alça de tacho. Desmanchava feitiço, revelava o paradeiro de objeto roubado, fazia voltar marido malandro e fugido, reatava namoro rompido, recomeçava o acabado. Também lia a sorte, traçava o baralho, pedia o corte, desfiava a vida, o amor e a morte. As rimas vinham nos dizeres dos volantes que Dona Dalva mandava imprimir e espalhar pela cidade, tomando por certo que a propaganda é a alma do negócio; mas este, no seu caso, não ia lá muito bem. O texto rimado partiu de um certo João Ribeiro, pernambucano e poeta de cordel que freqüentava o centro espírita. Dona Dalva gostava de poesia, dizia que poesia fazia falta a este mundo atribulado. Pegava muito com Nosso Senhor dos Passos, pra ele guiar os passos incertos do mundo, e com Nossa Senhora das Candeias, pra ela alumiar os caminhos e livrar a vida de todos os perigos.         
         
Escorada na premissa de que não cai uma só folha sem que Deus seja servido, e na crença de que Deus não tem nenhum filho a perder, rogava por todos, amigos e inimigos, e mesmo pelos bichos brutos e danados. Mas ai de quem a pegasse de pá virada, em fases mênstruas, nos famigerados dias de tensão pré-menstrual, ou já menstruada, e mais tarde ao calor da menopausa, que ela então tinha os seus avessos, sua Lua Negra, seu lado Lilith, o mito arcaico e obscuro, e dava retorno com reza braba, espalhava a peste por toda parte. Bolhazinha de nada virava pênfigo, fogo-selvagem; coceirinha fútil degenerava em ferida, abria-se em carne viva; galinha poedeira logo sofria de oveiro caído, galo tinha gogo, pintinho ficava cego de um olho com verrugas; recém-nascido variava pra zarolho ou perigava do umbigo; mulher casada dava doideira, botava a roupa na cabeça, mostrando as vergonhas; homens de cara feia derivavam pra lobisomens; beatas ficavam histéricas, se atirando pra cima do padre e gritando Eu quero! Eu quero!, que nem um bando de quero-queros alvoraçados. Numa dessas fases negras, a praga pegou até um bobo, coitado: mordeu a língua e ficou ga-ga-gago.
         
Resta dizer que, em dias benéficos, Dona Dalva foi também parteira de mão cheia, ajudou muitas mulheres a parir e aumentar o berreiro da vida.
         
Um dia, carcomida pelos males da idade — cheia de dores e diuturnos gemidos octogenários —, Dona Dalva desencarnou-se deste mundo. Dias depois, seu espírito incorporou-se num médium, só pra repetir, como em vida tantas vezes repetira, que a vida é um livro aberto, que a melhor escola do mundo é o mundo mesmo e que ninguém sabe o que perde senão depois de perdido. Por fim, disse que o mundo é uma ilusão, e que Deus é Deus. Daí se despediu e se foi para sempre.

 

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POR EM 01/04/2008 ÀS 04:38 PM

Expurgos

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Um amigo meu se chama Salomão e é poeta. Vai daí que, em seu nome, enviam-me e-mail pedindo que eu me declare amigo dele, para fins de ingresso dele e meu — se bem entendi — em um blog (hi5) com vistas a visitas e expansão do rol de amigos, “conhecer outras pessoas, falar de literatura e trocar livros”, coisas nessa ordem. Ah, neeem!, logo pensei, batido pelo cansaço de outros envolvimentos nesta vida.
 
Arredio a muita coisa a essas alturas da existência, redigi minha resposta, mas não a enviei ao amigo ou a quem interessar pudesse, temendo eu melindrar suscetibilidades. Ainda estou devendo a confirmação ou não de amizade para os devidos fins, ou para os fins desejados, conforme o pedido. No impasse — envio, não envio —, decidi simplesmente não enviar — indelicadeza minha —, então deletei o e-mail recebido, e guardei a resposta que estava pronta, esta que abaixo publico a título de expurgo, sendo de notar-se que levo a coisa meio que na brincadeira, embora sincero e visivelmente estressado.
 
Caro rei Salomão, como vão as minas? Não as minas de prata do José de Alencar, mas as minas por onde mina o minério de seus poemas. Em outras palavras, como vai o seu veio poético? Cá eu — olha só o que me caiu —, ando a menos na produção de poemas, no mínimo, mesmo, talvez por isso produzindo coisas mais para prosa poética, formatadas de modo caótico.
 
Mas me diz aí um pouquinho mais sobre esse hi5 de amigos, que coisa é essa, que não conheço, pois não sou muito de ficar navegando internet afora, tempo e paciência muita que me faltam para isso. Daí que confirmar-me seu amigo, eu confirmo; todavia, se isso me inclui naquelas monótonas sessões de bate-papo literato via internet, é um saco e um caso sobre o qual se pensar. Pelo exposto, meu tempo vai do mínimo ao escasso, para não dizer que mais me interessam os bate-papos ao vivo, em mesa de boteco, por certo que dentro de certos limites etílicos, e não mais como antigamente.
 
Há algum tempo ando desmotivado com os bípedes semoventes na área da literatura, não me empolgo facilmente. Salvo ocasiões de exceção, nunca fui muito de rodear autores, trocar livros e tagarelar, coisa cansativa e chata, às vezes; e olha só quem está falando: eu, um velho tagarela de rodas literárias. Mas é que, vai indo, bate-me um certo cansaço e a falta de paciência só aumenta. Então prefiro ficar só e quieto no meu canto, desprendido de muita coisa, a salvo de outras ilusões, que não as tenho nem as quero mais por acréscimo.
 
Saca só, um saco cheio de tudo, ou de nadas. E não me interprete mal. Sou meio que um dinossauro dos tempos do hi-fi e do hit parade, então me fale um pouco mais sobre esse hi5 — sem ofensa, essa grafia e sonoridade aí me lembram o famigerado AI-5 da ditadura militar. Se for mesmo para bater bola no campo amistoso do blablablá, sinceramente ando desanimado e sem a paciência necessária, salvo se for por imperativo das circunstâncias. Tecotelecoteco, dê cá o meu jaleco. E pega aí o pássaro negro no abraço deste seu amigo amargo — café com açúcar mascavo —, conquanto risonho, malgrado tudo e mais não fosse em minha boca um gosto antigo de infância perdida e diluído algodão-doce.
 
FRIO DE COBRA
 
Ainda por expurgo, dá-me que eu não encubra uma segunda indelicadeza minha. Outro poeta envia-me e-mail com votos de boa Páscoa e respondo agradecendo-o pelos votos que ele me expressa de boa-vontade, de boa intenção e de bom coração; daí desejo a ele tudo de bom também. E mais lhe digo, na forma em que abaixo prossigo.
 
Embora não sendo cristão nem canibal ao pé de altar, antes um anarcopensador e franco-atirador verbal, como tenho dito e divulgado; eu que não comungo a Páscoa, não fiz a Primeira Comunhão e mal me comunguei — se provei a hóstia consagrada, foi por curiosidade e para dizer que ela tem gosto de copinho ou casquinha de sorvete —; eu que não abraço a farsa natalina, essa falsa festa magna da cristandade, de há muito não rezo mais pela cartilha de credo nenhum, ainda assim, a meu modo, falo com Deus, ou com a idéia que alimentamos de Deus, e até "brigo" com Ele, feito um filho falho.
 
Eu, que não tenho como negar o grande mistério do universo e de uma força que a tudo rege e não sei explicar, isto a que chamamos de Deus — sem que eu esteja convicto da interferência divina na vida humana —, penso na menina Lucélia torturada em Goiânia, penso no suplício público do garoto João Hélio, de seis anos de idade, preso no cinto de segurança do carro e arrastado por bandidos no Rio de Janeiro — que cidade maravilhosa! —, penso em toda a humana barbárie e carnificina que assolam a face da Terra e me pergunto, com a minha alma machucada, por que o bom Deus sempre chega atrasado.
 
Ou será que Deus está a caminho com algum asteróide desgovernado no espaço sideral? E quanto será que custa, que preço doloroso devemos pagar para merecer a tão falada misericórdia divina? O preço do sofrimento da menina Lucélia? O preço da vida inocente de João Hélio? Durma-se com uma desgraça dessas! Durma-se com as nossas desgraças! Os monstros são as nossas aberrações. Os nossos pesadelos. O cérebro avariado e o podre coração do mundo são porões de horrores.
 
Pessoas como os bandidos que mataram o garoto, no Rio, e como Sílvia Calabresi, em Goiânia, que torturava a menina — até mordendo com alicate e mutilando-lhe a língua —, são dignas de alguma piedade humana ou do perdão de Deus? E de que Deus estamos falando, verdadeiramente? A própria Lucélia, que teve os dedos das mãos esmagados e foi obrigada a comer excremento de cachorro, disse que perdoa a sua torturadora. Pode-se retirar daí alguma lição? Dolorosa e comovente inocência! Como crescer para a humanidade que ainda não somos? A humanidade perdeu a qualidade. E já houve quem dissesse — não me lembro quem, mas era pessoa de renome —, que sempre sentia vontade de gritar ao olhar para o ser humano.
 
Ao ser libertada de tanta atrocidade e horror, a pobre menina disse que tinha se perguntado se Deus havia se esquecido dela. Na televisão, o apresentador disse que não, que ter sido libertada foi a prova de que Deus não a esquecera. Sentado diante do vídeo, dei um salto inesperado e um grito incontido: Mas Ele chegou atrasado!
 
Minha tia Rosa, irmã de meu pai — ambos já falecidos —, que era também minha madrinha e mãe de criação, criou-me sob a luz do Espiritismo e sempre dizia que Deus tarda mas não falta, que Deus é bom e sabe o que faz. Lembrei-me disso ao gritar que Deus se atrasou, mas me lembrei também de um verso de Victor Hugo: Por que, se Deus existe, este frio de cobra?

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POR EM 27/03/2008 ÀS 08:56 PM

Almádena

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Já uma vez, aqui mesmo escrevi: tem gente que se acha, pensa que é, mas não é. Pois é. Mas, enfim, ufa! Eis que senão quando surge alguém que só é: Mariana Ianelli. Ela com o seu livro de poemas Almádena — minarete, farol, torre do farol — pela Iluminuras. Iluminada poeta. A palavra mágica, imagética, poética. Até que enfim! “Atinge uma altitude inconteste. Poesia de uma riqueza, de uma densidade, de uma sutilíssima percepção das coisas que nos cercam.” Also sprach Marcos Lucchesi, na primeira orelha do livro, e mais não digo, nem carece, posto que bastante, suficiente. Dá-me, então, que eu não diga, mas já dizendo, e bota “sutilíssima percepção” nisso! Altíssima e refinada, finíssima consciência. Cintilâncias de alma, intelecto e sentimento, de um dom verdadeiramente poético. Mostra que poesia não se faz com varinha de condão, nem com ninharias discursivas, mas consoante as vogais da pauta da criação, divinamente humana, humanamente divina. Coisa fina.
O rito da palavra, o ritmo, a sonoridade. Um lirismo de lírio mesmo, na pureza de suas verdades. Reflexos fulgurantes no espelho do nosso espanto. “Poesia de alta voltagem metafórica”, diz Antonio Carlos Secchin, na outra orelha da obra. Obra que se desdobra e se incandesce de páginas ou pétalas abertas, assim como os vocábulos de um novo dia, ao esplendor do sol. Versos em que até as sombras resplandecem, como o dia que nelas amanhece. Flor de cristal que aflora, poesia à flor da terra ao romper da aurora.
Luz! Mais luz!, pedia Goethe em seu leito de morte. Se vivo ainda fosse e por aqui estivesse, por certo se extasiaria com uma poesia igual a essa. A poesia de Mariana. Dá-lhes, Ianelli! Dá neles, os poetas menores, de parcos albores e nenhures entardeceres. Longe, todos eles, do entendimento para os versos do estranhamento, feitos como que por encanto, com as sutilezas do encantamento.
“Seu apurado domínio técnico elabora uma dicção ao mesmo tempo culta, comovente e perturbadora”, diz ali o Secchin. E vos digo que Almádena é um raro miosótis no jardim das musas. Azulínea, mimosa linguagem, luminosas imagens. Poesia, visagens, cosmogonia do ser, jogos de sombra e de luz, seu livro reluz na penumbra minimalista da “poesia” brasileira.
 Menina Mariana, em boa hora sua obra nos chega com os seus fulgores. Seus poemas inflamam o prazer de ler, sua poesia se faz chama e extasia o leitor. Ide e levai-o, ó escribas e fariseus hipócritas, aos quatro cantos da Terra, para que todos vejam o livro e bebam desta fonte viva, deste cântaro de água nova, para que ouçam o canto culto, mescla de um molde clássico e de uma forma eclética, no sentido aberto e pós-moderno do termo, não para ressurgir o passado, não para destruir o moderno, mas sim coexistir com todos os tempos e modos, como cumpre ao poeta, como compete à poesia. E tenham todos um bom dia.

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POR EM 18/03/2008 ÀS 10:44 AM

The dance of the intellect among words

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Gertrude, Gertrude, não me ponhas em bocas matildes, pois uma rosa é uma rosa, outra coisa uma glosa, logopéia para Ezra Loomis Pound, pífias epifanias para Jesse James Joyce. A rose is a rose já é feijão com arroz, ou vinícia rosa com cirrose, e mais vale um pombo de chumbo voando rumo a Plutão, do que a glória de doze césares com osteoporose na mão.
 
Nada de novo no frontispício das obras, além dos fátuos frangos de vanguarda e um telhado de urubus po(u)sando de pombo. Tudo redondo feito losango. O ovo é o óbvio, cozido ou cru. A rosa é a roça do povo, a pedra, a vida, no caminho de Drummond. Oui, oui, o trem já passou por aqui — object-trouvé, dèjá vu —, c´est la vie que nem sempre é toujurs, e vamos todos plantar chuchu.
 
Contudo, um punhado de dedos dados ao lance é olho de lince na pinça da percepção: trespassa a mesmice — insossas conversas difusas — e mostra com quantas volutas se dança a valsa na rosca do parafuso. Mais que asas à imaginação, dê-se imaginação às asas — quase a mesma coisa, salvo a pendular sutileza.
 
Há uma festa nos refolhos da rosa, na íris inquieta do prisma, no caleidoscópio das coisas — voilà!, la même chose. A dança da rosa na rosca vertiginosa — as formas da dissonância, in essentia — tergiversa e faz a diferença.
 
Em face do que se me oferece, passo dois dedos de prosa da província e suas diversas espécies de carrapatos, algumas carcaças de tatus-ninja, uma rima fácil e um verso-fóssil: troco pelo salto-mortal duma pipoca, e um pouco de sal no algodão-doce.
 
Oh, não me tomem por insolente, antes pela inquietude impertinente, ou pertinência da arte. Por cacos de bricabraque, a louça de quem brinca, Mandrake, e amiúde se corta. O corte, que importa, se a morte é a vida que nos brinca? E como figurar-se, de resto, num velório de moscas, quando se trata de uma festa que se começa onde acaba e se acaba onde começa? Riverrun, Dublin, firinfinfinnegan.
 
Se sabonete vale quanto pesa, e vale uma grosa doze dúzias, pese-me o que valha a grisalha glosa — o gozo do ferro-gusa —, e me guarde o velho anjo da vanguarda, ou valha-me zombeteira gralha. Bumerangue não me jogue grogue no ringue, com a groselha de uma droga. Não me beba o sangue nenhum sargento-buldogue, a soldo de um dogma, nem me afogue no mangue uma gangue de dobermanns, e não me comam as sobras os açougues da vida.
 
Minha vida é um brinquedo, meu nome é Jó Zezinho. Brinco na dança do intelecto, brinca o homem com o poeta, e o menino se completa. Depois, vira passarinho. 
 
 
Prefiguração de sombras
 
Coisas de Mefisto, o mago, o bruxo de feltro negro, aba que se quebra sobre uns olhos de fogo azulego, pupilas pontiagulhas. Manto de azeviche que se abre e cobre os ombros de Fausto; la tête avec le chapeau et le fleur de Mefisto. Sombras-salamandras no texto sinistro, rastros que se alastram em fios de sutache. Livro dos pactuados, os iniciados da noite, os namorados da morte. Vende-se um caixão usado. Longa vida aos suicidas, que só dormem acordados.

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POR EM 15/03/2008 ÀS 02:26 PM

Paradoxos da Tropa de Elipse

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 Mãos na cabeça! Pro chão! Todo mundo pro chão! De bunda pro céu! E você aí, tá olhando o quê? Pá! — a mão no “pé-da-oreia” e o “elemento” catando cavaco — É a polícia, vagabundo!  

Mas o que é isso? Mistura de ação policial, simulada, com filme de bandido? Que nada. Foi só a chegada da Tropa de Elipse, no sentido greco-etimológico do termo, para “omissão”. Certo, mas omissão da parte de quem? Do comando geral da polícia? Do governo estadual? Do governo federal? Ou da própria sociedade? Omissão ou inoperância de todos, sim senhor.
 
Gramaticalmente, omissão de palavra que se subentende. Estamos entendidos? Pra quem sabe ler, um pingo é arma obsoleta. O bandido vem com tecnologia bélica e a polícia ainda vai de escopeta ferrugenta. Só falta ir de estilingue para o confronto desigual. E assim vai indo o sistema de segurança nacional.
 
Quem tem medo da polícia? “Não tenha medo da polícia, mas respeite as instituições policiais”. Palavras oriundas dos comandos policiais. Com isso, procura-se, no primeiro segmento da mensagem, tranqüilizar e conclamar a população a participar mais do processo de segurança pública na baleada e combalida República. Implicitamente, reitera para a opinião pública as reais funções das polícias, no sentido de combater o crime, garantir a ordem e a segurança mesma. No segundo segmento, observava — e adverte, subliminarmente — o respeito devido pelos cidadãos aos policiais, na forma de reconhecimento e colaboração. E quem está respeitando quem, a esta altura de capar o gato, ou do campeonato?
 
Pertinente é que se harmonizem ou se equilibrem o senso comum e o consenso geral — como se diz —, numa sociedade abalada pelo inchaço populacional das cidades, gerando bolsões de misérias sociais — em (des)níveis econômicos e cultural — e, conseqüentemente, fomentando a criminalidade, mãe da violência. A essa violência acrescenta-se aquela cometida pelos próprios policiais, via de regra pela arrogância, prepotência, exibicionismo — andam a ver filmes americanos e policialescos por demais —, abuso de autoridade. Atos inaceitáveis, pois ferem os direitos e asfixiam o clichê da liberdade aos cidadãos de bem, contribuindo para acentuar a tensão social e o clima de uma sociedade irrespirável.
 
Vai-se preso e é-se desacatado por um-nada, por conta do arbitrário recurso ou argumento do “desrespeito à autoridade”, sem se falar em outros expedientes igualmente condenáveis, senão piores. Daí deriva-se o primeiro medo da população diante do policial, num paradoxo absurdo. Não fosse o medo de cada um, sobretudo o medo de represálias, muitos cidadãos contariam o que sabem e o que sofrem aí pelas ruas de suas cidades, amiúde na calada da noite, de forma até sorrateira, com os faróis das viaturas apagados e as sirenes emudecidas, para não chamar a atenção das vizinhanças. De tal sorte, numas horas dessas é que o cidadão, indefeso, desamparado e desesperado, se pergunta se Deus também está dormindo.
 
Um segundo medo se origina nos desvios de conduta do policial que se bandeia e se corrompe, passando a desempenhar duplo papel, atuando também como bandido, absurdo dos absurdos, avesso do avesso e agravamento do insustentável caos social. Cumpre à sociedade colaborar, denunciando, sem medo — esse é o nó da questão, por razões óbvias, e até mesmo na denúncia sob anonimato —, para se resgatar a credibilidade das instituições policiais, na parte podre que as denigre perante a opinião pública.
 
Bom seria, para ambas as partes — polícia e sociedade —, a suprema observância aos direitos e deveres. Uma crescente participação social no processo de segurança pública tenderia a amainar o chavão de que a polícia é um mal necessário; o inverso seria que a polícia é um bem social, até porque, lamentavelmente, por conta de índoles individuais ou coletivas — muitas vezes por culpa das contradições sociais —, o homem não é um ser plenamente autogovernável, no sentido essencial e universal da palavra.
 
A mais dolorosa verdade, em tudo isso, é a impunidade de quem quer que seja no contexto da segurança pública, a par com o cômodo silêncio, a criminosa omissão ou conivência das autoridades que representam os poderes constituídos. Cega, a própria Justiça, às vezes, por suas próprias conveniências.
 
Mãos na cabeça! Pro chão! Todo bode expiatório tem a cara safada do cidadão, a vítima.
 


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POR EM 04/03/2008 ÀS 04:24 PM

Canhestros cantares para Ezra Pound

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Ergue-se dos escombros o castelo dos escandalos. Ergue-se com todos os mortos, os duques, os barões, os vassalos, os anões. E as armas, os brasões, os galos da aurora, os cães, os vilões da história. Aprumam-se os galgos soberbos, e os cavalos de Tróia; abertas as portas e as coxas da fortaleza a uma nova temporada de caça à raposa, aos patos selvagens de Ibsen, aos pombos-correios traídos, de conúbios proibidos.

Reacendem-se os salões, as valsas, valquírias e vanessas da volúpia. As taças, os leques, os mexericos e as paixões da terra, da carne e de guerra. Combates de fronteiras, a morte por honra de espadas e pistolas, vulvas de alcovas por alvitre de alcoviteiras. No castelo de Kafka, ou na casa de Usher, Urfaust e Mefisto afiam os garfos sinistros e destrincham — tridentes do Diabo — os crepitantes faisões dourados. Corações ao alto! Je-sus! Je suis très content de ma vie!, dit Le Faisan, o Virago, l´enfant terrible sur la table do provençal antigo, e ali convidado. Porcelanas da china e coisas francesas ressurgem das “caixas da vida” para a mesa. Dinastia Ming, mandarins, samurais e mais linglings, além do mais os jingles do jazz, king´s camundongos e amendoings. Um anjo da guarda com uma asa quebrada; os lábios escrofulados.

Relâmpagos. Os espelhos de fogo: hirsutas taturanas, eriçadas nos sobrolhos da censura. Que fúria! Centopéias, centelhas ainda acesas nas pupilas do pater familias, o corno, o morto quando vivo no retrato. O corvo de Allan Poe sobre o busto de Palas, à porta de bronze da grande sala, onde se resguarda óleo sobre tela: aquela por quem os castelos se erguem e se desmantelam com suas muralhas e seus colares de pérolas: uma mulher madura, vestida de verde, veludo verde-musgo, e ali com as jóias de sua eterna infidelidade — fiel apenas a si mesma, por maior a lealdade, ainda flerta com os artistas que a visitam.

Um toque de Midas a tudo transmuta em besouros de ouro para usos e abusos da usura de absurdo castelo. Mais fácil um camelo passar pelo buraco do rico e aí comê-lo. O monstro de Minos — Minos, o corno —: o menino-touro, o bastardo que devora as donzelas por querelas de labirinto, ou só por querê-las, belas filhas de Creta, com o pólen dos mitos e a borboceleta de Pandora. Ó greta, gruta de onde e por onde todo homem chora!

Abandono e oblívio, agora. Onde o esplendor da relva de Woordsworth, as fanfarronices de Walt Whitman? Aurora! Aurora! Os berros de Nietzsche. O sono das crisálidas incubadas no livro das metamorfoses. Ó vídeo! Fezes na carcaça do trem-de-ferro. Ferrugem, fuligem nas estações de Vivaldi. O tempo imóvel na carretilha da cisterna. O balde baldio, no terreno rosicler. A pedra eterna. O rio. O spleen de Baudelaire.

Os capítulos romanos, artifícios do efêmero, se anulam com a marcha interrompida na caixa de estrondos. Pêndulo parado. Oh, gangorra dourada, o que se fez da vida? Por trás da porta do tempo, o fantasma de Albertine desaparecida folheia e vasculha os sete volumes de Proust, à procura de tudo, em busca do existido. Tire, Albertine, tire o vestido: o corpo é um deserto sempre redescoberto.

É finda a temporada de caça à raposa. Uma rosa é uma rosa, um cavalo é um cavalo. Deita-o sobre os próprios escombros a implosão do castelo. Cai o pano de fundo. Abrem-se as janelas e a jaula de Pound. If love be not in the house there is nothing. Se não há amor na casa, não há nada. 


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