A questão não é condenar a tecnologia, mas ver a forma como está sendo utilizada
O fórum com enfoque para o Cerrado, importante bioma brasileiro, paulatinamente ameaçado de extinção por ações predatórias do homem, foi inserido como uma das prioridades do 10º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), na Cidade de Goiás, e a primeira parte aconteceu na quinta-feira, 12 de junho, no Teatro São Joaquim. Sob o tema “O Cerrado, o Clima e o Meio Ambiente”, o fórum foi aberto pela presidente da Agência Goiana de Cultura (Agepel), Linda Monteiro, destacando que a realização do evento fortalece as discussões ambientais, especialmente com o tema do Cerrado, tangenciando questões que hoje perpassam o mundo todo. “Se nós, egressos do Cerrado, não nos posicionarmos nessa discussão, que é uma questão de defesa do cotidiano, estaremos em falta com as futuras gerações”, acentuou, citando as crianças como verdadeiras defensoras das questões ambientais. Os debates em torno do Cerrado foram um dos pontos altos da décima edição do Fica, realização do governo de Goiás, por meio da Agepel.
Coordenado por Altair Sales, graduado em Antropologia pela Universidade Católica do Chile, com especialização em arqueologia e geologia, o Fórum do Cerrado contou com a participação de Harlen Inácio dos Santos, doutor em Ciências Ambientais – Gestão de Recursos Hídricos, pela Universidade Federal de Goiás, falando sobre “Desafios para a gestão dos recursos hídricos do bioma Cerrado”. Outro convidado presente, com o tema “Uma reminiscência do Cerrado”, foi Binômino da Costa Lima (Seu. Meco), membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e detentor do título de Notório Saber, conferido pela Universidade Católica de Goiás.
O terceiro palestrante convidado, o biólogo e ambientalista João Paulo Capobianco, secretário-executivo do Instituto Sócio-Ambiental, do Ministério do Meio Ambiente, que faria a palestra inicial, sobre “Políticas para o Cerrado”, não pôde comparecer por motivos de força maior. Altair Sales destacou a importância do fórum, com um tema de suma importância não só para a vida do Cerrado, mas de todo o planeta.
Interferência e destruição
Binômino da Costa Lima, o Seu Meco, morador e conhecedor da região de Jataí (GO), no sudoeste goiano, tendo sido um dos fundadores da Sociedade Ecológica de Jataí (Seja), iniciou sua palestra falando de coisas, na natureza, que “a visão normal das pessoas às vezes não percebe”. Se as reminiscências tiveram um certo tom poético, também os teve tragicamente telúricos, com laivos de ironia provocando risos da platéia. Mostrando que, a cada dia que passa, aumentam as interferências e destruições no bioma Cerrado, o palestrante deu o seu testemunho sobre o ciclo dessa destruição: o boi, a soja e agora a cana. Ilustrou o cenário falando da chegada dos tratores, a destruição das gramíneas nativas e das raízes profundas que não vão mais brotar.
“Trocou-se o boi pelo trator, plantou-se o capim brachiaria onde havia capim-gordura. Com o trator, veio o boom da soja. O gringo chega diante de uma árvore que nem conhece e que sua família nunca plantou, e derruba-a. Os invasores não trazem melhorias, não fazem nada, e quando tudo se acaba, eles procuram outro lugar para destruir. De uns tempos para cá, estão derrubando tudo. Destroem o Cerrado e vão para a Amazônia. Estão drenando, planando, arando e liquidando, destruindo as nascentes dos rios. Só em Rio Claro (GO), nove nascentes já secaram”, acentuou, indignado. E finalizou dizendo que, no Brasil, o que é bom acaba, e o que é ruim só aumenta.
O problema da água
Harlen Inácio dos Santos iniciou sua palestra informando que abordaria “temas mais áridos, menos romântico de se ouvir, porquanto cheio de tabelas e leis”. Enfatizou a questão da água, a gravidade ou não da problemática da água no mundo, lembrando os rumores alarmistas de que a água vai acabar e que a guerra futura será pela água. Explicou o significado de “recursos hídricos”, que se referem ao excedente do uso da água, bem como de “água potável”, expressão, segundo ele, usada indiscriminadamente. Esclareceu que água potável é produto industrial que deve se adequar ao consumo humano, conforme portaria do Ministério da Saúde, e que a expressão “água doce de qualidade” indica facilidade de tratamento para se obter água potável.
Com essa ligeira didática, Harlen conduziu sua palestra para o entendimento da platéia em relação ao uso da água. Discorreu também sobre o que vem a ser “uso consultivo” e exemplificou: se você tira água de uma bacia de rio, sangra a vasão e a água não volta mais para o rio. No sistema de irrigação por meio de pivôs, por exemplo, ocorre muita vasão de água. Já no caso da energia elétrica, por meio de usinas, utiliza-se a água e a mesma retorna à sua origem, tendo-se aí o “uso pouco consultivo”.
Com relação ao Cerrado, observa-se um diferencial importante, com o regime hídrico ou permanência de vasão em determinados períodos, definidos como máximos, médios e mínimos, conforme a estação chuvosa ou de grande estiagem. Segundo Harlen, o que deve ser visto pela política da água é a disponibilidade hídrica, sendo a densidade populacional fator fundamental para se estabelecer disponibilidade. Resulta que no Brasil a distribuição de água não é uniforme, e que a água, silenciosamente, é limitante do desenvolvimento. Para quem afirma que o problema da água não é o mais importante, Harlen cita as palavras do jornalista e ambientalista Washington Novaes: “Se a água não é o problema mais importante, é o mais urgente pelo seu envolvimento na saúde pública e no desenvolvimento”.
Riqueza mal-distribuída
O doutor em Ciências Ambientais, Harlen Inácio dos Santos, afirmou que o Brasil é extremamente rico de água, com a maior disponibilidade hídrica no planeta. O país tem disponibilidade, mas a distribuição não é homogênea. Falta uma política efetivamente funcional para o setor. Frisou que além da escassez pela pouca disponibilidade de água, a distribuição desigual da população acarreta escassez pela demanda excessiva. Listou como ameaças à preservação dos mananciais o lançamento de afluentes (lixo) domésticos e industriais sem tratamento; distribuição inadequada dos resíduos sólidos; destruição da vegetação ciliar; assoreamento dos rios; impermeabilização progressiva os solos; exploração crescente dos aqüíferos subterrâneos sem a realização de estudos necessários. Harlen chamou a atenção para o fato de que os rios não diluem o esgoto doméstico e industrial, mas o esgoto dilui os rios.
Ao término do Fórum do Cerrado, o palestrante comentou que a política brasileira para a questão da água é confusa, sem maior conhecimento, enquanto o governo favorece as fronteiras agrícolas, com todas as conseqüências nocivas, e sem a preservação do meio ambiente. Daí a expansão dos canaviais e das monoculturas, comprometendo grandes áreas de Cerrado.
Na seqüência
O Fórum do Cerrado continuou na sexta-feira, 13, no mesmo local, com palestras de Edson Sano, abordando o tema "O Cerrado e o agronegócio", e Mercedes Bustamante, com enfoque para "O Cerrado e o meio ambiente".
Enfoque para o agronegócio
Em seu segundo e último dia, o Fórum “O Cerrado, o clima e o meio ambiente”, coordenado pelo professor Altair Sales, no Teatro São Joaquim, contou com palestras de Edson Sano, PhD em Ciência de Solo pela Universidade do Arizona (Estados Unidos) e pesquisador da Embrapa Cerrado (Brasília), com o tema “O Cerrado e o agronegócio”, e da chilena Mercedes Bustamante, doutora em Geobotânica pela Universidade de Trier (Alemanha), abordando “Mudanças de uso da terra no Cerrado – Impactos climáticos”.
O fórum se iniciou com Altair Sales historiando, numa longa e verdadeira aula, o surgimento do planeta Terra desde o Big Bang ou explosão originária do Universo, com as massas disformes resultantes começando a girar em torno do grande centro de energia que mais tarde seria o sol, uma estrela de quinta grandeza. Essas massas disformes começaram, então, a configurar o planeta Terra, que mais era uma bola de fogo por conta da queda de meteoritos.
Num segundo momento, entraram em cena os minerais silicatados, compostos por átomos de hidrogênio e de oxigênio. Apareceu a água em forma de vapor — originária também dos meteoritos congelados —, e começou a circular em torno da Terra. Com o tempo, a forma nebulosa foi se condensando e formando grande quantidade de nuvens na atmosfera terrestre. No estágio seguinte, a Terra era uma bola de água, um grande mar que envolvia todo o globo.
As explanações de Altair Sales se estenderam, passando por diversos estágios ou períodos de formação do planeta, até chegar ao Cerrado, a mais antiga forma de vida (45 milhões de anos) na história da Terra, que surgiu há 65 milhões de anos. Pois bem. Coube ao Cerrado seqüestrar a grande quantidade de carbono acumulada sobre a face da Terra, sendo este bioma o maior seqüestrador de carbono e, por isso, o maior responsável, também, pela sobrevivência da vida no planeta. Estão no Cerrado três aqüíferos fundamentais, compostos pelas bacias Amazônica, São Francisco e Prata. As três bacias se unem no coração do Brasil, a região Centro-Oeste, e por razão delas foi criada a Reserva Ecológica das Águas Emendadas, em Formosa (Goiás). Reside aí, nas águas, a importância do bioma Cerrado.
Ideologia nociva
Altair Sales inseriu que em 1970 surgiu a ideologia multinacional chamada Revolução Verde, de contraponto ao comunismo, para que este não ocupasse espaços em regiões importantes do planeta. A Revolução Verde, segundo Sales, causou um grande prejuízo ambiental, de forma irreversível, pois, uma vez degradado, o Cerrado não se recupera mais. Uma das conseqüências da herança deixada por essa “Revolução” foi o surgimento dos “Sem”, em três categorias: Sem-Terra; posseiros desprovidos de títulos legais e expulsos das terras por grandes empresas que registravam as propriedades em cartório; Sem-Teto, conseqüência da expulsão dos posseiros, e Sem-Papéis, categoria dos sem-documentos da terra.
Sales citou algumas conseqüências sociais desse processo. "As mocinhas", filhas dessa categoria dos Sem-Documentos, vieram para a cidade e se prostituíram. Aumentou-se o índice de criminalidade em que a vida se tornou uma coisa banal, que não vale nada. Isso gerou uma situação de omissão, impotência e angústia, deixando as pessoas sem forças para lutar por um mundo melhor e até pela própria vida. Uma angústia neurótica, no sentido de que a vida não vale a pena.
Mapeamento da Embrapa
Edson Sano, com o tema sobre Cerrado e agronegócio, falou sobre a existência de projetos desenvolvidos pela Embrapa, relacionado com o uso ocupacional deste bioma que é um sistema complexo e heterogênio, “berço das águas”, com uma grande biodiversidade. O Cerrado, disse ele, é um dos biomas mais ameaçados do mundo, por favorecer a exploração agrícola, oferecendo topografia relativamente plana, atrativos preços da terra, incentivos governamentais e outras vantagens de ordem econômica. Quanto maior o favorecimento governamental para fomento da fronteira agrícola, maior a ocupação do Cerrado e maior a degradação do meio ambiente.
Sano apresentou mapeamentos realizados pela Embrapa na região do Cerrado, mostrando aspectos negativos da exploração irracional e revelando que cerca de 40% do bioma — 80 milhões de hectares — são utilizados para exploração agropecuária. Apontou também a intensa utilização de pivôs de irrigação no Cerrado, que chegam a seis mil (dados de 2002). Edson Sano defende o equilíbrio entre a produção animal (boi) e a vegetal (grãos). Disse, ainda, que o agricultor não utiliza devidamente a tecnologia disponível, e não pratica o plantio direto, sistema com mínimo revolvimento do solo, mas sim o plantio convencional, que revolve o solo, expõe os microorganismos do subsolo à radiação solar e, assim, destrói a biomassa, além de contribuir para o surgimento de erosões.
De acordo com o pesquisador da Embrapa, é preciso minimizar o revolvimento do solo, convencendo o produtor de que isso é bom para a preservação do meio ambiente. O objetivo da Embrapa é estimular a adoção de tecnologia positiva, harmonizando maior produção com a conservação do bioma Cerrado. Edson Sano falou também da produção de biocombustíveis no Brasil, onde novamente se tem a presença do Cerrado, pelas condições favoráveis do mesmo. Segundo ele, é preciso racionalizar a ocupação do Cerrado, aplicando critérios de indicação de áreas favoráveis, entre outras medidas necessárias para se conter a ocupação desordenada e destrutiva.
Edson Sano disse que a Embrapa desenvolve, também, um projeto voltado para a fraude ou “trambiques”, como ocorre com o café, que custa caro para o produtor e, por isso não é puro, pois vem misturado com açúcar mascavo, cevada, cascas vegetais, madeira, soja e outros. Sano afirmou que a empresa busca alternativas para se utilizar o Cerrado e explorar o agronegócio de forma a mais racional possível.
Impactos e alternativas
Mercedes Bustamante enfocou possíveis impactos e alternativas para o Cerrado, mostrando como as mudanças ambientais globais podem alterar a vida na Terra. Explicou que o clima é um sistema de resposta em cascata e que o termo “população” significa o uso intencional, não aleatório, do meio ambiente. Falou da necessidade de se trabalhar de forma um pouco mais racional na utilização da terra, e observou que a agricultura permanece no centro da crise global, sem precedentes, no campo da biodiversidade, com uma grande sobreposição de áreas agrícolas e de áreas protegidas.
A palestrante mostrou o outro lado do desenvolvimento no Cerrado — perdas —, que precisa entrar na equação econômica. Explanou sobre o uso da térrea do Cerrado, lembrando que a bovinocultura, em tempos mais remotos, era a principal atividade de uso da terra. Por volta de 1970, começou o desenvolvimento agrícola, com um conseqüente aumento da população humana. Falou, também, das atividades agrícolas causadoras de emissão de gases — metano e outros —, do efeito estufa. Discorreu sobre as perdas da vegetação natural, como a mata ciliar, mata de galerias e as savanas, bem como as conseqüências das freqüentes queimadas, que reduzem a densidade das espécies lenhosas e favorece a formação de gramíneas, que secam e produzem mais biomassa para mais queimadas. Mercedes detalhou a morte provocada das raízes profundas, relacionadas com o armazenamento de carbono no subsolo, e apontou a necessidade de manejo racional para se conservar o estoque de carbono abaixo da superfície da terra. Para ela, não é só transformar o Cerrado, mas também pensar na interação e no equilíbrio entre o solo, o animal e a vegetação.
Com relação a expansão dos biocombustíveis, Mercedes disse ser necessário associar produção de alimentos e geração de energia, e que a conversão de grandes áreas podem colocar ainda mais pressão sobre o meio ambiente. É preciso ver onde se planta e o que havia plantado antes no local. Culturas de biocombustíveis onde havia áreas de floresta, aumentam a presença de carbono, além de débitos causados por desmatamento. “Então é preciso pesar melhor essa questão de agrocombustíveis, meio ambiente e saúde humana. Deve-se ter uma visão mais sistemática do processo, levando-se em conta a sustentabilidade e os impactos ambientais, além de definir políticas, em escala nacional, que contemplem todos os aspectos, incluída a questão dos preços de alimentos”, acentuou. Enfatizou a necessidade de planejamento e incentivo para que áreas degradáveis sejam produtivas. “Discurso já existe neste sentido, falta transformar isso em realidade”. Finalizando, Mercedes Bustamante disse que não há confronto entre desenvolvimento e preservação. A questão não é condenar a tecnologia, mas ver a forma como ela está sendo utilizada.
Conclusão
Se um fórum sobre o Cerrado não traz ou aponta soluções imediatas, num primeiro momento contribui para maior conscientização sobre a realidade do bioma ameaçado, o que ficou evidente com os questionamentos da platéia ao término das palestras no Teatro São Joaquim.
*
leia mais...