Desenho de  Wendy MacNaughton
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Valdivino Braz

POR EM 15/07/2008 ÀS 03:00 PM

Ossos do ofício

publicado em

A PEDRA
 
Sísifo não dorme. Enquanto descansa, carrega uma pedra enorme. Não se dá trégua. O tempo do mito não se acaba. A pedra é sempre a obra inacabada. A pedra se avulta. O ombro é alavanca, e como queria Arquimedes, o mundo se movimenta. O tempo do mito não se mede, a vida é que se perde, desmedida. Toca então a rolar a pedra. O que vai fazer à tarde? Emendar-se com a noite, inteirar-se com o dia, com a pedra moída desta vida miúda, que é onde o nada se faz grande. 
 
Símbolo do poeta, Sísifo sustenta a maldição de um mito. Devemos imaginá-lo satisfeito, como Camus nos diz? Mirem-se os neófitos no mito de Sísifo, por certo que um poeta não muito feliz. Mirem-se no exemplo de Atlas, que a si mesmo sustenta com o mundo nas costas. Qual é a graça na marcha da tartaruga, acachapada com a sua carga e se levando de arrasto ao longo dos séculos, debaixo de um casco? O que deduzem do caramujo com a casa em parafuso e a gosma de nojo da vida-lesma? A bombordo, marujos, que a vida é mesmo suja. Entre fezes e urina o homem nasce e morre, a gosto de Agostinho. 
 
Poesia se faz com alguma alegria, podendo vir a ser também a casa da tristeza, uma tristeza que se oculta, ou se avulta para morrer. A glória? É uma outra história. Pedra que se rola ao longo de subidas e descidas que não se acabam. Árduo fardo, a vida em dobro. Condenado ao suplício da pedra, Sísifo é o sofrimento de uma perda, alguma coisa de si mesmo, que se perde pela metade, a parte que o tempo vai comendo pelas bordas. O que sobra é o que se guarda na eternidade. Na superfície da pedra, no atrito, no suplício, os hieróglifos de Sísifo. Ossos do ofício. A glória, ainda que tardia. Quem sabe, um dia? A pedra se lapida. A pedra é a vida. Então não lhe ouves as batidas do coração? 
 
LABIRINTO EM FLOR
 
Criar, criar, até florir, incendiar-se o labirinto em flor. Arranjos florais de uma desordem — girassóisgirândolas em chamas —, o caos dentro de sua própria ordem. Criar a palavra, desaguar emoção e aí procurar a razão. No caos entre uma e outra, o poeta se sustenta. O caos cria, desfaz, diferencia. O poeta não se constrói com a forma, antes se desmorona, mais familiarizado com o fundo, sua fôrma. Pêndulo no fio de equilíbrio — gangorra absurda, a um visgo do nada —, o criador cria vertigens e vê o fundo de sangue de sua vida, sua obra, seu ofício. Imenso, o abismo de um verso. Poesia é isso, o cão roendo seu osso no labirinto, e o pássaro que se esvoaça de um verso. A coisa oclusa é o que pisca no trisco do insight. Zás! A serpente é a luz. A imaginação complementa, ou cria completamente. Flash. Estalos vagalúmeos e aeronáveos na noite lá fora. Uma vela acesa na sala, aura de insetos elípticos, e na dança dos átomos a vertigem do espectro. Protrátil, a língua réptil salta e captura um cisco de luz. Toda se ilumina por dentro, a lagartixa transparente. Espoca o flash, ampliando a noite: o poder oculto ou foático, elétrico e ígneo , é o caos de tudo a todo instante, na mente do homem e nas tripas do réptil. 
 
BUMERANGUE
 
O círculo se remete a si próprio — alvo de seus propósitos —, ao próprio texto e objeto, se não ao texto de origem e conflito, o texto-pai, o Outro, abjeto. Nem trágico nem cômico. Patético, andar em círculos. De um mesmo contexto ou circunferência, a lesma aderente ao rastro, palimpsesto da influência. Eco ou reflexo de outro, nunca um texto é único na biblioteca do labirinto. E o que busca de sua integridade, além de si mesmo e da outra metade?
 
Biflexo, o texto sobreposto ao esqueleto de outro, já em si próprio ó inferno!, o mesmo Outro paterno. Resulta que um no outra se imbricam com as tripas de um triplo — ego scriptor —, e todos a um só tempo se intercomunicam. Não implica que a coisa não se complique, e que não haja conflito. O ser bilíngüe e a língua em terceira dimensão, com a mão esquerda da escuridão , a mão que balança o berço à beira de um verso abissal.
 
Hospedeiro ou mutuário, de quem o corpo morto? Seja feito o corpo de delito, expedido o atestado de óbito, expedito o post scriptum. Posto que morto, enterre-se o defunto, e sangre-se o porco. À sombra do paterfamilias, a metalinguagem é uma ilha.
 
O círculo circunscrito à sua mesmice, falece à força do vício. Há que promover a desordem em sua própria ordem. Serpente que se biparte, curva de corte, foice ou hélice da morte, a palavra se solta. Pássaro de sangue, o bumerangue. 
 
A CURVA DA PALAVRA
 
A palavra se salva e se cumpre na volta de sua revolta. Ave que se aventura ao romper da aurora, retorna ao pôr-do-sol e procura a hora verdadeira. Clara ou noturna, a palavra sempre se apruma, e retorna. Se não retorna, se não dá mais sinal de vida, é uma palavra perdida. A palavra que se retira é o retiro da mentira. O que sobrevive na curva na palavra é a parte viva, a parte nova. Na quarta parte nova, ara. Se mais mundo houvera, eu lá chegara. 
 
AS ESCARPAS DO OLIMPO
 
Os dias, os dias e os dias. Os dias-ossos, duros de roer, que o dentro é o que rói seus dias de cão. As letras, moscas, máculas de ósseos ofícios. Os degraus da rocha por onde desço: Sísifo, cansaço de artifícios. Ombros de chumbo, como nas costas de Atlas a bola do mundo. Nas escarpas do Olimpo, carrego a pedra dos rins e bebo a água do (ab)sinto: a ilusão de consolidar-se uma obra, toda uma vida, que se tira do nada pérolas de madrepérola, ou leite das pedras, ao avesso das cabras. Sobras de uma, sombras de outra, vida e obra se consolidam na ilusão de ambas, tão certo quanto incerto o futuro, tão claro quanto surpreender-me no escuro. Mas que diabos! Há um cão mais arcaico do que lamber-se o branco, feito coito? Já devia ter-me acostumado à idéia da inutilidade de tudo — esquecer-se de si, matar-se de vida por uma obra.
 
Tenho moído as pedras desta vida, e soprado os fantasmas do pó. Mão e mó de moer-se sozinho, o sonho é que move os moinhos. Prevalece o branco — a óssea resistência, a imponência da rocha — onde a vassoura dos ventos junta a ciscalha dos signos. Tenho varrido as folhas de tudo, as quedas do tempo, as sobras do sonho, a munha, no moinho dos ventos. Nos bolsos ainda apanho sustos, ainda alguma ilusão de Olimpo, o cisco do redemoinho das formas. Ainda uns fogos da noite, sonâmbulos relâmpagos, incendeiam meu quintal de figos efêmeros, os maduros imaginários do relógio.
 
Ocupado em viver a morte que me vive, vivo
enquanto agonizo.
 
O tempo é um maestro de facas, e a vida o gemido rasgado de galos que morrem, mas agora a tudo tempero com a salsa da indiferença: já nem ligo para os furos nos bolsos, por onde tudo vazou: as pedras moídas nas horas desertas desta porfia à revelia de ampulheta. Toda perda, os frutos que perdi. Todo branco, a poeira que comi. Mas não se eleva do pó o Olimpo dos reveses? Vá que ainda me limpo na fortaleza dos deuses. Ah, pendurar-me o suor num prego, me banhar com a água do sossego!

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POR EM 08/07/2008 ÀS 09:14 AM

Os pombos de Bemmal na flauta de Eros

publicado em
Tratado picante da carne apimentada e do apetite sexual
 
Bemmal —
 
Nominação do autor para o reino do Bem e do Mal, onde a fusão gráfica elimina a dualidade dos limites e o nu será abençoado em contraponto ao vaticínio de Nelson Rodrigues: “Toda nudez será castigada”. Oh, não nos castigue o azorrague moral da culpabilidade, pois está escrito: Ide e comei-vos uns aos outros. Subliminar, meu caro Watson. Crescei e multiplicai-vos. Mas já não passam da conta os seis bilhões de bocas devorando o planeta, feito uma praga de gafanhotos? Devorar é uma voracidade do verbo comer, no sentido literal, por vezes antropofágico. Outra coisa é comer no sentido de introduzir, penetrar. E se há culpa no ato comensal do sexo, é justamente esta: foder e fazer filhos de enfiada, e temos aqui um trocadalho do carilho. Ao incitar a carnal comilança, o poeta de Beemal é cínico por ser amoral, ou vice-versa, senão que não seja nada disso e muito menos hipócrita, este cuja moral primeiro faz os filhos e só depois quer que os outros usem camisinha de bilau. Uma coisa é certa: mingau de minhápica só multiplica o inchaço do planeta, se aqui me bolinam a metáfora. De resto, cada qual com a sua lábia e sua sórdida consciência. E vamos ao prato que interessa: sexo. A carne com pimenta de cheiro, queijo sírio e alguma coisa cítrica (picles), pra aguçar o apetite.
 
A PIMENTA DE DEUS
 
Na manhã do oitavo dia, aprouve-lhe o ardido. Divertido com o próprio brinquedo, criou Deus a pimenta, e temperou a vida. Boa peça nos prega com a sua frutinha de pegar bobo. Sábio Criador! De bom alvitre, o homem se soletre árdego, de aceso fogo interior.
 
OS POMBOS DE BEMMAL
 
Vão-se os pombos de Bemmal, de pombal de Bemmal. Debandam-se, libertos de ambíguos limites. Dos revérberos vindos de alvorecer, o ser. Despir-se o corpo do Bem e do Mal. Carne da vida, toda nudez será abençoada.
 
A ARTE DE COMER O CORPO
 
O corpo, come-se como se come o cru (ops!), ato de saber-se no sabor do nu. Certa parte, come-se com maior requinte, como se exercita a arte do banquete. A carne, como-se com a fome mútua, com a boca e a faca da permuta. Comendo o que é da outra, juntas as fomes se matam.
 
(Isto já foi publicado aqui — sem o título —, inserido em “Mis-en-scène do poema e pas-de-deux do corpo”, valendo informar que o autor costuma utilizar seus escritos em diferentes contextos, não se tratando, portanto, de mera ou gratuita repetição, antes uma pertinência polivalente.)
 
UMA ROSA É UMA ROSA
 
Abre-se a rosa cor-de-rosa, na manhã da relva. De entrepétalas sedosas, a pétala negra. Torquês nascida nos dentros da rosa e de si própria: vulva e alimento de si mesma. Lesmolesbos. Coleóptera. De róseos refolhos, a voragem secreta: o cerne, sua carne preta. Fulvos pistilos de pólen, cílios de ébano, pentelhos de Cleópatra. A rosa-besouro e seu ouro. O belo egofomífago: a fome autofágica do ego.
 
(O título é óbvio: um dito de Gertrude Stein. Egofomífago é invenção do autor, para constar do dicionário ou vocabulário da Psicanálise.)
 
LE VOYEUR A OLHO NU
 
O voyeur, o que vê, para além de si? Olhar indiscreto, o que vasculha de secreto a seu próprio respeito? Pelo buraco da porta, ou de público, também se vê o olho mesmo do voyeur, que outro não é, de suas fomes, senão a carne do próprio nome. O que se lê de infame, negaciar-se o homem? Não deixa de ser a perversão do voyeur. O que se vê além do quê, é só o voyeur ao prazer de estar ali, ainda que não estando lá, e até porque já está o olho na miragem do ménage à trois. Se bem que, sátiro voyeur, o que o excita, mais que mera (ou quimera) espionagem, é o que exercita com as tretas das letras e as tetas da linguagem. Para o voyeur, o prazer a dois é bobagem, quando a três se faz bem melhor o bombom da sacanagem.
 
OS ÓCULOS ESCUROS DO CENSOR
 
Ao rigor do código, o virago dos biombos; rubicundo narigão de nabo, e sua saúde sórdida. Oh, não se peje a linguagem, la maja desnuda de seus espelhos. O traje. Ultraje! Imunda imagem de um caolho. Os corpos são inventos da alegria, e vão além da letra fria da lei, além do que supõe a vã caligrafia.
 
( La Maja Desnuda , A Elegante Despida, uma tela de Goya, que pintou também La Maja Vestida. Em nosso caso, a linguagem elegante, porém nua. Que interessante! Pois não nos surpreende? A vã caligrafia , alusão análoga à sentença de Shakespeare: “Há muito mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”. Uma verdade que bem se aplica ao estrábico censor.)
 
O CENSOR EM SI
 
E SEUS SECRETOS MOTIVOS
 
Censor dos corpos sem preceitos. Que sujeito! Tem o rombo no lombo de seus resmungos — quem sabe o medo surdo, de um desejo mudo. Nunca se sabe do carimbo que lhe cabe. Garg(r)alham as gárgulas da moral e dos bons costumes. Olha! Olha! Os furos nas ceroulas! Tem o censor os crimes de seus furos impunes. Tem sua farsa a falsa moral. Tem a boca torta e um mau-cheiro de curtume, a hipócrita.
 
AS MANGAS
 
Entre as mais fibrosas, de preferência a Sabina, com suas sardas; a pele com zinabre de cobre e ferrugem de lâmina. O dentro doce quando mordido, e logo ácido na língua. O sabor de Sabina se sabe na primeira lambida, mas temporona é azeda, madura demais é urina.
 
Das menos fibrosas, a Bourbon, com nome de nobre, mas que não engana: o que tem de bom tom é um quê de cigana.
 
A Manga Rosa, a mais sensual, escandalosa — Scandal Rose —, a mais fêmea do mangueiral: polpa farta, carnal, um cheiro que excita e reporta secretas impregnações nas mucosas boca. Tem gosto de boca almiscarada, de beijo obsceno, e parece peito de mulher inesquecível.
 
A Coração-de-Boi, que coração! É a manga das paixões e dos suicídios. Tudo cabe num coração maior que tudo.
 
A Manga-Espada é óbvia: um porte afiado.
 
E todas essas as mais saborosas, de melhor essência. As demais são comuns, entanto comíveis, ou chupáveis.
 
A tal de Coquinho, a mais desenxabida, e muito enxerida no meio da meninada. Não é à toa o nome que tem: Coquinho é alcunha de mulher qualquer, uma de todos e de ninguém.
 
As mangas da boa terra, tão boas, encarnadas pelas mulheres todas, pomar da vida.

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POR EM 04/07/2008 ÀS 09:56 AM

Mis-en-scène do poema e pas-de-deux dos corpos

publicado em


A FORMAÇÃO DA MATÉRIA 

Útero o lodo cósmico, pólen os esporos do mistério solitário e doloroso. Hilogênia — a formação da matéria —, fecúndia dos beijos microorgânicos, consumação gozosa ao pé da árvore que cospe o salso amaro visgo da gênese. Semeadura de pevides na pélvis de pêras e ovogônias, onde o musgo progride.
 
AS LÍNGUAS
 
Houve de florir-se o verbo, que se provasse o mel da flor, no campo do corpo, e o corpo, se comesse, como comesse pétalas. Afoitas, famintas, houveram de comer-se também as línguas, em coleios de enguias. Elétricas, acenderam na água das bocas um fogo bilingüe. 
 
OS DENTES
 
Os dentes do desejo, armas brancas afiadas para o embate antropofágico dos beijos. A linguagem dos beijos, fauna e flora de figuras e desejos. Metáforas as flores similares, metonímia a magia dos olhares, miosótis a florzinhazul no jardim, uma que também se chama não-me-esqueças, não-te-esqueças-de-mim.
 
A CARNE E O BANQUETE
 
Os lábios mordidos, o sangue da vida que neles se bebe. E a carne dada da vida que se há de comer temperada com mijo, perfumada com poejo. O ardor da carne, seu ardume e chorume com cheiro-verde. Os dentros de seu sal, sua salsa, seu coentro. Deus do céu! Canibal, o animal carnal. O cão no banquete dos corpos, com o mel do bem e do mal. 
 
DRÓSERA
A FLOR CARNÍVORA
 
O beijo das línguas no ninho de víboras, a baba dos diabos na boca da vulva. A goela escancarada do abismo em brasa e labaredas, o belo fogo dos infernos. Úvula, uvas e o visgo da gula. A fúria dos cães da luxúria. A lesma da sobremesa, gosma, um gosto de ostra nos miolos da carne com pétalas de rosa. A gruta da alma. Puta! Tarântula, a fava esdrúxula. Furor uterino. Taturana de fogo. O crespo, ouriço, o bicho. Roxinegra, na região do degredo, a flor anônima do ânus. Almíscar. Condôminus vobiscum.
 
O DEMÔNIO
 
Rasgar as pétalas da flor em oferta, e da mais secreta, a flor esdrúxula, porta para os confins do inferno intestino. Transpor a sulfurosa passagem, adentrar o tenebroso abismo, feito um demônio fosse o falus. Aleluia! O primeiro dia da sodomia.
 
 O GOZO
 
Oh, luz!
 
Ao pó
 
o pus.
 
A QUEDA
 
Amálgama do lodo, o homem e sua alma: o lobo, a loba. Almas irmãs, almas-ímãs, almas gêmeas, umbilicais, iguais a um par de algemas. Almas pagãs, comeram de suas próprias carnes e despencaram feito cachos de plasma e pus, pois também eram almas ingênuas, e eram as fomes e o fogo de suas paixões. Aves de rapina, os corações: aduncas paixões.
 
OS FRUTOS
 
ENSANGÜENTADOS
 
DO PARAÍSO
 
Labirintos de achados e perdidos,
 
os corações. Cachos de amora,
 
os lábios maduros de amor. Cachos de sangue,
 
os corações caídos de dor. 
 
O VERBO
 
Só as almas amam com a ternura dos pombos, e voam depressa, umas para as outras, as almas que se amam. O corpo é alimento do verbo, filtra o gozo e a dor de compartilhar — a dor aberta feito flor —, gerando luz para o amor. Se o amor sustenta, a carne é santa.
 
CONTRADITÓRIO
 
Quem diz que a carne é santa? Ó língua babenta! Como ousa? Muito nos espanta. Rasgados os véus de Vênus, despetalada a rosa violácea do ventre e violada a flor do ânus, que outras membranas são nomes da carne humana? Santa de pau oco. Santa Anta. Amiúde hipócrita, a carne é diabólica. Uma santa que entra e sai pela boca de seus buracos: os furos sulfurosos, a cloaca do fanatismo religioso, a gruta belicosa da beleza da rosa. Gulosa. Como então a carne é fraca, com seus garfos e facas? A carne é gostosa, uma coisa que se mastiga com o deleite de quem rosna. Após o coito o homem é um animal triste, alguém já disse. A carne, senhoras e senhores, é o exílio do homem. A carne com os seus odores e pruridos de falsos pudores. A carne viva que se come como forma de matar a fome cósmica que nos consome. O corpo, come-se como se come o cru, ato de saber-se no sabor do nu. Certa parte, come-se com maior requinte, como se exercita a arte do banquete. A carne, come-se com a fome mútua, com a boca e a faca da permuta. Comendo o que é da outra, juntas as fomes se matam.
 
Flores? Ah, Dolores! A carne devora todos os amores. A carne é uma fome que a tudo come com o riso da hiena. E a carne não chora. É o monstro, o gosto gozoso e animalesco que nos alimenta e se agiganta e nos devora. Fome, a terra que nos come a carne infame. Nham! Nham! Ó fêmea! Ó fome! Hipócrita é quem reza na cama.
 
RESSURREIÇÃO DA CARNE
 
Exaustos, semimortos — lassos, posto que devassos —, Adão e Eva no entanto se movem e se refazem. Sus! Os ais a mais nas dobras azuis de ensangüentados lençóis. Cobras, aranhas, centopéias, escorpiões e a lesma de sobejo nos porões do desejo. Os relinchos das águas do Paraíso, os beiços da besta que se lambuza de beijos.
 
Mais!
 
Mais!
 
a carne pede
 
bis
 
coito.
 
E se amassa no melaço dos abraços, e se gruda feito mosca no açúcar da goma arábica, no doce uso e abuso dos corpos, o pão nosso de cada dia nos daí hoje no cocho dos porcos lúbricos.
 
O FRUTO MALDITO
DO CONHECIMENTO
 
Contorcer-se feito um (c)oito infinito. Descarnar-se até os ossos. Certo, está feito, e assim será até o fim dos tempos. Sede proscritos. Crescei e multiplicai-vos no vale dos aflitos. Está escrito: ide e comei-vos uns aos outros. Avante! Doravante sois o fruto do conhecimento adquirido, a luz perdida nas escuridões um do outro, um e outro se buscando, aos gritos, nas trevas gosmentas do espírito. Mas, ai de vós, quando, chegada a aurora rubra, e já apodrecido o fruto interdito, sentirdes os ventos do ventre convulso e, no advento do dia sétimo, o júbilo do vômito. Esôfago afora, por vossas porcas bocas, e por vossas tripas, pelo intestino grosso, pelo reto da prisão de ventre, por aí mesmo eu vos expulso. Vade retro, um andando de-quatro e o outro de cata-cavaco. Estão expulsos — disse Deus a si mesmo, conclusivo, dando-lhes as costas do incomensurável desprezo. 
 
PROSCRITOS DO ÉDEN
 
(Os desígnios de Deus)
 
O Pai não nos deu o perdão — disse Adão para Eva. E quem se lembrou de pedir perdão, diante de tamanha fúria? — considerou a companheira. E os dois então deram-se as mãos, se afastaram do Céu e, sozinhos, se perderam nas trevas de ínvios caminhos. Nada mais disse Adão, senão só para si, lá mais adiante, chegando eles à estranha terra, e dele os olhos cúpidos grudados nas degredadas nádegas de Eva, bamboleando à sua frente: Se uma só mordida na maçã fez o pecado, a queda nos deu a duas bandas do mundo .
 
Depois disso, pra que Paraíso?, indagou-se Adão em silêncio, e sorriu para o silêncio, conclusivamente, se dando por satisfeito. Se deu que mais tarde e só então ele entendeu qual era a de Deus, ou julgou ter entendido quais eram os desígnios de Deus, o pai vingativo, em relação à desobediência e ao pecado. A carne ao exílio, aos filhos os filhos de um pesadelo, e foi assim que Caim matou Abel. Não matarás, escreveu-se depois, mas já então era tarde demais, o sangue derramado espalhara-se por toda parte e nunca mais parou de escorrer pela face da Terra. Há quem diga que é o sangue de Eva desvirginada por Adão, e esta seria a consideração final, como seria um castigo de Deus, mas há controvérsias.

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POR EM 28/06/2008 ÀS 05:35 PM

Poema desgraçado

publicado em

Imagine-se o homem no outono do próprio abandono, e ali o esqueleto, e ali o sujeito oculto, no rosto explícito. Imagine-se o homem enfarado de tudo, e que, todavia, se mova, se havie, e de todo não se dê por acabado ou vencido — produto deteriorado —, dado que a vida ainda redunda de tudo e nada ao redor do lago e do lodo primitivo. Imagine-se o homem dos verbos e dos mórbidos advérbios de modo, dos dejetos e adjetivos, das orações e dos gerúndios, das preposições e ações propositais do mundo, senão que meramente ocasionais ou casuais. Imagine-se o morto-vivo.
 
Imagine-se John Lennon, quem nem mais se imagina. Imagine-se a imagem, e a vagina da imagem, a árvore, a imagética genealógica do acaso, quando nada é por acaso e tudo é uma soma de fatores que se aglutinam e convergem para a eclosão do caos. Imagine-se a erupção dos reatores, a ereção dos cogumelos, a convulsão dos átomos, o vômito atômico, o ocaso nuclear. A chuva ácida, as armas biológicas, o homem crepuscular. Imagine-se o “flerte fatal” com a hora final.
 
Imagine-se o homem — to be or not to be —, um Shakespeare que não mais se quer, por nada mais querer de si, do ser-em-si, do ser-para-si ou para quem mais queira ser. Imagine-se o homem déjà vi. Não mais devir. Encalacrado entre ser ou não ser, entre o não-ser e o vir-a-ser. O homem que nada mais quer a não ser o fim. Não mais ilusões, que não mais as tem, nem mais as quer por acréscimo. Não mais filosofias, discussões infinitas e inócuas. Nada mais desse cão que se coça por aí. Esses cansaços, esse nó-cego, esse diuturno morcego sobre universo, espaço e tempo, nascimento, vida e morte, prazer e sofrimento. Nada de novo. A religião, o ópio do povo; a elucubração, a papoula do ócio intelectual.
 
Imagine-se o homem dissoluto, não mais se interessar por coisas insolutas; sequer se coçar por conta de suposições, soluções ou conclusões. Não mais ruminar conceitos crocantes, de pacotes feitos; nenhum jogo de dados a mais do Cogito ergo sum. Nada mais por demais interessante. Nada mais que não seja o que não é. Imagine-se um homem assim.
 
O cálcio dos ossos no calcário dos cemitérios, alimentando carrapichos e cravos-de-defunto que se abrem com o cheiro cadavérico da terra derradeira. E ali o ossário, a metafísica solitária e reveladora no sorriso escancarado e cariado das caveiras. Oh, quão delicadas as caveiras de mulher! Qual delas escolher para se namorar?
 
Imagine-se o homem que não quer porque a humanidade também não quer. Não, não quer! E não querer é o pior que poderia acontecer. Quem, na verdade, quer o melhor para ser uma humanidade melhor do que é? Só se quer o melhor para si — o ego filho da égua! —, quase nunca ou nem sempre também para o colega. Imagine-se o homem imaginário. Há-de o homem assim querer o mais que seja? Pensa, rasteja, logo inexiste. Se aniquila e se anula. Há quem desista de ser o que é para não ser o que não quer ser. A deixa de alguns é viver e deixar viver, viver por viver, viver só para morrer. Sem escapatória. Obscuro, como os bastidores da história.
 
Imagine-se o homem que, havida a vida ávida, atordoado se dê por vivido. Contundido, se dê por concluído, dado que inconcluso e mais não querer senão os dias que lhe restam ao resto da vida. Do pó ao pó, ao homem é dado comer o seu próprio resto. E quem, que deus ou diabo, no seu desgraçado fim? Quem, o quê, ao fim das sobras de tudo? Eis aí, pois aí jaz o coração do homem pisoteado. A mão humana que brota da terra é a mão da vida mesma, absurda forma de morte que move o teatro do mundo e seus fantasmas. Não há vida que não os aborte, nem há morte que não enfeixe os seus fantoches.
 
Seu reino não é deste mundo, nem do reino dos céus, nem do reino ínfero, que a nenhum e a nada pertence. Seu coração é o reino dos invernos, onde tudo se esfria e fenece, e para além do qual só a enfermiça poesia floresce. Oh, dá-lhe os dias que lhe restam, a vida que se lhe frustra, e a palavra perversa que fermenta no pó o pão amargo de cada dia. Nada é eterno no reino dos invernos, pelo menos até a próxima primavera, onde a flor com o veneno do tempo espera para o dia universal da asfixia.
 
Ao fim, um poema assim, a fala infeliz, mas desgraçado de bom, como se diz. Ao som de Norah Jones; ouvindo a nostalgia nas canções dessa doce menina. Sim, um poema desgraçado de bom, com gosto ruim, e não o entendam mal, sem que lhe provem o sol e o sal. O sol negro e o sal amargo. Um poema assim, com o que resta de bom e de ruim do homem que se imagina. Imagine-se o homem que não se constrói com a forma e as rimas, antes se desmorona, já familiarizado com o fundo, sua fôrma, que é o mundo.
 
E agora imagine-se a si mesmo, a ti mesmo, tu que vais por aí caminhando a esmo, um outro fantasma. Imagine-se nesse homem que se imagina. Seu espelho e sua sombra. Não te assombra, a sombra mesma desta imaginária e triste figura? Quem tem medo do mundo, sem que tenha medo de si mesmo no arrepio da espinha? Só não sente quem não quer sentir. Só não vê quem não quer ver. As pálpebras são as cortinas da retina. O perigo se desdobra nas dobras do sovaco da esquina, coçando o saco ou aparando as unhas com a lâmina assassina.
 
Tu mesmo, o homem que se imagina e se engendra. Se diz que o bom cabrito não berra, mas o homem que por aí se anima é uma erva daninha, a praga rasteira e venenosa, a desgraça maior sobre a face da Terra. Acúleo não é porco-espinho, é folha que se atrofia. Uma rosa não é uma rosa após a rosa de Hiroshima. Só há guerras e saques sobre a Terra. E parece não haver cura para tamanha miséria. O poema desgraçado de um macabro engenho. Moendo a vida. Devorando o mundo. Deus é surdo, cego e mudo. Ou então é mesmo que o homem não é nada no meio de tudo.
 
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POR EM 21/06/2008 ÀS 03:47 PM

Conscientização pública sobre um bioma ameaçado

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A questão não é condenar a tecnologia, mas ver a forma como está sendo utilizada 

O fórum com enfoque para o Cerrado, importante bioma brasileiro, paulatinamente ameaçado de extinção por ações predatórias do homem, foi inserido como uma das prioridades do 10º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), na Cidade de Goiás, e a primeira parte aconteceu na quinta-feira, 12 de junho, no Teatro São Joaquim. Sob o tema “O Cerrado, o Clima e o Meio Ambiente”, o fórum foi aberto pela presidente da Agência Goiana de Cultura (Agepel), Linda Monteiro, destacando que a realização do evento fortalece as discussões ambientais, especialmente com o tema do Cerrado, tangenciando questões que hoje perpassam o mundo todo. “Se nós, egressos do Cerrado, não nos posicionarmos nessa discussão, que é uma questão de defesa do cotidiano, estaremos em falta com as futuras gerações”, acentuou, citando as crianças como verdadeiras defensoras das questões ambientais. Os debates em torno do Cerrado foram um dos pontos altos da décima edição do Fica, realização do governo de Goiás, por meio da Agepel.
 
Coordenado por Altair Sales, graduado em Antropologia pela Universidade Católica do Chile, com especialização em arqueologia e geologia, o Fórum do Cerrado contou com a participação de Harlen Inácio dos Santos, doutor em Ciências Ambientais – Gestão de Recursos Hídricos, pela Universidade Federal de Goiás, falando sobre “Desafios para a gestão dos recursos hídricos do bioma Cerrado”. Outro convidado presente, com o tema “Uma reminiscência do Cerrado”, foi Binômino da Costa Lima (Seu. Meco), membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e detentor do título de Notório Saber, conferido pela Universidade Católica de Goiás.
 
O terceiro palestrante convidado, o biólogo e ambientalista João Paulo Capobianco, secretário-executivo do Instituto Sócio-Ambiental, do Ministério do Meio Ambiente, que faria a palestra inicial, sobre “Políticas para o Cerrado”, não pôde comparecer por motivos de força maior. Altair Sales destacou a importância do fórum, com um tema de suma importância não só para a vida do Cerrado, mas de todo o planeta.
 
Interferência e destruição
 
Binômino da Costa Lima, o Seu Meco, morador e conhecedor da região de Jataí (GO), no sudoeste goiano, tendo sido um dos fundadores da Sociedade Ecológica de Jataí (Seja), iniciou sua palestra falando de coisas, na natureza, que “a visão normal das pessoas às vezes não percebe”. Se as reminiscências tiveram um certo tom poético, também os teve tragicamente telúricos, com laivos de ironia provocando risos da platéia. Mostrando que, a cada dia que passa, aumentam as interferências e destruições no bioma Cerrado, o palestrante deu o seu testemunho sobre o ciclo dessa destruição: o boi, a soja e agora a cana. Ilustrou o cenário falando da chegada dos tratores, a destruição das gramíneas nativas e das raízes profundas que não vão mais brotar. 

“Trocou-se o boi pelo trator, plantou-se o capim brachiaria onde havia capim-gordura. Com o trator, veio o boom da soja. O gringo chega diante de uma árvore que nem conhece e que sua família nunca plantou, e derruba-a. Os invasores não trazem melhorias, não fazem nada, e quando tudo se acaba, eles procuram outro lugar para destruir. De uns tempos para cá, estão derrubando tudo. Destroem o Cerrado e vão para a Amazônia. Estão drenando, planando, arando e liquidando, destruindo as nascentes dos rios. Só em Rio Claro (GO), nove nascentes já secaram”, acentuou, indignado. E finalizou dizendo que, no Brasil, o que é bom acaba, e o que é ruim só aumenta.
 
O problema da água
 
Harlen Inácio dos Santos iniciou sua palestra informando que abordaria “temas mais áridos, menos romântico de se ouvir, porquanto cheio de tabelas e leis”. Enfatizou a questão da água, a gravidade ou não da problemática da água no mundo, lembrando os rumores alarmistas de que a água vai acabar e que a guerra futura será pela água. Explicou o significado de “recursos hídricos”, que se referem ao excedente do uso da água, bem como de “água potável”, expressão, segundo ele, usada indiscriminadamente. Esclareceu que água potável é produto industrial que deve se adequar ao consumo humano, conforme portaria do Ministério da Saúde, e que a expressão “água doce de qualidade” indica facilidade de tratamento para se obter água potável.

Com essa ligeira didática, Harlen conduziu sua palestra para o entendimento da platéia em relação ao uso da água. Discorreu também sobre o que vem a ser “uso consultivo” e exemplificou: se você tira água de uma bacia de rio, sangra a vasão e a água não volta mais para o rio. No sistema de irrigação por meio de pivôs, por exemplo, ocorre muita vasão de água. Já no caso da energia elétrica, por meio de usinas, utiliza-se a água e a mesma retorna à sua origem, tendo-se aí o “uso pouco consultivo”.

Com relação ao Cerrado, observa-se um diferencial importante, com o regime hídrico ou permanência de vasão em determinados períodos, definidos como máximos, médios e mínimos, conforme a estação chuvosa ou de grande estiagem. Segundo Harlen, o que deve ser visto pela política da água é a disponibilidade hídrica, sendo a densidade populacional fator fundamental para se estabelecer disponibilidade. Resulta que no Brasil a distribuição de água não é uniforme, e que a água, silenciosamente, é limitante do desenvolvimento. Para quem afirma que o problema da água não é o mais importante, Harlen cita as palavras do jornalista e ambientalista Washington Novaes: “Se a água não é o problema mais importante, é o mais urgente pelo seu envolvimento na saúde pública e no desenvolvimento”.
 
Riqueza mal-distribuída
 
O doutor em Ciências Ambientais, Harlen Inácio dos Santos, afirmou que o Brasil é extremamente rico de água, com a maior disponibilidade hídrica no planeta. O país tem disponibilidade, mas a distribuição não é homogênea. Falta uma política efetivamente funcional para o setor. Frisou que além da escassez pela pouca disponibilidade de água, a distribuição desigual da população acarreta escassez pela demanda excessiva. Listou como ameaças à preservação dos mananciais o lançamento de afluentes (lixo) domésticos e industriais sem tratamento; distribuição inadequada dos resíduos sólidos; destruição da vegetação ciliar; assoreamento dos rios; impermeabilização progressiva os solos; exploração crescente dos aqüíferos subterrâneos sem a realização de estudos necessários. Harlen chamou a atenção para o fato de que os rios não diluem o esgoto doméstico e industrial, mas o esgoto dilui os rios.
 
Ao término do Fórum do Cerrado, o palestrante comentou que a política brasileira para a questão da água é confusa, sem maior conhecimento, enquanto o governo favorece as fronteiras agrícolas, com todas as conseqüências nocivas, e sem a preservação do meio ambiente. Daí a expansão dos canaviais e das monoculturas, comprometendo grandes áreas de Cerrado.
 
Na seqüência
 
O Fórum do Cerrado continuou na sexta-feira, 13, no mesmo local, com palestras de Edson Sano, abordando o tema "O Cerrado e o agronegócio", e Mercedes Bustamante, com enfoque para "O Cerrado e o meio ambiente".
 
Enfoque para o agronegócio
 
Em seu segundo e último dia, o Fórum “O Cerrado, o clima e o meio ambiente”, coordenado pelo professor Altair Sales, no Teatro São Joaquim, contou com palestras de Edson Sano, PhD em Ciência de Solo pela Universidade do Arizona (Estados Unidos) e pesquisador da Embrapa Cerrado (Brasília), com o tema “O Cerrado e o agronegócio”, e da chilena Mercedes Bustamante, doutora em Geobotânica pela Universidade de Trier (Alemanha), abordando “Mudanças de uso da terra no Cerrado – Impactos climáticos”.
 
O fórum se iniciou com Altair Sales historiando, numa longa e verdadeira aula, o surgimento do planeta Terra desde o Big Bang ou explosão originária do Universo, com as massas disformes resultantes começando a girar em torno do grande centro de energia que mais tarde seria o sol, uma estrela de quinta grandeza. Essas massas disformes começaram, então, a configurar o planeta Terra, que mais era uma bola de fogo por conta da queda de meteoritos.
 
Num segundo momento, entraram em cena os minerais silicatados, compostos por átomos de hidrogênio e de oxigênio. Apareceu a água em forma de vapor — originária também dos meteoritos congelados —, e começou a circular em torno da Terra. Com o tempo, a forma nebulosa foi se condensando e formando grande quantidade de nuvens na atmosfera terrestre. No estágio seguinte, a Terra era uma bola de água, um grande mar que envolvia todo o globo.
 
As explanações de Altair Sales se estenderam, passando por diversos estágios ou períodos de formação do planeta, até chegar ao Cerrado, a mais antiga forma de vida (45 milhões de anos) na história da Terra, que surgiu há 65 milhões de anos. Pois bem. Coube ao Cerrado seqüestrar a grande quantidade de carbono acumulada sobre a face da Terra, sendo este bioma o maior seqüestrador de carbono e, por isso, o maior responsável, também, pela sobrevivência da vida no planeta. Estão no Cerrado três aqüíferos fundamentais, compostos pelas bacias Amazônica, São Francisco e Prata. As três bacias se unem no coração do Brasil, a região Centro-Oeste, e por razão delas foi criada a Reserva Ecológica das Águas Emendadas, em Formosa (Goiás). Reside aí, nas águas, a importância do bioma Cerrado.
 
Ideologia nociva
 
Altair Sales inseriu que em 1970 surgiu a ideologia multinacional chamada Revolução Verde, de contraponto ao comunismo, para que este não ocupasse espaços em regiões importantes do planeta. A Revolução Verde, segundo Sales, causou um grande prejuízo ambiental, de forma irreversível, pois, uma vez degradado, o Cerrado não se recupera mais. Uma das conseqüências da herança deixada por essa “Revolução” foi o surgimento dos “Sem”, em três categorias: Sem-Terra; posseiros desprovidos de títulos legais e expulsos das terras por grandes empresas que registravam as propriedades em cartório; Sem-Teto, conseqüência da expulsão dos posseiros, e Sem-Papéis, categoria dos sem-documentos da terra.
 
Sales citou algumas conseqüências sociais desse processo. "As mocinhas", filhas dessa categoria dos Sem-Documentos, vieram para a cidade e se prostituíram. Aumentou-se o índice de criminalidade em que a vida se tornou uma coisa banal, que não vale nada. Isso gerou uma situação de omissão, impotência e angústia, deixando as pessoas sem forças para lutar por um mundo melhor e até pela própria vida. Uma angústia neurótica, no sentido de que a vida não vale a pena.
 
Mapeamento da Embrapa
 
Edson Sano, com o tema sobre Cerrado e agronegócio, falou sobre a existência de projetos desenvolvidos pela Embrapa, relacionado com o uso ocupacional deste bioma que é um sistema complexo e heterogênio, “berço das águas”, com uma grande biodiversidade. O Cerrado, disse ele, é um dos biomas mais ameaçados do mundo, por favorecer a exploração agrícola, oferecendo topografia relativamente plana, atrativos preços da terra, incentivos governamentais e outras vantagens de ordem econômica. Quanto maior o favorecimento governamental para fomento da fronteira agrícola, maior a ocupação do Cerrado e maior a degradação do meio ambiente.
 
Sano apresentou mapeamentos realizados pela Embrapa na região do Cerrado, mostrando aspectos negativos da exploração irracional e revelando que cerca de 40% do bioma — 80 milhões de hectares — são utilizados para exploração agropecuária. Apontou também a intensa utilização de pivôs de irrigação no Cerrado, que chegam a seis mil (dados de 2002). Edson Sano defende o equilíbrio entre a produção animal (boi) e a vegetal (grãos). Disse, ainda, que o agricultor não utiliza devidamente a tecnologia disponível, e não pratica o plantio direto, sistema com mínimo revolvimento do solo, mas sim o plantio convencional, que revolve o solo, expõe os microorganismos do subsolo à radiação solar e, assim, destrói a biomassa, além de contribuir para o surgimento de erosões.
 
De acordo com o pesquisador da Embrapa, é preciso minimizar o revolvimento do solo, convencendo o produtor de que isso é bom para a preservação do meio ambiente. O objetivo da Embrapa é estimular a adoção de tecnologia positiva, harmonizando maior produção com a conservação do bioma Cerrado. Edson Sano falou também da produção de biocombustíveis no Brasil, onde novamente se tem a presença do Cerrado, pelas condições favoráveis do mesmo. Segundo ele, é preciso racionalizar a ocupação do Cerrado, aplicando critérios de indicação de áreas favoráveis, entre outras medidas necessárias para se conter a ocupação desordenada e destrutiva.
 
Edson Sano disse que a Embrapa desenvolve, também, um projeto voltado para a fraude ou “trambiques”, como ocorre com o café, que custa caro para o produtor e, por isso não é puro, pois vem misturado com açúcar mascavo, cevada, cascas vegetais, madeira, soja e outros. Sano afirmou que a empresa busca alternativas para se utilizar o Cerrado e explorar o agronegócio de forma a mais racional possível.
 
Impactos e alternativas
 
Mercedes Bustamante enfocou possíveis impactos e alternativas para o Cerrado, mostrando como as mudanças ambientais globais podem alterar a vida na Terra. Explicou que o clima é um sistema de resposta em cascata e que o termo “população” significa o uso intencional, não aleatório, do meio ambiente. Falou da necessidade de se trabalhar de forma um pouco mais racional na utilização da terra, e observou que a agricultura permanece no centro da crise global, sem precedentes, no campo da biodiversidade, com uma grande sobreposição de áreas agrícolas e de áreas protegidas.
 
A palestrante mostrou o outro lado do desenvolvimento no Cerrado — perdas —, que precisa entrar na equação econômica. Explanou sobre o uso da térrea do Cerrado, lembrando que a bovinocultura, em tempos mais remotos, era a principal atividade de uso da terra. Por volta de 1970, começou o desenvolvimento agrícola, com um conseqüente aumento da população humana. Falou, também, das atividades agrícolas causadoras de emissão de gases — metano e outros —, do efeito estufa. Discorreu sobre as perdas da vegetação natural, como a mata ciliar, mata de galerias e as savanas, bem como as conseqüências das freqüentes queimadas, que reduzem a densidade das espécies lenhosas e favorece a formação de gramíneas, que secam e produzem mais biomassa para mais queimadas. Mercedes detalhou a morte provocada das raízes profundas, relacionadas com o armazenamento de carbono no subsolo, e apontou a necessidade de manejo racional para se conservar o estoque de carbono abaixo da superfície da terra. Para ela, não é só transformar o Cerrado, mas também pensar na interação e no equilíbrio entre o solo, o animal e a vegetação.
 
Com relação a expansão dos biocombustíveis, Mercedes disse ser necessário associar produção de alimentos e geração de energia, e que a conversão de grandes áreas podem colocar ainda mais pressão sobre o meio ambiente. É preciso ver onde se planta e o que havia plantado antes no local. Culturas de biocombustíveis onde havia áreas de floresta, aumentam a presença de carbono, além de débitos causados por desmatamento. “Então é preciso pesar melhor essa questão de agrocombustíveis, meio ambiente e saúde humana. Deve-se ter uma visão mais sistemática do processo, levando-se em conta a sustentabilidade e os impactos ambientais, além de definir políticas, em escala nacional, que contemplem todos os aspectos, incluída a questão dos preços de alimentos”, acentuou. Enfatizou a necessidade de planejamento e incentivo para que áreas degradáveis sejam produtivas. “Discurso já existe neste sentido, falta transformar isso em realidade”. Finalizando, Mercedes Bustamante disse que não há confronto entre desenvolvimento e preservação. A questão não é condenar a tecnologia, mas ver a forma como ela está sendo utilizada. 
 
Conclusão
 
Se um fórum sobre o Cerrado não traz ou aponta soluções imediatas, num primeiro momento contribui para maior conscientização sobre a realidade do bioma ameaçado, o que ficou evidente com os questionamentos da platéia ao término das palestras no Teatro São Joaquim.
 
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POR EM 16/06/2008 ÀS 11:13 PM

No país das CPIs

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Tiroteio verbal no Planalto Central. Troca-tapa de governo e oposição. Resulta que, por conta de sucessivos atos desabonadores — agora é o cartão corporativo, podendo-se aguardar que logo aparece alguma outra novidade de igual natureza — e desavenças que só denigrem a imagem de ambas as partes e do país, a falta de confiança do povo nos políticos sinaliza pouco preparo da categoria.
 

Pesquisa ainda recente, realizada pelo Ibope, aponta que os políticos são a instituição com menor índice de confiança da população. É visto que este quadro só faz se agravar, piorando as coisas. De acordo com a pesquisa, 90% dos eleitores entrevistados — mais de dois mil — afirmaram não confiar nos políticos. Nem é preciso pesquisa de opinião pública — embora ela o confirme — para saber que a classe política está no fundo do poço da confiança dos brasileiros, o que só tende a acentuar-se com um repetitivo e deplorável estado de coisas, por conta da imoralidade política.

 

A oposição, a mais das vezes, age tendo como foco principal não os interesses do país, mas a desestabilização do governo e o bate-pasto que prepara o terreno para novas eleições e a busca de outros postos nas esferas do poder. O governo, por sua vez, reage com o revide do bla-bla-blá, amiúde pouco convincente, tentando colocar band-aid nos arranhões de sua própria pele, ao que parece mais preocupado com a imagem do seu futuro político do que com a transparência dos fatos.

 

A julgar pelo comportamento da categoria, a próxima pesquisa deve mostrar que a confiança dos brasileiros nos políticos se afunda no pântano dos escândalos. E é certo que isso desestabiliza a vida do país que, com tantos problemas de ordem social, passa a viver em função de CPIs. Na novela do bang-bang planaltino, já teve até senador — Arthur Virgílio, do PSDB — ameaçando, literalmente, dar uma surra no presidente Lula. O povo, como sempre, só paga para ver, não o presidente apanhar, mas a que levará uma CPI do cartão corporativo, até porque a maioria delas, no país das CPIs, termina em pizza.

 

Curiosidade em tempo chuvoso: já se reparou que os raios de Deus só atingem gente humilde, como crianças jogando bola no campinho, pessoas pobres passando por algum terreno a descoberto de proteção — áreas sem pára-raios — e peões de fazenda que estejam trabalhando próximo a cercas de arame? Afinal, qual é a de Deus? Pro raio que os parta, os raios que nos caem dos céus. Não sobra nenhunzinho para os maus políticos?

 

Tempo nublado em Brasília, sujeito a chuvas e trovoadas. Não percam o próximo capítulo. 


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POR EM 12/06/2008 ÀS 12:10 PM

Miopia em terreno minado

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Injustiça, desigualdade e impunidade são as rodas do mundo, enquanto instrumentos do mal. A humanidade se move por um terreno de areia movediça, no qual se afunda cada vez mais; caminha em solo minado pelas bombas, num palco sangrento de mortos ou mutilados; se afoga no pântano dos atos hediondos, que marcam o corpo e a alma do mundo, como sedentas sanguessugas.
 
Sórdidos, lamacentos, lodosos caminhos. Cobiça. Ambição. Lei de Talião: olho por olho, dente por dente. Se diz que esse tal de Talião nem nunca existiu. Mas há choro e ranger de dentes disseminados pelos quatro quadrantes da Terra. Rastros de ódio e de sangue. Por aí avança a humanidade, malgrado a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada, há sessenta anos, pela Organização das Nações Unidas (ONU).
 
O relatório anual da Anistia Internacional, que acaba de ser divulgado, classifica os três problemas — injustiça, desigualdade e impunidade — como “as marcas do mundo de hoje”, onde muito se prometeu e pouco se cumpriu, pouco se fez para combatê-los, no período de seis décadas.
 
É tempo demais desperdiçado, por omissão, banalização da violência, indiferença ou mesmo miopia em relação aos direitos do ser humano, bem como aos deveres individuais e coletivos para se alcançarem os frutos da justiça, da igualdade e da fraternidade, tão apregoados no passado. Tudo muito bonito, em tese, mas distorcido na prática, com um pano de fundo negro em nada diferente dos tempos medievos.
 
O documento da Anistia Internacional aponta que, apesar de alguns avanços nas legislações e nas instituições da área — como o apoio pelo fim da pena de morte —, a evolução dos direitos humanos, em diversos países, não se cumpre à risca do que preceitua a Declaração Universal. Por isso, a Anistia desafia os líderes mundiais a se desculparem pelos “fracassos em matéria de direitos humanos”.
 
Mas pedir desculpa não basta, não cura feridas. É um escapismo fácil, assim como a Igreja pedir perdão à humanidade pelos imperdoáveis crimes da Santa (diabólica) Inquisição; assim como querer minimizar o genocídio de judeus perpetrado por Hitler; assim como anistiar para a impunidade os generais que orquestraram o golpe de 64 e comandaram os horrores dos anos de chumbo no Brasil, e assim por diante, aí pelo mundo afora.
 
O que se requer na questão em foco são ações efetivas e eficazes, sem os inócuos blablablás de cúpula, sem a cópula escorregadia dos melindres diplomáticos. Mais determinação e poder de decisão mundial, que faça cumprir a provecta, sexagenária Declaração Universal dos Direitos Humanos. Essa senhora idosa, nominalmente pomposa, e somente isso, até agora, com os miasmas nada agradáveis de sua senilidade.
 
Há que revitalizar-se a Declaração, sintonizar-se com as batidas do coração universal, o coração de um mundo torturado, atormentado pelo descumprimento dos direitos humanos. E, sim: hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás, na cobrança e obediência aos direitos universais do homem.
 
De acordo com o recente relatório, em pelo menos 81 países pessoas são torturadas e maltratadas; em 54, enfrentam julgamentos injustos, e, em pelo menos 77, são proibidas de se expressar livremente. Isso é vida? Que mundo é esse? Que homens são esses? Cachorros, hienas, aberrações humanas?
 
O ano de 2007, nas palavras da secretária-geral da Anistia Internacional, Irene Khan, se caracterizou pela impotência dos governos ocidentais e pela ambivalência ou relutância das potências emergentes para enfrentar algumas das piores crises de direitos humanos do mundo. Hay que tener cojones, diga-se de passagem.
 
Com relação ao Brasil, o informe da Anistia Internacional aponta, entre outros problemas, “a precária situação da mulher, vítima de um sistema judicial ineficaz e extremamente lento, reforçando a impunidade para violações dos direitos humanos”. O relatório destaca alguns avanços, como a Lei Maria da Penha — que “senta a peia” nos maus maridos, digamos assim —, mas observa a ausência de proteção do Estado nas comunidades carentes, onde as mulheres são expostas à violência tanto de criminosos quanto da polícia.
 
A Anistia cobra das nações mais poderosas, como Estados Unidos, China, Rússia e os países que formam a União Européia, que liderem o cumprimento dos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos e sirvam de exemplo. Conclama os novos líderes e nações emergentes a tomarem um novo rumo e rejeitarem as “políticas e práticas míopes que ultimamente têm feito do mundo um lugar mais perigoso e mais dividido”.
 
É nesta direção que o mundo deve seguir, sem esquecer-se de que, se o macro — a humanidade como um todo, com os direitos universais — está acima do individual, o combate coletivo à miopia no campo dos direitos humanos começa com o micro, com a iniciativa de cada um, mediante reconhecimento das diferenças, repúdio à violência, vigência da tolerância e do respeito ao ser humano em sua essência e dignidade.
 
O foco da questão requer óculos de grau, ao invés de óculos escuros. A ótica — visão, maneira de ver, ponto de vista — inerente aos princípios de óptica — parte da física que investiga os fenômenos da luz. Os termos têm grafias diferentes, porém de significados afins ou paralelos, lembrando-se que as paralelas se encontram no infinito. O infinito é a soma sem fim de todos os horizontes. Se a metáfora reluz, entenda-se por “princípios de óptica” — de luz — os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Entenda-se por fenômenos luminosos, os homens iluminados.
 
A miopia se ajuste ao grau de lentes adequadas, para melhor enxergar-se as coisas de perto. Corrijam-se as distorções da miopia astigmática, que deforma as imagens. A hipermetropia se dê o devido atendimento, para que se tenha nítida a visão de longo alcance. Os homens de visão alarguem os horizontes dos direitos humanos. O senso humanitário seja guia de cego no terreno minado de tais direitos. E a justiça se faça como deve ser feita neste mundo ensangüentado e perigoso.

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POR EM 24/05/2008 ÀS 10:50 AM

A jaula

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Levei minha namorada grávida pro terraço do edifício, beijei-lhe os lábios e joguei-a no vazio. Podes crer. Foi massa, vê-la cair lá de cima e esborrachar-se no asfalto, feito uma porca barriguda. Na maior. Pena que eu não estava lá embaixo, pra sentir de perto o impacto do corpo se arrebentando. Saca só, imagine a cena. A merda, cara, é que agora estou aqui sem merla, sem crack, sem uma carreirinha de coca, sem um doce da pesada. Não sabe o que é doce? LSD. Ácido lisérgico. Doideira, meu. Maior barato. E eu aqui sem nem sequer um baseado, um brauzinho básico pra esfumaçar as idéias confusas. Tô aqui nessa zorra, com uma zoeira em minha cabeça, sei lá o que é, um trem assim, umas vozes estranhas, e parece que um bebê chorando, longe, longe, lá dentro, no fundo de mim, dentro da alma, e no inferno da minha cabeça. Mas, se quer saber, de vera que não me esquento com isso não, meu irmão. Tô me lixando, cagando e andando se não tive êxito em tudo que fiz na vida, mas tive muito ecstasy, muita curtição, e agora tô preso aqui, neste fedor de merda e mijo. Quem foi o desgraçado que cagou até entupir a porra do vaso? Por que não consertam a droga da descarga? Isso aqui não é flor que se cheire, e a vida é mesmo uma merda. Me dei mal, mas fico na minha, apesar desta zoeira de grilos metálicos perturbando minhas idéias. Penso até que o bebê sou eu mesmo chorando, quando era pequenininho assim e minha mãe me abandonou na Estação Rodoviária. Me deu um pirulito e, sorrateiramente, sumiu e me deixou lá sozinho, chorando no meio de gente estranha. Pai? Tenho pai não, véi. Se tenho, não sei quem é, nem quero saber. Mas toca essa harmônica de blues aí, meu. Manda ver. Tu não é músico? Manda aí, pô.
         
Pausa para ouvir a gaita, gangorrando o corpo. Depois é o silêncio. O psicopata sentado no chão, escorado na parede e com as pernas estiradas, distraindo-se com mexer os dedões dos pés, como se fossem figuras de desenho animado, ou personagens do cinema mudo.
         
Não suporto mulher grávida, azarando a vida, botando mais inferno no mundo, volta a falar o assassino, para o colega de cela. Na verdade, não há ninguém ali, além dele, como não há nenhuma harmônica de blues. O companheiro de cela é imaginário. O preso ali é só ele, isolado, incomunicável, por ser de alta periculosidade e representar risco a outros detentos. Serial killer. Oito assassinatos em série, todos de mulheres grávidas. É doido varrido. Lembra-se do filme O silêncio dos inocentes, com Anthony Hopkins e Jodie Foster? Tem um psicopata que mata mulheres e tira-lhes a pele pra confeccionar com ela um vestido; o próprio assassino operando a máquina de costura. Pois é. Esse cara aí é terrível tanto quanto. Depois vem o outro filme, Hannibal – A origem do mal.

Coincidentemente, esse aí na cela se chama Aníbal, só que sem o agá e com um ene só. Por aqui já o chamam de Caníbal, mistura de canibal com Aníbal, onde se vê que a diferença é só uma questão de acento agudo ao invés de pingo no i. Ele jura que vai fugir e matar a mulher do diretor da prisão, mas o doutor Rafa não tá nem aí pras ameaças. Além disso, não é casado. Dizem até que é um boiola dissimulado e que solta a franga numa boate privativa, uma tal de Bungee Jump, em que se entra pela porta dos fundos e não se sabe bem onde é que fica. Chegadão numa rola, fissurado numa sucção, pegando com as duas mãos e caindo de boca, mamando a manjuba com sofreguidão. Dizem que ele costuma gritar Vai que é sua, Rafael!, que nem o Galvão Bueno gritava pro Tafarel, na hora da cobrança de pênaltis. É o que dizem os presos aí. Que o diretor é o cara. Pros cocos. Tenho nada com isso não.

Acho até que eles inventam essas coisas por causa de algum ressentimento, porque esse doutor Rafael é mão de ferro, mau pra caramba. Sempre que lhe dá na veneta, costuma colocar preso perigoso na cela dos tarados, o mesmo que atirar carne aos cães. Os caras também são assassinos irrecuperáveis. Malhados, musculosos, com cara de pitbull, metem medo até nos carcereiros. E têm uns cacetes de jumento. Dizendo os detentos aí que o diretor olha pra eles e fica logo com a boca cheia d´água... Também o bochicho que corre aí pelos cantos é que o matador de mulheres grávidas é o próximo da lista. O bicho vai pegar. Se correr, o bicho pega; si ficar, o bicho come. Vai ser um estrago. Vão detonar as hemorróidas dele. O cara tá ferrado. Literalmente fodido. Primeiro, antes de enrabá-lo, pois é certo que ele vai se espernear, vão dar-lhe umas boas porradas, amaciá-lo a murros, e ele nem vai saber se foi coice de burro ou castigo de Deus. Vão deixá-lo em petição de miséria, como dizia minha avó. Assim como tem a lei do Cão, tem também a lei de Deus, dizia ela, abraçada ao espiritismo e arrematando que Deus tarda, mas não falta com o castigo que cada um merece ou faz por merecer. Tenho pensado nisso, agora que me tornei evangélico, larguei as drogas e leio a Bíblia todos os dias.

Muito que me arrependo aqui na prisão, onde cumpro pena por ter estrangulado minha avó. Foi um acidente: dei-lhe uma gravata e exagerei no aperto, quando fui tomar-lhe dinheiro pra comprar droga, e ela tentou me impedir. Me arrependo e busco a minha salvação. Graças ao pastor Jacinto Pena, que nos visita aqui na penitenciária e garante que só os convertidos estão salvos dos maus caminhos, pois têm os passos rastreados por Jesus. Pastor Jacinto, fora da igreja, faz parte de uma cooperativa e botou pra rodar um microônibus na frota de transporte alternativo; contratou motorista e mandou fazer adesivo pra colocar no vidro do veículo, dizendo que o mesmo é Propriedade de Jesus. Diz o pastor que Jesus entrou nesse negócio com ele, e teve gente que fez chacota ao ler o adesivo; não sabia — ironizou o gozador — que Jesus, aquele que dissera “a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, agora estava no ramo do transporte de massa, explorando ganhos financeiros com as demandas da sociedade capitalista. O pastor Jacinto colou, também, no vidro traseiro do microônibus, e no vidro de seu carro particular, o adesivo com a frase Rastreado por Jesus. De nossa parte, em sinal de gratidão a Jesus, que nos salva de nossos pecados, a cada visita do pastor a gente contribui com dinheiro pra construção do Grande Templo da Fé Universal e do Reino de Deus. Já sinto pena de quem não contribui, pois terá que se haver com Deus, alerta o pastor, meio que sorrindo ao brincar com o próprio nome. Mas a gente aqui nunca que deixa de contribuir. Meu reino não é desse mundo, disse Jesus, o filho de Deus, e, por conta disso, o Grande Templo, segundo o pastor Jacinto, não será construído na Terra, mas no céu mesmo, onde fica a casa do Pai. Aleluia! Deus é pai e Jesus tem poder! Estou tão arrependido! Coitadinha da minha avó!

 

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POR EM 07/05/2008 ÀS 12:39 PM

Mosaico de fragmentos humanos

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O homem se move na selva urbana. De volta ao lar, do centro para o subúrbio, o homem periférico é um valdevinos que se move. A pé em seu caminhar, dado a ser — dado que é — um ser que se dá de perambular. Lê-se, no dicionário, que valdevinos é perdulário, estróina, doidivanas, vagabundo. Um homem e um nome que bem ou mal se recomendam na vida. A emenda pior que o soneto, o pedido menor que a encomenda. Como então conceder-lhe a nobre comenda? Come, comendo a dor, o comendador de sua comida? Há homens perfeitos e homens prefeitos. Valdevinos é um homem que nunca fez pé-de-meia que preste, nem por isso apelar para o pé-de-cabra, dando preferência ao pé-de-moleque. “Se o Braz é tesoureiro”, remonta-se a velha música. “Fora tesoureiro, daria desfalque”, o Braz até brinca, mas nem nunca, que não é maluco pra meter a mão na cumbuca do dinheiro público.
 
O homem se move no labirinto metropolitano. Contempla a flora e fauna humana e exercita a reflexão. Conclusão: ilusão e solidão. Os seres semoventes, seus semelhantes. Fragmentos humanos. Húmus do consumo. A flor urbana que se anima do cimento, da caliça e do excremento. As cenas do cotidiano são cenas de crimes. O tempo urge, a fera ruge. O animal humano se transfigura. A humanidade se desembesta, a besta humana toma gosto pela carne nas cenas do crime, às quais os assassinos sempre retornam. A besta bebe o sangue que se derrama e lambe as lágrimas de dor que se entornam. O animal humano carece de agulha hipodérmica nos glúteos, para que a massa excrementícia ou bolo fecal não lhe suba à cabeça e lhe emporcalhe a razão. O animal humano, a rês no curral, necessita de tratamento de choque verbal, para cair na real.
 
Uma palavra, uma só palavra deflagra a criação de um poema pé no chão. Unte suas juntas, rejunte seus tijolos aparentes e os azulejos no mosaico de seus arabescos. Apare as unhas e siga em frente. Se pergunte na procura, se encontre e se respeite. Crônica do cotidiano. Uma muda gesticula-se de mesa em mesa e oferece adesivos com motivos infantis. Dentro da noite, mulher jovem e de boa aparência empurra o carrinho com o seu bebê que ela diz estar doente e, ali no bar, pede ajuda para comprar medicamentos. Há quem não acredite e pense que tudo não passa de um esperto expediente; há quem lhe pergunte, cruelmente, se ela aceita cheque sem fundo! Uma cena real, que nos deixa mal neste mundo, podendo que seja mãe solteira, ou casada e abandonada pelo marido, ou cujo marido esteja no desemprego. Coisa intrigante, a esmoler quase elegante. Mas parece convincente. E é comovente. Como pode uma jovem e bonita mulher pedir a esmola da noite? Os homens no bar se perguntem, e ali o paquiderme ignorante. Tudo é uma questão de discernimento, experiência e leitura da vida à sua frente.
 
Fábrica de Espetinhos, o nome do barzinho, aberto recentemente. E agora uma ainda jovem mulher negra que amiúde na noite se apronta, se faz atraente e se senta em mesa de bar e se põe a esperar por alguém que nunca chega. Pede uma cerveja, uma só, como sempre; bebe e espera, e espera, e se queda, simpática — a esfinge estática —, na espera inútil. Então paga o que deve, se levanta e se vai. Passa pelas mesas e dá boa-noite a algum conhecido, ela com o seu resignado e triste sorriso. Há anos que isso acontece e um pouco nos entristece. Se diz que não devemos sentir e que não é bom sentir pena de outro ser humano, mas não logramos evitar a pena que nos incomoda. Ô vida! Cada um com a sua sina, severina ou valdevina. Cada Suassuna com a sua pedra do reino. Sua pedra nos rins. Sua dor na coluna. Garçom, mais uma!
 
Uma esquina da Babilônia. Toda sorte de gente. Passa o carro da polícia, do bombeiro, do taxista. Malgrado os veículos com seus faróis impertinentes, a gente se senta de frente para a balbúrdia do trânsito e pede uma latinha e uma cáfita. Há quem diga cáfila, mas cáfila é coletivo de camelo, ou de dromedário. Uma só corcova tem o camelo, duas tem o dromedário, e “drome” Dário, o operário, o “camelo”, otário do salário. Duas cadeiras amarelas e uma mesa solitária no posto de gasolina ali adiante. Os semáforos com suas luzes intermitentes, e o tráfego de tanta gente, todo o rumor do mundo na esquina da quadra em que o novo bar se abre. Me vê outra latinha e mais uma cáfita. Cáspita! Um gosto de mosca na boca, por certo que em boca fechada não entra mosquito.
 
Vão se enchendo as páginas em branco do bloco de apontamentos. Notas para a crônica do momento. Pensamentos avulsos, dispersos. A poética segundo Bashô. O hai-kai bem feito é o hai-kai perfeito. Uma jóia poética. A súmula, a síntese, a prímula e trêmula estrela da fala. A rã de Bashô supera a métrica antipática. Bashô no centro espírita não é um espírito qualquer que baixou. Aéreos pensamentos. Jogo de devaneios. Do contentamento e da sensação de vazio ao fim de cada obra. Todo fecho de livro é um regozijo. O espírito da letra diz: Eu exijo! Diz o autor: Deixa que eu redijo. Toda obra é impositiva e exige muito do autor, que vive de sobras. Ao fim da obra, todo autor é um morto-vivo. Que vivam os versos e as personagens que o perseguem. Me veja outra lata de cerveja. Do êxtase, do cansaço e da necessidade de anestesiar-se. De lata em lata, já são oito latas, duas cáfilas e um escriba que já se estriba nos cascos de sua metamorfose — hora de o centauro, o Sagitário, caçar o caminho de casa, antes que comece a relinchar no estábulo e se dê asas, querendo voar feito Pégaso.
 
O pernoite da noite. A noite pernoita nos escuros do dia, o dia se amoita nos claros da noite. Poesia não se inventa, não se mente e não se vende. Artifícios são ossos que se roem do ofício. Espontânea, poesia não é de hoje, é de ontem e de sempre. Definitivamente, poesia é um estado do espírito, um brilho, um insight (sai, tiu!), senão é farsa, é só bulício. Poesia é mais do que isso e não é só isso. Poesia é e não é nada disso. Poesia não se explica. O poema no bar da esquina. O problema não é o bar, nem a esquina, nem o poema. O problema é a alma. Se a alma é uma pessoa pequena, então a poesia é mediana. Poeta maior é algo superior. Nem todo Fernando é Pessoa. Não chega a Pessoa quem nasceu pra lugar nenhum. Das coisas pequenas, ínfimas, insignificantes, é o poeta miúdo. Se diz, de quem quer ser o que não é, que até formiga quer ter catarro. Que sarro!
 
Engano é dizer que uma esquina qualquer não dá poesia. Mas aí é que se engana. Toda esquina é o resumo do dia com a poesia humana. No mais, não tem mais. E ali vai o Valbraz, ou Valzarb, tanto faz. Um homem de duas caras: uma mais alegre, quando bebe, e outra mais endurecida, petrificada pela vida.
 
*
 

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POR EM 30/04/2008 ÀS 10:27 AM

Histórias de amor e desamor

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Fizeram silêncio e Valdomiro aproveitou para acender outro cigarro. Deuselinda, a mulher de olhos verdes e cabelos longos e negros, sentindo os olhos úmidos, mordeu o lábio inferior, reprimindo uma lágrima. Um pouco mais velha e mais experiente na vida, não queria demonstrar fraqueza diante dele, ali em seus vinte e poucos anos e constrangido pelo teor do momento. Foi ele quem recomeçou a falar, depois de uma longa tragada.
         
— Sabe, eu não queria que isso acontecesse, que esse dia chegasse, mas... 
        
— Tinha de acontecer, mais dia, menos dia. No fim, não daria mesmo certo... Eu até já esperava por isso.
         
— Esperava?         

— Sim. De uns tempos para cá, tenho notado você diferente. Sabia que algo estava acontecendo.     
    
— Sinto muito. Por tudo.         

— Não se preocupe.
         
Tornaram a se calar; ela raspando com a unha do polegar o esmalte do outro polegar; ele pensando na moça pela qual se apaixonara e com a qual pretendia se unir para o resto de sua vida.
 
 

Quase não fala, ultimamente. Responde ao pai quando interpelada, dirige-se a ele, se necessário. Fora isso, nada diz. Não puxa conversa e não dá pé pra conversa nenhuma. Mais de mês que está assim, calada. Perdida nas sombras do ontem. Já não sorri nem cantarola mais, como outrora, saltitante e alegre, feito passarinho.
         
— Que tristeza é essa, Joana?
         
— Nada não, pai.
         
O tempo passa. Joana cuida normalmente de seus afazeres. Cozinha. Lava. Arruma. Tudo como antes. Dentro da rotina habitual. Só que por demais tristonha. Muda. Os olhos negros, jabuticabas molhadas de chuva, sem aquele brilho festivo de sempre. Preocupado, o pai insiste.
         
— Que se passa contigo, filha?         

— Nada não, pai. 
         
— Eu a amei, sabe? De verdade. Mas a gente muda. Não devia mudar, não é mesmo? No entanto...
         
— É assim mesmo, Valdomiro. Acontece.
         
— Então você compreende?
         
— Compreendo. Compreendo, sim.
         
— Temia que não compreendesse.
         
— Não posso censurá-lo por ter deixado de amar-me.
         
Novo silêncio. Os dois imersos nos próprios pensamentos.
 
*
         
Noite de festa, alegria muita, gente muita se divertindo. Cachaça e licor à vontade, além de churrasco, doces e quitandas. Viola, pandeiro, sanfona e moça bonita. Morenas cheias de graça, que, metidas em vestidos de chita, saltitam pra lá e pra cá, como um bando alegre de pombas-rolas. Vão e vêm, tagarelando e cochichando, entre risinhos marotos e olhares enviesados para os rapazes, afogueadas por uma certa saliência na calça de um deles.
         
Fora, no terreiro, crianças fazem sua festa particular. As meninas dão-se as mãos e cirandam, cantando cantigas de roda; os meninos correm atrás uns dos outros, e os cachorros da casa, com outros que se juntam, latindo atrás deles. Joana também se diverte. Rodopia pelo salão, nos braços de Diogo, o dono daquela saliência na calça; uma indecência, pensa a beata Moema, todavia curiosa com a coisa. O licor sobe à cabeça de Joana e o mundo gira, deliciosamente. O rapaz cinge-a, com força, pela cintura delgada, atraindo-a mais para si, roçando-lhe a intimidade e sussurrando-lhe coisas coceguentas ao pé do ouvido. Ela sorri, arrepiada e enrubescida, e procura conversar.
         
— Não o conheço por estas bandas, Diogo.
         
— Não, Joana, não me conhece. Eu ia passando e ouvi a música, daí parei pra dar uma olhada na festa. Gosto muito de festa.
         
— E onde você mora?
         
— No mundo, Joana. Sou um homem do mundo.
 
         
Nada mais havia para se dizer, exceto o adeus. Valdomiro esmagou o cigarro no cinzeiro.
         
— Devo ir-me, agora. Preciso cuidar de umas coisas.
         
Deuselinda fitou-o no fundo dos olhos, sem nada dizer. Ele disse:
         
— Seremos amigos, não?
         
— Claro. Por que não?
         
— Não me guardará rancor?
         
— Não, que bobagem.
         
Ele estendeu a mão para ela.
         
— Adeus.
         
— Adeus. Felicidades.
         
— Obrigado. Pra você também.
 
         
Joana Chorou, no capinzal, sob um céu enluarado e cravejado de estrelas; a brisa da noite beijando-lhe os compridos cabelos e o corpo aveludado, perfumado pelo aroma verde do capim selvagem. Era mesmo uma linda noite do sertão, sob um céu de cristal. Os diamantes de Deus. Do capinzal podia-se ouvir os rumores da festa, a música, o vozerio do povo.
         
— Por que está chorando? Mulher é pra essas coisas, ué! — disse-lhe o tal Diogo, e deixou-a ali sozinha, retornando ao pagode.
         
Quando Joana, por sua vez, regressou à festa, ajeitando o vestido amarrotado, o sujeito, o malfazejo, que vivia pelas beiras de estrada, já havia partido. Montara em seu cavalo e sumira no mundo. A pobre moça postou-se contra o mourão da porteira, à entrada da casa, e ficou, demoradamente, contemplando a estrada vazia, clareada de luar; as lágrimas deslizando pelas faces morenas, indo morrer no canto dos lábios, vermelhos que nem pitanga madura, e ainda dormentes pelos beijos sedutores do forasteiro.
         
— Diga, Joana: o que te aflige o coração?
         
— Nada não, pai. 
         
Sozinha, Deuselinda refletiu sobre o relacionamento entre ela e Valdomiro, concluindo que a felicidade nunca se completa. 
*
Prematuro, o filho de Joana com Diogo nasceu morto. O natimorto foi colocado numa caixa de sapatos e sepultado ao pé da imbaúba, nos fundos do quintal.

 


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