Desenho de  Wendy MacNaughton
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Valdivino Braz

POR EM 29/09/2008 ÀS 05:56 PM

Os desenhos da palavra

publicado em


Cedo me vi atado ao teu calcanhar de letras. Tu me vinhas untada em litros de óleo, impressa em latas de doce, e nas folhas de papel eu te copiava com a ponta de um graveto — a primeira caneta — molhada naquela tinta, aquela água azul-turquesa, obtida com a borra seca no vidro da Parker, encontrado no quintal de minha casa.

Com aquela água azulega, te imitava os desenhos, embora, hieróglifos do sonho, os não decifrasse ainda. Eras então a gênese de alguma coisa, ingênua matéria do que não se adivinha. Oh, eu nada supunha no que se me desenhava!

Entanto, algo já lá estava, insinuando-se numa nuança de sombra, à espreita no espelho onde eu me olhasse enquanto vivesse. O espírito das letras era o que se sombreava na borra que me preserva.

O tempo perdido, o mundo quebrado

Com as letras que o tempo logo apaga — como o risco n´água, sem ruído —, se foi perdendo o encanto, quebrado o mundo de vidro mágico, o cósmico visto a olho lúdico. O graveto era caneta, o prisma era luneta, e eu movia os planetas, antes que substituído o brinquedo por um mundo de assombros e medos.

Enorme perda, posto que não retorna, de mesmo nome e rosto, o vidro que adorna a vida. Não, Proust, nenhum tempo o mesmo, nunca redescoberto o completo encantamento. É o que nos faz, Proust. É o que nos faz tristes. O tempo é um travo de absinto e uma transparência de vidro vazio, borrado de tinta.

Alterações químicas do cuspe

As letras, provei-as com lápis-tinta, e ficaram-me a língua e os lábios arroxeados, impregnados de vogais e consoantes; todo o alfabeto na boca, o cuspe com gosto de cópia.

As palavras me vieram com a dor de suas cáries e, na forma da barbárie, o ruído agudo de um motor no cérebro, a rotação nevrálgica, demolidora, de uma broca odontológica; o cuspe com gosto de sangue e a redundância de purulentos abcessos.

Ficou-me o abalo do sangrento processo da restauração de canais, a comunicação entredentes e uma fala que se articula com sabor cirúrgico-metálico; o cuspe com zinabre de prata e crosta de tártaro, o bárbaro.

As unhas da vida, o rosto desfigurado

Umas palavras eu não disse, da minha meninice. As que me foram tomadas, as que me foram reprimidas, as que guardei para depois e não as pronunciei jamais. Por isso tantos livros na estante não preenchem o meu vazio.

Onde foi que o mundo me roubou o meu menino em mim? Ah, nunca mais me vi! Olho no espelho e não me vejo, olho no retrato e já morri.

Ficou-me o ríctus de dor no riso em rasgo e repuxos. No olhar, a sombra de tudo, e no rosto amargo as rugas que se apegam à pele do passado, ao modo de gavinhas cravadas no musgo de um muro antigo. O rosto que resta para o homem apresentar-se ao mundo.


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POR EM 22/09/2008 ÀS 06:37 PM

A flor do antúrio

publicado em


Agachado ao pé dos degraus, Narciso cuida do antúrio florido cujo vaso se quebrou, e Débora vem sentar-se ali na escada do alpendre, atraída pelos olhos azuis do rapaz, e pronta para um bate-papo; mas ele finge não lhe perceber a presença. De modo a provocá-lo, buscando-lhe o azul do olhar, ela estira as pernas bronzeadas e realçadas pelo short branco, ousadamente curto e justo — uma indecência, ao juízo das mulheres da vizinhança, e uma delícia para outros, jovens, adultos ou velhos devassos. Com tais pernas quase debaixo do seu nariz, e ali os mimosos pezinhos descalços da mocinha, o jovem jardineiro ergue os olhos, afinal, porém banca o desinteressado e volta sua atenção para o antúrio. Débora, ninfeta atirada — com uns lábios de chupar pirulito e um olhar malicioso, feito a Lolita de Nabokov —, não se dá por vencida, puxa o fio da conversa:

— Aí, já observou bem essa flor?
Narciso sequer levanta os olhos ao falar:
— Que tem ela?
— Não lhe diz nada?
— Como assim?
— Parece o quê?
Olhando a flor, ele diz:
— Parece flor, mesmo.
— Não, não parece flor. É uma flor. Dá pra notar, né? Quero saber é o que ela sugere.
— Não sei.
— Ora, vamos, faça um esforço!
— Bom... Deixa ver... Borboleta?
— Borboleta? Que falta de imaginação!
— Com quê se parece, então?
— Se você não percebe, também não vou dizer.
Ele dá de ombros, concentrando-se no serviço. A garota insiste:
— Não é obscena, essa flor?
— Obscena?
— É.
— Não acho, não.
— Pois olhe-a direito.
Ele olha, mas...
— Que tem ela de obsceno?
— Tá na cara, não vê?
— Sinceramente, não.
— Putz! Será possível?
— Às vezes, não percebo bem as coisas.
— Então olhe de novo.
Narciso torna a olhar a flor, e diz:
— Continuo não percebendo.
— Não acredito! Observe a forma triangular dessa flor... a sua cor encarnada... essa ponta aí, dura, comprida, obscena...
— Estou vendo.
— E o que parece?
— Miolo de fruta.
— Qual é, cara? Tá me gozando?
— Eu?
— Você, sim. Sua cara tá dizendo outra coisa...
— Que coisa?
— Você sabe.
— Sei não.
— Sabe, sim! Você sabe.
— Tá legal, eu sei; mas não vou dizer.
— Por que não?
— Porque não.
— Tá com medo?
— Não é coisa pra se dizer a uma garota da sua idade.
— Tá brincando? Fala sério, cara!
— Quer, mesmo, que eu diga?
— Tô esperando.
— Não vai se zangar, não?
— Manda ver, cara!
Ele aí faz a cara mais safada desse mundo, e sapeca o verbo:
— Parece com uma coisa que você tem no meio das pernas.

Débora meio que se empertiga e se enrubesce, algo constrangida, como se sentindo nua — instintivamente, fecha um pouco as pernas até ali ostensivamente abertas. Contudo, procura não demonstrar-se incomodada, e desconversa:

— Ah, meus joelhos!

Ela supõe que tudo vá ficar por aí, com a desconversa. Narciso, porém, de todo aceso, se desdobra, vai além na inversão do jogo, no jogo duplo, senhor da situação:

— Não são seus joelhos, não.

A garota se põe em guarda — e tenta ser sutil ao retesar a postura —, como se não esperasse que ele fosse ousar além dos limites; que entendesse a provocação, mas soubesse quando parar. Sabe que ele, agora, só espera pela próxima pergunta, que, é claro, ela não faz; não de viva-voz, porque a pergunta já está no ar, implícita, pastosa — seus olhos parecem fazer as vezes dos lábios. O esperto jardineiro a tudo percebe, e, avançando o sinal que ela intenta fechar, salpica a pimenta e aguça o tempero para o que julga ser o golpe de misericórdia — conquanto brincalhão — sobre a fogosa mocinha, inepta aranha, presa na própria teia, graças à astúcia da mosca, ou do moço:

— Já ouviu falar de hermafrodita?

É a vez de Débora se fazer de sonsa, temendo pelo pior:

— Herma... o quê?

— Hermafrodita. Andrógino. Duplo sexo.

— Ah...

Segue-se uma pequena pausa; Narciso saboreando o momento que antecede o golpe fatal. Em literatura, há uma técnica de preparação do clímax, do suspense, gerando tensão e densidade para aguçar a expectativa do leitor, onde, figuradamente, o texto é uma teia aracnídea; desnecessário dizer quem é quem aqui, mosca ou aranha, podendo também que a coisa não seja bem assim, uma vez conferido ao leitor o status de co-autor da narrativa. A saber, nesse caso, o que resulta desta parceria, sendo o que realmente importa. Se bem que, também, ao pé da letra, pode ser que nem tudo seja assim, bem pode — como se diz — que a coisa funcione de outra forma. Para Gertrude Stein, uma rosa é uma rosa é uma rosa. Também uma teia é uma teia, uma aranha é uma aranha e uma mosca é uma mosca. O visgo é o visgo. Mas isso não termina por aqui. É um círculo vicioso e, dada a sua complexidade, vai longe, podendo que se meça com a infinitude, a menos que chegue a um termo conclusivo.

— Pois é. O antúrio é uma flor de dupla natureza, uma flor fálica, veja bem...

Narciso acaricia, com as pontas dos dedos unidas e num vaivém vertical, o clitóris-falo da flor, num por demais explícito gesto, a par com o que ele inventa a seus propósitos. Débora jaz ali assustada, tensa, já se empertigando; o coração aos saltos sob a malha da blusa azul-claro, feito um pombo aprisionado por duas mãos. Ela e o rapaz visivelmente excitados; as faces congestionadas pela aceleração do sangue, o sangue fervendo nas veias, adrenalina a todo vapor. E Narciso ainda não terminou:

— Não se parece com uma periquita hermafrodita?

Embora tudo, ou já por sentir-se grudada na teia visguenta em que se meteu, Débora teima em não se dar por vencida. Comprime os lábios, menos para conter o riso do que para dar-se tempo, algo com que readquirir firmeza; mas, ao fim, no afogueado momento, se traindo com a fatídica pergunta:

— O quê?

E ali a implacável resposta, com a qual Narciso detona de vez a garota:

— Xoxota.

Aqui o jardineiro encara-a, descaradamente, todavia engolindo em seco; as orelhas ardendo, pegando fogo, e os olhos derdejando as chispas azuis do desejo. Débora, por sua vez, arregala os olhos negros e baqueia, boquiaberta — nocaute! Abruptamente, põe-se de pé e dá o que pode dar de troco:

— Tarado!

Xinga-o, e, bambas pernas pra que vos quero de um compasso maior o círculo, some de vista, em busca de ar — que sufoco! Narciso, também assustado com os cento e oitenta graus da situação, e torcendo para que a garota não vá contar tudo a alguém lá dentro da casa, ainda logra uma risada; na verdade, uma risadinha de nada, medrosa, mais para se dar um ponto de apoio, a seguir balançando a cabeça para os lados, e concluindo:

— É doida. É doida e a família não sabe disso.

Indo refugiar-se no banheiro, Débora lava o suor das mãos na pia, refresca o rosto com água e aos poucos se refaz daquela brincadeira com fogo. Mas não se livra da imagem de Narciso bolinando o grelo da flor do antúrio. Livra-se da blusa, abarca com as mãos os pequenos peitos, acariciando-os; desabotoa o short na cintura, abre o zíper, segura os lados do short apertado e força para baixo, se requebrando para facilitar a saída da peça, mormente na bunda, e dali até os pés, e daí para fora de vez. Agora baixa também a calcinha vermelha, curvando-se para isso, até ela passar pelos joelhos e descer, macia, pernas abaixo, daí retirando-a com um peculiar e feminino movimento dos pés. Então senta-se no vaso e, ali escancarada, cuida de saciar o desejo nos róseos miolos de sua flor, esponja do mar, ostra, lagarta de fogo, crisálida se abrindo e, pegando vôo, a bela borboceleta — tudo ali, metamorfoses nas mucosas da boca de pêlos eriçados e curticantes.

Dispensável dizer, ou livremente supor, que todo autor, no campo da literatura erótica, se compraz no papel de voyeur de suas próprias personagens. Suposto que não só no romance de Vladimir Nabokov, mas em todo homem, há um libidinoso Humbert, como há uma maliciosa Lolita em toda mulher.


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POR EM 15/09/2008 ÀS 06:39 PM

O macaco hidráulico

publicado em

 
I
A vertigem da pedra lascada e as rodas do mundo

Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo. Assim falou Arquimedes. Já então, e até hoje, o mito de Atlas carrega o mundo nas costas. Cósmica corcova. Napoleão teria dito: Deixai a China dormir, pois quando ela acordar, o mundo inteiro tremerá. Profecia?

Pedra lascada, invenção da roda, odisséia dos gregos, odisséia no espaço, viagem à lua, jornada nas estrelas — e nada. Quimeras da pedra encarnada. O macaco hidráulico. O homem. O crime. O mundo que se move. As rodas do mundo e o vértice do mais que se invente com a destruição do World Trade Center.

A terra treme com a morte das irmãs gêmeas. Se oriente, Ocidente. O sol se levanta no Oriente. Atente-se, Oriente. O sol se deita no Ocidente. “É no cérebro e somente no cérebro que se perpetram todos os crimes do mundo.” As sementes do bem e do mal são semeadas na terra malsã do ser. As sementes do bem vão bem, as do mal fazem inchar, necrosar e apodrecer o coração. A razão separa as sementes. O bom sentimento é o grão da razão.

Só os demônios da guerra avassalam e derramam sangue sobre a terra. E deixem Deus em paz, que tanto fez como tanto faz, e tanto faz como tanto fez. Só os loucos e sanguinários semeiam o ódio e a discórdia. Só os bárbaros semeiam choro e ranger de dentes. Sois homens ou chacais? Onde quer que o sol se deite, onde quer que se levante, o homem se pergunte, o quanto antes. A resposta é a semente.

II
A onda que se avoluma e as bombas que sangram

Tâmara rindo e chupando tamarindo. Isso não é um poema, e não é um brinquedo. É a doçura da criança destroçada pela guerra. Tem a terra o azedume do homem. E não tem graça nenhuma brincar de soldadinho de chumbo. A onda se avoluma e se arredonda para a apoteose do estrondo. O mundo é surdo ao rumor do nada. Os ventos murmuram na colheita das horas. O tempo é um latifúndio de gerúndios que a tudo devasta e arrasta e vai levando.

Ando-me doendo, anda-me doendo o mundo, ando, endo, indo, ondo, até o fundo, até o âmago amargo. Diga-me, o que mais quer que eu diga, além do silêncio que me obriga a doer? Escuta... Por trás de todos os ruídos, o surdo bramor da onda que se apruma de seus gerúndios para arrebentar-se com a noite e espatifar as torres e as rochas humanas.

Anda-me doendo o mundo. Andam-me esmagando. As máquinas, as bombas, os homens-bombas, as mulheres-bombas, a terra que sangra com as bombas humanas, demasiado desumanas. Explode-se o mundo de ódios. Bélicos gerúndios. Os homens se destruindo, indo-se com a onda monumental e espetacular de tudo. O mundo que se vê pela tevê.

Amanhã vamos estar podendo fazer. Esse modo brasileiro de dizer, a saber o que se há de fazer, com todos os verbos. Vamos utilizar novas tecnologias bélicas de ponta para destruição do inimigo. Vamos acabar com a escória e mudar o mapa da História. Esse o discurso lá fora. Declaração banal de algum general, sorrindo para as câmeras. Cômico macaco, cômico mímico, não fosse cínico. Marionetes da morte, os generais não vêem em si mesmos o inimigo. São joguetes. Peças no tabuleiro político e econômico das guerras, no sanguinário jogo de interesses, no genocídio dos inocentes.

O mundo é um campo minado. O poder de mando se apodera do mundo e vai destruindo tudo. Nada pior do que o poder. E o homem só não tem poder sobre si mesmo. O homem não se governa. Não tem o pleno domínio de si. O mal, o grande mal, emana-se do poder, de toda e qualquer forma de poder sobre a face da Terra.


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POR EM 08/09/2008 ÀS 06:41 PM

Chupa essa manga

publicado em
(Bocejos do meu enfado) 
 
Isto é um conto, e meu nome não lhes conto. Mostro-lhes, entanto, como destilar, em pequenos frascos ou em doses homeopáticas pra leão, o veneno da provocação. Pra começo de conversa, fecho, com bocejos de enfado, o último de uns livros que andei lendo, dessas fornadas que andam saindo por aí, bafejadas pelo fole ao fogo da reles bajulação ou forja de resenhas fajutas ou fraudulentas, à força de alardear baixa literatura, de rasa densidade e temperatura mínima, como coisa de qualidade e até de “gênio” pós-moderno. Coisas desse tipo porejam também em terras de Nelore — venha para as terras de Nelore —, com o seu jeito nelore de ser, bééé! muuu(lher)!; os cornos brotando nas cabeça, antes de serem extraídos para fabrico de berrantes —, não raro assinadas, tais resenhas, por certos professores de terceiro grau, podendo que o grau seja mais etílico do que universitário, favorecendo neófitos ainda com brotoejas na cara da insípida literatura, ou assaduras na bundinha que mamãe beijou, porquanto ainda incipiente e insipiente, consoante ou de conformidade com as consoantes propriamente ditas, intervogais e afins, conquanto diferenciadas entre si. 
 
Há casos de “profs”, em Nelore City, de idade provecta — de terceiro grau, eu dizia —, já quase que de mala e cuia prontas para os contatos de terceiro grau com o ET da eternidade, porquanto já desconectados da realidade, em vias de serem deletados por senis obsolescências, e todavia embeiçados por certas alunas “escritoras” ou “poetas” entre aspas. E andam eles pelos eventos literários com o livro publicado pela aluna, exibindo a “obra-prima” e torrando a paciência de ouvidos alheios com a leitura de uns poemas chinfrins e patéticos, ressaltando-lhes a suprema qualidade poética e cuspindo os perdigotos de indiretas com o intento de subestimar a outros poetas, bem melhores, que ali se prestam, por educação, a ouvir-lhes a babação de bocas moles — vide, por comparação, a boca de lábios frouxos de um presidente da República que andou enchendo as burras com a compra e venda de gado nelore, e que, cínica e acintosamente para alguém educado na Sorbonne, boquejou em vídeo de TV e chamou de vagabundo aos velhos como ele, para não dizer de gente com idade para ser pai dele. Eta pai d´égua!
 
Tocando em frente, como naquela música do bom violeiro pantaneiro, toquemos a boiada, enquanto por aí trocam lâmpadas no bocal dos soquetes, se me entendem a elétrica metáfora, e umas e outras, genuflexas e contritas, caem de boquete numa nota de cem pratas. E aqui continuando com o início, falávamos de ridículos professores, “enamorados”, afetados por suas “paixonites” — não aquelas paixonites agudas de antigamente, antes com a murcha muxiba ou aponevrose do penduricalho caída que nem barbela de peru —, ainda mais por não estarem falando com idiotas, mas seres no mínimo inteligentes para perceberem a mediocridade da baixa literatura que exibem como coisa genial. Patéticos, ridículos, esses cantos de cisne professoral. Vão mijar, velhos! Que essa purpurina toda, pra cima de tais poemas e de tais meninas, não passa de tesão de urina. E parem de apadrinhar publicação de mixórdias que não passam de mera e diletante literatice, coisa que não vai a lugar nenhum nem servirá para nada, a não ser para fins escatológicos de algum leitor duplamente desprevenido: de senso crítico e de papel higiênico para o devido uso.
 
Nada de novo na papelada da propalada “nova” ou “novíssima” literatura de Nelore, globalmente falando, em cadeia ou rede nacional. Não vamos aqui generalizar, mas muito da loja de Bugigangas & Penduricalhos dessa propalada literatura, incluída boa parte dos “melhores da geração na venta”, alardeia-se por meio de orelhas, prefácios e resenhas, tanto mais quanto maior a fornada de autores e papel desperdiçado que, ultimamente, chega às livrarias. São crias de parto precoce, ainda sugando a placenta, e muitas delas formatadas via blog — nada contra, conquanto o ar saturado de fraldas ou cueiros de certa literatura —, daí para as editoras, com as bênçãos de amigos — também autores — que militam no meio jornalístico ou mantêm laços de mútuos interesses com editores e livreiros.
 
É por conta destes trâmites, tráfico de influência, permuta de favores, ação entre amigos, esqueminhas de amores carnais expressos e quejandos de igual teor, que as portas se abrem e se lavram resenhas sobre livros nem tão bons quanto se alardeia, nas páginas dos grandes jornais, nos grandes centros do país. E a galera inculta e incauta, que não manja nada, guincha, pula, bate palmas, peida e pede bis, feito macaco diante da banana, a exemplo do que ocorre também no campo da música, outro lixão de muita porcaria, promovida pela mídia, ou por conta de duplas ditas sertanejas, já estabelecidas, que ficam apadrinhando novas duplas de coisas ainda piores do que eles. Gente que nunca foi cantor, mas fica aí estufando as veias do pescoço até quase arrebentá-las, tentando se passar por artistas e, o que é pior, logrando sucesso junto a um público acostumado a engolir música (?) ou ruídos de péssima qualidade — não raro raiando a idiotice —, por falta de melhor formação ou informação cultural; por falta de dom, alma de artista, vivência e poesia, ou falta de desconfiômetro mesmo. Pois é, coitadinhos, vão logo dizer que somos preconceituosos e que a culpa não é deles, patati-patatá. Então é melhor deixar pra lá, causa perdida, pura perda de tempo e argumento.
 
Chega a dar enjôo, o cheiro de ovo no fresco glacê das loas e broas confeitadas para beneficiar a esse comércio de coisas fajutas, forjadas a mentiras, mais não sendo senão abobrinhas decantadas como boas obras literárias, mas que — masque, rumina esse coco, ou chupa essa manga —, na verdade, e quando muito, são medianas em sua maior parte, quando não verdadeiras empulhações a cuspe, impingidas ao leitor, com as bênçãos da mídia conluiada com as editoras. Em Nelore City, por exemplo, publicam-se algumas toneladas de livros ruins, desde que os autores paguem pela edição. E o pior é que as editoras costumam levar esse lixo às bienais de livros do chamado Eixo, pegando-se o Minhocão e curvando-se a espinha dorsal — pedindo bênção — ao pés do Corcovado. Duas corcovas tem o camelo, uma só tem o dromedário. Mixórdia literária que se leva daqui pra lá, e que só depõe contra o que de mais representativo se produz na área por aqui, e que não é mostrado. E assim tais editoras prestam um desserviço na área, contribuindo para a depreciação pública, meio que generalizada, da literatura produzida em nossas plagas, não bastasse a falácia de que santo de casa não faz milagre. Ô praga!
 
O que se tem, então, no contexto geral, é um conúbio quase carnal dos que vivem deste comércio — afoitos escritores de fachada, dando uma de espertos —, a tirar vantagens dos canais abertos, que levam ao canal excretor ou tubo terminal por onde se despeja o enxurro de uma literatura perrengue, diarréica. Se o canal é de dente podre, o bafo insalubre, doentio, paira no ar. São escribas ladinos, boa parte deles sem talento, expelidos a fórceps, forçando a projeção mais pela política literária e menos pela literatura propriamente dita, de melhor qualidade. Uma diarréia nacional a obrar-se por quilo, vendida como literatura, por atacado e a granel. A verdade, a lamentável verdade, é que eles até vendem — e até vão para as academias de letras, pra virarem cupins e roerem os móveis —, graças aos meios de que se utilizam e que, ao certo, pra eles, justificam os fins, e vice-versa a mesma coisa, numa espécie de marketing com o empurrãozinho por conta de “críticos” entre aspas, a ver o que tiram em proveito próprio deste conúbio de bastidores.
 
Tudo isso, sem falar dos poetas e escritores que ficam torrando a paciência de resenhistas que vivem em outros estados do mapa, telefonando para eles, dia e noite, até em horas tardias, inconvenientes, perturbando-lhes o sossego, como esses impertinentes funcionários de bancos, querendo vender produtos que só lhe tomam dinheiro e mais enriquecem os banqueiros. Assim os tais poetas e escritores. Insistentes feito muriçoca, pedindo resenhas sobre livros seus, só para forjar fama, fazer média em suas províncias literárias, posar de “estrelas” da literatura nacional. Em Nelore City mesmo tem gente fazendo isso — poetas, romancistas e contistas —, constrangendo os escritores de fora, que não sabem como sair dessa sem melindrar o patético, o ridículo implorante, “mendigo” de resenhas. Querem fama a qualquer preço e a toque de caixa, e não se tocam, achando que os resenhadores — sérios, muitos deles — não estão aí para resenhar todo e qualquer livro escrito no país. Tem gente que não enxerga o próprio nariz!
 
Estou por aqui e por conta própria, solidário com as vítimas desse tipo de coisa, que desabafam comigo, reclamando de gente daqui de Nelore City, que fica implorando resenhas, querendo avançar com as escoras dos elogios nem sempre merecidos. E nem me desculpem o replay, a indelicadeza de não ser generoso neste aspecto, mas vou insistir no que me toca e já tornei público: não insistam, não cometo mais o delito de prefaciar livros, não faço orelhas ou sequer trechinhos de contracapa; e salvo em casos muito especiais, não leio — não tenho tempo e não gosto de ler originais alheios — nem opino sobre futuros “bestsellers”. E quando ouso rara resenha ou comentário, é por puro encantamento com a obra, dessas que raramente aparecem e se aproximam do verdadeiramente grande poeta ancional que espero há anos.
 
Nunca pedi prefácio a quem quer que seja, nem resenha, nem nada; quando muito, busco divulgação na imprensa. Sempre defendi que uma obra caminha sozinha, por si mesma, e se não caminha, vai para o ostracismo do aterro sanitário que, muitas das vezes, é mesmo o seu devido lugar. E olha, nem é má-vontade, é cansaço, mesmo, quando não é enfado ou porque ando desmotivado. Ainda assim, há quem insista a pedir que eu leia calhamaços e dê minha opinião, que, não sendo elogio, nem sempre agrada e, salvo raros casos, não é levada em consideração — também não sou nem tenho a intenção de ser nenhum mestre de ninguém —, ou então fazem biquinho de menino emburrado, de gênio contrariado. Só falta pedirem que, além de prefácios e orelhas, eu faça também sobrancelhas, pé, mão, botox e lipoaspiração que lhes sirvam de “piercings” — saldo médio ou enfeite — em suas obras amiúde “geniais”, com perdão da má palavra.

 

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POR EM 26/08/2008 ÀS 09:06 AM

A flor do antúrio

publicado em

Agachado ao pé dos degraus, Narciso cuida do antúrio florido cujo vaso se quebrou, e Débora vem sentar-se ali na escada do alpendre, atraída pelos olhos azuis do rapaz, e pronta para um bate-papo; mas ele finge não lhe perceber a presença. De modo a provocá-lo, buscando-lhe o azul do olhar, ela estira as pernas bronzeadas e realçadas pelo short branco, ousadamente curto e justo — uma indecência, ao juízo das mulheres da vizinhança, e uma delícia para outros, jovens, adultos ou velhos devassos. Com tais pernas quase debaixo do seu nariz, e ali os mimosos pezinhos descalços da mocinha, o jovem jardineiro ergue os olhos, afinal, porém banca o desinteressado e volta sua atenção para o antúrio. Débora, ninfeta atirada — com uns lábios de chupar pirulito e um olhar malicioso, feito a Lolita de Nabokov —, não se dá por vencida, puxa o fio da conversa: 
 
— Aí, já observou bem essa flor?
Narciso sequer levanta os olhos ao falar:
— Que tem ela?
— Não lhe diz nada?
— Como assim?
— Parece o quê?
Olhando a flor, ele diz:
— Parece flor, mesmo.
— Não, não parece flor. É uma flor. Dá pra notar, né? Quero saber é o que ela sugere.
— Não sei.
— Ora, vamos, faça um esforço!
— Bom... Deixa ver... Borboleta?
— Borboleta? Que falta de imaginação!
— Com quê se parece, então?
— Se você não percebe, também não vou dizer.
Ele dá de ombros, concentrando-se no serviço. A garota insiste:
— Não é obscena, essa flor?
— Obscena?
— É.
— Não acho, não.
— Pois olhe-a direito.
Ele olha, mas...
— Que tem ela de obsceno?
— Tá na cara, não vê?
— Sinceramente, não.
— Putz! Será possível?
— Às vezes, não percebo bem as coisas.
— Então olhe de novo.
Narciso torna a olhar a flor, e diz:
— Continuo não percebendo.
— Não acredito! Observe a forma triangular dessa flor... a sua cor encarnada... essa ponta aí, dura, comprida, obscena...
— Estou vendo.
— E o que parece?
— Miolo de fruta.
— Qual é, cara? Tá me gozando?
— Eu?
— Você, sim. Sua cara tá dizendo outra coisa...
— Que coisa?
— Você sabe.
— Sei não.
— Sabe, sim! Você sabe.
— Tá legal, eu sei; mas não vou dizer.
— Por que não?
— Porque não.
— Tá com medo?
— Não é coisa pra se dizer a uma garota da sua idade.
— Tá brincando? Fala sério, cara!
— Quer, mesmo, que eu diga?
— Tô esperando.
— Não vai se zangar, não?
— Manda ver, cara!
Ele aí faz a cara mais safada desse mundo, e sapeca o verbo:
— Parece com uma coisa que você tem no meio das pernas. 
 
Débora meio que se empertiga e se enrubesce, algo constrangida, como se sentindo nua — instintivamente, fecha um pouco as pernas até ali ostensivamente abertas. Contudo, procura não demonstrar-se incomodada, e desconversa:
 
— Ah, meus joelhos!
 
Ela supõe que tudo vá ficar por aí, com a desconversa. Narciso, porém, de todo aceso, se desdobra, vai além na inversão do jogo, no jogo duplo, senhor da situação:
 
— Não são seus joelhos, não.
 
A garota se põe em guarda — e tenta ser sutil ao retesar a postura —, como se não esperasse que ele fosse ousar além dos limites; que entendesse a provocação, mas soubesse quando parar. Sabe que ele, agora, só espera pela próxima pergunta, que, é claro, ela não faz; não de viva-voz, porque a pergunta já está no ar, implícita, pastosa — seus olhos parecem fazer as vezes dos lábios. O esperto jardineiro a tudo percebe, e, avançando o sinal que ela intenta fechar, salpica a pimenta e aguça o tempero para o que julga ser o golpe de misericórdia — conquanto brincalhão — sobre a fogosa mocinha, inepta aranha, presa na própria teia, graças à astúcia da mosca, ou do moço:
 
— Já ouviu falar de hermafrodita?
 
É a vez de Débora se fazer de sonsa, temendo pelo pior:
 
— Herma... o quê?
 
— Hermafrodita. Andrógino. Duplo sexo.
 
— Ah...
 
Segue-se uma pequena pausa; Narciso saboreando o momento que antecede o golpe fatal. Em literatura, há uma técnica de preparação do clímax, do suspense, gerando tensão e densidade para aguçar a expectativa do leitor, onde, figuradamente, o texto é uma teia aracnídea; desnecessário dizer quem é quem aqui, mosca ou aranha, podendo também que a coisa não seja bem assim, uma vez conferido ao leitor o status de co-autor da narrativa. A saber, nesse caso, o que resulta desta parceria, sendo o que realmente importa. Se bem que, também, ao pé da letra, pode ser que nem tudo seja assim, bem pode — como se diz — que a coisa funcione de outra forma. Para Gertrude Stein, uma rosa é uma rosa é uma rosa. Também uma teia é uma teia, uma aranha é uma aranha e uma mosca é uma mosca. O visgo é o visgo. Mas isso não termina por aqui. É um círculo vicioso e, dada a sua complexidade, vai longe, podendo que se meça com a infinitude, a menos que chegue a um termo conclusivo.
 
— Pois é. O antúrio é uma flor de dupla natureza, uma flor fálica, veja bem...
 
Narciso acaricia, com as pontas dos dedos unidas e num vaivém vertical, o clitóris-falo da flor, num por demais explícito gesto, a par com o que ele inventa a seus propósitos. Débora jaz ali assustada, tensa, já se empertigando; o coração aos saltos sob a malha da blusa azul-claro, feito um pombo aprisionado por duas mãos. Ela e o rapaz visivelmente excitados; as faces congestionadas pela aceleração do sangue, o sangue fervendo nas veias, adrenalina a todo vapor. E Narciso ainda não terminou:
 
— Não se parece com uma periquita hermafrodita?
 
Embora tudo, ou já por sentir-se grudada na teia visguenta em que se meteu, Débora teima em não se dar por vencida. Comprime os lábios, menos para conter o riso do que para dar-se tempo, algo com que readquirir firmeza; mas, ao fim, no afogueado momento, se traindo com a fatídica pergunta:
 
— O quê?
 
E ali a implacável resposta, com a qual Narciso detona de vez a garota:
 
— Xoxota.
 
Aqui o jardineiro encara-a, descaradamente, todavia engolindo em seco; as orelhas ardendo, pegando fogo, e os olhos derdejando as chispas azuis do desejo. Débora, por sua vez, arregala os olhos negros e baqueia, boquiaberta — nocaute! Abruptamente, põe-se de pé e dá o que pode dar de troco:
 
— Tarado!
 
Xinga-o, e, bambas pernas pra que vos quero de um compasso maior o círculo, some de vista, em busca de ar — que sufoco! Narciso, também assustado com os cento e oitenta graus da situação, e torcendo para que a garota não vá contar tudo a alguém lá dentro da casa, ainda logra uma risada; na verdade, uma risadinha de nada, medrosa, mais para se dar um ponto de apoio, a seguir balançando a cabeça para os lados, e concluindo:
 
— É doida. É doida e a família não sabe disso.
 
Indo refugiar-se no banheiro, Débora lava o suor das mãos na pia, refresca o rosto com água e aos poucos se refaz daquela brincadeira com fogo. Mas não se livra da imagem de Narciso bolinando o grelo da flor do antúrio. Livra-se da blusa, abarca com as mãos os pequenos peitos, acariciando-os; desabotoa o short na cintura, abre o zíper, segura os lados do short apertado e força para baixo, se requebrando para facilitar a saída da peça, mormente na bunda, e dali até os pés, e daí para fora de vez. Agora baixa também a calcinha vermelha, curvando-se para isso, até ela passar pelos joelhos e descer, macia, pernas abaixo, daí retirando-a com um peculiar e feminino movimento dos pés. Então senta-se no vaso e, ali escancarada, cuida de saciar o desejo nos róseos miolos de sua flor, esponja do mar, ostra, lagarta de fogo, crisálida se abrindo e, pegando vôo, a bela borboceleta — tudo ali, metamorfoses nas mucosas da boca de pêlos eriçados e curticantes.
 
Dispensável dizer, ou livremente supor, que todo autor, no campo da literatura erótica, se compraz no papel de voyeur de suas próprias personagens. Suposto que não só no romance de Vladimir Nabokov, mas em todo homem, há um libidinoso Humbert, como há uma maliciosa Lolita em toda mulher.

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POR EM 19/08/2008 ÀS 11:39 AM

Escatologia humana

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Para conhecer a fundo o caráter da humanidade, na essência de sua índole, não carece nenhum Freud ou qualquer outra sonda psíquica: basta ler o conto Bola de Sebo — a obra-prima sobre o caráter humano —, de Guy de Maupassant. Está tudo ali, numa síntese. O relato fiel. O nítido retrato, sem retoques, da humanidade. Bola de Sebo era como chamavam, numa certa cidade francesa bombardeada e dominada, a prostituta Elisabeth Rousset, que se negou a servir carnalmente mas se viu forçada a sujeitar-se aos desejos do oficial prussiano, ali de passagem com os seus soldados.
 
Todos os altos cidadãos e madames tanto insistiram, imploraram e adularam para que Geni fosse se deitar com o oficial, que ela terminou cedendo aos apelos, ingênua e feliz com as demonstrações de fingido apreço por parte dos apavorados cidadãos, uma vez que o prussiano, embeiçado pela moça, ameaçou arrasar de vez a cidade, caso Bola de Sebo insistisse em rejeitá-lo.
 
Ela foi e se entregou ao lúbrico invasor, deixou que ele babasse à vontade em seu corpo. Mas depois de tudo, e logo que o oficial partiu, todos se sentiram baixos por terem precisado tanto de uma prostituta. Então voltaram-se contra Bola de Sebo, ofendendo-a e humilhando-a de todas as formas — humana ingratidão. Ignobilmente devolvida à sua condição social, ao que sempre fora para aquela gente: uma puta, a infortunada mulher abandonou a cidade, aos prantos, conduzida por uma carruagem qualquer.
 
Eis aí a humanidade. Aliás, foi bem aí, em Maupassant, que Chico Buarque bebeu para compor letra e música da pobre Geni: “Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir”, e por aí vai, cuspido e escarrado, sem tirar nem pôr. Um espelho, o conto de Maupassant, para se refletir sobre pessoas, sacos de tripas e merda humana sobre dois pés.
 
Aforismos de um sapeador de jogo,
ou lenga-lenga de um desocupado
 
Uma caixa dentro da caixa dentro de outra caixa. A rose is a rose is arroz com cuscuz. As pétalas de rosa da rosa cor-de-rosa. O avesso do avesso do avesso, como canta Caetano. As camadas superpostas da cebola como as camadas do abricó que se embrulha. Cocoricó de sobrecu, o galo cantou. Podendo que até aqui o escriba só esteja embromando, e assim por diante, por mares nunca dantes os dentes. Experimentos. Mosaico desconexo. Aforismos de um palpiteiro supracitado, como já se sabe.
 
Tem gente que se acha, mas não é. Se acha, todo ancho, e pensa que é, mas não é o que pensa de si, sem ser. Quem olha, não vê. Quem morre, vê. Vê, o quê? Vê como é morrer. Vê a morte. Estive fora de mim, mas agora estou aqui. Estive wonder?* Aí pelo world afora. Mas, agora, I´m here. E ali a fala engrolada por efeito de medicamentos para síndrome do pânico. Dizendo Beijinho da negra Flor ao invés de Neguinho da Beija-Flor. Isbênia é beiga cobo uba betralhadora, a fala fanhosa da personagem num conto do livro Velórios, de Rodrigo M. F. de Andrade, para dizer que Ismênia é meiga como uma metralhadora. Meiga e mandando bala. Vá se saber por quê. A dor é a ladra da minha alma. A dona. Lê-se no poema Cofo da Misericórdia, de Nauro Machado.
 
A humanidade necessita, sempre, de novidade, ainda que seja com coisas velhas. Volta e meia, a humanidade necessita, também, de tratamento de choque (verbal), para cair na real. Somos pedaços de carne sem consistência. Um coração apenas. Versos do poeta goiano Afonso Félix de Souza, radicado e morto no Rio. Dizem que o eu é ilusão, e que Nirvana é a morte do ego. Também, digo eu, se se matar o eu, não sobra ninguém.Muitos não encontram o seu coração até que tenham perdido a cabeça, segundoNietzsche. Cheiro de moça é fetiche. Orange é laranja. Passarim é bicho que voou. Perdido o sumo da vida, a ela têm-se lampejos de retorno, mas assim de quem se foi e não voltou.
 
São muitas as histórias do mundo, e as histórias rolam como se contam e o mais que se acrescenta. Em verdade, nem sempre a história bate com a verdade. A história mente muito, tanto quanto acrescenta ou oculta. A vida é sórdida. A história é suja. Um cão sabujo que não se lava, nunca. E é pelas mentiras da história que as estátuas dos heróis e generais nas praças não falam. Foram pagas para ficarem caladas, com as cagadas dos pombos. Coisas de pátria.
 
Tudo ao redor afunda, apodrece e se recompõe. Assim Apollo Korzeniowski, pai de Joseph Conrad, se referiu ao sombrio e gelado exílio nos pântanos em que foi confinado com a esposa e o filho ainda garoto, o mesmo que viria escrever sobre o coração das trevas. Minerva só me enerva e dá cabo de meus nervos. Eva não me leva pro lácteo deleite em seu leito, não me gruda com o seu leite de guapeva. Seringueira é mulher que abraça, gruda e vira borracha. A vida moderna se leva com seus peitos e pernas. Bumbum! Bumbum! Bumbum! Batidas cardíacas seguindo os movimentos da bunda pela avenida. O bombom da vida.
 
De resto, que bicho é esse mosaico desconexo? O que é, o que é, não tem pé nem cabeça, mas fica de pé? Um troço qualquer que não se sabe o que é. Isto que se furta tal como se mostra, até que se dê e se dá, se dando a saber: bicho de cabeça, tronco e membros: decapitado e esquartejado, só mesmo o tronco fica de pé. O tronco se mostra. Uma coisa é o pensamento; outra, a ação; e outra, ainda, a imagem da ação. Assim falou Zaratustra.
 
(*) Estive wonder (Estive onde?): uma criação do poeta Delermando Vieira, num de seus premiados poemas.

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POR EM 12/08/2008 ÀS 03:45 PM

Oh, vanguarda!

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Na sala, quieta e circunspecta, reclinada em sua cadeira de balanço, a provecta Vanguarda cochila. No colo, os óculos de aros de ouro, as agulhas de tricô, os novelos de lã. Agasalho para o neto imaginário que virá no inverno. O feto do futuro em conserva no formol da utopia.
 
Silêncio quase absoluto, não fosse, no quintal — onde o varal com rotos vestidos —, o canto afônico duma galinha-d´angola: tô fraca! tô fraca!, e na sala o relógio de parede, obsoleto, arfando a marcha arrastada dos minutos.
 
Agora as quatro badaladas da tarde — ou alarde kitsch e careta de um cuco — ressoando no sombrio sossego interior, meio de catedral, meio de sepulcro; o pêndulo dourado como a gangorra do tempo, avant-garde em flor.
 
Vanguarda entreabre os olhos baços e entrevê as coisas nebulosas, sistematicamente dispostas nos espaços. Recolhe os óculos do colo e recoloca-os nos olhos, ver mais nítido os retratos, a pose dos mortos. Sob a ovalada mesa de vime, o gato caduco e dorminhoco.
 
Vanguarda contempla os retratos e rememora, mas não demora o marasmo esmorece o momento, e a sonolência retorna. Vanguarda melhor se acomoda na cadeira, e a cadeira range e balança, range e balança, range e balança, ninando Vanguarda, que se entrega às pálpebras de chumbo e ferra no sono.
 
Uma aranha negra tece insidiosa teia entre o relógio e o teto, enquanto os ponteiros acusam o lento mas inexorável avanço do tempo.
 
Oh, Vanguarda! Evoco Eliot, que pigarreia a canção de amor de Prufrock, enquanto alguém guitarreia uns ensaios de rock.
 
 
ARABESCOS NUM CHÃO DE GIZ
 
Para Lauro Marques
 
Escavará seu sítio de silêncio, quem adentre o branco deserto. Escavará a própria carcaça — o dedo de feldspato, a seta, o que aponta? — calcária face do espanto. Escavará o fóssil do próprio grito, flauta de osso, bico de ave de silício, lingüipétalas in vitro .
 
As mãos terá ensangüentadas, quem escave a ave perdida, e o áspero giz no cuspe ríspido de uma boca ressequida. Giz e solidão, a vida dada ao pó da escavação.
 
Escavará seus cacos espelhados e oblíquos, quem escave seu rosto soterrado no branco. E sempre haverá uma sombra de esguelha nos espelhos — mesmo no sorriso de orelha a orelha, assombrar-se-á, quem escave, com a sombra à sombra das olheiras. Um efeito vivo, à espreita, na penumbra do espelho. “O olhar agudo como um golpe de cutelo”. Viverá de assombros, quem escave escombros.
 
Escavará seus mortos e suas lâminas de mica, quem se habilite aos limites do branco. As lâminas, quem delas usufrui, às vezes se trai pelo que elas trazem de trágico. Contamina, o que no brilho cego da lâmina finge um sono de ferrugem.
 
O ser se diz-faz no atrito entre o mito e o caos, seus detritos. Escavará seus detritos, o ser no sítio do inconcluso. O mais belo arranjo, diz Heráclito, é um monturo de detritos dispostos ao acaso.
 
Escavará sua alma no sono seco da lama, quem escave o tempo da própria ausência. Juntará os fragmentos — suas relíquias, seus ossos — e recomporá o esqueleto, mas nunca o rosto da infância, nem mais será o mesmo, pois falto, no dia seguinte da existência.

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POR EM 05/08/2008 ÀS 05:46 PM

Canção devastada para Eliot

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Abril é o mais cruel dos meses, germina lilases da terra morta. Sigamos, então, tu e eu, enquanto o poente no céu se estende como um paciente anestesiado sobre a mesa; sigamos por estas ruas ermas. Nós somos os homens ocos, os homens empalhados, uns nos outros amparados, os elmos cheios de nada. (Fusão dos versos iniciais de três poemas de Eliot: A terra devastada, A canção de amor de J. Alfred Prufock e Os homens ocos).

 
Oh, quem atravessará comigo os panos brancos do deserto em chamas? Quem, aqui pelos começos dos ventos, comerá comigo o vidro moído e o fogo de efêmeras formas? Oásis numa terra de miragens, vazia e tão cheia de si! Lâminas os caminhos de areia fina, por onde mina o sangue das almas desprevenidas, e se perdem os passos que andam descalços pelos percalços da vida. A morte peregrina, vida que se inflama n´alma do homem e o contamina e o consome.
 
Infinito pano de fundo branco, o deserto do ser: estampar-se e não se ver. Deus, Deus, vazio onipotente! Inexistente o ser do próprio olhar? Desenhar-se e inexistir? Pés e mãos de giz, só se faz o que há do ser sem se mostrar nos arabescos de quem se diz. Desdiz-se o que da fala se deduz.
 
O ser por escrito, vão invento, rosto incompleto no tempo. O branco brinca seu carrossel de cores, mas o tempo não guarda o arco-íris. Não é Newton o espectro no disco de Newton. Menisco é uma lente côncavo-convexa, mas no joelho é septofibrocartilagem. O resto é conversa, é linguagem, são os ossos do deserto. O deserto se alimenta de suas carcaças, pulverizando-as para a música dos ventos: lâminas de areia fina em flautas de ossos. As dunas são pergaminhos do resto.
 
O homem, um rio a correr para si próprio. Meandro de um mesmo labirinto, os extremos se tocam na mordedura do círculo. Se o rio seca, cria suas crostas. Eliot, o homem oco e seco, onde o bumerangue dos ventos brinca com o pó dos esqueletos. Escute Yorick... A música da morte: a matraca dos dentes irônicos e cínicos de Shakespeare, na caveira de Hamlet. Claclac, claclac, clic-claca a matraca. Há algo de podre no reino da Dinamarca. A frase com a macaca do dia. Há muito mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.
 
O homem seco, afinal, é o fruto de sua própria colheita: a casca inútil ao verme sutil, o verme-deus, o verbo e a carne de quem, habitado, se sabe homem, e bebe o sangue de sua sede, e come o estrume da fome com a vontade. Ó dama de todos os caminhos, Mafalda dos moinhos e dos trapos da terra desolada. Ao homem o mar que lhe é do consumo. Da terra, terra e homem, um ao outro se comem. A tudo a terra come, o que é do homem, e cobras e lagartos, com as asas dos abutres celestes.
 
Tudo arde e se perde. Toda primavera é o ready-made da tragédia. A vida se belisca com os alicates da morte. Deus vira bicho no coração da noite. Prevalece a folha em branco. Incomensurável a onipotência do vazio. O deserto impreenchível, impreenchível, impreenchível.
 
Tardias andorinhas se despedaçam nas vidraças da insensatez e tingem de sangue os cacos do ocaso: as metrópoles inconclusas e calcinadas; os ossos dos sábios e os livros inúteis, fumegando entre as cinzas do planeta. Clunc! Clong! Sbrunk! Bsdrong! Lacraias gigantescas mordendo as ferragens retorcidas da Civilização. As sobras, os ratos, a escória da raça com os lagartos e as sucatas do deserto, por onde perambulou Mad Max, além da cúpula do trovão.
 
Barbas brancas atravessam as brasas do deserto nas pupilas do lagarto. O velho Zoroastro é o cajado do pó. O deserto é o deserto. Os ventos são inventos de um movimento maior. O cuspe da morte na dança dos ventos, com Zoroastro e a Nadja do tempo. Zoroastro e os sete selos de sílex, sete faíscas, pirilampos do Apocalipse. Setenta vezes sete o lagarto atravessa o deserto nas pupilas de Nadja com a língua de Zoroastro e os ventos peregrinos do Oriente.
 
Mas que diabos ele ainda está fazendo lá, no alto do Gólgota, cravado em sua árvore de sangue? Quando vão descendê-lo de vez, os abutres carniceiros? Ervas daninhas vicejam no horto das oliveiras, as bocas dos sepulcros caiados mordem a língua e as víboras tomam banho de sol onde os ventos sussurram a silenciosa conspiração do pó com os vermes sob o manto da terra santa.
 
Heresia!, uivarão as hordas peregrinas, negando a narcose da erva-de-passarinho, a menos que Caxemira se pronuncie, que tudo é verdade, que tudo é mentira, e as víboras tenham que dormitar em outro sítio. As víboras bem-aventuradas, amantes do sol.
 
Cloto, Láquesis e Átropos, as três deusas da morte, fiam e dobam, fiam e dobam e cortam os fios da vida. Qual seja a fibra, ou de ouro e prata os fios que se intrincam, não escapam da tesoura das Parcas. E não importa, na arte do corte, serem roxos ou pretos os panos da morte. Deusas dos fios perfeitos, as Parcas não cultivam rosas para seus defuntos.
 
É certo que os cães ladram pelos desertos, mas a caravana passa com os árabes e seus provérbios. Ossos aos cães famintos, deixar para trás os cães satisfeitos, e prosseguir, pois os caminhos são os bens do espírito. O resto são rastros desfeitos pelos ventos. Vai além da caravana dos provérbios o sábio cujos ossos do ofício engordam os cães danados. E vai além do Érebo o verbo do sacrifício. Viver é o exercício da provação, e, como dizia Saint-Exupèry, para tudo é preciso preparação do espírito.

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POR EM 01/08/2008 ÀS 11:31 PM

A floração do belo

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Goiânia, como sempre, nesta época do ano, ganha um colorido especial: se veste com a floração dos ipês, cujas copas se abrem feito vestido-rodado e florido, de mulher bonita e pronta para a festa. Entrado o mês de julho, a cidade se apronta e se mostra pelas ruas, atraindo para si os olhares admirados. Não há quem não se sinta atraído e tocado pelo esplendor dos ipês floridos.
 
O auge dessa prodigiosa floração ocorre em agosto, e não só na capital goiana, pois espalha-se por todo o Estado, e assim pelo Brasil afora. Derrama-se para os olhos uma profusão de flores, nas cores roxa ou lilás, amarela, rosa e esbranquiçada.
 
Algo semelhante aos ipês se vê com a florada das quaresmeiras, predominantemente a partir de fevereiro, quando também exibem sua exuberância, tingindo a paisagem com os tons roxo, vermelho e branco. Pra não dizer, ainda, das lindas paineiras, quando lhes vem o tempo de florir. Floridas, as paineiras, também conhecidas como “barrigudas”, configuram belas mulheres grávidas de paisagem. Por conta delas, se diz que a vida é bela.
 
É tempo de ipês floridos. E não há, mesmo, quem não se deslumbre com essa profusa paleta de tintas naturais e com essa tela panorâmica da natureza, esse belo arranjo florido, essa festa de tons e semitons que se misturam. Não há quem não se sensibilize com esses matizes (uma pausa de alívio), mesmo sob as agruras do cotidiano, mesmo que encouraçado por fora, como um rinoceronte, ou empedrado e frio por dentro, feito um bloco de gelo.
 
Ainda que por um breve momento, todos se deixam enlevar pela contemplação que nos harmoniza com a natureza, assim como quando abraçamos uma pessoa querida: a nossa mãe, por exemplo, que é o primeiro amor da nossa vida, tido como “o maior amor do mundo”. Esse tema, aliás, inspirou um dos melhores filmes de Cacá Diegues, uma película poética, conquanto trágica, ou poética pela sua tragicidade e cenas de contundente realismo.
 
Se dissermos (já dizendo) que Goiânia está mais feminina com a floração dos ipês, algum gaiato poderá mangar (caçoar) de nós; e talvez, então, possamos dizer que a nossa cidade, floralmente, está mais “fashion”, enfeitada para o deleite estético da multifária flora e fauna humana, étnica e culturalmente falando.
 
Estima-se que a cidade possui cerca de oitenta mil pés de ipês, em suas variadas cores, espalhados pelas ruas. Valha-nos o trocadilho, pois são ipês pra dar com pau, podendo-se imaginar o espetáculo que seria se tudo isso florisse simultaneamente.
 
Malgrado o tempo seco e quente (ou nem tanto assim, com um friozinho arrepiando a pele da cidade), os ipês estão florindo à larga. As flores são uma forma de defesa em relação à baixa umidade. Desabrochando em tempo seco ou invernal, a espécie sinaliza a vinda da prima Vera, se aqui nos tolerem a brincadeira, numa alusão a uma linda mulher vegetal.
 
Goiânia está mais viva, por isso. Mais colorida. Mais luminosa. Graças a essa típica árvore do cerrado, o ipê, que se dá de florescer uma única vez por ano, razão para não se deixar de apreciar a festa de sua floração. Quem tem olhos, veja. E sinta a beleza e o pulsar do universo em si mesmo.
 
A floração pode ser vista em vários locais, entre eles a Praça do Trabalhador, onde se encontram cinco pés de ipê rosa totalmente floridos. Simbólico número cinco (o pentágono), como os cinco dedos em cada “mão” do Criador, o Arquiteto do Universo (segundo os Maçons), popularmente “conhecido”  por Deus.
 
A flor do ipê, na cor amarela, foi declarada, em 1961, a flor-símbolo do Brasil, pelo meteórico presidente da República, Jânio Quadros, que, entre outras coisas (renunciar ao cargo, por exemplo), fez de uma vassourinha na lapela o símbolo contra a corrupção (e ela continua até hoje, cada vez mais obesa). Prevalecem os ipês, vistos com maior ênfase nas regiões tropicais, ao sul do país, mas dão o ar de sua graça também nos cerrados do Centro-Oeste e na caatinga nordestina.
 
Os ipês são árvores de casca grossa, e já o ipê roxo, equivocadamente, em forma de cassetete, serviu ou ainda serve a outro tipo de “casca grossa” ou “bate-pau” (com o devido respeito, e aqui pegando a voz do povo), que o poder público costuma utilizar para conter ânimos exaltados, de hordas enfurecidas, a fim de impor ou recompor a ordem social, de acordo com os rigores da lei.
 
O equívoco está em que, contrariando o aspecto pragmático e a poética dos ipês, faz-se do pau de ipê a “madeira de dar em doido” (uma expressão de época, que até virou música), o que foge às suas verdadeiras finalidades, em termos ecológicos, econômicos, industriais, medicinais, ornamentais ou estéticos.

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POR EM 22/07/2008 ÀS 01:12 PM

O grito dos mutilados

publicado em
(Elementos para roteiro de curta-metragem) 
 
Silêncio asfixiante, o destas casas, com suas portas e janelas fechadas. Mais parecem tumbas, tão sombrias moradas. Que se passa? Que tragédia, que desgraça lacrou estas casas e gerou o silêncio? Que medos, que sobressaltos ergueram tais abismos?
 
Assim começa o filme, começa com o poema sendo falado em off , imediata e logo simultaneamente ao travelling das imagens. E assim prosseguem o poeta e a câmera. O poeta é o sujeito oculto, até o momento de materializar-se em cena. Ouçamo-lo :
 
Um vírus maligno habitou o homem; um reflexo medroso no olhar da multidão. Mas o silêncio é um dínamo que gera o poema. O poema rompe a estrutura do próprio silêncio, e libera os átomos do grito. O grito é um petardo arrebentando o círculo absurdo da asfixia. O grito é feito mancha de sangue do tiro no peito. O grito de Münch dilacera a tela sombria do desespero. Girassóis de Van Gogh são os gritos do sol no museu. E são os corvos do dia, aquelas manchas negras sobrevoando o campo amarelo? Van Gogh foi aquele que decepou a própria orelha.
 
Aparece Van Gogh ao espelho, mutilando-se com a navalha. Escorre sangue ao olho da câmera que se aproxima; uma visada rápida para a cena sangrenta, acompanhando o movimento da lâmina. Tudo com um grito/ruído abrupto, feito um raio, agudo e metálico, malho de ferro na bigorna gutural da araponga, ou atrito dilacerante, de máquina, de ferragem retorcida, do que seja (o meio ou recurso corre por conta da técnica cinematográfica e da música certa). O impacto deve surpreender, chocar, arrepiar e fazer o espectador saltar na poltrona, e até gritar. Algo assim, meio Hitchcock, ou como num tratamento de choque. A cena seguinte é o retrato de Van Gogh com a bandagem em torno da cabeça, por causa da orelha decepada.
 
Por outro deslocamento de câmera, a cena muda-se bruscamente para uma evocação do 11 de setembro de 2001, podendo-se utilizar algo similar, se não o original, à cena inicial de 2001 – Uma Odisséia no Espaço , de Stanley Kubrick, quando o salto do osso primitivo no espaço se torna uma nave espacial, com a diferença de que, aqui e agora, o osso se transformará no primeiro avião a mergulhar contra uma das torres do World Trade Center .
 
O poeta declama: No espaço, aves de aço riscam o pano de fundo americano. Cá embaixo, as torres vêm abaixo e os homens se agacham por medo de aviões. Os homens se apequenam e se agacham feito galinhas no quintal, paralisadas pela sombra do gavião. Paranóia. Pânico no galinheiro. (São cenas subseqüentes; câmera mostra multidão em pânico e esta vai se tornando, literalmente, um alvoroço de galinhas. E aqui não se quer tripudiar sobre o povo norte-americano, antes mostrar a condição humana quando as pessoas de qualquer parte do mundo se sentem indefesas e apavoradas em situações extremas, de risco ou ameaça; quer também mostrar que as pessoas — a humanidade toda — são iguais em situações semelhantes, só podendo superar-se em sintonia com as diferenças de cada um e de todos conjuntamente).
 
O poeta continua: Numa terra abarrotada de medos, ávido batalhão de formigas marcha para o meu cadáver. (Mórbido, o poeta imagina-se morto e seu corpo sendo atacado e transportado, horizontalmente, ao rés do chão, por uma legião de formigas — o cadáver tem a cara do poeta/personagem, as formigas são desenho animado).
 
Ubíquo, o poeta está em toda parte, então a câmera passeia com ele. Corta para uma conversa de periferia, ou de excluídos sociais, um velho qualquer e um moço, de nome João, sob um viaduto: O mundo vai de mal a pior, meu véi , e a vida não está mole, não. Tenha fé, João. Pega com Nossa Senhora da Boa Sorte. Se a sorte não vier, é porque ela não lhe quer; mas então não se desespere não, rapaz. Pega com nossa Senhora da Boa Morte e descansa em paz. (Percebe-se o tom de amarga ironia na rima do ancião, e daí os dois bebem cachaça de uma garrafinha).
 
Em meio ao caos humano, fractal e pós-moderno, o meio do caminho não é uma pedra de Itabira. O tropeço nel mezzo del cammin são esbarrões dos transeuntes numa moradora de rua, com dores por conta de pedra nos rins. Negra, negra, como tem sido toda a sua vida. O rosto feito um mapa amarfanhado de sofrimentos. Emaranhado de espinhos, os caminhos de uma preta velha e desvalida. Trapo humano, retrato dos maltratos da vida. Os olhos encovados, tristes e turvos; baças vidraças, em dia nublado. O corpo seco, mirrado, em farrapos vestido. O braço sem mão estendido à indiferença da multidão. Negra mendiga, negra chaga social, negra como a noite que chega.
 
Entra em cena o poeta, um velho poeta, que recita ou representa diante de um grupo de pessoas estáticas, sentadas em rotos sofás; os olhos hipnotizados pela tevê: Adentro a sala do meu vizinho e sou mal-recebido pela novela das oito. Achatada nos sofás, os olhos grudados na tevê, toda uma família me ignora, como se eu fosse invisível. Que nefando aparelho é esse, que rouba-me o vizinho e dá-lhe um ar idiota, de estátua em museu de cera? Intruso em casa alheia, dou boa-noite a todos e sequer se dignam responder-me. Estão mortos, estrangulados pelo sistema de fios, tubos antenas. Que pena!
 
O poeta sai de cena e fala ao mover-se da câmera, de volta ao centro da metrópole, captando outros cenários. O ritmo é vertiginoso; o tempo é meio que um jogo entre câmera lenta e vertigem, podendo que a música seja um contraste ou contraponto de trilhas sonoras diferentes (imagine-se, a título de exemplo, Chopin e Beethoven), conforme a essência composicional dos elementos cênicos.
 
O poeta prossegue com sua matraca poética; com ele, a câmera vai de uma cena para outra, ilustrando a sucessão imagética: A metrópole é um processo evolutivo de mortos-vivos. Eretas estruturas subtraindo o espaço, encaixotando a vida. O homem engaiolado, sufocado pela gravata a prestação. Coca-Cola, hot dog, televisão. A flor plastificada, o ser, o nada, solidão. Pelas ruas da barriga de João (foco no personagem), o ronco rouco da fome. No coração inchado de João, a revolta do homem. Nos nervos de João, alta tensão. No punho cerrado de João, a porrada de prontidão. (Câmera muda o foco, de João para uma briga de cães, encarniçados num claro circular da noite lá na frente, como de um holofote na penumbra de um palco).
 
Multidões de zumbis se movem por aqui e por ali; um caminhar sem sentido, de seres sem vontade. Um caminhar alheio à realidade, um não-sentir dos fatos a gravidade, um passo a cada passo inconsciente, de reses condenadas ao abate iminente. Uma leva de pingentes que se leva aos dentes sanguinolentos da máquina de moer gente.
 
O poeta não se cala. A Câmera busca um outro ponto e se aproxima da menina de programa. (O poeta declama): Já vem vindo a madrugada e, até agora, nada. Só a garoa gelada, gelando a rua desolada, e ali a garota de programa, dentro da noite gorada. Volta, menina, pro aconchego do teu quarto, antes que um resfriado lhe pegue de jeito. Volta pra casa. Não. Agüentar um pouco mais. Quem sabe ainda aparece alguém que me pague um caldo quente, antes da transa? Mas pra onde foram os homens?
 
Os homens se foram, mas João se aproxima. Nos olhos fundos de João, o brilho cego da fúria. Na cabeça de João, a perda da razão. Na mão armada de João, a faca em ação. No desespero de João, a fera, o crime, a perdição. E lá vai João, presoalgemado no camburão. Tentativa de canibalismo. Coisa escabrosa. Começou a morder, queria arrancar pedaço, tinha fome e tinha sede, queria beber sangue, queria comer, pegou a faca pra cortar a coxa e comer viva a pobre moça. Literalmente — disse ali um espírito de porco a fazer fez troça, extrapolando os limites do bom senso.
 
Os ventos do norte não movem moinhos, o velho poeta reporta o canto de Secos & Molhados, anos setenta. Mas os ventos do Norte movem as pedras no tabuleiro da guerra. Noite adentro, intrínseco ao labirinto da metrópole, o poeta agora recita como quem caça vampiros: Cravo uma cunha no coração do silêncio e desencavo o grito calcado na medula do medo. Afugento os morcegos, quebro a opaca vidraça e clareio a escuridão desta mansão assombrada.
 
O poeta com o seu chapéu preto e sua barba rala e grisalha, misto de Ezra Pound e Bob Dylan, continua vagando até o fim da noite, até o fim da rua, podendo que seja um beco sem saída. A câmera dá um zoom e o bardo agora abarca a todos com a culpa de cada um: Nada, nada nos isenta da nossa culpabilidade individual nos acontecimentos. Nada nos absolve perante a realidade comprometedora. Nada nos redime da nossa cumplicidade nos crimes, a menos que assumamos sérias atitudes diante dos fatos. No que me diz respeito — o poeta bate com as mãos no peito, puxando para si um mea culpa —, confesso minha parcela de culpa nos crimes cotidianos, minhas atitudes omissas, minha co-participação em todos os delitos. Réu-confesso, julgue-me o tribunal no centro nebuloso da massa cinzenta, e condene-me à prisão perpétua na penitenciária de chumbo da minha consciência.
 
A cena vai-se obscurecendo aos poucos, entram como pano de fundo fragmentos musicais melancólicos (Chopin?), as formas vão-se tornando difusas, pessoas dentro da noite parecem árvores tristes. Corte abrupto, como quem interrompe um começo de hipnose. Volta a claridade com o violento clarão de uma explosão nuclear (o cogumelo da bomba atômica), retoma-se a vertigem com cenas ligeiras e música acelerada e aguda, crucial. Hiroxima, Nagasaki, Iraque e outros conflitos bélicos do planeta, crianças mutiladas, fusão de cenas, imagens confusas, borrões caóticos, em preto e branco, multicoloridos e alucinados, espirais psicodélicas, telas abstratas, traços de Kandinski, Guernica de Picasso, assimetrias e dissonâncias musicais de Stravisnki, um coquetel caótico, simbolizando ou sugerindo fragmentação, um liquidificador de tudo, conflito, ebulição da consciência, finalizando com a imagem congelada de uma pomba branca (símbolo da paz) abatida e ensangüentada nas mãos de uma criança perplexa, o que dá um outro viés ao clichê da pomba branca, já não tão branca assim, por causa do sangue.
 
A última cena retoma a normalidade rítmica dos fotogramas. A câmera se move ao longo de um muro sombrio, com fieiras de arame farpado em cima (evocação do Muro de Berlim), daí transmuta-se para a arte do grafite. No muro florido a spray, Deus tirou férias e não sabe quando volta . Assim escreveu e assinou: Nietzsche, o Vândalo , um dos velozes pichadores da noite, desses que usam skate pra driblar a polícia. A Câmera percorre o muro. Num flash, os cães encarniçados reaparecem no círculo de giz e são desenhos que ganham vida, feito desenho animado. Subentenda-se que a fúria dos cães continua. Novamente, a cena vai-se obscurecendo. Do cinza ao negro. A obra em negro. Blackout na tela. As luzes do cinema se acendem e — inusitado — lá está o imenso girassol, em close e luminoso, no centro da tela.
 
As interpretações à imagem congelada da flor ficam por conta de cada espectador que vai deixando a sala de projeções. Aonde vai a razão? Talvez não, talvez sim que o girassol seja o grito universal do coração.
 
Post Scriptum — Tudo supracolocado são idéias grosso-modo e experimento poético de um leigo em área de cinema; revogadas as pauladas intempestivas em contrário; bem-vindas as observações construtivas.

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