Desenho de  Wendy MacNaughton
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Valdivino Braz

POR EM 22/08/2009 ÀS 11:42 AM

O que as palavras criam

publicado em

Aquele estranho que falava em cima da rocha, inconho, de dedos duplos, à hora do crepúsculo. No cocho refocilava o porco. Os cães ladravam por ali à solta. Língua que se bifurca, movia-se o ser rastejante e sinuoso; o dorso liso e luzidio, em meio aos matizes dourados, grises e sanguiferruginosos das folhas de outono. Como um gatuno, o vento ia do sussurro ao murmúrio, até que, repentino, uivava e gania, feito lobo. O que nos adocica ou azeda é o que nos sai da mente e do coração e vem pela boca. Da fala à premeditação ou intempestividade dos gestos, e destes à consumação dos atos. O beijo ou o homicídio, por exemplo.

O que nos afaga ou espanca depende da mão que se levanta. O que nos pisa e esmaga vem com o pé em forma de pedra. Assim falava o estranho coxo, como quem pisa em falso num sopro de flauta. Como se viesse com um corte de caco de vidro em pé descalço. Com um roufenho som gutural, as palavras sangravam em seus lábios. Assim falava o manco e rouco, que alguns tachavam de louco. E aquela roupa rota e longa que usava, era uma capa de seda negra ou eram mesmo asas de morcego? Seria um anjo caído? Um demônio?

Eis que então demudava o tom e o teor de sua fala. Todas as manhãs escovo meu sorriso de rosnar para o mundo. O sórdido mundo que abomino e me aborrece, porque meu reino é deste mundo a que pertenço. Assim falava, meio torto, como se sofresse de um torcicolo. Talvez por conta de só olhar o mundo de soslaio. O mundo visto pelo canto da vista, ou canto do olho, que é onde se diz que fica o rabo do olhar. Falava por enigmas. Olho como quem não olha no olho da Lua Negra. Os negros, íncubos olhos de Lilith. O mito arcaico. Aquele que na cópula queria Adão na condição de súcubo, e ele a isso não sucumbiu.

Olha-se ela nos olhos dele,
cegos para os olhos dela,
não se perder ali na escuridão.

Críptico, falava de cemitérios. Espirrava ao pó das catacumbas. O mundo de flagelos é um espelho estilhaçado. Sou o espírito dos fragmentos num caco de vidro espelhado. Um reflexo das distorções do mundo, como as aberrações num palácio de espelhos deformantes. Dizia ele, exibindo cicatrizes. Sou o fígado opilado deste mundo maligno, que não levo a sério. A humanidade não me ilude. Se há males que vêm para bem, há o mal do bem também. Tempo demasiado já o homem teve para ser melhor, mas ele não quer, e não quer porque não quer, a demonstrar que não e não, tanto é que ele realmente não quer, definitivo. Infinita ignorância.

Inciso animal incisivo,
desde o dente ciso.
Muito riso, pouco siso.

Assim falava, e cuspia com raiva. O verbo com as tintas do desmantelo do mundo. E ali o negro humor, o corrosivo sarcasmo, o verbo laminado da fúria, a ferina ironia da língua envenenada. Por conta da queda e do desencanto. O canto cáustico, cítrico, iconoclasta. Ocasionalmente cínico, consoante a circunstância de dar-se o devido troco. O avesso do lado oposto, em que se pautava por extrovertido e pândego. Aquele que o conhecia, certamente sabia, ou então deixava de saber, por indiferença ou desinteresse.

Censuravam-lhe o humor de corrosão, a inserção do riso em tudo, quando o que diziam ser piada era só uma forma de piar. Assim falava aquele que chorava sorrindo. Vizinha, a morte lhe fazia visitas, e os dois ali se embebedavam com vinho rascante e davam roufenhas e boas gargalhadas, rindo de tudo, mesmo que nem tudo fosse de todo risível. Por empréstimo de Herman Hesse, tudo é um jogo de contas de vidro, um faz-de-conta de tudo, num jogo de sábios. Dizia. As pessoas gostam de jogar, e delas há que jogam mal, por isso perdem, e se perdem de si mesmas. 

Censuravam-no pelos excessos de seu caráter mordaz, meio que levando tudo a fio de ironia, na base da pilhéria. Ele estava um pouco à frente. Não entendiam a verve do verbo que o exacerbava. As páginas que ele escrevia. Seriedade? Não levem a literatura demasiadamente a sério, mas apenas o suficiente para sustentá-la. A literatura é também uma forma de brinquedo. É tudo um jogo. Descarto minhas cartas. E tanto se me faz como tanto se me fez.

E mais ele dizia. A grande certeza da vida é uma só, sejamos ou não fatalistas. Outra certeza é que caixão não tem gavetas, é só uma caixa de ossos, em face do que não importa seriedade muita. A morte é o passaporte da vida para não se sabe se ou que itinerário.

Assim falava aquele que, ao falar do homem, de outro não falava senão de si mesmo. O vento apague seus rastros. O tempo apague seu nome. Terá sido ele, então, apenas uma ilusão dos senhores. Lembranças às vossas digníssimas consortes. Porque elas, sim, jamais o esquecerão. Porque ninguém esquece aquele que nunca existiu, mesmo porque o que não existe não é lembrado, o que não se mostra não é visto, todavia podendo que se esqueça daquele que realmente existe, ou que tenha de fato existido.

Bem-aventuradas aquelas que, com as pétalas dos lábios e seus belos vestidos, passam pelo não-existido como quem passa passeando pela vida. Benditas criaturas. São as bagas de uva da Terra. Em cima da rocha, no mundo encantado do não-existente, ele as observa com ternura. A escolhida, aquela que sentiu nos cabelos o toque de dedos como um sopro de brisa, leva do campo a florzinha invisível que ele colheu e nela colocou. 
 


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POR EM 15/08/2009 ÀS 10:09 AM

Putana e a cor do excremento

publicado em

1

Ali vai ela, pelos becos e vielas periféricos, insalubre labirinto, se lembrando de quando ainda era menina e não imaginava o que seria quando crescesse, nem sabia, a fundo, das maldades do mundo. Nem de longe supunha o que a vida lhe reservava, que tivesse no corpo, como agora, as marcas das taras, da luxúria e da violência, e sofresse na alma a dor de tudo isso. Era só uma menina, púbis impúbere, ocasião em que libidinoso padre levou-a até a sacristia e ali se trancou com ela, dizendo que ela era uma menina abençoada porque tinha um bom anjo da guarda. As coisas que ele fez, então, nem lhe conto. Mas foi tudo na base da oralidade e digital, além do olfato. Cheirou-a toda, o “santo padre”, como o chamava a beata Vesgolina, que o bajulava a troco de secretas indulgências, segundo as más línguas. Do que ele fez, pediu segredo à  menina, sob pena de castigos infernais; a infância tomada pelo medo. A coisa de verdade, mesmo, só aconteceu mais tarde, já ela de peitos empinados e empenujada, como se diz; a almofada lá embaixo com uns encaracolados símiles a palha de aço. E desta vez não foi só com a boca e os dedos. Foi com tudo. Na casa de um juiz de menores, onde ela trabalhava como empregada doméstica e o filho mais moço do magistrado a envolveu na conversa — “minha doce empregadinha doméstica”, a melosa lábia do lobo — e aí aconteceu. Hoje, na vida que leva, tem vezes em que se sente um lixo, censurando-se por se submeter — imperativa demanda da sobrevivência —, aos ditames da prostituição. A vida toca muitas demandas, minha filha; obriga a gente a seguir em frente e fazer coisas que, muita vezes, não são do nosso querer, como diz a cartomanete Dona Alzira. Por imposição da vida, ali vai ela, que se chama Beladona. Se isso é nome que se dá a alguém, como os pais lhe deram, pensa ela. Beladona é nome de planta que, no que tem de medicinal, diurético, é também venenosa, é tóxica. Por isso, ela inventa que seu nome é Ana, e por causa da vida que leva, não lhe faltam epítetos ou apelidos, como não lhe faltam peitos fartos. Ana Peituda, por exemplo. E há sempre quem lhe aplique pejorativo adesivo, deles havendo que a ofendem e machucam por dentro. Ana Putana é um deles, e foi o que mais pegou, como um nome-de-guerra, uma estrela na testa, um estigma. Mas, vai indo, vai ela se assumindo com o seu nome de puta. Por força da rima e do que lhe vem por cima. E ali vai ela, seguindo o cotidiano, diuturno itinerário de humanas misérias, até o centro nevrálgico da urbe, até o útero, até o cancro da metrópole, até o inferno. Olha lá, a Beladama, anuncia, meio que mangando dela, alguém que a conheça e lhe saiba do nome verdadeiro e do ofício. São donas de mangações, principalmente, certas mulheres com alguma ponta de inveja dos brincos e trajes que ela usa; de resto, nada chique, nada de jóias verdadeiras, mas singelas roupas novas e bijuterias que a deixam mais apresentável, além do perfume que é pra ficar mais cheirosa. Por causa do nome e da função, acresce-lhe, por vezes, um gaiato “Peladona”. Na verdade, Beladona é prenome, porque o nome é o Barbosa de sua mãe, vindo-lhe por sobrenome o Santos do pai. Pai e mãe morreram contaminados pela podridão de enlatados encontrados nos lixões, de onde tiravam o sustento de uma desgraçada sobrevivência.  Beladona Barbosa dos Santos, filha da miséria. Ao seu dispor. Lavagem para os porcos, imagina-se ela, em momentos de baixa estima. Dama da noite, sofrida flor da vida, ali se levando como o boi que se leva ao abatedouro do frigorífico. Claro que mal se compara, pois o destino do coitado do boi é diferente do caso dela, porque trágico, mas é com um sentimento assim que ela se entrega a todo tipo de sacrifício, mesmo os nojentos. Cospe o asco que sente da vida. De um modo ou de outro, boi e prostituta estão condenados a morrer. Aliás, tudo que é vivo. Se bem que, também não vai mentir, por vezes o michê a compense de modo prazeroso. E assim vai levando. Vai com ela, feito lhe fosse uma sombra por companhia, um contopoema de pernas diligentes, escorreito em linhas corridas, que aqui se inicia. Uma sátira? Um mamífero alado? Hematófago? Frutífago? Contundente e deprê. Com estes olhos que a terra há de comer. Olhos que a tudo assistem e denunciam. Do pretérito para o presente, vice-versa frente e verso, consoante os reversos de Beladona, de cognome Ana, de aposto Putana, seu código e seu decalque, por força do que se lhe antepõe, pospõe e sobrepõe. Ossos do ofício, via crucis de orifícios, as coisas perversas que lhe acontecem. Por ali, por aí, por aqui, chupando drops de anis — canta aí, Rita Lee —, balas de ananaz ou balas perdidas. Doidos marimbondos de chumbo e fogo, das favelas aos bairros nobres da República de Pindamonhangaba, terra de contrastes e contradições, de barracos e mansões, pois este ainda é um país de casas-grandes, castelos ilícitos, mansões e senzala social. Corram, que lá vem bala. Quem não corre se dá mal, leva tinta e leva sal. Corram dos bandidos. Corram, que a polícia vem aí. Corram dos tiras e dos tiros dos poderes paralelos. Corram da cumplicidade, da conveniência e do cinismo de “podres poderes” constituídos.

2

Um requebro de salto alto, um provocante rebolado, um jeito excitante de jogar a bunda pros lados; os glúteos durinhos assim, senão que já tremelicantes feito gelatina, cambiando pra mambembes. Nada pior, pra uma mulher, do que peitos mulambentos e bunda caída. Bunda-murcha, o adesivo da decadência. O horror. Já um presidente aí, o mesmo que xingou de vagabundos aos trabalhadores em idade de se aposentar, chamou de ridículas as bundas de Pindamonhangaba. Com efeito, eram mesmo ridículas, mas teria ele visto os próprios glúteos no espelho? Mera conjetura. Não vimos nem sabemos de nada.  Sigamos a Ana Putana. Duro batente, dura rotina, podendo que haja pano de  fundo musical, podendo que seja em ritmo de samba, pois que vai e vem, pois que vem e vai a presa viva que se joga e se entrega, perdida pelas vias tortuosas da vida. A vida avessa. Às avessas. Às pressas. As vísceras pelo avesso. E o vômito. Aberta rosa, se dando até o osso, por conta de uma nota mais em conta, na cama que é um samba de uma nota sórdida, conforme o conúbio e o canábio sativo e baseado, a pedra de açúcar mascavo do crack, a dose overdose, a vida louca, cafungando carreirinhas de coca. A porra desta vida do dá-ou-desce, de pega mas não puxa, chupa mas não morda, cachorra. Os gritos malditos. Chupa direito, sua puta, ou te arrebento na porrada! Martelando o estribo e a bigorna dos tímpanos. Onde a redenção a partir do abismo? Disgreta! A profissão mais antiga do mundo. Chafurdada na lama, feito porco. A vida é uma mulher grávida de sofrimentos. E a morte não é só a perda da vida, mas antes o que se perde da vida que não se vive. Tristes são os fantasmas da casa. E aqui uma putana filósofa. Era só o que faltava.

3

O retoque do batom. Carmim nos carnudos lábios. O toc-toc dos saltos dos sapatos no lajedo, o tic-tac das horas, o tuc-tuc do coração que chora e ninguém ouve. Chove. Chuvinha fina, esfarelada. Fosse a vida confeitada com carinho e açúcar refinado. O toque súbito. Vulto, visagem, coisa do outro mundo, alma-penada, de passagem. O medo. A sombra. O sobressalto. Ah, não foi nada! Era só um morcego. Um vulto pressago na noite aziaga. Dizem que cego, o morcego, perdido assim na escuridão do mundo. Pro diabo que o carregue. Eu sigo o meu caminho. A casca de banana em que escorrego. Eu devia era largar mão dessa vida e arrumar um emprego digno. Em horas vagas, acho engraçado e até dou risada só de imaginar o constrangimento do homem submetido ao toque retal. A cara com que ele fica, com um ar de quem foi ofendido em sua ombridade, em sua dignidade de homem. Também me pego imaginando um machão que dissesse: Doutor, eu não sou digno de que me enfieis esse dedo, mas fazei-o por mim e me sentirei recompensado e penhoradamente agradecido. Ana Putana. Meu nome de rua e de zona. Sou como a Ana de Amsterdam, cantada por Chico. Olha, que chique: um Homo sapiens dando pitichilique ali na praça. Como eu vinha dizendo, continuo a dizer. Sou um recorte da Ana de Amsterdam. Sou Ana dos ratos. E sou também a Geni, outra colega nossa cantada por Chico, certamente, como já bebera nos Saltimbancos, agora bebendo nos peitos de Bola de Sebo, a rameira no conto de Maupassant. Joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir. A merda urbana em que piso e desliso. Estudei um pouco, levei pau no vestibular e agora levo pau em outros lugares. Nunca fui miss, dessas que dão entrevista pra revistas de fotonovelas, e também, ao contrário delas, nunca li o  Pequeno Príncipe. Não acredito em príncipes, e não fazem o meu gênero. Também não li a tal de Polyana, nem menina nem moça. Do pouco que li, e acho que bem entendi, uma história me abalou muito. Foi num livro de bolso que ganhei de um fulano que andou uns tempos comigo e me deu pra ler, recomendando que eu lesse aquela história. Falava da meretriz Bola de Sebo. Nem sei por que ele me deu o livro e me mandou ler aquilo. Li e chorei, pois achei muito triste. Me identifiquei demais com a personagem. Por isso hoje engrosso um pouco mais o meu preço, a oferta de acordo com a procura, que também não sou boba, e porque li um pouco de Karl Marx. Oferto minha prenda, e cobro por isso. Minha rosa ferida, que mais parece um feio corte de faca, ou de caco de vidro. Feio, é maneira de  dizer, pois não existe corte de faca bonito, nem mesmo de raspão. Minha pereba e prebenda, pendenga de minhas demandas. O ofício com suor do meu rosto. Já esta lingugem aqui não é minha, mas desta sombra que me acompanha e coloca palavras em minha boca, como acaba de fazer nesta frase e outras vezes o fez ali atrás. Vão acabar pensando que sou uma puta inverossímel, fruto de uma febril e sombria imaginação. Não vendo gato por lebre, então repasso as palavras que não são minhas. Deixa comigo, Ana, que doravante prossigo. A sombra é a voz do dono. E aqui se descobre a sórdida nudez da sociedade. Aqui se desbunda a coisa pública. Aqui se pinda pamonha mangaba e se desnuda a bunda suja da República.

4 

Muita roupa suja no varal da moral e dos bons costumes, o cordão malcheiroso da hipocrisia. É contra isso que se insurge a arte feia, sem pancake. Provoca, insulta a socialite medíocre da moralidade hipócrita, a saber em que camas e com quantos, íncubos e súcubos, ela se deita. Em obras. A arte derrisória, de derrubada das ruínas e reconstrução da casa. A modernidade quebra copos, como disse o conde Vlad Delermand, e como tal, quebra também porcelana de madame. Dizendo a maledicência que bad boys e velhos devassos vão à caça, de olho nas grã-finas filhas de boas famílias. Dondocas e patricinhas, acessíveis umas, predispostas algumas e outras nem tanto. Cala-te boca. Por que não te calas? Cala-te! Um viva ao rei. E vê o que tá pegando. Seres emborrachados, que não são mais eles mesmos. Tatuagens exacerbadas, piercings que lembram anzóis, bonecos inflados com anabolizantes, mulheres tragicamente lipoaspiradas, bumbuns recauchutados, peitos de silicone. Posar un beso en sus pechos suspechos. Chato eu, Chateaubriand? Chata a cabeça do prego. Piadinha herege: Doutora, eu não sou digno, mas enfia logo esse supositório. Mais haveria, Carlos Willian. Muito mais coisas nas entranhas da rosa, se mais houvesse de supor o bardo de terra inglesa. Há muito mais eco, Umberto, no centro rubrirroxo e labiríntico em que ressoa, entre pétalas sedosas, o nome da rosa. Tacatchacanabutchaca. Chorona com o ardor e o ardume de seu chorume. Homem é tudo a mesma coisa, rumina Ana Putana. Não é à toa que as mulheres estão aí se queixando, delas havendo que já não reclamam, e já nem ligam, porqueporque. Certo, Heráclito, tudo flui, e flui de um mesmo rio. We are the world.

5

Por onde anda e desanda a vida. Ali vai ela. Continuemos com ela. Dessas que andam por onde mais não andam imaculadas raparigas, assim de fazer um homem lançar chispas pelos olhos do desejo e arder-se no paraíso em chamas, as chamas infernais do paraíso. Debaixo da pele todas as carnes são vermelhas, mas  as carnes de ontem não eram postiças, como agora o silicone; eram naturais, como tudo mais. Outrora, outrora, outrora. Aquelas bocas de línguas vermelhas e roxas de amora, com a doçura daqueles olhos de amor. Definitivamente, não se fazem mais raparigas como antigamente. Hoje em dia, redunda o refrão: quem vê bunda, não vê coração. Mas o passado é morto. Ali jaz o distintopintodefunto. Apague a luz e feche a porta do último ato ou cópula aquele que por último deixar o palco e o quarto. O que se afia é fio de faca. O que se encorpa toma corpo. O corpo despenca mo espaço. O asfalto é o limite. Miolos de cérebro, feito cogumelos, a carne e o verbo dos suicidas. Pencas de avencas se desfolham no soturno silêncio. Os rostos macilentos das janelas. O triste silêncio de uma vida de subúrbio em outubro, onde os gemidos da vida e o choro surdo se abraçam; onde se vive em conúbio com a desgraça e os absurdos. Abutres fazem a festa na podridão dos lixões do país. Droga! O salto de sapato que se infiltra e se quebra nas gretas das pedras, ali pelas quebradas da vida. O homem é o camaleão do bem e do mal. Com ele vai a andorinha mundana, a dama da boca da noite, das bocas-de-lobo por onde escoam os jatos do vômito. A prostituta de vias públicas. A ronda das mariposas que se alçam com as asas de suas bolsas, e atiçam o alvoroço dos pombos da noite. Essa doença sexual que nos carcome. Os andejos de desejo maligno, à  procura das putanas que fazem ponto nas esquinas dos semáforos, hipnóticos furúnculos em noites de caça e caçador. Obeliscos, fálicos, eretos monumentos. Meninas por dentro dos esquemas das esquinas que difamam, das bocas e das bibocas de clínicas infames. Morfina, mofo, morfemas,  semantemas, acnazes, eczemas, fêmeas de cafofos e muquifos morfomosquitômanos, Aedes aegypti cocainômano. Querem mais? Buscai e encontrareis. Crescei e multiplicai-vos. O verbo e o sebo sagrado, de cristãos e canibais. Porra, aí vem o esporro. Aí vem o sacana, querendo grana. Aí, vagabunda, tá se achando? Tá me achando com cara de otário? Cadê a grana? Ainda não ganhei. Pá! Te encho de porrada, garota. Covarde! Cafajeste! Explorador de Mulher! Coça meu saco, putana. Tira a mão! Deixa que eu mesmo coço. Palhaço! Metido a engraçado. Um dia quebro a garrafa e risco essa sua cara, corto-lhe a veia do pescoço. Um dia te pego dormindo, pego a navalha e te faço cabelo e barba. Te corto o penduricalho. Tô morrendo de medo. Olha só, como estou tremendo. Vai debochando. E vai pra lá. Tenho que fazer minha ronda. Ainda nem jantei hoje. Crespa, se despe de seus crepes e de suas peças íntimas. A perigo, se mostra a qualquer preço. Uma carreirinha de coca. Uma pedra de crack. Toda se encrespa com as costas de um ouriço, se encroa em suas vestes de caroços, fístulas e pústulas. No início da conversa, a doença é de graça. Não custa nada, é que nem droga; mas depois que pega, não larga, e acaba com tudo. A chaga, a tarântula tatuada no vértice das coxas. Mordidas, manchas roxas por conta dos dentes de alicate dos machos que mordem e sugam com a luxúria dos hematófagos. Hematomas que lhe deixam os brutos. Os brutos também (m)amam. Sumo de cebola nos olhos, seu choro. Mas tem também homems que choram. Quem diz que homem não chora, não é homem.

6

A festa com as máscaras e suas casacas, suas cascas de abjetas e obesas baratas burguesas, suas casas de mámore, e ali um banquete de arrotos. São os ratos da República. Madame Putana vem com a lua, vem das entranhas das ruas, das vísceras da realidade. Seminuas se insinuam as garotas de programa, de encomenda, por telefone. Com essas, são outros quinhentos, e não são para bico de plebeu. Refinadas, produzidas e treinadas, adentram o recinto de luxo, cumprimentam os distintos clientes e se escancaram na cara da elite, cujas roupas de baixo exalam a enxúndia de curtume. Espoca o champanhe. As portas se fecham da noite para o dia, os olhos da rua não vejam a orgia, o banquete, o bacanal federal. Por essas e outras, matam-se os porcos e a rês pública, alimentam-se a sórdida história, a canalha corrupta, a escória do crime, os artistas prostitutos e as putas de uma política espúria. Com o brilho dos olhos negros da noite de vidrilhos, comem-se as carnes putanas, como se comem sucrilhos. Comem-nas, comendo-as com amêndoas. Por causa delas vara-se a madrugada, bebe-se com uísque a barra ensanguentada do dia. E já se foram? Cadê elas? Cadê-las? Cadelas? Uivam os lobos insones. Eis aí o dia, e de novo a vida sórdida, a vida suja e pegajosa, a chaga que não se enxerga em si mesma, putana República. A chaga social exposta. Os poderes constituídos. A corrupção e a impunidade. A pedofilia paroquial,  a podridão moral, a degradação humana, a cloaca urbana, a Sociedade Organizada, enfim. Putana. Vida putana. Por que me ufano de Pindamonhangaba. O excremento em que piso. A pocilga. A fossa republicana. E a burocracia que engessa a justiça social. A vizinha, lavadeira de roupa, em busca de seus direitos previdenciários, reclama da burocracia. “Querem saber até a cor do cocô da gente” — ela diz. Com efeito. Isto é Pindamonhangaba. Amarelo-esverdeado. Esta — se querem saber — a bendita cor do excremento.
 


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POR EM 01/08/2009 ÀS 11:58 AM

Parábola para a Bula

publicado em

Eólica, atenta aos signos do tempo, a parábola se elabora. Antena parabólica, aberta rosa-dos-ventos. Aí o cesto do palimpsesto, trançado com bambu laminado. Aí os pães e os peixes, o cálice, o vinho. Aí o pergaminho.

O texto não se recomenda aos espíritos estreitos, nem aos fanáticos de qualquer culto, adeptos de um livro só, quando se sabe que o mundo dos clichês é uma vastidão de livros, um labirinto de bibliotecas, infinito o campo do conhecimento, inesgotáveis as fontes do saber. 

Não se recomenda treliça de vocábulos aos hipócritas de todos os naipes e credos, dissimulados por mor de seus pecados, e com eles os eunucos sociais: a legião da preguiça mental, os apáticos apolíticos e alienados. De resto, não se recomenda o texto a quem não esteja aberto a outros parâmetros do pensamento. A mente aberta como a copa da sete-copas que se encorpa e se volta para águas atlânticas.

Pois este é o cesto, e este o texto, um peixe para poucos, bem supridos de fosfato e massa-cinzenta. Aquele que não esteja pronto, se agache em sua crença e verdade, benza o corpo e se afaste, persigne-se e vade retro. Seu reino não é deste mundo agora. Seu reino é do outro mundo. Então vá, pode ir-se embora.

A ignorância é vítima de si mesma. Indefeso, vive num círculo vicioso aquele que ignora a própria esfera. Na penumbra do inconsciente, o si-mesmo é o fantasma da ópera.

O texto se abre, portanto, aos an(A)rtistas eletrizantes do intelecto, que têm no olhar o fulgor do relâmpago e o raio do amanhecer nos horizontes sem limites. Um dia deve parir relâmpagos, afirma Nietzsche. Capiche? Se não entende, não compreende. Rápido no gatilho é quem saca primeiro o insigth certeiro, se é que entenda a trajetória do tiro. Que o mais é o exame de balística. O enxame de moscas como atestado de óbito do intelecto inculto. Chorume. O defunto se decompondo em público.

Cumpre o desembaraço do discurso. Decifra-o, que te devora, o que não é bom começo de percurso, antes um acidente em curso. Quem entra na vida, pode se ferir. Tem a vida sua ferida e sua pereba. Aquele que atire a prima pedra, será provavelmente este a recebê-la como troco. A emenda conforme o soneto. O entrega do pacote de acordo com a encomenda.

A vida é uma câimbra-de-sangue, e cada um sangra como pode. Calangotango no balango do cangote orangotango. Sôngoro cosongo a boa obra do bardo de Cuba. Nicolás Guillén, anotem. E anotem que o retorno da prima pedra pode vir como paga do desejo em dobro. A cada um o seu morcego e bumerangue.

Todavia, em que pese a advetência, a partilha se avia. Os pães se repartem, os peixes se distribuem. Os vocábulos se querem públicos e altissonantes em meio à manada metropolitana, o rebanho abúlico, sonso e sonambúlico. A desordem dos vocábulos altera a ordem dos tratores e do produto. O inverso do PIB é um BIP ressoando para surdos.

A sociedade consumista vai às compras. Comprando e consumindo. Eletrodomésticos, langerri, fashion com catupiri. A galera inchada de sanduíches de shopping. As classes se reproduzindo e perpetuando a desgraçada espécie. Há quem prefira um chopinho, outros o bom vinho e Chopim. Chupim é passarinho. Em outro sentido é pessoa que suga de outras. O mesmo que espongiário, definição braziana para quem suga como seu o que outro escreveu.

Por quem os sinos despencam? Despenquem das torres dos templos insanos os sinos e os suínos da pedofilia católica. Ao diabo os pastores endomoniados, lobos ladinos, tosquiando cegas ovelhas. As piores delas enxergam mas não admitem ver. A hipnose coletiva é um meio de extorsão em prol das suntuosas mansões dos charlatães. As autoridades se fazem de besta. E tudo é festa, visto que neste país tudo é pizza.

O homem não se salva com saliva. Na selva da civilização, os corações são negros como usinas de carvão. Assombre-se o homem com sua réplica, estrábico reflexo no espelho de seus espectros. As sombrassombrações de seus avós.

O leitor incurso desfaça o percurso. Refaça o texto. Palíndromo e palimpsesto, a diferença da semelhança, vice-versa a vizinhança, próxima da distância, distante do que se aproxima e não se expressa. Onde fica a esquina mais próxima? Tão perto, que se faz incerta; tão certa, que não mais importa. O texto é um passatempo. Os cães ladram ao passar das carroças. A parábola se encontra nos quatro cantos do cata-vento. Calculem-se as cantoneiras na moldura do quadro. Onde a quadratura do círculo, aí o risco parabólico do texto. O cesto, os pães e os peixes, o cálice, o vinho tinto. O pergaminho de sangue, a prima pedra e a rima do bumerangue. O esqueleto do homem desfeito em cálculos imperfeitos e juntas desconexas.
 


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POR EM 22/05/2009 ÀS 02:49 PM

O mar, as origens e o morto solidário

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Então, de férias em abril, fiz a viagem até Praia Grande (SP) — porque lá havia parentes de Maria, minha adorada escorpiã de veludo —, uma viagem de família, inclusas minhas netas Myrella (seis anos e meio) e Emily (cinco anos), que queriam "andar" de avião pela primeira vez, e conhecer o mar. O mar, o mar. Myrella adorou; Emily demorou três dias para só molhar um pezinho, daí também adentrou “a piscina de Deus”, como eu lhes disse, a ambas, que o mar se chamava. Assim, como havia prometido, paguei-lhes a promessa. E abril não foi para mim “o mais cruel dos meses”, como dizia Elliot, um de meus poetas prediletos. Daí regressei a Goiânia e fui, com meu irmão mais velho, Waldemir — ele que sabia o caminho de volta —, rever, 63 anos depois, o rincão de nossas origens, lá na região do ribeirão Desemboque, pras bandas de Buriti Alegre com Morrinhos e Goiatuba, de onde saí aos três anos de idade e de onde as lembranças são as mais remotas que tenho de mim mesmo — desde que me entendo por gente, como se diz.

É do Desemboque que falo um pouco em meu livro “Poema da terra perdida”, uma espécie de caderno da infância e uma simbólica viagem, algo proustiana, em busca da infância no sertão da memória. E lá ainda se encontra — como a reencontramos agora —, um pouco descaracterizada, pois trocaram os antigos janelões por vitrôs, a casa em que nasci, construída em 1936. Waldemir nasceu em trechos de terra mais abaixo, pros lados do córrego Mutum, mas também morou, mais tarde, nessa mesma casa. Foi uma viagem sentimental, profundamente gratificante — por lá reencontrei até curicacas de que falo num poema intitulado “Chão de ausências” —, mas que também nos deixou, em mim e meu irmão, uma certa nostalgia, uma doída melancolia na alma, por conta deste gesto de se olhar para trás... tristes fragmentos de memória... lascas de histórico de família... coisas da vida, dessas que nos destroçam e nos deixam incompletos, faltos de pai e mãe, e faltos de nós mesmos. Saímos de lá já com vontade de voltar, e de chorar. Então eu disse que, se pudesse, me mudaria de volta. É um bom e belo lugar, o meu berço. Tem mais coisas do que supunha a minha memória, assim de encher os olhos e se derramar como o ribeirão que passa bem aos fundos da casa — fui até ele, molhei as mãos e lavei o rosto com água fresca, só pra dizer que tinha voltado, e sentir o gostinho da volta. Se me demorasse um pouco mais por ali, seria bem capaz de ouvir um menino chamando pelo pai e pela mãe. Ah, não olhe para trás! Dói demais, de tanta saudade e tristeza. E dá um vazio danado na gente. Sem melodrama, enxugo os olhos na manga da camisa.

*

E agora, caro Jadson, retomando aquela nossa conversa, por e-mail, sobre “O morto solidário”, do Ronaldo Costa Fenandes... Como eu lhe havia dito — antes de viajar para São Paulo —, li o romance em quatro pedaços de noite, tratando-se, com efeito, de uma bem urdida trama, inteligente, dessas que nos prende à leitura e que queremos logo chegar ao término. Foi mesmo um bom presente que você me deu. Não sou um “expert” crítico, não sou mestre nem doutor, não estudei Letras e não se espere de mim senão meras e ligeiras impressões de leitura. Diante de seus convincentes argumentos sobre o livro — feitos via comentários aqui na “Bula” e anunciando que iria enviá-lo a mim —, fiquei interessado, até porque o mesmo foi premiado pelo Casa de Las Américas, do que bem me lembro, embora e ainda não o tivesse lido (!). E você me presenteou também com “Travessias Singulares – Pais e filhos”, uma antologia organizada por Rosel Bonfim Soares, que vou lendo com vagar, possivelmente para voltar a ele, numa outra oportunidade.

De início, senti no romance de Ronaldo um "tom" de Robbe-Grillet — este que, comenta-se, tinha mais talento para o descritivo e menos para elaboração de enredos —, mas foi apenas um tom, consabido que o “nouveau roman” não primava por convenções de trama, caracterização e  emoções, como se vê em “O morto solidário”. Então eu quis ver alguma coisa a mais a respeito de Ronaldo Costa Fernandes, certamente que em busca de indicativos de possíveis influências de Robbe-Grillet em sua obra. Fui ao “Google” e encontrei um ensaio assinado por Ronaldo, sob o título “O personagem do nouveau roman”, em que ele fala, entre outros aspectos esclarecedores, da dificuldade deste movimento literário francês na concepção do personagem na narrativa. Ali ele diz que o “nouveau roman” fez do personagem “um objeto em cena; esvaziou-lhe a trama, retirou sua genealogia e seus traços únicos”. Julguei, por este texto, ter encontrado um “vínculo” entre Ronaldo e o “nouveau roman”, logo Robbe-Grillet, daí o tom, e também um pouco da técnica, embora “O morto solidário” se extrapole e vá além das cercanias do “nouveau roman”, ou de Alain Robbe-Grillet, vice-versa a mesma coisa. Mas o que digo eu, que mal sei de mim?

Já tendo expressado o meu atual estado de espírito — vide “Bula” e “Opção Cultural”, naquela minha zoeira sobre fórmula e repetições na obra de Bernardo Carvalho e muito da ainda recente e jovem literatura brasileira —, estado este, eu dizia, em que me vou por demais exigente — e quem sou eu, para tanto exigir? —, meio que  enfarado e por onde nem tudo me agrada como agrada a muitos e a mídia alardeia, devo dizer que “O morto solidário” agradou-me mas não empolgou-me de todo. Parece-me haver por aí, em outros autores, aspectos similares a este romance do Ronaldo, no que tange à trama, à técnica e a essa questão do eu-escritor, o que não desmerece “O morto”, bem urdido, criativo e de sôfrega e prazerosa leitura, capaz de imantar e enredar o leitor até o fim. Devo a você, caro Jadson, ter-me chamado mais atenção para Ronaldo Costa Fernandes, autor e obra. Repasso isso à sapiência dos mestres e doutores da literatura brasileira. Este trabalho de pinça e lente de aumento é com eles. Em matéria de avaliação crítica de obra literária, estou mais pra monóculo, se não pra bifocais, com abruptas aberrações de foco.

Outro pormenor, como quer me parecer, é que o autor, em “O morto solidário”, gerou um clima de expectativa, mas não explorou com maior amplitude — meio que inseriu-o de passagem, já indo para o final do livro — o personagem do paciente que acusa o psicanalista de lhe ter roubado a alma. Isso até seria matéria-prima para um outro bom romance, um tema que Ronaldo poderia desdobrar, ou não? Mas, sim, já existem coisas similares, tais como“A extraordinária história de Peter Schlemil”, de Adelbert von Chamisso, cujo personagem perdeu a sombra; “O cavaleiro inexistente”, de Italo Calvino, com um personagem sem corpo, habitando uma branca armadura, que fala mas não tem nada dentro; “A aventura da noite de São Silvestre”, de Hoffmann, em que o personagem Erasmus Spikher entrega sua alma a troco de possuir a formosa Giulietta; e ainda o “Fausto”, de Goethe, que negocia sua alma com Mefistófeles. Pois é, todos estes precedentes. Mas, porém, todavia...

O mais, neste “morto solidário”, foi uma traição da memória, quando o autor se refere como sendo do Biotônico Fontoura o rótulo do homem com o enorme bacalhau nas costas, quando na verdade se trata da ilustração no rótulo do Emulsão de Scott, um preparado à base de óleo de fígado de bacalhau. Purgante e fortificante. “Boas” lembranças temos dele, nos idos da infância. Era bom (agora sem aspas) para nós, e se era ruim no cheiro e no gosto — tomava-se o medicamento tapando o nariz, e não raro se vomitava —, pior e fatal o era para os vermes da anemia; que o digam as lombrigas. Preocupação das mães, os vermes eram vilões intestinos, que impediam o crescimento infantil; por culpa deles, não se viam aqueles “meninos corados”, com as róseas bochechas da boa saúde. Um cochilo da memória, este do Biotônico com o rótulo trocado, facilmente corrigível para futuras edições do bom romance. E um gesto de solidariedade para com o morto. Mas isso é apenas uma brincadeira do meu anarco espírito.

De Ronaldo Costa Fernandes, encontrei o blog com os seus bons poemas — do livro “Eterno Passageiro” — e resenhas sobre livros seus, assinadas por Antonio Carlos Secchin (exalta-lhe a poesia) e Adelto Gonçalves (destaca-lhe o romance “O Viúvo” como “um acontecimento literário”). Pretendo ler o recente livro de poemas de Ronaldo, e certamente algum outro romance de sua lavra. Fui convidado, pelo poeta Salomão Sousa e pela Biblioteca Nacional de Brasília, para a — inesperadamente chuvosa — noite de tributo a ele, Ronaldo, mas, como sou cheio de “mas”, nem sempre sou muito de ir, então não fui. E olha só: o de que minha memória não se/me lembrava: descubro, surpreso, em minha estante, pois o tinha ali inserido, com a leitura parada às páginas tantas, nada menos do que “O Narrador do  Romance” (Sette Letras, 1996), de Ronaldo Costa Fernandes, que tece considerações pertinentes e do meu interesse.

Além desse supracitado livro de Ronaldo, leio obras de outros autores que tratam do gênero romance, já que tenho em andamento — “work in progress” há  mais de quatro décadas e (claro) desenvolvida a espaços esporádicos — um mega-romance muito do meu jeito, ao qual pretendo me dedicar com afinco para concluir, trazer a lume essa labiríntica e fractal obra de fôlego — esse livro “monumental”, esse “obelisco”, essa profana “catedral” —, uma vez que minha aposentadoria acaba de sair, me dando mais tempo para tanto. Presunção e megalomania minha, como já declarei em entrevista à imprensa. Também declarei que essa obra ambiciosa, magalômana, já está bem maior do que o homem — desafiando a habilidade do autor — e que poderá matá-lo, podendo então que nem seja publicada, salvo se por conta da caridade pública ou de um governo inteligente, amante das artes e dado a colocar nos devidos patamares as obras monumentais, de domínio público, resguardados os direitos autorais, de conformidade com as leis específicas e vigentes.

A presunção é tamanha, que até já brinquei dizendo, numa entrevista, que quando este meu calhamaço romanesco sair do prelo, não será qualquer “tronco” em Goiás — sacou? — que servirá para amarrá-lo. Desarvorado em meu despropósito, cheguei a dizer que o meu Mega-R (Mega-Romance), como o chamo, é coisa pra lá de Joyce. Se joyce parodia a “Odisséia” de Homero, vou além e parodio, inclusive, o próprio Joyce. E mais não digo, pois já falei demais e tem muito escriba espongiário em Goiás, sugando as idéias dos outros. E agora que fiz meu “marketing”, agora que botei banca pra vender meu paixe podre, já podem rir os céticos e debochados. Também sou cético, ferino, venenoso e sarcástico em relação a muita coisa por aí, inclusive pessoas — aliás, sou mestre com a perversão da palavra em forma literária, como sou, em Goiás, o precursor e, até agora, o único a ousar essa perversão, para espanto de muitos, cristãos e canibais. Podem rir, agora. Eu rirei por último. Quem viver, morrerá. Quem  sobreviver, verá. Deus seja louvado.
 


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POR EM 23/03/2009 ÀS 04:23 PM

Variações em torno do paraíso

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Proscritos de aurora  

Vivíamos com os búfalos e éramos soberanos em Aurora. Era lá o Eldorado, ondulados, serenos horizontes, e o azul, o azul e o azul nas imensidões. Os búfalos no paraíso, imensuráveis e livres, na placidez dos dias longos e ensolarados; a sombra das nuvens passando, os búfalos pastando, calmos, e nós no meio deles — os olhos transbordados de estrelas, ou de luar derramados, quando as noites brancas de lua nua nos claros cimos da amplidão.
 
Com os búfalos irmanados, sem limites, errantes prosseguíamos, dias de inocente liberdade. E quando da terra os fêmeos almíscares, os búfalos possuíam-nos a alma, e nos possuíamos com selvagem naturalidade, circunscritos aos desígnios de Aurora, como a erva que nela medrava e era múltipla. Tal nos foi dado ser, até que um de nós houvesse com a ciência da terrível arma, na tíbia duma ossada, e da ira sobreviesse o incêndio das planícies, com a faúlha de sílex. Então perdemo-nos dos búfalos, perdemo-nos de nós, e perdemos Aurora. Proscritos pelo fogo da ira, aonde vamos agora?
 
O nome e o nada  
 
Era o amálgama de tudo, para que o homem houvesse dos elementos, soubesse a duração das coisas e a medida de si mesmo no meio delas, seus instrumentos. Era Emon, o Nome em si, para que Adan, reverso do Nada, conhecesse a ciência das águas e o outro lado. Eram os homens, os nomes, os símbolos e as lâminas de seus anagramas, para que soubessem a forja, o fogo e a força dos sábios.
 
E disse Emon: Constrói os telhados, as pontes, preserva as fontes e cuida que o grão não morra para os que virão a seguir. Mas Adan a tudo ignorou, perdeu-se prescrito pelos anagramas de seus desertos, anda a esmo e se abeira do Nada, seu abismo.
 
Quando a aurora rubra  
 
Os ventos virão com o fogo dos fogos, e o fogo purgará de todas as pragas a terra amarga. Rubras arderão as fornalhas dos oleiros de Aurora, entre dálias e rubis! Florescerão os lírios do futuro, ao romper do dia a luz da luz, afugentando os flagelos das sombras. Os signos do clarão triunfal acenderão os corações e os candelabros do mundo, quando abrir-se a manhã madura, com seus cachos de fogo. 
 
Um chão forrado de amoras  
Primeiro velório  
 
O velório, as pétalas e lágrimas-contas do rosário, enquanto lá fora paira o canto, ou mais que um pio de triste memória. Um chão forrado de amoras sangra o roxo da terra que chora magoada. Tudo por conta do Pelego, o diabo dos cabelos de fogo, que abusou de Rosa Maria da Glória, a virgem negra, depois matou e jogou n´água. Um rio de dor Rosália pela filha derramou. Os negros pegaram Pelego a unha e carne, sangue nas serrilhas do capim-navalha.
 
Espelhos de sol no dorso prateado das folhas de imbaúbas. Denúncias de bem-te-vi, alarde de gralhas, almas-de-gato de atalaia no equilíbrio dos galhos. Pedregulhos andarilhos e navalhas de orvalho. Passos com a foice daquela que anda pelos atalhos. Quem passa, essa com a foice? A dama dos panos pretos, a rainha dos mortos, a dona de tudo, a senhora dos dias, do fim de todas as horas. E os negros com o caixão de tábuas pobres, os negros e suas lágrimas. Por quem choram os negros? Por quem os sinos dobram? Os negros choram por causa de Rosa Maria da Glória, e os sinos dobram por ela mesma, a rosa negra das roças, das canas lavradas, de pétalas coberta, em pano roxo fechada, com a noite das noites da morte. Coitada! Tão Nova! E ainda nem noiva! O namorado enlouquecido, o Tiziu, dando cabeçada nos paus, até pôr sangue pelo nariz, o infeliz. Naquele dia, urutau no pico do pau não dormiu.
 
Segundo velório  
Detalhe para as mãos de rosália 
 
Os sulcos, os ciclos da terra antiga, aral de torrões e aranhas, na pele negra de Rosália. As linhas, os meandros, os desvios da vida, emaranhados no mapa do rosto amarrotado. Sobretudo, a dimensão das mãos; os nódulos como símbolos dos dias amargos, debulhados nas espigas do pranto, que só lhe foram alimento os dias feito grãos de solidão. Uns olhos tristonhos que eram os seus, negras contas-de-lágrimas, numa água cinzenta de mágoas.
 
Grossas, sinuosas, as veias das mãos, como dessas árvores que atravessam o tempo e as intempéries as raízes que afloram arrebentando a terra escalavrada pelas águas, batida pelos ventos de todas as direções. Mãos de árvore-mulher expostas às mais vis vicissitudes, ilesa, o quanto pôde, de outras tempestades. As unhas entranhadas pelas nódoas da lida com a terra e a vida, que são os nódulos de tudo.
 
Na sozinhez das idades, se demoram ainda as mãos de Rosália. Erma treliça no abandono do corpo no mundo, se demoram ainda, de outras eras, as velhas mãos da terra. Já não colhem do quintal as últimas amoras. Já não colhem, as mãos do campo, os ramalhetes. As mãos em feixes — ramas —, no ataúde humilde.
 
O pio tristonho do anu-preto, pousado na cerca. Tufos de capim resseco, rodopiando ao vento. Teias de aranha no tear do esquecimento. No baldrame da porta, o companheiro Fiel; os olhos tristonhos, lacrimosos, dolorosos demais para serem de outro animal diferente de um cão. Uivos ao vento. Nunca mais lamberá as doces mãos de Rosália, as rosálias mãos do afago, com aquele gosto de velhos amigos.
 
Os porcos repisando o chão ensangüentado de amoras, os frutos amassados de tanto sofrimento.
 
Ofício dos mortos  
No reino de abracadabra   
 
Eis a derradeira morada, a terra sa(n)grada em que repousa Rosália, ao lado de Rosa Maria da Glória. Duas rosas negras perdidas na trama das linhas intrincadas, nas entranhas da terra finda, que é o fundo tenebroso de tudo e nada na memória que se apaga. Mas quem sabe nada se acabe, e uma certa escrita de céu destrave a língua no aranhol das linhas quebradas de Abracadabra. E o leito em que se deita o corpo nem seja o terreno do reino eterno, mas a cova em que o morto espera pela chuva que a tudo renova. Quem sabe nem há epílogo, e os mortos só vão ali e voltam logo, pra reacender o fogo. E não haja nada além da vida, senão a vida, e só a vida, além do nada. Quem sabe — oh, quem dera! — os mortos tragam o trigo da terra sem choro, o cheiro da terra viva e os pintassilgos da primavera.
 

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POR EM 16/03/2009 ÀS 09:06 PM

Leitura do processo de desumanização do homem

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 Parte I  

M E T R Ó P OL E

Central de Alta tensão

Esta cidade que brotou como colossal cogumelo, era um enigma para seus próprios habitantes, perplexos, tentando entendê-la como podiam, enquanto lutavam para não serem devorados. — Nicolau Sevcenko, Orfeu estático na metrópole .

LOBOS NO LABIRINTO

Homo homini lupus.

Thomas Hobbes, Leviatã.

A selva densa, árvores de pedra, vidro e aço, com as mungubas e seus frutos bobos. Espaços de fumaça e doença, onde as flores só enfeitam a trágica ilusão de tudo. Dança de cabeças, pernas, braços, uma ameaça de bocas que assustam; os bafos de fogo da Besta, os dragões da cachaça, os dentes em cacos e pústulas. O animal da distinção de classes, o animal do credo e da raça, o animal da contradição social, o animal da injustiça, o animal da violência, o animal caçador, o animal do dia da caça: o cobrador da exclusão social. Os nomes animais da mortal sobrevivência, e o cão de estimação.

A cidade cerebral, o ventre, a vulva, o útero, as vísceras de tudo que explode, os dentros de tudo que vomita. Surdos socos, o coração; o sangue no ringue, a vida de pé, o animal da multidão. Feixe de nervos em atrito, a cidade um corpo convulso, de um produto em estado bruto. Fios elétricos, o tecido social. Usinas humanas, central de alta tensão.

A cidade o animal parido, o ganido faminto, o cão danado. A cidade mãe de todas as fomes, todas as mordidas; um cão ferido a lamber suas feridas. O homem lobo do homem. O predador no labirinto sangrento, nas esquinas, nos becos sem saída, nos túneis do horror e de todos os gritos, todos os danos. Todo grito é itinerante. Todo grito nos diz respeito. Todo grito. O grito caminha com a multidão, a multidão caminha com a fome, a fome é sua própria carne. Cotidiana, diuturna, a multidão uma fome que não dorme. As ruas frias engrenagens, vertigem, voragem a moer carne viva — a vida nua e crua — para a fome insone, que a tudo consome. Come, come, come, a carne com fome. Tritura-se a carne, e o que mais dói, além do sangue que se esvai em rios de avenidas, são os gritos do silêncio e do medo, coagulando a vida.

Troféu de Lobo do Ano ao homem, diploma de Honra ao Mérito a Necrófila, metrópole que se alimenta de seus mortos. Da própria carne gerado, o que nela penetra e se dissimula, a devorá-la infestada de si mesmo — o verme —, uma fome que engendra sua forma, uma forma que se anima do homem, e dele se engorda. Crua a demanda da vida, cadela dos nacos sanguinolentos, malsaídos de frescos defuntos. E beber-se o tinto feito sangue, comer-se a hóstia como se corpo: transubstância ou arquétipo canibalesco? Pois não lembra, incubo antropófago, o altar dos sacrifícios? Ó mísera, patética vida! Toma, coma os rins, que os olhos já são teus. Ai, que escurideus! O cão para os ossos da posse, nas ruas de famintas ambulâncias.

Abertas sirenes, veias da gangrena, celeradas as ruas se aceleram; algumas se arrastam que nem lesmas, havendo-as também de olhar vacum, alheias ao veneno que ruminam. Certo é que as ruas andam, se movem com os lobos na pele do inimigo público. As ruas geram lobos para devorá-los vivos. Força motriz do próprio umbigo, as ruas eletrizam o perigo. A vida das ruas se alimenta de medo. Vive de medo. O medo se alimenta de sustos. As ruas são animais assustados, desconfiados de tudo. Pelas ruas do absurdo, aquele que se descuida de seu medo já é o inimigo. O inimigo se alimenta de gritos.

CACTOS DE AÇO INOX

Teceu-se o homem com fios perversos; os olhos frios, esferas de aço. Ácidos insultos, a metalurgia dos vocábulos. De ferro batido a face humana, à semelhança da paisagem urbana. O homem copia suas estruturas, no meio delas não vale nada sua vida: mais-valia, vale menos que as folhas varridas pelas vassouras da prefeitura. O homem é um bicho entre o aço e o lixo.

Emparedado, empedrado, empedernido, o homem não é nada sólido. No fundo, é só um sonho mineral, com a carne do animal Um pesadelo real. Uma fera, uma fúria incubada, remoendo seus modos, roendo seus medos, malgrado seus blocos de pedra, seus muros, seus cadeados, seus dobermanns. Um rosto duro, de pedra chapada; um olhar pontiagudo, de aço lavrado. Petrificado por dentro, por fora encouraçado, pedra dentro da pedra sem sentido. Mas fora ou na fundura do tecido, perdura uma dor endurecida e surda, uma dor de nome enorme, com o sobrenome do homem, a soma de todos os anônimos. O mendigo e seu cão — o vira-latas Rex —, perdidos na multidão. Cactos de aço inox, espetados no céu ocre da metrópole, bem no meio do olho de Deus, o Ciclope. Clop-clop, clop-clop, uma cadência de cascos. Cloc-cloc, cloc-cloc, a mecânica do tempo. Um homem-bomba no Shopping Center.

Parte II

USINAS HUMANAS

Cidadania na Sociedade Anônima & Cia. Ltda.

Há no olhar das bestas uma humildade profunda e docemente triste que me inspira uma tal simpatia que minha alma se abre a todas as dores animais. — Francis James.

AS GARRAS DOS GUINDASTES

Concerto para Igor Stravinsky

Gritos metálicos, dilacerantes, de letras em ricochetes pelos dentes da máquina. Filetes de sangue nas entrelinhas da noite para o dia. Versos impressos em lâminas, gritos ainda úmidos de graxa, metalurgia de unhas gigantes, ranhuras em chapas de aço. Gritos próximos dos guinchos agastantes dos guindastes, ou de um Igor Stravinsky, nas ranhuras da orquestra. E como se imputasse culpa ao texto pela devassa do silêncio, emite a folha em branco uns gritos de estupro. Mas o texto é só uma sombra das formas da noite, com o lacre das portas secretas e perguntas sem respostas. A doença do crepúsculo é tudo que fica. Crepúsculos de ocre e acrílico, cromos oblíquos, e lâminas, que aniquilam o ânimo do homem.

A PARTE SEMELHANTE

Olhos alagados entre o rímel que os realça, tristonha vai a moça pelo eixo cotidiano dos anônimos. Uma lágrima que desce pela face de blush da superfície, camada que enrubesce mas não disfarça da infeliz a feia cicatriz. Um choro solitário em meio ao que chamam de massa os sociólogos, e que logo se perde no rush de pernas ambulacrárias e olhos de vidro blindado, nas cabeças que arremedam hidra. Mas sobra ainda um vislumbre de seus pés: as sandálias novas e azuis! E antes que tudo se torne apenas poema de circunstância, prevaleça a epifania dos fragmentos. Todo fragmento é o que somos do outro. É a nossa parte semelhante. A metrópole brota do monólito, e cada lasca do bloco em que se esculpe a metrópole — o colosso, o Minotauro, o mito, o obelisco, a catedral, o bem e o mal —, cada lasca nos toca de perto. Toda perda ou conquista nos toca. Isto que somos, do mesmo bloco: públicos e anônimos, carne e osso do labirinto.

TRÊFEGO TRÁFEGO

Fonfooon! Fonhenhémmm! Quer morrer, mané? Vai te foder, chulé! Trêfego tráfego. O sistema caótico, os semáforos hipnóticos, o funesto alarde tóxico. O rush, o stress, o corpo feito chapa na prensa; os ossos moídos, rangidos de ferro e nervos retorcidos; calculem-se os ais dos cálculos renais! A hora do crepúsculo, a cãibra e a câimbra nos músculos. Os pulmões poluídos, arfando à força, fole de cansaços. Os primeiros sintomas num sistema de autômatos. A bomba injetora, a válvula, o curto-circuito, a catástrofe: o pneu estourando em pleno cruzamento. O sinal fechado, outro sinal aberto... Crash! A batida fatídica, na parada cardíaca. Ó vida! Oh, vida! Um zero à esquerda, na placa do nada.

O BRILHO CARNÍVORO

Homens e cães sofrem os malefícios da cápsula de pó ao pé dos edifícios. Poetas lêem ao inverso os letreiros do comércio, forma de letrar-se o trágico episódio. Os pobres da vida triste, sem remédio, passam com seus pacotes a qualquer preço, e abrem nas feias faces um falso ar feliz. Borboleta no fio de lâmina que reluz, a vida trisca por um triz. Anda pelas ruas um demônio reluzente, a morte de azulínea luz. Ó Leide, acorde! Acorde-se das neves frias da morte. Fundo silêncio de tumba o que responde: É tarde. E retumba: É tarde. Não há quem acorde as bonecas quando mortas.

PEIXES NO POMAR

Com as mamas famintas, despejadas pelos trapos que drapejam ao vento, a vida sobre a favela do tempo, e leva o futuro no vente. Ò grávida de fome, foste estuprada pelos brutos ou foi por gozo o peixe que te morde e come a pêra dilatada do útero? E será Benvindo ou Malvindo, o nome do rebento que te arrebenta o dentro? Flora ou Floriano, o futuro da história que te deflora? Que fruto aflora no pomar do teu sofrimento?

TEIA DE ARANHA DO TEMPO

O tempo teceu fios de prata nas faces da tarde. O sol mortiço agoniza nos cromos e nas caixas de remédio da farmácia. Os velhos no bar bebem a menta da melancolia; os corações se fecham feito aeroportos sem pássaros. Há os malefícios do tédio e do óxido, comendo com garfo o coração miserável da cidade e suas inutilidades. Triste, a noite se veste. A noite é outro sofrimento. Néons de sangue tremeluzem nos terraços de funestos impulsos. Amiúde um corpo se solta, espalha miolos feito flores no asfalto. As flores da noite em toda parte, nos bares oferecidas aos tristes amantes, ou presas nos vestidos de outras mortes. Um gato se esgoela no fundo escuro da viela, como se lhe fosse a garganta rasgada à faca. Vende-se, urgente, um relógio de bolso, ou troca-se pela ilha de Creta.

A TIRANIA DA CULPA E O TIRO DA IRONIA

Filhos, melhor não tê-los, mas se não tê-los, como sabê-lo?

Vinicius de Moraes

O labirinto urbano e suas artérias viciadas, todos os vícios, todos os venenos. Meninos-zumbis, nos becos obscuros, injetam overdoses nas necroses dos corpos. A noite é dos mortos. Tiros no escuro. A tirania da culpa e o tiro da ironia. Independência ou morte! Eles têm a força, pelos poderes de Grayskull!, e a bússola, que lhes oriente o Norte... Com que roupas, todas as desculpas? O pico é um barato, você é que é careta. E viva o morto! Dizia-se dono de si, bem saber o que fazia. Negra (t)ironia! Renato Russo mandando ver no CD: Você culpa seus pais por tudo. São crianças como você.

Filhos. Um crime fazê-los, um sofrimento amá-los, intolerável não tê-los, como não ter o sol. Pelos poderes de Grayskull!

JINGLE BELLS

O inferno de Deus

Jingle bells! Jingle bells! Tilintam as estrelas no céu, e não se trata de sininhos nas renas de Papai Noel. No céu se recortam feito rosetas de esporas de prata, e como se andasse a cavalo o bom Deus de quem se fala — ou lhe serão rosetas os olhos com a fria forma das estrelas?

No inferno cá embaixo, as fila aflitas, umas salas de ásperas esperas, umas falas de arestas, a cuspe ríspido. Na parede cinzenta, um patético deus de lata, a funilaria de uma farsa, em formato de crucifixo. A noite gelada. Hipócrates abjurado na portaria dos hospitais da madrugada, quando nas ruas os desvalidos de tudo abraçam cachorro e pedem socorro.

O Natal e os metais da cidade sem alma, aços recurvos, bicos de harpias. Quando, Aurora, tuas harpas, teus olhos de ouro, teu cheiro de lápis de cor, teus lábios de amora madura? Aurora, Aurora, por que demoras?

Batem os sinos e os pequeninos choram na cidade enferma, choram os filhos do abandono, choram os meninos da fome, choram. Batem os sinos de Belém, e agora vou bater nos rins de alguém, doa o que doer. Enquanto Aurora não vem, aborta-se o deus-menino em Belém, os tarados estupram os bebês e os anjos dizem amém. Assim caminha a humanidade, pensa que a vida é um filme, e a vida é um crime. Mas é Natal. A noite dos excluídos, como se viver lhes fosse dado por castigo, o inferno que lhes coube da terra prometida, o inferno caído do céu, a mando de Deus; dada a boa vida aos donos do mundo, calçados com as esporas de Deus. Deus inimigo.

SHOPPING CENTER ON NIGTH

Quantos homens comporta uma compota de pêssegos? Quantos mil, numa lata de doce 4em1? Quanto custa reduzi-los a massa de carne e osso, a troco do lucro? Cálculos diabólicos, alucinada roda da fortuna. Triturar-se o homem, doce de carne humana. Hipócritas, desse doce comemos a que preço?

AS LUZES

Solidão da metrópole

Antenas de televisão no alto dos arranha-céus, teias de aranha no céu. Solidão. As luzes acesas lá dentro. Todas as luzes dos apartamentos. Oh, quanta solidão se acende com a eletricidade da infeliz cidade? Ligue 0900. Solicite uma suíte e aproveite a noite com Suzete, mais quente que um site de Laura Croft na Internet. Melody Motel, pertinho do céu. Ambiente seleto. Aceitam-se cartões de crédito.

A noite se veste, a noite fechada em seda negra, seda japonesa. A obra em negro. A dama da noite se despe, a carne viva da noite se abre, se exibe, se oferece. Boca de loba, a carne tem seu preço. Afoitos, aflitos, os faróis no asfalto. Homens e autos, feito ratos no labirinto, aceleram a adrenalina e adentram os túneis da noite, a vulvagina de seus destinos, por quem os homens se alucinam.

OS OLHOS AZUIS DA NOITE

Vanusa mariposa das luzes mundanas, coisa de usos e abusos, à espera do esperma e do dinheiro dos homens. Inimigo do amor, o animal caçador a investir-se contra a flor sexual da vida, sem ver da vida a flor mais funda. Quantos, nos lençóis dos lares e motéis, aqueles que se livram de si mesmos, e um do outro se livram, após o coito, e a nojo do peso-morto?

Vanessa às expensas dos orifícios do corpo. O odor mênstruo, oriundo da espessa vagina do mundo. A cabeça arrancada de uma boneca, tão tragicamente linda, e ali tão expressiva, tão viva, tal fosse a cabeça da vida. Lábios vermelho-vivos, róseas faces de borracha, imundas de gosma de ovo e borra de café, como se maquiadas para um poema deprê. Os olhos azuis perplexos, espiando, de dentro da lata de lixo, a imensa tristeza de tudo. 

Parte III

OLHO DE CÂMERA

O vírus do Ipiranga às margens plácidas

Poema de choque, contundência, hematomas, socos na boca do estômago.

A hora clara e o sol, ovo estrelado na frigideira do dia. O recomeço do mundo na serenidade das coisas simples e essenciais. A paz, duradoura até que os homens se levantem com suas explosões e espalhem flocos humanos em todas as direções, gerando focos de atrito e o conflito de se viver o cão com os ossos do outro. As coisas renascidas para os homens, e os homens, entre as coisas, apenas passam, autômatos em trânsito. Alguns não passam de sombras, outros passam em transe, enquanto não lhes arrebentam os glóbulos em coágulos de desatinos. Cogumelos malignos, disseminando venenos, corrompendo o coração dos meninos.

A metrópole cospe fuligem e vomita o homem que come alumínio e respira o veneno que escapa dos canos. O homem que entra e sai pelo cano. Monóxido, dióxido, hidróxido de carbono. Entra ano e sai ano. O aço. O homem oxidado, o homem ácido, o homem tóxico. Nossos bosques tem mais bosta e o vírus do Ipiranga. Nosso hino é o mais ufano, mas a dengue é quem manda. O lodo do Eldorado. A vertigem e o vômito. A miséria absoluta se ramifica à margem dos outdoors, que anunciam vida melhor. Desloca-se a multidão de autômatos, um mar de cabeças anônimas e monótonas. Outros são passos que se apressam. Chumbo miúdo aos pombos da praça. Bala perdida o pássaro da violência. 

A flor humana

se anima do húmus

e da fedentina

que emana do rio.

 

A céu aberto,

a flor brota do excremento

no lote baldio,

e abre suas pétalas.

 

O lírio impuro

do futuro.

Cai a tarde. Cai a noite. Hora da novela. Novela? Não vê-la. Mas se não vê-la, como revê-la e saber se vale a pena ver de novo? O povo. O jornal, as últimas do PIB e os lábios sensuais de Lilith Fibe. Sem nada querer insinuar e ofender, fibe é anagrama de bife, coisa imaginária na mesa da miséria brasileira, delírio na cabeça do otário. Mas a noite é bela com as suas estrelas. A hora erma e rubros coágulos a néon, boiando nas poças tristes das ruas molhadas de chuva. O ar nauseabundo, de rabugem canina, caca de cão e urina. Bolhas de escarro e o corpo bêbado de borco em golfadas de vômito sobre a calçada, como se derrubado a socos no estômago. A ressaca virá com os hematomas de um coice de burro, tanto quanto o devir de outros tombos. O ser e o nada, Heráclito caído à beira do meio-fio, o perdedor que sempre se banha nas águas sórdidas e estagnadas de um mesmo rio.

O olho atento clica sua máquina e capta o momento do assalto. Congela-se o instante, sente-se na pele o calafrio a fio de faca. O corte ou furo quente da morte, na hora em que a pistola dispara: bang! bang! e a rua coagula-se de sangue. O estupro, o massacre e outros assaltos. Tudo por conta de um par de tênis, um gozo de pênis, a vida a troco de um toca-fitas, um celular, uma nota pra descolar uma lata de cola, uma pedra de crac, uma carreira de coca, um baseado esperto, fuminho do Capeta. Voyeur da noite, o fotógrafo clica sua máquina e flagra níveas nádegas da boca no boquete, ali nas nuanças de sombra da praça. Momento em que o psicopata golpeia com a faca e a carne branca se espalha com a minissaia. Tarja negra cobrirá as frias nádegas e a sangria na fotografia de primeira página? Escândalo. O fotógrafo é um vândalo da dignidade alheia. Mórbido voyeur da intimidade morta, ao preço da imprensa necrófila e sensacionalista, que mistura as tripas do estupro com os espíritos de linha kardecista. A garota de programa era universitária, filha de boa família. Gostava de cinema, teatro e novela. Adorou Os Monólogos da Vagina, levados ao palco por Miguel Falabella. Tinha tudo na vida, a bela universitária. O que mais ela queria, aí pelas esquinas? Cocaína.

A sociedade em ruínas se reúne. O Estado, a Igreja, a Família são farinha do mesmo saco. O mais é o crime. A vida é um crime. O salário mínimo é um crime. A hipnose coletiva da religião, pra tomar sacos de dinheiro dos otários no Maracanã, é crime de extorsão, sob as barbas omissas da polícia e da justiça, cega por conveniência ou conivência. E não há pequeno crime que não rime com alguma forma de fome. Ovo de pato no prato do trem da alegria. Os corruptos comem o ovo e o povo paga o pato. Sorria. Gol do Corinthians. Urubu é preto todas as manhãs, como costuma ser até o anoitecer, e o de baixo caga no de cima. Cocô de urubu é bom pra desvio de coluna. No mínimo, ajuda na rima. Os meninos grã-finos queimando vivo o índio Galdino, que só estava dormindo no ponto de ônibus. Socorram-me! Subi no ônibus em Marrocos. Palíndromo é o que se lê ao contrário e tem o mesmo sentido. Nessas idas e vindas, o beco não tem saída, o barco se afunda e a vida que se foda.

Cão! Cão! Cão! Ladra o cão da globalização, de olho no ouro verde-amarelo do Brasil. Ondula-se o mar azul sob o céu de anil Ah, como é bela a bandeira brasileira! Bordada de estrelas que simbolizam a fome, a miséria das favelas, as balas perdidas da exclusão. O que resta na estação da esperança? O que é que se espera e não alcança na Central do Brasil? O que mais espera o povo banguela, esta bela raça brasileira? Olha a bosta! — o vendedor de cocô, o cúmulo do mau gosto e do deboche. Vai querer ou quer que embrulha? O povo-gandula que sempre pega a bola e na malha do gol se estrangula. Rebola, mulata, rebola. Arrebita a bunda bonita pros turistas. O rabo por um dólar.

Ma o que é isso, meritíssimo? Concessão de liminar e habeas corpus para os atos ilícitos? E não se corrigem os costumes? E não se acaba nunca com o circo dos horrores? Que moral é essa, afinal? Que maus costumes são esses? E essas máscaras dos códigos penal e civil? Fala, Brasil! Mostra a sua cara ordinária, cheia de encantos mil. Puta que pariu!

FIM

Nota —

Com alguns acréscimos para melhor, os textos acima publicados foram extraídos de Pilóbolos (espécie de fungo que busca a luz e muda de forma).
 


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POR EM 09/03/2009 ÀS 11:18 PM

Conjecturas em torno do cadáver

publicado em

Tiros ouvidos também não foram de foguetes pela volta de Jesus, e nem emissários de balas perdidas, oriundas de alguma famigerada favela, feito “marimbondos de chumbo querendo morder carne”, como se escreveu numa história de detetive naqueles pockets books da década de 60. Alvejei mira no peito do coronel Coronha, que era o meu coronel e não haveria de ser de mais ninguém

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não. Deus esteja. Guimarães Rosa é o cara e "Grande Sertão: Veredas" o romance, a prosa poética, a obra-prima imbatível e perene, porquanto única. E o que temos aqui e agora são meras conjecturas em torno de um cadáver já frio e rijo, em pleno gozo do rigor mortis . O repouso do guerreiro no reino dos mistérios gozosos e dolorosos da matéria em decomposição. Um morto feito de ficção e realidade, donde semelhanças com pessoas e fatos reais não serem mera coincidência, antes o corpo de delito com os penduricalhos do discurso, tais como ainda grafar-se conjetura com “c”, a exemplo de veredi(c)to; a consoante como um piercing de micção dos termos processuais, espumijando-se nos mictórios dos tribunais do júri, senão quando em forma de adereço nos anais do ânus, se o senhor me entende o artesanato verbal a uma geração tatuada e metálica, com perfurações de agulhas e balas em toda parte do corpo, até nas partes pudendas. Sabido e consabido que nos tribunais a sorte às vezes é lançada num jogo de dados viciados, e não me venham com a pecha de heresia jurídica. Genit( alea jacta est ). Ate porque a sorte é fruto do acaso e este não consta dos autos do processo.

Nhor não. Tiros ouvidos também não foram de foguetes pela volta de Jesus, e nem emissários de balas perdidas, oriundas de alguma famigerada favela, feito “marimbondos de chumbo querendo morder carne”, como se escreveu numa história de detetive naqueles pockets books da década de 60. Alvejei mira no peito do coronel Coronha, que era o meu coronel e não haveria de ser de mais ninguém. Metia-se em mim e me apaziguava os grilos cotidianos com a Justiça brasileira, esse moroso e angustiante emaranhado de labirintos que é a minha área de atuação. Infinitos corredores por onde ando e empino meus glúteos e minhas glândulas mamárias e utilitárias, profissionalmente falando, bem entendido, pois não sou de trajes sumários como tantas por aí, umas tontas que, em se tratando de obter favores dos bastidores, só raciocinam e se sujeitam com os seus odoríficos orifícios. Ossos do ofício, dizem elas. Pois sim. Do ofício, uma pitomba! Buracos sulfúricos da falta de dignidade ou da pura sem-vergonhice, isso é que é.

Nhor sim. Mirei o peito broncopeludo do meu coronel, ele com a visão e a truculência características da caserna, tanto na disciplina de comandantes e comandados quanto em suas vidas privadas, com as garras aduncas de suas carícias e o jeitão brucutu de seus amplexos e acochos, peito com peito, coxa com coxa, saliência com reentrância e assim a fome com a vontade animalesca da querência. Vida e morte cabeludas, seu Severino. Mirei como Deus mira seus raios no dia da ira e mandei bala com o som e a fúria de um Faulkner atolado no álcool, que nem uma égua no brejo. Nhor sim, que também cultivo a minha cultura etílica, inobstante o preço que se paga por sair da linha de vez em quando, pois ninguém é só CDF do comando, como resmungava o meu amado Coronha, lá com os cadarços de seus coturnos.

Por acerto de contas, tiros que o senhor ouviu foram de ciúmes que dele eu tinha, e ódio que me deu aquela voz de mulher na secretária eletrônica dele. E foi bem feito. Quem mandou ele me usar feito um CD, Lado A, Lado B, e daí me trair, me trocando pela primeira traíra vagabunda que encontrou e nem sei quem é? Porque, se soubesse — ah, seu eu soubesse! Em primeira instância, consoante os artigos, incisos e parágrafos em situações passionais, acabava com ela só com arrancar-lhe os cabelos, como de praxe em briga de mulher, ou então pegava ela no tiro certeiro, via telefônica mesmo. Apertava o gatilho e metia bala na boca do fone pela linha afora até o ouvido dela, pra ela nunca mais se meter, stricto e lato sensu , com o meu homem. Em última instância, eu capava a piranha e enfiava-lhe a periquita fedorenta no reto. E nem me releve, meritíssimo, por conta do meu estado emocional, os termos de baixo calão, mas é que estou mesmo fula com a fulana, estou pra lá de tiririca da vida com aquela sirigaita duma figa, se dando de oferecida.

Reconheço que agi ao calor do furor uterino enciumado, abraçada ao meu rancor, parafraseando o saudoso João Antônio, que escreveu o conto sobre a arte de chutar tampinhas. Vai daí que atirei, mas não matei o coronel Coronha, que não era o Bira do Jardins, mas era o tantã tumtum do meu coração desnudado, como diria o poeta Baudelaire, se bem me lembro. E a Polícia Civil, se viu o que não viu, concluiu que Carlina Cipollia matou o amante coronel Bira Tan, aquele um que arrasou com os revoltosos da farra do Cariru. Torou no tiro cento e onze homens-números, que disso certamente não passavam para a sociedade. Cento e onze elementos paridos pelas contradições do Sistema e por seus próprios distúrbios psíquicos ou desvios de caráter, por má índole mesmo, própria do indivíduo, herança da ferocidade ou do instinto primordial. Cento e onze reclusos, um atrás do outro, como diria o debochado Clovildo, deputado debutante no covil das serpentes, egresso de vida pregressa, pelo viés do cós do costureiro, e agora inserido pela greta da urna, recipiente cívico que muitos ainda confundem com penico. E que importa se Carlina Cipollia matou ou não matou? Claro que importa, mas há problemas muito mais sérios afligindo o país, além dos banais crimes passionais da vida em comum. A opinião pública é cínica e já não liga muito pra fatos banais, embora se ligue em boatos, e se ainda se liga é porque liga a televisão e se alimenta da titica cotidiana da mídia no vídeo, ou então se deixa levar mais pela curiosidade própria do ser humano e menos por qualquer outra razão ou nobreza de caráter. E já não liga muito até porque a douta mãe de Carlina Cipollia, meio que sisuda e categórica, mas sem a consistência de um nó de cipó e sem nenhuma lágrima de cebola para o álibi da filha, disse que ela é inocente, enquanto o presidente da República insiste que não viu e não sabe de nada.

Além do quê, meu nome é Vulvagina e meu caso aqui é outro e nem é tripudiar sobre a dor dos outros; vá-se medir a dor alheia e ver se não é maior que a minha nesse país de surubas e urubus de lixão, de latinos e bundalelês, de gente patética e ridícula, a par com urbanas turbulências e chagas purulentas. O mais é que os fatos se deram conforme foram por mim relatados, e mais não digo nem me seja perguntado. Posto o que, peço deferimento. In dubio pro reu . Ao acusador o ônus da prova. Quem matou não fui eu, como diz o Paraíba da piada ao delegado: eu não mato não, doutor; eu só faço o furo com a peixeira; quem mata é Deus. Aquela mesma conversa do malandro engabelando a moça zelosa de seu hímen, dividida entre deixar ou não deixar e com medo de doer. Deixa eu pôr só a cabecinha, que o resto é só pra levar e trazer a cabeça. Olha só a conversa do moço. É mole? Não. É duro. E o certo é que não matei. O Paraíba é minha testemunha. Quem matou o coronel Coronha foi a bala que saiu de minha arma. Eu apenas apontei e apertei o gatilho. Se matou é porque Deus não interferiu, não desviou a trajetória da benedicta bala, e a bala entrou. Se não entrasse, não mataria. Além do quê, quem ama não mata, e se mata é com bala de chumbo mentolado.

Elementar, meu caro Watson. E ahora el coronel no tiene quién le escriba. No hay quién escriba al coronel . Pois não se escreve para os mortos, antes são eles que escrevem para os vivos, por meios psicográficos, uma mina de ouro dos mortos pra muita gente viva, se me acompanham o sentido figurado. Não. Ninguém escreve ao coronel. Também não se dá bom-dia aos defuntos, embora um belo dia tenha dado o título ao romance de Manuel Scorza. E gastar-se tinta pra quê, por causa de um coronel, a essas alturas do irremediável, a essas horas da matéria pútrida, de uma pátria em adiantado estado de decomposição? A importância do morto é mais por conta do alvoroço da imprensa e decorre da ligação do de cujus quando vivo com o massacre do Cariru, caso contrário nem haveria suíte em novas edições, senão e somente ao palato da necrofilia impressa, falada e televisiva. Portanto, aos vermes o lauto banquete. Aos mortos, o silêncio e a solidão. A tediosa eternidade. Ao final das contas, quem mata, mesmo, é Deus, pois não está dito que Deus dá e Deus tira? Deus cria homens como quem engorda porcos, para matá-los. Calha-nos o cinismo num país de crápulas e cínicos, de gente escrota, cretina. E não nos venham com a válvula de escape ou desculpa esfarrapada do livre-arbítrio para justificação dos crimes. Haveis de convir com a defesa, senhores jurados, que, se é Deus quem mata, ninguém tem culpa de nada. Ninguém matou nem está matando essa gente toda aí pelo mundo afora. Carnificinas, massacres, genocídios, tudo isso é com o andar de cima. Somos todos inocentes sobre a face da Terra. Libertem, pois, Carlina Cipollia. Sabiam que carlina é o nome que se dá a cada uma das travessas que seguram as longarinas, na construção das pontes? Carlina Cipollia é um anagrama que se queria de mãos dadas — travessa e longarina —, com o seu coronel. A vida como ela é, diria Nelson Rodrigues. Já o cariru é um vegetal, e brotos de cariru se comem refogados, ao passo que aqui se tem uma narrativa polifônica que se come crua, revogadas as disposições contrárias ao arbítrio de quatro vozes neste texto em curso, quais sejam as do narrador, da personagem enquanto ré, do advogado de defesa e do juiz com o seu inusitado veredicto, correndo a acusação por conta de quem atira a primeira pedra.

Quanto ao coronel em questão, outro que não o meu, a ir-se pelo massacre do Cariru e pela Bíblia, o inverso é similar e a recíproca é verdadeira: quem confere ferro, com ferro será conferido. Está escrito. Se a muitos matou no sangrento episódio do Cariru, foi morto pelo ódio nos jardins do amor. Um conto é um conto. Tem os Contos dos Bosques de Viena , que é uma valsa de Strauss, e tem o Conto tristonho do amor risonho , de um autor ou autora brasileira cujo nome esqueci. Quem conta um conto acrescenta um ponto. Se nos permite o leitor levá-lo até o fim da linha, verá que o fim da linha sempre se encerra com um ponto final, ainda que numa frase reticente.

Assim, senhoras e senhoras, ajuizadas as nossas míseras conjecturas em torno do cadáver, é de supor-se, e este é o veredicto, que a ré Vulvagina Quadrilábios de Oliveira — se há uma ré aqui —, é inocente. Com um esforço do esfíncter, certamente ela mesma dirá à sua consciência que, ao atirar no coronal Coronha, nada mais fez do que prestar-se a instrumento de Deus. Se alguém contrapor que ela agiu pelas mãos do demônio, é bom lembrar que também o demônio, de Lúcifer a Satã, é fruto da criação divina. Nada poderá mudar isso, por mais que neguem, por mais que tentem, e a menos que desmintam as Sagradas Escrituras e mudem o que está milenarmente escrito, inspirado, como dizem, pelo Espírito Santo. Donde se conclui que, se temos um demônio, foi do céu que ele nos caiu. Caso encerrado.
 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 09:35 PM

A cena no escuro

publicado em

(Poema inspirado pela peça “Travessia parte II: De tão longe venho vindo”, com o Grupo Teatro Ritual, de Goiânia, explorando linguagens existentes nas fronteiras entre o teatro e a dança. O poema foi escrito às escuras, com pouca ou nenhuma luz, daí o aspecto de penumbra — acredite se quiser, mas consigo escrever ou “voar” no escuro, em meu pequeno bloco de anotações, por isso costumo dizer que tenho brevê de morcego. A peça foi apresentada em 26 de novembro de 2008, e anotei o poema em tempo hábil ou real, no teatro do Centro Cultural de Porangatu. “Travessia parte II” constou da programação do 7º TeNpo – Mostra de Teatro Nacional de Porangatu, realização anual do governo de Goiás. Publico o poema ainda em estado provisório, como forma de experimento, a ver no que resulta levá-lo adiante. Dedico ao Grupo Teatro Ritual e à professora Mazé, da Universidade Federal de Goiás, que esteve presente àquele evento, e, sem ter visto o poema, gostou do título “A cena no escuro” ).

 
 
A palavra é o centro de tudo,
mesmo em silêncio.
A pronúncia que se insere no gesto.
A palavra é o ser que incide e reside nela,
contido nela, para conter-se o sentido,
e assim a palavra
em peso e medida de si mesma,
e assim os seus conteúdos.
 
Gestos são palavras que se movem.
O ser abre os olhos com as pálpebras da palavra,
fala quando pisca, e se anuncia.
O ser é o anunciado no verbo,
o ser das palavras. O ser que ali vem
é o ser que ali vai.
 
O que se articula no ser
senão o que está em si e para fora de si?
O ser é tudo que se extravasa e transborda
pelas bordas de sua vida.
O ser se busca e se leva
com o que, sozinho, é só seu,
até outro ser, até ser outro, até não ser mais.
 
Oriundo do próprio silêncio,
o ser é a lanterna de suas escuridões,
de seus abismos, ele mesmo.
As lanternas do ser não são o ser,
mas apenas as lanternas
de sua possibilidades
e finitudes.
 
Travessia dos começos e do fim,
de onde vem, para onde vai,
esse ser de sombras,
de tão longe vindo?
O ser é o texto de seus desatamentos.
O ser é o que é possível de ser.
O ser que se envolve em seus fios
em si mesmo preso,
até se desatar de si,
até sair-se da névoa
de seu silêncio.
 
O ser é o que se move para se soltar,
até onde ir, até onde não.
Libertação? Incógnita,
esse ser aí,
querendo ser, querendo ir
além de si.
 
Por incompleto e só,
como veio, como sempre foi,
sem saber aonde vai,
e voltando,
porque não se encontrou,
como não se encontra
no mesmo ponto de partida.
 
O ser é uma cena no escuro,
no escuro da cena,
mise-in-scène do eu em si,
sem outra opção de ser
senão a de buscar-se 
onde já não se encontra.
O ser é só uma encenação.
Travessia
de uma noite para outra,
de um dia para outro dia,
por onde as sombras caminham,
como a névoa,
como as nuvens,
como cinzas ao vento.
 
Ora dúbio, ora dividido,
procura-se o indivíduo.

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POR EM 02/02/2009 ÀS 07:02 PM

Uma Língua Portuguesa, com certeza

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Disseram que o acordo ortográfico é um reencontro do Brasil consigo mesmo, e que a importância da medida é maior do que pode parecer à primeira vista. Em outras palavras, está tudo em casa — duas em uma só pátria, por osmose

Num país historicamente comido pelas bordas, como tem sido o nosso, tanto pelo assédio quanto pelo assalto das hordas d´além-mar, e não me refiro nem a esse nem àquele, em particular, mas a todos, inclusive as hordas internas; num país como esse, em que quase tudo vai de “arrastão”, da irrefreada devastação amazônica ao sarcástico narcotráfico — vide a entrevista de Marcola, curtindo com a cara de todos —, da inimputabilidade penal a assassinos menores de dezoito anos — com um 38 na mão — à escancarada corrupção política e policial, o que representa o novo acordo ortográfico, recentemente sancionado pelo governo federal? Certamente, não nos habilita a dizer que a Colônia venceu, pois não? Ora, poix, poix. E logo na questão do idioma. 
         
Há tempos eu vinha acompanhando, a meia distância, essa querela idiomática entre Portugal e Brasil. Essa “carta” de Pero Vaz de Caminha vinha vindo pela Estrada Real — a mando de El Rey? —, d´além-mar pra cá, e de cá pra lá, pois carta e descarte é o que não falta no trânsito e no jogo diplomático e/ou idiomático, que sempre os há, reformadores e homens de acordo, postados nas tamancas ou atracados no Porto da Marquesa de Santos. Mas isso aqui é só uma brincadeira, “uma nota só” de “um samba do crioulo doido”, pra dizer do muxoxo e gesto de balançar a cabeça em desacordo e desagrado com o tal acordo.
         
Disseram que o acordo ortográfico é um reencontro do Brasil consigo mesmo, e que a importância da medida é maior do que pode parecer à primeira vista. Em outras palavras, está tudo em casa — duas em uma só pátria, por osmose. Uma casa híbrida, de azulejos do Alentejo e telhas de amianto brasileiro, ou de zinco favelado. Uma casa portuguesa, com certeza, como diz a música, e brasileira por natureza, com as brasas do pau-brasil, que, aliás, no período colonial, tanto quanto o ouro de Minas, muito fascinou e encheu as burras estrangeiras. A tal ponto, que se construíam igrejas barrocas com madeira coberta de ouro, pois tinha-se ouro (o nosso) pra dar com pau. Por falar nisso, o que aconteceu com aquele “Ouro para o bem do Brasil”? Alguém se lembra da campanha, e pode me dizer onde foi que enfiaram todas aquelas jóias — até alianças de casamento —, tomadas do povo?
         
“Um reencontro do Brasil consigo mesmo”. Sim senhor! Com efeito! Quer dizer que o Brasil nunca esteve aqui, não está em si, em si mesmo não se encontra? Isso um pouco me remete ao livro “Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador”, de Albert Memmi, que andei lendo por volta dos anos 70 ou 80.
         
Mas, claro, ô gajo — diz lá o português; mas claro, Manoel Joaquim — diz cá o brasileiro: a miscigenação idiomática — essa interferência — vem “mui” a propósito para os negócios intercontinentais dos dois países, com abrangência de toda a Europa, e também internacionais, com projeções e reflexos futuros. Se bem que eu não creia que isso aí, essa pouca coisa do acordo, alavanque — se é que possa ajudar —, a médio ou longo prazo, o alcance que se propala e se espera da Língua Portuguesa unificada. E por que há descontentamento de ambas as partes, de portugueses e brasileiros? Imposta de cima para baixo, a medida não agrada, até porque, como de praxe, ao povo nada foi perguntado.
         
Entende-se o caráter ou sentido do acordo. Num mundo em que o inglês, principalmente, e o espanhol são pontes para as relações internacionais — esse parlatório mundial, esse falatório sem fim —, entende-se a busca de performance luso-tupiniquim do idioma no contexto internacional, sobretudo no mundo dos negócios, onde economia e política são gatos do mesmo saco, ou saco do mesmo gato.
         
Intercontinentalizar-se a Língua Portuguesa é preciso, viver não é preciso, como diria — ou não diria? — o poeta lusitano Fernando Pessoa. Vislumbre só: o Português disseminado pelos quatro quadrantes do mundo, por todas as latitudes e longitudes da rosa-dos-ventos. Para se viver, sonhar é preciso.
         
Vai daí que, tão-logo anunciada, pelo governo brasileiro, a sanção do acordo ortográfico, alguém em Goiânia publicou que não abrirá mão do trema, por considerá-lo elegante. Já eu vinha resmungando justamente contra a anunciada supressão do trema, que, mais do que elegante, considero inteligente em função da pronúncia — “tranqüilo”, o trema indicando que o “u” se pronuncia, e que agora perde o seu diferencial, para ficar “tran/quilo”. E não se põe o trema justamente para evitar erro de pronúncia? De resto, uma coisa inócua, por conta do acordo, já que não muda nada, senão a grafia da palavra com a supressão sofrida. Ao fim, de forma implícita, “tranquilo” se lerá mesmo como “tranqüilo”. Mas isso não parece coisa de quem fica inventando moda? Há coisas de maior importância e de maior urgência com que se preocupar e se ocupar. O Brasil tornou-se um pesadelo real, que não se resolve com acentuação gráfica, antes exige medidas imediatas e eficazmente concretas.
         
Mudança de longo prazo — se a tanto chegar —, como suponho ser este acordo, é como comprar a prazo: quando se termina de pagar, o produto já se desgastou, até porque, no caso, a língua é dinâmica e sofre naturais transformações — e elas não ocorrem no âmbito mesmo do povo, da cultura e dos costumes? A médio prazo, amiúde se desgosta do que se gastou, porque então não era bem isso o que se desejava. É de supor-se que sempre haverão de impor-se mudanças como essas do presente acordo. Há direito de devolução? Devolvam-nos o trema, as nossas vogais abertas e o nosso acento circunflexo — dê cá o nosso “chapeuzinho”. Sim, também é possível que, no fundo, estejamos com ciúmes do nosso idioma, o português falado no Brasil. O Português, ao nosso modo, é mais bonito, falado ou escrito. Eu acho.
         
O acordo exclui, entre outros, o acento gráfico — o circunflexo, o bendito chapeuzinho —, no penúltimo “o” do hiato “oo(s)” — por exemplo, em “voo”, ficando aí esse “o” boiando a mais, no final. Uma coisa boba. A palavra perde sua graça, seu referencial, sua marca, sua estética. Fica feia. E para que suprimir-se o acento gráfico ou agudo nos ditongos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas? Certo: o cidadão guiar-se-á pelo sentido da frase, mas não se descarta, à falta de acento na vogal aberta, que alguns não leiam vogais abertas como vogais fechadas. “Idéia”, por exemplo, lida como “idêia”, e assim por diante. Odeio tais idéias.
         
Há acentos e acentos. “Acentos necessários e acentos talvez inúteis”, como observa o professor Adriano da Gama Kury (“Para falar e escrever melhor o português”, Rio, Nova Fronteira, 1989), que agora parece favorável ao acordo ortográfico. São inúteis os acentos nos casos desse acordo? Está correto o fim do trema, do acento agudo em ditongos abertos e do acento circunflexo com duplos “e” e “o”? Concordam, mesmo, com isso, os nossos filólogos, gramáticos e professores? Aonde vai a fonética? Por que ficam os mestres aí calados, conjugando o verbo do silêncio e da inércia?
         
Por que não fazer algo mais útil com a gramática? Por conta dessas insignificâncias do acordo, nunca pensaram em retirar o “h” da palavra “companhia”? O “h” em “campainha” “soa” bem, mas, em “companhia”, “h” pra quê, se peca por inútil e, portanto, descartável? Não é que o “i”, nesse caso, dispensa o “h” de “acompanhar”? E por que não suprimem da Língua Portuguesa a palavra mais horrorosa, que é “cônjuge”, aplicada a cada pessoa unida a outra por matrimônio? Pois já não se têm, bem melhor, “esposo” e “esposa”, para marido e mulher? 
         
Enquanto poeta menor que presumo ser, afeito à visão plástica ou estética que os acentos gráficos propiciam a certas palavras, eu estaria propenso a contrariar o “novo” código, transgredir as normas e preservar os acentos. O nó-cego da questão são as editoras. Estarão predispostas a atender à “teimosia” dos escritores? Não creio que o façam, certamente exigirão que se atualizem os originais das obras, conforme as novas normas ortográficas.
         
Da mesma forma que não coloco hífen na grafia dos meus vagalumes, pois acho mais bonito assim, contraditoriamente ainda o coloco em caga-fogos, que também são vaga-lumes — olha o hífen aí. Pois é. Por que não cagafogos? Sem o “pauzinho” (o hífen), como a gente dizia, e até mesmo as professoras. Foi com as professoras, aliás, que aprendemos a dizer “pauzinho”. “Coloca o pauzinho aqui”, diziam elas. Está rindo de quê, leitor? Sem malícia, por favor. Mais respeito com as professoras. O “pauzinho”, como elas diziam — assinalando com a unha esmaltada do polegar, em nosso caderno, o lugar do hífen em determinada palavra —, era para fixar, de forma fácil, na mente do aluno, a imagem deste sinal gráfico. Sim, porque alguns ainda não sabiam o que era um hífen.
         
Me lembro que uma delas, professora de Língua Portuguesa, por sinal, flagrou-me a desenhar obscenidades, que eu mostrava para o colega ao lado. Fez-me ela uma reprimenda moral que jamais pude esquecer. Me pergunto o que ela acharia desse acordo ortográfico que acaba de ser sancionado, como me pergunto se não  tinham mais o que fazer, os nossos reformadores oficiais de idioma. Ocorrem-me aqui as palavras de Oscar Wilde: “O acordo é o último recurso dos que não têm imaginação.”


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POR EM 27/01/2009 ÀS 10:53 AM

Bernardo Carvalho, Indiana Jones e adjacências

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Bernardo Carvalho tende a repetir-se enquanto “fórmula” e saturar-se, saturando-nos. Há quem fale em grife bancada pela editora e por um gueto cultural na imprensa, bem como de uma “certa crítica” querendo canonizar o autor antes que a obra seja avaliada “com a devida pertinência e distância”. Dado a sair em busca de aventuras, decifrar quebra-cabeças e encontrar a chave de tudo, pode-se dizer que este autor é uma espécie de Indiana Jones da literatura brasileira, o que não deixa de ser um elogio 

 
Bernardo Carvalho. Foto: Bel Pedrosa

Não vou sequer ler, quanto mais reler, neste ano, certos escribas que ficam aí com ridículas declarações, fazendo pose em busca de saldo médio, se dizendo influenciados por este ou aquele autor de renome — ou se comparando a eles —, dependendo de qual eles estejam lendo e descobrindo no momento: numa hora é John Fante, em outra é Philip Roth, e noutra é Thomas Bernhard, até Samuel Beckett, o inimitável autor de “O Inominável”. Só não citam a influência que verdadeiramente sofrem, com a linguagem nua e crua, escatológica e chula de um Bukowski, um “mestre” no gênero, ou pegando atalho local com Mirisola, se não com o cubano Pedro Juan Gutiérrez, autor de “Trilogia Suja de Havana”, um livro visivelmente ecoando Bukowski, que Gutiérrez, inclusive, menciona. E essa trilogia, num ramerrão de “crônicas” paralelas, ou “cronicontos” — termo por mim criado, até prova em contrário, na capa de um fraco livreto meu, já publicado — vai indo, enche, satura, se se ficar lendo de enfiada. Tem que ser aos poucos. Engraçado é os escribas de início referidos não quererem admitir — ó angústia! — a flagrante influência. “E não me venham comparar o escritor com Bukowski.”, adverte Carpinejar em orelha de livro de Mirisola. Espelho, espelho meu, quem, melhor que Bukowski, senão eu? Diz aí, Harold Bloom, disseminador da “angústia da influência”, fala mais desse negócio de escritor ou poeta renegar o pai.
         
A mais das vezes resultam patéticos os textos dos que tentam imitar estilo deste ou daquele escritor. O entojo de tais neófitos, daí o meu bilioso azedume, e aqui o meu expurgo. Cambada de texugos sem estilo próprio. Espongiários de estilos alheios. Natural admitir influências, e sofrê-las em medida aceitável, desde que elas não se tornem flagrantes e depoentes em desfavor do imitador. Ridículo, mesmo — para não dizer “medíocre” —, à sombra de escritores consagrados, tentar fazer média na mídia. E tem gente que fica aplaudindo com as orelhas de burro. 
         
Já publiquei que minha obra é pontilhada de imperfeições, por vezes desleixada, passível de mais aprendizagem, buril e polimento. Nem por isso sou asno ou otário para engolir o que tentam impingir como boa literatura, em especial no campo do romance e do conto, já que a poesia brasileira, nos últimos tempos, anda capenga e declinante na maior parte de suas recentes fornadas, salvo alguns laivos para além da mixórdia, que o mais não passa de mero exercício poemático — ou pneumático, papo de vento —, que muitos chamam de poesia. Falsos escritores, falsos poetas, sem alma poética, sem noção de poesia. Sem talento para a arte com idéias, palavras e sentimento. Gente do tipo “eu também escrevo”, publicando livros por mera e boba ilusão de ser, tangida pela vaidade em busca de “status” nos meios culturais, posando de não ser nada e, de resto, iludida, acreditando que realmente é alguma coisa no campo da literatura. Sai do meio, miudeza! Precisamos de mais poetas com o quilate de Gerardo Mello Mourão.
 

Régis Bonvicino 
 
Régis Bonvicino generalizou dizendo que a poesia no Brasil, hoje, é “epigonal”, no sentido, se bem entendi, de copiar ou querer imitar poetas consagrados, sem nada criar. Curioso observar que Bonvicino é admirador declarado de poetas como Robert Creeley, Michael Palmer e Douglas Messerlei. Vale observar, pois parece que também Bonvicino não escapa das sombras ou ecos marcantes da influência
 

Andei lendo livros e livros, novos ou adquiridos nos sebos, deste ano e de anos ainda recentes. E chamou-me atenção, numa entrevista ao Antônio Abujamra — programa “Provocações”, da TV Cultura —, quando Régis Bonvicino generalizou dizendo que a poesia no Brasil, hoje, é “epigonal”, no sentido, se bem entendi, de copiar ou querer imitar poetas consagrados, sem nada criar. Curioso observar que Bonvicino é apreciador declarado de poetas como Robert Creeley e Michael Palmer, dos quais traduziu obras poéticas — respectivamente, “As One – A um” e “Cadenciando-um Ning, um samba, para o outro” —, além de “Primeiras palavras”, de Douglas Messerli. Vale observar, pois parece que também Bonvicino não escapa das sombras ou ecos marcantes da influência — cópia? — à força de outros poetas. Leia-se Palmer e Creeley e Messerli e Bonvicino; compare-se a forma, ou fórmula, ou técnica, ou estilo entre este e aqueles. Epigonal, Régis?
         
E por falar em prefácios, alguém leu “Máquina de pynboll”, da gaúcha cantora, guitarrista e jornalista Clarah Averbuck, prefaciado pelo Abujamra? Li por duas vezes, para dizer o que se segue. Um caso típico, a mim me pareceu, do prefaciador gentil ou deslumbrado menos com a mediana obra literária e mais com a simpatia de uma jovem autora — “Que mulher!”,o título do prefácio —, cuja fotografia e “glamour”, num sofá revestido com “pele de onça” (que gosto!), vêm na contracapa do livro. Não será, um pouco, também, um saldozinho médio da autora à sombra do culto prefaciador? Se estou enganado, vão me desculpando o mau jeito. Eu sou apenas o leitor. E já perambulando pela internet, encontro e pinço, num desses tantos blogs, o seguinte fragmento — falhei em não anotar autoria —, a propósito de “Máquina de pynboll”: “Repleto de referências, o livro é filho bastardo da geração beat. Fante, Bukowski e Leminski deram uma olhada por cima do ombro da autora enquanto ela escrevia. E os três devem ter sorrido. Não que o conteúdo seja semelhante — mas a atitude é.” 
         
E o que dizer de coisas como as memórias ou mixórdias eróticas, nacionais e estrangeiras, que andam saindo pelo ralo das editoras? Obras com o aval de “críticos”, mas que você lê só para se arrepender e repassar aos sebos. Sim, algo interessante num livro como “A entrega — memórias eróticas”, de Toni Bentley, que apresenta um verdadeiro tratado anal, até a alma, até numa busca de Deus! E “O cheiro do ralo”, de Lourenço Mutarelli, elogiado por Selton Mello e que virou filme? Foi “escrito em cinco dias”, vangloria-se. Que proeza! Confronte-se o tempo de criação, sem maturação, com o quesito qualidade. O livro, por sinal, com erros, muitos e muitos, numa nítida insuficiência gramatical do autor, premiado quadrinista. Mas o que importa, para o cinema, é o texto enquanto conteúdo, pois não? E nós outros também — eu mesmo me acuso — cometemos erros ou cochilos gramaticais.
 
O escritor Marcelino Freire achou “O cheiro do ralo” “espantoso” e “surpreendente”. Sim, o personagem é interessante, o tema do ralo também, além do erotismo malcheiroso, por conta do que o ralo exala, e ainda assim excitante. Mas não vejo motivo para espanto, como também não é a obra-prima que Selton Mello diz ser. Na contracapa do livro, Selton escreveu que o adquiriu porque não veio ao mundo “à” passeio — sem um passeio pela gramática (acentuação), colocou essa crase indevida aí atrás, onde coloquei aspas para assinalar. E agora dá-me que eu brinque: quem não veio ao mundo a passeio, leia e releia, até o fim da vida, até entender (se puder), os cinco volumes de “Finnegans Wake”, de Joyce, numa recriação de Donaldo Schüller, que, a propósito — e à parte o nosso reconhecimento por sua homérica empreitada —, enerva-me ao inserir, aqui e ali, no texto joyceano, vocábulos locais, bem brasileiros, que soam como “ruídos” e, para mim, uma aberração, em que pese algum intento de “facilitar” entendimento ao leitor. Isso, aliás, é comum em alguns tradutores: recorrer, por exemplo, ao candomblé da Bahia ou ao Cristo Redentor e colocar em textos traduzidos. Aí você confere o “ruído” com o que está no original, e não tem nada disso. Dá nos nervos, e pega mal pra dedéu, destoa, fere a fonte legítima. “Finnegans Wake”: esta sim, meu caro Selton, uma obra-prima, culta e lúdica, onírica e poética, labiríntica, hermética, esfíngica e única, para além do fim dos tempos, pois só aí poderá, porventura, se perder de ou em sua eternidade.
         
No âmbito da prosa, o que tenho lido de romances badalados como isso e aquilo, mas que não passam do nível mediano e daí para baixo, só faz abater-me o semblante e repuxar-me o canto esquerdo dos lábios. Um desejo de ler coisas, eu nem diria “novas”, badaladas como tais, mas realmente boas, porém escassas, esporádicas. Alguns neófitos aí deveriam garimpar boas leituras, livros como, por exemplo, “O Segredo Joe Gould”, de Joseph Mitchell, numa interessante mostra de jornalismo literário, em que o autor sabe contar bem uma história real, com ênfase na dimensão humana. Um “espelho” para Bernardo Carvalho aprimorar sua técnica, ou fórmula, já meio que — e tão cedo —, em processo de saturação, como Rubem Fonseca e outros. Nada de novo no frontispício das obras. O gênero misto de jornalismo e literatura foi inventado por Tom Wolfe, na década de 60, com a obra “Radical Chic”. E já ele, Bernardo, não anda meio que bebendo na fonte de Sebald, inclusive inserindo fotografias nos livros, como se vê em “Nove Noites”? Li este romance, e não me abalei, mas foi interessante saber, pelo amigo Francisco Perna, que um dos personagens do romance era seu avô, o engenheiro Manoel Perna, de Carolina (Maranhão) que “fornece” informações para o livro.
         
Tinha largado de lado, mas reiniciei — afinal, o autor é premiado, ué — e terminei a leitura de “Mongólia”, misto de relato de viagem e ficção, com o mesmo batidão de “Nove noites”, ambos com um certo clima de “A Encenação”, de Claude Ollier, ou não? Nesse romance de aventura e policial, além de documentário, o cenário, uma região isolada, é o “tórrido sul de Marrocos”. Pois parece que “Mongólia” tem qualquer coisa a ver por aí. Também acabo de ler “O sol se põe em São Paulo” e vejo a repetição do processo: aquela mesma coisa, o mesmo recurso de valer-se de uma carta esclarecedora no final, ou coisa parecida. “Nove noites” vem numa linha de mistério, investigatória, sobre o sumiço, em 1939, de Bruell Quain, jovem antropólogo americano, embrenhado em sertão brasileiro, enquanto “Mongólia” gira em torno de um diplomata brasileiro enviado aos confins da Mongólia, em busca de um jovem fotógrafo desaparecido, misteriosamente, nos montes Altai. Tipo assim: “eu já vi esse filme”. Bernardo anda se repetindo com sua “fórmula” tão premiada por aí. E é impressão minha ou há, também, em “O sol se põe em São Paulo”, alguma coisa de Inventário do tempo”, de Michel Butor — um dos ícones do “nouveau roman” —, que gira em torno de um crime, também numa atmosfera de mistério, em Bleston (Inglaterra)? Em síntese, ainda estou sacando a literatura — ou fórmula comercial? — de Bernardo Carvalho. Preciso que os críticos e distribuidores de prêmios me troquem em miúdos e a fundo, para a minha mísera compreensão, a obra deste autor. Sim, a trama do pôr-do-sol em São Paulo é bem interessante, bem-urdida, mas a fórmula repetitiva, como um cardápio típico, é um peixe cru para quem não aprecia peixe cru, mesmo nos melhores restaurantes do gênero.
         
Tenho dito, e repito: Bernardo Carvalho tende a repetir-se enquanto “fórmula” e saturar-se, saturando-nos. Terminei de ler “Mongólia”, para confirmar a mesma “técnica” utilizada em “Nove noites” e “O sol se põe em São Paulo”, que considero o melhor dos três. Li “Nove noites” e relutei em ler “Mongólia” — esse gênero de “romance-reportagem”, dito de ficção, não faz muito o meu gênero —, mas então li “O sol se põe em São Paulo” e julguei por bem ler o segundo livro da seqüência (“Mongólia”), e agora penso que terei que reler “Nove noites”, para me re-sintonizar (agora não tem hífen, e têm dois “ss” aí, né não?). Nesse ínterim, aponto aspectos curiosos, relativos aos três romances. Venham comigo. Em “Nove noites”, o narrador parte de “um artigo de jornal” sobre Bruel Quain, que se embrenha e se suicida em matas brasileiras; teria dito aos índios krahô que sua mulher o havia traído com o cunhado. A narrativa toda gira em torno da aventura do narrador em busca de decifrar o misterioso caso. Li em algum lugar que “Nove noites” usa metalinguagem como recurso para a verossimilhança entre pesquisa e ficção. São dois narradores, o autor e o engenheiro Manoel Perna, “cujo relato sobre Buell Quain, de uma suposta última carta deixada pelo suicida, foi inventado pelo autor”. Uma busca da verdade por meio da ficção. Como está no livro — e isso eu já ouvira do amigo Chico Perna, que até publicou a crônica “O rio Tocantins engoliu meu avô” —, Manoel Perna, retornando de Miracema do Tocantins para Carolina, morreu afogado no referido rio, em 1946, durante uma tempestade, ao tentar salvar a criança que era sua neta. Sete anos antes, em 1939, dera-se o suicídio de Quain, e tem-se que, sessenta e dois anos depois (2001), ao tomar conhecimento da história por acaso, “num artigo de jornal”, o narrador de “Nove noites” é levado a investigar as razões do suicídio.
 
“Mongólia”, misto de relato e ficção, também começa com o narrador mencionando uma “reportagem de jornal” sobre um acidente de carro e morte do personagem Ocidental, daí parte-se para a intrincada investigação sobre o misterioso desaparecimento de um fotógrafo brasileiro na Mongólia. “O sol se põe em São Paulo” inicia-se num obscuro restaurante japonês, na atual São Paulo, e vai pelo mesmo caminho, numa trama complexa, que se desdobra em outras, com os mesmos métodos, os mesmos elementos, estendendo-se as investigações ao Japão da Segunda Guerra e daí de volta ao Brasil de hoje. Em “Mongólia” o narrador está separado de sua segunda mulher, e um certo motorista de nome Bauaa tinha perdido a mulher havia pouco tempo. Em “O sol se põe em São Paulo”, o narrador também está separado de sua mulher. E, como de praxe, há sempre as mesmas coisas deixadas pelo morto, há sempre os papéis, os “mapas” — pastas, cartas, diários, manuscritos —, que servem de pistas ao decorrer da trama. Do romance de Claude Ollier, “A Encenação”, se disse que tudo nesse livro é novo e surpreendente (isso nos anos 60). “Numa época que muitos se queixam que o romance não pára de se repetir, aí está um que não repete nada”. Já numa página (137) de “Mongólia”, o personagem registra: “Tudo aqui é repetição.” E é, com efeito, também a técnica literária de Bernardo Carvalho. Uma fórmula. Há quem fale em grife bancada pela editora e por um gueto cultural na imprensa, bem como de uma “certa crítica” querendo canonizar o autor antes que a obra seja avaliada “com a devida pertinência e distância”. Pobre de mim! Que sei eu?
         
Em “Mongólia”, a pressa vai à prensa, senão que a pressa aqui seja por nossa conta. Mas é curioso que, num parágrafo, ao final da página 77 para a 78, o personagem Ocidental e seu guia Ganbold, que procuram o fotógrafo desaparecido, vão falar com uma monja, no subsolo de um mosteiro, e tão-logo adentrem o recinto, vai-se informando, por um dos personagens, que ela “chama-se Suglegmaa e tem vinte e sete anos”. Como é que se sabe, de imediato, o nome e a idade da monja? “Faz oito anos que é monja. Tinha dezoito anos quando entrou no templo pela primeira vez”, acrescenta-se. Somados os números, oito mais dezoito dá vinte e seis. Mas então não é vinte e sete a idade dela? Ah, peguei vocês! Mas estou aqui apenas ciscando, pois daí a duas linhas o narrador diz que ela “passou por várias provas até ser aceita, e desde então vive para o mosteiro”, sendo de supor-se aí, nesse ínterim, o ano faltante para inteirar vinte e sete. Além disso, o que se lê ali, como se fossem afirmativas feitas no tempo presente, é na verdade o trecho de uma carta de Ocidental, escrita para sua mulher, ou para o narrador, e que, havia anos, ainda se encontrava em poder deste. Portanto, evidencia-se que a monja lhes teria fornecido as numéricas informações. Mas não é mesmo curiosa, a construção de tal parágrafo, passível de confundir ou intrigar algum leitor? Pois intrigou-me. Todo autor deve atentar-se para detalhes como esse, inerentes à transparência ou clareza do texto.
         
A certa altura, em “Mongólia”, bem antes do fim, intuí que o fotógrafo brasileiro desaparecido apareceria repentina e inesperadamente, como de fato se deu, e me dei aqui um ponto de previsibilidade para o desfecho da busca. E logo na página seguinte vem uma afirmativa interessante: “A gente só enxerga o que já está preparado para ver.” Tomei isso no sentido de que devo conhecer melhor a obra de Bernardo Carvalho (risos). Dado a sair em busca de aventuras, decifrar quebra-cabeças e encontrar a chave de tudo (o “tesouro”), pode-se dizer que este autor é uma espécie de Indiana Jones da literatura brasileira, o que não deixa de ser um elogio.
 
         
Macaqueando Bukowski
 
O que há comigo? De algum tempo para cá, ando muito exigente — enjoado — em relação a livros, então não é qualquer coisa que me agrada muito, ao contrário do rebanho que se deslumbra com pouca coisa. Já me falta paciência, e muita, para perder tempo com a leitura de certos livros. Enfarado, mesmo — depois de 50 anos ininterruptos de leituras —, com quase tudo aí despejado como “novo romance brasileiro”, “novíssima literatura brasileira” e “prosa pós-moderna da nova geração de escritores”. Me poupem!
         
Em meio a tudo, há livros bons, ou dito bons, que começam bem, fazendo uma certa diferença nos primeiros capítulos, no que diz respeito à linguagem, técnica, ritmo, temática, personagens, imagética, atmosfera, (in)verossimilhança, imaginário e criatividade convincente. Porém, um pouco mais adiante caem na mesmice de muitos e de sempre. Caem no banal, quando não sobrecarregados de uma escatologia e erotismo apelativos, próprio de autores paupérrimos, frustrando o entusiasmo inicial do leitor e jogando por terra as belas resenhas e as entrevistas artificiosas, cheias de pose, ironia barata à guisa de indireta, presunção, arrogância ou mesmo ignorância de repórter, publicadas em jornais.
 
No que diz respeito ao sexo na literatura, chama atenção a declaração do romancista inglês Ian McEwan, no sentido de que o romance tem que ter sexo para ser verdadeiro. Mas isso pode ser temerário em ouvidos neófitos, que absorvam mal o sentido e o alcance da colocação de McEwan, pois uma coisa é criar personagens assexuados, com o risco de não agradar ao leitor, outra é achar que todo romance tem que, necessariamente, intercalar capítulos — capítulo sim, capítulo não — com cenas de sexo explícito, nu e cru, de forma gratuita e apelativa. Essa forma fácil e frágil denuncia falta de vivência e recursos intelectuais, de argumento, de criatividade. O resultado, amiúde, é ridículo, num enxurro que tenta copiar Bukowski, de forma desastrosa, macaqueando-lhe o estilo. De McEwan direi algo mais, daqui há pouco.
 
 
Marcelino Freire

Abraçado ao meu enfado
 
Nesse cabaré das letras, volta e meia sinto-me traído pelas orelhas e resenhas de livros. A não ser que isso seja só fruto do meu enfado com uma parte da literatura brasileira recente, ou apenas por má impressão de minha parte — pobre crítica impressionista! —, ou pobreza de avaliação minha mesmo. Devo reiterar que sou apenas um leitor. Mas então minha liberdade de expressão não deve ser respeitada? Certamente serei contestado, apedrejado e linchado logo que eu acabe de dizer, aqui e agora, que muito do que as resenhas dizem por aí não bate com a verdade. Vamos e venhamos, que tais resenhas ficam muito pela metade do que dizem, e com isso quero dizer que as obras edulcoradas pelos generosos resenhistas são, na verdade, apenas medianas, inseridas naquela mediania cotidiana de que há muito tempo venho falando.
 
Andei lendo, inclusive, duas presunçosas antologias da decantada “Geração 90”: uma erva daninha de entremeio a alguns poucos contos consideráveis, que o mais não passava de muco melequento, extraído a dedo de uma geração “na venta”, onde se localizam as fossas nasais. Como contraponto, releio Adonias Filho, uma forte e contundente prosa regional — o cacau, o homem, a terra baiana, a vida violenta —, e penso reler João Antônio, entre as melhores vertentes urbanas da literatura brasileira. “Abraçado ao meu rancor”, uma das obras de João Antônio, e eu aqui abraçado ao meu enfado. Eu mereço!
 
Como eu vinha dizendo, dá-me que eu continue a dizer. Com a devida consideração aos autores — dos quais não espero ódio —, podem ser “boas”, mas medianas, obras como “Noves fora: nada”, do prezado Carlos Willian; “Pilóbolos”, do meu sósia e repetidor Val Braz, espongiário de mim mesmo; “O Senhor Ivan Huskoff”, do meu amigo Delermando Vieira; e “Balé Ralé”, de Marcelino Freire, em torno do qual se ouviu tanto ruído de mídia. Li, também, “Angu de Sangue”, deste autor, e tive uma impressão de formato e eco da prosa de outras décadas — uma distração da mídia, a pressa que a torna desatenta —, pois me pareceu um certo “revival” de alguns contos dos anos 70 pra 80, ou seja, ainda nada de novo. E, olhe só: em recente entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, Marcelino diz que “a literatura contemporânea precisaria ser mais criticada”, e que, “até agora, salvo exceções, só foi mal resenhada”. Ele vê preguiça e má vontade em relação a ela. Se lhe entendi bem o sentido, insinua falta de mais atenção e reconhecimento crítico para a literatura contemporânea, ao passo que vejo omissão crítica e até falta de seriedade em relação a muita coisa que se publica em nome dessa mesma (e saturada) literatura. Que eu ainda me lembre, alguns contos de Marcelino são fortes, incômodos, com as marcas de dura realidade social e da crueza da vida. Já outros contistas da atualidade, a mais das vezes, ficam só repisando a superfície, sem mergulhos, sem funduras, sem fraturas, e na forma fácil pelo viés do sexo simplista e inconseqüente. Pieguice, chulice, trivialidade, banalidade, pobreza literária, quase lixo. 
 

Alain Robbe-Grillet 

Minha decepção de 2008 foi com “Um Romance Sentimental”, o canto do cisne de Alain Robbe-Grillet, que aprecio — gosto do “nouveau roman” — e de quem li vários livros, mas este último pareceu-me uma obra senil, calcada num sado-masoquismo ultrapassado, às raias do meramente “pornô”, podendo que seja uma obra perigosa em mãos de pedófilos, pois envolve múltiplas taras e torturas, pra lá de bárbaras, com crianças


Pão, pães, mão, mães, congestão de opiniães. Marcelino Freire acha “Avalovara”, de Osman Lins, “um livro chato, mas bom”, enquanto Marco Lucchesi, em seu livro de ensaios “O sorriso do caos”, fala da mesma obra como “o belo Avalovara”, comparando-o a um labirinto no qual se consegue entrar, mas não se consegue sair. No rol das opiniões, posso então dizer — já o fiz de início — que determinadas obras são “boas, mas medianas”, apesar do estardalhaço da mídia e da confraria de resenhistas, colocando nas nuvens obras com vôo de galinha, voando baixo ou, no máximo, do chão para o poleiro. Do que tenho lido à margem mediana de “boas” obras, entre tantas quantas aí se têm, cito “Curva de rio sujo”, de Joca Reiners Terron; “Mãos de cavalo”, de Daniel Galera, com duas narrativas paralelas, dois tempos de um mesmo personagem, num foco existencial e de busca de identidade (o romance começa com uma prosa algo diferenciada da mediania e com bom ritmo, depois, parece-me que perde um pouco o pedalar e o embalo do biciclo — a história se inicia de bicicleta); Adorável criatura Frankenstein, de Ademir Assunção (personagem interessante, sem nome, numa trama engenhosa, mas que remete o leitor ao “Agora é que são elas”, de Leminski, razão por que nos deixa um ressaibo de “déjà vu”); “Hoje está um dia morto”, do goiano André de Leones (a seu tanto, mais um enfermiço eco bukowskiano, e nada excepcional, apesar de algum alarde de repórteres bairristas em Goiânia, e do noviço e natural entusiasmo do próprio autor, em seu hoje extinto blog “Canis sapiens”; todavia, um alentado começo, uma promessa, tanto é que foi premiado em concurso de romance do Sesc, se é que isso serve de parâmetro, como servem iludir-nos também as nossas próprias premiações).         

Alguns clichês ou estereótipos de autor iniciante, presentes neste romance inicial de Leones, parece que estão fermentados também no seu livro de contos “Paz na terra entre os monstros”, que ainda não li e que, salvo engano, é anterior ao primeiro, mas só há pouco saído do prelo, pela Record. Já este livro, por sinal, foi criticado, no “Jornal do Brasil”, pelo jornalista Felipe Moura Brasil, que reconhece o autor como talentoso contista, porém prisioneiro da repetição e pecando por excessos. Diz que o livro tem méritos, mas é regular demais. E o jornalista aponta o que tenho apontando em relação aos personagens de boa parte da prosa hoje: “gente jovem, em maioria, que urina, defeca, masturba-se, transa e goza, como se buscasse o prazer possível somente por vias fisiológicas”. E finaliza, ou ironiza: “Para tratar, afinal, de Pequenas criaturas ou de Secreções, excreções e desatinos, a gente já tem um Rubem Fonseca.” Nem por isso Val Braz deixará de ler “Paz na terra entre os monstros”. Só para checar.
 
Curiosamente, tão-logo à premiação de “Hoje está um dia morto”, Leones foi seguido pelo seu amigo, psicólogo e também goiano Wesley Peres, com o livro “Casa entre vértebras” — Leones organizou o livro e inscreveu-o no concurso, profetizando: “é do meu amigo, ele vai ganhar” (e ganhou!). Este livro, mais que um romance, é uma prosa poética fragmentária e interessante, espécie de diário, monólogo de psicólogo, à parte as confessas influências da obra “O inominável”, de Beckett, e uma tentativa de seguir-lhe o estilo, porém apresentando um diário meio que formatado ao modo de “Werther”, de Goethe, ícone do romantismo alemão, que levou jovens alemães ao suicídio. Em certos momentos das vértebras, Wesley dá mesmo a impressão de perseguir, deliberadamente, o estilo de Beckett, mas é traído pelos ecos mais acentuados de Clarice Lispector e laivos ao modo do poeta pantaneiro Manoel de Barros. Contudo, não chega a atolar sua égua em tais tentativas. É melhor, agradou-me mais a “casa entre vértebras” do que “um dia morto”. Revela mais densidade, mais maturidade, mais sabedoria. Sim, pretendo reler “Casa entre vértebras”. E por que não, também, “Hoje está um dia morto”? Sinceramente, arrisco minhas fichas nestes dois jovens autores. Bem-vindos ao antro. Hei-de acompanhá-los em suas trajetórias literárias.
 
 
Cormac McCarthy
 
Em meio a tantas e outras, tem gente aí dizendo que o norte-americano Cormac McCarthy, autor de “Todos os Belos Cavalos”, primeiro de uma “trilogia da fronteira”, é um novo Faulkner. Mas nem nunca! Aspectos à parte, não vejo muita diferença entre a obra deste romancista norte-americano e os livros de bolso, com histórias do Velho Oeste, que andei a ler, por atacado e a granel, no tempo da minha adolescência
     

Por certo que Leones não está nem aí para as nossas míseras opiniões, se bem lhe conheço a posição e o linguajar no seu extinto ”Canis sapiens” e em seu romance premiado, lá e cá o “palavrão” expedito, ao modo de Bukowski, mandando o crítico se catar, ou coisa pior, em forma de orifício. Mas não se quer aqui menosprezar a obra literária de quem quer que seja; cada autor possui seus méritos e deméritos, e me incluo entre eles. Convenhamos e deixemos de lado o ledo engano: somos todos medianos. O chato é que muitos se acostumam apenas com elogios, bajulações, daí que apontar detalhes e emitir opiniões — meras opiniões enfaradas, como as minhas, manifestas à guisa de expurgo —, ganham a dimensão de uma bomba caseira. Sempre que se critica, mormente autores premiados, vêm logo com o afoito recurso de se dizer que a crítica é invejosa. Por isso, não: tenho seis livros premiados (medianos), embora as premiações não me iludam — não muito. Uma premiação, amiúde, é sempre o arbítrio de três jurados (ou mais), e mesmo assim há sempre um que não lê as obras concorrentes, deixando a coisa correr por conta dos colegas.
 
Além do mais, como eu já disse, minha pobre obra é uma peneira de furos da imperfeição, por isso nem me sinto cômodo a contemplar estrelas através do meu telhado de vidro, passível de receber uma cusparada de meteoros indignados. Outro argumento fácil, em Goiás e noutros estados, é tachar-nos de provincianos sempre que mencionamos a confraria do eixo Rio-São Paulo — editoras, mídia, resenhistas, “críticos” e os próprios autores do eixo, ou que por ele transitam com facilidade —, quando se trata de uma sacana realidade, além de inoperância nossa mesma e dos nossos órgãos culturais e entidades representativas, no que se refere à abertura de canais de intercâmbio e acesso às grandes editoras do País. Com obras de qualidade, é claro — ou mesmo (ó conveniência!) de mediana qualidade, como se verifica no enxurro editorial do País. Já sei, vão agora tachar-me, também, de ressentido — o terceiro argumento fácil —, sem descer ao fundo da questão.
 
Ouro e latão ordinário
 
Em 2008, li e gostei dos romances “O mar”, de John Banville; “Sem sangue”, do italiano Alessandro Baricco, que pode dar filme; “Voz sem saída”, da estreante francesa Céline Curiol, e de alguns razoáveis contos de “É claro que você sabe do que estou falando”, da cineasta americana Miranda July. Li contos de Flannery O´Connor, que eu ainda não conhecia, e não gostei muito; dos vários que li, só um me agradou mais, inclusive pelo impacto: “Um homem bom não é fácil de encontrar” — um conto cruel, chocante, difícil de ser esquecido. Ainda estou lendo “Detetives selvagens”, de Roberto Bolaño, do qual tenho à espera “Noturno do Chile” e “Putas assassinas”. Li cento e tantas páginas, se não duzentas, do polêmico calhamaço “As benevolentes”, de Jonathan Littel, achei chato, um ramerrão pedregoso, daí larguei pra lá. Li e não gostei do “Diário de um ano ruim”, de J. M. Coetzee, com uma historieta banal, intercalada com breves ensaios, num arranjo que empolgou a tantos — com a mídia de sempre —, mas não a mim. Disseram por aí que “o escritor sul-africano convoca o leitor a sair da passividade para construir os caminhos da narrativa. Até aqui, nada de novo, muitos outros escritores já fizeram isso — além disso, e sem querer minimizar os experimentos ficcionais (que os aprecio), só o ato de predispor-se a ler um livro já é sair da passividade, pois não? O que me inquieta é a pirotecnia em torno de idéias repetitivas. Do Brasil, tenho para ler “Cinzas do Norte” e “Órfãos do Eldorado”, de Milton Hatoum — dele já li “Relato de um certo Oriente” e “Dois irmãos”. Muitos outros livros novos, estrangeiros, tenho para ler.
         
Minha decepção de 2008 foi com “Um romance sentimental”, o canto do cisne de Alain Robbe-Grillet, que aprecio — gosto do “nouveau roman” — e de quem li vários livros, mas este último pareceu-me uma obra senil, calcada num sado-masoquismo ultrapassado, às raias do meramente “pornô”, podendo que seja uma obra perigosa em mãos de pedófilos, pois envolve múltiplas taras e torturas, pra lá de bárbaras, com crianças. Arrepiante, se é que o autor francês queria fazer-nos arrepiar. Sei lá. Pode alguém aí dizer-me o que Robbe-Grillet pretendia com esse livro? Chocar? Ou terá sido “inconseqüente” brinquedo e deleite de terceira idade? Não creio. O livro nos é apresentado como uma fábula. Algum mestre aí nos dê uma luz em face dessa obra que nos vem com lacre da editora dizendo: “Lacrado por conteúdo impróprio.” Enquanto isso, vou ler “Fantasma sai de cena”, de Philip Roth, que ganhei de presente do amigo Chico Perna. Do que li de poesia, o melhor do ano, para mim, foi “Almádena”, coisa fina, de Mariana Ianelli, com o selo da Iluminuras. Estou em débito — e sem dinheiro — para ler os últimos lançamentos de alguns “bons” autores goianos, e também de estrangeiros. Temo pelo meu poder aquisitivo para livros, neste 2009. A coisa está feia. Estou catando e contando moedas. Se brincar, e sendo dado, aceito até dor de dente.
 
Tenho os livros, mas até hoje ainda não li “Sábado” e “Reparação” — apontados como os melhores —, de Ian McEwan. Estou atrasado. Li, deste autor, “Amor para sempre” e depois “Amsterdam”, que ganhou o “Booker Prize” e as resenhas cantaram e decantaram como “muito bom”. Não digo que a obra seja essa coisa toda, e tive a impressão de ter detectado semelhanças, semelhanças por demais — estarei enganado? —, com “Mortalha não tem bolso”, de 1937 (2001 no Brasil), romance de Horace McCoy, também autor de “Mas não se mata cavalo?”, que virou filme de Sydney Pollac, em 1969 (no Brasil, intitulou-se como “A noite dos desesperados”), com Jane Fonda e Michael Sarrazin. Uma coisinha a mais sobre “Amsterdam”: como fui revisor de jornal e sou atento — ou maníaco — a muito coisa quando leio, deparei-me, em páginas tais e subseqüentes, com uma farta utilização do verbo “haver”, denunciando pobreza na utilização de recursos verbais, a saber se por parte do próprio autor — estilo? — ou do seu tradutor brasileiro. Ironicamente, mas de bom grado, catando “erros” dos outros, obrigo-me a catar meus próprios e lamentáveis erros em obras por mim publicadas.
 

Luiz Ruffato 
 
De passagem, apenas a título de curiosidade, foi logo depois de publicar-se, no Brasil, “Todos os Belos Cavalos”, que o mineiro Luiz Ruffato — pegando a deixa? — publicou o romance “Eles Eram Muitos Cavalos”, aproveitando o verso de um poema de Cecília Meireles, no “Romanceiro da Inconfidência”
          

Vale observar, de passagem, que o filme “Menina de Ouro”, de Clint Eastwood, é baseado no livro homônimo (2002) de F.X. Toole, pseudônimo de Jerry Boyd. Assim como “Amsterdam”lembra “Mortalha não tem bolso”, “Menina de Ouro” lembra “Mas não se mata cavalo?”, de Horace McCoy, e o filme de Pollac. Teria Toole usado o “gancho” de McCoy para seu livro? Senão vejamos: inutilizada para continuar lutando box e curtir a fama e seus fãs, paralítica na cama, com uma perna amputada e sofrendo muito com tudo isso, a “menina de ouro” pede que o seu treinador — interpretado por Eastwood — a mate, e ele o faz. Não há que tirar nem pôr: o mesmo acontece no filme “A noite dos desesperados”: a personagem Glória (Jane Fonda), de vida infeliz e deprimida após perder uma maratona de dança com o seu companheiro (Michael Sarrazin) implora que ele a mate, e ele mata, com um tiro. Vai a julgamento e é condenado. Interpelado sobre a razão de ter matado Glória, ele responde como uma pergunta: “Mas não se mata cavalo?”, reportando a sua infância, onde um cavalo quebrara a perna e seu avô, para que o animal não sofresse, dera-lhe um tiro de misericórdia. Há quem aponte o filme “Menina de Ouro” como um clichê e melodramática versão feminina de “Rock”, com Sylvester Stallone.
       
Em meio a tantas e outras, tem gente aí dizendo que o norte-americano Cormac McCarthy, autor de “Todos os belos cavalos”, primeiro de uma “trilogia da fronteira”, é um novo Faulkner. Mas nem nunca! Estou terminando de ler o segundo volume, “A Travessia”, para em seguida ler “Cidades da planície”, que fecha a trilogia. Aspectos à parte, não vejo muita diferença entre a obra deste romancista norte-americano e os livros de bolso, com histórias do Velho Oeste, que andei a ler, por atacado e a granel, no tempo da minha adolescência, que já não era mais “no tempo das diligências” (um filme). Um aspecto na narrativa deste autor é a densidade nos enfoques, enredando os personagens, não meramente criados, uns e outros, tão-só para o entretenimento e a comercialização junto aos aficcionados do gênero, ou neogênero. “Prosa renovada e refinada, em que os personagens refletem sobre o sentido da existência”, dizem os entendidos. Harold Bloom, por exemplo, exalta “Meridiano Sangrento”, outro romance de McCarthy. E agora, afora o confronto do policial consigo mesmo e seus limites, o conflito e as reflexões em relação ao seu tempo (o passado) e o tempo atual, bem como suas malogradas tentativas de salvar as vítimas perseguidas por um frio assassino, afora isso, que festa foi essa em torno de “Onde os velhos não têm vez”? Mais uma obra mediana, senhores, boa mesmo, típica do gênero, pra cinema. Mídia e bilheteria.
         
De passagem, apenas a título de curiosidade, foi logo depois de publicar-se, no Brasil, este livro de McCarthy, que o mineiro Luiz Ruffato — pegando a deixa? — publicou o romance “Eles eram muitos cavalos”, aproveitando o verso de um poema de Cecília Meireles, no “Romanceiro da Inconfidência”.Particularmente, aprecio a literatura de Ruffato, de quem li este romance com cavalos no título e os dois primeiros volumes da trilogia que ele publicou ainda recentemente, engenhosamente montada a partir de dois livros de contos de sua autoria, anteriormente publicados. Ruffato pega bem a veia e explora satisfatoriamente a temática urbana — com uma raiz no cenário interiorano —, criando uma atmosfera aderente e uma outra realidade pelo viés da literatura.
         
Ainda a respeito de obras estrangeiras que nos chegam às carradas — eu não disse “escarradas” —, os afoitos ou mercenários resenhistas, também em orelhas, prefácios e textos de contracapas, além do que se publica nos jornais, logo folheiam a ouro o que não passa de latão ordinário. Ficam aí deslumbrados, se babando e esnobando, a dizer que está lendo isto e aquilo e não sei mais o quê, porque sim, porque não e coisa e tal, o ramerrão, a mesmice, o mediano, como de praxe, alugando os ouvidos, torrando a paciência, como se ninguém mais, além deles, nada lesse neste mundo. Sai do meio, recheio! “Vade retro”. E vou eu com “mea culpa”, que também já escrevi orelhas e prefácios, já pratiquei (ó vergonha!) esse tipo de delito; não pratico mais, e já tornei isso público (portanto, não insistam).
         
No mais, é isso aí. E tudo aqui não passa de ficção. A forma brincalhona e fricativa de um menino velho e um velho menino. Quem não entendeu o espírito da coisa, obriga-se a reler tudo, com mais atenção. Enquanto leitor, fiz um passeio pelos aspectos de obras literárias, tais como os apontei aqui, e expressei minhas impressões de leitura — por míseras que sejam — para além das confrarias ou meras bajulações em coro com o alarido do rebanho. Dou-lhes uma idéia do tipo de coisa que não vou ler ou reler neste ano de 2009. Tenho mais o que fazer, inclusive rever toda a minha miúda e defeituosa obra, e fechar uns romances que venho protelando há décadas. Particularmente, não vejo maior interesse, para o leitor, nessas listas ou programa de leituras, mas sempre se repassa alguma coisa aproveitável. E como não farei aqui uma lista imensa, esnobe e mentirosa — ninguém lê tudo o que afirma que lerá num ano —, redijo estes comentários de algum repúdio, sobretudo porque não como peixe cru. E assim a literatura. Gosto dela bem cozida e bem temperada. Que valha a pena ser deglutida. E querem saber? Gosto de Bukowski (risos), como gosto de blues. O velho e safado Bukowski, que, como disse — ao contrário de mim —, não gostava de Shakespeare, nem de Tolstói. 
 

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