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Valdivino Braz

POR EM 23/03/2009 ÀS 04:23 PM

Variações em torno do paraíso

publicado em

Proscritos de aurora  

Vivíamos com os búfalos e éramos soberanos em Aurora. Era lá o Eldorado, ondulados, serenos horizontes, e o azul, o azul e o azul nas imensidões. Os búfalos no paraíso, imensuráveis e livres, na placidez dos dias longos e ensolarados; a sombra das nuvens passando, os búfalos pastando, calmos, e nós no meio deles — os olhos transbordados de estrelas, ou de luar derramados, quando as noites brancas de lua nua nos claros cimos da amplidão.
 
Com os búfalos irmanados, sem limites, errantes prosseguíamos, dias de inocente liberdade. E quando da terra os fêmeos almíscares, os búfalos possuíam-nos a alma, e nos possuíamos com selvagem naturalidade, circunscritos aos desígnios de Aurora, como a erva que nela medrava e era múltipla. Tal nos foi dado ser, até que um de nós houvesse com a ciência da terrível arma, na tíbia duma ossada, e da ira sobreviesse o incêndio das planícies, com a faúlha de sílex. Então perdemo-nos dos búfalos, perdemo-nos de nós, e perdemos Aurora. Proscritos pelo fogo da ira, aonde vamos agora?
 
O nome e o nada  
 
Era o amálgama de tudo, para que o homem houvesse dos elementos, soubesse a duração das coisas e a medida de si mesmo no meio delas, seus instrumentos. Era Emon, o Nome em si, para que Adan, reverso do Nada, conhecesse a ciência das águas e o outro lado. Eram os homens, os nomes, os símbolos e as lâminas de seus anagramas, para que soubessem a forja, o fogo e a força dos sábios.
 
E disse Emon: Constrói os telhados, as pontes, preserva as fontes e cuida que o grão não morra para os que virão a seguir. Mas Adan a tudo ignorou, perdeu-se prescrito pelos anagramas de seus desertos, anda a esmo e se abeira do Nada, seu abismo.
 
Quando a aurora rubra  
 
Os ventos virão com o fogo dos fogos, e o fogo purgará de todas as pragas a terra amarga. Rubras arderão as fornalhas dos oleiros de Aurora, entre dálias e rubis! Florescerão os lírios do futuro, ao romper do dia a luz da luz, afugentando os flagelos das sombras. Os signos do clarão triunfal acenderão os corações e os candelabros do mundo, quando abrir-se a manhã madura, com seus cachos de fogo. 
 
Um chão forrado de amoras  
Primeiro velório  
 
O velório, as pétalas e lágrimas-contas do rosário, enquanto lá fora paira o canto, ou mais que um pio de triste memória. Um chão forrado de amoras sangra o roxo da terra que chora magoada. Tudo por conta do Pelego, o diabo dos cabelos de fogo, que abusou de Rosa Maria da Glória, a virgem negra, depois matou e jogou n´água. Um rio de dor Rosália pela filha derramou. Os negros pegaram Pelego a unha e carne, sangue nas serrilhas do capim-navalha.
 
Espelhos de sol no dorso prateado das folhas de imbaúbas. Denúncias de bem-te-vi, alarde de gralhas, almas-de-gato de atalaia no equilíbrio dos galhos. Pedregulhos andarilhos e navalhas de orvalho. Passos com a foice daquela que anda pelos atalhos. Quem passa, essa com a foice? A dama dos panos pretos, a rainha dos mortos, a dona de tudo, a senhora dos dias, do fim de todas as horas. E os negros com o caixão de tábuas pobres, os negros e suas lágrimas. Por quem choram os negros? Por quem os sinos dobram? Os negros choram por causa de Rosa Maria da Glória, e os sinos dobram por ela mesma, a rosa negra das roças, das canas lavradas, de pétalas coberta, em pano roxo fechada, com a noite das noites da morte. Coitada! Tão Nova! E ainda nem noiva! O namorado enlouquecido, o Tiziu, dando cabeçada nos paus, até pôr sangue pelo nariz, o infeliz. Naquele dia, urutau no pico do pau não dormiu.
 
Segundo velório  
Detalhe para as mãos de rosália 
 
Os sulcos, os ciclos da terra antiga, aral de torrões e aranhas, na pele negra de Rosália. As linhas, os meandros, os desvios da vida, emaranhados no mapa do rosto amarrotado. Sobretudo, a dimensão das mãos; os nódulos como símbolos dos dias amargos, debulhados nas espigas do pranto, que só lhe foram alimento os dias feito grãos de solidão. Uns olhos tristonhos que eram os seus, negras contas-de-lágrimas, numa água cinzenta de mágoas.
 
Grossas, sinuosas, as veias das mãos, como dessas árvores que atravessam o tempo e as intempéries as raízes que afloram arrebentando a terra escalavrada pelas águas, batida pelos ventos de todas as direções. Mãos de árvore-mulher expostas às mais vis vicissitudes, ilesa, o quanto pôde, de outras tempestades. As unhas entranhadas pelas nódoas da lida com a terra e a vida, que são os nódulos de tudo.
 
Na sozinhez das idades, se demoram ainda as mãos de Rosália. Erma treliça no abandono do corpo no mundo, se demoram ainda, de outras eras, as velhas mãos da terra. Já não colhem do quintal as últimas amoras. Já não colhem, as mãos do campo, os ramalhetes. As mãos em feixes — ramas —, no ataúde humilde.
 
O pio tristonho do anu-preto, pousado na cerca. Tufos de capim resseco, rodopiando ao vento. Teias de aranha no tear do esquecimento. No baldrame da porta, o companheiro Fiel; os olhos tristonhos, lacrimosos, dolorosos demais para serem de outro animal diferente de um cão. Uivos ao vento. Nunca mais lamberá as doces mãos de Rosália, as rosálias mãos do afago, com aquele gosto de velhos amigos.
 
Os porcos repisando o chão ensangüentado de amoras, os frutos amassados de tanto sofrimento.
 
Ofício dos mortos  
No reino de abracadabra   
 
Eis a derradeira morada, a terra sa(n)grada em que repousa Rosália, ao lado de Rosa Maria da Glória. Duas rosas negras perdidas na trama das linhas intrincadas, nas entranhas da terra finda, que é o fundo tenebroso de tudo e nada na memória que se apaga. Mas quem sabe nada se acabe, e uma certa escrita de céu destrave a língua no aranhol das linhas quebradas de Abracadabra. E o leito em que se deita o corpo nem seja o terreno do reino eterno, mas a cova em que o morto espera pela chuva que a tudo renova. Quem sabe nem há epílogo, e os mortos só vão ali e voltam logo, pra reacender o fogo. E não haja nada além da vida, senão a vida, e só a vida, além do nada. Quem sabe — oh, quem dera! — os mortos tragam o trigo da terra sem choro, o cheiro da terra viva e os pintassilgos da primavera.
 

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POR EM 16/03/2009 ÀS 09:06 PM

Leitura do processo de desumanização do homem

publicado em

 Parte I  

M E T R Ó P OL E

Central de Alta tensão

Esta cidade que brotou como colossal cogumelo, era um enigma para seus próprios habitantes, perplexos, tentando entendê-la como podiam, enquanto lutavam para não serem devorados. — Nicolau Sevcenko, Orfeu estático na metrópole .

LOBOS NO LABIRINTO

Homo homini lupus.

Thomas Hobbes, Leviatã.

A selva densa, árvores de pedra, vidro e aço, com as mungubas e seus frutos bobos. Espaços de fumaça e doença, onde as flores só enfeitam a trágica ilusão de tudo. Dança de cabeças, pernas, braços, uma ameaça de bocas que assustam; os bafos de fogo da Besta, os dragões da cachaça, os dentes em cacos e pústulas. O animal da distinção de classes, o animal do credo e da raça, o animal da contradição social, o animal da injustiça, o animal da violência, o animal caçador, o animal do dia da caça: o cobrador da exclusão social. Os nomes animais da mortal sobrevivência, e o cão de estimação.

A cidade cerebral, o ventre, a vulva, o útero, as vísceras de tudo que explode, os dentros de tudo que vomita. Surdos socos, o coração; o sangue no ringue, a vida de pé, o animal da multidão. Feixe de nervos em atrito, a cidade um corpo convulso, de um produto em estado bruto. Fios elétricos, o tecido social. Usinas humanas, central de alta tensão.

A cidade o animal parido, o ganido faminto, o cão danado. A cidade mãe de todas as fomes, todas as mordidas; um cão ferido a lamber suas feridas. O homem lobo do homem. O predador no labirinto sangrento, nas esquinas, nos becos sem saída, nos túneis do horror e de todos os gritos, todos os danos. Todo grito é itinerante. Todo grito nos diz respeito. Todo grito. O grito caminha com a multidão, a multidão caminha com a fome, a fome é sua própria carne. Cotidiana, diuturna, a multidão uma fome que não dorme. As ruas frias engrenagens, vertigem, voragem a moer carne viva — a vida nua e crua — para a fome insone, que a tudo consome. Come, come, come, a carne com fome. Tritura-se a carne, e o que mais dói, além do sangue que se esvai em rios de avenidas, são os gritos do silêncio e do medo, coagulando a vida.

Troféu de Lobo do Ano ao homem, diploma de Honra ao Mérito a Necrófila, metrópole que se alimenta de seus mortos. Da própria carne gerado, o que nela penetra e se dissimula, a devorá-la infestada de si mesmo — o verme —, uma fome que engendra sua forma, uma forma que se anima do homem, e dele se engorda. Crua a demanda da vida, cadela dos nacos sanguinolentos, malsaídos de frescos defuntos. E beber-se o tinto feito sangue, comer-se a hóstia como se corpo: transubstância ou arquétipo canibalesco? Pois não lembra, incubo antropófago, o altar dos sacrifícios? Ó mísera, patética vida! Toma, coma os rins, que os olhos já são teus. Ai, que escurideus! O cão para os ossos da posse, nas ruas de famintas ambulâncias.

Abertas sirenes, veias da gangrena, celeradas as ruas se aceleram; algumas se arrastam que nem lesmas, havendo-as também de olhar vacum, alheias ao veneno que ruminam. Certo é que as ruas andam, se movem com os lobos na pele do inimigo público. As ruas geram lobos para devorá-los vivos. Força motriz do próprio umbigo, as ruas eletrizam o perigo. A vida das ruas se alimenta de medo. Vive de medo. O medo se alimenta de sustos. As ruas são animais assustados, desconfiados de tudo. Pelas ruas do absurdo, aquele que se descuida de seu medo já é o inimigo. O inimigo se alimenta de gritos.

CACTOS DE AÇO INOX

Teceu-se o homem com fios perversos; os olhos frios, esferas de aço. Ácidos insultos, a metalurgia dos vocábulos. De ferro batido a face humana, à semelhança da paisagem urbana. O homem copia suas estruturas, no meio delas não vale nada sua vida: mais-valia, vale menos que as folhas varridas pelas vassouras da prefeitura. O homem é um bicho entre o aço e o lixo.

Emparedado, empedrado, empedernido, o homem não é nada sólido. No fundo, é só um sonho mineral, com a carne do animal Um pesadelo real. Uma fera, uma fúria incubada, remoendo seus modos, roendo seus medos, malgrado seus blocos de pedra, seus muros, seus cadeados, seus dobermanns. Um rosto duro, de pedra chapada; um olhar pontiagudo, de aço lavrado. Petrificado por dentro, por fora encouraçado, pedra dentro da pedra sem sentido. Mas fora ou na fundura do tecido, perdura uma dor endurecida e surda, uma dor de nome enorme, com o sobrenome do homem, a soma de todos os anônimos. O mendigo e seu cão — o vira-latas Rex —, perdidos na multidão. Cactos de aço inox, espetados no céu ocre da metrópole, bem no meio do olho de Deus, o Ciclope. Clop-clop, clop-clop, uma cadência de cascos. Cloc-cloc, cloc-cloc, a mecânica do tempo. Um homem-bomba no Shopping Center.

Parte II

USINAS HUMANAS

Cidadania na Sociedade Anônima & Cia. Ltda.

Há no olhar das bestas uma humildade profunda e docemente triste que me inspira uma tal simpatia que minha alma se abre a todas as dores animais. — Francis James.

AS GARRAS DOS GUINDASTES

Concerto para Igor Stravinsky

Gritos metálicos, dilacerantes, de letras em ricochetes pelos dentes da máquina. Filetes de sangue nas entrelinhas da noite para o dia. Versos impressos em lâminas, gritos ainda úmidos de graxa, metalurgia de unhas gigantes, ranhuras em chapas de aço. Gritos próximos dos guinchos agastantes dos guindastes, ou de um Igor Stravinsky, nas ranhuras da orquestra. E como se imputasse culpa ao texto pela devassa do silêncio, emite a folha em branco uns gritos de estupro. Mas o texto é só uma sombra das formas da noite, com o lacre das portas secretas e perguntas sem respostas. A doença do crepúsculo é tudo que fica. Crepúsculos de ocre e acrílico, cromos oblíquos, e lâminas, que aniquilam o ânimo do homem.

A PARTE SEMELHANTE

Olhos alagados entre o rímel que os realça, tristonha vai a moça pelo eixo cotidiano dos anônimos. Uma lágrima que desce pela face de blush da superfície, camada que enrubesce mas não disfarça da infeliz a feia cicatriz. Um choro solitário em meio ao que chamam de massa os sociólogos, e que logo se perde no rush de pernas ambulacrárias e olhos de vidro blindado, nas cabeças que arremedam hidra. Mas sobra ainda um vislumbre de seus pés: as sandálias novas e azuis! E antes que tudo se torne apenas poema de circunstância, prevaleça a epifania dos fragmentos. Todo fragmento é o que somos do outro. É a nossa parte semelhante. A metrópole brota do monólito, e cada lasca do bloco em que se esculpe a metrópole — o colosso, o Minotauro, o mito, o obelisco, a catedral, o bem e o mal —, cada lasca nos toca de perto. Toda perda ou conquista nos toca. Isto que somos, do mesmo bloco: públicos e anônimos, carne e osso do labirinto.

TRÊFEGO TRÁFEGO

Fonfooon! Fonhenhémmm! Quer morrer, mané? Vai te foder, chulé! Trêfego tráfego. O sistema caótico, os semáforos hipnóticos, o funesto alarde tóxico. O rush, o stress, o corpo feito chapa na prensa; os ossos moídos, rangidos de ferro e nervos retorcidos; calculem-se os ais dos cálculos renais! A hora do crepúsculo, a cãibra e a câimbra nos músculos. Os pulmões poluídos, arfando à força, fole de cansaços. Os primeiros sintomas num sistema de autômatos. A bomba injetora, a válvula, o curto-circuito, a catástrofe: o pneu estourando em pleno cruzamento. O sinal fechado, outro sinal aberto... Crash! A batida fatídica, na parada cardíaca. Ó vida! Oh, vida! Um zero à esquerda, na placa do nada.

O BRILHO CARNÍVORO

Homens e cães sofrem os malefícios da cápsula de pó ao pé dos edifícios. Poetas lêem ao inverso os letreiros do comércio, forma de letrar-se o trágico episódio. Os pobres da vida triste, sem remédio, passam com seus pacotes a qualquer preço, e abrem nas feias faces um falso ar feliz. Borboleta no fio de lâmina que reluz, a vida trisca por um triz. Anda pelas ruas um demônio reluzente, a morte de azulínea luz. Ó Leide, acorde! Acorde-se das neves frias da morte. Fundo silêncio de tumba o que responde: É tarde. E retumba: É tarde. Não há quem acorde as bonecas quando mortas.

PEIXES NO POMAR

Com as mamas famintas, despejadas pelos trapos que drapejam ao vento, a vida sobre a favela do tempo, e leva o futuro no vente. Ò grávida de fome, foste estuprada pelos brutos ou foi por gozo o peixe que te morde e come a pêra dilatada do útero? E será Benvindo ou Malvindo, o nome do rebento que te arrebenta o dentro? Flora ou Floriano, o futuro da história que te deflora? Que fruto aflora no pomar do teu sofrimento?

TEIA DE ARANHA DO TEMPO

O tempo teceu fios de prata nas faces da tarde. O sol mortiço agoniza nos cromos e nas caixas de remédio da farmácia. Os velhos no bar bebem a menta da melancolia; os corações se fecham feito aeroportos sem pássaros. Há os malefícios do tédio e do óxido, comendo com garfo o coração miserável da cidade e suas inutilidades. Triste, a noite se veste. A noite é outro sofrimento. Néons de sangue tremeluzem nos terraços de funestos impulsos. Amiúde um corpo se solta, espalha miolos feito flores no asfalto. As flores da noite em toda parte, nos bares oferecidas aos tristes amantes, ou presas nos vestidos de outras mortes. Um gato se esgoela no fundo escuro da viela, como se lhe fosse a garganta rasgada à faca. Vende-se, urgente, um relógio de bolso, ou troca-se pela ilha de Creta.

A TIRANIA DA CULPA E O TIRO DA IRONIA

Filhos, melhor não tê-los, mas se não tê-los, como sabê-lo?

Vinicius de Moraes

O labirinto urbano e suas artérias viciadas, todos os vícios, todos os venenos. Meninos-zumbis, nos becos obscuros, injetam overdoses nas necroses dos corpos. A noite é dos mortos. Tiros no escuro. A tirania da culpa e o tiro da ironia. Independência ou morte! Eles têm a força, pelos poderes de Grayskull!, e a bússola, que lhes oriente o Norte... Com que roupas, todas as desculpas? O pico é um barato, você é que é careta. E viva o morto! Dizia-se dono de si, bem saber o que fazia. Negra (t)ironia! Renato Russo mandando ver no CD: Você culpa seus pais por tudo. São crianças como você.

Filhos. Um crime fazê-los, um sofrimento amá-los, intolerável não tê-los, como não ter o sol. Pelos poderes de Grayskull!

JINGLE BELLS

O inferno de Deus

Jingle bells! Jingle bells! Tilintam as estrelas no céu, e não se trata de sininhos nas renas de Papai Noel. No céu se recortam feito rosetas de esporas de prata, e como se andasse a cavalo o bom Deus de quem se fala — ou lhe serão rosetas os olhos com a fria forma das estrelas?

No inferno cá embaixo, as fila aflitas, umas salas de ásperas esperas, umas falas de arestas, a cuspe ríspido. Na parede cinzenta, um patético deus de lata, a funilaria de uma farsa, em formato de crucifixo. A noite gelada. Hipócrates abjurado na portaria dos hospitais da madrugada, quando nas ruas os desvalidos de tudo abraçam cachorro e pedem socorro.

O Natal e os metais da cidade sem alma, aços recurvos, bicos de harpias. Quando, Aurora, tuas harpas, teus olhos de ouro, teu cheiro de lápis de cor, teus lábios de amora madura? Aurora, Aurora, por que demoras?

Batem os sinos e os pequeninos choram na cidade enferma, choram os filhos do abandono, choram os meninos da fome, choram. Batem os sinos de Belém, e agora vou bater nos rins de alguém, doa o que doer. Enquanto Aurora não vem, aborta-se o deus-menino em Belém, os tarados estupram os bebês e os anjos dizem amém. Assim caminha a humanidade, pensa que a vida é um filme, e a vida é um crime. Mas é Natal. A noite dos excluídos, como se viver lhes fosse dado por castigo, o inferno que lhes coube da terra prometida, o inferno caído do céu, a mando de Deus; dada a boa vida aos donos do mundo, calçados com as esporas de Deus. Deus inimigo.

SHOPPING CENTER ON NIGTH

Quantos homens comporta uma compota de pêssegos? Quantos mil, numa lata de doce 4em1? Quanto custa reduzi-los a massa de carne e osso, a troco do lucro? Cálculos diabólicos, alucinada roda da fortuna. Triturar-se o homem, doce de carne humana. Hipócritas, desse doce comemos a que preço?

AS LUZES

Solidão da metrópole

Antenas de televisão no alto dos arranha-céus, teias de aranha no céu. Solidão. As luzes acesas lá dentro. Todas as luzes dos apartamentos. Oh, quanta solidão se acende com a eletricidade da infeliz cidade? Ligue 0900. Solicite uma suíte e aproveite a noite com Suzete, mais quente que um site de Laura Croft na Internet. Melody Motel, pertinho do céu. Ambiente seleto. Aceitam-se cartões de crédito.

A noite se veste, a noite fechada em seda negra, seda japonesa. A obra em negro. A dama da noite se despe, a carne viva da noite se abre, se exibe, se oferece. Boca de loba, a carne tem seu preço. Afoitos, aflitos, os faróis no asfalto. Homens e autos, feito ratos no labirinto, aceleram a adrenalina e adentram os túneis da noite, a vulvagina de seus destinos, por quem os homens se alucinam.

OS OLHOS AZUIS DA NOITE

Vanusa mariposa das luzes mundanas, coisa de usos e abusos, à espera do esperma e do dinheiro dos homens. Inimigo do amor, o animal caçador a investir-se contra a flor sexual da vida, sem ver da vida a flor mais funda. Quantos, nos lençóis dos lares e motéis, aqueles que se livram de si mesmos, e um do outro se livram, após o coito, e a nojo do peso-morto?

Vanessa às expensas dos orifícios do corpo. O odor mênstruo, oriundo da espessa vagina do mundo. A cabeça arrancada de uma boneca, tão tragicamente linda, e ali tão expressiva, tão viva, tal fosse a cabeça da vida. Lábios vermelho-vivos, róseas faces de borracha, imundas de gosma de ovo e borra de café, como se maquiadas para um poema deprê. Os olhos azuis perplexos, espiando, de dentro da lata de lixo, a imensa tristeza de tudo. 

Parte III

OLHO DE CÂMERA

O vírus do Ipiranga às margens plácidas

Poema de choque, contundência, hematomas, socos na boca do estômago.

A hora clara e o sol, ovo estrelado na frigideira do dia. O recomeço do mundo na serenidade das coisas simples e essenciais. A paz, duradoura até que os homens se levantem com suas explosões e espalhem flocos humanos em todas as direções, gerando focos de atrito e o conflito de se viver o cão com os ossos do outro. As coisas renascidas para os homens, e os homens, entre as coisas, apenas passam, autômatos em trânsito. Alguns não passam de sombras, outros passam em transe, enquanto não lhes arrebentam os glóbulos em coágulos de desatinos. Cogumelos malignos, disseminando venenos, corrompendo o coração dos meninos.

A metrópole cospe fuligem e vomita o homem que come alumínio e respira o veneno que escapa dos canos. O homem que entra e sai pelo cano. Monóxido, dióxido, hidróxido de carbono. Entra ano e sai ano. O aço. O homem oxidado, o homem ácido, o homem tóxico. Nossos bosques tem mais bosta e o vírus do Ipiranga. Nosso hino é o mais ufano, mas a dengue é quem manda. O lodo do Eldorado. A vertigem e o vômito. A miséria absoluta se ramifica à margem dos outdoors, que anunciam vida melhor. Desloca-se a multidão de autômatos, um mar de cabeças anônimas e monótonas. Outros são passos que se apressam. Chumbo miúdo aos pombos da praça. Bala perdida o pássaro da violência. 

A flor humana

se anima do húmus

e da fedentina

que emana do rio.

 

A céu aberto,

a flor brota do excremento

no lote baldio,

e abre suas pétalas.

 

O lírio impuro

do futuro.

Cai a tarde. Cai a noite. Hora da novela. Novela? Não vê-la. Mas se não vê-la, como revê-la e saber se vale a pena ver de novo? O povo. O jornal, as últimas do PIB e os lábios sensuais de Lilith Fibe. Sem nada querer insinuar e ofender, fibe é anagrama de bife, coisa imaginária na mesa da miséria brasileira, delírio na cabeça do otário. Mas a noite é bela com as suas estrelas. A hora erma e rubros coágulos a néon, boiando nas poças tristes das ruas molhadas de chuva. O ar nauseabundo, de rabugem canina, caca de cão e urina. Bolhas de escarro e o corpo bêbado de borco em golfadas de vômito sobre a calçada, como se derrubado a socos no estômago. A ressaca virá com os hematomas de um coice de burro, tanto quanto o devir de outros tombos. O ser e o nada, Heráclito caído à beira do meio-fio, o perdedor que sempre se banha nas águas sórdidas e estagnadas de um mesmo rio.

O olho atento clica sua máquina e capta o momento do assalto. Congela-se o instante, sente-se na pele o calafrio a fio de faca. O corte ou furo quente da morte, na hora em que a pistola dispara: bang! bang! e a rua coagula-se de sangue. O estupro, o massacre e outros assaltos. Tudo por conta de um par de tênis, um gozo de pênis, a vida a troco de um toca-fitas, um celular, uma nota pra descolar uma lata de cola, uma pedra de crac, uma carreira de coca, um baseado esperto, fuminho do Capeta. Voyeur da noite, o fotógrafo clica sua máquina e flagra níveas nádegas da boca no boquete, ali nas nuanças de sombra da praça. Momento em que o psicopata golpeia com a faca e a carne branca se espalha com a minissaia. Tarja negra cobrirá as frias nádegas e a sangria na fotografia de primeira página? Escândalo. O fotógrafo é um vândalo da dignidade alheia. Mórbido voyeur da intimidade morta, ao preço da imprensa necrófila e sensacionalista, que mistura as tripas do estupro com os espíritos de linha kardecista. A garota de programa era universitária, filha de boa família. Gostava de cinema, teatro e novela. Adorou Os Monólogos da Vagina, levados ao palco por Miguel Falabella. Tinha tudo na vida, a bela universitária. O que mais ela queria, aí pelas esquinas? Cocaína.

A sociedade em ruínas se reúne. O Estado, a Igreja, a Família são farinha do mesmo saco. O mais é o crime. A vida é um crime. O salário mínimo é um crime. A hipnose coletiva da religião, pra tomar sacos de dinheiro dos otários no Maracanã, é crime de extorsão, sob as barbas omissas da polícia e da justiça, cega por conveniência ou conivência. E não há pequeno crime que não rime com alguma forma de fome. Ovo de pato no prato do trem da alegria. Os corruptos comem o ovo e o povo paga o pato. Sorria. Gol do Corinthians. Urubu é preto todas as manhãs, como costuma ser até o anoitecer, e o de baixo caga no de cima. Cocô de urubu é bom pra desvio de coluna. No mínimo, ajuda na rima. Os meninos grã-finos queimando vivo o índio Galdino, que só estava dormindo no ponto de ônibus. Socorram-me! Subi no ônibus em Marrocos. Palíndromo é o que se lê ao contrário e tem o mesmo sentido. Nessas idas e vindas, o beco não tem saída, o barco se afunda e a vida que se foda.

Cão! Cão! Cão! Ladra o cão da globalização, de olho no ouro verde-amarelo do Brasil. Ondula-se o mar azul sob o céu de anil Ah, como é bela a bandeira brasileira! Bordada de estrelas que simbolizam a fome, a miséria das favelas, as balas perdidas da exclusão. O que resta na estação da esperança? O que é que se espera e não alcança na Central do Brasil? O que mais espera o povo banguela, esta bela raça brasileira? Olha a bosta! — o vendedor de cocô, o cúmulo do mau gosto e do deboche. Vai querer ou quer que embrulha? O povo-gandula que sempre pega a bola e na malha do gol se estrangula. Rebola, mulata, rebola. Arrebita a bunda bonita pros turistas. O rabo por um dólar.

Ma o que é isso, meritíssimo? Concessão de liminar e habeas corpus para os atos ilícitos? E não se corrigem os costumes? E não se acaba nunca com o circo dos horrores? Que moral é essa, afinal? Que maus costumes são esses? E essas máscaras dos códigos penal e civil? Fala, Brasil! Mostra a sua cara ordinária, cheia de encantos mil. Puta que pariu!

FIM

Nota —

Com alguns acréscimos para melhor, os textos acima publicados foram extraídos de Pilóbolos (espécie de fungo que busca a luz e muda de forma).
 


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POR EM 09/03/2009 ÀS 11:18 PM

Conjecturas em torno do cadáver

publicado em

Tiros ouvidos também não foram de foguetes pela volta de Jesus, e nem emissários de balas perdidas, oriundas de alguma famigerada favela, feito “marimbondos de chumbo querendo morder carne”, como se escreveu numa história de detetive naqueles pockets books da década de 60. Alvejei mira no peito do coronel Coronha, que era o meu coronel e não haveria de ser de mais ninguém

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não. Deus esteja. Guimarães Rosa é o cara e "Grande Sertão: Veredas" o romance, a prosa poética, a obra-prima imbatível e perene, porquanto única. E o que temos aqui e agora são meras conjecturas em torno de um cadáver já frio e rijo, em pleno gozo do rigor mortis . O repouso do guerreiro no reino dos mistérios gozosos e dolorosos da matéria em decomposição. Um morto feito de ficção e realidade, donde semelhanças com pessoas e fatos reais não serem mera coincidência, antes o corpo de delito com os penduricalhos do discurso, tais como ainda grafar-se conjetura com “c”, a exemplo de veredi(c)to; a consoante como um piercing de micção dos termos processuais, espumijando-se nos mictórios dos tribunais do júri, senão quando em forma de adereço nos anais do ânus, se o senhor me entende o artesanato verbal a uma geração tatuada e metálica, com perfurações de agulhas e balas em toda parte do corpo, até nas partes pudendas. Sabido e consabido que nos tribunais a sorte às vezes é lançada num jogo de dados viciados, e não me venham com a pecha de heresia jurídica. Genit( alea jacta est ). Ate porque a sorte é fruto do acaso e este não consta dos autos do processo.

Nhor não. Tiros ouvidos também não foram de foguetes pela volta de Jesus, e nem emissários de balas perdidas, oriundas de alguma famigerada favela, feito “marimbondos de chumbo querendo morder carne”, como se escreveu numa história de detetive naqueles pockets books da década de 60. Alvejei mira no peito do coronel Coronha, que era o meu coronel e não haveria de ser de mais ninguém. Metia-se em mim e me apaziguava os grilos cotidianos com a Justiça brasileira, esse moroso e angustiante emaranhado de labirintos que é a minha área de atuação. Infinitos corredores por onde ando e empino meus glúteos e minhas glândulas mamárias e utilitárias, profissionalmente falando, bem entendido, pois não sou de trajes sumários como tantas por aí, umas tontas que, em se tratando de obter favores dos bastidores, só raciocinam e se sujeitam com os seus odoríficos orifícios. Ossos do ofício, dizem elas. Pois sim. Do ofício, uma pitomba! Buracos sulfúricos da falta de dignidade ou da pura sem-vergonhice, isso é que é.

Nhor sim. Mirei o peito broncopeludo do meu coronel, ele com a visão e a truculência características da caserna, tanto na disciplina de comandantes e comandados quanto em suas vidas privadas, com as garras aduncas de suas carícias e o jeitão brucutu de seus amplexos e acochos, peito com peito, coxa com coxa, saliência com reentrância e assim a fome com a vontade animalesca da querência. Vida e morte cabeludas, seu Severino. Mirei como Deus mira seus raios no dia da ira e mandei bala com o som e a fúria de um Faulkner atolado no álcool, que nem uma égua no brejo. Nhor sim, que também cultivo a minha cultura etílica, inobstante o preço que se paga por sair da linha de vez em quando, pois ninguém é só CDF do comando, como resmungava o meu amado Coronha, lá com os cadarços de seus coturnos.

Por acerto de contas, tiros que o senhor ouviu foram de ciúmes que dele eu tinha, e ódio que me deu aquela voz de mulher na secretária eletrônica dele. E foi bem feito. Quem mandou ele me usar feito um CD, Lado A, Lado B, e daí me trair, me trocando pela primeira traíra vagabunda que encontrou e nem sei quem é? Porque, se soubesse — ah, seu eu soubesse! Em primeira instância, consoante os artigos, incisos e parágrafos em situações passionais, acabava com ela só com arrancar-lhe os cabelos, como de praxe em briga de mulher, ou então pegava ela no tiro certeiro, via telefônica mesmo. Apertava o gatilho e metia bala na boca do fone pela linha afora até o ouvido dela, pra ela nunca mais se meter, stricto e lato sensu , com o meu homem. Em última instância, eu capava a piranha e enfiava-lhe a periquita fedorenta no reto. E nem me releve, meritíssimo, por conta do meu estado emocional, os termos de baixo calão, mas é que estou mesmo fula com a fulana, estou pra lá de tiririca da vida com aquela sirigaita duma figa, se dando de oferecida.

Reconheço que agi ao calor do furor uterino enciumado, abraçada ao meu rancor, parafraseando o saudoso João Antônio, que escreveu o conto sobre a arte de chutar tampinhas. Vai daí que atirei, mas não matei o coronel Coronha, que não era o Bira do Jardins, mas era o tantã tumtum do meu coração desnudado, como diria o poeta Baudelaire, se bem me lembro. E a Polícia Civil, se viu o que não viu, concluiu que Carlina Cipollia matou o amante coronel Bira Tan, aquele um que arrasou com os revoltosos da farra do Cariru. Torou no tiro cento e onze homens-números, que disso certamente não passavam para a sociedade. Cento e onze elementos paridos pelas contradições do Sistema e por seus próprios distúrbios psíquicos ou desvios de caráter, por má índole mesmo, própria do indivíduo, herança da ferocidade ou do instinto primordial. Cento e onze reclusos, um atrás do outro, como diria o debochado Clovildo, deputado debutante no covil das serpentes, egresso de vida pregressa, pelo viés do cós do costureiro, e agora inserido pela greta da urna, recipiente cívico que muitos ainda confundem com penico. E que importa se Carlina Cipollia matou ou não matou? Claro que importa, mas há problemas muito mais sérios afligindo o país, além dos banais crimes passionais da vida em comum. A opinião pública é cínica e já não liga muito pra fatos banais, embora se ligue em boatos, e se ainda se liga é porque liga a televisão e se alimenta da titica cotidiana da mídia no vídeo, ou então se deixa levar mais pela curiosidade própria do ser humano e menos por qualquer outra razão ou nobreza de caráter. E já não liga muito até porque a douta mãe de Carlina Cipollia, meio que sisuda e categórica, mas sem a consistência de um nó de cipó e sem nenhuma lágrima de cebola para o álibi da filha, disse que ela é inocente, enquanto o presidente da República insiste que não viu e não sabe de nada.

Além do quê, meu nome é Vulvagina e meu caso aqui é outro e nem é tripudiar sobre a dor dos outros; vá-se medir a dor alheia e ver se não é maior que a minha nesse país de surubas e urubus de lixão, de latinos e bundalelês, de gente patética e ridícula, a par com urbanas turbulências e chagas purulentas. O mais é que os fatos se deram conforme foram por mim relatados, e mais não digo nem me seja perguntado. Posto o que, peço deferimento. In dubio pro reu . Ao acusador o ônus da prova. Quem matou não fui eu, como diz o Paraíba da piada ao delegado: eu não mato não, doutor; eu só faço o furo com a peixeira; quem mata é Deus. Aquela mesma conversa do malandro engabelando a moça zelosa de seu hímen, dividida entre deixar ou não deixar e com medo de doer. Deixa eu pôr só a cabecinha, que o resto é só pra levar e trazer a cabeça. Olha só a conversa do moço. É mole? Não. É duro. E o certo é que não matei. O Paraíba é minha testemunha. Quem matou o coronel Coronha foi a bala que saiu de minha arma. Eu apenas apontei e apertei o gatilho. Se matou é porque Deus não interferiu, não desviou a trajetória da benedicta bala, e a bala entrou. Se não entrasse, não mataria. Além do quê, quem ama não mata, e se mata é com bala de chumbo mentolado.

Elementar, meu caro Watson. E ahora el coronel no tiene quién le escriba. No hay quién escriba al coronel . Pois não se escreve para os mortos, antes são eles que escrevem para os vivos, por meios psicográficos, uma mina de ouro dos mortos pra muita gente viva, se me acompanham o sentido figurado. Não. Ninguém escreve ao coronel. Também não se dá bom-dia aos defuntos, embora um belo dia tenha dado o título ao romance de Manuel Scorza. E gastar-se tinta pra quê, por causa de um coronel, a essas alturas do irremediável, a essas horas da matéria pútrida, de uma pátria em adiantado estado de decomposição? A importância do morto é mais por conta do alvoroço da imprensa e decorre da ligação do de cujus quando vivo com o massacre do Cariru, caso contrário nem haveria suíte em novas edições, senão e somente ao palato da necrofilia impressa, falada e televisiva. Portanto, aos vermes o lauto banquete. Aos mortos, o silêncio e a solidão. A tediosa eternidade. Ao final das contas, quem mata, mesmo, é Deus, pois não está dito que Deus dá e Deus tira? Deus cria homens como quem engorda porcos, para matá-los. Calha-nos o cinismo num país de crápulas e cínicos, de gente escrota, cretina. E não nos venham com a válvula de escape ou desculpa esfarrapada do livre-arbítrio para justificação dos crimes. Haveis de convir com a defesa, senhores jurados, que, se é Deus quem mata, ninguém tem culpa de nada. Ninguém matou nem está matando essa gente toda aí pelo mundo afora. Carnificinas, massacres, genocídios, tudo isso é com o andar de cima. Somos todos inocentes sobre a face da Terra. Libertem, pois, Carlina Cipollia. Sabiam que carlina é o nome que se dá a cada uma das travessas que seguram as longarinas, na construção das pontes? Carlina Cipollia é um anagrama que se queria de mãos dadas — travessa e longarina —, com o seu coronel. A vida como ela é, diria Nelson Rodrigues. Já o cariru é um vegetal, e brotos de cariru se comem refogados, ao passo que aqui se tem uma narrativa polifônica que se come crua, revogadas as disposições contrárias ao arbítrio de quatro vozes neste texto em curso, quais sejam as do narrador, da personagem enquanto ré, do advogado de defesa e do juiz com o seu inusitado veredicto, correndo a acusação por conta de quem atira a primeira pedra.

Quanto ao coronel em questão, outro que não o meu, a ir-se pelo massacre do Cariru e pela Bíblia, o inverso é similar e a recíproca é verdadeira: quem confere ferro, com ferro será conferido. Está escrito. Se a muitos matou no sangrento episódio do Cariru, foi morto pelo ódio nos jardins do amor. Um conto é um conto. Tem os Contos dos Bosques de Viena , que é uma valsa de Strauss, e tem o Conto tristonho do amor risonho , de um autor ou autora brasileira cujo nome esqueci. Quem conta um conto acrescenta um ponto. Se nos permite o leitor levá-lo até o fim da linha, verá que o fim da linha sempre se encerra com um ponto final, ainda que numa frase reticente.

Assim, senhoras e senhoras, ajuizadas as nossas míseras conjecturas em torno do cadáver, é de supor-se, e este é o veredicto, que a ré Vulvagina Quadrilábios de Oliveira — se há uma ré aqui —, é inocente. Com um esforço do esfíncter, certamente ela mesma dirá à sua consciência que, ao atirar no coronal Coronha, nada mais fez do que prestar-se a instrumento de Deus. Se alguém contrapor que ela agiu pelas mãos do demônio, é bom lembrar que também o demônio, de Lúcifer a Satã, é fruto da criação divina. Nada poderá mudar isso, por mais que neguem, por mais que tentem, e a menos que desmintam as Sagradas Escrituras e mudem o que está milenarmente escrito, inspirado, como dizem, pelo Espírito Santo. Donde se conclui que, se temos um demônio, foi do céu que ele nos caiu. Caso encerrado.
 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 09:35 PM

A cena no escuro

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(Poema inspirado pela peça “Travessia parte II: De tão longe venho vindo”, com o Grupo Teatro Ritual, de Goiânia, explorando linguagens existentes nas fronteiras entre o teatro e a dança. O poema foi escrito às escuras, com pouca ou nenhuma luz, daí o aspecto de penumbra — acredite se quiser, mas consigo escrever ou “voar” no escuro, em meu pequeno bloco de anotações, por isso costumo dizer que tenho brevê de morcego. A peça foi apresentada em 26 de novembro de 2008, e anotei o poema em tempo hábil ou real, no teatro do Centro Cultural de Porangatu. “Travessia parte II” constou da programação do 7º TeNpo – Mostra de Teatro Nacional de Porangatu, realização anual do governo de Goiás. Publico o poema ainda em estado provisório, como forma de experimento, a ver no que resulta levá-lo adiante. Dedico ao Grupo Teatro Ritual e à professora Mazé, da Universidade Federal de Goiás, que esteve presente àquele evento, e, sem ter visto o poema, gostou do título “A cena no escuro” ).

 
 
A palavra é o centro de tudo,
mesmo em silêncio.
A pronúncia que se insere no gesto.
A palavra é o ser que incide e reside nela,
contido nela, para conter-se o sentido,
e assim a palavra
em peso e medida de si mesma,
e assim os seus conteúdos.
 
Gestos são palavras que se movem.
O ser abre os olhos com as pálpebras da palavra,
fala quando pisca, e se anuncia.
O ser é o anunciado no verbo,
o ser das palavras. O ser que ali vem
é o ser que ali vai.
 
O que se articula no ser
senão o que está em si e para fora de si?
O ser é tudo que se extravasa e transborda
pelas bordas de sua vida.
O ser se busca e se leva
com o que, sozinho, é só seu,
até outro ser, até ser outro, até não ser mais.
 
Oriundo do próprio silêncio,
o ser é a lanterna de suas escuridões,
de seus abismos, ele mesmo.
As lanternas do ser não são o ser,
mas apenas as lanternas
de sua possibilidades
e finitudes.
 
Travessia dos começos e do fim,
de onde vem, para onde vai,
esse ser de sombras,
de tão longe vindo?
O ser é o texto de seus desatamentos.
O ser é o que é possível de ser.
O ser que se envolve em seus fios
em si mesmo preso,
até se desatar de si,
até sair-se da névoa
de seu silêncio.
 
O ser é o que se move para se soltar,
até onde ir, até onde não.
Libertação? Incógnita,
esse ser aí,
querendo ser, querendo ir
além de si.
 
Por incompleto e só,
como veio, como sempre foi,
sem saber aonde vai,
e voltando,
porque não se encontrou,
como não se encontra
no mesmo ponto de partida.
 
O ser é uma cena no escuro,
no escuro da cena,
mise-in-scène do eu em si,
sem outra opção de ser
senão a de buscar-se 
onde já não se encontra.
O ser é só uma encenação.
Travessia
de uma noite para outra,
de um dia para outro dia,
por onde as sombras caminham,
como a névoa,
como as nuvens,
como cinzas ao vento.
 
Ora dúbio, ora dividido,
procura-se o indivíduo.

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POR EM 02/02/2009 ÀS 07:02 PM

Uma Língua Portuguesa, com certeza

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Disseram que o acordo ortográfico é um reencontro do Brasil consigo mesmo, e que a importância da medida é maior do que pode parecer à primeira vista. Em outras palavras, está tudo em casa — duas em uma só pátria, por osmose

Num país historicamente comido pelas bordas, como tem sido o nosso, tanto pelo assédio quanto pelo assalto das hordas d´além-mar, e não me refiro nem a esse nem àquele, em particular, mas a todos, inclusive as hordas internas; num país como esse, em que quase tudo vai de “arrastão”, da irrefreada devastação amazônica ao sarcástico narcotráfico — vide a entrevista de Marcola, curtindo com a cara de todos —, da inimputabilidade penal a assassinos menores de dezoito anos — com um 38 na mão — à escancarada corrupção política e policial, o que representa o novo acordo ortográfico, recentemente sancionado pelo governo federal? Certamente, não nos habilita a dizer que a Colônia venceu, pois não? Ora, poix, poix. E logo na questão do idioma. 
         
Há tempos eu vinha acompanhando, a meia distância, essa querela idiomática entre Portugal e Brasil. Essa “carta” de Pero Vaz de Caminha vinha vindo pela Estrada Real — a mando de El Rey? —, d´além-mar pra cá, e de cá pra lá, pois carta e descarte é o que não falta no trânsito e no jogo diplomático e/ou idiomático, que sempre os há, reformadores e homens de acordo, postados nas tamancas ou atracados no Porto da Marquesa de Santos. Mas isso aqui é só uma brincadeira, “uma nota só” de “um samba do crioulo doido”, pra dizer do muxoxo e gesto de balançar a cabeça em desacordo e desagrado com o tal acordo.
         
Disseram que o acordo ortográfico é um reencontro do Brasil consigo mesmo, e que a importância da medida é maior do que pode parecer à primeira vista. Em outras palavras, está tudo em casa — duas em uma só pátria, por osmose. Uma casa híbrida, de azulejos do Alentejo e telhas de amianto brasileiro, ou de zinco favelado. Uma casa portuguesa, com certeza, como diz a música, e brasileira por natureza, com as brasas do pau-brasil, que, aliás, no período colonial, tanto quanto o ouro de Minas, muito fascinou e encheu as burras estrangeiras. A tal ponto, que se construíam igrejas barrocas com madeira coberta de ouro, pois tinha-se ouro (o nosso) pra dar com pau. Por falar nisso, o que aconteceu com aquele “Ouro para o bem do Brasil”? Alguém se lembra da campanha, e pode me dizer onde foi que enfiaram todas aquelas jóias — até alianças de casamento —, tomadas do povo?
         
“Um reencontro do Brasil consigo mesmo”. Sim senhor! Com efeito! Quer dizer que o Brasil nunca esteve aqui, não está em si, em si mesmo não se encontra? Isso um pouco me remete ao livro “Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador”, de Albert Memmi, que andei lendo por volta dos anos 70 ou 80.
         
Mas, claro, ô gajo — diz lá o português; mas claro, Manoel Joaquim — diz cá o brasileiro: a miscigenação idiomática — essa interferência — vem “mui” a propósito para os negócios intercontinentais dos dois países, com abrangência de toda a Europa, e também internacionais, com projeções e reflexos futuros. Se bem que eu não creia que isso aí, essa pouca coisa do acordo, alavanque — se é que possa ajudar —, a médio ou longo prazo, o alcance que se propala e se espera da Língua Portuguesa unificada. E por que há descontentamento de ambas as partes, de portugueses e brasileiros? Imposta de cima para baixo, a medida não agrada, até porque, como de praxe, ao povo nada foi perguntado.
         
Entende-se o caráter ou sentido do acordo. Num mundo em que o inglês, principalmente, e o espanhol são pontes para as relações internacionais — esse parlatório mundial, esse falatório sem fim —, entende-se a busca de performance luso-tupiniquim do idioma no contexto internacional, sobretudo no mundo dos negócios, onde economia e política são gatos do mesmo saco, ou saco do mesmo gato.
         
Intercontinentalizar-se a Língua Portuguesa é preciso, viver não é preciso, como diria — ou não diria? — o poeta lusitano Fernando Pessoa. Vislumbre só: o Português disseminado pelos quatro quadrantes do mundo, por todas as latitudes e longitudes da rosa-dos-ventos. Para se viver, sonhar é preciso.
         
Vai daí que, tão-logo anunciada, pelo governo brasileiro, a sanção do acordo ortográfico, alguém em Goiânia publicou que não abrirá mão do trema, por considerá-lo elegante. Já eu vinha resmungando justamente contra a anunciada supressão do trema, que, mais do que elegante, considero inteligente em função da pronúncia — “tranqüilo”, o trema indicando que o “u” se pronuncia, e que agora perde o seu diferencial, para ficar “tran/quilo”. E não se põe o trema justamente para evitar erro de pronúncia? De resto, uma coisa inócua, por conta do acordo, já que não muda nada, senão a grafia da palavra com a supressão sofrida. Ao fim, de forma implícita, “tranquilo” se lerá mesmo como “tranqüilo”. Mas isso não parece coisa de quem fica inventando moda? Há coisas de maior importância e de maior urgência com que se preocupar e se ocupar. O Brasil tornou-se um pesadelo real, que não se resolve com acentuação gráfica, antes exige medidas imediatas e eficazmente concretas.
         
Mudança de longo prazo — se a tanto chegar —, como suponho ser este acordo, é como comprar a prazo: quando se termina de pagar, o produto já se desgastou, até porque, no caso, a língua é dinâmica e sofre naturais transformações — e elas não ocorrem no âmbito mesmo do povo, da cultura e dos costumes? A médio prazo, amiúde se desgosta do que se gastou, porque então não era bem isso o que se desejava. É de supor-se que sempre haverão de impor-se mudanças como essas do presente acordo. Há direito de devolução? Devolvam-nos o trema, as nossas vogais abertas e o nosso acento circunflexo — dê cá o nosso “chapeuzinho”. Sim, também é possível que, no fundo, estejamos com ciúmes do nosso idioma, o português falado no Brasil. O Português, ao nosso modo, é mais bonito, falado ou escrito. Eu acho.
         
O acordo exclui, entre outros, o acento gráfico — o circunflexo, o bendito chapeuzinho —, no penúltimo “o” do hiato “oo(s)” — por exemplo, em “voo”, ficando aí esse “o” boiando a mais, no final. Uma coisa boba. A palavra perde sua graça, seu referencial, sua marca, sua estética. Fica feia. E para que suprimir-se o acento gráfico ou agudo nos ditongos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas? Certo: o cidadão guiar-se-á pelo sentido da frase, mas não se descarta, à falta de acento na vogal aberta, que alguns não leiam vogais abertas como vogais fechadas. “Idéia”, por exemplo, lida como “idêia”, e assim por diante. Odeio tais idéias.
         
Há acentos e acentos. “Acentos necessários e acentos talvez inúteis”, como observa o professor Adriano da Gama Kury (“Para falar e escrever melhor o português”, Rio, Nova Fronteira, 1989), que agora parece favorável ao acordo ortográfico. São inúteis os acentos nos casos desse acordo? Está correto o fim do trema, do acento agudo em ditongos abertos e do acento circunflexo com duplos “e” e “o”? Concordam, mesmo, com isso, os nossos filólogos, gramáticos e professores? Aonde vai a fonética? Por que ficam os mestres aí calados, conjugando o verbo do silêncio e da inércia?
         
Por que não fazer algo mais útil com a gramática? Por conta dessas insignificâncias do acordo, nunca pensaram em retirar o “h” da palavra “companhia”? O “h” em “campainha” “soa” bem, mas, em “companhia”, “h” pra quê, se peca por inútil e, portanto, descartável? Não é que o “i”, nesse caso, dispensa o “h” de “acompanhar”? E por que não suprimem da Língua Portuguesa a palavra mais horrorosa, que é “cônjuge”, aplicada a cada pessoa unida a outra por matrimônio? Pois já não se têm, bem melhor, “esposo” e “esposa”, para marido e mulher? 
         
Enquanto poeta menor que presumo ser, afeito à visão plástica ou estética que os acentos gráficos propiciam a certas palavras, eu estaria propenso a contrariar o “novo” código, transgredir as normas e preservar os acentos. O nó-cego da questão são as editoras. Estarão predispostas a atender à “teimosia” dos escritores? Não creio que o façam, certamente exigirão que se atualizem os originais das obras, conforme as novas normas ortográficas.
         
Da mesma forma que não coloco hífen na grafia dos meus vagalumes, pois acho mais bonito assim, contraditoriamente ainda o coloco em caga-fogos, que também são vaga-lumes — olha o hífen aí. Pois é. Por que não cagafogos? Sem o “pauzinho” (o hífen), como a gente dizia, e até mesmo as professoras. Foi com as professoras, aliás, que aprendemos a dizer “pauzinho”. “Coloca o pauzinho aqui”, diziam elas. Está rindo de quê, leitor? Sem malícia, por favor. Mais respeito com as professoras. O “pauzinho”, como elas diziam — assinalando com a unha esmaltada do polegar, em nosso caderno, o lugar do hífen em determinada palavra —, era para fixar, de forma fácil, na mente do aluno, a imagem deste sinal gráfico. Sim, porque alguns ainda não sabiam o que era um hífen.
         
Me lembro que uma delas, professora de Língua Portuguesa, por sinal, flagrou-me a desenhar obscenidades, que eu mostrava para o colega ao lado. Fez-me ela uma reprimenda moral que jamais pude esquecer. Me pergunto o que ela acharia desse acordo ortográfico que acaba de ser sancionado, como me pergunto se não  tinham mais o que fazer, os nossos reformadores oficiais de idioma. Ocorrem-me aqui as palavras de Oscar Wilde: “O acordo é o último recurso dos que não têm imaginação.”


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POR EM 27/01/2009 ÀS 10:53 AM

Bernardo Carvalho, Indiana Jones e adjacências

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Bernardo Carvalho tende a repetir-se enquanto “fórmula” e saturar-se, saturando-nos. Há quem fale em grife bancada pela editora e por um gueto cultural na imprensa, bem como de uma “certa crítica” querendo canonizar o autor antes que a obra seja avaliada “com a devida pertinência e distância”. Dado a sair em busca de aventuras, decifrar quebra-cabeças e encontrar a chave de tudo, pode-se dizer que este autor é uma espécie de Indiana Jones da literatura brasileira, o que não deixa de ser um elogio 

 
Bernardo Carvalho. Foto: Bel Pedrosa

Não vou sequer ler, quanto mais reler, neste ano, certos escribas que ficam aí com ridículas declarações, fazendo pose em busca de saldo médio, se dizendo influenciados por este ou aquele autor de renome — ou se comparando a eles —, dependendo de qual eles estejam lendo e descobrindo no momento: numa hora é John Fante, em outra é Philip Roth, e noutra é Thomas Bernhard, até Samuel Beckett, o inimitável autor de “O Inominável”. Só não citam a influência que verdadeiramente sofrem, com a linguagem nua e crua, escatológica e chula de um Bukowski, um “mestre” no gênero, ou pegando atalho local com Mirisola, se não com o cubano Pedro Juan Gutiérrez, autor de “Trilogia Suja de Havana”, um livro visivelmente ecoando Bukowski, que Gutiérrez, inclusive, menciona. E essa trilogia, num ramerrão de “crônicas” paralelas, ou “cronicontos” — termo por mim criado, até prova em contrário, na capa de um fraco livreto meu, já publicado — vai indo, enche, satura, se se ficar lendo de enfiada. Tem que ser aos poucos. Engraçado é os escribas de início referidos não quererem admitir — ó angústia! — a flagrante influência. “E não me venham comparar o escritor com Bukowski.”, adverte Carpinejar em orelha de livro de Mirisola. Espelho, espelho meu, quem, melhor que Bukowski, senão eu? Diz aí, Harold Bloom, disseminador da “angústia da influência”, fala mais desse negócio de escritor ou poeta renegar o pai.
         
A mais das vezes resultam patéticos os textos dos que tentam imitar estilo deste ou daquele escritor. O entojo de tais neófitos, daí o meu bilioso azedume, e aqui o meu expurgo. Cambada de texugos sem estilo próprio. Espongiários de estilos alheios. Natural admitir influências, e sofrê-las em medida aceitável, desde que elas não se tornem flagrantes e depoentes em desfavor do imitador. Ridículo, mesmo — para não dizer “medíocre” —, à sombra de escritores consagrados, tentar fazer média na mídia. E tem gente que fica aplaudindo com as orelhas de burro. 
         
Já publiquei que minha obra é pontilhada de imperfeições, por vezes desleixada, passível de mais aprendizagem, buril e polimento. Nem por isso sou asno ou otário para engolir o que tentam impingir como boa literatura, em especial no campo do romance e do conto, já que a poesia brasileira, nos últimos tempos, anda capenga e declinante na maior parte de suas recentes fornadas, salvo alguns laivos para além da mixórdia, que o mais não passa de mero exercício poemático — ou pneumático, papo de vento —, que muitos chamam de poesia. Falsos escritores, falsos poetas, sem alma poética, sem noção de poesia. Sem talento para a arte com idéias, palavras e sentimento. Gente do tipo “eu também escrevo”, publicando livros por mera e boba ilusão de ser, tangida pela vaidade em busca de “status” nos meios culturais, posando de não ser nada e, de resto, iludida, acreditando que realmente é alguma coisa no campo da literatura. Sai do meio, miudeza! Precisamos de mais poetas com o quilate de Gerardo Mello Mourão.
 

Régis Bonvicino 
 
Régis Bonvicino generalizou dizendo que a poesia no Brasil, hoje, é “epigonal”, no sentido, se bem entendi, de copiar ou querer imitar poetas consagrados, sem nada criar. Curioso observar que Bonvicino é admirador declarado de poetas como Robert Creeley, Michael Palmer e Douglas Messerlei. Vale observar, pois parece que também Bonvicino não escapa das sombras ou ecos marcantes da influência
 

Andei lendo livros e livros, novos ou adquiridos nos sebos, deste ano e de anos ainda recentes. E chamou-me atenção, numa entrevista ao Antônio Abujamra — programa “Provocações”, da TV Cultura —, quando Régis Bonvicino generalizou dizendo que a poesia no Brasil, hoje, é “epigonal”, no sentido, se bem entendi, de copiar ou querer imitar poetas consagrados, sem nada criar. Curioso observar que Bonvicino é apreciador declarado de poetas como Robert Creeley e Michael Palmer, dos quais traduziu obras poéticas — respectivamente, “As One – A um” e “Cadenciando-um Ning, um samba, para o outro” —, além de “Primeiras palavras”, de Douglas Messerli. Vale observar, pois parece que também Bonvicino não escapa das sombras ou ecos marcantes da influência — cópia? — à força de outros poetas. Leia-se Palmer e Creeley e Messerli e Bonvicino; compare-se a forma, ou fórmula, ou técnica, ou estilo entre este e aqueles. Epigonal, Régis?
         
E por falar em prefácios, alguém leu “Máquina de pynboll”, da gaúcha cantora, guitarrista e jornalista Clarah Averbuck, prefaciado pelo Abujamra? Li por duas vezes, para dizer o que se segue. Um caso típico, a mim me pareceu, do prefaciador gentil ou deslumbrado menos com a mediana obra literária e mais com a simpatia de uma jovem autora — “Que mulher!”,o título do prefácio —, cuja fotografia e “glamour”, num sofá revestido com “pele de onça” (que gosto!), vêm na contracapa do livro. Não será, um pouco, também, um saldozinho médio da autora à sombra do culto prefaciador? Se estou enganado, vão me desculpando o mau jeito. Eu sou apenas o leitor. E já perambulando pela internet, encontro e pinço, num desses tantos blogs, o seguinte fragmento — falhei em não anotar autoria —, a propósito de “Máquina de pynboll”: “Repleto de referências, o livro é filho bastardo da geração beat. Fante, Bukowski e Leminski deram uma olhada por cima do ombro da autora enquanto ela escrevia. E os três devem ter sorrido. Não que o conteúdo seja semelhante — mas a atitude é.” 
         
E o que dizer de coisas como as memórias ou mixórdias eróticas, nacionais e estrangeiras, que andam saindo pelo ralo das editoras? Obras com o aval de “críticos”, mas que você lê só para se arrepender e repassar aos sebos. Sim, algo interessante num livro como “A entrega — memórias eróticas”, de Toni Bentley, que apresenta um verdadeiro tratado anal, até a alma, até numa busca de Deus! E “O cheiro do ralo”, de Lourenço Mutarelli, elogiado por Selton Mello e que virou filme? Foi “escrito em cinco dias”, vangloria-se. Que proeza! Confronte-se o tempo de criação, sem maturação, com o quesito qualidade. O livro, por sinal, com erros, muitos e muitos, numa nítida insuficiência gramatical do autor, premiado quadrinista. Mas o que importa, para o cinema, é o texto enquanto conteúdo, pois não? E nós outros também — eu mesmo me acuso — cometemos erros ou cochilos gramaticais.
 
O escritor Marcelino Freire achou “O cheiro do ralo” “espantoso” e “surpreendente”. Sim, o personagem é interessante, o tema do ralo também, além do erotismo malcheiroso, por conta do que o ralo exala, e ainda assim excitante. Mas não vejo motivo para espanto, como também não é a obra-prima que Selton Mello diz ser. Na contracapa do livro, Selton escreveu que o adquiriu porque não veio ao mundo “à” passeio — sem um passeio pela gramática (acentuação), colocou essa crase indevida aí atrás, onde coloquei aspas para assinalar. E agora dá-me que eu brinque: quem não veio ao mundo a passeio, leia e releia, até o fim da vida, até entender (se puder), os cinco volumes de “Finnegans Wake”, de Joyce, numa recriação de Donaldo Schüller, que, a propósito — e à parte o nosso reconhecimento por sua homérica empreitada —, enerva-me ao inserir, aqui e ali, no texto joyceano, vocábulos locais, bem brasileiros, que soam como “ruídos” e, para mim, uma aberração, em que pese algum intento de “facilitar” entendimento ao leitor. Isso, aliás, é comum em alguns tradutores: recorrer, por exemplo, ao candomblé da Bahia ou ao Cristo Redentor e colocar em textos traduzidos. Aí você confere o “ruído” com o que está no original, e não tem nada disso. Dá nos nervos, e pega mal pra dedéu, destoa, fere a fonte legítima. “Finnegans Wake”: esta sim, meu caro Selton, uma obra-prima, culta e lúdica, onírica e poética, labiríntica, hermética, esfíngica e única, para além do fim dos tempos, pois só aí poderá, porventura, se perder de ou em sua eternidade.
         
No âmbito da prosa, o que tenho lido de romances badalados como isso e aquilo, mas que não passam do nível mediano e daí para baixo, só faz abater-me o semblante e repuxar-me o canto esquerdo dos lábios. Um desejo de ler coisas, eu nem diria “novas”, badaladas como tais, mas realmente boas, porém escassas, esporádicas. Alguns neófitos aí deveriam garimpar boas leituras, livros como, por exemplo, “O Segredo Joe Gould”, de Joseph Mitchell, numa interessante mostra de jornalismo literário, em que o autor sabe contar bem uma história real, com ênfase na dimensão humana. Um “espelho” para Bernardo Carvalho aprimorar sua técnica, ou fórmula, já meio que — e tão cedo —, em processo de saturação, como Rubem Fonseca e outros. Nada de novo no frontispício das obras. O gênero misto de jornalismo e literatura foi inventado por Tom Wolfe, na década de 60, com a obra “Radical Chic”. E já ele, Bernardo, não anda meio que bebendo na fonte de Sebald, inclusive inserindo fotografias nos livros, como se vê em “Nove Noites”? Li este romance, e não me abalei, mas foi interessante saber, pelo amigo Francisco Perna, que um dos personagens do romance era seu avô, o engenheiro Manoel Perna, de Carolina (Maranhão) que “fornece” informações para o livro.
         
Tinha largado de lado, mas reiniciei — afinal, o autor é premiado, ué — e terminei a leitura de “Mongólia”, misto de relato de viagem e ficção, com o mesmo batidão de “Nove noites”, ambos com um certo clima de “A Encenação”, de Claude Ollier, ou não? Nesse romance de aventura e policial, além de documentário, o cenário, uma região isolada, é o “tórrido sul de Marrocos”. Pois parece que “Mongólia” tem qualquer coisa a ver por aí. Também acabo de ler “O sol se põe em São Paulo” e vejo a repetição do processo: aquela mesma coisa, o mesmo recurso de valer-se de uma carta esclarecedora no final, ou coisa parecida. “Nove noites” vem numa linha de mistério, investigatória, sobre o sumiço, em 1939, de Bruell Quain, jovem antropólogo americano, embrenhado em sertão brasileiro, enquanto “Mongólia” gira em torno de um diplomata brasileiro enviado aos confins da Mongólia, em busca de um jovem fotógrafo desaparecido, misteriosamente, nos montes Altai. Tipo assim: “eu já vi esse filme”. Bernardo anda se repetindo com sua “fórmula” tão premiada por aí. E é impressão minha ou há, também, em “O sol se põe em São Paulo”, alguma coisa de Inventário do tempo”, de Michel Butor — um dos ícones do “nouveau roman” —, que gira em torno de um crime, também numa atmosfera de mistério, em Bleston (Inglaterra)? Em síntese, ainda estou sacando a literatura — ou fórmula comercial? — de Bernardo Carvalho. Preciso que os críticos e distribuidores de prêmios me troquem em miúdos e a fundo, para a minha mísera compreensão, a obra deste autor. Sim, a trama do pôr-do-sol em São Paulo é bem interessante, bem-urdida, mas a fórmula repetitiva, como um cardápio típico, é um peixe cru para quem não aprecia peixe cru, mesmo nos melhores restaurantes do gênero.
         
Tenho dito, e repito: Bernardo Carvalho tende a repetir-se enquanto “fórmula” e saturar-se, saturando-nos. Terminei de ler “Mongólia”, para confirmar a mesma “técnica” utilizada em “Nove noites” e “O sol se põe em São Paulo”, que considero o melhor dos três. Li “Nove noites” e relutei em ler “Mongólia” — esse gênero de “romance-reportagem”, dito de ficção, não faz muito o meu gênero —, mas então li “O sol se põe em São Paulo” e julguei por bem ler o segundo livro da seqüência (“Mongólia”), e agora penso que terei que reler “Nove noites”, para me re-sintonizar (agora não tem hífen, e têm dois “ss” aí, né não?). Nesse ínterim, aponto aspectos curiosos, relativos aos três romances. Venham comigo. Em “Nove noites”, o narrador parte de “um artigo de jornal” sobre Bruel Quain, que se embrenha e se suicida em matas brasileiras; teria dito aos índios krahô que sua mulher o havia traído com o cunhado. A narrativa toda gira em torno da aventura do narrador em busca de decifrar o misterioso caso. Li em algum lugar que “Nove noites” usa metalinguagem como recurso para a verossimilhança entre pesquisa e ficção. São dois narradores, o autor e o engenheiro Manoel Perna, “cujo relato sobre Buell Quain, de uma suposta última carta deixada pelo suicida, foi inventado pelo autor”. Uma busca da verdade por meio da ficção. Como está no livro — e isso eu já ouvira do amigo Chico Perna, que até publicou a crônica “O rio Tocantins engoliu meu avô” —, Manoel Perna, retornando de Miracema do Tocantins para Carolina, morreu afogado no referido rio, em 1946, durante uma tempestade, ao tentar salvar a criança que era sua neta. Sete anos antes, em 1939, dera-se o suicídio de Quain, e tem-se que, sessenta e dois anos depois (2001), ao tomar conhecimento da história por acaso, “num artigo de jornal”, o narrador de “Nove noites” é levado a investigar as razões do suicídio.
 
“Mongólia”, misto de relato e ficção, também começa com o narrador mencionando uma “reportagem de jornal” sobre um acidente de carro e morte do personagem Ocidental, daí parte-se para a intrincada investigação sobre o misterioso desaparecimento de um fotógrafo brasileiro na Mongólia. “O sol se põe em São Paulo” inicia-se num obscuro restaurante japonês, na atual São Paulo, e vai pelo mesmo caminho, numa trama complexa, que se desdobra em outras, com os mesmos métodos, os mesmos elementos, estendendo-se as investigações ao Japão da Segunda Guerra e daí de volta ao Brasil de hoje. Em “Mongólia” o narrador está separado de sua segunda mulher, e um certo motorista de nome Bauaa tinha perdido a mulher havia pouco tempo. Em “O sol se põe em São Paulo”, o narrador também está separado de sua mulher. E, como de praxe, há sempre as mesmas coisas deixadas pelo morto, há sempre os papéis, os “mapas” — pastas, cartas, diários, manuscritos —, que servem de pistas ao decorrer da trama. Do romance de Claude Ollier, “A Encenação”, se disse que tudo nesse livro é novo e surpreendente (isso nos anos 60). “Numa época que muitos se queixam que o romance não pára de se repetir, aí está um que não repete nada”. Já numa página (137) de “Mongólia”, o personagem registra: “Tudo aqui é repetição.” E é, com efeito, também a técnica literária de Bernardo Carvalho. Uma fórmula. Há quem fale em grife bancada pela editora e por um gueto cultural na imprensa, bem como de uma “certa crítica” querendo canonizar o autor antes que a obra seja avaliada “com a devida pertinência e distância”. Pobre de mim! Que sei eu?
         
Em “Mongólia”, a pressa vai à prensa, senão que a pressa aqui seja por nossa conta. Mas é curioso que, num parágrafo, ao final da página 77 para a 78, o personagem Ocidental e seu guia Ganbold, que procuram o fotógrafo desaparecido, vão falar com uma monja, no subsolo de um mosteiro, e tão-logo adentrem o recinto, vai-se informando, por um dos personagens, que ela “chama-se Suglegmaa e tem vinte e sete anos”. Como é que se sabe, de imediato, o nome e a idade da monja? “Faz oito anos que é monja. Tinha dezoito anos quando entrou no templo pela primeira vez”, acrescenta-se. Somados os números, oito mais dezoito dá vinte e seis. Mas então não é vinte e sete a idade dela? Ah, peguei vocês! Mas estou aqui apenas ciscando, pois daí a duas linhas o narrador diz que ela “passou por várias provas até ser aceita, e desde então vive para o mosteiro”, sendo de supor-se aí, nesse ínterim, o ano faltante para inteirar vinte e sete. Além disso, o que se lê ali, como se fossem afirmativas feitas no tempo presente, é na verdade o trecho de uma carta de Ocidental, escrita para sua mulher, ou para o narrador, e que, havia anos, ainda se encontrava em poder deste. Portanto, evidencia-se que a monja lhes teria fornecido as numéricas informações. Mas não é mesmo curiosa, a construção de tal parágrafo, passível de confundir ou intrigar algum leitor? Pois intrigou-me. Todo autor deve atentar-se para detalhes como esse, inerentes à transparência ou clareza do texto.
         
A certa altura, em “Mongólia”, bem antes do fim, intuí que o fotógrafo brasileiro desaparecido apareceria repentina e inesperadamente, como de fato se deu, e me dei aqui um ponto de previsibilidade para o desfecho da busca. E logo na página seguinte vem uma afirmativa interessante: “A gente só enxerga o que já está preparado para ver.” Tomei isso no sentido de que devo conhecer melhor a obra de Bernardo Carvalho (risos). Dado a sair em busca de aventuras, decifrar quebra-cabeças e encontrar a chave de tudo (o “tesouro”), pode-se dizer que este autor é uma espécie de Indiana Jones da literatura brasileira, o que não deixa de ser um elogio.
 
         
Macaqueando Bukowski
 
O que há comigo? De algum tempo para cá, ando muito exigente — enjoado — em relação a livros, então não é qualquer coisa que me agrada muito, ao contrário do rebanho que se deslumbra com pouca coisa. Já me falta paciência, e muita, para perder tempo com a leitura de certos livros. Enfarado, mesmo — depois de 50 anos ininterruptos de leituras —, com quase tudo aí despejado como “novo romance brasileiro”, “novíssima literatura brasileira” e “prosa pós-moderna da nova geração de escritores”. Me poupem!
         
Em meio a tudo, há livros bons, ou dito bons, que começam bem, fazendo uma certa diferença nos primeiros capítulos, no que diz respeito à linguagem, técnica, ritmo, temática, personagens, imagética, atmosfera, (in)verossimilhança, imaginário e criatividade convincente. Porém, um pouco mais adiante caem na mesmice de muitos e de sempre. Caem no banal, quando não sobrecarregados de uma escatologia e erotismo apelativos, próprio de autores paupérrimos, frustrando o entusiasmo inicial do leitor e jogando por terra as belas resenhas e as entrevistas artificiosas, cheias de pose, ironia barata à guisa de indireta, presunção, arrogância ou mesmo ignorância de repórter, publicadas em jornais.
 
No que diz respeito ao sexo na literatura, chama atenção a declaração do romancista inglês Ian McEwan, no sentido de que o romance tem que ter sexo para ser verdadeiro. Mas isso pode ser temerário em ouvidos neófitos, que absorvam mal o sentido e o alcance da colocação de McEwan, pois uma coisa é criar personagens assexuados, com o risco de não agradar ao leitor, outra é achar que todo romance tem que, necessariamente, intercalar capítulos — capítulo sim, capítulo não — com cenas de sexo explícito, nu e cru, de forma gratuita e apelativa. Essa forma fácil e frágil denuncia falta de vivência e recursos intelectuais, de argumento, de criatividade. O resultado, amiúde, é ridículo, num enxurro que tenta copiar Bukowski, de forma desastrosa, macaqueando-lhe o estilo. De McEwan direi algo mais, daqui há pouco.
 
 
Marcelino Freire

Abraçado ao meu enfado
 
Nesse cabaré das letras, volta e meia sinto-me traído pelas orelhas e resenhas de livros. A não ser que isso seja só fruto do meu enfado com uma parte da literatura brasileira recente, ou apenas por má impressão de minha parte — pobre crítica impressionista! —, ou pobreza de avaliação minha mesmo. Devo reiterar que sou apenas um leitor. Mas então minha liberdade de expressão não deve ser respeitada? Certamente serei contestado, apedrejado e linchado logo que eu acabe de dizer, aqui e agora, que muito do que as resenhas dizem por aí não bate com a verdade. Vamos e venhamos, que tais resenhas ficam muito pela metade do que dizem, e com isso quero dizer que as obras edulcoradas pelos generosos resenhistas são, na verdade, apenas medianas, inseridas naquela mediania cotidiana de que há muito tempo venho falando.
 
Andei lendo, inclusive, duas presunçosas antologias da decantada “Geração 90”: uma erva daninha de entremeio a alguns poucos contos consideráveis, que o mais não passava de muco melequento, extraído a dedo de uma geração “na venta”, onde se localizam as fossas nasais. Como contraponto, releio Adonias Filho, uma forte e contundente prosa regional — o cacau, o homem, a terra baiana, a vida violenta —, e penso reler João Antônio, entre as melhores vertentes urbanas da literatura brasileira. “Abraçado ao meu rancor”, uma das obras de João Antônio, e eu aqui abraçado ao meu enfado. Eu mereço!
 
Como eu vinha dizendo, dá-me que eu continue a dizer. Com a devida consideração aos autores — dos quais não espero ódio —, podem ser “boas”, mas medianas, obras como “Noves fora: nada”, do prezado Carlos Willian; “Pilóbolos”, do meu sósia e repetidor Val Braz, espongiário de mim mesmo; “O Senhor Ivan Huskoff”, do meu amigo Delermando Vieira; e “Balé Ralé”, de Marcelino Freire, em torno do qual se ouviu tanto ruído de mídia. Li, também, “Angu de Sangue”, deste autor, e tive uma impressão de formato e eco da prosa de outras décadas — uma distração da mídia, a pressa que a torna desatenta —, pois me pareceu um certo “revival” de alguns contos dos anos 70 pra 80, ou seja, ainda nada de novo. E, olhe só: em recente entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, Marcelino diz que “a literatura contemporânea precisaria ser mais criticada”, e que, “até agora, salvo exceções, só foi mal resenhada”. Ele vê preguiça e má vontade em relação a ela. Se lhe entendi bem o sentido, insinua falta de mais atenção e reconhecimento crítico para a literatura contemporânea, ao passo que vejo omissão crítica e até falta de seriedade em relação a muita coisa que se publica em nome dessa mesma (e saturada) literatura. Que eu ainda me lembre, alguns contos de Marcelino são fortes, incômodos, com as marcas de dura realidade social e da crueza da vida. Já outros contistas da atualidade, a mais das vezes, ficam só repisando a superfície, sem mergulhos, sem funduras, sem fraturas, e na forma fácil pelo viés do sexo simplista e inconseqüente. Pieguice, chulice, trivialidade, banalidade, pobreza literária, quase lixo. 
 

Alain Robbe-Grillet 

Minha decepção de 2008 foi com “Um Romance Sentimental”, o canto do cisne de Alain Robbe-Grillet, que aprecio — gosto do “nouveau roman” — e de quem li vários livros, mas este último pareceu-me uma obra senil, calcada num sado-masoquismo ultrapassado, às raias do meramente “pornô”, podendo que seja uma obra perigosa em mãos de pedófilos, pois envolve múltiplas taras e torturas, pra lá de bárbaras, com crianças


Pão, pães, mão, mães, congestão de opiniães. Marcelino Freire acha “Avalovara”, de Osman Lins, “um livro chato, mas bom”, enquanto Marco Lucchesi, em seu livro de ensaios “O sorriso do caos”, fala da mesma obra como “o belo Avalovara”, comparando-o a um labirinto no qual se consegue entrar, mas não se consegue sair. No rol das opiniões, posso então dizer — já o fiz de início — que determinadas obras são “boas, mas medianas”, apesar do estardalhaço da mídia e da confraria de resenhistas, colocando nas nuvens obras com vôo de galinha, voando baixo ou, no máximo, do chão para o poleiro. Do que tenho lido à margem mediana de “boas” obras, entre tantas quantas aí se têm, cito “Curva de rio sujo”, de Joca Reiners Terron; “Mãos de cavalo”, de Daniel Galera, com duas narrativas paralelas, dois tempos de um mesmo personagem, num foco existencial e de busca de identidade (o romance começa com uma prosa algo diferenciada da mediania e com bom ritmo, depois, parece-me que perde um pouco o pedalar e o embalo do biciclo — a história se inicia de bicicleta); Adorável criatura Frankenstein, de Ademir Assunção (personagem interessante, sem nome, numa trama engenhosa, mas que remete o leitor ao “Agora é que são elas”, de Leminski, razão por que nos deixa um ressaibo de “déjà vu”); “Hoje está um dia morto”, do goiano André de Leones (a seu tanto, mais um enfermiço eco bukowskiano, e nada excepcional, apesar de algum alarde de repórteres bairristas em Goiânia, e do noviço e natural entusiasmo do próprio autor, em seu hoje extinto blog “Canis sapiens”; todavia, um alentado começo, uma promessa, tanto é que foi premiado em concurso de romance do Sesc, se é que isso serve de parâmetro, como servem iludir-nos também as nossas próprias premiações).         

Alguns clichês ou estereótipos de autor iniciante, presentes neste romance inicial de Leones, parece que estão fermentados também no seu livro de contos “Paz na terra entre os monstros”, que ainda não li e que, salvo engano, é anterior ao primeiro, mas só há pouco saído do prelo, pela Record. Já este livro, por sinal, foi criticado, no “Jornal do Brasil”, pelo jornalista Felipe Moura Brasil, que reconhece o autor como talentoso contista, porém prisioneiro da repetição e pecando por excessos. Diz que o livro tem méritos, mas é regular demais. E o jornalista aponta o que tenho apontando em relação aos personagens de boa parte da prosa hoje: “gente jovem, em maioria, que urina, defeca, masturba-se, transa e goza, como se buscasse o prazer possível somente por vias fisiológicas”. E finaliza, ou ironiza: “Para tratar, afinal, de Pequenas criaturas ou de Secreções, excreções e desatinos, a gente já tem um Rubem Fonseca.” Nem por isso Val Braz deixará de ler “Paz na terra entre os monstros”. Só para checar.
 
Curiosamente, tão-logo à premiação de “Hoje está um dia morto”, Leones foi seguido pelo seu amigo, psicólogo e também goiano Wesley Peres, com o livro “Casa entre vértebras” — Leones organizou o livro e inscreveu-o no concurso, profetizando: “é do meu amigo, ele vai ganhar” (e ganhou!). Este livro, mais que um romance, é uma prosa poética fragmentária e interessante, espécie de diário, monólogo de psicólogo, à parte as confessas influências da obra “O inominável”, de Beckett, e uma tentativa de seguir-lhe o estilo, porém apresentando um diário meio que formatado ao modo de “Werther”, de Goethe, ícone do romantismo alemão, que levou jovens alemães ao suicídio. Em certos momentos das vértebras, Wesley dá mesmo a impressão de perseguir, deliberadamente, o estilo de Beckett, mas é traído pelos ecos mais acentuados de Clarice Lispector e laivos ao modo do poeta pantaneiro Manoel de Barros. Contudo, não chega a atolar sua égua em tais tentativas. É melhor, agradou-me mais a “casa entre vértebras” do que “um dia morto”. Revela mais densidade, mais maturidade, mais sabedoria. Sim, pretendo reler “Casa entre vértebras”. E por que não, também, “Hoje está um dia morto”? Sinceramente, arrisco minhas fichas nestes dois jovens autores. Bem-vindos ao antro. Hei-de acompanhá-los em suas trajetórias literárias.
 
 
Cormac McCarthy
 
Em meio a tantas e outras, tem gente aí dizendo que o norte-americano Cormac McCarthy, autor de “Todos os Belos Cavalos”, primeiro de uma “trilogia da fronteira”, é um novo Faulkner. Mas nem nunca! Aspectos à parte, não vejo muita diferença entre a obra deste romancista norte-americano e os livros de bolso, com histórias do Velho Oeste, que andei a ler, por atacado e a granel, no tempo da minha adolescência
     

Por certo que Leones não está nem aí para as nossas míseras opiniões, se bem lhe conheço a posição e o linguajar no seu extinto ”Canis sapiens” e em seu romance premiado, lá e cá o “palavrão” expedito, ao modo de Bukowski, mandando o crítico se catar, ou coisa pior, em forma de orifício. Mas não se quer aqui menosprezar a obra literária de quem quer que seja; cada autor possui seus méritos e deméritos, e me incluo entre eles. Convenhamos e deixemos de lado o ledo engano: somos todos medianos. O chato é que muitos se acostumam apenas com elogios, bajulações, daí que apontar detalhes e emitir opiniões — meras opiniões enfaradas, como as minhas, manifestas à guisa de expurgo —, ganham a dimensão de uma bomba caseira. Sempre que se critica, mormente autores premiados, vêm logo com o afoito recurso de se dizer que a crítica é invejosa. Por isso, não: tenho seis livros premiados (medianos), embora as premiações não me iludam — não muito. Uma premiação, amiúde, é sempre o arbítrio de três jurados (ou mais), e mesmo assim há sempre um que não lê as obras concorrentes, deixando a coisa correr por conta dos colegas.
 
Além do mais, como eu já disse, minha pobre obra é uma peneira de furos da imperfeição, por isso nem me sinto cômodo a contemplar estrelas através do meu telhado de vidro, passível de receber uma cusparada de meteoros indignados. Outro argumento fácil, em Goiás e noutros estados, é tachar-nos de provincianos sempre que mencionamos a confraria do eixo Rio-São Paulo — editoras, mídia, resenhistas, “críticos” e os próprios autores do eixo, ou que por ele transitam com facilidade —, quando se trata de uma sacana realidade, além de inoperância nossa mesma e dos nossos órgãos culturais e entidades representativas, no que se refere à abertura de canais de intercâmbio e acesso às grandes editoras do País. Com obras de qualidade, é claro — ou mesmo (ó conveniência!) de mediana qualidade, como se verifica no enxurro editorial do País. Já sei, vão agora tachar-me, também, de ressentido — o terceiro argumento fácil —, sem descer ao fundo da questão.
 
Ouro e latão ordinário
 
Em 2008, li e gostei dos romances “O mar”, de John Banville; “Sem sangue”, do italiano Alessandro Baricco, que pode dar filme; “Voz sem saída”, da estreante francesa Céline Curiol, e de alguns razoáveis contos de “É claro que você sabe do que estou falando”, da cineasta americana Miranda July. Li contos de Flannery O´Connor, que eu ainda não conhecia, e não gostei muito; dos vários que li, só um me agradou mais, inclusive pelo impacto: “Um homem bom não é fácil de encontrar” — um conto cruel, chocante, difícil de ser esquecido. Ainda estou lendo “Detetives selvagens”, de Roberto Bolaño, do qual tenho à espera “Noturno do Chile” e “Putas assassinas”. Li cento e tantas páginas, se não duzentas, do polêmico calhamaço “As benevolentes”, de Jonathan Littel, achei chato, um ramerrão pedregoso, daí larguei pra lá. Li e não gostei do “Diário de um ano ruim”, de J. M. Coetzee, com uma historieta banal, intercalada com breves ensaios, num arranjo que empolgou a tantos — com a mídia de sempre —, mas não a mim. Disseram por aí que “o escritor sul-africano convoca o leitor a sair da passividade para construir os caminhos da narrativa. Até aqui, nada de novo, muitos outros escritores já fizeram isso — além disso, e sem querer minimizar os experimentos ficcionais (que os aprecio), só o ato de predispor-se a ler um livro já é sair da passividade, pois não? O que me inquieta é a pirotecnia em torno de idéias repetitivas. Do Brasil, tenho para ler “Cinzas do Norte” e “Órfãos do Eldorado”, de Milton Hatoum — dele já li “Relato de um certo Oriente” e “Dois irmãos”. Muitos outros livros novos, estrangeiros, tenho para ler.
         
Minha decepção de 2008 foi com “Um romance sentimental”, o canto do cisne de Alain Robbe-Grillet, que aprecio — gosto do “nouveau roman” — e de quem li vários livros, mas este último pareceu-me uma obra senil, calcada num sado-masoquismo ultrapassado, às raias do meramente “pornô”, podendo que seja uma obra perigosa em mãos de pedófilos, pois envolve múltiplas taras e torturas, pra lá de bárbaras, com crianças. Arrepiante, se é que o autor francês queria fazer-nos arrepiar. Sei lá. Pode alguém aí dizer-me o que Robbe-Grillet pretendia com esse livro? Chocar? Ou terá sido “inconseqüente” brinquedo e deleite de terceira idade? Não creio. O livro nos é apresentado como uma fábula. Algum mestre aí nos dê uma luz em face dessa obra que nos vem com lacre da editora dizendo: “Lacrado por conteúdo impróprio.” Enquanto isso, vou ler “Fantasma sai de cena”, de Philip Roth, que ganhei de presente do amigo Chico Perna. Do que li de poesia, o melhor do ano, para mim, foi “Almádena”, coisa fina, de Mariana Ianelli, com o selo da Iluminuras. Estou em débito — e sem dinheiro — para ler os últimos lançamentos de alguns “bons” autores goianos, e também de estrangeiros. Temo pelo meu poder aquisitivo para livros, neste 2009. A coisa está feia. Estou catando e contando moedas. Se brincar, e sendo dado, aceito até dor de dente.
 
Tenho os livros, mas até hoje ainda não li “Sábado” e “Reparação” — apontados como os melhores —, de Ian McEwan. Estou atrasado. Li, deste autor, “Amor para sempre” e depois “Amsterdam”, que ganhou o “Booker Prize” e as resenhas cantaram e decantaram como “muito bom”. Não digo que a obra seja essa coisa toda, e tive a impressão de ter detectado semelhanças, semelhanças por demais — estarei enganado? —, com “Mortalha não tem bolso”, de 1937 (2001 no Brasil), romance de Horace McCoy, também autor de “Mas não se mata cavalo?”, que virou filme de Sydney Pollac, em 1969 (no Brasil, intitulou-se como “A noite dos desesperados”), com Jane Fonda e Michael Sarrazin. Uma coisinha a mais sobre “Amsterdam”: como fui revisor de jornal e sou atento — ou maníaco — a muito coisa quando leio, deparei-me, em páginas tais e subseqüentes, com uma farta utilização do verbo “haver”, denunciando pobreza na utilização de recursos verbais, a saber se por parte do próprio autor — estilo? — ou do seu tradutor brasileiro. Ironicamente, mas de bom grado, catando “erros” dos outros, obrigo-me a catar meus próprios e lamentáveis erros em obras por mim publicadas.
 

Luiz Ruffato 
 
De passagem, apenas a título de curiosidade, foi logo depois de publicar-se, no Brasil, “Todos os Belos Cavalos”, que o mineiro Luiz Ruffato — pegando a deixa? — publicou o romance “Eles Eram Muitos Cavalos”, aproveitando o verso de um poema de Cecília Meireles, no “Romanceiro da Inconfidência”
          

Vale observar, de passagem, que o filme “Menina de Ouro”, de Clint Eastwood, é baseado no livro homônimo (2002) de F.X. Toole, pseudônimo de Jerry Boyd. Assim como “Amsterdam”lembra “Mortalha não tem bolso”, “Menina de Ouro” lembra “Mas não se mata cavalo?”, de Horace McCoy, e o filme de Pollac. Teria Toole usado o “gancho” de McCoy para seu livro? Senão vejamos: inutilizada para continuar lutando box e curtir a fama e seus fãs, paralítica na cama, com uma perna amputada e sofrendo muito com tudo isso, a “menina de ouro” pede que o seu treinador — interpretado por Eastwood — a mate, e ele o faz. Não há que tirar nem pôr: o mesmo acontece no filme “A noite dos desesperados”: a personagem Glória (Jane Fonda), de vida infeliz e deprimida após perder uma maratona de dança com o seu companheiro (Michael Sarrazin) implora que ele a mate, e ele mata, com um tiro. Vai a julgamento e é condenado. Interpelado sobre a razão de ter matado Glória, ele responde como uma pergunta: “Mas não se mata cavalo?”, reportando a sua infância, onde um cavalo quebrara a perna e seu avô, para que o animal não sofresse, dera-lhe um tiro de misericórdia. Há quem aponte o filme “Menina de Ouro” como um clichê e melodramática versão feminina de “Rock”, com Sylvester Stallone.
       
Em meio a tantas e outras, tem gente aí dizendo que o norte-americano Cormac McCarthy, autor de “Todos os belos cavalos”, primeiro de uma “trilogia da fronteira”, é um novo Faulkner. Mas nem nunca! Estou terminando de ler o segundo volume, “A Travessia”, para em seguida ler “Cidades da planície”, que fecha a trilogia. Aspectos à parte, não vejo muita diferença entre a obra deste romancista norte-americano e os livros de bolso, com histórias do Velho Oeste, que andei a ler, por atacado e a granel, no tempo da minha adolescência, que já não era mais “no tempo das diligências” (um filme). Um aspecto na narrativa deste autor é a densidade nos enfoques, enredando os personagens, não meramente criados, uns e outros, tão-só para o entretenimento e a comercialização junto aos aficcionados do gênero, ou neogênero. “Prosa renovada e refinada, em que os personagens refletem sobre o sentido da existência”, dizem os entendidos. Harold Bloom, por exemplo, exalta “Meridiano Sangrento”, outro romance de McCarthy. E agora, afora o confronto do policial consigo mesmo e seus limites, o conflito e as reflexões em relação ao seu tempo (o passado) e o tempo atual, bem como suas malogradas tentativas de salvar as vítimas perseguidas por um frio assassino, afora isso, que festa foi essa em torno de “Onde os velhos não têm vez”? Mais uma obra mediana, senhores, boa mesmo, típica do gênero, pra cinema. Mídia e bilheteria.
         
De passagem, apenas a título de curiosidade, foi logo depois de publicar-se, no Brasil, este livro de McCarthy, que o mineiro Luiz Ruffato — pegando a deixa? — publicou o romance “Eles eram muitos cavalos”, aproveitando o verso de um poema de Cecília Meireles, no “Romanceiro da Inconfidência”.Particularmente, aprecio a literatura de Ruffato, de quem li este romance com cavalos no título e os dois primeiros volumes da trilogia que ele publicou ainda recentemente, engenhosamente montada a partir de dois livros de contos de sua autoria, anteriormente publicados. Ruffato pega bem a veia e explora satisfatoriamente a temática urbana — com uma raiz no cenário interiorano —, criando uma atmosfera aderente e uma outra realidade pelo viés da literatura.
         
Ainda a respeito de obras estrangeiras que nos chegam às carradas — eu não disse “escarradas” —, os afoitos ou mercenários resenhistas, também em orelhas, prefácios e textos de contracapas, além do que se publica nos jornais, logo folheiam a ouro o que não passa de latão ordinário. Ficam aí deslumbrados, se babando e esnobando, a dizer que está lendo isto e aquilo e não sei mais o quê, porque sim, porque não e coisa e tal, o ramerrão, a mesmice, o mediano, como de praxe, alugando os ouvidos, torrando a paciência, como se ninguém mais, além deles, nada lesse neste mundo. Sai do meio, recheio! “Vade retro”. E vou eu com “mea culpa”, que também já escrevi orelhas e prefácios, já pratiquei (ó vergonha!) esse tipo de delito; não pratico mais, e já tornei isso público (portanto, não insistam).
         
No mais, é isso aí. E tudo aqui não passa de ficção. A forma brincalhona e fricativa de um menino velho e um velho menino. Quem não entendeu o espírito da coisa, obriga-se a reler tudo, com mais atenção. Enquanto leitor, fiz um passeio pelos aspectos de obras literárias, tais como os apontei aqui, e expressei minhas impressões de leitura — por míseras que sejam — para além das confrarias ou meras bajulações em coro com o alarido do rebanho. Dou-lhes uma idéia do tipo de coisa que não vou ler ou reler neste ano de 2009. Tenho mais o que fazer, inclusive rever toda a minha miúda e defeituosa obra, e fechar uns romances que venho protelando há décadas. Particularmente, não vejo maior interesse, para o leitor, nessas listas ou programa de leituras, mas sempre se repassa alguma coisa aproveitável. E como não farei aqui uma lista imensa, esnobe e mentirosa — ninguém lê tudo o que afirma que lerá num ano —, redijo estes comentários de algum repúdio, sobretudo porque não como peixe cru. E assim a literatura. Gosto dela bem cozida e bem temperada. Que valha a pena ser deglutida. E querem saber? Gosto de Bukowski (risos), como gosto de blues. O velho e safado Bukowski, que, como disse — ao contrário de mim —, não gostava de Shakespeare, nem de Tolstói. 
 

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POR EM 10/12/2008 ÀS 10:16 AM

Um banho de descarrego

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Dinamitar pontes do passado — elas que nos trouxeram até aqui — é fácil. Difícil é construir outras. Que novas pontes os dinamitadores estão construindo? Olhem-se, cada um para si mesmo — olhem para o nada —, e respondam, individual e coletivamente: o que estão a construir, senão a pedreira da própria desconstrução 

A propósito de umas discussões — algumas meio que primárias — via comentários da Bula, isto de se dizer que Freud e Marx estão ultrapassados, seja dito que Freud e Marx, assim como os gregos e tantos outros, foram e ainda são pontes da história e do conhecimento ou bagagem intelectual que hoje exibimos, por vezes até nos pavoneando, e outras em que nos arvoramos com a notória arrogância do saber.  Dinamitar pontes do passado — elas que nos trouxeram até aqui — é fácil. Difícil é construir outras. Que novas pontes os dinamitadores estão construindo? Olhem-se, cada um para si mesmo — olhem para o nada —, e respondam, individual e coletivamente: o que estão a construir, senão a “pedreira” da própria “desconstrução”? Se é que me entendem as ásperas aspas da pedreira.

Há que retornar, sempre, às fontes do tempo — à memória do ser, aos livros do passado —, onde se encontram, ainda sólidas, mas esquecidas, algumas valiosas lições. Páginas ainda vivas, verdades que ainda correm nas veias do livro da vida, ou da história, como queiram. Não foi por menos que, ao esboroar-se dos muros e estátuas do comuno-socialismo totalitário que grassava aí pelo mundo, comentei que era hora de reler Marx, para checar os pontos vulneráveis das pontes, as rachaduras da contradição e a insustentabilidade da asfixiante atmosfera entre aquela ideologia mal-conduzida e os direitos humanos, e daí a queda anunciada, pois que vinha se anunciando, dia-a-dia se avizinhando, para desabar, como um velho abutre, sobre os telhados do mundo, e abater os ânimos daqueles que se deixaram levar pela utopia da terra prometida.

Dez anos antes, por conta da incoerência entre a teoria e a prática ideológica da época, eu vinha vaticinando que a queda era iminente, e alguns canhotos, “de esquerda”, por pouco não me linchavam em rodas de bar. Sim, eles também bebem, os chamados “intelectuais”, a “inteligentsia”, e pra quem não sabe, tem muito pau-d´água de esquerda. E quase me linchavam, a mim, que sempre vim pela margem esquerda da vida, sem que a vida de todo me iludisse. Com a queda, um advogado em Goiânia chegou até mim com ar desolado e uma pergunta: “Que catástrofe, Valdivino! Passamos a vida inteira acreditando nisso — referia-se ao socialismo —, e acabou tudo. O que vamos fazer agora?”. Eu não tinha a resposta, como ainda não tenho. E, todavia, reitere-se, ainda é preciso reler Marx, e nem me perguntem se Freud explica os vivos, quando os sinos já não dobram para os mortos.

Ah, poeta John Donne, parece que a morte de um homem já não nos diminui. A vida de hoje — a vida dos outros — não tem valor nenhum. Os valores inerentes ao ser humano não têm mais importância. Quem tem ouças, que me ouça: o homem vive de insignificâncias, assim como as galinhas, bicando miúças no terreiro. E eu aqui a resgatar velhos vocábulos do tempo de Machado de Assis e Eça de Queiroz. “Ouças” para dizer ouvidos; “miúças” para dizer miudezas. Entre essas e outras, apraz-me resgatar palavras antigas como penduricalhos em meus escritos. Informe-se o leitor ao que escrevo. Enriqueça o seu vocabulário. O dicionário não morde.

Que vultos são estes na penumbra do horizonte? Formas difusas. Os homens são sombras, as sombras são assombrações. Silhuetas invertidas nas retinas da incerteza. Um brinquedo de dedos e mãos nas paredes duma noturna caverna, à luz de um archote agonizante. No fundo, o homem ainda continua naquela caverna primitiva, descrita por Platão. Se dela alguns saíram em certo dia, andam ainda às cegas, ofuscados pelo sol do conhecimento e da razão. O futuro se configura sombrio. Dá-lhes, Derrida! Desconstruir é “fragmentar para demonstrar que o que está sendo afirmado é, na verdade, inerentemente falso”. Não olhem para mim!

Falsas as verdades do homem, pelas quais ele se trai. Ele que sequer aprendeu a construir-se em sentido amplo, que dirá desconstruir-se, rever-se, repensar-se e soerguer-se para a sua própria absolvição. Até aqui, não há nada que o redima de toda a sua criminalidade, de sua hedionda vida pregressa. Se Deus afundou o Titanic quando desafiado pelo homem — “Nem Deus afunda o Titanic”, disseram, em afoita bravata —, tomem por Deus o gigantesco bloco de gelo e a fúria do mar. Pois também Deus, ao que parece, e assim como se diz do Diabo, tem mil disfarces ou formas de se manifestar. E não será Deus, agora, a tardia tábua de salvação do homem, até porque nunca foi, como é visto e provado está. Basta olhar para a barbárie, a carnificina, o mundo sangrento em que vivemos. É visto que muitos dos homens que “governam” o mundo só pensam com as tripas, só têm excremento na cabeça.

Não, não vá por aí. Não é bem por aí o reino dos céus, aqui falando por metáforas. E não é de joelhos que se chega lá — e “lá” é um lugar metafórico —, mas de pé, altivo, digno, como o Deus da Sabedoria certamente espera, se uma vez mais aqui me dou a entender. Há que clarear-se um novo caminho para a humanidade, descortinar-se um outro horizonte. Nietzsche alardeou a morte de Deus — “Deus está morto, e fomos nós que o matamos” —, e Deus matou Nietzsche com a loucura. Morreu Nietzsche “delirando”, admitindo seu “erro”, meio que se “reconciliando” (?) com Deus. Está escrito. Após o quê — e eu já disse isso —, Deus tirou férias e não sabe quando volta. Estamos por nossa conta e risco, ao deus-dará. Salve-se quem puder. Ah, sou mesmo um homem de pouca fé — porca fé —, a diferença que há entre mim e o bule de pôr café, como diziam os avós — os avós dos outros, que os meus, todos os quatro, eram mortos quando nasci. A falta que nos fazem os avós.

Meu temor, meu sincero temor, e meu pesar — minha profunda tristeza e meu irreversível desencanto —, são pelos inocentes, são pelas crianças, pelo mundo que estamos entregando a elas, e por elas que estamos entregando à sanha sádica do mundo, aos cães assassinos, molossos dentuços com cara de gente. Onde foi que a humanidade adquiriu essa cara de pitbull? O mundo é um canil. E ainda tem gente sorrindo de orelha a orelha, achando que está tudo uma maravilha. Contemplo meus netos — como contemplo as crianças do mundo —, meninos e meninas ainda, e sou acometido por um estado de choro surdo, que me sobe, aos engulhos, até os olhos. E não me prejulguem. Não vai aqui um melodrama barato, antes o meu desencanto com o que somos e sou eu. Estultos adultos, sem indulto ou salvação.

A humanidade não me ilude. Não mais. Já comprei gato por lebre, já comi tapeação, já engoli desaforos, apanhei muito e pouco revidei. Hoje revido com palavras, esse meu jeito de bater, mau jeito de articular-me. Pelo que tenho observado ao longo da vida, a humanidade perdeu mesmo a qualidade. O grande mal é que os maus são maioria, escrevi no livro “A trompa de Falópio”, premiado em Belo Horizonte. Asteróide, Asteróide, abre as asas sobre nós. “Muitos serão os pretendidos, poucos os escolhidos”, aprendi isso no espiritismo — do qual um dia me afastei —, como aprendi, paradoxalmente, que “todos são iguais perante o Pai” e que “Deus não tem nenhum filho a perder”. Donde se conclui que não se conclui nada.

Já com anotações prévias e já em vias de redigir este texto misto de realidade e ficção — uma e outra se fundem no mundo em que vivemos —, passo por uma banca de jornais e avisto a revista “Discutindo Filosofia”, coincidentemente com Karl Marx na capa e, abaixo de seu nome, a legenda: “As contribuições filosóficas do pai do comunismo” — nunca fiz auto de fé, nunca me professei comunista convicto, antes anarco-pensador e franco-atirador verbal que sou desde menino. Em matéria assinada na referida revista, o professor de história Guerreiro Parmezam mostra porque Marx é sempre atual. “Marx, em sua apurada análise dos movimentos do capital e o vício capitalista em valorizar o próprio valor, o que gera uma profunda contradição à própria lógica do ciclo produtivo, teve a possibilidade de concluir que os fenômenos das crises econômicas eram inerentes ao próprio sistema.”

Hoje, de acordo com o professor, quando os economistas, em pânico, vociferam a questão das “bolhas” no setor financeiro e a fatalidade de suas explosões como geradoras das grandes crises, deixam claro que Marx “ainda não está ultrapassado”. O pensador alemão escreveu que o capital, em momentos de expansão, sofre um verdadeiro “estufamento”. Olha aí o olho da bolha. Como lembra o mestre Guerreiro, “foi assim no último quartel do século retrasado, foi assim no craque da Bolsa em 1929, foi assim no mercado asiático durante a década de 1990 e é assim agora.”

Quitéria, prima de minha esposa, costuma dizer: “Comigo é na manteiga”, o que é bem diferente de “viajar na maionese”. O ministro Guido Mantega — segundo se publica —, com base em tese do economista britânico John Mainard Keynes (1883-1946) — uma fonte de décadas atrás, observe-se —, orienta o presidente Lula para estimular o consumo dos brasileiros, buscando aí uma forma de acudir o mercado e atenuar efeitos da crise financeira que ora avassala o mundo todo. Muita gente aí, atolada no lodo.

Nos lastros e lustros e soluços da História, homens como Marx e Freud, além dos gregos e quejandos, são os “astros”, não da astrologia, essa coisa de horóscopo, mas da astronomia, das luzes estroboscópicas perscrutando os horizontes e o infinito. E são os rastros, os sinais, os marcos do homem em sua caminhada, mesmo daqueles que, “tresmalhados” do caminho da realidade nua e crua, escabrosa, turbulenta e tormentosa, enveredam-se pelo “desvio” e tomam o caminho de Santiago — ou de Bela Vista de Goiás, pra chupar jabuticaba —, o que não deixa de ser uma via de fuga a mais, em busca de iluminação e paz interior. Longe do selvagem burburinho das metrópoles e do mundo. Apartados dos ratos, digo: do resto dos homens.

Quando digo “selvagem”, entenda-se que, animais por animais, também o homem é animal, com a diferença de que os “animais selvagens” — os predadores no esquema natural das coisas — a que nos temos referido, são puros em sua animalidade, porquanto sem a maldade consciente do homem. O animal selvagem, movidos pelo instinto da natureza bruta, é puro como não é o ser humano, esse monstro horripilante que nos habita, oriundo do “coração das trevas” — O horror! O horror!, como se lê no romance de Joseph Conrad. Único animal que pensa, como se afirma, será o homem um aborto da razão? “É no cérebro e somente no cérebro que se cometem todos os pecados do mundo”. Irretorquível frase — a não ser que se troque “pecados” por “crimes” —, de cuja autoria não me lembro. Diga aí, Nilto Maciel, você que uma vez citou-a em texto seu aqui na Bula.

De resto, uma opção, uma escolha — o caminho de Santiago ou de Bela Vista —, um direito de ir e vir de cada um, e assim a fé, a crença, a crendice, a superstição, tanto quanto a idiotice e a estultice encastoadas, cravejadas, que não se desencrava de cada um. Todo caminho escolhido é “um risco no bordado” do rebanho, podendo que seja uma comichão curticante na região do cóccix de cada qual, por conta do “bordado da urtiga”, celenterado vegetal que pinica como nunca o pó de mico. Imagine-se o que se conta: o sujeito sai do pagode, na roça, e busca a moita do desaperto, onde, já aliviado, leva a mão no escuro, arranca a folha de urtiga e com ela se limpa. Segundo se conta, haja lordo para tanta petição de miséria! “Lordo”, uma velha designação para ânus. Mas, voltando ao caminho, o lobo do homem está em toda parte. Há sempre um cão pelos caminhos, em figura de gente. Olha o padre pedófilo aí, gente!  Cuidado com o cachorro.

O bendito, o bíblico livre-arbítrio a servir de cunha quando o limite mental do homem se trava sem resposta para a questão da não-interferência de Deus na barbárie humana. Ou será que ele interfere por meio das catástrofes naturais, com a fúria dos elementos? E por que não, então, diretamente sobre os campos de guerra? Tem que ser sobre as populações indefesas, punindo e matando até crianças, que são inocentes? Ah, Senhor Deus, sois tão grande, que sois demais pra minha pobre cabeça. Chega a doer-me o juízo. Pergunta-se: “Por que Deus, onipotente, onisciente e onibondoso, permite tantas desgraças no mundo? Por que não interfere e acaba com elas?” A resposta já vem pronta: “Ah, mas Deus deu ao homem o livre-arbítrio.” O maldito livre-arbítrio, quando dirigido para o mal. Sem querer generalizar, a pedofilia é o livre-arbítrio do clero?

Tem aquela piadinha do penetra que entra de sola em roda de piada e pega a todos desprevenidos, valendo-se do costume de conjugar-se o verbo “viram” ao invés de “ouviram”: “Aí, vocês já viram a do padre? Não? Então suspendam a batina e vejam.” Rá-rá-rá, como diria ou riria o Zé Simão. A rever-se, por essas e outras de padres e pastores, praticadas por aí — por exemplo, extorquir dinheiro por meio de hipnose coletiva e evangélica instigação do paroxismo religioso, às raias do fanatismo, enceguecido e obstinado em nome de Deus —, a rever-se, eu dizia, a questão da liberdade de crença, na forma execrável de suas práticas. Tudo que é demais, vai indo, passa. Passa da conta, passa dos limites, sob as barbas coniventes e convenientes das autoridades, da lei e da justiça. Quem mais precisa de um banho ou sessão de descarrego, são os próprios charlatães. E de que autoridades estamos falando? De que lei? De que justiça?

“O risco do bordado” é romance de Autran Dourado. “O bordado da urtiga” é título do premiado livro de Gilson Cavalcante, na capital do Tocantins. Palmas pro Gilson. Já uma vez, num trocadilho em jornal ou revista, escrevi “Palmas pro Tocantins”. Fui convocado, em cima da hora, pra mesário ou secretário de mesa no plebiscito pró-criação do Estado do Tocantins, realizado no norte de Goiás, por ocasião do governo goiano Henrique Santillo. Estou ou devo estar nos registros, nos anais da história. Entrei para a História, não de forma trágica como a de Getúlio Vargas, que cometeu suicídio, ou foi suicidado, e deixou (?) um bilhete: “Saio da vida para entrar para a história”.

É dito que só há dois caminhos: o caminho do vício, da perdição, e o caminho da virtude. Mas então não existe o caminho do meio?, há de perguntar aquele que persevera no caminho da perversão ou da própria perdição. O meu caminho é o risco da palavra. A palavra é um risco que se corre, uma aventura que se arrisca, está escrito no premiado livro “Tessitura do ser”, de minha lavra.

Como se, com esse lucrativo negócio de caminho — “eu sou o caminho, a verdade e a vida” —, possível fosse fugir da negra realidade, inerente a todos, e que a todos cumpre enfrentar e modificar, aqui e agora — sim, porque todos ajudaram a construí-la. De uma forma ou de outra, todos têm a sua parcela de culpa. Viver é um desafio, tanto maior quanto mais a vida se ponha no olho do furacão, e muitos são postos no olho da rua. Viver sem fugas à guisa de frágeis refúgios. E sem essas desgraçadas “viagens” ao fundo do poço. Essas viagensviadagens — dá vontade de dizer assim, e não me venham com a pecha de preconceito. Falta de compreensão? Não. É raiva mesmo. Raiva por compreender a humana estupidez, ainda mais de gente adulta, que não é mais garota ou adolescente para embarcar nessas e noutras.

Baladas, pagodes, festas “raves”, um termo cujo significado a maioria dos adeptos nem sabe explicar. Que onda! Com site: www.thewave.com.br e e-mail: www.therave@aemagemeu.com. Nesta “wave” e nesta “rave”, nessa onda toda, é que o mundo se afunda. Muito, mas muito diferente daqueles embalos de sábado à noite com John Travolta, nas telas do cinema, anos 70. Embalos certamente “caretas” para hoje. Sabe-se que uma “rave” extrapola os limites da galera. Muito som — vinil, DJs e quinze mil volts de potência, durante horas e horas, madrugada afora —, álcool, drogas, sexo e morte. “Rave”, o que quer que isso signifique, ao pé da letra. “Haven” a gente sabe que é corvo, o pássaro negro do mau agouro, para os supersticiosos. O coletivo de corvos em inglês não é “murder”, a mesma palavra para “assassinato”? A sombra do corvo ronda a juventude. Que ela se cuide, se é que sabe se cuidar, como tanto alardeia aos pais.

O verdadeiro “barato” é viver sem subterfúgios de trânsfugas, como esses rapazes de franjas na testa, filhinhos de papais, e essas frangas de saias e cheias de rugas por conta das drogas. Esse encolhimento viscoso, de caramujo; essa gosma adentro de sua concha. Tem gente assim que dá dó — e dá mesmo raiva, essa insistência na estupidez —, como tem o que dá nojo, o político corrupto, tão mais nojento que um menino catarrento. Mais que oratório e oração — que horas são?, são horas, meu irmão —, a vida é oratória — palavra e ação —, trajetória e história. E onde o orador da palavra nova? Onde a verdadeira palavra da salvação? Aqueles que procuram, buscam os caminhos com os óculos escuros da fé para enfrentar a brutal realidade, os demônios do cotidiano — para eles, os demônios são sempre os outros —, mas não enfrentam a si mesmos, não admitem, não querem admitir, e não encaram os próprios demônios.

Parábola para a Bula, ou parada para literatura: Vai o sujeito caminhando pela estrada, e, na quebrada da curva do bambuzal, se depara com uma suçuarana, calmamente sentada no chão vermelho, como se ali estivesse à espera, como se o aguardasse, como se o destino fosse. Assustado e súbito, ele estaca no meio da estrada, olhando pra onça, e a onça olhando pra ele. Não lhe ocorre, a ele, nenhuma outra iniciativa, senão correr, mas correr já não pode, com as pernas a tremer e ele prestes a se borrar. Uma situação típica: se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. O eterno impasse de alguns segundos. Até que a onça, felina e feminina, com uma lânguida lambida de beiços, se manifesta: “Eu vou te comer”. E como isso aqui é uma estória da história, o pobre homem, incauto nas curvas e no andar da carruagem do mundo, é literalmente comido, arrastado pro mato e vorazmente devorado pela história, senhora de todas as vidas. E acabou-se a história — o propalado fim da história. Só lhe sobram, do homem devorado, os ossos e as precatas dos pés rachados, pra contar-se o acontecido.

Moral da história, se há alguma moral por aqui: a ir-se pra onde vai indo o homem, o que lhe resta, senão reler as obras de Marx e de Freud, em regime de penitência ou purgatório? Se Freud não explica, Marx se trumbica, vice-versa a mesma coisa, que não é a coisa mesma, então não é coisa nenhuma. A opção “b” é missão impossível, um verdadeiro castigo: ler e decorar, de cabo a rabo, a lista telefônica. Talvez com um cérebro eletrônico. Castigo infernal seria contar nos dedos quantos caracteres contém a Bíblia.

Conquanto “ultrapassados”, como dizem por aí — e não só aqui na Bula —, e ultrapassados em aspectos, diga-se de passagem, Freud e Marx ainda estão na pauta do nosso dia-a-dia, como o sórdido e contudo sagrado prato de feijão com arroz em nossa mesa, e tanto mais pertinentes quanto menos polivalente o santo padre-nosso, até porque a história com Deus e sem Deus é uma roleta sangrenta, um jogo de dados chumbados e viciados, onde o valete é o sinistro crupiê. Um pocker em leque de cartas marcadas, um jogo de espadas, um tinir de floretes obviamente afiados, onde o esgrimista-mor é o crápula do rei nu, despido de sua capa. E ali o pior de seus oponentes: o Curinga, que do rei só quer o poder para também reinar, mandar e dominar. Como de praxe o piche no caminho negro dos homens. Petróleo, gasolina, ouro, diamantes, dinheiro, drogas, testosterona e muita adrenalina bélica, guerras, massacres, assassinatos, genocídios. Ecce homo. Sim, eis o homem. E onde anda, José Jacinto Veiga, o deus dos didangos?

A história é uma conspiração de perfídias, onde algumas damas e rainhas, que se habilitam e se prestam a instrumentos da história espúria, escondem lâminas, pequenos punhais nos perfumados seios e sob suas saias, na liga de sedosas meias, e frascos ou cápsulas de veneno nos entremeios carnais, com os miasmas de seus encantos. Por outro lado — bonita e bendita figura —, o símbolo da liberdade é uma mulher marchando à frente da revolução. O símbolo da justiça é uma mulher vendada, com a balança do equilíbrio e a espada com os rigores da lei. Eia pois advogada nossa, amiúde uma ceguinha esperta, advogando em causa própria. A justiça tem casa própria, e, vezes muitas, por decisões impróprias, deixa muitos ao relento da injustiça.

As idéias mesmas giram, vão e voltam, e os fatos se repetem com o redemoinho dos ventos. Todo tempo é tempo — a qualquer hora — para o olho do furacão. Os ventos do norte movem moinhos, sim, ao contrário do que cantavam, décadas atrás, aqueles jovens secos e molhados do Brasil — o “sangue latino” nas veias musicais, a branca e seminua magreza de Ney Matogrosso, com os seus requebros e suas penas coloridas. Os ventos do Norte movem moinhos e redemoinhos. Berra o boi na calçada de Wall Street — e por ali os adoradores do bezerro de ouro —, estremece a Bolsa de New York City, late o Cão ao reverso de Deus na nota de um dólar: “In God We Trust” — Em Deus Confiamos —, onde God, ao inverso, é Dog, o Cão. Será o guardião do portões do Fort Knox, base militar norte-americana, onde se amealha boa parte do ouro do mundo? Ocorre-me Cérbero, o cão tricéfalo da mitologia grega, guardião do portão do inferno e também guardião dos mortos. E os mortos-vivos, os que venderam a alma por dinheiro, quem os guarda?

Os pregoeiros da Bolsa agora roem as unhas, os investidores se descabelam. Nos chiqueiros do mundo, a porca torce o rabo. E tudo por causa do dinheiro, o maior dos problemas criados pelo homem. Se o dinheiro constrói maravilhas, também destrói o homem e suas maravilhas. As Torres Gêmeas, por exemplo. Destruídas pelo dinheiro do terrorismo, ou pelo terrorismo do dinheiro, se aqui me acompanham a extensão dos termos, e porque tudo no mundo é dinheiro, dinheiro, dinheiro, combustível para o poder político e a política do poder. Estão me entendendo o jogo?

O mundo é mesmo um circo. O homem, na lama de sua miserável condição humana, é risível, tragicômico e patético, amiúde ridículo. Tenho dito. E antes que me tomem por palmatória do mundo, aqui me tenho circunscrito. No lamaçal da história. Uma parte inseparável dela. Sórdidos. Somos todos sórdidos.


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:27 PM

Que fazer de Affonso Romano de Sant´Anna?

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No ano passado, reli, com boa dose de prazer, toda a poesia de Affonso Romano de Sant´Anna, e estou relendo Os Cantos , de Ezra Pound, suficientemente para dizer que, entre uma obra e outra, eu levaria para uma ilha a “excessiva, discursiva, cansativa, confusa, obscura e banal” obra de Ezra Pound

A propósito de Ezra Pound, Eliot escreveu: “Um grande escritor pode ter, numa época, uma influência perniciosa ou simplesmente debilitadora. E essa influência pode ser afetivamente atacada, apontando-se aquelas faltas que não devem ser copiadas e aquelas virtudes que reproduzidas se tornam anacrônicas.”

Escorado nessa premissa, o poeta e professor Affonso Romano de Sant´Anna, no livro de ensaios Que fazer de Ezra Pound  (Imago, 2003), de sua autoria, se nos chega como quem chuta o balde de merda ou o pau da barraca — ou redoma — em que se encontra ninguém menos do que Ezra Poud, o que seria razão “suficiente” para chutá-la — a barraca — e, assim, fazer um saldozinho médio nas esferas da crítica literária, ou nas rodinhas de escribas tomando um cafezinho nalgum bar de esquina metropolitana. De tal sorte, que o nosso Affonso, já de início, manda ver:

“Agora que saiu a tradução de Os Cantos de Ezra Pound (ed. Nova Fronteira, Rio, 1986) torna-se necessário um juízo de valor sobre essa obra, que não apenas os elogios ao volumoso esforço de José Lino Grunewald para pôr em língua portuguesa o que tradicionalmente se considera a obra-prima daquele poeta norte-americano nascido em Idaho em 1885 e que aos treze anos afirmou: Serei poeta. O maior de todos.”

Ao ler isso aí, assalta-me a impressão de que o mestre Affonso, por alguma secreta razãozinha, incrustada no fundo de seu ser, intenta minimizar o “volumoso esforço” de Grunewald, como se a dizer que tal tarefa não se justifica em face do valor da obra poundiana, ou que o tradutor se ocupou de coisa de pouco valor, senão de todo imprestável ou, pelo menos, em sua maior parte, como deixa claro o ensaísta. O tom das expressões “que não apenas os elogios” e “o necessário juízo de valor” meio que acentua a minha impressão, ganhando foro de suspeição ou desconfiança no que estou a ler. Mas isso, certamente, não passa de má-impressão minha, buscando o que não existe justamente onde nada existe; enfim, caçando chifre em cabeça de égua.

“De suas oitocentas e tantas páginas, talvez uma meia dúzia pudesse ser lida com maior interesse. Mas, convenhamos, é um salto muito pequeno em relação à pretensão do autor”. Palavras de Affonso. E aqui, se me permitem a digressão, e sem qualquer intento ofensivo de minha parte, antes por conta de uma associação entre a grafia e uma lembrança do tempo da infância, o nome Affonso, com esses dois efes num sopro de fole, transporta-me de volta à hilária onomatopéia de um peido de burro, consoante as vogais e as consoantes propriamente ditas, e como então se dizia, assim: Afffooooooonnnso! Flatulenta sonoridade. Coisa de meninos, inventando moda, fazendo graça para as pessoas ao redor, ou apenas para si mesmos, uns com os outros, lá entre si. Mas prossigamos com o affonsino ensaio em questão:

“O próprio editor achava esses cantos obscuros e tediosos”, ressalta o poeta- professor Affonso. E vá-se ver, por nossa conta, se o tedioso não era o próprio editor de Pound.

“Pound queria usar a técnica do fragmento — continua Affonso —, fazendo uma montagem de textos alheios e seus. Mas a intenção técnica não basta. A leitura é cansativa, confusa e não produz o efeito desejado.”

Leitura cansativa, mestre? Prazerosa, até mesmo pela confusão — o caos, mestre, o fragmentário caos! E — só para embaralhar as cartas de um jogo —, como assim, que Pound desejava um efeito? De que efeito se está falando? Desde quando um poeta se deixa levar pelo desejo e não pela força da criação? Está bem que criar seja um ato de desejo, então Pound queria o efeito do desejo e o desejo do efeito. Bah!, o que digo eu? O que sei, a fundo, em meio a tanto qüiproquó? Cocoricó! O galo cantou. Dê cá meu cajado, é visto que só estou brincando, e já me vou mijar. Ou melhor, só estou provocando o tédio, exercitando idéias e brincando com o respeitável mestre, quem sabe para com ele aprender algo mais; mas sem polêmica, please, que me vou cansado por demais.

“Embora existam belos trechos como o Canto 45, trecho do Canto 13, o curto Canto 120 e pouco mais” — sublinha mestre Affonso, garimpando pepitas de ouro na bateia de Pound. E me pergunto se o crítico se auto-avalia enquanto poeta, de cuja lavra poética — obra completa — bons poemas se mostram e nem tudo é bom. Mesmo o seu mais badalado poema — Que país é esse?—, a meu ver, é melhor na primeira parte, depois perde um pouco a força de impulso, ou de empuxo, conquanto manter-se o fundo político e a crítica social numa asfixiante atmosfera de época — a ditadura militar. Vá la: Affonso Romano de Sant´Anna é um bom poeta mediano.

“A obra sobrenada em frases de poesia nenhuma e de prosa banal. Querendo ser uma epopéia, os textos são uma rala e confusa crônica. Os versos, em geral, não seduzem pelo ritmo, não seduzem pela melopéia, não seduzem pela logopéia ou fanopéia.” — prossegue o mestre, tabulando a zero a poesia de Ezra Pound. Pobre Alphonsus!, diria o poeta Alphonsus de Guimaraens, o Solitário de Mariana (MG), no seu famoso poema A Catedral. “Excessiva, discursiva”, a obra de Pound todavia se sustenta — aí está ela —, inclusive, por conta de seus excessos, mesmo porque não se pode retirá-la de seu lugar. Pode-se afirmar que daqui a mais algum tempo Os Cantos será uma obra relegada ao limbo? Assim, coisas como o nazismo e o extermínio dos judeus também estarão lá, no limbo da memória e da consciência humana? Pouco provável. Nem todas as obras ficam, mas algumas ficam pelo que são, e Os Cantos aí se encaixa, malgrado os resmungos ao seu redor.

“No fim da vida, tendo conhecido a prisão e o hospício, Pound declarou não apenas que ele “estragou” sua obra, mas explicou: “Minhas intenções eram boas, mas enganei-me na maneira de alcançá-las. Fui um estúpido. O conhecimento me chegou tarde demais...Muito tarde me chegou a certeza de nada saber.” Tal declaração, de repente, dá uma dimensão maior ao seu autor. A aceitação de seu “fracasso”, se não transforma sua vida & obra em “êxito”, pelo menos vale como ensinamento para que seus equívocos estéticos e ideológicos (fascistas) não se repitam. Cultuar esses equívocos, em vez de reconhecê-los como o próprio poeta, é perseverar no “erro” e estar, como discípulo, uma vez mais abaixo das lições do próprio mestre.”

Eis aí. Eu não disse que só estava provocando e que aprenderia algo mais com o mestre Affonso? Menos mal que esse “fracasso” aí venha entre aspas, evidenciando que a coisa não é bem assim, ou que o diabo — Pound — não é tão feio quanto se pinta, esteticamente falando. Fracasso? Os Cantos? Olha só o sorrisinho de mofa irônica do anarco diabinho que me acompanha, até porque “tal declaração” de Pound, sobre suas intenções e equívocos, pode ter sido uma forma de corte oblíquo na língua de seus críticos. Vá se saber, a fundo. Os artistas da palavra são dados a subterfúgios, artimanhosos, metafóricos, reticênticos. Pound disse, também, que o que ele tentou e não conseguiu fazer, um brasileiro fez. Referia-se a Gerardo Mello Mourão, com o longo poema Os peãs, cuja primeira parte, num livro de 400 páginas, intitula-se O País dos Mourões.

Ezra Pound

Literalmente, assim falou Pound: “Em toda a minha obra, o que tentei escrever foi a epopéia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta de O País dos Mourões.” Isso aí soa-me um pouco como uma certa modéstia poundiana — senão que seja, com efeito, sinceridade por demais —, sem desmerecer aqui a citada obra de Mourão, que, a meu ver, é de uma rara beleza ao longo de toda a poesia brasileira, e quando tornei público, há alguns anos, que ainda estava à espera — como ainda estou — do verdadeiramente grande poeta brasileiro, é possível que estivesse tomando a obra de Mourão como um ponto de referência ou de partida, num sentido épico. A propósito, por que as editoras brasileiras não dão novas e apuradas edições a esta monumental obra poética do Gerardo? Particularmente, emparelho em minha estante, para infinitas releituras, Os Cantos e Os peãs, que me parece influenciado por nada menos que Os Cantos. Ou não?

Posso me arriscar e comparar dizendo que Os Cantos, deliberadamente, está para a epopéia da desordem, do desconexo, do fragmentário, do labiríntico e do caótico — crendo eu que era exatamente essa a intenção de Pound —, assim como Os Peãs está para inventário e reordenação do cosmo de uma árvore genealógica, os Mourões, com uma certa ênfase testicular e boa dose de testosterona para os machos da casa? Penso que a diferença é que Mourão tratou da ordem interna, familiar, doméstica, enquanto Pound se lançou, até com funestas conseqüências para si próprio, ao largo de uma América essencialmente caótica — a par com as conturbações do mundo —, que ele intentou colocar numa esdrúxula e poética epopéia. Deixa estar, mestre Affonso: Os Cantos, como tal, por bem ou por mal, é a coroa de glória de Ezra Pound, e ninguém conseguirá tirar isso dele.

Há quem veja reflexos dos ensinamentos de Pound no rigor poético de João Cabral de Melo Neto. Está dito que “o texto literário tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassado” (Celina Bruniera,  UOL Educação). Leio isso e penso nos cantos de Ezra Pound. Sem dúvida que o fascismo de Pound é um caso à parte, a ser esmiuçado em profundidade, e quem se habilita? Ezra Pound é reconhecido por muita gente abalizada, sendo apontado como poeta, ensaísta de grande erudição e um dos expoentes do movimento modernista da poesia do início do século XX. Isso deveria bastar, não fosse agora o instigante ensaio do professor Affonso Romano de Sant´Anna, cuja leitura indiquei ao poeta Carlos Willian e ele também estranhou o tom — “arrogante” — do autor. Vai ver, Carlos Willian, estamos equivocados e pagando mico, muito “abaixo das lições do mestre”. Acha que devemos comprar um desconfiômetro?

Em que pese a pertinência dos argumentos do mestre Affonso, penso que Os Cantos é um prumo pênsil na poesia moderna, um monumento de consagração do desconexo, (uni)verso desconjuntado de seu eixo, e, contudo, móvel. Eppur si muove, como diria Galileu. Uma obra para fruição da desordem do caos “ordenado” por Pound. A obra e o homem. Ezra Pound é o nome, e o nome é o cara. Imperfeito, Os Cantos? Longe de mim, para justificar Pound e seus “pecados” poéticos, lançar mão do refrão pelo qual errar é humano; por certo que o certo é não persistir no erro — persistir é burrice —, como é certo, sim, atentar-se para as “faltas que não devem ser copiadas e aquelas virtudes que reproduzidas se tornam anacrônicas”, como afirma Eliot e o professor Affonso utiliza em seu ensaio. Mas, olha só, que coisa curiosa, a título de reflexão: Deus, o Verbo, criou o homem, e se arrependeu, depois, de havê-lo criado (está escrito). Contudo, não reparou a sua obra, nem a destruiu, como seria de se esperar. O criador não conjugou o verbo no modo mais-que-perfeito. E assim os homens são os cantos defeituosos de Deus. E Deus preservou o homem, este que, hoje, por si mesmo se destrói. Pobre homem! Pobre Alphonsus! “Ó Bartleby, ó humanidade!” (Herman Melville). Já publiquei, em livro, que perfeito é o pássaro, voando em círculos.

Também ensaísta, Ezra Pound publicou Arte da Poesia (edições Cultrix, no Brasil), e vale a pena ler de novo alguma coisa do que ele ensina, como, por exemplo, isto: “Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas.”

Sintomático, isso aí, poderia dizer mestre Affonso, olhando de esguelha para Os Cantos. Certo é que essas recomendações de Pound são pertinentes no Brasil — para ficarmos só em casa —, onde muita gente equivocada ou ignorante — pretensos ou pseudopoetas, e até professores universitários —, escreve longos e indigestos textos em prosa, inclusive ensaios, divide-os em forma de versos e publica em livro como sendo poesia. Fala, Goiás!

O que fazer de Affonso Romano de Sant´Anna?  Poeta critica poeta, mas então não se deve também começar por criticar a própria obra?  No ano passado, reli, com boa dose de prazer, toda a poesia de Affonso, aproveitando as edições de bolso da L&PM, e estou relendo Os Cantos — tenho duas edições diferentes, da mesma editora —, suficientemente para dizer que, entre uma obra e outra, eu levaria para uma ilha a “excessiva, discursiva, cansativa, confusa, obscura e banal” obra de Ezra Pound. A ir-se por aí, só falta dizer que Os Cantos é uma obra aleijada. Talvez seja por isso mesmo, por tudo que ela é e sempre será, inclusive pelo que ela possa levar-nos a refletir por conta dos equívocos ideológicos de Pound — seu lado fascista —, que o fizeram cair em desgraça, contaminando a sua poesia; talvez seja por tudo isso que a obra Os Cantos tem uma data de publicação, mas não morre, nunca se torna ultrapassada, antes se coloca como um perene objeto de estudos mais aprofundados. Da mesma forma, o poema Que país é este, de Affonso Romano, pelo que representa em termos de época — com a sua data de publicação — e pelo que o poema implica de histórico e verdadeiro, sobretudo para os que estiveram por lá, in illo tempore — nos anos de chumbo —, e atestam o que o poema diz. Ainda assim, entre os poemas reunidos de Affonso Romano de Sant´Anna e Os Cantos de Ezra Pound, fico com estes e vou cantar em outra freguesia.


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POR EM 17/11/2008 ÀS 05:37 PM

Lição de casa com auto-retrato

publicado em


 

Sou
um brigão
brincalhão,
por isso mesmo
 "perigoso".
Não tolero
adversário
melindroso,
que não agüenta
uma indireta
verbal.
Imagine
se lhe acerto
uma direta
fatal.
Ele se
desconjunta
no chão,
com a sua cara
de chorão.
 
Eu,
cá com os meus
brinquedos,
se me quebro,
cato meus cacos,
passo iodo,
remendo-me
com esparadrapo;
me recomponho
e me ponho
de novo  no palco  
da contendas.
 
Eu
Sou
Eu
Ego sum
qui sum,
 e não sou
nenhum
Deus.
São meus
os esfolados
joelhos
dos caídos
e levantados,
que sempre me levanto
com o sol
que se põe.
 
Olha
nos meus
olhos:
as minhas
meninas
dos olhos
brincam
com o menino
ainda
em mim
(tanto assim, que não morri).
 
A vida
foi que me fez
assim,
o que sou
de mim.
 
Aprenda-se
comigo,
que me aprendo
com a vida,
e não me
arrependo
de mim,
senão quando
fujo-me,
cão sabujo,
e me escondo
nos escombros
da briga
em que
 eu mesmo
me bati.
 
Contudo,
enfrento-me.
Contundo-me
no confronto
 comigo
mesmo.
Me expurgo
 e descubro
o vezo
inimigo
que me quebra:
o ego.
 
Valdevinos,
perdulário,
estróina,
doidivanas,
vagabundo,
como  se lê
no dicionário.
 
Um retrato
em preto
e branco
do meu
esqueleto.
Colorido,
tenho de meu
o espírito
extrovertido.
Sou amado,
odiado,
conforme seja
o bom sentido
ou verde inveja
do mau-olhado,
olho gordo
e virago,
de olho
nos meus
troféus.
 
Inimigos
meus
ficam aí
no ora-veja,
chovendo
no molhado
e se roendo
por dentro.
Eu bebo,
comigo  
e meus amigos,
a sinceridade
da boa cerveja
na mesa
da amizade.
 
À beira
do perigo,
no abismo
do ego,
persigo-me
como quem
persegue
a égua
 do inimigo.
 
A melhor
briga,
a briga
que me
obriga
 pra valer,  
é só comigo.
A saber,
ao fim,
o que há
 de pior
e de melhor
em mim.
 
Quero
o melhor
pra mim,
a parte inteira
de mim,
depurada
do que há
de ruim,
e assim
me repartir

com a vida.
 


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POR EM 12/11/2008 ÀS 12:02 PM

Raso mergulho no mar profundo

publicado em

Um mar profundo, em cujas águas nem todos logram ir a fundo - complexa treliça de algas submersas -, Fernando Pessoa não se põe facilmente ao alcance de todos. Há que ter olhos de lince, de longo alcance ou abrangência; há que olhar/ler com a pinça da percepção; há que captar as cintilâncias de tanta beleza. Beleza de luz. Um tesouro nas profundezas, que se revela multiforme, encanta, seduz, suscitando outros e outros mergulhos. Não é por menos que muitos poetas, deslumbrados com o que reluz em profundidade, se vejam presas deste fascínio, subjacente nos versos que trazem à luz das influências.

Os exemplos, não carece muito esforço para se buscá-los, bastando as minudências que pontilham não só a poesia dos "principiantes", mas também a dos poetas de renome, como Cecília Meireles, que escreveu "Motivo", ao que parece, bebendo no poema XLVII de "O Guardador de Rebanhos", onde Pessoa usa o heterônimo Alberto Caeiro. A poeta escande o verso "não sou alegre nem sou triste", enquanto Caeiro já nos dera "não estou alegre nem triste".

Neide Arcanjo, no livro "Escavações", usou "no que me falha ou cinde", à semelhança de Pessoa: "o que me falha ou cinde". Carlos Osório (vivia em Brasília), em seu "Rebanho de Ventos", lembra o poeta português, notadamente a temática cristã de Alberto Caeiro - vide "O Guardador de Rebanhos". E assim em poetas mais recentes. E vamos por aí afora, "ontem, como hoje, como amanhã, como depois", como intitula-se um conto de Bernardo Elis. Com isso queremos dizer que os poetas não se livram das boas influências - nem das más, se delas não têm consciência -, essa "angústia fingidora", digamos assim, pois nem todos se angustiam deveras, nos moldes propostos por Harold Bloom. Já o próprio Fernando Pessoa dizia que o poeta é um fingidor. E poetas há, até, que adoram "influências", no sentido "espongiário" (chupão), como os denomino.

Poetas há que bebem da fonte e, a seu modo, são "continuadores", e não meros "repetidores", e muito menos "diluidores", para utilizar-se aqui a classificação de Ezra Pound. Além deste ponto, os que nada acrescentam são os medíocres e patéticos, incluídos os que não criam e se metem a críticos. Estes os mais ridículos, movidos por suas frustrações à falta de talento, e pela inveja, pelo despeito, se lhes sobeja pobreza de espírito. Bem poderiam um pouco mais conhecerem-se a si mesmos, começando pela leitura da obra clássica O Homem Medíocre, de José Ingenieros. Um banho de luz e de "descarrego" dos maus fluidos. Fora disso, só mesmo uma sessão espírita, de doutrinamento dos maus espíritos, ou uma dança de chapéus pretos num pacto com Mefisto, no redemoinho da encruzilhada e no meio da madrugada. Mas, para isso, hay que tener saquito.

Ler e reler Pessoa, tanto quanto mais, é mais e melhor conhecer e aproximar-se de Fernando em "Pessoa", e de suas pessoas, tantas quantas na soma de seus heterônimos. O homem homônimo de si mesmo na multidão de anônimos. E aí a solidão de Fernando Pessoa. Da pessoa de Fernando. E aí os mergulhos nas profundezas e sutilezas das palavras. Neste poeta, o desenraizamento dos lugares-comuns, condicionados na mentalidade humana, leva-nos a participar do questionamento desmi(s)tificador que propicia uma visão filosófica em relação á objetividade e à subjetividade das coisas.

"Falar em alma das pedras, das flores, dos rios / É falar de si própri o e dos seus falsos pensamentos. // Porque o único sentido oculto das coisas / É elas não terem sentido oculto nenhum. // As coisas não têm significação: têm existência. / As coisas são o único sentido oculto das coisas."

Isso é Pessoa. Momentos como esses, ricos e transformadores do mundo aos nossos olhos, revelando o que o mundo realmente é e nem todo mundo percebe ou quer saber (o mal de muitos é não querer); momentos assim abundam em Fernando Pessoa, e requerem do leitor a pausa da reflexão para o entendimento, se a tanto chegar. Um mar profundo, nem sempre acessível aos rasos mergulhos tão próprios do espírito contemporâneo.

No que me diz respeito - a mim, particularmente -, e do que pouco sei, o que sei, a fundo? "Só sei que nada sei" senão o que sei sobre Sócrates, que recomendou ao homem conhecer-se a si mesmo. Só sei que me procuro, bem aqui, que é onde realmente me encontro, nos sargaços de minhas serpentinas, sinuosas aliterações. Neste raso mergulho em mar profundo. 


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