Desenho de  Wendy MacNaughton
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Valdivino Braz

POR EM 05/01/2010 ÀS 01:19 PM

Marcados para morrer

publicado em

Revista BulaNa sangrenta realidade do país, amontoam-se os corpos de menores assassinados, de uma forma ou de outra. São meninos e quase meninos ainda, longe dos lares, da escola e do sadio lazer que lhes é devido. São os meninos do Brasil. E como lhes será o ano de 2010? Será apenas mais um Ano da Copa? Ou mais um ano eleitoral que nada lhes dá? Mais um ano negro, que lhes rouba a infância, e com ela a vida e o futuro? 

As notícias diárias sempre falam em tantos ou quantos os números de mortes, mas o número exato nem sempre se divulga, podendo alterar-se a cada momento, para mais, infelizmente, porque os jovens enveredam-se por caminhos abissais, muitas vezes sem volta. 

Múltiplos os crimes de pedofilia, de rituais satânicos, de pais que espancam até a morte, mas o envolvimento com o tráfico de drogas é apontado como o principal motivo. E são filhos de famílias pobres — de miseráveis periferias —, mas há também os de classe média e de classe alta; no inferno das drogas, os ricos também morrem, sem piedade —  não há exceções. 

As pobres famílias, impotentes, despreparadas, padecentes de uma estrutura familiar em derrisão, clamam e choram em vão numa sociedade degradada pelos vícios — álcool, drogas e outros produtos nocivos —, como gritam pela falta de ética,  e pela injusta e desumana distribuição de renda. Veja-se aí, por exemplo, o crime do salário mínimo, o maior desse país, enquanto os parlamentares, supostos representantes do povo, mais advogam em causa própria e têm vencimentos milionários, fora o que vem por fora. Ainda assim, alguns deles, os desonesos, lesam os cofres públicos, com o aval da impunidade, e até — desgraça das desgraças — com alguma ajudazinha “legal”, à sombra da letra das leis. 


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POR EM 02/01/2010 ÀS 06:19 PM

Frio, sombrio e vazio

publicado em

Foi assim o primeiro dia de 2010, passados os momentos de euforia da contagem regressiva e da virada do ano. Janeiro se inicia. Cadê todo mundo?, podia-se perguntar naquele primeiro dia do ano, como num conto de Reymond Carver, contido no livro “Iniciantes”, que se recomenda e se encontra nas livrarias. Com a virada do ano, veio a virada das águas. Tempo chuvoso, dia sombrio, cidade vazia, silêncio. Salvo umas sobras babacas de foguetes, peidando o dia inteiro e apavorando os pobres cachorros de todo mundo, cujo sistema auditivo não suporta estouros de bomba, cães  havendo que até sofrem parada cardíaca e morrem. No mais, naquele dia, nem buzinas, nem risos, nem relinchos, seres humanos havendo que relincham ao invés de rir. Uma gente quadrúpede, se estão me entendendo, oriunda dos estábulos nas trevas da ignorância, bufando e escoiceando com a sua peculiar estupidez. Pois é com algumas pessoas assim, em meio às de melhor qualidade, que vamos atravessar 2010. Se me dizem que ninguém é melhor do que ninguém, ouso exibir meu sorriso de desdém. Por outro lado, sustento que, malgrado as diferenças, todos os homens se igualam no vaso sanitário e no caixão. A convulsão dos elementos. Toda a água do mundo. Um céu cinzento, cambiante a negro. Mortes no Rio. Ilha Grande. Angra dos Reis. Morro da Carioca. Morro abaixo às toneladas. A terra e as pedras da destruição. Com água e tudo. Quebra, fragmentação, soterramento. Casas, vidas e utensílios. Moradores e turistas. Jovens, adultos, idosos, crianças. Todos. Funesto “Réveillon”. Um dia muito triste. Um desses que parece mesmo sem Deus. A ausência Dele. E uma dor que perdura, tão dura de suportar quanto o peso da terra e das rochas morro abaixo. O primeiro dia do novo ano. Parido com muita dor, pela hora da morte, sob o manto negro da noite. Um dia que, aceso pelos fogos, haveria de vir luminoso como o sol que seria de trazer para toda a humanidade. Mas não foi assim que ele veio, como assim não foi que ele chegou. 


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POR EM 26/12/2009 ÀS 03:50 PM

Uma cópula de crápulas da cúpula

publicado em

Eduardo SuplicyBem que este 2009 poderia ter sido melhor para o povo brasileiro, mas não foi, infelizmente, e muito por conta do descarado, cínico e vergonhoso processo de corrupção em vigor no País, onde as flagrantes e contundentes imagens não falam por si, não dizem nada e, logo, não valem nada, pois não provam coisa nenhuma. Sábias palavras, se aqui não nos censuram o gostinho da ironia. Convenhamos que é preciso ter “coragem” para, sem nenhum rubor nas faces, afirmar isso aos olhos e ouvidos do mundo, negar o fato concreto que cai como um bloco de cimento em cima do povo, enquanto as manchetes da imprensa local e internacional estampam os fatos incontestáveis, repercutindo a sordidez da política brasileira. É fatal: se alguém é denunciado, logo vem com ameaças: se ele cair, outros cairão com ele. E sempre funciona, pois a sujeira é de longo alcance: a falcatrua então se encaminha para o pazzaiolo, cuide ele do serviço sujo da “limpeza”. A quebra da ética com a coisa pública, com efeito, varou o ano inteiro e chega neste dezembro como um indesejado presente, ou melhor, um abominável pacote de sujeira, lama, descaramento de homens públicos e, o que é pior, quase sempre com a pizza da impunidade e da galhofa, fazendo pouco até da justiça, zombando do cidadão, do eleitor, do contribuinte, do patriota abalado em seu sentimento pátrio. Haja vista o gozo, a cópula de crápulas da cúpula ao cúmulo de se orar agradecendo a Deus pelos frutos do roubo. Vale aqui o velho bordão: que país é esse? E que homens são esses? A que ponto chegou a cretinice neste macunaímico Brasil! O mau-caratismo grassa a granel, enfiando dinheiro sujo na mala, na bolsa, na cueca, nas meias e sabe-se lá onde mais ele se enfia, não raro com as brechas das leis, com o mexer dos pauzinhos, com o safado “jeitinho brasileiro”, até com alguma conivência ou conveniência de setores dos poderes constituídos. 


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POR EM 15/12/2009 ÀS 10:35 AM

Meu caso com a Voltswatt

publicado em

Nos idos de 2003, a indústria automobilística Voltswatt lançou um concurso nacional de contos, com o tema "Meu Caso com a Volts", em busca de histórias incríveis, envolvendo veículos seus. Dizia que há sempre um caso interessante, original e inusitado, tendo como personagem um modelo Voltswatt, e a indústria queria conhecer a história de cada concorrente, a saber como os carros da marca interagiam com a vida da pessoa, no caso a protagonista do fato. E o fato poderia ser dramático, divertido, místico, familiar, sentimental ou profissional. Valia tudo, desde que verídico e narrado com talento literário, no limite entre vinte e quarenta linhas de texto. 

Os 50 melhores trabalhos receberiam prêmios especiais, entre eles três automóveis do ano, zero quilômetro, nos modelos Sedan,  Turbo e Power, aos três primeiros colocados, e um home theater — receiver + DVD player integrados + cinco caixas de som e um subwoofer de marca e modelo que seriam definidos pela Voltswatt — para cada um dos outros 47 classificados. 


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POR EM 08/12/2009 ÀS 07:38 PM

Parente da vítima

publicado em

Olhos acesos e afoitos e aflitos, como se perdidos na noite, são faróis de veículos diversos, indo — para onde? —  e vindo — para quê? Para a demanda que há entre viver e morrer. Vaga-lumes nos calcanhares, os tênis iluminados dos meninos, com o pai e a mãe no bar da esquina. Os casais nas mesas, alguns aos beijos, outros falando mal de seus pais e parentes. As línguas feito víboras, difamando a família, botando o dedo na ferida dos defeitos, expondo em público a roupa suja da privacidade doméstica, depreciando a mobília, “ripando a lenha” nos amigos, porque isso, porque aquilo, de fulano e de fulana. Falando e falando, reclamando do churrasco que não deu certo no sábado, comentando os arranjos de samambaias na sacada do apartamento, lamentando pelo lindo par de sandálias que se deixou de comprar no shopping e se arrependeu. Essa gente corriqueira, com o trivial de sempre. Essas vidinhas previsíveis, com as futilidades da existência. 

E ali a churrasqueira fumegante, o fumaceiro, o cheiro de carne assada, e ali os cães famintos, os olhos suplicantes, comendo a fome com a vontade de tanta gente no bar dos espetinhos. Homens e cães famintos, mas ali homem nenhum se trisca a jogar um pedaço de churrasco aos olhos caninos da súplica. O cão de estimação é o melhor amigo do homem. O egoísmo do homem é inimigo de outro cão que não seja o seu. O cão-mendigo não tem amigo. Ferinas as línguas humanas; excretam veneno ao que salivam. A fome é canina, e os cães vadios,  silenciosamente, imploram — parece que choram — pela carne. Padecem de fome, os tristes cães sem dono e sem nome, que vivem nas ruas do abandono. Mas não lhes falta, conquanto ocasionalmente — por não ser assídua presença no ambiente, obviamente não é frequente —, alguém que se compadeça e reparta a carne do espeto. Alguém que conheço e que sempre oferece pedaços da carne avulsa. Sempre se comove, e ainda que possa o dono do bar desaprovar o gesto, pois o cão à roda das mesas incomoda os fregueses — incomodam muito mais os olhos pidões do triste cão! —, a ínclita pessoa insiste, pois sente que a carne incha e perde o gosto em sua boca.  


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POR EM 26/11/2009 ÀS 05:14 PM

O Rancho Apaloosa e a égua do Abelardo

publicado em

O morto rico, bem-vestido num caixão dourado; os olhos vítreos, mal-fechados para o mundo. O funeral, o velório, o pranto, tudo televisado, na sala da consternação. Todos ali muito consternados, e tudo documentado, porquanto bem-conceituado o estimado cidadão. A viúva Hipólita, fingida — choraminfungando-se desatenta, senão que se fazendo de esquecida de toda a gente à sua volta —, ajeita a gravata do Abelardo, seu morto marido, pega o estereótipo do bordão social e paga o mico ao que lhe vai dizendo: Sorria, querido; você está sendo filmado, amor da minha vida. 

Com a finesse desse mico — sim, porque gente fina é  feita de marfim —, não há que se omita, em horas tão distintas e defuntas, o sorriso de solidariedade às gafes e mortes da sociedade. Mas o cadáver, por que sorri, o miserável? Fútil, frívola, volúvel, colunável, Hipólita ainda não sabe, mas ele não lhe deixou nada desta vida, nem mesmo a casa em que ela vive, pois foi vendida em segredo. O grana da venda, ele esbanjou toda, gozando a vida com garotas de programa, dissoluto e generoso, até pagando em dobro o que lhe era cobrado. 


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POR EM 12/11/2009 ÀS 08:08 PM

Não morro de amores por Brasília

publicado em

Nicolas BehrPara Nicolas Behr 


Brasília

foi meu exílio voluntário,

por volta do anos 60 e pouco,

ou pelos 70

— já não sei ao certo —,

quando saí à procura

de outros ares

e me dei com pedra,

quadras e blocos e becos

de um tempo seco

e poeirento.


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POR EM 06/11/2009 ÀS 11:18 PM

Da crítica exacerbada e da percepção estrábica

publicado em

homem_comprimidoEventos Pastelaria. Saborosos pastéis de vento e sopro, fritos na hora. Entre, prove, confira. Sinta no rosto o bafor ao sabor do nada dentro do pastel empapuçado. Mas então o nada não é o vento que há lá dentro? Opa! Ó paí ó! Não é este o assunto. Afasta de mim o homem do megafone, apregoando pastel de vento. Sai do meio, recheio! 

Antes de prosseguir, afixo o aviso aos navegantes do Nautilus, a lâmina prateada dos oceanos e do capitão Nemo — “Vinte mil léguas submarinas”, de Julio Verne —, bem como aos internautas da nave Bula, visitantes e colegas: o texto que se segue é longo, sujeito a mutucas e pernilongos. E o bafo quente por aqui é outro, quente que andou o tempo num entrevero de linhas cruzadas — bu(r)lesco episódio — em que os contendores iam de meros comentários ao tirocínio de seus talentos, que cada um os tem a seu tanto, alguns mais, outros menos; já outros, por certo, movidos por inconfessas idiossincrasias de foro íntimo, parece que um despeito próprio de mentes incultas, ou menos cultas. Uma gente pequena e complexada no rodapé de seu pobre intelecto; uma sombra esperneando-se na obscuridade da massa cinzenta. De alto ou mediano talento, e de outros nem tanto, o que às vezes falta é o mútuo respeito, equilibrado pela consideração dos limites — tanto intelectuais quanto morais —, ponderado pelo bom senso de cada um, aparadas as arestas das diferenças, sopesada a intempestividade, contido o explosivo temperamentalismo. 

À parte a crassa ignorância, que a essa não é mesmo de se respeitar — nem há como ela própria (com moela, galinha cega) se dar o devido respeito —, conquanto ser de se levar em conta por alguma tolerância, mas sendo de ressalvar-se, todavia, que também a tolerância tem limite; nem por isso partir para a barbárie verbal, que só faz rebaixar ainda mais o nível dos debates. A questão crucial é: como contornar a cega ignorâcia, que prescinde do aprendizado e persiste na burrice, na idiotice, primando pelo patético, pelo ridículo, apenas pelo prazer do espírito de contradição? Ó trevas! Haja sabedoria! Corolário do conhecimento. 


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POR EM 26/09/2009 ÀS 09:46 AM

Passageiros da agonia: itinerário do inferno

publicado em

Estamos aqui no ponto de ônibus, esperando. Ainda esperando o que não vem, o que demora a vir. Não estamos esperando Godot, aquele que nunca vem, como na peça teatral de Samuel Beckett. Esperamos os ônibus, deles havendo que demoram tanto, a ponto de algumas pessoas dormirem no ponto, literalmente. Ou então perderem o transporte porque não se agilizam suficientemente para nele embarcar, já que os motoristas, por vezes, não esperam muito; correm contra o tempo, de forma estressante, portanto não têm tempo a perder com o maldito usuário. Pois que fique para trás e espere pelo próximo ônibus, possivelmente com o mesmo (des)nível de atendimento.

Não somos ninguém, somos apenas os usuários que pagam pelo transporte coletivo e dão lucro às empresas que exploram o setor, e nele atuam mal. Há anos, há décadas, ouvimos promessas de palanque, garantindo que vão melhorar, humanizar o transporte urbano. E nada, ou quase nada, porquanto alguma coisa se faz, porém nunca de forma algo mais definitiva e satisfatoriamente mais eficiente, conforme a demanda e as exigências de uma capital como Goiânia. Cidade que se incha de gente a cada dia, como as bochechas de dentes estragados e inflamados, de permeio com os dentes sãos, se é que nos acompanham a indelicada comparação.

Sim, porque vem gente de toda parte e de toda sorte, de boa índole e de má índole — ladrões, assaltantes, assassinos, traficantes, sequestradores, pedófilos, estupradores —, além dos que vêm corridos do desemprego em seus estados, e ainda certos tipos malandros, aplicando o golpe do bilhete premiado, do cheque perdido, do medicamento falsificado que “cura” câncer. “Vá que cola”, como diz o humorista televisivo, e o pior é que cola, pois gente incauta é o que não falta. Dinheiro de otário é matula de malandro, diz um velho ditado. Outros aplicam o cartão clonado ou dispositivo para furtos em caixas eletrônicos. E há também o golpe da bebida “preparada”, dita “Boa noite, Cinderela”, coquetel de drogas que deixa a vítima à mercê do bandido, podendo que seja ladrão ou tarado. Os desprevenidos que se cuidem. Mantenham-se lúcidos e zelem de seus pertences — carro, dinheiro, jóias, relógios, celulares, até roupas, calçados e outros objetos —, bem como de sua integridade física: o corpo, seu maior patrimônio, e seu último reduto.

Sem falar naqueles pés-de-chinelo que, sonhando com o Eldorado das propagandas oficiais, chegam caçando chifre em cabeça de égua, buscando o que não existe em Goiás, conquanto ainda tratar-se de um Estado de mentalidade agropastoril, com o seu “jeito nelore de ser”. Chifre em cabeça de égua, por aqui não se encontra, salvo se esteja em andamento algum secreto projeto genético; mas chifre em testa de homem, bem pode que encontre, compadre, e do tamanho de um berrante. Dá até um meio trocadilho: chifre em testa de corno. Um e outro termo, a mesma coisa, com o mesmo significado. Ah, vem ali o nosso ônibus! Até que enfim.

Tem ônibus que demora e passa da hora de passar no ponto, e tem hora em que os ônibus chegam em bando de cinco, amontoados — e de dois a três da mesma linha —, porém já superlotados. A má qualidade tem sido, de forma irritante, uma constante no setor de transporte de massa — massa de manobra em épocas de eleição. Certo, algo se faz, está se fazendo, mas não está sendo bem feito, apresenta seus defeitos. Dirão que isso é natural, que faz parte do processo de melhoria. É certo que sempre há uma peça com defeito, mas há defeitos que se apresentam como aberração. Exemplos? Buscai e encontrareis. Trocai a peça defeituosa.
 
Na qualidade de usuários, se é que temos alguma qualidade, e se é que isso importa aos governantes e às empresas de ônibus, podemos afirmar — aliás, neste aspecto, ninguém melhor do que nós para fazê-lo —: o transporte urbano em Goiânia, como de resto em outras capitais do País, é o caixão coletivo dos mortos-vivos, e mortos porque indignados em vão, à míngua de uma solução verdadeira. Indignação mata aos poucos, assim como o estresse, a injustiça e a má distribuição de renda — mísero salário ao trabalhador explorado, socialmente espoliado; milionários proventos e privilégios aos demais, componentes e adjacências das elites dominantes, social, economica e politicamente falando.

A “solução”, a contradição, o contra-senso no transporte coletivo é quase uma aberração: colocar veículos especiais  para a elite ou gente de “classe média”, disposta a pagar R$ 3,50 ou R$ 4 reais pela passagem e pelo conforto, e estamos falando de classe média “alta” ou “baixa” — de médio poder aquisitivo —, porque a classe alta, propriamente dita, não vai, nunca, deixar o conforto de seu carro na garagem, para circular com transporte de massa. Até porque a classe alta vai bem, obrigado, e está se lixando para questões como o caos no trânsito urbano, poluição do meio ambiente e precariedade do transporte coletivo.

Colocassem mais ônibus para os pobres, os periféricos, os trabalhadores, mormente em horários de pico — nada a ver com seringa —; acabassem com a infernal superlotação; obrigassem às empressas a andarem na risca dos contratos; contemplassem os que, no corre-corre da sobrevivência, necessitam, com maior ênfase, do transporte, ao invés de veículos especiais que circulam vazios, a mais das vezes.

Particularmente, nunca vimos — não mesmo — um desses veículos cheios de passageiros; até nos perguntamos se eles não são contraproducentes e estejam dando prejuízo, e se as empresas ou responsáveis só os mantêm para não darem o braço a torcer, admitindo que a idéia não foi genial, por inoperante, improdutiva, típica de uma cabeça de girino. Se bem que não falte quem afirme que o transporte especial vai bem. Tudo bem se assim é se assim o querem, porque há que atender, sim, a todas as faixas da população; mas atente-se para o inferno cotidiano nas linhas de maior demanda. Experimentem, por um só dia, viajar num ônibus para lá de superlotado, com motoristas grosseiros, mal-educados, mal-humorados — têm eles as suas razões, os coitados — e dirigindo mal.

Vamos! Experimentem. Venham sentir o nosso desconforto, o nosso infinito sofrimento. Venham ver a miscigenação e a permuta de nossas bactérias, os nossos vírus — o vírus do Ipiranga, às margens plácidas —, quem sabe uma bela duma gripe suína. E cadê a vacina? Anunciou-se que o governo norte-americano está vacinando toda a população, e por que o Brasil não se vacina também? Esperando Godot? Esperando Jesus, que não volta? Esperando pela próxima pandemia? E Goiânia? Alguma notícia a mais sobre a vacina da Iquego? Além do mais — advinhem quem vem para o jantar? —, Dona Dengue aí vem e se aproxima, de novo, tão certo quanto o nosso já consanguíneo parentesco com o familiar Aedes aegipty, sendo de se perguntar se somos homens ou mosquitos.

O ônibus se locomove, aos trancos. Com abruptas freadas. O que se vê são seres humanos, supostos cidadãos no gozo de sua “cidadania”, realmente tratados como animais espremidos em coletivos superlotados, com um serviço ainda de má qualidade. Bois em caminhões-gaiola, levados ao frigorífico. Um problema contínuo, permanente, que não se soluciona. Até quando? Ficam aí com gastos astronômicos — certamente lucrativos, porque na política não se dá ponto sem nó e se dá nó em goteira, como se mostra na TV, todo santo dia — e medidas paliativas que logo se saturam, se congestionam, se estagnam. Até quando, conviver com tamanha problemática, essa do transporte urbano, em termos de ordem administrativa e social? Até morrer — a resposta que se tem, a perspectiva que se vislumbra.

É visto que as empresas não colocam o real número necessário de ônibus nas linhas; apenas, por conta das pressões, retiram alguns já sucateados, disponibilizam uma parte dos adquiridos e retêm os outros na garagem. Parece que assim vão enrolando aos governantes, empurrando com a barriga — só não tapeiam aos sofridos usuários. As autoridades que atuam (?) no sistema, ao que parece, deixam a coisa rolar, correr meio frouxa — eles se entendem, eles se ajudam, solidários —, sem uma severa e efetiva fiscalização e uma rígida exigência do cumprimento de qualidade e eficiência na prestação do serviço. Presteza, eficácia, eficiência são sinônimos de boa qualidade.

Se não é assim, como se nos afigura, por que será que estamos nervosos, amiúde caminhando — com doloroso esporão calcâneo e juanetes com ferroadas de dor —, de seis a sete quilômetros até nossas casas, por falta de mais ônibus nas horas de pico, num horário cansado, ao fim das tardes? Caminha-se por cerca de 40 a 50 minutos, sem que passe um só ônibus que não esteja superlotado e, por isso, nem para nos pontos. Se quiser chegar em casa mais cedo, até em função de outros compromissos, é a pé que se chega. Só nos falta o cinismo de virem nos dizer que caminhar faz bem, afeitos a cretinas respostas sempre que são cobrados pelos cidadãos. Por que a coisa não anda, não melhora? Por que os ônibus, nas horas cruciais, só circulam supercheios, no maior desconforto para os usuários, inclusive com alta velocidade em curvas fechadas, freadas bruscas e pessoas se machucando, com os motoristas correndo contra o horário e imposições das empresas? Queremos respostas sérias.

Crianças obrigadas a rastejar por baixo das catracas. Abominável humilhação. Constrangimento, sobretudo para as meninas, que, por certo, se espõem, com suas intimidades, a possíveis e desgraçados olhos curiosos, senão malignos. E que pais são esses aí, deixando que seus filhos pequenos rastejem feito répteis? Cadê o MP, para valer, em cima das empresas tão mesquinhas com as crianças? Que ganância é essa? Ninguém faz nada e fica nisso?  É preciso rever, de forma racional, o obstáculo embaixo das catracas, deliberadamente longos e colocado no sentido de dificultar/impedir a passagem de crianças, daí forçando-as a rastejar, sujando a roupa no assoalho do ônibus e se expondo aos olhos de estranhos passageiros. Precisam ver a expressão de alguns meninos e meninas, mais crescidos, que parecem entender a situação, meio que envergonhados aos olhos de pessoas estranhas. Um absurdo, sob as barbas das autoridades ditas competentes. Estatuto da Criança e do Adelescente... Pois sim!

Que nos desculpem o mau jeito, mas, por acaso, estão se limpando, no sanitário, com o Estatuto da Criança e do Adolescente? Deem-se o devido respeito e a devida dignidade à infância e à juventude. E onde ficam a defesa e os direitos do cidadão? E o próprio cidadão, os usuários do transporte, a massa, o povo, a sociedade, não gritam, não pressionam, não exigem mais presteza e melhor qualidade do serviço, inclusive mais amor e menos confiança com as crianças? Onde estão os representantes do povo, que os elegemos? Que se dê um basta a isso, lembrando, ainda, que o usuário é também um consumidor, já que paga pelo transporte, e aqui uma missão para a Promotoria de Defesa do Consumidor, conjuntamente com a do Cidadão. Claro, isso é padre-nosso para vigário. Mas... Há sempre um mas.

Inferno intestino, cotidiano, serviço desumano, misto de bichos e homens. Passageiros da agonia no itinerário do inferno, onde o demo é o sistema, superlotação, motoristas — salvo as exceções — sem o mínimo senso de civilidade no trabalho que exercem, no serviço que prestam à sociedade em que vivem, sendo pagos por isso. O bochicho público é que as empresas financiam campanhas eleitorais e depois, eleitos os fulanos, fazem o que bem querem. Não se quer acreditar que governantes sejam comprados. Falta vontade política? Falta mais empenho das autoridades no setor de transportes? Competência? Falta a Vossas Excelências mostrar quem é que manda administrativamente, e como é que deve ser para os setores funcionarem e as funções cumprirem-se a contento?

Os usuários, não sabemos de nada, senão que o transporte coletivo é mesmo a morte em vida. E  será, de fato, que os governos têm o rabo preso com as empresas, como se ouve dizer? Financiam elas as campanhas eleitorais, para depois terem retorno? Privilégios, tolerância, vista grossa diante do mau serviço? Afinal, quem é que realmente comanda  o setor? Cale a boca, Barnabé! Olha a represália! Somos apenas os passageiros da agonia; sexagenários, septagenários, octagenários, nonagenários, muitos de nós, com as mesmas idades dos pais dos nossos governantes, que certamente — os pais deles —, por razões óbvias, não passam pelo que passamos, não sofrem o que sofremos no interior de um coletivo. Respeitosamente, às vezes achamos que os governantes precisam de um corretivo legal, constitucionalmente legal, bem entendido.

Não somos nada, não somos ninguém, somos apenas usuários indignados; não passamos de contribuintes revoltados — sim, pagamos impostos —, somos tratados como otários e certamente nos acham com cara de palhaços, aqui esbravejando, gesticulando, reclamando, inutilmente. Ainda assim, exigimos uma resposta e insistimos numa solução concreta. Antes de 2010 — quando haverá choro de político e ranger de dentes por causa do voto —, já que o problema do transporte coletivo se protela por décadas e não se soluciona com meias-medidas. Temos dito. Nós, os usuários, somos também os eleitores, e é certo que existem algumas bestas entre nós, ainda achando que urna é penico. Mas vamos ver se — quem sabe — damos um jeito nisso, escolhendo melhor, votando melhor, até mesmo a título de mea culpa. Virão pedir o nosso voto, mesmo porque povo e político, depois dos mendigos, são os maiores pedintes do País.

Enquanto isso, o nobre e operante Ministério Público — de cuja equipe na assessoria de imprensa fizemos parte durante dez anos —, o MP, dizíamos, por meio da Promotoria de Defesa do Cidadão e da Promotoria de Defesa da Infância e Juventude — da Criança e do Adolescente —, atue persistente e ininterruptamente, até vencer a luta, por força das leis e pelo cansaço, no que diz respeito aos direitos do usuário — o cidadão — e das crianças. Há que insistir na incômoda questão da catraca, que, há coisa de alguns anos, já foi olhada pelo MP, tendo as empresas — não nos falhe a memória — firmado Termo de Compromisso com o órgão. Porém, com o abuso das empresas, a reincidência, o desrespeito à pessoa da criança, essa questão estagnou-se. A catraca foi esquecida, a justiça não se faz, os direitos não se cumprem; só se cobram os deveres, que os há também a cumprir.

Os digníssimos meritíssimos, os que julgam, dão pareceres ou vereditos, deferem ou indeferem, condenam e absolvem, e que também são pagos para agir, façam a sua parte quanto às ações impetradas pelos esforçados promotores de justiça. Se não por obrigação, adianta pedir por favor, pelo amor de Deus, pelo leite que mamaram em vossas santíssimas mães? Façam valer o que deve ser validado, porquanto válido. Obriguem as empresas de ônibus, sob os rigores da lei, a cumprirem o que está no papel, no contrato firmado com a sociedade, por meio dos governantes. Responsáveis, o Estado e o município, pela garantia do transporte de qualidade à população — assim como a saúde, a educação, a moradia, a segurança, o lazer etc. —, conforme reza a Constituição Brasileira, a Carta Magna, que, acima de qualquer outra — e de qualquer suspeita —, deve ser cumprida, sob pena de... Mas então não se penalizam ao Estado e ao município? Agora descemos do ônibus. Temos que pegar outro veículo: o Título de Eleitor. Grande coisa!...
 


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POR EM 19/09/2009 ÀS 08:52 AM

The dance of the intellect among words

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Gertrude, Gertrude, não me ponhas em bocas matildes, pois uma rosa é uma rosa, outra coisa uma glosa, logopéia para Ezra Loomis Pound, pífias epifanias para Jesse James Joyce. A rose is a rose já é feijão com arroz, ou vinícia rosa com cirrose, e mais vale um pombo de chumbo voando rumo a Plutão, do que a glória de doze césares com osteoporose na mão.
 
Nada de novo no frontispício das obras, além dos fátuos frangos de vanguarda e um telhado de urubus po(u)sando de pombo. Tudo redondo feito losango. O ovo é o óbvio, cozido ou cru. A rosa é a roça do povo, a pedra, a vida, no caminho de Drummond. Oui, oui, o trem já passou por aqui — object-trouvé, dèjá vu —, c´est la vie que nem sempre é toujurs, e vamos todos plantar chuchu.
 
Contudo, um punhado de dedos dados ao lance é olho de lince na pinça da percepção: trespassa a mesmice — insossas conversas difusas — e mostra com quantas volutas se dança a valsa na rosca do parafuso. Mais que asas à imaginação, dê-se imaginação às asas — quase a mesma coisa, salvo a pendular sutileza.
 
Há uma festa nos refolhos da rosa, na íris inquieta do prisma, no caleidoscópio das coisas — voilà!, la même chose. A dança da rosa na rosca vertiginosa — as formas da dissonância, in essentia — tergiversa e faz a diferença.
 
Em face do que se me oferece, passo dois dedos de prosa da província e suas diversas espécies de carrapatos, algumas carcaças de tatus-ninja, uma rima fácil e um verso-fóssil: troco pelo salto-mortal duma pipoca, e um pouco de sal no algodão-doce.
 
Oh, não me tomem por insolente, antes pela inquietude impertinente, ou pertinência da arte. Por cacos de bricabraque, a louça de quem brinca, Mandrake, e amiúde se corta. O corte, que importa, se a morte é a vida que nos brinca? E como figurar-se, de resto, num velório de moscas, quando se trata de uma festa que se começa onde acaba e se acaba onde começa? Riverrun, Dublin, firinfinfinnegan.
 
Se sabonete vale quanto pesa, e vale uma grosa doze dúzias, pese-me o que valha a grisalha glosa — o gozo do ferro-gusa —, e me guarde o velho anjo da vanguarda, ou valha-me zombeteira gralha. Bumerangue não me jogue grogue no ringue, com a groselha de uma droga. Não me beba o sangue nenhum sargento-buldogue, a soldo de um dogma, nem me afogue no mangue uma gangue de dobermanns, e não me comam as sobras os açougues da vida.
 
Minha vida é um brinquedo, meu nome é Jó Zezinho. Brinco na dança do intelecto, brinca o homem com o poeta, e o menino se completa. Depois, vira passarinho.  
 
Prefiguração de sombras
 
Coisas de Mefisto, o mago, o bruxo de feltro negro, aba que se quebra sobre uns olhos de fogo azulego, pupilas pontiagulhas. Manto de azeviche que se abre e cobre os ombros de Fausto; la tête avec le chapeau et le fleur de Mefisto. Sombras-salamandras no texto sinistro, rastros que se alastram em fios de sutache. Livro dos pactuados, os iniciados da noite, os namorados da morte. Vende-se um caixão usado. Longa vida aos suicidas, que só dormem acordados.


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