Estamos aqui no ponto de ônibus, esperando. Ainda esperando o que não vem, o que demora a vir. Não estamos esperando Godot, aquele que nunca vem, como na peça teatral de Samuel Beckett. Esperamos os ônibus, deles havendo que demoram tanto, a ponto de algumas pessoas dormirem no ponto, literalmente. Ou então perderem o transporte porque não se agilizam suficientemente para nele embarcar, já que os motoristas, por vezes, não esperam muito; correm contra o tempo, de forma estressante, portanto não têm tempo a perder com o maldito usuário. Pois que fique para trás e espere pelo próximo ônibus, possivelmente com o mesmo (des)nível de atendimento.
Não somos ninguém, somos apenas os usuários que pagam pelo transporte coletivo e dão lucro às empresas que exploram o setor, e nele atuam mal. Há anos, há décadas, ouvimos promessas de palanque, garantindo que vão melhorar, humanizar o transporte urbano. E nada, ou quase nada, porquanto alguma coisa se faz, porém nunca de forma algo mais definitiva e satisfatoriamente mais eficiente, conforme a demanda e as exigências de uma capital como Goiânia. Cidade que se incha de gente a cada dia, como as bochechas de dentes estragados e inflamados, de permeio com os dentes sãos, se é que nos acompanham a indelicada comparação.
Sim, porque vem gente de toda parte e de toda sorte, de boa índole e de má índole — ladrões, assaltantes, assassinos, traficantes, sequestradores, pedófilos, estupradores —, além dos que vêm corridos do desemprego em seus estados, e ainda certos tipos malandros, aplicando o golpe do bilhete premiado, do cheque perdido, do medicamento falsificado que “cura” câncer. “Vá que cola”, como diz o humorista televisivo, e o pior é que cola, pois gente incauta é o que não falta. Dinheiro de otário é matula de malandro, diz um velho ditado. Outros aplicam o cartão clonado ou dispositivo para furtos em caixas eletrônicos. E há também o golpe da bebida “preparada”, dita “Boa noite, Cinderela”, coquetel de drogas que deixa a vítima à mercê do bandido, podendo que seja ladrão ou tarado. Os desprevenidos que se cuidem. Mantenham-se lúcidos e zelem de seus pertences — carro, dinheiro, jóias, relógios, celulares, até roupas, calçados e outros objetos —, bem como de sua integridade física: o corpo, seu maior patrimônio, e seu último reduto.
Sem falar naqueles pés-de-chinelo que, sonhando com o Eldorado das propagandas oficiais, chegam caçando chifre em cabeça de égua, buscando o que não existe em Goiás, conquanto ainda tratar-se de um Estado de mentalidade agropastoril, com o seu “jeito nelore de ser”. Chifre em cabeça de égua, por aqui não se encontra, salvo se esteja em andamento algum secreto projeto genético; mas chifre em testa de homem, bem pode que encontre, compadre, e do tamanho de um berrante. Dá até um meio trocadilho: chifre em testa de corno. Um e outro termo, a mesma coisa, com o mesmo significado. Ah, vem ali o nosso ônibus! Até que enfim.
Tem ônibus que demora e passa da hora de passar no ponto, e tem hora em que os ônibus chegam em bando de cinco, amontoados — e de dois a três da mesma linha —, porém já superlotados. A má qualidade tem sido, de forma irritante, uma constante no setor de transporte de massa — massa de manobra em épocas de eleição. Certo, algo se faz, está se fazendo, mas não está sendo bem feito, apresenta seus defeitos. Dirão que isso é natural, que faz parte do processo de melhoria. É certo que sempre há uma peça com defeito, mas há defeitos que se apresentam como aberração. Exemplos? Buscai e encontrareis. Trocai a peça defeituosa.
Na qualidade de usuários, se é que temos alguma qualidade, e se é que isso importa aos governantes e às empresas de ônibus, podemos afirmar — aliás, neste aspecto, ninguém melhor do que nós para fazê-lo —: o transporte urbano em Goiânia, como de resto em outras capitais do País, é o caixão coletivo dos mortos-vivos, e mortos porque indignados em vão, à míngua de uma solução verdadeira. Indignação mata aos poucos, assim como o estresse, a injustiça e a má distribuição de renda — mísero salário ao trabalhador explorado, socialmente espoliado; milionários proventos e privilégios aos demais, componentes e adjacências das elites dominantes, social, economica e politicamente falando.
A “solução”, a contradição, o contra-senso no transporte coletivo é quase uma aberração: colocar veículos especiais para a elite ou gente de “classe média”, disposta a pagar R$ 3,50 ou R$ 4 reais pela passagem e pelo conforto, e estamos falando de classe média “alta” ou “baixa” — de médio poder aquisitivo —, porque a classe alta, propriamente dita, não vai, nunca, deixar o conforto de seu carro na garagem, para circular com transporte de massa. Até porque a classe alta vai bem, obrigado, e está se lixando para questões como o caos no trânsito urbano, poluição do meio ambiente e precariedade do transporte coletivo.
Colocassem mais ônibus para os pobres, os periféricos, os trabalhadores, mormente em horários de pico — nada a ver com seringa —; acabassem com a infernal superlotação; obrigassem às empressas a andarem na risca dos contratos; contemplassem os que, no corre-corre da sobrevivência, necessitam, com maior ênfase, do transporte, ao invés de veículos especiais que circulam vazios, a mais das vezes.
Particularmente, nunca vimos — não mesmo — um desses veículos cheios de passageiros; até nos perguntamos se eles não são contraproducentes e estejam dando prejuízo, e se as empresas ou responsáveis só os mantêm para não darem o braço a torcer, admitindo que a idéia não foi genial, por inoperante, improdutiva, típica de uma cabeça de girino. Se bem que não falte quem afirme que o transporte especial vai bem. Tudo bem se assim é se assim o querem, porque há que atender, sim, a todas as faixas da população; mas atente-se para o inferno cotidiano nas linhas de maior demanda. Experimentem, por um só dia, viajar num ônibus para lá de superlotado, com motoristas grosseiros, mal-educados, mal-humorados — têm eles as suas razões, os coitados — e dirigindo mal.
Vamos! Experimentem. Venham sentir o nosso desconforto, o nosso infinito sofrimento. Venham ver a miscigenação e a permuta de nossas bactérias, os nossos vírus — o vírus do Ipiranga, às margens plácidas —, quem sabe uma bela duma gripe suína. E cadê a vacina? Anunciou-se que o governo norte-americano está vacinando toda a população, e por que o Brasil não se vacina também? Esperando Godot? Esperando Jesus, que não volta? Esperando pela próxima pandemia? E Goiânia? Alguma notícia a mais sobre a vacina da Iquego? Além do mais — advinhem quem vem para o jantar? —, Dona Dengue aí vem e se aproxima, de novo, tão certo quanto o nosso já consanguíneo parentesco com o familiar Aedes aegipty, sendo de se perguntar se somos homens ou mosquitos.
O ônibus se locomove, aos trancos. Com abruptas freadas. O que se vê são seres humanos, supostos cidadãos no gozo de sua “cidadania”, realmente tratados como animais espremidos em coletivos superlotados, com um serviço ainda de má qualidade. Bois em caminhões-gaiola, levados ao frigorífico. Um problema contínuo, permanente, que não se soluciona. Até quando? Ficam aí com gastos astronômicos — certamente lucrativos, porque na política não se dá ponto sem nó e se dá nó em goteira, como se mostra na TV, todo santo dia — e medidas paliativas que logo se saturam, se congestionam, se estagnam. Até quando, conviver com tamanha problemática, essa do transporte urbano, em termos de ordem administrativa e social? Até morrer — a resposta que se tem, a perspectiva que se vislumbra.
É visto que as empresas não colocam o real número necessário de ônibus nas linhas; apenas, por conta das pressões, retiram alguns já sucateados, disponibilizam uma parte dos adquiridos e retêm os outros na garagem. Parece que assim vão enrolando aos governantes, empurrando com a barriga — só não tapeiam aos sofridos usuários. As autoridades que atuam (?) no sistema, ao que parece, deixam a coisa rolar, correr meio frouxa — eles se entendem, eles se ajudam, solidários —, sem uma severa e efetiva fiscalização e uma rígida exigência do cumprimento de qualidade e eficiência na prestação do serviço. Presteza, eficácia, eficiência são sinônimos de boa qualidade.
Se não é assim, como se nos afigura, por que será que estamos nervosos, amiúde caminhando — com doloroso esporão calcâneo e juanetes com ferroadas de dor —, de seis a sete quilômetros até nossas casas, por falta de mais ônibus nas horas de pico, num horário cansado, ao fim das tardes? Caminha-se por cerca de 40 a 50 minutos, sem que passe um só ônibus que não esteja superlotado e, por isso, nem para nos pontos. Se quiser chegar em casa mais cedo, até em função de outros compromissos, é a pé que se chega. Só nos falta o cinismo de virem nos dizer que caminhar faz bem, afeitos a cretinas respostas sempre que são cobrados pelos cidadãos. Por que a coisa não anda, não melhora? Por que os ônibus, nas horas cruciais, só circulam supercheios, no maior desconforto para os usuários, inclusive com alta velocidade em curvas fechadas, freadas bruscas e pessoas se machucando, com os motoristas correndo contra o horário e imposições das empresas? Queremos respostas sérias.
Crianças obrigadas a rastejar por baixo das catracas. Abominável humilhação. Constrangimento, sobretudo para as meninas, que, por certo, se espõem, com suas intimidades, a possíveis e desgraçados olhos curiosos, senão malignos. E que pais são esses aí, deixando que seus filhos pequenos rastejem feito répteis? Cadê o MP, para valer, em cima das empresas tão mesquinhas com as crianças? Que ganância é essa? Ninguém faz nada e fica nisso? É preciso rever, de forma racional, o obstáculo embaixo das catracas, deliberadamente longos e colocado no sentido de dificultar/impedir a passagem de crianças, daí forçando-as a rastejar, sujando a roupa no assoalho do ônibus e se expondo aos olhos de estranhos passageiros. Precisam ver a expressão de alguns meninos e meninas, mais crescidos, que parecem entender a situação, meio que envergonhados aos olhos de pessoas estranhas. Um absurdo, sob as barbas das autoridades ditas competentes. Estatuto da Criança e do Adelescente... Pois sim!
Que nos desculpem o mau jeito, mas, por acaso, estão se limpando, no sanitário, com o Estatuto da Criança e do Adolescente? Deem-se o devido respeito e a devida dignidade à infância e à juventude. E onde ficam a defesa e os direitos do cidadão? E o próprio cidadão, os usuários do transporte, a massa, o povo, a sociedade, não gritam, não pressionam, não exigem mais presteza e melhor qualidade do serviço, inclusive mais amor e menos confiança com as crianças? Onde estão os representantes do povo, que os elegemos? Que se dê um basta a isso, lembrando, ainda, que o usuário é também um consumidor, já que paga pelo transporte, e aqui uma missão para a Promotoria de Defesa do Consumidor, conjuntamente com a do Cidadão. Claro, isso é padre-nosso para vigário. Mas... Há sempre um mas.
Inferno intestino, cotidiano, serviço desumano, misto de bichos e homens. Passageiros da agonia no itinerário do inferno, onde o demo é o sistema, superlotação, motoristas — salvo as exceções — sem o mínimo senso de civilidade no trabalho que exercem, no serviço que prestam à sociedade em que vivem, sendo pagos por isso. O bochicho público é que as empresas financiam campanhas eleitorais e depois, eleitos os fulanos, fazem o que bem querem. Não se quer acreditar que governantes sejam comprados. Falta vontade política? Falta mais empenho das autoridades no setor de transportes? Competência? Falta a Vossas Excelências mostrar quem é que manda administrativamente, e como é que deve ser para os setores funcionarem e as funções cumprirem-se a contento?
Os usuários, não sabemos de nada, senão que o transporte coletivo é mesmo a morte em vida. E será, de fato, que os governos têm o rabo preso com as empresas, como se ouve dizer? Financiam elas as campanhas eleitorais, para depois terem retorno? Privilégios, tolerância, vista grossa diante do mau serviço? Afinal, quem é que realmente comanda o setor? Cale a boca, Barnabé! Olha a represália! Somos apenas os passageiros da agonia; sexagenários, septagenários, octagenários, nonagenários, muitos de nós, com as mesmas idades dos pais dos nossos governantes, que certamente — os pais deles —, por razões óbvias, não passam pelo que passamos, não sofrem o que sofremos no interior de um coletivo. Respeitosamente, às vezes achamos que os governantes precisam de um corretivo legal, constitucionalmente legal, bem entendido.
Não somos nada, não somos ninguém, somos apenas usuários indignados; não passamos de contribuintes revoltados — sim, pagamos impostos —, somos tratados como otários e certamente nos acham com cara de palhaços, aqui esbravejando, gesticulando, reclamando, inutilmente. Ainda assim, exigimos uma resposta e insistimos numa solução concreta. Antes de 2010 — quando haverá choro de político e ranger de dentes por causa do voto —, já que o problema do transporte coletivo se protela por décadas e não se soluciona com meias-medidas. Temos dito. Nós, os usuários, somos também os eleitores, e é certo que existem algumas bestas entre nós, ainda achando que urna é penico. Mas vamos ver se — quem sabe — damos um jeito nisso, escolhendo melhor, votando melhor, até mesmo a título de mea culpa. Virão pedir o nosso voto, mesmo porque povo e político, depois dos mendigos, são os maiores pedintes do País.
Enquanto isso, o nobre e operante Ministério Público — de cuja equipe na assessoria de imprensa fizemos parte durante dez anos —, o MP, dizíamos, por meio da Promotoria de Defesa do Cidadão e da Promotoria de Defesa da Infância e Juventude — da Criança e do Adolescente —, atue persistente e ininterruptamente, até vencer a luta, por força das leis e pelo cansaço, no que diz respeito aos direitos do usuário — o cidadão — e das crianças. Há que insistir na incômoda questão da catraca, que, há coisa de alguns anos, já foi olhada pelo MP, tendo as empresas — não nos falhe a memória — firmado Termo de Compromisso com o órgão. Porém, com o abuso das empresas, a reincidência, o desrespeito à pessoa da criança, essa questão estagnou-se. A catraca foi esquecida, a justiça não se faz, os direitos não se cumprem; só se cobram os deveres, que os há também a cumprir.
Os digníssimos meritíssimos, os que julgam, dão pareceres ou vereditos, deferem ou indeferem, condenam e absolvem, e que também são pagos para agir, façam a sua parte quanto às ações impetradas pelos esforçados promotores de justiça. Se não por obrigação, adianta pedir por favor, pelo amor de Deus, pelo leite que mamaram em vossas santíssimas mães? Façam valer o que deve ser validado, porquanto válido. Obriguem as empresas de ônibus, sob os rigores da lei, a cumprirem o que está no papel, no contrato firmado com a sociedade, por meio dos governantes. Responsáveis, o Estado e o município, pela garantia do transporte de qualidade à população — assim como a saúde, a educação, a moradia, a segurança, o lazer etc. —, conforme reza a Constituição Brasileira, a Carta Magna, que, acima de qualquer outra — e de qualquer suspeita —, deve ser cumprida, sob pena de... Mas então não se penalizam ao Estado e ao município? Agora descemos do ônibus. Temos que pegar outro veículo: o Título de Eleitor. Grande coisa!...
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