De leitores e leituras

Já me declarei avesso à contingência de preestabelecer e repassar “programa de leitura” a cada ano que se inicia. Até me pergunto em que, a fundo, isso possa interessar e ser útil a algum leitor, leigo que seja ou letrado em matéria literária. Alguma concreta curiosidade ou real interesse quanto a isso? Quem, realmente, quer saber o que estamos lendo, ou se interessa pelo que vamos ler? E para quê quer saber? Servirá, porventura, a algum parâmetro ou nobre propósito? Constituirá, aqui e agora ou algures, alguma espécie de farol, sinal indicativo, vetor valorativo, substancial roteiro de leitura?
Faço as perguntas, mas não dou respostas. Deem-nas, a nós, que recorremos a vós, hipotéticos leitores, doutores em letras ou meros curiosos, senão amantes verdadeiros da arte literária, que deixa de ser arte quanto equivocada e desastrosa, por conta de limitações autorais ou de parco talento. De mãos dadas a vaidade e a chatice de professar-se também escritor (“Eu também escrevo”), o diletantismo sem futuro, pífia e patética obra dos equivocados, iludidos na senda pedregosa da literatura. Deles há com insistentes pedidos de prefácio para obras chinfrins, ingênuas porquanto imaturas, quando não alienadas. E se, por isso mesmo, você até se condoer deles, se sentirá mal por algo que não vale a pena. Literatura não é por aí.
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...E também lúdico, minha gente. Fruir o lúdico joyceano. É o mínimo que “Finnegans Wake” espera de nossa parca inteligência. Fruir (vide mestre Aurélio) é “estar na posse de”. Se você não toma posse do texto, nada possui ou extrai dele; deixa, então, que o texto lhe possua. Esteja possuído, e já se dê por satisfeito. “Tirar de uma coisa todo o proveito, todas as vantagens possíveis, e, sobretudo, perceber os frutos e rendimentos dela”, prossegue mestre Aurélio, arremetando que fruir é desfrutar. Desfrute, ó falso leitor — “hypocrite lecteur”, diria Baudelaire.
Por certo que se encontra poesia nos poemas do livro de estreia de Lauro Marques, um “Sumário de incertezas” (Rio de Janeiro, Confraria do Vento, 2010) e do que, inserto, subjaz num minério de certeza: poesia ela mesma. Inserida uma linguagem algo derrisória, do cotidiano carcomido, da decomposição dos dias no tempo de todas as coisas. Do que não escapam os poetas, do que não se isenta o eu-lírico. As perdas do ser ao que se lhe dá e o que se lhe há de advir e nem carece advinhar: de certas incertezas, o certo devir: um respiro de vida ainda, a morrer, a vida, por estar viva. As palavras como símbolos ou larvas semoventes de constatações e dissolução nas entrelinhas do branco abissal que a tudo perpassa, a sensação da inutilidade de tudo, o imperioso nada que paira sobre tudo que se move, o pesponto de tudo num ponto fixo da inércia. Ou isso ou nada disso ou também isso. Canhestras elucubrações em torno do texto de Lauro Marques. Um jogo de linguagem. Um diálogo. Contíguo, análogo. Semiologia do ser. Ou fosse de um palimpsesto o pretexto para outro texto, feito casca de árvore seca, ou escama de peixe.
Agora que as águas turvas e turbulentas de um pleito passaram debaixo da ponte, esperamos que os abomináveis atos de corrupção dentro dos poderes constituídos (atos que não são de hoje nem de ontem, mas de anteontem e de sempre, lá atrás) não ocorram nos escalões de dona Dilma. Nela, doravante, de uma forma ou de outra, depositam-se esperanças brasileiras, metade delas nada entusiasmada com o estado de coisas da República, tampouco com vocação para libélulas deslumbradas diante das estrelas do Cruzeiro do Sul. 
Há algum tempo já não morro de amores por ideologias políticas, nem por siglas partidárias de gregos ou gregórios. Aos quase setenta anos de vida, quase todo esse tempo acompanhei políticos e testemunhei-lhes os atos execráveis, decepcionantes. Ando cético com políticos, e se há uma coisa que não tolero por conta de quem quer que seja e que esteja no poder, é corrupção grassando grossa, até dentro do próprio poder, e governo dando uma de cínico pra cima do povo, como se lidando com idiotas — o que, aliás, anda sobrando por aí, desgraçadamente.
O sofrimento que nos traz a construção ou reforma de uma casa, haja vista quanta gente sofrida e calejada no assunto. Os pedreiros de hoje, os tidos e havidos como bons, eles “se acham”, nós é que não os achamos facilmente, quando precisamos deles. E custam os olhos da cara. Pensam que o pobre dono da casa — quando é o caso de um pobre — está montado no dinheiro, daí enfiam a faca, sem piedade. A mão-de-obra, por vezes, é exorbitante, e não que desvalorizemos o pesado trabalho deles, mas por conta do exagero no valor que nos cobram, sem falar no que ainda gastamos com materiais de construção.
A norte-americana Juliet B. Schor, professora de Sociologia na Faculdade de Boston e também formada em Economia, publicou “Nascidos para Comprar – Uma leitura essencial para orientarmos nossas crianças na era do consumismo”, com enfoque na questão da publicidade, do consumismo e seus efeitos sobre as crianças e os jovens. Com o selo da Editora Gente (São Paulo), a edição brasileira da obra, traduzida por Eloisa Helena de Souza Cabral, amplia sua pertinência com a apresentação de Claudio de Moura Castro, autor especialista em educação e colunista da revista “Veja”, e prefácio de Mara Luquet, autora e comentarista da rádio CBN (Central Brasileira de Notícias). 

