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POR EM 30/03/2009 ÀS 04:36 PM

Mais que apenas um jogo

publicado em

Todo sábado pela manhã a direção do presídio permitia, burocraticamente, que os presos reclamassem e fizessem suas reivindicações. Eles podiam reclamar da comida, do frio das celas, dos abusos dos guardas... A direção anotava e ficava por isto mesmo. Um dia, começaram a pedir pra jogar futebol. Depois de muita insistência, conseguiram o sábado à tarde para jogar

Um dos chavões sobre a esquerda brasileira é que ela não era unida nem na prisão. Bem, parece que isto não é só um defeito de brasileiros. Na Robben Island, ilha símbolo do regime racista sul-africano conhecido como apartheid, os presos políticos de diversas facções também não se bicavam, nem na hora do futebol. Futebol na Robben Island? Por acaso presos políticos negros de cabelos pixaim podiam jogar bola, sem serem incomodados pelos guardas “brancos de olhos azuis”?

E não é que podia? Claro que não foi fácil, os presos tiveram que reclamar muito para conseguir este direito e contaram com a ajuda fundamental da Cruz Vermelha Internacional. Esta história é contada por Chuck Korr e Marvin Close em “More Than Just a Game: Soccer v Apartheid” (editora Collins, 2008), que traduzo livremente para: “Mais Que Apenas um Jogo: Futebol X Apartheid” e pode vir a ser um best-seller em 2010, quando a Copa do Mundo será jogada naquele país que foi banido do futebol pela FIFA em 1964, e assim permaneceu por quase 30 anos, quando a democracia finalmente nasceu na África do Sul.

C. Korr e M. Close concentram-se principalmente na história de quatro homens presos na ilha por lutar contra o regime, dentro de suas diferentes facções: Lizo Sitoto (lado armado do ANC, Congresso Nacional Africano) Marcus Solomon (Yan Chi Chan Club de orientação chinesa, também ligado ao ANC), Tony Suze (PAC, Congresso Pan Africano) , Sedick Isaacs (Movimento da Juventude Muçulmana). Por causa de suas atividades, Isaacs, por exemplo, era químico e fazia bombas, todos foram presos e enviados a ilha, que fica próxima à Cidade do Cabo, quase que concomitantemente com seu preso mais famoso, Nelson Mandela, que foi para lá em 1964.

Na ilha os novos detentos notaram que a vida seria difícil com privações de conforto mínimo, castigos imerecidos, trabalhos forçados sem sentidos de carregar pedra de um lado para outro, comida péssima, entre outros abusos. Alguns deles então, perceberam que se não tivessem qualquer distração sairiam de lá completamente amalucados.

Começaram por educar outros presos analfabetos, mas estas aulas eram mal vistas pela diretoria da prisão já que tinham alto teor ideológico e por vezes terminavam em incríveis discussões entre os próprios presos das diferentes facções contra o regime. Mas como começar a solicitar futebol ou outra distração?

Os brancos sul-africanos da época eram divididos em dois grupos principais, que inclusive, já haviam guerreado no início do século XX na chamada Guerra Anglo-Boer: de um lado os de origem inglesa e de outro os “africâners” descendentes de holandeses que se achavam os legítimos africanos, e que possuíam um ferrenho sentimento patriótico. De qualquer forma, ambos os grupos se achavam superiores e devido a ascendência, eram tremendamente organizados e burocratizados.

Assim, todo sábado pela manhã a direção do presídio permitia, burocraticamente, que os presos reclamassem e fizessem suas reivindicações. Eles podiam reclamar da comida, do frio das celas, dos abusos dos guardas, etc... A direção anotava e ficava por isto mesmo. Um dia, começaram a pedir pra jogar futebol. Depois de muita insistência, não vou contar todos os detalhes, conseguiram o sábado à tarde para jogar.

Os presos, também inacreditavelmente burocráticos, criaram uma Liga com estatuto, uma associação de juízes de futebol, um conselho para deliberar punições aos jogadores e, claro, os oito times que refletiam as tendências políticas da Robben Island. Apenas um time tinha em seu estatuto a clara norma de aceitar qualquer jogador independente de facção política: o Manong que foi campeão várias vezes.

Existiam três divisões dadas as qualidades dos jogadores (A, B, e C). E era normal o campeonato ser interrompido por causa de disputas jurídicas e apelações ao tribunal feitas por clubes que se achavam prejudicados. Isto é, os presos deixavam de jogar futebol e se distrair, para discutir os problemas “legais” das partidas. Isto é que é levar a lei e a organização, à sério.

Eu acho exagerado e coisa de gente chata, mas Korr e Close afirmam que, no fundo, eles estavam “praticando para a futura África do Sul democrática, que eles todos sonhavam apaixonadamente”. Bem, mais ou menos, porque se no processo de abertura, não fosse o Mandela a coisa iria desandar para uma vingança atroz que levaria o país a bancarrota (mas isto é outra história).

Segundo os autores, que entrevistaram apenas recentemente os principais personagens destes episódios, ainda hoje alguns deles ficam nervosos ao discutir resultados de sentenças dados pelo tribunal da Liga de Futebol da Robben Island, bem como das decisões dos conselhos. Mais ou menos como a gente quando assiste a reprise do Brasil e Itália na Copa do Mundo de 1982.

O futebol foi ainda o precursor de outros esportes para os presos na ilha, como o rugby e o basquete e à despeito das rusgas que ainda permanecem em alguns, o esporte bretão foi um alento de união para homens presos que queriam apenas a liberdade de ir e vir.

Até onde sei, o livro ainda não tem versão em português.
 


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POR EM 23/03/2009 ÀS 06:28 PM

A maçã de Turing

publicado em

Turing sempre foi homossexual, isto é, nunca pensou em casar ou teve uma namorada. Em 1952 se envolveu com um garoto de programa que o assaltou. A polícia ficou sabendo da história e como na época homossexualismo era crime, além de preso, Turing teve que tomar injeções de estrogênio para se curar

Durante a Segunda Guerra Mundial, o matemático Alan Mathison Turing matriculou-se numa organização de defesa que aceitava voluntários. Quando perguntado no formulário se compreendia que a partir daquele momento, estava sujeito as leis militares, respondeu não. Com o treinamento, tornou-se um exímio atirador, mas não participava das paradas e lhe foi pedida uma explicação. A dele era simples como a resolução de uma equação de primeira ordem: como havia respondido não no questionário da matrícula, ele não era um soldado e não devia explicações.

Nem por isto o jovem de 28 anos deixou de ajudar os ingleses na Guerra. E que ajuda! Com uma vasta teoria matemática na cabeça, já comprovada durante seu curso na Universidade de Cambridge e depois com seu trabalho: “Sobre os números computáveis, com uma aplicação aos problemas da decisão”, realizado em Princeton, no qual delineava o conceito de uma máquina hipotética de computação universal (que chamamos hoje de computador), Turing foi parar no Departamento de Comunicações do Ministério de Relações Exteriores e sua missão era, nada mais nada menos, que desvendar os códigos secretos das mensagens alemãs.

David Leavitt conta em seu “O Homem Que Sabia Demais: Alan Turing e a Invenção do Computador” (Editora Novo Conceito, 2007, 221p.) que em 1938, Turing fez um curso de criptografia (a ciência de “embaralhar uma mensagem para só o destinatário entendê-la”) já prevendo que sua ajuda na Guerra iminente seria neste ramo.

Mesmo assim, em 1939, Turing teve tempo de assistir ao curso de Wittgenstein que era ministrado em sua sala pequena e austera, com os estudantes sentados no chão ou nas cadeiras que eles mesmos traziam. Inesperadamente o recatado Turing era um dos mais falantes sempre pronto a desafiar o professor, que realmente por vezes se exasperava com a necessidade ferrenha que Turing tinha de se agarrar à lógica (sabemos os detalhes dos diálogos pois, dois ou três alunos faziam a transcrição do que era dito em aula). De qualquer forma, o curso parece ter sido enriquecedor para Turing, que ouviu inúmeras vezes uma das frases mais famosas de Wittgenstein: “Não tratem seu senso comum como um guarda-chuva. Quando entrarem na sala para filosofar, não o deixem lá fora, tragam-no com vocês.”

No final de 1939, Turing se apresentou em Bletchley Park , a 80 km de Londres, onde começou a trabalhar para ajudar a desvendar os códigos alemães feitos na Enigma, uma máquina pequena inventada nos anos 20 pelo engenheiro alemão Arthur Scherbius, que gostaria de vendê-la para industriais ciosos de seus segredos, mas que acabou tendo um único freguês: o governo alemão.

A Enigma era tão boa que possibilitava 17.576 possíveis rotas para uma letra assumir dentro de uma mesma mensagem! Por isto, mesmo no final da guerra, quando os aliados já conseguiam (não sem muuuuuito trabalho) decifrar quase todas as mensagens, os alemães continuavam a acreditar que a Enigma era inexpugnável e que as falhas de segurança se deviam a espionagem (para um patriota a culpa é sempre do inimigo externo, nunca dele mesmo...).

Pois é, mas a matemática pura foi mais decisiva que a espionagem. Em pouco tempo Turing escreveu um manual de centenas de páginas explicando os fundamentos teóricos da linha de ataque que o grupo adotaria contra a Enigma (não se engane, aquele filme de anos atrás chamado Enigma, não fala nada sobre Turing). Este manual ficou conhecido como “Prof.’s Book”, já que Prof. era o apelido de Alan em Bletchley que, ao se levar em conta um período de guerra, teve uma atmosfera cordial segundo todos que por lá passaram.

Ao pensar pela primeira vez em sua máquina universal no trabalho dos “números computáveis”, Turing não estava preocupado com a rapidez de processamento dos cálculos, o que evidentemente foi mudado nestes anos de guerra e no trabalho junto com os engenheiros que construíram a “contra-enigma” uma engenhoca enorme apelidada de “bomba”. Com isto em mente, ele recusou, em 1945, um cargo em Cambridge e associou-se ao Laboratório Nacional de Física, chefiado por Galton Darwin (neto de Charles Darwin), para trabalhar no projeto de uma máquina de computação automática. Depois mudou de emprego indo para a Universidade de Manchester, mas sempre participando em projetos vinculados a construção de tal máquina inteligente, apesar de que nas “horas vagas” ainda teve tempo de escrever trabalhos de matemática pura e de matemática aplicada a biologia.

Um de seus textos mais famosos é “Máquinas computacionais e inteligência” com análises técnicas e considerações filosóficas, já que naquela época muito se especulava se as máquinas iriam dominar o mundo (Algo parecido com o que ocorre hoje com toda esta história do genoma e clonagem humana). Mas a argumentação de Turing é muito interessante: ele dizia que a infalibilidade não é necessariamente um pré-requisito da inteligência, por isto as máquinas não seriam necessariamente inteligentes. Mas ao mesmo tempo o aborrecia a tendência “maquinal” dos intelectuais em achar que uma máquina nunca pode alcançar o cérebro humano, simplesmente porque o cérebro é...humano. Ele se perguntava se um carro precisava de pernas para correr mais que um humano.

Turing sempre foi homossexual, isto é, nunca pensou em casar ou teve uma namorada. Em 1952 se envolveu com um garoto de programa que o assaltou. A polícia ficou sabendo da história e como na época homossexualismo era crime, além de preso, Turing teve que tomar injeções de estrogênio para “se curar”.  A mesma lei que condenara Oscar Wilde 50 anos antes, pegara Alan agora.

Foi demais pra ele, que escreveu à um amigo: “Turing acredita que as máquinas pensam/ Turing deita-se com homens/ Portanto as máquinas não podem pensar.” Desta forma, em 07 de junho de 1954 se matou ao morder uma maçã envenenada com cianureto. Desde 1938, quando assistira pela primeira vez “Branca de Neve” de Disney se encantara com a cena na qual a Rainha Malvada envenena a maçã e diz: “Mergulhe a maçã no caldo/Deixe o sono imortal impregná-la”.

Sim, Sir Turing, a imortalidade o impregnou. Sem você eu não estaria escrevendo nesta máquina (cujo logotipo é o de uma maçã mordida, segundo a Apple, nada haver com Turing). E o leitor não estaria lendo minhas palavras neste vídeo.
 


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POR EM 16/03/2009 ÀS 02:33 PM

Quem vigia os vigilantes?

publicado em

Há uma diferença entre colocar uma história em quadrinhos nas telas e filmar esta mesma história. Se você assistiu “Sin City” ou “300 de Esparta” sabe como são gibis filmados. Já no caso de “X-Men” e “Batman”, o que vemos são personagens de quadrinhos que viraram filmes. “Watchmen” (Vigilantes), que estreou recentemente, mantém este último estilo com a diferença que os heróis estão mais para “sub” do que “super” 

 

Há uma diferença entre colocar uma história em quadrinhos nas telas e filmar esta mesma história. Assim, se você assistiu “Sin City” ou “300 de Esparta” sabe como são gibis filmados e como serão os quadrinhos do futuro, quando finalmente resolvermos não gastar mais papel com estes “graphic novels”, isto é, romances em quadrinhos criados pelo mestre no gênero Will Eisner. Já no caso de “X-Men” e “Batman”, o que vemos são personagens de quadrinhos que viraram filmes.

“Watchmen” (Vigilantes), que estreou recentemente, mantém este último estilo com a diferença que os heróis estão mais para “sub” do que “super”. Assim, o aclamado roteirista dos gibis, Alan Moore, pode ver uma de suas histórias finalmente bem contada, depois das péssimas adaptações da “Liga Extraordinária”, “Constantine” e “V de Vingança” (Moore pediu até pra sair dos créditos deste último que distorcia sua mensagem). Não por coincidência, estas adaptações tiveram roteiros que não seguiram o original e, por isto, umas mais outras menos, fracassaram.

Não é o caso de “Watchmen”, que é fiel a história de Moore. Pano de fundo: EUA, 1985. Os americanos estão próximos de eleger pela terceira vez Richard Nixon como presidente, já que a vitória do Tio Sam no Vietnã foi avassaladora, graças ao super-herói Dr. Manhattan, um físico que sofreu um acidente nuclear, mas tendo reaparecido em forma de, digamos, “energia pura”, vira uma arma poderosa contra os inimigos. Por seu grande poder, ele é acusado de ter fomentado a corrida armamentista nuclear e por este motivo, a grande potência ocidental está muito próxima a uma guerra nuclear fatal contra a URSS.

Mas Dr. Manhattan é uma exceção, pois os outros vigilantes são demasiados humanos, aposentados-saudosistas ou agindo nas sombras já que foram postos na ilegalidade pelo próprio Nixon, afinal “Quem vigia os vigilantes?” (frase atribuída ao antigo poeta romano Juvenal). Aliás, colocar os “super” na ilegalidade também foi um expediente usado por Frank Miller no famoso “Batman - o Cavaleiro das Trevas”. Neste clássico dos quadrinhos, a Liga da Justiça é acusada pela Associação de Pais e Mestres de dar mau exemplo as crianças já que batem e matam os bandidos, ao que Batman teria respondido as gargalhadas: “Claro que matamos. É nosso serviço!”.

Mas aqui estamos falando de Watchmen que se passa num universo, onde Batman, Super-Homem e Mulher Maravilha não existem (pra quem não sabe os quadrinhos funcionam assim. Mundos paralelos que apenas algumas vezes se cruzam).

Nas tocantes histórias paralelas de “Watchmen”, vale destacar as viagens no tempo do Dr. Manhattan, cuja narrativa é poética: “É março de 1959. Sou fotografado com Janey num parque de diversões/ É 1985. Estou em Marte com a fotografia nas mãos/ Em 15 segundos ela estará no chão marciano/ É agosto de 1959. A luz dos canhões de partículas me faz em pedaços/ 5 segundos para foto cair das minhas mãos/ É novembro de 1959. De alguma forma sou reestruturado /A foto no chão./ Tudo que vemos das estrelas são suas velhas fotografias”.

O filme começa com o assassinato do Comediante, um super-herói mercenário que também lutou e assassinou no Vietnã. Por causa disto, o sombrio Rorschach (outro vigilante) desconfia que alguém possa estar querendo se livrar de todos os ex-companheiros. No túmulo do Comediante recém assassinado, Rorschach (o nome vem daquelas cartas com manchas usadas por psicólogos para entender a mente do paciente) conta uma piada ao seu estilo: “Um homem vai ao médico e se diz deprimido. O doutor receita-lhe ir ver o grande palhaço Pagliacci que está na cidade, ao que o homem responde: Mas eu sou o Pagliacci!”.

O ponto alto do filme é o discurso do Dr. Manhattan a Laurie, quando ela, chorando lhe convence da beleza da vida: “Milagres termodinâmicos...eventos improváveis...eu anseio por observar algo assim/ e no entanto em cada par humano, milhões de espermatozóides avançam rumo a um só óvulo/ Multiplique as possibilidades por incontáveis gerações. Junte à chance de seus ancestrais estarem vivos; de se encontrarem; de conceberem esse preciso filho, você: o pináculo do improvável/...mas o mundo é tão cheio de pessoas, tão repleto destes milagres que nos esquecemos deles...”.

Clichês?

É 16 de março. Aperto botões numa máquina / 17 de março. Alguém lê o que escrevi/ 11 de março. Me emociono no enterro do Comediante, mas que, infelizmente, é menos triste que a piada de Rorschach / 19 de março. Semana de calor. Difícil perceber o milagre da vida. / Tudo que vemos no espelho, é conseqüência de um big-bang e de um universo em expansão/ Pra que ansiar pelo improvável, se nós somos o resultado dele?
 


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POR EM 09/03/2009 ÀS 10:35 PM

Complexo de vira-latas e o homem da carrocinha

publicado em

Nosso maior dramaturgo, Nelson Rodrigues, dizia que o complexo de vira-latas é  característica fundamental no brasileiro. Outro intelectual fundamental desta terra, Sérgio Buarque de Holanda, foi mais acadêmico no assunto: “(...) o Brasil (...) se envergonhava de si mesmo, de sua realidade biológica. Aqueles que pugnaram por uma vida nova (...) representavam a idéia que o país não pode crescer pelas suas próprias forças naturais: deve-se formar de fora para dentro, deve merecer aprovação dos outros.”

É assim que Henrique Cukierman começa os últimos capítulos de seu livro “Yes, nós temos Pasteur: Manguinhos, Oswaldo Cruz e a História da Ciência no Brasil” (Editora Relume Dumará e Faperj, 2007, 437 p.), mostrando a trajetória de Oswaldo Cruz, que culminou vitoriosa na conquista do primeiro prêmio na XIV Exposição de Higiene e Demografia, realizada em Berlim em setembro e outubro de 1907.

Realmente não foi fácil, mas o obstinado Oswaldo, que já havia passado pela Alemanha, contou ainda com o auxílio imprescindível de compatriotas como Rocha Lima, que estava estudando microbiologia com os organizadores da exposição lá mesmo em Berlim.  As cartas trocadas entre o médico-estudante  Rocha Lima e Oswaldo Cruz, foram fundamentais para Cukierman mostrar o quanto a batalha burocrática para enviar o material à Berlim, não foi nada fácil. Até votação no Senado Oswaldo Cruz teve que presenciar. Mas seu moto mostrava sua obsessão: “age direito e não temas ninguém”.

Enquanto isto, as primeiras desavenças ocorriam no Instituto, com os “big-egos” de médicos-pesquisadores acusando-se mutuamente de incompetentes e improdutivos. Mas a chegada da nova-era e do progresso foi inevitável. Bem, mais ou menos. Sabe, leitor, como foi aprovada a primeira patente vinda de Manguinhos? Alcides Godoy desde 1903 estudava, em Manguinhos, uma vacina contra a peste da manqueira (uma doença que provoca feridas no gado). Em 26 de outubro de 1908 deu entrada ao pedido de patente de sua descoberta (ou seria “invenção”?). O funcionário do serviço de patentes encaminhou a documentação e amostras ao exame de quem? Do próprio Instituto Manguinhos e como diria Cukierman: “O Godoy fez de conta, o Instituto fez que viu, e o estratagema resultou na aceitação da patente, com o número 5.566 em 24 de novembro de 1908”. Como as salsichas e as leis, talvez seja melhor desconhecer a história das patentes.

Em 1913, o Instituto começou suas expedições para descobrir o Brasil. A publicação dos relatos destas viagens, que falava das terríveis doenças do interior, e levou à famosa frase “O Brasil é um imenso hospital”, fez com que até Monteiro Lobato renunciasse, parcialmente, ao Urupês dizendo que o “Jeca não é assim, está assim”. Depois veio a propaganda do Biotônico Fontoura, mas foi bem depois...

Finalmente os cruzados cientificantes do Dr. Oswaldo se deparavam com um Brasil que quase nem falava a mesma língua, além de ter de ouvir todas as crendices e se deparar com a falta de sentimento nacional, pois a “única bandeira que conheciam era a do Divino”. O intelectual e/ou cientista brasileiro era (ainda é) mesmo um desterrado, com a eterna sensação de “não estar de todo” inserido no país, que insiste em não entender o que “deve ser feito”, isto é, aquilo que o cientista e/ou intelectual manda fazer: seguir o rumo infalível da Ciência!

Num dos relatórios de viagem (assinado pela dupla de médicos Neiva e Penna), discretamente se pregava o aperfeiçoamento da raça brasileira (o sul era modelo), enquanto era explícito e cruel com o patrício interiorano: “(...) não era um povo, mas o estrume de um povo que ainda há de vir”. O povo é vira-lata? Nós somos a carrocinha e este país precisa de sabão e limpeza.

Anos depois, políticos e intelectuais humanistas brasileiros flertaram com a eugenia e o nazismo. Mas, claro, claro, os cientistas naturais não tiveram nada a ver com isto. É, Dr. Oswaldo: “age direito e não temas ninguém”, mas o que significa mesmo “agir direito”?
 


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POR EM 02/03/2009 ÀS 06:36 PM

Sementes da revolta

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Em março de 1903, Oswaldo Cruz já era diretor do Instituto Manguinhos, chamado por ele “jardim-de-infância da ciência”, quando foi nomeado para a Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), pelo recém empossado presidente brasileiro Rodrigues Alves, cuja promessa de campanha era sanear a capital federal (Rio de Janeiro).

Quando o assunto era saúde pública havia tudo a se fazer, em especial a definição das atribuições das administrações municipais, estaduais e federais, como mostrado por Henrique Cukierman em seu “Yes, nós temos Pasteur: Manguinhos, Oswaldo Cruz e a História da Ciência no Brasil” (Editora Relume Dumará e Faperj, 2007, 437 p.).

E naquele mundo (nem um pouco distante no espaço-tempo) o público se confundia com o privado, o arcaico com o moderno e o “lá-fora” da administração precisava dialogar com o “aqui-dentro” da torre de marfim da ciência. Como diria, Latour, um dos autores preferidos de Cukierman: “quanto mais pura for a ciência do lado de dentro, mais longe os cientistas têm de ir para o lado de fora” mas é justamente por isto que admiramos Oswaldo Cruz: sua desenvoltura nos meandros enfadonhos e pouco éticos da administração “lá-fora” permitiu o trabalho de outros (e dele mesmo) nas bancadas do laboratório, pois ele era o grande representante do pessoal do “aqui-dentro”.

Porém, a construção do futuro Palácio da Ciência ainda não estava garantida. O prefeito queria parte do terreno do Instituto de volta e apesar do aumento dos recursos para o trabalho diário de sorologia, o prédio continuava a ser uma “casinha de campo”. Mas Oswaldo conseguiu o dinheiro para a construção. Só não sabemos de onde veio. Cukierman não encontrou lei, nem autorização oficial, nem orçamentos publicados. Todo mundo, inclusive à época, fez vista-grossa. Desvio de verbas? Sobra de campanhas? Não se tem certeza. O prédio está lá com suas belas linhas mouriscas. Este é um país que vai pra frente....

Enquanto isto, a tuberculose e a febre-amarela alastravam o cheiro de morte. Oswaldo antenado com a ciência mundial, foi então apelidado de “General Mata-Mosquito” pois muita gente, inclusive seu antecessor na DGSP duvidava que o mosquito era o vetor do “micróbio” da febre-amarela.

Oswaldo, o cruzado cientificizante, foi vencendo suas batalhas baseando-se em exemplos como o de Havana que havia eliminado o mosquito e reduzido a doença (atenção amigos, a tão propalada saúde pública de Cuba já era boa bem antes da revolução...).
A queda impressionante do número de óbitos por febre-amarela entre os anos de 1903 e 1904 no Rio, mostrou que o herói mata-mosquito estava certo.  O Brasil começava a acreditar em micróbios, apesar de ser ainda um “vasto hospital”, onde os tradicionais médicos-clínicos, consideravam mais importante a relação médico-paciente, do que os exames bacteriológicos realizados pela “escola instrumental” da nova medicina. Documento da época mostra que de 137 notificações “clínicas” de febre-amarela, ao menos 30% deram negativo. Assim, os clínicos viam os doentes mas não a doença e se apegavam ferrenhamente ao seu próprio paradigma (como todo cientista moderno). Oswaldo e seus bons companheiros também travaram esta batalha que, talvez seja a menos conhecida, mas não menos importante, pois vencendo, fez com que a medicina brasileira entrasse na era bacteriológica  e nossos velhos médicos deixaram de ser compadres de curandeiros, representantes da Velha Metrópole arcaica.

A grande vitória contra o mosquito entre 1903 e 1904 só ocorreu devido a criação de órgãos na apropriada linguagem militar que a batalha exigia: “Brigada contra o mosquito”, “Polícia de focos”, “Delegacia Sanitária” (até hoje é assim com a “Vigilância Sanitária”). Para os mais positivistas, o trabalho destes era uma afronta aos direitos individuais, na medida que entravam nas casas para remover lixo, limpar fossas e telhados, enfim evitar a proliferação do vetor. Mas as leis que regulavam tal ação, passaram do ponto, pois autorizavam multas, detenção e até mesmo “bordoadas” em quem se recusasse colaborar.

Então, em 1904, veio a Revolta da Vacina (antivariólica), causada pela simplicidade digna de cientistas do “aqui-dentro”, nas palavras de Cukierman: “havia a varíola, mas havia a vacina...torna-se então a vacinação obrigatória” (p. 226). As leis eram duras, pois sem o atestado de vacinação, o sujeito não poderia, matricular-se em escolas, empregar-se, votar (ser votado), se hospedar e até mesmo se casar! Vem daí aquela enorme enxurrada de caricaturas de Oswaldo Cruz, algumas delas muito bem escolhidas para o “Yes, nós temos Pasteur”.

Há inúmeras explicações sociológicas sobre a Revolta, até mesmo aquela que propõe que a vacinação foi mero pretexto na luta contra o opressor do momento que queria modernizar o Rio, as custas das classes mais baixas. Houve os aproveitadores de plantão de sempre originários de nossas “raízes brasileiras” e por isto alguns estudiosos separam a Revolta em militar (uma tentativa de golpe frustrada, típica de República das Bananas) e popular (com o envio de um navio cheio de revoltosos para o Acre!). Rui Barbosa reclamou que a lei tinha o “direito de intervir na substância do meu sangue”, ecoando famosos como Bernard Shaw e Alfred R. Wallace, o co-descobridor com Darwin, da seleção natural, que na Inglaterra já tinham reclamado da vacinação compulsória.

De qualquer forma, o Congresso acabou excluindo da lei a obrigatoriedade da vacinação. O Instituto Manguinhos descobriu, assim, a necessidade de dialogar com a sociedade através da divulgação científica e lançou uma espécie de jornal intitulado “Conselhos ao Povo”. Depois disto veio a vitória de nosso herói em Berlim. Yes, deixamos de ser macacos, mas fica pra próxima.
 


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POR EM 16/02/2009 ÀS 06:12 PM

Yes, nossa ciência tem história

publicado em

Se você tem a sorte de ter que viajar de carro ao Rio de Janeiro quase que fatalmente terá o azar de ter de passar pela horrenda Avenida Brasil, com seu tráfego ruidoso e sua paisagem desoladora que mostra um Brasil que poderia ter sido mas não foi. Destoando deste cenário feio, nesta mesma avenida de nome irônico, aponta por entre altas árvores de Mata Atlântica (e outras nem tão nativas) a torre de um templo ou de um castelo das Arábias. Pra quem não sabe, trata-se do Instituto Oswaldo Cruz ou simplesmente Instituto Manguinhos, que para muitos é a inauguração ou ainda, o desembarque da ciência brasileira oriunda da Europa, mais precisamente do Instituto Pasteur na França.

É precisamente esta história, em quase todos os seus meandros e aspectos sociológicos, que Henrique Cukierman conta em seu “Yes, nós temos Pasteur: Manguinhos, Oswaldo Cruz e a História da Ciência no Brasil” (Editora Relume Dumará e Faperj, 2007, 437 p.).

O livro é balizado pelas reflexões do francês Bruno Latour sobre ciência e também pelo, mais famoso que lido, “Raízes do Brasil” de Sérgio Buarque de Holanda. Por ser fruto das dissertações de mestrado e doutorado do autor, sobra no livro aquele palavrório academicista, com direito à linguagem em tom irônico, por vezes, enfadonho, dos relatórios governamentais do início do século XX. Há também algumas informações repetidas (por exemplo, as tabelas das páginas 129 e 191) e em muitos momentos as longas notas de rodapé são bem mais interessantes que o texto propriamente dito. Em suma, houve por parte do autor e das editoras (duas editoras, nenhum índice remissivo....) um certo desleixo, “...palavra que indica menos falta de energia do que uma íntima convicção de que não vale a pena...”, só para lembrar Sérgio B. de Holanda.

Mas ao que interessa: recém-chegado de um longo estágio na França, o Dr. Oswaldo Cruz foi chamado em 1899 para acudir mais uma moléstia que aportara em Santos. Era a peste bubônica como logo depois diagnosticara junto com Adolpho Lutz e Vital Brazil. Para combatê-la, se fazia necessário construir um local para produzir soro, vacina e diagnósticos mais precisos. Na verdade, muito mais era requerido (como o saneamento) mas, quando no início de 1900 a peste pareceu desistir de dar seu abraço da morte surge “claramente os mecanismos de funcionamento da Velha Metrópole perante as situações de crise: assim que se esgota seu paroxismo, cessam os movimentos para enfrentá-la e desmoronam as estruturas que a própria crise engendrou” (p. 62). Isto é, quando pára de morrer gente, de lotar hospital ou ainda de ser manchete de jornal, não se precisa mais nem do hospital, nem da vacina, nem da profilaxia. O modo como as autoridades brasileiras trataram a dengue nos últimos quatro anos te lembra alguma coisa, leitor?

Mas o bacilo veio em socorro dos nossos heróis cientistas e novos casos da peste reapareceram no Rio de Janeiro. Em 23 de julho foi inaugurado, então, o Instituto Soroterápico Federal, um grande feito naquele país tropical em que “não se acreditava em micróbios”.  O resto é história: a casa dos funcionários que tocavam os fornos para a incineração de lixo na longínqua Fazenda Manguinhos, passou a receber os equipamentos da Europa e o pessoal do Instituto que “nessas toscas e velhas construções, começou a fazer medicina experimental no Brasil” nas palavras de um dos pioneiros.

Foi neste local insalubre, cuja refeição era um “ensopado de galinha com batatas, arroz , pão e, para terminar, algumas bananas e café ralo” que Oswaldo Cruz exigia obediência cega aos preceitos das técnicas bacteriológicas. O argumento era baseado na história de Domingos Freire, que em 1885 teve seu trabalho original, sobre o agente etiológico da febre amarela, rejeitado pelos europeus e americanos, pois não seguia as rígidas regras científicas necessárias. Oswaldo não queria cair nesta armadilha e ao mesmo tempo, não se contentava em ser um repetidor incondicional da ciência européia. Era preciso aproveitar o momento para, além de civilizar o Brasil, colocando-o no eixo da revolução científica da vacina, fundar uma ciência genuinamente brasileira. Mas aí viriam os entraves da burocracia e até mesmo a revolta da vacina, que ficam pra semana que vem.


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POR EM 02/02/2009 ÀS 06:05 PM

Longe é um lugar que existe

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Depois de sair das Galápagos, o Beagle, com o jovem Charles Darwin, atravessou o Oceano Pacífico aportando no Taiti, Nova Zelândia e Austrália. Já no Oceano Índico, mais precisamente nas Ilhas Keeling ou Ilha dos Cocos, Darwin entendeu a formação dos recifes de corais que foram confirmadas 17 dias depois quando chegou às ilhas Maurício, onde permaneceu entre 29 de abril e 09 de maio de 1836.

Darwin estava profundamente influenciado pelos “Princípios da Geologia” de seu amigo Charles Lyell (ambos descansam em paz na Abadia de Westminster), que explicava como as mudanças geológicas eram graduais ao invés de catastróficas (a natureza não dá saltos). Darwin mostrou em seu diário de viagem a história dos recifes: uma ilha formada por atividade vulcânica, cerca-se de um recife de corais pequeno. A ilha afunda gradualmente. Os corais vão se sucedendo (os vivos sobre os mortos) e o conjunto vai soerguendo, compensando o rebaixamento e alargando o diâmetro do recife que se torna uma barreira, na medida que forma uma espécie de lagoa-anel que circunda a ilha. Quando o topo da ilha submergir por completo, ter-se-á um atol.

Os primeiros ocidentais a chegarem a Maurício foram os portugueses em 1507, que a usaram durante o século XVI para consertar os navios no caminho das Índias. No início do século XVII, ingleses e holandeses também descobriram que navegar é preciso e em uma das expedições holandesas de 1638, batizaram a ilha de Maurício em homenagem a Maurício de Nassau, o Príncipe Laranja (nenhuma ironia) que era chefe das províncias holandesas. Eles também introduziram a cana de açúcar.

Daí em diante a história é mais conhecida por todos nós: busca desenfreada pelos recursos naturais (incluindo a extinção do Dodô) e uma briga entre nações pra ver quem ficava com a chave para Índias.

Em 1710 a Holanda tinha dois estabelecimentos naquela região do mundo: um no Cabo da Boa Esperança (África do Sul), outro na Ilha Maurício. Eles preferiram o Cabo, abandonaram Maurício e em 1715 os franceses a anexaram e rebatizaram-na de Ilha da França. Logo depois, em 1721 trouxeram os primeiros escravos pra trabalhar na cana de açúcar (vieram de Moçambique e Madagascar que fica ali perto).

A ilha então foi ganhando cara de Europa com novos fortes, hospitais, estradas e aquedutos, além das casas avarandadas (a varanda é ainda considerada, a principal parte da casa, pois serve para receber visitas que se refrescam com o vento, naquele calor tropical e úmido). La Bourdonnais que tornou-se governador em 1735 tem uma estátua no centro de Port Louis e é considerado o melhor governador francês da ilha.

Outro francês famoso localmente é Jacques H.B. de Saint Pierre o escritor russeauniano que acreditava na volta à natureza e baseou o romance “Paul e Virgine” na ilha. Em Port Louis há muitas referências (ruas, estátuas, etc..) ao romance (que não li).

Segundo Christian le Comte em seu “Mauritius from its origin” (Ed. Monica Hoss de le Comte, 2007), quando a revolução francesa chegou a ilha, houve muita discussão pois ela preconizava a libertação dos escravos mas os donos de terra e plantadores de cana, politicamente fortes, não deixaram que isto acontecesse. Os escravocratas alegaram prejuízos econômicos e como não existe pecado do lado de baixo do Equador, os escravos foram mantidos.

Então, os ingleses resolveram tomar a ilha com o argumento que ela estava servindo para ajudar os corsários e piratas franceses que enfraqueciam o comércio náutico e roubavam os navios da Rainha (era verdade). Em 3 de dezembro de 1810 os franceses se renderam e a Inglaterra começou seu governo na Ilha. Novamente a questão escravocrata apareceu (a terra da Rainha abolira a escravatura de suas colônias em 1807). Depois de muitas discussões e viagens dos donos de escravo para Londres, a Inglaterra pagou 2 milhões de libras e os escravos foram libertados em 1839. Como já não eram muito bem-vindos os ingleses deixaram a ilha crescer à vontade e por isto ainda hoje a língua oficial é inglesa, mas as pessoas preferem o francês ou o creole (língua local).

As Ilhas Maurício tornaram-se independentes em 1968 com uma constituição escrita em Londres e seus 1.200.000 habitantes são formados por 65% de Indianos, 30% de creoles (os mestiços), 3% de chineses e 2% de franceses.

Voltando em Darwin, ele achou a ilha linda e acima das expectativas do já lera nas descrições de navegantes. Gostou também da capital Port Louis que considerou limpa e acolhedora, das plantações de cana de açúcar e admirou-se com a cor escura dos indianos e mais ainda com o olhar soberbo deles. Espantou-se que numa colônia inglesa todo mundo falasse francês.

E hoje? A capital sofre de congestionamentos inacreditáveis, é suja, tem muitas casas pobres, alguns edifícios em ruínas e para mim, que sou do interior do estado de São Paulo, plantações de cana são desoladoras e tristes.

Em compensação o recife de coral que circunda a ilha, e que confirmou a explicação darwiniana, permite que você entre pelo menos uns 200 metros no mar com a água pela cintura e com uma simples máscara de mergulho possa se encantar com as mais variadas formas de vida, de corais a peixes maravilhosos.

Que bom que a natureza não dá saltos. Assim dá tempo de contemplá-la.


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POR EM 09/12/2008 ÀS 11:53 PM

Um pouco mais sobre Gödel

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Diariamente, Kurt Gödel ia e voltava do Instituto de Estudos Avançados acompanhado de nada menos que Albert Einstein que já era muito famoso na época. As conversas pareciam ser animadas e ainda hoje é objeto de especulação para os historiadores da ciência.  O assistente de Einstein, Ernst G. Strauss, uma vez contou que Einstein tinha chego chateado no laboratório pois achava que Gödel estava totalmente maluco. E porque? Votou em Eisenhower”, respondeu o físico.

Mais de uma vez Einstein disse que ia ao Instituto só para conversar com Gödel no caminho, já que os argumentos lógicos deste matemático sempre eram muito precisos beirando o non-sense. Rebeca Goldstein em seu “Incompletude: a prova e o paradoxo de Kurt Gödel” (Cia. das Letras 242p.), descreve alguns destes “causos”: no Instituto criaram um departamento só para ele pois assim ele não tinha que participar em outras reuniões com sua lógica extravagante que nunca admitia afrontar uma autoridade (ou pessoa em cargo superior). Outra vez reafirmara que não concordava com a idéia da seleção natural (era probabilística demais pro gosto dele) argumentando que “Stálin também não acreditava nela e que ele era muito inteligente”.  

As conversas de Gödel e Einstein duraram até a morte deste (1955) que apenas para Gödel foi repentina enquanto todos já sabiam da doença do físico. O matemático perdeu, então, seu colega de exílio, pois assim como o cientista mais famoso do mundo, ele também tinha fugido da Europa nazista. Aliás, quando chegou em 1939, Gödel foi recebido por outro pesquisador, também exilado e ávido por notícias de Viena, mas Gödel se limitou a dizer que em Viena o “café está horrível!”.

Outra história que não pode ser esquecida é a da aquisição da cidadania americana por parte de Gödel. Para ser cidadão americano, o estrangeiro responde algumas perguntas ao juiz sobre a constituição. Pois não é que o “lógico” encontrou uma contradição interna na constituição americana que permitiria que ela degringolasse em tirania? Tendo contado isto a Morgenstern (outro exilado), este ficou preocupado que Gödel simplesmente não passasse no exame e resolveu, junto com Einstein, levá-lo até o juiz na data marcada.

Com Morgenstern ao volante, Einstein ficou o tempo todo contando piadas para distrair Gödel. De nada valeu. Interpelado pelo juiz, Gödel começou a expor seu ponto de vista. O juiz, que já conhecia Einstein e as excentricidades dos cientistas, limitou-se a interrompê-lo com um “não há necessidade de entrar em detalhes”. O juramento seguiu sem incidentes, e Gödel morreu anos depois (1978) como cidadão americano.

Até hoje ninguém traduziu a parte do conjunto de notas taquigráficas de Godel referentes ao estudo da constituição americana. Quem sabe agora com a edição e publicação de seus escritos (Collected Works, vários volumes pela Oxford), que nunca foram publicados, isto possa ser explicado.

No final da vida, desconfiado de envenenamentos e já não querendo comer, teria dito a um amigo: “Perdi a capacidade de tomar decisões positivas.Só consigo tomar decisões negativas”. É lógica pra ninguém botar defeito.


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POR EM 01/12/2008 ÀS 05:12 PM

Incompletude, agora completa

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(...continuando)

Kurt Gödel participava das reuniões do Círculo de Viena mas decididamente não compartilhava com a maior parte das idéias positivistas ali discutidas. Wittgenstein era influente em tal Círculo, apesar de não aparecer por lá e, quando aparecia, não dava a mínima atenção ao que os outros falavam, preferindo ler, de frente pra parede e em voz alta, o poeta indiano Tagore (“a flecha durante o vôo grita: ‘sou livre, livre..’. Ledo engano, seu destino está traçado pela pontaria do arqueiro.”).

Rebeca Goldstein em seu “Incompletude: a prova e o paradoxo de Kurt Gödel” (Cia. das Letras 242p.) mostra que os dois cérebros não poderiam ser mais díspares. Wittgenstein era o ator do grande drama do gênio: cheio de tiques e manias, como bater na testa para despertar um insight filosófico, e sempre transpassando seu padrão de busca da verdade absoluta para o cotidiano. Por exemplo, ao visitar uma amiga que sofrera a retirada das amígdalas e lhe dissera que estava se sentindo um cachorro atropelado, ele respondera: “Você não sabe como se sente um cão que foi atropelado”.  Como se percebe, Wittgenstein precisava ler muito mais poesia.

No quesito comportamento, Gödel ficava no outro canto da sala de Viena: ele simplesmente nunca falava nada no Círculo, preferindo menear com a cabeça suas discordâncias, concordâncias ou desconfianças. Além disso, no final da vida deixou claro que suas maiores influências tinham sido Gomperz e Furtwängler, e que o Círculo e Wittgenstein não o influenciaram em nada. Mas não se sabe ao certo se há um pouquinho de ressentimento nesta afirmação pois Wittgenstein, na análise de outros matemáticos, não entendeu e por isto deu de ombros aos teoremas de Gödel. Para alguns, o conhecimento de lógica matemática de Wittgenstein não valia um vintém, “pois sabia muito pouco à respeito e o que sabia estava confinado à linha de produtos de G.Frege-B. Russell” Mas afinal, o que Gödel disse em seu teorema da incompletude?

A matemática é, desde Platão, uma área certa e inatacável (“a mais rigorosa de todas as disciplinas”), cujo conhecimento pode ser comprovado. Mas de onde vem a fonte desta certeza matemática? Na verdade, as provas partem de conclusões de outras provas e, a partir delas, deduzem conclusões adicionais. Tudo isto vale para um determinado sistema axiomático (axiomas são as verdades básicas do sistema, intuitivamente óbvios que não precisam de provas), e seus teoremas resultantes da aplicação de regras de inferência.

Há então a necessidade de eliminar a intuição que pode ser ardilosa e nos levar a maus caminhos, mostrando que às vezes o axioma pode ser refutado. O surgimento da geometria não–euclideana (sim, isto existe...) é um dos melhores exemplos disto, e que levou um de seus descobridores, J. Bolyai (1802-1860) a dizer: “...do Nada criei um estranho mundo novo”.

Os sistemas axiomáticos visam proporcionar um padrão máximo de certeza com regras claras a ponto de serem mecânicas e computáveis. A isto dá-se o nome de formalização, isto é, eliminando as intuições, os sistemas formais seriam completamente adequados à prática da matemática, como a um jogo de xadrez, sujeito a determinadas regras que constituem em si, toda a sua própria verdade. Este formalismo já havia sido declarado no manifesto dos positivistas: “O homem é a medida de todas as coisas...criamos nossos sistemas formais e a matemática inteira decorre deles”.

Aí veio o revolucionário “kuhniano” Gödel com seu primeiro teorema da incompletude: “se um sistema formal S da aritmética é consistente, então é possível construir uma proposição que chamaremos de G, verdadeira mas não comprovável naquele sistema. Assim, se S é consistente, G é verdadeira e não dedutível. Trivialmente, se S é consistente, então G é verdadeira.” (Goldstein, p. 137). Isto ajudou Gödel em seu segundo teorema da incompletude: é impossível provar formalmente a consistência de um sistema de aritmética dentro daquele sistema de aritmética.

O formalismo tinha virado um castelo de cartas, seu maior defensor e organizador,o grande matemático Hilbert, ficou enfurecido com a prova de Gödel de que existem proposições aritméticas verdadeiras e que não são comprováveis. Mas Hilbert sabia, mais que ninguém que uma prova, é uma prova, é uma prova....

Além de estar na fronteira do conhecido com o desconhecido, os teoremas de Gödel quase alcançavam a auto-contradição. Para entender melhor, vejamos o paradoxo do mentiroso: o cretense Epimênides disse: “Todos os cretenses são mentirosos”. Dá pra acreditar nele? E que tal: “Esta própria sentença é falsa”. Ela só é verdadeira se e somente se for falsa. Para Gödel isto se tornara em algo como: “Esta própria sentença, apesar de verdadeira, não é dedutível dentro deste sistema”. Portanto, o sistema formal é inconsistente ou incompleto.

A prova matemática de Gödel para este teorema já foi mais de uma vez comparada a literatura de Franz Kafka, ou mesmo ao universo de Alice no País das Maravilhas onde os próprios significados se transformam, mas no entanto, tudo segue a mais rigorosa lógica “kafkiana”: o indivíduo transforma-se numa barata, mas o mundo de sua família continua o mesmo.

É incrível que apesar de dizer que “passava por cima da prova de Gödel..” Wittgenstein, na interpretação de Goldstein, também tinha sua própria prova da incompletude, quando afirmava em seu confuso “Tractatus” que os sistemas lingüísticos não conseguiriam exaurir toda a realidade não matemática: “Existem, de fato, coisas que não podem ser expressas em palavras. Elas se fazem manifestas. Elas são o que é místico”.

Não é à toa que Gödel, tinha como autor preferido Leibniz e, como ele, acreditava que alguma versão da prova ontológica da existência de Deus seria válida. Uma vez Gödel afirmou que só faltava-lhe um passo para tentar deduzir, da definição de Deus, a existência de Deus. Como a maioria de seus trabalhos esse também não foi publicado, mas é um tema interessante para um romance policial. Da mesma forma, seu trabalho sobre relatividade, que Einstein tinha especial apreço, e que mostrava que poderíamos viajar no tempo, é material farto para uma obra de ficção científica.


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POR EM 24/11/2008 ÀS 08:54 PM

Incompletude, ainda incompleta

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É velha a piada, mas vale à pena recordar. Dois físicos estavam voando de balão (gastando dinheiro do CNPq) estudando a forma das nuvens, quando se perderam (típico...) e foram cair num campo deserto muito distante do ponto de pouso. Um homem flanava por ali. Os físicos mais que depressa: “Por favor, meu senhor, sabe onde estamos?”. O caminhante respondeu após intermináveis trinta minutos: “Num balão”. Um dos físicos perguntou-lhe: “O senhor é matemático, não é?”, no que o homem indagou: “Sou. Como você sabe?”. O físico não o perdoou: “Bem, o senhor demorou pra responder; deu uma resposta exata e por último, mas não menos importante, sua resposta não serve pra nada!”.

Pra que serve a matemática? Bem, se for utilizada para alguma coisa, os matemáticos mais puros lhe dirão que não é mais matemática, podendo ser contabilidade, economia, biomatemática, porém, não é mais matemática, aquele assunto de que tratam os matemáticos (“puros”) que têm sempre a sensação de estar descobrindo verdades objetivas pela razão, e não apenas construindo sistemas.

Este papo entre matemáticos é tão sério que a missão do “Instituto de Assuntos Avançados” fundado em 1930 por Abraham Flexner em Princeton, com 30 milhões de dólares doados por magnatas do varejo americano, era dedicar-se única e exclusivamente “a utilidade do conhecimento inútil”. Isto é, Flexner só contrataria cientistas cujos instrumentos seriam lápis e papel. Para se ter uma idéia de como isto era realmente levado ao pé da letra, quando o húngaro John von Neumann começou a construir o computador neste Instituto, foi criticado dentro do departamento por “estar no lugar errado”. Quando morreu, o protótipo do computador foi mandado discretamente para a Universidade de Princeton, já que sua construção era muito prática e, talvez, um tanto quanto trivial (!).

Platão deu asas a importância da matemática que, segundo ele, nos serviria de modelo na busca pela beleza da verdade adquirida única e exclusivamente através da razão pura. Rebeca Goldstein (profissão: matemática) afirma em “Incompletude: a prova e o paradoxo de Kurt Gödel” (Cia das Letras, 242p.) que Platão nos convida para a razão apaixonada ou o êxtase supremo na procura pelo Belo abstrato, sem os defeitos mundanos. Em outras palavras, o filósofo quer que nos apaixonemos platonicamente.

Um destes eternos enamorados da verdade platônica foi Kurt Gödel, nascido em 1906 em Brno, que hoje pertence a República Tcheca, mas no início do século XX era parte do império dos Habsburgo. É muito provável que o leitor nunca tenha ouvido falar desta cidade, mas foi ali, num mosteiro agostiniano, que Gregor Mendel realizou seus experimentos com ervilhas e descobriu as leis da dominância e recessividade. De qualquer forma, a herança genética da cidade foi também mexer no DNA da matemática.

Gödel foi para Viena com 18 anos de idade para estudar na Universidade. Esta mesma Viena, do período entre guerras, era a capital intelectual do planeta ou ainda “o laboratório de pesquisa de destruição do mundo”, nas palavras do ácido jornalista da época Karl Kraus, um lingüista radical, para quem “falar e pensar são a mesma coisa” e que tinha grande influência sobre os pensantes-falantes dos famosos Cafés vienenses. No início, Gödel fora atraído pela física e a teoria das cores do “cientista” Johann W. Goethe, depois pela matemática e teoria dos conjuntos, mas apaixonou-se perdidamente ao deixar-se atrair pelo caminho da lógica. Ainda hoje é considerado o maior lógico desde Aristóteles (paixão, literalmente, à toda prova...).  

Goldstein “demonstra” que é impossível saber qual foi o momento iluminado de Gödel, mas através daquilo que chama de “especulação esclarecida” conta que o jovem tímido participou assiduamente (embora a influência possa não ter ocorrido) das reuniões do Círculo de Viena, que congregava os principais pensadores de então: Moritz Schlick (organizador das reuniões), Rudolf Carnap (orientado de Max Planck), Otto Neurath (economista que empurrava as reuniões para o assunto de política), e, entre outros, o matemático Hans Hahn que introduziu ao Círculo as idéias de G. Frege e Bertrand Russel (com aulas sobre a principal obra de ambos, o Principia Mathematica) e convidou seu orientado Gödel a participar das reuniões.

O Círculo de Viena defendia o positivismo lógico, falando em nome da precisão e do progresso associado às ciências. Eles deixaram claro que o fato de algumas perguntas permanecerem irrespondíveis (Deus existe?), não é problema de nossa ignorância, mas sim pelo fato da questão não fazer sentido, já que ela não é suscetível à medição ou ao procedimento empírico.

Apesar das reuniões serem concorridas, a ponto de ninguém entrar sem convite (Karl Popper, por exemplo, suou para conseguir o seu) a personagem mais influente do Círculo não aparecia por lá: Ludwig Wittgenstein. Mas isto a gente comenta a semana que vem.


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