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POR EM 14/03/2008 ÀS 03:56 PM

Promessas do Marcelo

publicado em
 
Marcelo Leite é provavelmente o mais importante jornalista científico do país, mantendo um blog bem escrito e antenado (http://cienciaemdia.zip.net/). É uma das referências nacionais no quesito divulgação científica, a atividade que se preocupa com a popularização dos procedimentos e resultados da ciência.
 
Mas o velho ditado “em casa de ferreiro, espeto de pau” serve para M. Leite que transformou sua tese de doutorado em Ciências Sociais, no livro Promessas do Genoma (Editora UNESP, 243p., 2006).
 
Não que falte ao livro, uma boa compilação de informações sobre toda aquela falação do projeto genoma humano (PGH) que tomou conta da mídia mundial no início deste século. Mas o livro peca por excesso de academicismo, nos levando a impressão que Marcelo, abriu o arquivo de sua tese, “salvou como” livro e mandou para o editor (e olha que nem li a tese....).
 
Aliás, nenhum problema que alguém das “Ciências Moles” pegue sua tese e a transforme num livro enfadonho que provavelmente ninguém lerá e nem o tempo o tirará da lata de lixo da história, pois isto tá cheio pelo brasilzão afora...Porém, é de se esperar que um dos pilares da nossa divulgação científica, tenha um texto mais claro, menos pedante, menos cheio de academicismos como por exemplo: “(...) [tecnociência é] à primeira vista, libertadora de forças materiais a serviço dos homens, mas também arquiteta de barreiras para o desenvolvimento das sociedades humanas. Prometeu e Fausto, reunidos numa única máscara de Jano” (p.150). Eu heim?!?!?
 
Apesar disto, o leitor interessado no tema, tem no primeiro capítulo, que é de longe o melhor, uma abordagem indispensável. Nele, Leite disserta sobre os dois números da Science e da Nature de fevereiro de 2001, que trataram exclusivamente do genoma humano e reproduziram uma enxurrada de analogias sobre o DNA: “os genes orquestram a construção do miraculoso mecanismo de nossos corpos”; “o genoma é o hardware molecular que dá suporte ao processo da vida”; “...num certo sentido, nós somos tanto coletiva quanto individualmente definidos no quadro do genoma” e por aí afora.
 
Estas analogias foram divulgadas e ampliadas depois pelos jornalistas, que, então, levaram a fama de “ignorantes em ciência”, “exagerados” e, por fim, “deterministas”. Leite é o policial forense do assunto, mostrando a verdadeira paternidade destas analogias (os próprios cientistas), incluindo, em mais detalhes, as afirmações tolas e altamente pretensiosas de James Watson, o decifrador da dupla hélice (junto com Francis Crick), sobre o PGH.
 
É pessoal, eu sei que Watson ganhou um Nobel, e, para alguns ele tem direito de se auto-vangloriar, mas quando escreve “...que sejamos seres humanos e não chimpanzés não se deve, em sentido algum à nossa educação, mas sim à nossa natureza, isto é, nossos genes...”, vou logo lembrando do que disse Huxley ao bispo Wilbeforce em ocasião memorável: “...prefiro ser aparentado do chimpanzé do que de uma pessoa que faça tal afirmação....”.
 
Acho que não exagero ao dizer que para Watson, cabe como uma luva o dito de Ortega y Gasset: “La peculiarísima brutalidad y la agresiva estupidez con que se comporta un hombre, cuando sabe mucho de una cosa y ignora de raíz todas las demás”. Watson mereceria um capítulo exclusivo em “Promessas...”, que para um livro de divulgação da ciência, tem os capítulos muito longos (50 páginas), e então por vezes, fazem o leitor perder o fôlego.
 
Leite fala ainda, sobre os sistemas de desenvolvimento e a epigenética, mostrando que o processamento do ser humano é dependente de muita coisa além do que está escrito no DNA. Na verdade, o título “Promessas do Genoma”, é um puxão de orelha ao PGH, que até agora, pelo tanto de recursos que nos sugou, não mostrou à que veio, pois não descobriu cura para nada, esclareceu pouco e afinal, nem trouxe avanço na atividade científica em si, já que ciência não é apenas um conjunto de resultados.
Por fim, e então sobre a parte que não gostei, depois de mostrar que o determinismo genético é balela (DNA não é destino), o autor enfatiza demasiadamente, a tese do determinismo tecnológico e sua influência em nossos valores sociais e culturais. Não é tudo isto....
 
Marcelo Leite é um intelectual honesto. Fico me perguntando se hoje ele não está obcecado por sua crença quase incondicional no assunto científico do momento, o aquecimento global, da mesma forma que muitos jornalistas e cientistas estavam a respeito do genoma uns dez anos atrás. Num futuro não muito distante, acredito que ele escreverá um livro intitulado “Promessas do IPCC”. Até lá, tenho certeza, estará curado do sociologismo que depõe contra a divulgação científica.

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POR EM 06/03/2008 ÀS 10:27 PM

Nossas universidades

publicado em


O grande intelectual Otto Maria Carpeaux, reforçou num artigo memorável (A idéia da Universidade e as idéias das classes médias) que a vida espiritual das nações depende das universidades: a França medieval é a Sorbonne, a renascentista, o Collège de France, e a moderna, a École Normale Supérieure. Já a Inglaterra conservadora é Oxford e Cambridge. A Alemanha luterana foi Wittenberg e Iena e a moderna Bonn e Berlim. E por aí vai.

Agora os (meus) exemplos tupiniquins da nossa “vida espiritual”.

Recentemente, na Universidade de Brasília (UnB) descobre-se que o reitor comprou artigos de luxo para seu “apartamento funcional” com o intuito de receber e agradar aquelas “Very Important People” e assim estabelecer convênios “fundamentais” para a própria Universidade. Em assembléia, os professores da UnB se reúnem para discutir o caso e por 157 votos contra 24 (a UnB tem 1400 docentes), rejeita-se a proposta de afastamento do reitor e critica-se a “mídia golpista”.

Cá entre nós, gente: isto não é típico de Brasília? O que o reitor fez é considerado legal (vamos apurar abusos, etc....) e então a culpa é da imprensa. Não é o próprio espírito maligno e sinistro de Brasília?

Na Universidade de São Paulo (USP) ano passado, alunos invadiram a reitoria alegando que havia uma ameaça contra a autonomia universitária. A reitoria ao invés de chamar a polícia, inicia um “diálogo” (claro, claro, são muito democráticos....). Greves pontuais se iniciam pelo campus e depois de ameaças à professores que queriam continuar trabalhando, há finalmente o consenso que a greve é inócua e tola. A maioria das aulas volta ao normal, mas os invasores se mantêm na reitoria com uma lista de reivindicações completamente absurda. De repente, percebe-se que a Universidade passa muito bem com ou sem os invasores e, acreditem, sem a própria reitoria.

Não é típico “sumpaulo”? a) um movimento estudantil sem pé nem cabeça (“o avesso, do avesso, do avesso, do avesso”); b) uma reitoria que “acha feio o que não é espelho”; c) e a vida continua assim mesmo “da força da grana [da FAPESP] que ergue e destrói coisas belas”.

Em 2006, o reitor da Universidade Estadual de Goiás (UEG) deixou o cargo para se candidatar à deputado federal. Como seus 50 mil votos não foram suficientes, ele tentou voltar à reitoria, mesmo numa situação completamente ilegal, já que nem concursado era. Com exceção de alguns professores e alunos, que literalmente passaram a dormir em protesto nas salas da reitoria, nenhuma autoridade política (nem o governador) se colocou explicitamente contra a atitude do político-reitor. No final, graças à teimosia destes alunos e professores, ele não voltou.

De novo, só entre a gente: isto tudo não é típico de um Estado que ainda guarda todos os ranços coronelistas, com pessoas ávidas para te dizer “você sabe com quem está falando?”.

Carpeaux em seu artigo, ainda afirmava “O fato central da nossa época é a violência generalizada a todos os setores da vida pública, a violência que pretende substituir o espírito no seu papel guiador das massas”. Profético, pois, incapazes de gerirem a “vida espiritual-intelectual” da nação, nossas universidades são guiadas por esta violência política, burocrática e “acadêmica de cartório”.

Pelo menos, ninguém pode acusá-las de não serem genuínas representantes regionais. 


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