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POR EM 17/11/2008 ÀS 05:34 PM

O caminho para Galápagos

publicado em

Em julho e agosto deste ano, a Bula publicou vários artigos meus falando de Galápagos, por onde estive viajando. Como muito amigos andam me perguntando como montamos nossa viagem para Galápagos, quanto gastamos, se compensou etc…então vou dar algumas dicas de turista não-acidental, pois foi nessa condição que fomos para lá.

1 – Para chegar em Quito no Equador, tem-se que necessariamente passar por Lima no Peru e fazer uma escala de umas 5 horas nesta cidade. Fomos com a Companhia TACA que, inclusive é peruana e o nosso vôo saiu de Congonhas às 06:00h da manhã, o que não é fácil. A mesma Companhia nos levou até o Equador. Quem tem milhas da TAM pode ir apenas até Lima;

2 – Todos os pacotes turísticos prontos que procuramos para ir ao Equador-Galápagos enfatizavam muito mais os passeios no continente do que no arquipélago. A Adriana então teve que investigar na Internet e fez muitos contatos com esta agência de viagens que nos ajudou bastante: SURTREK - Tour Operator http://www.surtrek.com/. Nesta página você clica em “contato” e escreve a eles dizendo que tipo de passeio você gostaria de fazer (caprichem no espanhol ou no inglês);

3 – Para chegar à Galápagos é necessário comprar uma espécie de visto e a agência de viagens normalmente faz isto. O preço é $50,00 (se você tiver passaporte não sul-americano, então você paga $100,00). A mesma agência pode  comprar sua passagem de avião de Quitos para Galápagos (lembre-se que o arquipélago fica à 900 km do continente), pois é mais difícil comprar aqui no Brasil;

4 - Nós reservamos um hotel nas Galápagos (http://www.redmangrove.com/), na cidade de Porto Ayora (ilha de Santa Cruz). É a melhor cidade do arquipélago (não é a capital), onde está a Estação de Pesquisa Charles Darwin. Há boas lojas, restaurantes e um sistema honesto de táxis. As atrações são: um pequeno passeio de barco em torno da ilha (4 horas), a Estação de Pesquisa (4 horas de visita são suficientes), algumas praias (inclusive para surf); algumas fazendas que criam tartarugas gigantes e à noite, se tiver pique, dá pra sair pros bares e restaurantes (preços razoáveis, $15-25 dólares por refeição).

5 – Para visitar as outras ilhas em tours de apenas um dia, você tem que ir a uma das inúmeras pequenas agências de viagem em Porto Ayora e fazer as suas reservas. Normalmente os hotéis fazem isto também, mas sai um pouco mais caro. Não deixe para última hora, que você pode ficar sem passeio. O ideal é agendar todos os passeios no primeiro dia. Importante: não há outro modo de conhecer as ilhas sem estes passeios (Observação: estas agências só recebem em dinheiro, isto é, dólar);

6 -  Todas as visitas às ilhas têm o seguinte modelo: primeiro, uma caminhada na ilha com guias, segundo um mergulho-livre ao redor da ilha, em locais amenos. A água é gelada, mas vale muito a pena, pois a fauna marinha é maravilhosa;

7 – Uma boa sugestão para quem tem mais dinheiro é pegar um navio ou catamarã para um Cruzeiro (nem sempre os navios são muito grandes). A vantagem é que neles você viaja durante a noite e quando acorda pela manhã, já está nas ilhas. Veja, por exemplo, http://www.tiptopfleet.com/ cuja experiência neste tipo de passeio vem desde 1969! Eles têm até um guia de campo, pra você anotar o que viu nas visitas, etc...Do contrário, fará como nós: terá que viajar de duas a duas horas e meia para chegar as outras ilhas (na volta se gasta o mesmo tempo). Para evitar enjôos, não exagere no café da manhã;

8- Quanto ao preços, vou indicar aqui o valor para duas pessoas, lembrando que para alguns casos, como, por exemplo, hotéis nem sempre o preço para uma pessoa é metade do valor de duas (também não coloquei aqui nossos gastos com a visita ao vulcão Cotopaxi). Os valores estão todos em dólares, pois a turbulência atual nos obriga a voltar ao padrão dólar.

1 - Passagem São Paulo-Quito-São Paulo: $1.863,89 (duas pessoas);
2 - Sete noites no Red Mangrove Galápagos Lodge, na ilha de Santa Cruz: $1.469,92;
3 - Passagem Galápagos-Quito-Galápagos e hotel em Quito (pois não dava pra dormir no minúsculo aeroporto de Quito, além do que queríamos conhecer as maravilhosas igrejas da Capital do Equador): $1.800,00;
4 - Cinco Passeios nas ilhas Galápagos: $1.080,00;
5 - Gastos com refeições, presentes e livros: $800,00 (de $35,00-$50,00 é o preço de um jantar pra duas pessoas);
6 – Gorjetas (total): $100,00.
7 - Taxa de embarque no aeroporto de Quito na nossa volta: $80,00 (um absurdo!!!);

Tudo isto, dá uns $7.000,00 dólares/duas pessoas. Sinceramente se você é biólogo ou gosta da natureza e/ou ainda dá importância para lugares marcantes para a ciência mundial, o valor não é tão alto. Lembre-se que é uma viagem para fazer quando você estiver já maduro profissionalmente, pois assim você a aproveita melhor.

É incrível como brasileiro tem mania de só tirar férias na praia, de papo pro ar, bebendo cerveja (argh!!!). Que tal aproveitar estes períodos da nossa vida para aprender mais sobre a natureza e o mundo? Como se diz por aí, praticar o “ócio criativo”. O mundo é muito maior do que ficar olhando o mar de Ubatuba ou da Bahia (não que eu não goste disto também, mas diversão com conhecimento é ainda melhor).

Tem outra coisa. Um grande amigo meu disse-me que não vai a Galápagos porque acha errado passear nestes lugares, onde os bichos deveriam ser deixados em paz. Não concordo nem um pouco com ele. A questão é que se Galápagos perder seus turistas, o que farão seus mais de 20 mil moradores? Pois é, aquela tartaruga que vale muito quando está viva, passará a só ter valor se estiver morta. Qualquer dia destes voltarei a este tema....

Boa viagem.


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POR EM 10/11/2008 ÀS 02:10 PM

Lavoisier: muito mais que cem anos

publicado em

Antoine-Laurent Lavoisier nasceu em 26/08/1743 e teve uma educação refinada com forte tendência cientificista.

Ele era um CDF como se diz por aí. Um jovem amigo lhe escrevera, ainda em 1762, preocupado com sua enorme dedicação à ciência: “É melhor ter mais um ano na terra do que cem anos na memória dos homens”.

Com 22 anos passou a ser o postulante mais jovem da condição de adjunto da Academia Real de Ciências. Mas o título de membro só viria três anos depois (1768) com trabalhos sobre a água, “o agente favorito da natureza”. Apesar disto, seu primeiro trabalho publicado foi sobre a gipsita (gesso natural), já que um de seus maiores interesses na época era geologia e o estudo das substâncias minerais.

Nesta época, entrou para um consórcio privado que coletava impostos para o governo e passou a ser inspetor itinerante. Durante suas viagens realizava estudos pelas cidades principalmente com a água. Ele ainda tinha outros negócios que começaram com a fortuna herdada da mãe e seus amigos cientistas temiam que isto, apesar de deixá-lo mais rico, dificultasse seu trabalho. Porém um matemático objetou: “Melhor pra gente. Os jantares que nos oferecerá serão bem melhores”.

Os contatos e a desenvoltura de Lavoisier dentro do governo cresciam e seu principal laboratório foi instalado no arsenal de armas de Paris em 1775, já que ele passara a exercer o cargo de diretor científico da Administração Real da Pólvora.

Pois bem, a comunidade científica da época acreditava que a água poderia ser transformada em terra, porque a água que evaporava de uma panela deixava sempre para trás um resíduo sólido. Lavoisier demonstrou, com um experimento simples (seguidas destilações num recipiente de vidro fechado), que o resíduo era material que havia se desagregado do próprio vidro, levando literalmente por terra a chamada idéia da transmudação da água (transformação da água em terra).

Mas este não foi o principal experimento de Lavoisier. Como ainda estavam na “protoquímica” os cientistas acreditavam num tal flogisto, uma substância que existiria em toda matéria que pegava fogo (por exemplo, a madeira era considerada cheia de flogisto e cinzas), incluindo alguns gases que poderiam ser mais “flogisticados” que outros.

Com base na literatura corrente, em especial nos trabalhos de Priestley, que jantara com ele, e Scheele, que lhe mandara uma carta falando de suas descobertas, Lavoisier confirmou que a queima do fósforo deixava a substância mais pesada. Queimando estanho notou que o peso só se alterava quando ele abria o recipiente, isto é, talvez a substância absorvesse algum “tipo de ar” (a palavra gás ainda não empregada). Ao aquecer óxido de mercúrio, Lavoisier notou que este se transformava novamente em mercúrio com perda de parte do peso para um gás respirável.

Desta forma, num sistema fechado, ele aqueceu quase um quilo de mercúrio e viu depois de 10 dias a formação de uma camada vermelha, o óxido, cuja quantidade, coincidia com a redução da quantidade de ar do recipiente. O gás restante apagava uma vela rapidamente. Depois, separando e aquecendo o óxido fez, a operação inversa e retornou o mercúrio ao seu estado inicial, ao mesmo tempo que liberou um gás que permitia que a vela continuasse acesa.

Em 1777 Lavoisier leu seu trabalho para a Academia Real Francesa e pôde aplicar a navalha de Ockham: entre duas hipóteses para explicar algo, escolha a mais simples. Não havia necessidade do flogisto e o gás absorvido ou eliminado recebeu o nome de oxigênio (oxy, em grego significa, ácido). Quando o oxigênio estava totalmente queimado restava o irrespirável e não inflamável nitrogênio, que Lavoisier chamava de azote, uma palavra francesa que significa "impróprio para manter a vida".

Claro que algo mais profundo para a ciência foi lindamente descrito neste experimento: a lei da conservação das massas, ou seja, a matéria pode ser transformada, mas não criada nem destruída, pois a conta do coletor de impostos tem que bater no final.

Por este cargo no governo, por seu título de nobreza e apesar de serviços prestados a ciência e ao povo francês (escreveu um estudo estatístico clássico sobre a economia agrícola do país), foi condenado, junto com outros, pelo Tribunal Revolucionário. Lavoisier ainda tentou protelar a sentença para poder terminar alguns experimentos, mas o juiz respondeu: “A República não precisa de cientistas”. Foi executado no mesmo dia (08/05/1793).

É famosa a frase de seu amigo, o matemático Lagrange, sobre este episódio: “Custou-lhes apenas um instante para cortar aquela cabeça, e cem anos podem não produzir outra igual”. Realmente não produziram, Sr. Lagrange.

Lavoisier estará eternamente na memória dos homens e diferente do que pensara seu amigo em 1762, ele não morrera por causa de sua devoção à ciência, mas justamente por causa daquilo que a ciência combate: a ignorância, a arrogância e a politicagem, que foram disfarçadas na revolução francesa de liberdade, igualdade e fraternidade.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:19 PM

A ciência: Deus ou o Diabo?

publicado em

Quem acompanha esta coluna já sabe que não sou aquele crítico sempre preocupado com os últimos lançamentos das editoras. Agora, por exemplo, acabei de ler “A ciência: Deus ou Diabo?” (Editora Unesp, 2001), uma série de entrevistas com cientistas (franceses e americanos) feita por Guitta Pessis-Pasternak, uma jornalista que também já escreveu outras obras do mesmo gênero como “Do caos à inteligência artificial”.

Guitta é exemplar. Por incrível que pareça ela lê, ou pelo menos passa a impressão de ter lido, os artigos e livros dos seus entrevistados, gente como Feyerabend (historiador da ciência), J.P. Changeux (neurobiologista), Ilya Prigogine (químico, estudioso do tempo), dentre outros de primeiro time.

Ao entrevistar o médico Jacques Ruffié e depois de discutir sobre sexualidade, a fragilidade das “raças puras” (evolutivamente mais vulneráveis que as miscigenadas)  e o fato inconteste que faz centenas de milhares ou mesmo milhões de anos que não há variação significativa na espécie humana, pergunta-lhe: “Para o senhor, a sexualidade é o motor fundamental de toda socialização, ainda que já tenha sido dito que ‘Marx explica a sociedade pelo ventre e Freud pelo baixo-ventre’?” A resposta é, digamos, científica: “Tanto um como outro escreveram em uma época em que se conhecia mal a genética humana....não existe sociedades em grupos assexuados, pois ela [a sexualidade] obriga ao encontro....”.

Ainda sobre assunto correlato, ao entrevistar Étienne-Émile Baulieu (especialista em hormônios) o leva a explicar aos leitores que as colaborações imprescindíveis do cientista Gregory Pincus para a invenção da pílula contraceptiva vieram de uma demanda feminista: “Não é espantoso que Pincus tenha trabalhado no aperfeiçoamento dessa milagrosa molécula por solicitação de uma célebre feminista americana?” e Baulieu torna-se didático: “Isto deveria fazer sonhar aqueles que desejam que as necessidades sociais guiem as pesquisas (...) mas é uma exceção. (...) Pincus fez avançar sua pesquisa graças a Margareth Sanger, fundadora do planejamento familiar americano, e à Sra. Catherine McCormick, que ofereceu apoio financeiro (...) e praticamente exigiram a aplicação de seus conhecimentos na condição feminina”.

O livro tem pontos fracos, principalmente em três ou quatro entrevistas, que só têm uma pergunta cada e o entrevistado praticamente escreve um artigo sobre o assunto.

Mas isto é o de menos quando nos deparamos com a entrevista do neurofisiologista Berthoz. A primeira pergunta é perfeita: “Quais mecanismos biológicos foram otimizados no curso da evolução a fim de que o cérebro pudesse, graças à sua memória, predizer o futuro, antecipar as conseqüências da ação?” E ele: “Fausto diz, ‘No início era o verbo’, depois se corrige, ‘No início era ação’. Atribuímos demasiado valor a linguagem em detrimento da ação, do corpo sensível (...) as espécies que venceram a prova da seleção natural souberam ganhar alguns milésimos de segundo para capturar uma presa, ou escapar de um predador (...)”.

E ela continua: “A percepção [do cérebro] seria relativa a uma ação direcionada a um objetivo?” com Berthoz sendo claro: “(...) A percepção do sapo é uma decisão adaptada a um objetivo: comer e não ser comido! Enfim, a própria percepção é a simulação da ação, dizia Janet: ‘Perceber uma poltrona é imaginar os movimentos que seriam necessários para que se nela possa sentar’ e Poincaré: ‘Localizar um ponto no espaço é imaginar o movimento que seria necessário para atingi-lo’ (...)”.

Sobre o título, ela deve ter apreciado a entrevista-artigo de Luc Ferry (filósofo), dá só uma olhadinha:  “(...) duas atitudes contraditórias dividem o monopólio do discurso midiático sobre a ciência: uma consiste em diabolizá-la e outra em divinizá-la (...) na última o cientista seria um gênio cheio de aptidões, mas aptidão não é garantia de sabedoria (...)”.

A epígrafe é ótima para jornalistas e cientistas: “Qual é a tua busca?: perceber a mão de Deus. Qual é o teu medo?: acariciar a cauda do Diabo.” (Hubert Curien).


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:34 PM

Entrevista José Alexandre Felizola

publicado em

"Na realidade Darwin não sabia muita coisa, inclusive nada de genética ou desenvolvimento embrionário. Ele teve muitas idéias originais e a biologia se consolida depois dele, e a admiração pelo Darwin é de fato pelo seu pioneirismo e por curiosidade em termos de história da ciência. Mas no fundo a gente não fica mais lendo o Darwin como fonte de pesquisa original"


O professor José Alexandre Felizola Diniz-Filho, do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Goiás, está entre os mais produtivos (em quantidade e qualidade) cientistas em Ecologia do Brasil. Pesquisador 1A do CNPq (o nível mais alto), Diniz é também um Fellow, isto é, um dos poucos brasileiros membros da prestigiosa Sociedade Linneana de Londres, grupo de naturalistas, que em 1º de julho de 1858, ouviu a leitura dos textos de autoria do britânico Charles Darwin, o homem que assombrou o mundo ao defender que todas as espécies derivam de um mesmo ancestral e que nem mesmo o homem escaparia do processo da evolução. O Professor José Alexandre, falou ao professor Ronaldo Angelini, da UEG de Anápolis, sobre darwinismo, evolução, e ciência. O lado humano e as curiosidades da vida e da obra do cientista inglês também poderão ser vistos na exposição Darwin: Descubra o Homem e a Teoria Revolucionária que Mudou o Mundo a partir de domingo, 17, no centro cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia.
 
Comecemos do princípio: afinal o que é Darwinismo? Uma hipótese científica, uma teoria ou uma área de investigação?
Darwinismo é na realidade uma tradição de pesquisa. Ernst Mayr, considerado um dos maiores biólogos do século XX, diz que o darwinismo tem cinco componentes principais: a confirmação da existência da evolução, a especiação, a ancestralidade comum entre as espécies, o gradualismo e a seleção natural como processo da evolução. É difícil caracterizar tudo isto como uma teoria na acepção da palavra, mas de qualquer forma o cerne do darwinismo é a seleção natural.
Tenho a impressão que dentro do ramo de pesquisa dito darwiniano, cabem teorias aparentemente antagônicas como, por exemplo, o gradualismo proposto por Darwin e o pontualismo do Stephen Jay Gould, ou ainda a radiação evolutiva e a deriva genética. Não é muita contradição dentro de um mesmo arcabouço teórico?
Vamos com calma. Gradualismo é a evolução dentro da população ou espécie ao longo do tempo e de modo contínuo, já a teoria do equilíbrio pontuado do Gould é alternativa à isto, pois propõe que as mudanças das espécies estariam concentradas em certos momentos de especiação, quando por alguma razão externa, haveria um isolamento de populações que evoluiriam diferenciadamente e dariam origens à outras espécies. Na verdade são modelos alternativos e complementares de evolução. Já a deriva genética é a fixação aleatória de características que não possuem valor adaptativo e é um fenômeno aceito dentro da teoria genética de populações neodarwiniana clássica, iniciada com Ronald Fisher no início do século XX. Perceba que ela é não-darwiniana, no sentido definido antes de seleção natural do mais ajustado, mas ela não é antidarwiniana. A questão é saber quais as características são fruto do processo adaptativo e quais não, isto é, que características evoluem de forma neutra.
Evolução neutra é um termo meio esquisito pra quem não é do ramo...Mas acho que podemos brincar com a frase de Einstein e dizer que no processo evolutivo, Deus joga dados viciados, isto é, tudo pode acontecer, mas alguns eventos acontecerão mais que outros, pois guiados pela seleção natural. É isto mesmo?
Sim, se você pensar que a maior parte da estrutura dos organismos não existe por acaso, isto é, ela foi ajustada a condições locais que se sucedem no tempo pela seleção natural. Isto implica duas coisas: primeiro, que os processos adaptativos atuais dependem da variabilidade mantida na espécie e segundo, que uma parte da variação atual pode ter tido função adaptativa no passado, mas não é útil hoje. Além disso, precisamos pensar que a variabilidade da espécie pode ser produto do acaso, do resultado do dado não-viciado naquele momento, e se esta variabilidade se fixa na população, dizemos que houve uma variação neutra. No nível molecular isto é muito freqüente.
Assim, nem toda modificação ocorrida numa espécie foi devida à seleção natural. O que aconteceu então?
Bom, pensando no lançamento de dados nós sabemos que pela organização que já existe nos organismos a maior parte das mutações aleatórias é maléfica, então não se mantém. Por outro lado, algumas delas são vantajosas e podem ser capitalizadas pela seleção natural. A parte da variabilidade que não tem função específica e, mesmo assim se fixa, constitui a evolução neutra. Como ela acontece com velocidade aproximadamente constante, a diferença entre as espécies para estas características é meramente função do tempo a partir do qual elas se isolaram. Assim, se conseguimos separar quais as características neutras, podemos medir as diferenças nestas características e reconstruir as relações de parentesco com mais facilidade. 
Isto me parece paradoxal...
Mas é paradoxal. Pois é, exatamente a evolução neutra que nos permite construir a história evolutiva de um grupo de organismos, como os tentilhões das Galápagos, por exemplo. Como sabemos que eles são aparentados? Pelas características comuns entre eles, por exemplo, o tamanho. Já os diferentes bicos que estas espécies possuem e que são resultados dos processos adaptativos que ajustaram os organismos e originaram as diferentes espécies, “mascaram” ou mesmo “apagam” a história de ancestralidade.
A evolução é uma “história” biológica ou uma teoria científica?
As teorias evolutivas se referem à mecanismos ou processos, como a seleção natural e a deriva genética, que mostram como se desencadeia a variação de características biológicas no tempo e no espaço.  Mas acho que podemos pensar a evolução como parte da história de eventos biológicos. Na verdade, é difícil pensar darwinismo como teoria cientifica exatamente por causa da multiplicidade de possibilidades de cada espécie ou linhagem, cujas características evoluíram por diferentes razões.
Então se é história, não é ciência (risos...) e apenas explica fatos que aconteceram e que não se repetirão jamais. Não posso olhar pra um lobo-guará e dizer: “este bicho será assim no futuro”. Desta forma, do ponto de vista científico, pra que serve a evolução se ela não pode prever nada?
Esta é uma definição de ciência mais instrumentalista que precisa prever alguma coisa. Mas a ciência não é só isto. Compreender processos que atuaram ao longo da história também é ciência. Nós não sabemos se o lobo-guará vai evoluir e gerar duas espécies diferentes, mas sabemos que se houver uma mudança rápida no ambiente ele pode vir a ser extinto, pois o seu nicho ecológico não acompanhará sua mudança. De modo geral, o nicho das espécies demora a evoluir, o que nos permite entender os gradientes de diversidade do mundo (mais espécies nos trópicos que nos temperados).
Recentemente a Nature publicou um trabalho, no qual os autores mostram que não são poucos os exemplos de espécies que surgiram a partir do cruzamento de outras duas espécies, um tipo de “híbrido promissor”. Darwin desconhecia totalmente este fato pois os híbridos são, na grande maioria, inférteis. Dentro da ciência da evolução como este dado, recentemente comprovado, se encaixa?
Na realidade Darwin não sabia muita coisa (risos...), inclusive nada de genética ou desenvolvimento embrionário. Ele teve muitas idéias originais e a biologia se consolida depois dele, e a admiração pelo Darwin é de fato pelo seu pioneirismo e por curiosidade em termos de história da ciência. Mas no fundo a gente não fica mais lendo o Darwin como fonte de pesquisa original, acho que isto é diferente dos sociólogos que lêem Marx ou Weber, por exemplo. Porém, o conhecimento biológico avançou muito. Em relação aos híbridos não existe nada na teoria que mostre que isto não possa acontecer, mas por uma questão que já falamos de organização, não é muito provável que dois organismos que se diferenciaram, ajustando-se ao ambiente, voltem a se cruzar e deixar descendentes férteis, mais ajustados que eles próprios, isto se chama reticulação, mais difícil de ocorrer que a diversificação.
Tem uma espécie de ave nas ilhas Galápagos que a fêmea coloca dois ovos, mas só criará um dos filhotes, pois o primogênito expulsará o menor do ninho e a mãe aceitará impassível este fato. Alexandre, como que um gasto energético inútil, da ordem de 50%, pode ser vantajoso do ponto de vista evolutivo? Isto é, como a seleção natural não atuou nesta espécie para escolher fêmeas que colocassem apenas um ovo, já que ela criará mesmo apenas um filhote?
Dentro do paradigma evolucionista clássico, eu responderia que é muito mais dispendioso esta fêmea por um ovo apenas e correr o risco dele não se desenvolver. Mas também há uma outra possibilidade que quase ninguém leva em consideração, pois temos o costume de achar que as espécies estão todas prontas e acabadas, quando na verdade a evolução é um processo contínuo: assim, se os ancestrais desta espécie colocavam três ovos e só criavam um filhote, então esta ave ainda está no meio do caminho...
Ela não atingiu o ótimo...
Pois é, e quem sabe dentro de uns milhares de anos, vai economizar um ovo, colocando apenas um. Mas o importante aqui é entender que assim como a história não chegou ao fim, apesar do Fukuyama (risos...) [Francis Fukuyama escreveu o “Fim da História” ] , a evolução também não chegou.
Nos últimos 30 anos, quais as principais colaborações da genética para o entendimento da evolução?
A colaboração principal foi instrumental, tanto na Genética, como na Biologia Molecular que trouxeram algumas ferramentas formidáveis, que nos fornecem dados precisos nos permitindo estudar as variações das populações, que antigamente só eram feitas morfologicamente (através de medidas do corpo) e comportamentalmente (através do estudo do comportamento).
A seleção natural diz que o indivíduo mais ajustado ao ambiente sobrevive e deixa descendentes. E quem é o mais ajustado? Aquele que sobreviveu e deixou descendentes. Como esta tautologia, citada por Karl Popper, pode ser resolvida?
Esta tautologia é uma questão de semântica que não esta na concepção da seleção natural. Ela só existe dentro do programa plangossiano: a visão que todas as características estão associadas a seleção natural e isto, como já discutimos, não é verdade. Acredito também que esta tautologia só seria válida se eu pensasse a seleção natural como um processo teleológico, isto é, que você regula a distancia, com uma meta clara e isto você não tem na seleção natural.
Parece certo que Darwin foi influenciado pela “escada aristotélica”, idéia na qual Aristóteles diz que há uma hierarquia linear de complexidade com o Homem no topo. Isto colaborou para a interpretação também linear do processo de evolução proposto pelo inglês, como na famosa figura da evolução humana. Você não acha que este é maior e grave problema da compreensão da evolução como um todo?
Darwin foi o primeiro a dizer que não existe um organismo mais evoluído que o outro. Ele também foi o primeiro a usar a analogia da árvore evolutiva e nunca gostou da palavra evolução que se confundia, e se confunde ainda hoje, com progresso, preferindo usar “descendência com modificações”. Lamarck, sim, usou a escada aristotélica e Spencer era lamarckiano ferrenho. A árvore evolutiva foi posteriormente chamada por Mayr de evolução horizontal. Assim, nós não evoluímos do macaco, como na figura que você se refere. Na verdade, nós somos uns macacos (risos...), claro, diferentes dos outros como eles mesmos são diferentes entre si.
No livro Os ovários de Madame Bovary”, os autores tentam explicar os atos de personagens da literatura universal, baseados em hipóteses evolucionistas. Desta forma, madame Bovary trai o marido por que assim, ela tem mais chance de arrumar um “macho melhor, mais ajustado...” O que acha deste tipo de interpretação?
Esta é mais uma das distorções da sociobiologia proposta pelo Edward Wilson nos anos 70, que nada mais dizia que os comportamentos das espécies evoluíram como qualquer outra característica. Obviamente nosso comportamento evoluiu sobre pressões, mas não podemos esquecer que qualquer característica é sempre regulada pelo componente genético (intrínseco) e ambiental extrínseco. O que Wilson tentou mostrar, corretamente, é que aspectos culturais das sociedades humanas seriam subprodutos de vantagens adaptativas, mas isto não significa que comportamentos individuais têm base de determinantes genéticos. Claro que existem diferenças nos padrões sexuais de homens e mulheres que podem ser compreendidos pelo fato do homem ser um mamífero como outro qualquer, e estas estratégias ótimas para reprodução do mamífero macho sob o ponto de vista darwiniano seria acasalar com o maior número de fêmeas possível, enquanto que a da fêmea seria acasalar com poucos e com machos que lhe dêem maior condições de cuidar da prole, isto por que o investimento de uma fêmea é muitíssimo maior que o do macho. Isto gera conflito de interesses que é “resolvido” de diferentes maneiras pelas espécies e que é determinado por condições ambientais. Poderíamos entender que a freqüência de adultérios seria maior entre homens do que mulheres, mas isto é um fenômeno populacional e não poderíamos usar esta teoria, como desculpa, para que alguém, traia ou não o marido e vice-versa.
Uma teoria científica completa tem que mostrar porque as objeções à ela levantadas estão erradas. Você não acha que os Evolucionista-darwinistas formaram uma grande unanimidade burra, com Dawkins na vanguarda, que quase nunca aceita uma crítica, por mínima que seja?
Talvez sim, se você assumir que o Dawkins é uma adaptacionista extremo, ou seja, pra ele até o lóbulo da nossa orelha é adaptativo. Não sei se é bem o caso, mas particularmente vejo a necessidade de adotar uma visão mais pluralista dos processos evolutivos e considero que isto não vai contra a linha darwinista. O problema é que as criticas ao darwinismo são muitas vezes metafísicas de cunho religioso, a evolução teria um objetivo, e com isto é difícil discutir. Como em qualquer campo da ciência, o estudo dos processos evolutivos é difícil e, às vezes circunstancial com evidências indiretas e históricas, e aquilo que não sabemos é por causa da nossa ignorância, e não dá pra apelar para as respostas metafísicas.
Já mais de uma vez li, que o evolucionismo social, isto é, aquele que leva a ferro e fogo a tal da “sobrevivência do mais forte” e então sustenta cínica e cientificamente aberrações como o nazismo, por exemplo,  é uma forma degenerada e ideológica da teoria da seleção natural. Porém quem começou com esta conversa mole foi Hebert Spencer, antes de Darwin lançar seu “Origem das Espécies”. Não seria então ao contrário? Isto é, o darwinismo ser apoiado numa teoria francamente racista? E isto não teria implicações políticas claras quando retro-alimentada por ele?
Ronaldo, Darwin pode ter lido Spencer, eram contemporâneos e Spencer era amigo de Huxley, um dos mais ferrenhos defensores de Darwin, mas certamente não usou nenhuma de suas idéias. 

 

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POR EM 27/10/2008 ÀS 01:12 PM

Navalha de Ockham

publicado em


Acabou o segundo turno das eleições municipais e o eleitor pôde escolher entre apenas dois candidatos. Entre duas opções igualmente satisfatórias para responder uma pergunta, qual você escolhe? William de Ockham (1285-1349) respondeu esta usando o seu próprio princípio metodológico de economia da explicação: “aquilo que pode ser explicado por menos premissas é explicado em vão por mais”.

Claro que o resultado de uma eleição reflete muito mais que o racionalismo do princípio conhecido por Navalha de Ockham: “entre duas respostas igualmente plausíveis para uma pergunta, escolha a mais simples”. Talvez, se este princípio fosse firmemente aplicado pelos eleitores, o candidato vencedor seria aquele que passasse a impressão que iria se meter menos na vida do cidadão. Mas, como o eleitor também busca um “salvador da Pátria”, então a resposta das urnas acaba sendo oposta a da navalha de Ockham.

Mas Ockham não é considerado um dos pais do nominalismo, movimento que negaria a realidade aos “universais” (o uso de uma designação geral não implica a existência de uma coisa geral por ela nomeada) apenas por isto. Uma outra importante contribuição deste franciscano é de que Deus pode realizar qualquer coisa cuja execução não envolva uma contradição. Um ponto importante em 1330 e muito tempo depois disto também.

Ainda, com sua teoria do conhecimento empirista, refutou Tomás de Aquino que defendia que a essência de uma coisa existente é diferente, embora não separável, de sua existência. Para Ockham, se essência e existência fossem realidades distintas, então não seria contraditório uma existir sem a outra, mas como é contraditório uma essência sem existência, então não há verdadeira distinção entre as duas.

Para ter chego neste ponto, o jovem Ockham entrou em Oxford e, por volta de 1310  tornou-se o chamado “inceptor”, pessoa que cumpriu todas as formalidades para exercer o magistério em teologia.

Faltava apenas a licença para lecionar, isto é, doutorar-se, mas como sua força argumentativa e originalidade tornaram-se polêmicas, foi acusado de praticar o heresia em suas aulas. Assim, nunca obteve a licença, e foi considerado o “venerável inceptor”, aquele que conquistou (por sua originalidade) o doutorado, mas que não levou.

Antes de ser formalmente condenado por apoiar o superior geral da ordem franciscana, na questão da pobreza dos religiosos, contra o papa João XXII, fugiu para  a proteção do imperador Luís da Baviera, que tinha lá suas rusgas com o papa. Era 1330 e ele acabou excomungado por desobediência.

Morreu provavelmente em 1349, dois anos depois de seu protetor da Baviera. Entre a excomunhão e a morte escreveu tratados contra os poderes e funções do papa, e da autoridade imperial, sempre com força argumentativa: “Nada deve ser pressuposto como evidente, a menos que seja conhecido per se ou evidente por experiência ou demonstrado pela autoridade da Escritura”. 


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POR EM 20/10/2008 ÀS 03:34 PM

Vida de cientista

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Em qualquer pesquisa de opinião com o público chamado leigo, um cientista é invariavelmente considerado, na melhor das hipóteses, um “louco genial”. A famosa foto de Einstein mostrando a língua, por exemplo, só não deve ser mais conhecida do que aquela de Guevara que virou símbolo de torcidas organizadas, inclusive fora dos esportes (sei que me entendem...).

Mas porque Einstein fez aquilo? Porque em viagem pelos EUA, um paparazzi não lhe dava trégua. Ele demasiado humano e especialmente educado, apenas mostrou-lhe a língua.

Outro cientista conhecido por suas genialidade e excentricidade é Newton. A única vez que dizem tê-lo visto rindo, foi quando a bibliotecária indagou o motivo dele emprestar constantemente aquele “livro velho de um tal Aristóteles”. Sir. Isaac era realmente esquisitão pois, se lhe surgia uma pergunta interessante, ele esquecia-se completamente de comer ou dormir e ficava dias tentando respondê-la.

Mas é preciso avisar ao público: Einstein, Newton, Madame Currie (dois prêmios Nobel) são grandes exceções a regra. Na sua imensa maioria (99,9%) os cientistas são pessoas normais, com seu emprego cotidiano, seu salário meia-boca, suas contas à pagar, sua religião, e, no Brasil, claro, com seu time de futebol.

O serviço diário para a estarrecedora maioria de cientistas consiste em: corrigir relatórios de orientados que depois terão que ser transformados em dissertações ou teses; escrever seus próprios relatórios normalmente com planilhas infindáveis de dados que passam por análises estatísticas demasiado detalhadas e ainda ser claro para justificar o financiamento feito em suas pesquisas; emitir pareceres em projetos e relatórios de seus pares; enviar memorandos e ofícios solicitando algo e/ou explicando fatos (quase nunca é atendido ou entendido); arrumar, consertar, organizar o laboratório no qual trabalha; escrever trabalhos científicos e tentar publicar numa revista importante, pois na onda da já batizada “numerocracia”, ou o cientista publica ou perece, isto é, fica sem financiamento; preparar apresentações para seminários ou congressos; escrever projetos solicitando mais financiamento e adaptando-os ao “mercado de editais” para pesquisa. Infelizmente estes financiamentos quase nunca possibilitam a contratação de pessoal, e se aprovados, os cientistas terão que escrever mais relatórios, orientar mais gente, enfim, correr ainda mais atrás dos trabalhos e serviços corriqueiros de consertar e arrumar o laboratório, etc.... A chamada roda viva.

Assim, o cientista é um profissional comum como um bancário, garçom, empregada doméstica (a expressão secretária do lar é um horror...), torneiro mecânico, médico ou diretor de escola. Tem hora que está animado, entusiasmado, mas as 11:00 da manhã só pensa em “poder parar, calando-se logo em seguida com a boca de feijão....”.

Desta forma, usando a definição acima, eu e  a Profa. Adriana (minha esposa) somos um típico casal de cientistas e nesta quinta-feira (23/10) as 17:00h, inauguraremos o LAB -Laboratório de Pesquisa Ecológica e Educação Científica na Universidade Estadual de Goiás em Anápolis.

Rapaz, que trabalheira este treco deu. A coisa já começou torta, comigo e a Adriana tentando achar o então reitor, no último dia de validade para a postagem da documentação do edital para a FINEP. Ele tinha que assinar a papelada. Graças ao motorista dele, ficamos sabendo que o encontraríamos na posse de um secretário de Estado. Então fiquei com o projeto e uma bic azul ponta grossa em mãos, esperando-o na porta deste evento. Eu, um cientista comum, contínuo de mim mesmo...Ainda tive que furar a multidão e puxar a manga de seu terno impecável para arrancar-lhe um autógrafo. Como Indiana Jones, chegamos dois minutos antes do correio fechar. Valeu a correria.

Quando o projeto foi aprovado e o recurso chegou, adequamos nossas idéias ao novo orçamento  (metade do que a gente solicitou) e fomos à nossa administração superior pedir um lugar na área de 134 hectares da UEG para construção do prédio. Como a um leproso bíblico, só faltou me jogarem pedras. Pra nossa surpresa foi nos dito que todo o terreno da UEG já estava loteado por um planejamento já bem fundamentado e desta forma, na área de 1.340.000 m2, não haveria lugar para um laboratório de 400 m2.

Mesmo assim continuamos com nosso trabalho tedioso e estressante e eu e o arquiteto e professor Alexandre escolhemos um local. O Alexandre, então, fez o projeto arquitetônico da obra. Aí estava difícil falar com o reitor, mas o editor do Jornal Opção, Euler Belém ligou pra ele e me passou o celular (um telefonema é uma passagem ao infinito, meu caro Euler....). Dois dias depois, consegui então mostrar ao reitor o local que achávamos mais conveniente e ele escreveu e assinou na margem da primeira página do meu ofício: “ao meu chefe de gabinete, para resolver e tomar as providências necessárias”. Saí da reitoria e as coisas se resolveram com a licitação aberta pela Funcer que era quem administrava os recursos.

Com o início das obras, ainda ouvi rumores que ela seria embargada (meu Santo Agostinho diria nesta hora, “...o homem, carne, sangue e orgulhosa podridão...”.) mas a Vera Maria da Funcer disse-me que daria um jeito nestes boatos. De fato, deu. Depois, como quase todo mundo que constrói, quase ficamos loucos com a construtora e o marceneiro, que não obedeciam aos prazos.

Por causa do Laboratório, e da Promotoria Pública, a UEG viu-se obrigada a realizar um plano diretor para sua área. Neste, conseguimos delimitar uma área que será uma Unidade de Conservação, justamente entre o perímetro urbano de Anápolis e seu Distrito Industrial. Um grande avanço para o campus da UEG. Ainda estamos estudando a melhor forma de legalizar isto, mas já recebemos duas visitas de técnicos da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e o atual secretário, o Prof. Roberto Freire, vê a idéia com bons olhos.

Agora, sem pompa, vamos inaugurar o LAB. Chamamos o Coró de Pau pra cantar o hino nacional, e um ou dois discursos improvisados vão salientar a importância deste laboratório. Vamos tomar café ou coca-cola e outros cientistas arranharão seu violões (eles também gostam de música...), enquanto a gente desafina na MPB ou bossa.

No dia seguinte retomaremos a nossa “vidinha mais ou menos”. Viu como um cientista normal é uma pessoa normal? Como diria aquela propaganda de sanduíche: “eu amo isso tudo”.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 10:10 PM

Frango com ameixas

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Marjane Satrapi nasceu no Irã em 1968, viu com 10 anos a revolução islâmica, passou a adolescência na Alemanha e retornou à Teerã onde se formou na universidade de artes. Ela contou tudo isto no romance em quadrinhos “Persépolis” que, quando transposto para a tela do cinema, quase faturou o Oscar de melhor animação (perdeu para Ratatouille, veja a Bula 226).

Em sua mais recente “graphic novel”, “Frango com ameixas” (Cia. das Letras, 2008), ela volta a se basear nas lembranças de família e, assim, conta a história de seu tio Nasser Ali, um exímio tocador de Tar, um instrumento que parece um violão mas com braço mais longo e uma caixa menor.

A história se passa em 1958 e conta os últimos dias da vida de Nasser. Ele é casado com uma mulher que nunca amou, mas que é professora, mãe de seus quatro filhos e provedora do lar, pois ele é um músico profissional famoso, e como quase todos os brilhantes músicos do mundo, vive apertado.

Desta forma, a falta de jeito de Nasser com a vida prática, vai aos poucos causando desavenças com Nahi, sua esposa. Um dia (em 1958) cansada, irritada e nervosa, ela quebra o Tar do marido, que só faltou cantar “meu mundo caiu....”.

Segundo Marjane, normalmente os mestres em Tar ficam com o mesmo instrumento toda a vida e o passam a gerações posteriores de músicos. O Tar de Nasser, por exemplo, pertencera, ao mestre de seu mestre e, portanto, era praticamente membro da família.

Nasser sai em busca de um novo Tar. Experimenta vários, mas nenhum deles o satisfaz. Viaja quilômetros, paga uma fortuna por um, mas mesmo assim, o som do novo instrumento nunca estava bom. Imagine João Gilberto de mau humor...mas devo parar com as piadinhas.

Ele resolve morrer. Deita-se na cama e oito dias depois (22 de novembro de 1958) é enterrado ao lado mãe num cemitério ao redor de Teerã.

Começando pelo enterro do tio, Marjane constrói o romance imaginando o que ele deve ter pensado em cada um dos sete dias que passou em seu quarto antes da morte. No primeiro dia pensa em todas as formas de se matar e recebe a visita da filha querida Farzaneh, que reza pelo pai, como ele, Nasser, rezava pra sua mãe não falecer, até que o dia em que ela mesma lhe pede pra deixar de orar, já que ela queria morrer. Ele a obedece e a enterra seis dias depois.

No segundo dia, recebe a visita do irmão “bem de vida” e que sempre teve um desempenho escolar melhor que o dele. Depois o irmão virou comunista e a família foi obrigada a vender praticamente todos os bens para tirá-lo da cadeia. Nasser é cruel com o irmão: “Quando virou comunista, levou sua família em consideração?”. Eles ainda se abraçam e como recusara o convite para ir ao cinema ver a estonteante Sophia Loren, Nasser acaba, já com os primeiros sintomas da fome (Frango com ameixas era seu prato preferido), dormindo por entre os peitos da famosa musa italiana, um desenho que deve ter dado muito alegria a Marjane, já que na Universidade de Teerã, ela e seus colegas não podiam ver gente nua e muito menos pintá-las.

No terceiro dia ficamos sabendo que Nasser nunca amou sua esposa (ele diz isso a ela) e que queria casar com Irâne, mas o pai dela não aprovara o casamento com um músico profissional. No quarto dia vemos que ele tem pouca intimidade com os filhos que nunca buscaram o caminho das artes, enquanto no quinto dia ainda delira com suas lembranças.

No sexto, ele tem um diálogo inusitado com Azrael, o anjo da morte. Mas sua hora só iria chegar no sétimo dia, quando vemos que, na verdade, ele tocava para o grande amor (Irâne), que dois meses antes não o reconhecera na rua.

Viver para quê? Nasser cita o poeta iraniano Khayyam (1048-1131): “Os astros nada ganharam com a minha presença neste mundo. Sua glória não aumentará com sua derrocada, e meus ouvidos são testemunhas: Ninguém jamais foi capaz de me dizer por que me fizeram vir e por que me fazem ir embora”

Se isto for pro cinema com direção de Clint Eastwod e Daniel Day-Lewis no papel de Nasser, podem ter certeza que Marjane faturará seu primeiro Oscar.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 07:16 PM

Uma pegada no meio do caminho

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“Pegada Ecológica”
é o termo criado por William Rees e Mathis Wackernagel, em 1996, para indicar o quanto as pessoas consomem de recursos naturais, isto é, o quanto “marcamos” o ambiente com a nossa passagem pelo planeta. Mais recentemente os ambientalistas adotaram a metodologia da “Pegada” (no original em inglês, “footprint”) para dizer que estamos “consumindo rapidamente o mundo”.

No cálculo da estimativa da Pegada Ecológica, são somadas todas as diferentes áreas necessárias para produzir um bem (e receber os resíduos de seu uso) que é consumido por uma pessoa ou um grupo específico (como um país). Desta forma, existem os conceitos de: i) terra bioprodutiva: para medir a extensão da área necessária para produzir os alimentos que você consome, incluindo o pasto que alimenta o gado, além de madeira; ii) terra de energia: para consumir o gás carbônico que a fabricação do produto que você consumiu expeliu; iii) mar bioprodutivo: para pesca e extrativismo; entre outros.

Esta metodologia mostrou que cada pessoa do mundo (contando 6 bilhões de habitantes, estimativa de 2004) teria o direito a 1,8 hectares, mas o consumo é, desde a década de 80, de 2,2 hectares.

Também é importante lembrar que moradores de países mais industrializados consomem mais recursos que as sociedades tradicionais. Assim, por exemplo, um americano gasta de 200 a 250 litros de água por dia, já um europeu consome entre 140 e 200 litros, enquanto moradores de certas regiões da África gastam apenas 15 litros. É interessante notar que para esta conta de água o uso indireto é fundamental, pois usamos água quando comemos vegetais e animais ou embalamos produtos.

Mas há problemas com esta metodologia. Neste ano, a prestigiosa “Ecological Economics” publicou um trabalho que compara a pegada de todas as nações. Sabem qual o país com pegada mais imperceptível? Cuba. Imagine uma nação atrasada, sem indústrias, sem transporte coletivo minimamente decente, sem internet ou mesmo computadores e principalmente sem liberdade....pois é, esta nação “respeita o meio ambiente”.

Alguns trabalhos já contestaram a metodologia da Pegada, mas agora, na mesma “Ecological Economics”, o pesquisador Nathan Fiala, da Universidade da Califórnia também levanta dúvidas, sobre a conversão de nosso consumo em área da Terra e seqüestro de gás carbônico.

Assim, por exemplo, quando se diz que uma cidade precisa de muito mais área para sustentá-la, como Vancouver que necessita de 174 vezes sua área para ser sustentável, a pergunta é: faz sentido a comparação? Ora, as pessoas moram nas cidades pois é mais eficiente que morar na zona rural e uma pessoa na cidade precisa de menos terra que uma pessoa vivendo no campo. Ou como se diria na economia: os bens são produzidos de acordo com a vantagem comparativa. Neste sentido, a Pegada mede muito mais a desigualdade do uso dos recursos do que a sustentabilidade de uma cidade ou nação.

Outro problema da “footprint” é a previsão. Muitas vezes, pensamos que “se todo o mundo consumir como um americano, o planeta não suporta”. Mas isto não leva em conta a tecnologia. Assim se os brasileiros aumentarem o consumo, é provável (e altamente desejável) que já se utilizem de novas tecnologias e desta forma, nossa pegada poderia ser comparativamente menor à americana. Isto, de fato, aconteceu com o uso dos celulares, pois vocês se lembram aquelas baterias horrorosas que não duravam nada e iam para o lixo? O celular, quando alcançou os milhões de usuários brasileiros já não precisava mais daquilo. Nas previsões do uso dos recursos, os ambientalistas usam a Pegada sem considerar a modernização da tecnologia.

Vejamos, ainda, a produção global de grãos. Ela aumentou entre 1961 e 2006, numa taxa anual de 2,17% enquanto a terra usada para tal produção aumentou numa taxa de 0,09%. Isto é, a produção intensiva, às vezes muito criticada por ambientalistas, têm se mostrado bastante “ecológica”. Aliás, maiores rendimentos de produção de cereais/área estão associados a menor degradação da terra e os EUA são os países mais produtivos por hectare de terra plantado.

Porém, a maior contribuição do trabalho de Fiala é quando ele relaciona a “footprint” dos países, com variáveis como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o número de toneladas de carbono emitido por habitante, mostrando que são altamente correlacionadas, isto é, quanto maior a Pegada, maior o IDH e maior os níveis de carbono emitidos, mas a mesma medida de Pegada não guarda quaisquer relações com a degradação do solo ou a produção agrícola.

Afinal, o que a “footprint” mede? Desenvolvimento. Perceba, o leitor, que se ela inferisse realmente sobre sustentabilidade, seus valores teriam alta relação (negativa) com degradação do solo?

Nos últimos 50 anos, a humanidade comeu mais, permaneceu mais em escolas, morreu menos de epidemias, construiu mais saneamento básico e a expectativa de vida aumentou (claro, com as exceções de sempre). Sim, deixamos a nossa marca no Planeta, independente de como ela é medida. Mas olhando pra trás, será que não compensou?


Referências:

Fiala, N. 2008. Measuring sustainability: why the ecological footprint is bad economics and bad environmental science? Ecological Economics, 67: 519-525.

Moran, D.D. et al. 2008. Measuring sustainable development- nation by nation. Ecological Economics, 64: 470-474.


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POR EM 29/09/2008 ÀS 02:23 PM

Sagan e a teologia da "cientificação"

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Carl Sagan é o grande ícone da divulgação científica mundial. Em seus últimos livros, “Bilhões & Bilhões” e “O mundo assombrado pelos demônios”, alerta-nos para o perigo do analfabetismo científico. Segundo ele, mesmo pessoas formadas na universidade desconhecem mecanismos básicos da natureza o que leva à uma confusão entre ciência com pseudociência ou ainda ficção científica.

Ele morreu em 1996, mas teve um livro póstumo editado e publicado por sua viúva em 2006 e agora traduzido para o português pela Companhia das Letras: “Variedades da Experiência Científica: um visão pessoal da busca por Deus”. Nele são transcritas as “Palestras Gifford” que proferiu em 1985 na Universidade de Glasgow na Escócia.

Os assuntos são os que sempre o dominaram e fazem parte daquelas questões fundamentais que aos sábados à tarde, o homem comum costuma formular: Como surgiu o universo? Existe vida em outros planetas? Deus existe? Porque tanta gente leva religião à sério? E este mesmo cidadão leigo, sonha suas “soluções fenomenais....., mas, no fim, o dia contará estórias sempre iguais” (lembram o Cotidiano do Vinícius?).

Sim, Carl Sagan é um craque em discutir a vida dos planetas e nos planetas e é ainda amparado por fotos e figuras maravilhosas de Saturno, cometas, nebulosas, Via Láctea, entre outras. Para mim, o livro vale pelas fotos, mas quer saber? o grande Sagan é um analfabeto religioso.

Na conversa sobre Deus e religião, ele é pueril demais, chegando mesmo à perguntar porque Deus criou a dor, mostrando que não tem a mínima noção do livre arbítrio, dizendo literalmente “...os argumentos teológicos naturais para a existência de Deus...não são muito convincentes..”. Verdade Dr. Sagan? Poxa, eu pensei que aquele matemático húngaro que foi entrevistado pelo Hélio Costa no Fantástico de 1977, tinha descrito a existência do Onipotente através de um conjunto de derivadas parciais, contando com o auxílio de álgebra não linear: “seja Deus, igual ou maior que x....”. Depois surgiram outros cientistas com o mesmo intuito, brincadeira feita anteriormente por Aldous Huxley no excelente romance “Contraponto”.

Mas compreendo que para Sagan seja difícil entender “o mistério da fé” de todas as religiões e crentes do mundo todo. Seria demais pensar uma só vez que um Deus que fosse explicado pela ciência, deixaria imediatamente de ser Deus? Isto violaria a “premissa” da divindade, isto é, que Deus não pode ser explicado em termos de energia ou partículas. A lua pode ser Deus? Não! Ela é um satélite que orbita a Terra.

Antes, que alguém diga “quem é este Ronaldo Zé Ninguém pra falar do Sagan?”, afirmo calmamente que estou seguindo apenas o conselho dele mesmo: nunca acredite na autoridade, e completo: principalmente quando ela foge de sua própria especialidade.

Então, quando depois de fazer muitas piadas alarmistas sobre uma possível guerra nuclear que destruiria o planeta, uma preocupação real dos anos 80 mas que evidentemente não ocorreu, diz que os líderes russos ateus não estariam indo contra sua lógica se atirassem os mísseis, mas os ocidentais sim, pois eles são cristãos!

Sr. Sagan, acho que agora, ao lado de Deus (sim, ele protege e recebe os ingênuos), o senhor já deve entender que há uma diferença fundamental entre ser cristão e ser Jesus Cristo, que esbofeteado, ofereceu a outra face e, posteriormente, a própria vida. Aliás, em “Bilhões & Bilhões” o senhor foi muito claro: um sistema (como o político-econômico mundial) só se mantém funcionando com a regra “tit-for-tat”: coopera com os outros primeiro e depois faz aos outros o que te fazem.

Sinceramente, acho que toda esta onda da “Teologia da Cientificação”, que prega que tudo tem que ser explicado por hipóteses testáveis ou por fortes evidências aprovadas por uma Sociedade Científica, é extremamente passadista. Voltaire já fez isto com muito mais elegância, mas ele era “apenas” um escritor e não um cientista que “conhece o mundo real”.

É chato quando a gente se desaponta com um ícone, mas claro, é muito bom. Antes que digam, deixo claro: o livro vale pelas figuras e os quatro primeiros capítulos. 


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POR EM 22/09/2008 ÀS 05:42 PM

Persépolis

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Persépolis de Marjane Satrapi é um grande romance em quadrinhos, com personagens reais que lembram em muitos momentos a tristeza e desconsolo das “graphic novels” de Will Eisner, o criador deste gênero de “literatura”.

O “gibi” mostra a história da menina Marjane que aos 10 anos de idade, morando em Teerã no Irã, é obrigada, como todas as suas coleguinhas, a usar o véu para ir à escola. Era 1980, um ano depois da “Revolução Islâmica” tomar o poder. De repente era proibido estudar junto com os meninos e sua escola bilíngüe foi fechada, já que contrariava os desígnios do novo regime que havia deposto o Xá (que também não era flor para se cheirar...).

Os pais de Marjane eram ricos e comunistas e ela cresceu sabendo a história de Che Guevara (aquela falsa que só conta os louros do Demônio metido a galã) e comparando a barba de Marx com a de Deus com quem ela conversava todas as noites.

O livro é entremeado de fatos corriqueiros de um mundo normal assolado por mudanças significativas no plano político. Por exemplo, um cadáver de homem que morrera de câncer, mas sai do hospital carregado como herói da revolução, que estava por estourar, e quando o corpo é reclamado pela viúva, ela, convencida pela multidão, também sai gritando contra o Xá, a quem culpa pela morte do marido. Em outra oportunidade, a policia secreta vai entrar na casa de Marjane pra procurar “sinais do ocidente” (bebida, por exemplo) mas o pai dela dá uma gorjeta para os valentes e eles vão se embora.

Marjane vai contando sobre os adultos, primeiro aqueles executados pelo Xá, depois pelos revolucionários, depois os que morreram na guerra contra o Iraque e ela apenas querendo uma calça jeans e um pôster do Iron Maiden no quarto ...... Uma vez, com 13 anos, ela foi a Avenida Gandhi, local onde eram vendidos muitos produtos ocidentalizados, comprar uma fita cassete do Kim Wilde. Na volta, sua jaqueta jeans atraiu o olhar das “Guardiãs da Revolução” que implicaram com seu bottom do Michael Jackson, e ela tentando dizer que aquele era o revolucionário Malcom X, já que o caçula dos Jackon era negro naquele tempo. Enfim, pra não ser levada pro camburão teve que abrir o berreiro sobre a sua vida, “sabe como é, seu guarda, a minha madrasta vai me matar se você não me deixar ir agora...”. Mais realista impossível.

Com catorze anos é mandada pra estudar na Áustria, já que seus pais não conseguiam mais controlar seu temperamento revolucionário nas escolas do Irã. Entre outras traquinagens, agredira fisicamente a diretora da escola.

Ela narra os problemas que teve em sua adolescência longe dos pais e compatriotas (drogas e namorados esquisitos, etc...), até voltar, quatro anos depois ao Irã, com o sentimento de total fracasso.

Como a vida continua, a jovem professora de aeróbica entra na Faculdade de Artes de Teerã, num vestibular muito difícil, por causa da prova ideológica que era oral: “Usava o véu na Áustria?”, “Sabe rezar?”.....foi difícil pra ela, mas acompanhe as respostas: “Não usei véu na Áustria, se os cabelos das mulheres trouxessem tantos problemas, Deus teria nos feito carecas...”, “Não sei rezar, como todos os iranianos não entendo o árabe, prefiro me dirigir a ele em Persa”. Depois descobriu que foi aprovada, simplesmente pela honestidade que usou com o examinador (ela o chamava de religioso de verdade). A vida continua.

Só pra saber, Persépolis é o nome da capital da Pérsia fundada no século VI antes de Cristo e destruída depois por Alexandre, o Grande. A vida de Teerã talvez seja assim, sempre reduzida a ondas avassaladoras de guerras e complicações, enquanto que o povo quer apenas escutar o Julio Iglesias...Ah! Estes governos....

O romance em quadrinhos foi filmado, recebeu vários prêmios e perdeu o Oscar de melhor animação para Ratatouille. Você pode encontrar farto material sobre este filme em http://www.sonypictures.com/classics/persepolis/.


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