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POR EM 27/06/2009 ÀS 09:05 AM

As 100 personagens mais populares do cinema

publicado em

 

 Pôster de Clube da Luta
 


No final de 2008, a revista
Empire elegeu as 100 personagens mais populares do cinema. O critério de escolha foi uma votação com os leitores. Estranhamente a lista contempla mais blockbusters do que clássicos. Seis meses depois de ter sido publicada — a lista — continua rendendo muita polêmica nos fóruns de discussão da revista. Veja o ranking completo, do último para o primeiro lugar. A compilação foi feita pelo crítico de cinema Herondes Cezar e publicada originalmente em seu blog: Era uma vez no cinema. 


100 — Martin Riggs
Intérprete: Mel Gibson
Filme: Máquina Mortífera
1 a 4 (Lethal Weapon 1-4, EUA, 1987, 1989, 1992, 1998)


99 — HAL- 9000
Intérprete (voz): Douglas Rain
Filme: 2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odyssey, Reino Unido/EUA, 1968)


98 — Charles Foster Kane
Intérprete: Orson Welles
Filme: Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941)


97 — Clarice Starling
Intérprete: Jodie Foster
Filme: O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, EUA, 1991)


96 — Ethan Edwards
Intérprete: John Wayne
Filme: Rastros de Ódio (The Searchers, EUA, 1956)


95 — Freddy Krueger
Intérprete: Robert Englund
Filmes: A Hora do Pesadelo
1 a 6 (A Nightmare on Elm Street 1-6, EUA, 1984, 1985, 1987, 1988, 1989, 1991)


94 — Buzz Lightyear
Intérprete (voz): Tim Allen
Filmes: Toy Story 1 e 2 (Idem, EUA, 1995, 1999)


93 — Martin Q. Blank
Intérprete: John Cusack
Filme: Matador em Conflito (Grosse Pointe Blank, EUA, 1997)


92 — Randal Graves
Intérprete: Jeff Anderson
Filme: O Balconista (Clerks., EUA, 1994)


91 — Scarlett O'Hara
Intérprete: Vivien Leigh
Filme: E o Vento Levou (Gone with the Wind, EUA, 1939)


90 — The Wicked Witch of the
West
Intérprete
: Margaret Hamilton
Filme: O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, EUA, 1939)


89 — Precesa Leia Organa
Intérprete: Carrie Fisher
Filmes: Guerra nas Estrelas—Episódios IV a VI (Star Wars 4-6, EUA, 1977, 1980, 1983)


88 — Jessica Rabbit
Intérprete (voz): Kathleen Turner
Filme: Uma Cilada para Roger Rabbit (Who Framed Roger Rabbit, EUA, 1988)


87 — Drácula
Intérprete: Christopher Lee
Filme: O Vampiro da Noite (Dracula, Reino Unido, 1958)


86 —
Roy Batty
Intérprete: Rutger Hauer
Filme: Blade Runner (Idem, EUA/Hong Kong, 1982)


85 — Vincenzo Coccotti
Intérprete: Christopher Walken
Filme: Amor à Queima-Roupa (True Romance, EUA, 1993)


84 — Agente Smith
Intérprete: Hugo Weaving
Filmes: Trilogia Matrix (The Matrix 1-3, EUA, 1999, 2003, 2003)


83 — Mr. Blonde
Intérprete: Michael Madsen
Filme: Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, EUA, 1992)


82 — Marv
Intérprete: Mickey Rourke
Filme:
Sin City—A Cidade do Pecado (SinCity, EUA, 2005)


81 — Wolverine
Intérprete: Hugh Jackman
Filmes: X-Men
1 a 3 (X-Men, EUA, 2000 / X2, EUA, 2003 / X-Men: The Last Stand, EUA/Reino Unido, 2006)


80 — Norman Bates
Intérprete: Anthony Perkins
Filme: Psicose (Psycho, EUA, 1960)


79 — Boba Fett
Intérprete: Jeremy Bulloch
Filmes: Guerra nas Estelas—Episódios V e VI (Star Wars 5-6, EUA, 1980, 1983)


78 — Axel Foley
Intérprete: Eddie Murphy
Filme: Um Tira da Pesada (Beverly Hills Cop, EUA, 1984)


77 — Ed
Intérprete: Nick Frost
Filme: Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead, Reino Unido/França, 2004)


76 — Dr. Emmett Brown
Intérprete: Christopher Lloyd
Filmes: Trilogia De Volta para o Futuro (Back to the Future 1-3, EUA, 1985, 1989, 1990)


75 — Marge Gunderson
Intérprete: Frances McDormand
Filme: Fargo (Idem, EUA, 1996)


74 — E. T.
Intérprete (voz): Debra Winger
Filme: E. T.—O Extraterrestre (E.T.: The Extra-Terrestrial, EUA, 1982)


73 — Jack Torrance
Intérprete: Jack Nicholson
Filme: O Iluminado (The Shining, Reino Unido/EUA, 1980)


72 — V
Intérprete: Hugo Weaving
Filme: V de Vingança (V for Vendetta, EUA/Reino Unido/Alemanha, 2005)


71 — Snake Plissken
Intérprete: Kurt Russell
Filmes: Fuga de Nova York e (Escape from New York, Reino Unido/EUA, 1981) / Fuga de Los Angeles (Escape from L.A., EUA, 1996)


70 — Atticus Finch
Intérprete: Gregory Peck
Filme: O Sol É para Todos (To Kill a Mockingbird, EUA, 1962)


69 — Keyser Soze
Intérprete: Kevin Spacey
Filme: Os Suspeitos (The Usual Suspects, EUA/Alemanha, 1995)


68 — Napoleon Dynamite
Intérprete: Jon Heder
Filme: Napoleon Dynamite (Idem, EUA, 2004)


67 — Frank Booth
Intérprete: Dennis Hopper
Filme: Veludo Azul (Blue Velvet, EUA, 1986)


66 — The Bride
Intérprete: Uma Thurman
Filmes: Kill Bill Volumes I e II (Kill Bill: Vol. 1 & 2, EUA, 2003, 2004)


65 — White Goodman
Intérprete: Ben Stiller
Filme: Com a Bola Toda (Dodgeball: A True Underdog Story, EUA/Alemanha, 2004)


64 — Withnail
Intérprete: Richard E. Grant
Filme: Os Desajustados (Withnail & I, Reino Unido, 1987)


63 — Wall-E
Intérprete (voz): Ben Burtt
Filme: Wall-E (Idem, EUA, 2008)


62 — Mathilda
Intérprete: Natalie Portman
Filme: O Profissional (Léon, França, 1994)


61 — R. P. McMurphy
Intérprete: Jack Nicholson
Filme: Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cockoo's Nest, EUA, 1975)


60 — Ace Ventura
Intérprete: Jim Carrey
Filmes: Ace Ventura—Um Detetive Diferente (Ace Ventura: Pet Detective, EUA, 1994) / Ace Ventura 2—Um Maluco na África (Ace Ventura: When Nature Calls, EUA, 1995)


59 — Tommy DeVito
Intérprete: Joe Pesci
Filme: Os Bons Companheiros (Goodfellas, EUA, 1990)


58 — Rick Blane
Intérprete: Humphrey Bogart
Filme: Casablanca (Idem, EUA, 1942)


57 — Brick Tamland
Intérprete: Steve Carell
Filme: O Âncora—A Lenda de Ron Burgundy (Anchorman: The Legend of Ron Burgundy, EUA, 2004)


56 — Juno MacGuff
Intérprete: Ellen Page
Filme: Juno (Juno, EUA/Canadá, 2007)


55 — Tenente Frank Drebin
Intérprete: Leslie Nielsen
Filme: Corra que a Polícia Vem Aí!
(The Naked Gun: From the Files of Police Squad!, EUA, 1988)


54 — Luke Skywalker
Intérprete: Mark Hamill
Filmes: Guerra nas Estrelas—Episódios IV a VI (Star Wars 4-6, EUA, 1977, 1980, 1983)


53 — Luke
Intérprete: Paul Newman
Filme: Rebeldia Indomável (Cool Hand Luke, EUA, 1967)


52 — George Bailey
Intérprete: James Stewart
Filme: A Felicidade Não Se Compra (It's a Wonderful Life, EUA, 1946)


51 — Mal Reynolds
Intérprete: Nathan Fillion
Filme: Serenity—A Luta pelo Amanhã (Serenity, EUA, 2005)


50 — Quint
Intérprete: Robert Shaw
Filme: Tubarão (Jaws, EUA, 1975)


49 — Walter Sobchak
Intérprete: John Goodman
Filme: O Grande Lebowski (The Big Lebowski, EUA/Reino Unido, 1998)


48 — Tony Stark
Intérprete: Robert Downey Jr.
Filme: Homem de Ferro (The Iron Man, EUA, 2008)


47 — Blade
Intérprete: Wesley Snipes
Filme: Blade—O Caçador de Vampiros (Blade, EUA, 1998)


46 — Anton Chigurh
Intérprete: Javier Bardem
Filme: Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, EUA, 2007)


45 — Amélie Poulain
Intérprete: Audrey Tautou
Filme: O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, França/Alemanha, 2001)


44 — Peter Venkman
Intérprete: Bill Murray
Filme: Os Caça-Fantasmas (Ghost Busters, EUA, 1984)


43 — The Man With No Name
Intérprete: Clint Eastwood
Filme: Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo, Itália/Espanha/Alemanha Ocidental, 1966)


42 — Alex Delarge
Intérprete: Malcolm McDowell
Filme: Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, Reino Unido/EUA, 1971)


41 — Mary Poppins
Intérprete: Julie Andrews
Filme: Mary Poppins (Idem, EUA, 1964)


40 — Patrick Bateman
Intérprete: Christian Bale
Filme: Psicopata Americano (American Psycho, EUA/Canadá, 2000)


39 — Marty McFly
Intérprete: Michael J. Fox
Filmes: Trilogia De Volta para o Futuro (Back to the Future 1-3, EUA, 1985, 1989, 1990)


38 — Donnie Darko
Intérprete: Jake Gyllenhaal
Filme: Donnie Darko (Idem, EUA, 2001)


37 — Edward Scissorhands
Intérprete: Johnny Depp
Filme: Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, EUA, 1990)


36 — Harry Potter
Intérprete: Daniel Radcliffe
Filmes: Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Sorcerer's Stone, Reino Unido, 2001) / Harry Potter e a Câmara Secreta (Harry Potter and the Chamber of Secrets, Reino Unido/EUA/Alemanha, 2002) / Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisioner of Azkaban, Reino Unido/EUA, 2004) / Harry Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and the Goblet of Fire, Reino Unido/EUA, 2005) / Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix, Reino Unido/EUA, 2007)


35 — Maximus Decimus Meridius
Intérprete: Russell Crowe
Filme: Gladiador (Gladiator, Reino Unido/EUA, 2000)


34 — Rocky Balboa
Intérprete: Sylvester Stallone
Filmes: Rocky
1 a 6 (Rocky 1-6, EUA, 1976, 1979, 1982, 1985, 1990, 2006)


33 — Tequila
Intérprete: Chow Yun-Fat
Filme: Hard Boiled (Lat sau san taam, Hong Kong, 1992)


32 — Jason Bourne
Intérprete: Matt Damon
Filmes: A Identidade Bourne (The Bourne Identity, EUA/Alemanha/República Tcheca, 2002) / A Supremacia Bourne (The Borne Supremacy, EUA/Alemanha, 2004) / O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, EUA/Alemanha, 2007)


31 — Aragorn
Intérprete: Viggo Mortensen
Filmes: O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (The Lord of the Rings: The Fellowdship of the Ring, Nova Zelândia/EUA, 2001) / O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (The Lord of the Rings: The Two Towers, EUA/Nova Zelândia/Alemanha, 2002) O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King, EUA/Nova/Zelândia/Alemanha, 2003)


30 — Jigsaw
Intérprete: Tobin Bell
Filmes: Jogos Mortais (Saw, EUA/Austrália, 2004) / Jogos Mortais 2 (Saw II, EUA, 2005) / Jogos Mortais 3 (Saw III, 2006) / Jogos Mortais 4 (Saw IV, EUA, 2007) / Jogos Mortais V (Saw V, EUA, 2008)


29 — Daniel Plainview
Intérprete: Daniel Day-Lewis
Filme: Sangue Negro (There Will Be Blood, EUA, 2007)


28 — Gandalf
Intérprete: Ian McKellen
Filmes: Trilogia O Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings trilogy, 2001 / 2003)


27 — Tony Montana
Intérprete: Al Pacino
Filme: Scarface (Idem, EUA, 1983)


26 — Ron Burgundy
Intérprete: Will Farrell
Filme: O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy (Anchorman: The Legend of Ron Burgundy, EUA, 2004)


25 — Yoda
Intérprete: Frank Oz
Filmes: Guerra nas Estrelas—Episódios V e VI (Star Wars 5-6, EUA, 1980, 1983)


24 — Ash
Intérprete: Bruce Campbell
Filmes: A Morte do Demônio (The Evil Dead, EUA, 1981) / Uma Noite Alucinante (Evil Dead II, EUA, 1987) / Uma Noite Alucinante 3 (Army of Darkness, EUA, 1992)


23 — Harry Callahan
Intérprete: Clint Eastwood
Filmes: Perseguidor Implacável (Dirty Harry, EUA, 1971)


22 — Ellis 'Red'
Redding
Intérprete: Morgan Freeman
Filme: Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, EUA, 1994)


21 — Michael Corleone
Intérprete: Al Pacino
Filmes: O Poderoso Chefão II (The Godfather—Part II, EUA, 1974)


20 — Forrest Gump
Inérprete: Tom Hanks
Filme: Forrest Gump—O Contador de Histórias (Forrest Gump, EUA, 1994)


19 — Jules Winnfield
Intérprete: Samuel L. Jackson
Filme: Pulp Fiction—Tempo de Violência (Pulp Fiction, EUA, 1994)


18 — Travis Bickle
Intérprete: Robert De Niro
Filme: Taxi Driver—Motorista de Táxi (Taxi Driver, EUA, 1976)


17 — Hans Gruber
Intérprete: Alan Rickman
Filme: Duro de Matar (Die Hard, EUA, 1988)


16 — Neo
Intérprete: Keanu Reeves
Filme: Matrix (The Matrix, EUA, 1999)


15 — Ferris Bueller
Intérprete: Mathew Broderick
Filme: Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller's Day Off, EUA, 1986)


14 — The Terminator
Intérprete: Arnold Schwarzenegger
Filme: O Exterminador do Futuro (The Terminator, Reino Unido/EUA, 1984)


13 — Gollum
Intérprete: Andy Serkis
Filmes: Trilogia O Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings trilogy, 2001 / 2003)


12 — John McClane
Intérprete: Bruce Willis
Filmes: Duro de Matar (Die Hard, EUA, 1988) / Duro de Matar 2 (Die Hard II, EUA, 1990) / Duro de Matar—A Vingança (Die Hard: With a Vengeance, EUA, 1995) / Duro de Matar 4.0 (Live Free or Die Hard, EUA/Reino Unido, 2007)


11 — James Bond
Intérprete: Sean Connery
Filme: 007 Contra Goldfinger (Goldfinger, Reino Unido, 1964)


10 — Vito Corleone
Intérprete: Marlon Brando
Filme: O Poderosdo Chefão (The Godfather, EUA, 1972)


9 — Ellen Ripley
Intérprete: Sigourney Weaver
Filmes: Alien, o 8º Passageiro (Alien, Reino Unido/EUA, 1979) / Aliens—O Resgate (Aliens, EUA/Reino Unido, 1986) / Alien 3 (Idem, EUA, 1992) / Alien—A Ressurreição (Alien: Ressurrection, EUA, 1997)


8 — Capitão Jack Sparrow
Intérprete: Johnny Depp
Filmes: Piratas do Caribe
1 a 3 (Pirates of the Caribbean 1-3, EUA, 2003, 2006, 2007)


7 — The Dude
Intérprete: Jeff Bridges
Filme: O Grande Lebowski (The Big Lebowski, EUA/Reino Unido, 1998)


6 — Indiana Jones
Intérprete: Harrison Ford
Filmes: Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, EUA, 1981) / Indiana Jones e o Templo da Perdição (Indiana Jones and the Temple of Doom, EUA, 1984) / Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, EUA, 1989)


5 — Dr. Hannibal Lecter
Intérprete: Anthony Hopkins
Filmes: O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, EUA, 1991) / Hannibal (Idem, Reino Unido/EUA, 2001) / Dragão Vermelho (Red Dragon, EUA/Alemanha, 2002)


4 — Han Solo
Intérprete: Harrison Ford
Filmes: Guerra nas Estrelas—Episódios IV a VI (Star Wars 4-6, EUA, 1977, 1980, 1983)


3 — The Joker
Intérprete: Heath Ledger
Filme: Batman—O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, EUA, 2008)


2 — Darth Vader:
Intérpretes (voz): David Prowse / James Earl Jones
Filmes: Guerra nas Estrelas—Episódios IV a VI e III (Star Wars 4-6, 3—1977, 1980, 1983, 2005)


1 — Tyler Durden
Intérprete: Brad Pitt
Filme: Clube da Luta (Fight Club, EUA/Alemanha, 1999). 

 


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POR EM 12/06/2009 ÀS 01:02 PM

Críticos discutem o o novo livro de Peter Gay

publicado em

Antonio Gonçalves Filho, Teixeira Coelho e Francisco Alembert, em textos publicados no jornal “O Estado de S. Paulo”, discutem o recente livro de Peter Gay, “Modernismo”

Peter Gay 

O modernismo segundo Peter Gay

Autor reacende debate ao defender em seu novo livro que o 'fascínio da heresia', e não a ideologia, uniu os modernistas

Antonio Gonçalves Filho
Texto  publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

O historiador judeu de origem alemã Peter Gay, hoje com 86 anos, tinha pouco mais de 10 quando escapou da Alemanha de Hitler, em 1933. Estabelecido nos Estados Unidos, dedicou sua vida a pesquisar a história que deixou para trás, produzindo estudos e biografias de personagens da cultura europeia, dos quais os mais célebres são um ensaio sobre o panorama artístico na República de Weimar e uma biografia de Freud. No entanto, seu mais recente livro, “Modernismo” (Companhia das Letras, tradução de Denise Bottman, 578 págs., R$ 64) dividiu os críticos, como atestam os textos do crítico e curador Teixeira Coelho e do historiador Francisco Alembert.

Acusado de eurocentrismo — por ter eleito apenas artistas, escritores, dramaturgos e músicos modernistas europeus, omitindo americanos e latinos — Gay defendeu-se antecipadamente das críticas que viria a receber escrevendo, no prefácio, que seu livro não é um estudo sobre o nascimento, crescimento e declínio do modernismo. Esta seria, segundo o historiador, tarefa impensável para um único volume —  daí a ausência de grandes romancistas como Faulkner e Saul Bellow ou pintores como Willem De Kooning e Francis Bacon.

Numa história geral, teria de acomodar todo mundo. Em sua história particular, ele buscou apenas os traços comuns aos modernistas, dissociando-se da ideologia de seus contemplados, sejam eles o Nobel de Literatura Knut Hamsun, simpatizante do fascismo, ou o dramaturgo antifeminista August Strindberg, passando pelo ultracatólico poeta T.S. Eliot e outros pilares do modernismo associados a regimes totalitários (o futurista Marinetti, por exemplo). Gay defende que o liberalismo é o princípio fundamental do modernismo e faz de sua lista uma declaração de princípios, provando que a modernidade não é a pátria da democracia. Ao contrário. É o paraíso de autocratas como Picasso, bancados pelos burgueses sobre os quais destilou seu ódio.

Embora diga que não se arriscou a oferecer uma leitura psicanalítica do modernismo, o historiador, ao falar de Kafka, vai além de Freud e transfere para a arena da psicanálise a discussão sobre a obra do escritor. Seu diagnóstico: o autor de “A Metamorfose” era um edipiano desajustado, vítima do desamparo moderno provocado pela tirania do pai - celestial ou biológico. O fato de Kafka ser judeu e de tantos outros criadores judeus terem influenciado o modernismo poderia, então, conduzir a outras interpretações igualmente polêmicas? Gay é mais cauteloso nesse terreno minado, lembrando que não existe tal coisa chamada de "gosto judeu". Judeus ricos compravam tanto os acadêmicos dos salões como Picassos e resistiram às inovações de Schoenberg quase tanto como evitavam a revolucionária arquitetura da Bauhaus.

A rebelião modernista, ainda segundo Gay, tampouco foi esquerdista, embora tenha sido uma resposta ao mundo burguês. Regimes totalitários, defende, foram sempre hostis ao modernismo, do nazista - e a exposição “Arte Degenerada”, de 1937, é prova incontestável - ao comunista. Com relação ao último, ele dá um jeito de contornar o incontornável, omitindo o nome do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Gay discorda do crítico, também marxista, Georg Lukács, que decretou 1848 o ano da morte da ideologia burguesa. Lukács disse que a burguesia francesa não mais desempenharia um papel na progressista peça da modernidade. Gay diz o contrário: a primeira qualidade dos modernos é o que chama de "fascínio pela heresia". Artistas de origem burguesa provocam outros burgueses escandalizáveis e são por eles financiados. Não haveria, segundo ele, uma única ideologia política capaz de bancar ou explicar o modernismo.

Seja como for, Gay admite o ano da publicação do “Manifesto Comunista” — 1848 —  como um marco, escalando o poeta francês Charles Baudelaire como o primeiro herói do modernismo. Alvo preferencial do ódio burguês, Baudelaire foi o herético encarregado de provocar a sociedade francesa, ao desprezar a poesia tradicional e expor suas taras sexuais em poemas profanos. O "subproduto degenerado" do modernismo, no entanto, teve ancestrais ilustres - o protomodernista Diderot, cita Gay, descartando a localização histórica do modernismo, que, segundo o mesmo, não acabou. Para provocar, ele diz que não sabe o que é pós-modernismo e conclui o livro chamando de "moderno" o "herético" arquiteto Frank Gehry. O que Bilbao pode fazer pelo modernismo? Nem Gay sabe. Diz que é historiador, não profeta —  mas não hesita em culpar Duchamp por ter destruído a ideia de modernismo, ao afirmar que tudo pode ser arte, sonho que a arte pop, segundo ele, converteu em realidade.

Para Gay, o declínio do modernismo começou quando o público aceitou a provocação dos artistas pop —  Warhol, em particular, por ter eleito tantos ícones do consumo como arte. Até então, a arte exigia uma sensibilidade mais "educada" (ou elitista), argumenta. Após Andy Warhol, vale tudo.


Entre erros, equívocos e omissões

Definição empregada na obra esbarra na fragilidade de teses que a justificam


Teixeira Coelho
Texto  publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.

Certos livros levam o leitor a fazer uma pergunta cruel: por que foram escritos? Este é um deles. A pergunta nem sempre tem a resposta óbvia que parece sugerir; neste caso, tem.

Peter Gay nasceu em Berlim em 1923, numa família judaica; em 1939 saiu da Alemanha, e chegou aos EUA em 1941, onde mudou seu sobrenome Frohlich para o equivalente inglês "gay", alegre. Historiador das ideias, recebeu prêmios e reconhecimento intelectual em 1968 com um livro sobre a cultura de Weimar. Com o tempo, passou a interessar-se por Freud e a psicanálise, praticando o que alguns chamam de psicohistória. Seu nome não convoca opiniões unânimes nos EUA, onde é visto como quem quer se apresentar como "dono de Freud" além de autor de quase um livro por ano sobre temas tão distintos como o socialismo democrático, Voltaire, Freud, o ódio, Mozart e Schnitzler. Essa não unanimidade pode ter seu lado positivo. Mas, muitos acadêmicos americanos, defensores de um conhecimento na vertical, apontam em vários de seus livros uma quantidade anormal de ideias rasas e feitas.

É um pouco o que acontece neste caso. Dando como período de vida para o Modernismo o arco que vai de 1840 a 1960, Peter Gay discorre, em quase 600 páginas, sobre a vida moderna, os artistas de vanguarda, a poesia e a prosa, a música e a dança, arquitetura e design, teatro e cinema, os bárbaros e os excêntricos e Frank Gehry. É muita coisa para 600 páginas e grande demais o risco de deixar insatisfeitos a todos e cada um. Ele estava consciente do risco e mesmo assim o assumiu.

Peter Gay não aceita que existam distintos modernismos. Prefere dizer que o Modernismo é um só e que corresponde a uma "única época histórica", aquela da consolidação da cultura ocidental. E busca explicá-lo por meio de duas outras teses: o fascínio pela heresia, que leva ao confronto com as sensibilidades convencionais (o velho épater le bourgeois); e o princípio do "exame cerrado de si mesmo", ou questiona-te a ti mesmo (mais do que o conhece-te a ti mesmo) ou, ainda, como difundido por Anthony Giddens (que ele não cita), a reflexividade — que deu, exatamente, a modernidade reflexiva. Ao final do livro, numa nota de rodapé em que procura refutar a T.J.Clark, aparece sua quarta tese, implícita desde o começo: o modernismo não acabou.

Essas quatro teses, variadamente combinadas, devem poder explicar tudo que aconteceu no período: um poema de Rimbaud, uma composição de Satie, uma peça de Beckett, um quadro ("qualquer quadro", ele diz) de Picasso e Freud "com sua barba bem aparada".

Das quatro, a mais débil é a primeira. Velha, simplista e exagerada demais (os artistas podem exagerar uma ideia, dizia Gide; os historiadores das ideias deveriam contê-las). Dizer que os artistas e intelectuais do período eram contra o burguês e procuravam chocá-lo como modo de afirmar-se cultural e socialmente ("o fascínio da heresia") é dizer uma verdade surrada que não dá conta da realidade. E que por vezes é meia verdade, dadas as boas relações mercantis (pelo menos, monetárias) entre artistas e intelectuais (como o próprio Freud) e sua clientela de fornidas carteiras que sempre se abriram com abundância ao toque correto do contestador de vanguarda. Os artistas e intelectuais modernos foram em sua maioria, isso sim, contra a modernidade e quase tudo que ela continha e representava: as velhas ideias, o capitalismo, a arte anterior, a política, a organização social, o bom-mocismo, o materialismo, a própria vida urbana (do flâneur, das passagens e galerias de Paris) que no entanto ao mesmo tempo tanta fascinação sobre eles exerceu. Foram contra tudo, não só contra o burguês. A questão é, apenas, saber quem foi o que e quando, quem foi contra quem ou o que, quando. O surrealismo foi contra o capitalismo mas depois uma parte dele virou contra o comunismo. Baudelaire foi contra o burguês mas depois foi a favor do modo de vida burguês. Colocar tudo no mesmo saco - e no caso de Gay é tudo mesmo —  é um problema. Para fazer-lhe justiça, ao longo do livro ele faz correções a essa máxima sem no entanto reconhecer explicitamente que os modernos foram contra a modernidade, a não ser talvez numa breve passagem à página 384. Admite de modo expresso, apenas, o que é um pouco diferente, que algum modernos foram contra os modernos, como T.S.Eliot. Mas por que não adotar desde o início uma outra perspectiva e falar exatamente do que ele nega: dos modernismos, que são vários e nunca um só, formando não bem uma época mas um conjunto de épocas paralelas que dificilmente se comunicaram? Talvez porque, adepto do Iluminismo, Gay pense sempre por totalidades totalizantes. Ele diz que reconhece a diversidade na unidade - mas reafirma a unidade sobre a diversidade, quando deveria ser o contrário.

Ao lado disso, as impropriedades se acumulam. Dizer que Robbe-Grillet é um moderno é estranho e impróprio. Estranho porque páginas antes Gay afirma que o romance moderno se tornou o romance da consciência, como manifestação do principio da reflexividade. Impróprio porque, se há alguma coisa que Robbe-Grillet não faz é exame de consciência, psicologismo, psicanálise... O nouveau roman era exatamente contra isso, como ficou claro (ou obscuro?) em “Ano Passado em Marienbad”, de Resnais, com roteiro de Robbe-Grillet. E Beckett não cabe na mesma gaveta de Proust. E não se pode mencionar em meia linha a Godard e Truffaut e não explicar se são modernos ou...pós-modernos, expressão que aparece talvez uma única vez no livro.

Os motivos de insatisfação crescem: da América Latina, menciona García Márquez, que não é nem a ponta do iceberg, e nada diz de Borges ou Cortázar. Brasília, Niemeyer e Lúcio Costa não existem. Talvez porque ache que a America Latina nunca foi moderna. É uma tese. Talvez porque a América Latina, como classificava Samuel Huntington, não faça parte do ocidente —  e Gay é um historiador da cultura ocidental... Esse tipo de omissão e ignorância cansa. Não por nacionalismo: só porque Borges foi muito maior que Márquez e inúmeros outros americanos e europeus que ele cita.

Em suma, a tese da heresia é cobertor curto, a tese da reflexividade ele não sabe o que é (ou então nunca leu de fato Robbe-Grillet) e a ideia de que o modernismo continua é uma furada. O fecho do livro é sintomático. Ali ele fala de Frank Gehry e do Guggenheim-Bilbao. E tudo que encontra para dizer do arquiteto é que é anticonvencional e expressionista, muito pouco para quem é, abertamente, um dos grandes pós-modernos.

E volta a pergunta: para que este livro, espécie de “Reader's Digest” do modernismo? Nem para quem se inicia, nem para quem é iniciado. Acima de tudo, não para o leitor do século 21. Sempre se tira alguma coisa de um livro mas, desse, pouco. Livros devem ser como no jogo do bridge: se quem propõe um jogo não o faz, perde. Há ausências estridentes (o jazz), erros (quem mostra bichos em banho de formol não é um grupo de artistas, mas um só, Damien Hirst) e demasiada generalização. Pessoalmente, mesmo sem concordar sempre com ele, prefiro Hobsbawn: mais sintético e inspirado.


Sem medo, análise assume revisão subjetiva

Grande mérito do trabalho é ser símbolo da coerência intelectual do pesquisador, espécie de síntese de toda a sua produção

Francisco Alembert
Texto  publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo.


Não é difícil elogiar o novo livro de Peter Gay. É mais fácil atacá-lo. O projeto de resumir e caracterizar o "modernismo" é simultaneamente ocioso (para muitos pós-modernos), frágil (para os megaespecialistas) e comercial (para os apressados).

O maior mérito do livro é não temer nada disso, além de valer também como uma síntese da obra do autor da conhecidíssima biografia de Freud, um dos mais importantes historiadores da cultura contemporânea. Isto porque boa parte das teses deste livro se relacionam com outras obras, como “Guerras do Prazer”, último trabalho de sua pesquisa publicada em cinco volumes —  “A Experiência Burguesa: da Rainha Vitória a Freud”. Lá, como aqui, parte-se da ideia de que a burguesia vitoriana teria aberto o caminho para as experiências da vanguarda modernista, formada sobretudo por burgueses em crise com sua própria classe e, por isso mesmo, marcada por uma certa "burguesofobia". Assim, "modernismo" é um processo de autoquestionamento e crise contra a cultura estabelecida, em busca da renovação de si.

O ponto de vista é radicalmente subjetivista, rousseauniano e freudiano (ele é tão freudiano que chega a afirmar que Marinetti e Breton foram "os Freud de seus clãs"): o "fascínio da heresia" é resultado de "um exame cuidadoso de si mesmo". Gay compartilha essa visão otimista e positiva da subjetividade livre e contraditória do modernismo com boa parte da vertente crítica norte-americana (como, por exemplo, o historiador marxista Marshall Berman).

Por isso ele privilegia o expressionismo (assunto de outro livro clássico seu, sobre a cultura de Weimar) e seu subjetivismo radical ao racionalismo utópico da abstração construtiva —  e por isso também ele verá na arquitetura de Frank Gehry uma espécie de renascimento do expressionismo fantasista.

O impulso subjetivo, iconoclasta e autoexpressivo dos modernistas tem razão histórica: ele começa com o horror, o ódio de "família" (pois o modernismo aqui é tratado como uma família conflituosa) de Baudelaire e Flaubert à classe média (assunto também explorado no livro “O Século de Schnitzler”) e termina com a pop art e sua irônica e já bem posta apologia à cultura de massas. O obra é uma cartografia, um mapa, do surto herético-cultural, e de suas contradições, nos últimos 150 anos.

Isso é discutível? Não há dúvida (aliás, o que neste campo não é?). Mas essa visão permite a Gay ver coisas que geralmente são omitidas pelas leituras formalistas ou historicistas. Por exemplo, o papel desempenhado por investidores e galeristas na formação do cânone moderno (e, posteriormente, em sua desmontagem) e na recriação do sistema capitalista de arte depois da revolução modernista.

"É muito mais fácil exemplificar do que definir o modernismo." Esta é a primeira frase do estudo e é exemplar de seus impasses. Primeiro, por ser honesta. Segundo, por definir o livro-compêndio: ele exemplifica e, via Freud, tenta caracterizar o modernismo como um impulso (ou uma pulsão) da (anti)cultura, que forma um "estilo" (assunto este que o historiador explorou em um livro mais teórico, “O Estilo na História”). Pelo esquema de Gay, o pós-modernismo não é um conceito sério. Para ele, Damien Hirst ou Frank Gehry são modernistas (o que é muito questionável).

Esse "estilo" configura a pulsão da revolta. Por isso, ele pode resumir com precisão que "o modernismo foi uma dupla libertação psicológica, para os produtores e também para os consumidores da alta cultura". "Deu aos artistas a liberdade de levar a sério suas fantasias de insubordinação, de encarar com indiferença os cânones que por tantos séculos haviam ditado os temas e as técnicas, de decidir se era o caso de modificar —  ou, mais radicalmente, de derrubar —  os critérios vigentes, e que seriam eles a empreender a revolução."

Estou de acordo (a não ser pela ideia de libertar os "consumidores da alta cultura", pois me parece que a força do modernismo foi justamente acabar com a ideia da "alta cultura" em favor da cultura da revolução). Embora destaque bastante a importância de Marx para o "clima modernista", ele acha que seu favorecimento maior veio de Nietzsche. Creio que isto acontece porque para nosso historiador o modernismo é uma criação da "classe média esclarecida".

Peter Gay é eurocêntrico. Não tem a menor ideia da importância do modernismo na periferia. Isso só lhe aparece no final, quando irá tratar, com fascínio, da obra de Gabriel García Márquez e seu "realismo original": um Kafka na periferia do capitalismo (uma definição que Gay rejeitaria). Mas esse difícil reconhecimento do modernismo periférico é um "defeito" da maioria dos pensadores do centro da "civilização ocidental", o que aliás apenas demonstra o quanto a derrota do cosmopolitismo modernista é grave. Na também monumental obra “Art Since 1900”, os únicos artistas brasileiros citados são Hélio Oiticica e Lygia Clark, que aparecem apenas na sessão "arte não ocidental". Pelo menos o modernismo, mesmo que tardio, ensinou a Peter Gay que os latino-americanos são parte do mundo que a modernidade criou. 


Antonio Gonçalves Filho é jornalista, repórter do "Estadão".
Teixeira Coelho é professor da Escola de Comunicação e Artes da USP.

Francisco Alambert é professor de História Social da Arte e História Contemporânea da USP.

 


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POR EM 12/06/2009 ÀS 01:02 PM

As 100 melhores falas do cinema

publicado em

Em 2007 a revista norte-americana Premiere publicou uma lista com as 100 falas de filmes mais populares da história do cinema. Republicamos a lista na ordem decrescente, de 100ª à 1ª, com uma tradução aproximada, já que o contexto em que são ditas determina em muito o seu significado, sobretudo para as que têm duplo sentido. A tradução foi feita pelo crítico de cinema Herondes Cezar e publicada originalmente em seu blog: Era uma vez no cinema.


100 —"I see dead people."
Tradução: Eu vejo gente morta.
Filme: O sexto sentido (The Sixth Sense, 1999)
Quem diz: Cole Sear (Harley Joel Osment).


99 — "I'd hate to take a bite outta you. You're a cookie full of arsenic."
Tradução: Odiaria dar uma mordida em você. Você é um biscoito cheio de veneno.
Filme: A embriaguês do sucesso (Sweet Smell of Success, 1957)
Quem diz: J. J. Hunsecker (Burt Lancaster).


98 —  Waitress: "You want me to hold the chicken, huh?"
Robert Dupea: "I want you to hold it between your knees."
Tradução:
Garçonete: Você quer que eu tire o frango [do sanduíche], hum?
Robert Dupea (Jack Nicholson): Eu quero que você o segure entre os joelhos.
Filme: Cada um vive como quer (Five Easy Pieces, 1970)
Obs.: Atentar para o trocadilho do original.


97 —  "You're tearing me apart!"
Tradução: Vocês estão liquidando comigo!
Filme: Juventude transviada (Rebel Without a Cause, 1955)
Quem diz: Jim Stark (James Dean).


96  —  "Yippee-ki-yay, mother fucker."
Tradução: Yippee-ki-yay, filho da mãe.
Filme: Duro de matar (Die Hard, 1988)
Quem diz: John McClane (Bruce Willis), imitando a "linguagem" dos caubóis.


95 —  "I'll be back."
Tradução: Eu volto.
Filme: O exterminador do futuro (The Terminator, 1984)
Quem diz: The Terminator (Arnold Schwarzenegger).


94 —  "Life is a banquet, and most poor suckers are starving to death."
Tradução: A vida é um banquete, e a maioria dos lastimáveis otários está morrendo de fome.
Filme: A mulher do século (Auntie Mame, 1958)
Quem diz: Mame Dennis (Rosalind Russell).


93 —  "Precious."
Tradução: Precioso.
Filme: O senhor dos anéis: As duas torres (The Lord of the Rings: The Two Towers, 2002)
Quem diz: Gollum (Andy Serkis).


92 —  "You can't handle the truth!"
Tradução: Você não suportaria a verdade!
Filme: Questão de honra (A Few Good Men, 1992)
Quem diz: Coronel Nathan R. Jessep (Jack Nicholson).


91 —  "I am big. It's the pictures that got small."
Tadução: Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos.
Filme: Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950)
Quem diz: Norma Desmond (Gloria Swanson).


90 —  "Old age... It's the only disease, Mr. Thompson, that you don't look forward to being cured of."
Tradução: Velhice... É a única doença, Sr. Thompson, da qual não se espera ser curado.
Filme: Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941)
Quem diz: Bernstein (Everett Sloane).


89 —  "No wire hangers!"
Tradução: Cabides de arame, não!
Filme: Mamãezinha querida (Mommie Dearest, 1981)
Quem diz: Joan Crawford (Faye Dunaway).


88 —  "We find the defendants incredibly guilty."
Tradução: Consideramos os réus incrivelmente culpados.
Filme: Primavera para Hitler (The Producers, 1968)
Quem diz: O primeiro jurado (Bill Macy).


87 —  "How am I funny?"
Tradução: Sou engraçado como?
Filme: Os bons companheiros (Goodfellas, 1990)
Quem diz: Tommy DeVito (Joe Pesci).


86 — "Can I borrow your underpants for ten minutes?"
Tradução: Você me empresta sua calcinha por dez minutos?
Filme: Gatinhas e gatões (Sixteen candles, 1984)
Quem diz: Ted, o Grego (Anthony Michael Hall).


85 — "It was beauty killed the beast."
Tradução: Foi a bela que matou a fera.
Filme: King Kong (Idem, 1933)
Quem diz: Carl Denham (Robert Armstrong).


84 —  "Of all the gin joints in all the towns in all the world, she walks into mine."
Tradução: De todos os botecos, de todas as cidades, no mundo todo, ela entra logo no meu.
Filme: Casablanca (Idem, 1942)
Quem diz: Rick Blaine (Humphrey Bogart).


83 —  "I'm not bad. I'm just drawn that way."
Tradução: Não sou malvada. Fui desenhada assim [com este corpo provocante].
Filme: Uma cilada para Roger Rabbit (Who Framed Roger Rabbit, 1988)
Quem diz: Jessica Rabbit (voz de Kathleen Turner).


82 —  "Dave, my mind is going. I can feel it."
Tradução: Dave, minha consciência se esvai. Estou sentindo.
Filme: 2001: Uma odisséia no espaço (2001: A Space Odyssey, 1968)
Quem diz: Computador Hal (voz de Douglas Rain).


81 —  "You know what they call a Quarter Pounder with cheese in Paris? (...) They call it a Royale with cheese."
Tradução: Sabe como chamam um Quarteirão com queijo em Paris? (...) Chamam de Royale com queijo.
Filme: Pulp Fiction — Tempo de violência (Pulp Fiction, 1994)
Quem diz: Vincent Vega (John Travolta).


80 —  "Show me the money."
Tradução: Mostra o dinheiro.
Filme: Jerry Maguire — A grande virada (Jerry Maguire, 1996)
Quem diz: Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.).


79 —  "I'm as mad as hell, and I'm not going to take this anymore!"
Tradução: Estou furioso, e não vou agüentar isto aqui mais!
Filme: Rede de intrigas (Network, 1976)
Quem diz: Howard Beale (Peter Finch).


78 —  "Don't knock masturbation. It's sex with someone I love."
Tradução: Não zombe de masturbação. É sexo com alguém que eu amo.
Filme: Noivo neurótico, noiva nervosa (Annie Hall, 1977)
Quem diz: Alvy Singer (Woody Allen).


77 —  "You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and blow."
Tradução: Você sabe assoviar, não sabe, Steve? É só unir os lábios e soprar.
Filme: Uma aventura na Martinica (To Have and Have Not, 1944)
Quem diz: Marie Browning (Lauren Bacall).


76 —  "They call me Mister Tibbs!"
Tradução: Chamam-me Senhor Tibbs!
Filme: No calor da noite (In the Heat of the Night, 1967)
Quem diz: Detetive Virgil Tibbs (Sidney Poitier).


75 —  "As God is my witness, I'll never be hungry again!"
Tradução: Com Deus por testemunha, eu nunca mais passarei fome!
Filme: E o vento levou (Gone with the Wind, 1939)
Quem diz: Scarlett O'Hara (Viven Leigh).


74 — "Don't you fucking look at me!"
Tradução: Não olhe pra mim, porra!
Filme: Veludo azul (Blue Velvet, 1986)
Quem diz: Frank Booth (Dennis Hopper).


73 — "I gave her my heart, and she gave me a pen."
Tradução: Eu lhe dei meu coração, e ela me deu uma caneta.
Filme: Digam o que disserem (Say Anything, 1989)
Quem diz: Lloyd Dobler (John Cusack).


72 —  "If they move, kill 'em!"
Tradução: Se eles se mexerem, mate-os!
Filme: Meu ódio será sua herança (The Wild Bunch, 1969)
Quem diz: Pike Bishop (William Holden).


71— "Forget it, Jake. It's Chinatown."
Tradução: Esqueça, Jake. É Chinatown.
Filme: Chinatown (Idem, 1974)
Quem diz: Lawrence Walsh (Joe Mantell).


70 —  "Greed... is good."
Tradução: Ganância... é bom.
Filme: Wall Street — Poder e cobiça (Wall Street, 1987)
Quem diz: Gordon Gekko (Michael Douglas).


69 —  "Come back, Shane!"
Tradução: Volta, Shane!
Filme: Os brutos também amam (Shane, 1953)
Quem diz: Joey Starrett (Brandon De Wilde).


68 —  "Dogs and cats living together! Mass hysteria!"
Tradução: Cães e gatos vivendo juntos! Histeria em grande escala!
Filme: Os caça-fantasmas (Ghost Busters, 1984)
Quem diz: Dr. Peter Venkman (Bill Murray).


67 —  "Go, get the butter."
Tradução: Vá pegar a manteiga.
Filme: Último tango em Paris (Ultimo tango a Parigi, 1972)
Quem diz: Paul (Marlon Brando).


66 —  "The horror... The horror..."
Tradução: Que horror... Que horror...
Filme: Apocalipse (Apocalypse Now, 1979)
Quem diz: Coronel Kurtz (Marlon Brando).


65 —  "Louis, I think this is the beginning of a beautiful friendship."
Tradução: Louis, acho que este é o começo de uma bela amizade.
Filme: Casablanca (Idem, 1942)
Quem diz: Rick Blaine (Humphrey Bogart).


64 —  "I am Spartacus."
Tradução: Eu sou Spartacus.
Filme: Spartacus (Idem, 1960)
Quem diz: Antoninus (Tony Curtis) e outros escravos rebelados.


63 — "We belong dead."
Tradução: Nós pertencemos aos mortos.
Filme: A noiva de Frankenstein (Bride of Frankenstein, 1935)
Quem diz: O Monstro (Boris Karloff).


62 —  "Toto, I have a feeling we're not in Kansas anymore."
Tradução: Totó, tenho o pressentimento de que não estamos mais no Kansas.
Filme: O mágico de Oz (The Wizard of Oz, 1939)
Quem diz: Dorothy Gale (Judy Garland).


61 —  "I was better man with you as a woman than I ever was with a woman as a man. Know what I mean?"
Tradução: Fui melhor homem com você como mulher do que jamais fui com qualquer mulher como homem. Entende o que eu quero dizer?
Filme: Tootsie (Idem, 1982)
Quem diz: Michael Dorsey (Dustin Hoffman).


60 —  "Licorice, mmmm. If there's anything I'm a sucker for, it's licorice."
Tradução: Bala de alcaçuz, ummm. Se tem uma coisa que eu gosto de chupar, é bala de alcaçuz.
Filme: A costela de Adão (Adam's Rib, 1949)
Quem diz: Adam Bonner (Spencer Tracy), após cortar com os dentes o cano do revólver de confeito que apontara para a própria boca, sugerindo que fosse arma de verdade.


59 —  "Gentlemen, you can't fight here! This is the war room!"
Tradução: Cavalheiros, não podem brigar aqui! Esta é a sala da guerra!
Filme: Dr. Fantástico (Dr. Strangelove, 1964)
Quem diz: Presidente Merkin Muffley (Peter Sellers).


58 — Reporter: "Are you a mod or a rocker?"
Ringo Starr: "I'm a mocker."
Tradução:
Repórter: Você é modelo ou roqueiro?
Ringo Starr: Sou um gozador.
Filme: Os reis do iê-iê-iê (A Hard Day's Night, 1964)
Obs.: Atentar para o tracadilho intraduzível de Ringo.


57 —  "Wait a minute, you ain't heard nothin' yet!"
Tradução: Aguardem, vocês ainda não ouviram nada!
Filme: O cantor de jazz (The Jazz Singer, 1927)
Quem diz: Jack Robin (Al Jolson).


56 — "Yeah, I was in the shit."
Tradução: Sim, eu estava na merda.
Filme: Três é demais (Rushmore, 1998), de Wes Anderson
Quem diz: Herman Blume (Bill Murray).


55 —  "I have had it with these motherfucking snakes on this motherfucking plane!"
Tradução: Compreendi isso com a porra dessas cobras nessa porra de avião!
Filme: Serpentes a bordo (Snakes on a Plane, 2006)
Quem diz: Neville Flynn (Samuel L. Jackson).


54 — "Michael, we're bigger than U. S. Steel."
Tradução: Michael, somos mais poderosos do que a indústria siderúrgica norte-americana.
Filme: O poderoso chefão II (The Godfather: Part II, 1974)
Quem diz: Hyman Roth (Lee Strasberg).


53 — "All of a sudden she's playing Hamlet's mother."
Tradução: De repente, ela está representando a mãe de Hamlet.
Filme: A malvada (All About Eve, 1950)
Quem diz: Birdie Coonan (Thelma Ritter).


52 —  "Hello, everybody. This is Mrs. Norman Maine."
Tradução: Olá, todo mundo. Aqui fala a Sra. Norman Maine.
Filme: Nasce uma estrela (A Star Is Born, 1937)
Quem diz: Vicki Lester (Janet Gaynor).


51 —  "Bond. James Bond."
Filme: O santânico Dr. No (Dr. No, 1962)
Quem diz: James Bond (Sean Connery).


50 — "Get away from her, you bitch!"
Tradução: Saia de perto dela, sua cadela!
Filme: Aliens — O resgate (Aliens, 1986)
Quem diz: Ellen Ripley (Sigourney Weaver).


49 —  "So I got that goin' for me, which is nice."
Tradução: Assim, peguei pra mim essa saída, que é legal.
Filme: Clube dos pilantras (Caddyshack, 1980)
Quem diz: Carl Spackler (Bill Murray).


48 — "E. T. phone home."
Tradução: E. T. telefonar casa.
Filme: E. T. — O extraterrestre (E. T. the Extra-Terrestrial, 1982)
Quem diz: E. T. (voz de Pat Welsh).


47 —  "Oh, Jerry, don't let's ask for the moon. We have the stars."
Tradução: Oh, Jerry, não vamos pedir a lua. Temos as estrelas.
Filme: A estranha passageira (Now, Voyager, 1942)
Quem diz: Charlotte Vale (Bette Davis).


46 —  "You shouldn't ask me for advice. When it comes to relationship with woman, I'm the winner of the August Strindberg award."
Tradução: Você não deveria me pedir conselho. Em termos de relacionamento com mulheres, sou o vencedor do prêmio August Strindberg.
Filme: Manhattan (Idem, 1979)
Quem diz: Isaac Davis (Woody Allen), aludindo ao fato de Strindberg ser reconhecidamente um autor misógino.


45 — "I love the smell of napalm in the morning."
Tradução: Adoro o cheiro de napalm pela manhã.
Filme: Apocalipse (Apocalypse Now, 1979)
Quem diz: Tenente-coronel Bill Kilgore (Robert Duvall).


44 — "That is one nutty hospital."
Tradução: Esse é um hospital de loucos.
Filme: Tootsie (Idem, 1982)
Quem diz: Jeff Slater (Bill Murray).


43 —  "You know, you haven't stopped talking since I came here. You must have been vaccinated with a phonograph needle."
Tradução: Sabe, você não parou de falar desde que cheguei. Deve ter sido vacinada com agulha de vitrola.
Filme: O diabo a quatro (Duck Soup, 1933)
Quem diz: Rufus Firefly (Groucho Marx).


42 —  "I stick my neck out for nobody."
Tradução: Não me arrisco por ninguém.
Filme: Casablanca (Idem, 1942)
Quem diz: Rick Blaine (Humphrey Bogart).


41 —  "You're gonna need a bigger boat."
Tradução: Você vai precisar de um barco maior.
Filme: Tubarão (Jaws, 1975)
Quem diz: Martin Brody (Roy Scheider), após ver o tubarão.


40 —  "Lovely... Lovely..."
Tradução: Deliciosa... Deliciosa...
Filme: Frenezi (Frenzy, 1972)
Quem diz: Robert Rusk (Barry Foster), para uma mulher, antes de estrangulá-la.


39 — "I just want to say one word to you. Just one word. (...) Plastics. There's a great future in plastics."
Tradução: Só quero lhe dizer uma palavra. Uma única palavra. (...) Plásticos. Há um grande futuro nos plásticos.
Filme: A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, 1967)
Quem diz: Sr. McGuire (Walter Brooke).


38 —  "We are all interested in the future, for that is where you and I are going to spend the rest of our lives."
Tradução: Estamos todos interessados no futuro, pelo qual você e eu passaremos o resto de nossas vidas.
Filme: Plano 9 do Espaço Sideral (Plan 9 from Outer Space, 1959)
Quem diz: Criswell (O próprio)
Obs.: É considerado o pior filme de todos os tempos.


37 — "A census taker once tried to test me. I ate his liver with some fava beans and a nice chianti."
Tradução: Certa vez, um recenseador tentou me pôr à prova. Comi o fígado dele com fava e um bom vinho.
Filme: O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991)
Quem diz: Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins).


36 — "Here's Johnny!"
Tradução: O Johnny está aqui!
Filme: O Iluminado (The Shining, 1980)
Quem diz: Jack Torrance (Jack Nicholson).


35 — "Gentlemen, you can't fight here! This is the war room!"
Tradução: Cavalheiros, não podem brigar aqui! Esta é a sala da guerra!
Filme: Dr. Fantástico (Dr. Strangelove, 1964)
Quem diz: Presidente Merkin Muffley (Peter Sellers)
Obs.: Fala classificada também em 59ª lugar.


34 —  "Made it, Ma! Top of the world!"
Tradução: Consegui, mãe! O topo do mundo!
Filme: Fúria Sanguinária (White Heat, 1949)
Quem diz: Arthur 'Cody' Jarrett (James Cagney).


33 —  "I'll have what she's having."
Tradução: Quero o mesmo que ela está comendo.
Filme: Harry e Sally — Feitos Um para o Outro (When Harry Met Sally, 1989)
Quem diz: Uma senhora idosa, no restaurante Katz's Deli, após ouvir Meg Ryan fingir um orgasmo.


32 —  "Mother of mercy! Is this the end of Rico?"
Tradução: Mãe de misericórdia! Este é o fim de Rico?
Filme: Alma no Lodo (Little Caeser, 1931)
Quem diz: Rico (Edward G. Robinson).



31 —  Other soldier, pointing to a dead soldier: "He was the village idiot."
Boris Grushenko: "Yeah, what did you do, place?"
Tradução:
Outro soldado, apontando para um soldado morto: Ele era o bobo da aldeia.
Boris Grushenko (Woody Allen): Sim, o que fazia você, fingia?
Filme: A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death, 1975).


30 —  "Of all the gin joints in all the towns in all the world, she walks into mine."
Tradução: Com tanto boteco no mundo, ela entra logo no meu.
Filme: Casablanca (Idem, 1942)
Quem diz: Rick Blaine (Humphrey Bogart)
Obs.: Fala classificada também em 84º lugar.


29 —  "You owe me money!"
Tradução: Você me deve dinheiro!
Filme: Desafio à corrupção (The Hustler, 1961)
Quem diz: Bert Gordon (George C. Scott).


28 —  "I don't know nothin' 'bout birthin' babies!"
Tradução: Não sei nada sobre partos!
Filme: E o vento levou (Gone with the Wind, 1939)
Quem diz: Prissy (Butterfly McQueen).


27 —  "The first rule of Fight Club is you don't talk about Fight Clube."
Tradução: A primeira regra do Clube da Luta é não falar sobre o Clube da Luta.
Filme: Clube da Luta (Fight Club, 1999)
Quem diz: Tyler Durden (Brad Pitt).


26 —  "Mein Führer! I can walk!"
Tradução: Meu Führer! Eu posso andar!
Filme: Dr. Fantástico (Dr. Strangelove, 1964).
Quem diz: Dr. Strangelove (Peter Sellers).


25 — "You won't bore him, honey. You won't even get a chance to talk."
Tradução: Você não vai entediá-lo, querida. Não vai nem conseguir abrir a boca.
Filme: A malvada (All About Eve, 1950)
Quem diz: Claudia Caswell (Marilyn Monroe).


24 —  "Pay no attention to that man behind the curtain."
Tradução: Ignorem esse homem atrás da cortina.
Filme: O mágico de Oz (The Wizard of Oz, 1939)
Quem diz: O mágico de Oz (Frank Morgan).


23 —  "Go ahead. Make my day."
Tradução: Coninue. Alegre o meu dia.
Filme: Impacto Fulminante (Sudden Impact, 1983)
Quem diz: Harry Callahan (Clint Eastwood).



22 —  "May the Force be with you."
Tradução: A Força esteja com você.
Filme: Guerra nas estrelas (Star Wars, 1977)
Quem diz: Han Solo (Harrison Ford).
Obs.: No filme, a frase é: "The Force will be with you... always.".


21 —  "Get in my belly."
Tradução: Entre na minha barriga.
Filme: Austin Powers — O agente Bond Cama (Austin Powers: The Spy Who Shagged Me, 1999)
Quem diz: Fat Bastard (Mike Myers).


20 — "As far back as I can remember, I always wanted to be a gangster."
Tradução: Até onde me lembro, eu sempre quis ser um gângster.
Filme: Os bons companheiros (Goodfellas, 1990)
Quem diz: Henry Hill (Ray Liotta).


19 —  "Well, there's something you don't see every day."
Tradução: Bem, tem coisa que não se vê todo dia.
Filme: Os caça-fantasmas (Ghost Busters, 1984)
Quem diz: Dr. Peter Venkman (Bill Murray).


18 —  "I wish I knew how to quit you."
Tradução: Queria saber como me livrar de você.
Filme: O segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005)
Quem diz: Jack Twist (Jake Gyllenhaal).


17 —  "I know it was you, Fredo. You broke my heart. You broke my heart."
Tradução: Sei que foi você, Fredo. Você partiu meu coração. Você partiu meu coração.
Filme: O poderoso chefão II (The Godfather: Part II, 1974)
Quem diz: Don Michael Corleone (Al Pacino).


16 —  "Hello, Clarice."
Tradução: Olá, Clarice.
Filme: O silêncio dos inocentes (The Silence of the Lambs, 1991)
Quem diz: Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins)
Obs.: Fala não encontrada no filme. Ao telefone, Lecter diz "Well, Clarice..."


15 — "You sly dog! You got me monologuing!"
Tradução: Seu cão traiçoeiro! Me deixou falando sozinho!
Filme: Os incríveis (The Incredibles, 2004)
Quem diz: Syndrome (voz de Jason Lee).


14 —  "You are the audience. I am the author. I outrank you!"
Tradução: Você é o público. Eu sou o autor. Sou mais importante que você!
Filme: Primavera para Hitler (The Producers, 1968)
Quem diz: Franz Liebkind (Kenneth Mars)
Obs.: Respeitou-se a ordem em que as frases são ditas no filme, embora a revista "Premiere" tenha invertido as duas primeiras: "I am the author. You are the audience."


13 — "We didn't need dialogue. We had faces!"
Tradução: Não precisávamos de diálogo. Tínhamos rostos! [expressivos]
Filme: Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950)
Quem diz: Norma Desmond (Gloria Swanson).


12 —  "Fasten your seatbelts, it's going to be a bumpy night!"
Tradução: Apertem os cintos, vai ser uma noite turbulenta!
Filme: A malvada (All About Eve, 1950)
Quem diz: Margo Channing (Bette Davis).


11 —  "There's no place like home."
Tradução: Não há lugar melhor que a nossa casa.
Filme: O mágico de Oz (The Wizard of Oz, 1939)
Quem diz: Dorothy Gale (Judy Garland).


10 —  "I'm gonna make him an offer he can't refuse."
Tradução: Vou fazer uma oferta que ele não pode recusar.
Filme: O poderoso chefão (The Godfather, 1972)
Quem diz: Don Vito Corleone (Marlon Brando).


9 —  "Adrian!"
Filme: Rocky, um lutador (Rocky, 1976)
Quem diz: Rocky Balboa (Sylvester Stallone).


8 — "You talkin' to me?"
Tradução: Tá falando comigo?
Filme: Taxi Driver — Motorista de táxi (Taxi Driver, 1976)
Quem diz: Travis Bickle (Robert De Niro), mirando-se no espelho.


7 —  "I coulda been a contender."
Tradução: Eu podia ter sido um competidor [de boxe].
Filme: Sindicato de ladrões (On the Waterfront, 1954)
Quem diz: Terry Malloy (Marlon Brando).


6 —  "All right, Mr. DeMille, I'm ready for my close-up."
Tradução: Tudo certo, Sr. DeMille, estou pronta para o close-up.
Filme: Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950)
Quem diz: Norma Desmond (Gloria Swanson).


5 —  "Mrs. Robinson, you're trying to seduce me, aren't you?"
Tradução: Sra. Robinson, está tentando me seduzir, não está?
Filme: A primeira noite de um homem (The Graduate, 1967)
Quem diz: Benjamin Braddock (Dustin Hoffman).


4 —  "I'm the king of the world!"
Tradução: Sou o rei do mundo!
Filme: Titanic (Idem, 1997)
Quem diz: Jack Dawson (Leonardo DiCaprio).


3 — "Rosebud."
Tradução (desnecessária): Botão de rosa.
Filme: Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941)
Quem diz: Charles Foster Kane (Orson Welles).


2—  "Frankly, my dear, I don't give a damn."
Tradução: Francamente, querida, eu não ligo a mínima.
Filme: E o vento levou (Gone with the Wind, 1939)
Quem diz: Rhett Butler (Clark Gable).


1 —  "Here's looking at you, kid."
Tradução: Tô de olho em você, garota.
Filme: Casablanca (Idem, 1942)
Quem diz: Rick Blaine (Humphrey Bogart).


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POR EM 05/06/2009 ÀS 08:02 PM

Histórias das cicatrizes de uma Angola em transição

publicado em

Co­le­tâ­nea pu­bli­ca­da em 2001, e que só ago­ra che­ga ao lei­tor bra­si­lei­ro, en­fei­xa dez tex­tos que re­ve­lam to­do o vi­gor e ver­sa­ti­li­da­de de um es­cri­tor que traz no bo­jo de sua nar­ra­ti­va uma pro­fun­da e acu­ra­da con­sci­ên­cia es­té­ti­ca im­pul­si­o­na­da por uma vi­são so­ci­al e po­lí­ti­ca de seu Pa­ís, sem, con­tu­do, su­cum­bir às afe­ta­ções de uma pro­sa en­ga­ja­da ou aos ca­co­e­tes de um mer­gu­lho ide­o­ló­gi­co  


Con­ti­nen­te mul­ti­fa­cé­ti­co e cul­tu­ral­men­te fas­ci­nan­te, ape­sar das con­tra­di­ções vi­vi­das por um po­vo que ex­pe­ri­men­ta tan­to as guer­ras e con­fli­tos ét­ni­cos quan­to a mi­sé­ria e a po­bre­za, a Áfri­ca vem ofe­re­cen­do ao res­to do mun­do uma li­te­ra­tu­ra de qua­li­da­de in­ques­ti­o­ná­vel, se­ja na fic­ção ou na po­e­sia. Nes­se ter­ri­tó­rio ain­da es­tig­ma­ti­za­do pe­la du­re­za de uma re­a­li­da­de tão cru­ci­al e de­sa­fi­a­do­ra, tan­to no pla­no po­lí­ti­co-ide­o­ló­gi­co quan­to nos de­sa­fi­os eco­nô­mi­cos e so­ci­ais, en­con­tra­mos au­to­res que re­pre­sen­tam um mo­men­to sin­gu­lar em sua his­tó­ria li­te­rá­ria. Já não é pre­ci­so fa­lar de al­guns no­mes so­be­ja­men­te res­pei­ta­dos no ce­ná­rio in­te­lec­tu­al con­tem­po­râ­neo, cu­jas obras en­con­tram res­so­nân­cia em to­dos os con­ti­nen­tes, a exem­plo de Lo­bo An­tu­nes, Mia Cou­to, Pe­pe­te­la, Jo­sé Cra­vei­ri­nha, Lu­an­di­no Vi­ei­ra, Jo­sé Eduar­do Agua­lu­sa, Nel­son Sa­ú­te, Ondjaki, Mi­guel Gul­lan­der den­tre ou­tros. A sa­fra li­te­rá­ria de au­to­res lu­só­fo­nos dos paí­ses afri­ca­nos vem con­fir­mar não ape­nas a vi­ta­li­da­de cri­a­ti­va des­ses es­cri­to­res, co­mo a afir­ma­ção de uma li­te­ra­tu­ra de lín­gua por­tu­gue­sa que a ca­da dia mais se con­so­li­da além das fron­tei­ras lu­so-bra­si­lei­ras.

En­tre as obras que aca­bam de che­gar ao Bra­sil, “Fi­lhos da Pá­tria”, de Jo­ão Mel­lo, uma das vo­zes mais re­pre­sen­ta­ti­vas da atu­al pro­du­ção li­te­rá­ria de An­go­la, é si­nal mar­can­te des­se “bo­om” fic­cio­nal. Es­sa co­le­tâ­nea de dez con­tos pu­bli­ca­da em 2001, e que só ago­ra che­ga ao lei­tor bra­si­lei­ro, en­fei­xa dez tex­tos que re­ve­lam to­do o vi­gor e ver­sa­ti­li­da­de de um es­cri­tor que traz no bo­jo de sua nar­ra­ti­va uma pro­fun­da e acu­ra­da con­sci­ên­cia es­té­ti­ca im­pul­si­o­na­da por uma vi­são so­ci­al e po­lí­ti­ca de seu Pa­ís, sem, con­tu­do, su­cum­bir às afe­ta­ções de uma pro­sa en­ga­ja­da ou aos ca­co­e­tes de um mer­gu­lho ide­o­ló­gi­co.

Nos ex­tra­tos nar­ra­ti­vos de “Fi­lhos da Pá­tria”, a cru­e­za de uma re­a­li­da­de ca­ó­ti­ca, per­me­a­da por mi­sé­ria e con­fli­tos po­lí­ti­cos, nu­ma An­go­la que vi­veu uma tran­si­ção po­lí­ti­ca após a in­de­pen­dên­cia e uma guer­ra que du­rou qua­se três dé­ca­das e di­zi­mou mi­lha­res de pes­so­as e em­po­bre­ceu o Pa­ís, é tra­ta­da por Me­lo com de­vi­do dis­tan­ci­a­men­to, na me­di­da em que as­su­me o vi­és do hu­mor e da iro­nia pa­ra re­gis­trar o quo­ti­di­a­no e re­fle­tir so­bre as nu­an­ces his­tó­ri­cas e as lu­tas de seu po­vo. Ali­ás, es­se re­cur­so amor­ti­za, em cer­ta me­di­da, a vi­são que se pas­sa so­bre um pa­ís que vi­ve seus pro­ble­mas, ao mes­mo tem­po em que abre es­pa­ço pa­ra se dis­cu­tir e re­fle­tir so­bre o pas­sa­do e o pre­sen­te, bem co­mo so­bre ques­tões emer­gen­tes li­ga­das às agru­ras que têm afe­ta­do os an­go­la­nos, co­mo a fo­me, as epi­de­mi­as, os ví­ci­os po­lí­ti­cos, co­mo a cor­rup­ção, o pre­con­cei­tos, a pur­ga­ção das ma­ze­las em to­dos os ní­veis, a re­cons­tru­ção fí­si­ca e mo­ral do Pa­ís, a con­so­li­da­ção da de­mo­cra­cia e a afir­ma­ção da pró­pria iden­ti­da­de, que si­na­li­za tam­bém na har­mo­ni­za­ção dos in­te­res­ses po­lí­ti­cos e par­ti­dá­rios que frag­men­tam a uni­da­de na­ci­o­nal des­de 1975, quan­do o Pa­ís to­mou su­as pró­pri­as ré­de­as em meio ao fo­go cru­za­do de su­as cor­ren­tes po­lí­ti­co-ide­o­ló­gi­cas.

Nes­se “gran­de cal­dei­rão de pro­ble­mas mui­to gran­des, que pa­ra nós são uma ma­té­ria-pri­ma ri­quís­si­ma”, co­mo en­fa­ti­zou Jo­ão Me­lo em re­cen­te en­tre­vis­ta con­ce­di­da ao “Cor­reio Bra­zi­li­en­se”, não fal­tam mo­ti­vos, cir­cun­stân­cias e ar­gu­men­tos pa­ra se tra­çar um pai­nel re­a­lis­ta, sin­ce­ro e ao mes­mo tem­po crí­ti­co so­bre sua An­go­la, co­mo na ten­ta­ti­va de vis­lum­brar o pró­prio lu­gar e va­lor da ar­te e da li­te­ra­tu­ra num Pa­ís que tem ou­tras pri­o­ri­da­des, co­mo en­fren­tar os gra­vís­si­mos pro­ble­mas eco­nô­mi­co-so­ci­ais e as fre­quen­tes dis­sen­sões po­lí­ti­cas. tão pre­sen­tes tam­bém na vi­da e na his­tó­ria de ou­tras na­ções afri­ca­nas. Me­lo faz um re­cor­te des­sas tra­gé­di­as co­muns a to­do o con­ti­nen­te, que têm ori­gem no pró­prio pro­ces­so de for­ma­ção das di­ver­sas na­ções e na di­ver­si­da­de de va­lo­res, cos­tu­mes e et­ni­as e que ain­da é pou­co ex­plo­ra­da pe­la li­te­ra­tu­ra, e a que che­ga até nós, mui­tas ve­zes, ali­men­ta o ima­gi­ná­rio dos lei­to­res oci­den­tais de for­ma equi­vo­ca­da, por con­ta do ape­lo ao exó­ti­co ou à ca­ri­ca­tu­ra.

Ao abrir o li­vro com uma epí­gra­fe de Ga­bri­el o Pen­sa­dor — “Es­sa é a pá­tria que me pa­riu” — Jo­ão Me­lo dá pis­tas pa­ra a com­pre­en­são de seu pro­je­to fic­cio­nal. Seus per­so­na­gens in­cor­po­ram es­se sen­ti­men­to que ao mes­mo tem­po re­pre­sen­ta o tra­ço de an­ces­tra­li­da­de, com seus to­tens, di­fe­ren­ças e re­fe­rên­cias mul­ti­cul­tu­ra­is for­tís­si­mos, e, por ou­tro, re­for­ça a ne­ces­si­da­de de va­lo­ri­za­ção des­sa mes­ma he­ran­ça, re­pre­sen­ta­ção sim­bó­li­ca de uma An­go­la que sai do abis­mo e dos con­fli­tos de sé­cu­los de opres­são e ana­cro­nis­mo e pro­cu­ra se in­se­rir na mo­der­ni­da­de sem re­ne­gar su­as ori­gens his­tó­ri­cas, mas ten­tan­do um sal­to di­a­lé­ti­co so­bre seus es­com­bros.

En­tre es­sa vi­são idí­li­ca do pas­sa­do e um pre­sen­te em cons­tru­ção — quan­do se es­bo­çam a na­ção, o pa­ís e o es­ta­do que, nos mo­men­tos con­fli­tuo­sos, pa­re­ce re­nas­cer das pró­pri­as cin­zas — seus per­so­na­gens dão voz à iden­ti­da­de de um po­vo que pro­cu­ra or­ga­ni­zar a uni­da­de den­tro de sua pró­pria di­ver­si­da­de, ape­sar dos an­ta­go­nis­mos. Nes­se des­fi­le de si­tu­a­ções en­con­tra­di­ças em qual­quer so­ci­e­da­de, e tão pe­cu­li­a­res àque­las que so­fre­ram, co­mo An­go­la, rup­tu­ras ins­ti­tu­ci­o­nais, va­mos en­con­trar uma le­gi­ão de ti­pos ca­rac­te­rís­ti­cos, uma es­pé­cie de ma­pe­a­men­to de uma épo­ca tão he­te­ro­gê­nea co­mo efer­ves­cen­te. Aí es­tão os sin­to­mas pre­sen­tes em qua­is­quer re­gi­mes, e tão ve­lhos quan­tos atu­ais: a cor­rup­ção do fun­cio­na­lis­mo pú­bli­co, o gla­mour e opor­tu­nis­mo de uma no­va eli­te que se be­ne­fi­ciou do atu­al mo­de­lo eco­nô­mi­co, os mi­se­rá­veis in­fra­to­res, o ex­cluí­dos, os apar­ta­dos so­ci­ais e po­lí­ti­cos, os apro­vei­ta­do­res e os cri­mi­no­sos cir­cun­stan­ci­ais, os des­lo­ca­dos e re­fu­gi­a­dos, co­mo em “Tio, mi dá só cem”, “Na­tas­ha”, “Ngo­la Ki­lu­an­je”, “O efei­to es­tu­fa” e “O ho­mem que nas­ceu pa­ra so­frer”, con­tos pa­ra­dig­má­ti­cos des­se li­vro. E não dou­ra a pí­lu­la ao es­bo­çar um Pa­ís de con­tras­tes, não pou­pa o lei­tor de uma vi­são eclé­ti­ca de uma na­ção es­ti­lha­ça­da por tan­tos pro­ble­mas, mas que so­bre­vi­ve es­pe­ran­ço­sa. Nes­ses con­tos po­vo­a­dos de me­mó­ria, em que Me­lo di­a­lo­ga com os uni­ver­sos po­lí­ti­co, ét­ni­co e his­tó­ri­co, to­das as clas­ses es­tão re­pre­sen­ta­das e a ma­nei­ra de con­tá-las nu­ma lin­gua­gem cau­da­lo­sa, sin­gu­lar e bem hu­mo­ra­da, que, vez ou ou­tra, ata­lha pa­ra o en­saio, abre es­pa­ço pa­ra uma su­til dis­cus­são so­bre o mo­men­to vi­vi­do pe­lo Pa­ís e seu po­vo, que per­se­guem um des­ti­no de li­ber­da­de, bem-es­tar e de­sen­vol­vi­men­to em to­dos os ní­veis.

Nas­ci­do em Lu­an­da em 1955, Jo­ão Me­lo, vi­veu no Bra­sil en­tre 1984 e 1992, ten­do mo­ra­do no Rio de Ja­nei­ro co­mo cor­res­pon­den­te da im­pren­sa an­go­la­na, pe­rí­o­do em que se gra­duou em Jor­na­lis­mo e Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral Flu­mi­nen­se e fez Mes­tra­do em Co­mu­ni­ca­ção e Cul­tu­ral pe­la Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral do Rio de Ja­nei­ro. Sua obra vem sen­do sis­te­ma­ti­ca­men­te es­tu­da­da nas uni­ver­si­da­des bra­si­lei­ras. Além de es­cri­tor, é jor­na­lis­ta, pro­fes­sor uni­ver­si­tá­rio, crí­ti­co e en­sa­ís­ta, tem dez li­vros pu­bli­ca­dos, en­tre po­e­sia, con­to, ro­man­ce, crí­ti­ca e en­saio. Di­vi­de-se en­tre a vi­da in­te­lec­tu­al e as ati­vi­da­des par­la­men­ta­res, exer­cen­do atu­al­men­te o man­da­to de de­pu­ta­do da As­sem­bléia Na­ci­o­nal pe­lo MPLA (Mo­vi­men­to Po­pu­lar pe­la Li­ber­ta­ção de An­go­la), par­ti­do do atu­al pre­si­den­te Jo­sé Agos­ti­nho dos San­tos, fun­da­do pe­lo lí­der Agos­ti­nho Ne­to, um dos res­pon­sá­veis pe­la in­de­pen­dên­cia do Pa­ís. Seu pai, Aní­bal de Me­lo, foi um dos lí­de­res que lu­ta­ram con­tra a co­lo­ni­za­ção por­tu­gue­sa.


Trecho de Filhos da Pátria


Tio, mi dá só cem, só cem mes­mo pra com­prar um pão, tô en­tão com fo­me, in­da não co­mi na­da des­de an­tes­don­tem, os ou­tros mi­ú­dos mi ca­çam­bu­la­ram com ele o fer­ro que um mua­ta me deu, eu lhe vi quan­do ele che­gou com a ga­ri­na, pa­re­cia en­tão fi­lha de­le, ou ne­ta, sei lá, me­teu o car­ro lá bem no fun­dão per­to das pe­dras, eu dei um tem­po, con­tei nas mãos, eu en­tão sei con­tar tio, tam­bém an­dei na es­co­la, che­guei até na quar­ta, a, bê, cê, dê, um, dois, três, qua­tro, num é as­sim tio, é as­sim sim se­nhor, não ri, foi o meu pro­fes­sor é quem dis­se, lá no ma­to adon­de eu es­ta­va an­tes de vir aqui em Lu­an­da co­mo des­lo­ca­do, uns di­zem é des­lo­ca­do, ou­tros por­que é re­fu­gi­a­do, es­sas pa­la­vras nós no ma­to na nos­sa es­co­la mes­mo nun­ca que lhes vi­mos, nem ou­vi­mos, con­tu­do, po­rém, lá no ma­to a gen­te não co­nhe­cia es­sas pa­la­vras mas tam­bém não es­ta­va a co­mer, só aqui mes­mo é que an­da­mos a co­mer, ai, es­tás a rir tio, num ri en­tão, tu não sa­bes que tem co­mi­da de re­fu­gi­a­do, de des­lo­ca­do, de ro­to e es­far­ra­pa­do, de des­gra­ça­do, lhe pro­cu­ra­mos to­das as noi­tes nos con­ten­to­res, lu­ta­mos, nos alei­ja­mos, en­con­tra­mos mes­mo bo­as coi­sas, os­sos de ga­li­nha as­sim com umas ti­ras re­ci­clá­veis, sim, tio, re­ci­clá­veis, es­ta pa­la­vra apren­di com uns mo­ços que cos­tu­mam apa­re­cer por aqui, che­gam de mo­to­re­tas, di­zem, nós so­mos da Ju­ven­tu­de Ver­de, eu acho es­qui­si­to pois no meio de­les só ve­jo, mu­la­tos, tem até uns bran­qui­nhos, di­zem te­mos aqui umas mu­das de ár­vo­res pra vo­cês plan­ta­rem, nós lhes olha­mos en­tão de uma ma­nei­ra que eles não en­ten­dem, são bur­ros, mu­xo­xa­mos en­tre nós ár­vo­res, ár­vo­res, que­re­mos ma­sé pan­car, es­ta­mos em­bo­ra com fo­me, com bué de fo­me, a nos­sa fo­me é tão gran­de que so­mos de ca­pa­zes de ma­tar es­tes mo­ços ver­des, to­dos eles bem nu­tri­dos, bo­ni­ti­nhos, bem chei­ro­sos, o me­lhor mes­mo é vol­tar a vas­cu­lhar os nos­sos con­ten­to­res, às ve­zes mes­mo en­con­tra­mos coi­sas bo­as, car­ne de va­ca moí­da que até não é pre­ci­so lhe mas­ti­gar mais, é só en­go­lir e pron­to, pe­da­ços de pão to­dos es­bu­ra­ca­dos pa­re­ce le­va­ram ti­ros, la­tas de cer­ve­ja, la­tas de ga­so­sa, la­tas de sar­di­nha, la­tas de atum, la­tas de fei­jão, la­tas de fru­tas, la­tas de do­ce, tan­tas la­tas, tan­tas, que eu acho que o mun­do é uma gran­da la­ta­ria...
 

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POR EM 16/03/2009 ÀS 08:22 PM

O adeus de Lobo Antunes

publicado em

Escrever é muito difícil, fazer o que sonhava um objectivo que me parecia impossível. Teimei como um danado, até contra mim mesmo. Não tiro disto mérito nenhum: é apenas uma questão de orgulho e teimosia.  Queria uma nova maneira de dizer, mudar a arte da escrita. As páginas que imprimiram falarão por mim

As mãos são as folhas dos gestos
António Lobo Antunes

Decidido. Se Deus continuar a dar-me vida e saúde publico o livro que estou a acabar este ano. Um último, que fechará a minha obra, em dois mil e onze, reúno as crónicas que não foram coleccionadas em um ou dois volumes e calo-me a partir do dia em que o tal livro de dois mil e onze sair. Julgo que continuarei a escrever, tal como fazia antes da edição da “Memória de Elefante”, numa actividade quase clandestina, de que muito poucos sabiam, durante a qual, concluído um trabalho, o destruía. Gosto de deixar as coisas acabadas e com o par de livros que acima mencionei o meu trabalho fica redondo. Depois dele nem mais uma palavra impressa, nem mais uma palavra dita: aliás não disse muitas e da maior parte daquelas que disse arrependo-me. Os livros chegam. São a minha razão e a minha vida. E retira-me com cada objecto no seu lugar e a casa limpa.

Digo isto sem nenhuma tristeza: fui um afortunado, lutei muito, ganhei. Mesmo no desânimo, na dúvida, nas derrotas, tive sempre a certeza que ia ganhar se continuasse o combate. Escrever é muito difícil, fazer o que sonhava um objectivo que me parecia impossível. Teimei como um danado, até contra mim mesmo. Não tiro disto mérito nenhum: é apenas uma questão de orgulho e teimosia.  Queria uma nova maneira de dizer, mudar a arte da escrita. As páginas que imprimiram falarão por mim.

Regresso aos autores que mais estimo: Virgílio, Horácio, Ovídio. Horácio: “construo um monumento mais duradoiro que o bronze. Ovídio: “a minha poesia há-de-sobreviver ao tempo, ao ferro e ao fogo. Isto em traduções mais ou menos. Virgílio: “o polir sem fim. É desta massa que os artistas são feitos. O resto é o que por aí se edita, mas de maneira geral parece-me que se está a editar melhor, tirando o inevitável lixo que dá dinheiro e não é, de forma alguma, uma política nova: sempre existiu. A casa alemã onde estou resolve as coisas muito simplesmente: separa, no catálogo, o que cháma best-sellers do que chama literatura, embora isso não me diga respeito: estou me nas tintas.

Portanto aproximo-me do fim. Há muito pouco tempo tive uma experiência curiosa: Mandaram-me uma edição nova de “Os Cus de Judas”. Nunca tinha lido um romance meu impresso e comecei a folheá-lo aqui e ali. Que estranho. Fui eu e não fui quem o compôs, mudei tanto, parecia-me descobrir um autor ao mesmo tempo distante e próximo, não me lembrava de nada e todavia o texto era parte de um continuum que foi desembocando, a pouco e pouco, no que sou agora, no que me interessa agora: que caminho tão comprido, sinuoso, lento. Achei esquisito a voz já lá estar, apesar de muita areia e muita terra misturada com os diamantes. Não poderia corrigi-lo, transformá-lo: era assim, tinha de ser assim, pertence ao todo, E dei conta, com alguma surpresa, da unidade do meu trabalho, hoje quase no fim. Quero sair enquanto estou cheio de força. Voltar a escrever às escondidas, voltar a deitar fora o material inteiro depois de o corrigir e corrigir. Fazia autos de fé junto à árvore do quintal dos meus pais, ficava a assistir ao papel que ardia, a escurecer, a torcer-se, a voar em cinzazitas na direcção da capoeira, comigo numa mistura de alívio e pena, pena não sei bem de quê.

A seguir esquecia-me da pena e do alívio e recomeçava. Ao publicar vi-me enredado numa teia de editores, agentes, tradutores, jornalistas, oficiais do mesmo ofício e deixei de  me sentir livre.

Há por aqui, no lugar onde moro, um sem-abrigo de que gosto. Conversamos bastante. Gesticula e as mãos são as folhas dos ramos dos seus braços, lá na ponta, a tremerem. Uma destas semanas dei com ele a dançar no passeio, com um sorriso enorme. Disse, ao cruzar-me com ele

— Estou-me a cagar

e continuou o seu bailado, sozinho, lá para trás. Não me pediu cigarros nem dinheiro: estava a cagar-se. Não tornei a vê-lo e pergunto-me por onde andará agora que é inverno, faz frio, chove muito. Não o acho debaixo de cartões e trapos, numa arcada, num degrau. Desconheço como se chama. Trata-me por

— Amigo

trato-o por

— Amigo

e é tudo. Espero que continue a cagar-se. Se eu conseguisse dançar com ele, como ele. Ao longo da vida tenho coleccionado pessoas assim. A noite neste bairro é dura, marginais, prostitutas, o rol inteiro. Uma ocasião abraçou-se a mim a chorar, numa altura em que não estava a cagar-se. Sofria como um cão. Lá arribou com umas cervejas, uns cigarros. De cabelos compridos, barba. Nunca lerá isto, nunca saberá que falei dele. Disso tenho pena. Gostava que esbarrássemos de novo

— Amigo

esperar que do fundo da barba me chegasse o seu

— Amigo

primeiro baixinho, depois a engrossar

— Amigo

perguntar-me

—Tem uma moeda por acaso?

na certeza que eu tinha uma moeda por acaso e lha ia dar por acaso. O que lhe sucedeu, amigo? E de novo a dança, de novo o sorriso

— Estou-me a cagar

e eu a cagar também, caminhando os dois, rua fora, até ninguém nos ver, deixando aquele que escrevia, o António Lobo Antunes, a olhar para nós, a meter a chave à porta e a instalar-se, de cotovelos na mesa e mãos no queixo, diante de um tampo vazio.
 

*Mantido a grafia original conforme o publicado na Revista Visão  (de 19 a 25 de Fevereiro 2009).
 


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POR EM 09/03/2009 ÀS 03:27 PM

5° rodada: os blogs mais populares do Brasil

publicado em

Entre os dias 2 e 6 de março de 2009 foi perguntado a 153 estudantes de 10 universidades brasileiras: Quais são seus blogs favoritos? Assim como nas pesquisas anteriores, houve um único critério: cada participante poderia indicar um número máximo de cinco blogs. Participaram do levantamento estudantes das seguintes universidades: UFPR, UFBA, UFC, UEL, UFPB, UFOP, FURG, UEG, UNIR, UNIFESP. A pesquisa foi feita pelo Laboratório de Pesquisas de Opinião Pública e de Mercado/UEG  e não tem valor científico. 

 

5° rodada: os blogs mais populares do Brasil 
( Para ver o Ranking Geral clique aqui)
 
 1º —  44 citações
Sedentário e Hiperativo

 

 2º — 39 citações
Contraditorium
 
 3º — 38 citações
Jacaré Banguela
 
 4º — 33 citações
Ao Mirante, Nelson
 

 5º —  31 citações
Meio Bit

 
 6º — 31citações
Te dou um dado
 

 7º — 29 citações
Kibe Loco

 
 8º — 25 citações
Pensar Enlouquece
 

 9º — 22 citações
Reinaldo Azevedo

 

 10º — 20 citações
Noblat 

 
 

 


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POR EM 02/03/2009 ÀS 07:28 PM

O pensamento é o armazém de tudo que pulsa e arde em nós

publicado em

No próximo domingo, completa 18 anos da morte de Pio Vargas. A carreira meteórica do autor de “Anatomia do Gesto” e “Os Novelos do Acaso” foi interrompida tragicamente, por uma overdose de cocaína, na tarde de 8 de março de 1991. A carta a seguir, escrita em dia incerto de julho de 1989 e dedicada aos muitos amigos, elucida dúvidas sobre a morte do poeta goiano, que foi apontado por Paulo Leminski como um de seus sucessores. O texto foi mantido como foi escrito por Pio Vargas.

 


A CARTA DE DESPEDIDA

Aquino e Gleib! um dia, quando eu estiver distante, lembrem-se que vocês foram a minha família real e absoluta. Em qualquer lugar, estarei sempre do lado de vocês.

As pessoas dizem que sou porra-louca, doido, mas criativo, querem ver:

O Aquino diz que sou paranóico, o mais louco da turma, se é que ela existe! O Bira diz que não sou confiável, porque sou voado, aéreo; diz que sou seu filho mais velho. Grande Bira! O Rogério diz que ainda sou ingênuo, que não sei, às vezes, ressalta, esperar a hora certa; é um dos que mais me incentiva, porém e ainda bem!; O Brandão justifica o nome: é brand-ão! Um gênio da vida que optou pela música, fazendo poesia de tudo e incentivando a todos com sua forma sincera de ser genial. Nunca consegui explicar com palavras o amor que sinto por ele.

A Edilene, minha grande! Infelizmente eu não soube amá-la como merecia; sacrificou muita coisa por mim, sempre conseguindo achar um vácuo no peito para agasalhar o perdão; você será recompensada, Edilene: estou certo de que o mundo (ou o destino?) reserva uma grande e adorável surpresa para você. Vá em frente, “mozim”!

O Viromar, a Dinaídes, a Magda, a Dininha, a Celina, a Tâmara, a Eucione, o Braz, meu mestre, o Delermando, a Abadia, o seu Amaral, o PX, o Omar, o inigualável, a Mary Anne, a companheira que me ensinou a ser Assessor Geral, a Maria Barbosa, a grande benfeitora e companheira das difíceis horas do Fórum e de outros momentos (obrigado pela capa do livro), o Simas, que está sempre para “simas”, o Liah, o inesquecível, o Gomes, o Dacruz, o Hildenor, gente boa até debaixo d'água, ser humano nota 10, a Roseane que sempre me dizia dos meus prêmios com uma ironia incentivadora (obrigado), um ser supremo, há de pagar a todos.

Ah, estou esquecendo o Altino, o Gilberto gente boa Correia, o Duro Oliveira, gênio, o Mustafé, parceira pela vida afora, o Bolívar que sofreu muito na minha mão, mas nunca conseguiu ficar chateado comigo, o Tião Pinheiro, amigo óbvio, mas sempre distante (um mestre dos bons conselhos), o Luís Augusto, Amaury Gracinha, o Nilton Júnior, que fui conhecendo e amando, o Leminski, que ao lado do Edival, Ruy, Noildo, Bira Galli, me ensinaram tudo de poesia-de-vida (a emoção e tesão constantes, a Mastrela, a Jô e a Heloise, cúmplice de meu sentimento mais desesperado, que todos (quem sabia, é claro!) confundiram com caso, quando na verdade era quase apenas uma vontade louca de me fazer capaz de amar com liberdade real, para dentro do apartamento do meu peito, onde habita um condomínio de ardores, amores e outros odores vitais, o Marconi, com sua inescondível (existe o termo?!) insegurança, que no fundo, a mim pelo menos, só transferia estima, consideração e respeito, o Markão, o Roberto, o Marcelo “Vamoali”, o Ciro Moura, pessoa que sofreu por ser grande demais para este mundo, o Adory, que eu adorava pelo jeito “diferente” de ser sincero, simpático, sensível e correto para consigo mesmo; o Osvaldinho, e seu inevitável para a política, sofrendo pela ingenuidade, vontade de ser grande, e a mistura nem sempre benigna de tudo isso, a Gleib! Que me amava (e ama, estou certo), o Aquino da exata forma que ele é, o Negão (Olivaldo), Vilton, sábio habilmente inseguro e carismático (ressalva: só os amigos sabem que o Vilton é inseguro, mas, como todo sábio, inteligentíssimo), o Valteir, meu inconfessável fã, meu absoluto amigo, meu real correligionário do sorriso sem tréguas (lembra, Valteir?), o Miguel, a “Tiana”, dois seres que aprendi a amar pelas suas indiscutíveis capacidades de superarem a percalços e injustiças, o Rosimar, a Cida e o Magno (cadê esse cara, hein?), a Geisa, a Romilda, a Maysa, que eu adorava, adoro, aliás, pelo jeitão de ser ela mesma, sem enganações, apenas para agradar a sociedade, esse “ser” nojento, abstrato, falso e, é claro, podréssimo!, o Adilon, o Izecias, um sábio ser, a Rosângela, agressivamente simpática e irreverente, a Dell, o Gilmaré, a Velu, poetíssima, o Orley, outro que fui conhecendo e gostando, o “Bechano”, o Batista, outro do largo sorriso, o Marcelo grande “canalha” Heleno, ser humano que será (é, aliás) capaz de multiplicar-se em vários, para ser o poeta do psicólogo, Pedro Humberto, que eu achava (macho, aliás) interior e exteriormente lindo, Star-Chic-Célio, o Pádua, o Reny-tente Cruvinel (...) companheiros de essência musical, o masofi-maluco, um-qualquer-um, parceiro bom e amigo, o Júnior, que mora ao lado de casa, e eu gosto muito pelo seu jeito montesclaríssimo de viver, o João Batista Peres, prefeito, amigo e uma espécie de Pai, com sua sempre leal companheira Cleusa, minha espécie de mãe, certamente, especiais para mim, juntamente com Noildo e Romilda, Alam Pimentel (Alan, é com “n”), o Professor lázaro faleiro, com minúscula, porque ele, com a Dona-Mãe-conselheira-e-confidente Laurinda Barbalho, foram meus mestres dos primeiros e imprescindíveis passos, o Porreta, o “Beat”, o Lázaro, Escultores da Simpatia, o Djalma e seu sorriso constante, abnegado, vivo, ótimo, a Divina e sua mochila (ou melhor, “michila”), a Débora, Renata, Júnior, Hugo e outros, vários outros seres grandes que deles certamente descenderão, o Lindomar e a Sandra, seres inesquecíveis e adoráveis, a Gisele, o José Reis e o Clenardo, que “tentaram” chatear-se (no singular, como é que é isso!?) – as vezes fico encabulado e perco a noção de concordância verbal (e vital, também, o que é pior!), o Braguinha Barroso, o Último Tipo”, ou melhor: “ótimo tipo”, o papõ, simpatia pura, o Lindomar, outra simpatia pura, a Silma, o Donizete, que me conheceu bem, e me ajudou a entender os seres que nasceram para contribuir, doar, ajudar, honestamente, mas de leve, esperto, matreiro, astuto, competente (grande Donizete), a Miriam, confidente, amiga, sempre solidária com meus supostos acertos e severa com meus inúmeros, incontáveis erros, (Miriam, cuida bem do Ruy, porque assim você faz o Gordo-Tupã-Tio-Faustão-e-sobretudo-Guru-de-todos-nós dar sempre mais de sua sabedoria ao necessitado mundo dos vivos, aqui, além, acolá, ou onde quer que seja). Que o Deus-Ruy esteja sempre conosco e nos ilumine nesta constante e cósmica missão de existir).

O Vagão, carinhosamente, e Wagner Luz, indiscutivelmente criativo e plural, que eu nunca pude, mas principalmente não soube retribuir seus inúmeros e eternos “favores”. Wagner, um dia a gente se encontra, numa melhor, juntamo-nos ao Donizete, o do Bar, seu amigo, para realizarmos a imprescindível (adoro esta palavra – é um dos meus arquissemas para textos em prosa) obra, ou missão, sei lá, de ser feliz, o Antônio Barreto, mineiro tranqüilo, que sabe que é sábio, mas não faz questão de'arrotar; ensina com a palavra, a quietude agressiva de suas metáforas absurdas, abstratadas (eu quis dizer abs-tratas), mas tudo bem! e necessárias para abs-tração dos vivos (eu disse “tração”), quer dizer: para se ordenhar o leite nas rés da existência, o Paulo, sempre Leminski, mestre dos mestres, pai de todas as minhas certezas e dúvidas poéticas, o pai-tudo, o multi-total, no mais absurdo (de novo) significado destas expressões, o Wertemberg, o Altino, o Delgado (costumo chamá-lo carinhosamente de “intestino delgado”, pela sua mais completa incompetência para ser grosso), o Coelho Vaz, sempre tranqüilo e amigo, com uma sinceridade que não se revela a qualquer um, o Iury (nunca escrevi este nome corretamente) Gordinho, poeta correto para consigo, em sua duradoura amizade. Meu cobrador de iniciativas!

Tem mais — Tem muito mais, porque de repente descubro que o bloco acabou e eu ainda estou começando a contar os amigos, meus incontáveis amigos. Engraçado: de repente me dou conta da minha facilidade de fazer amizade. Tem até um caso da minha “briga” com o “Piolho”, Erivaldo inintendível Nery, que depois (passa a escrever no verso, do fim para o início) por um pedido de desculpas seu, espalhou que eu o havia assediado para solicitar-lhe gentilmente perdão. E mais: que de presente eu lhe dera um livro meu, das edições “Porranenhuma” (não deixem que ela morra, por favor), autografado... É certo que, ao contrário do Drummond, eu sempre gostei de dar autógrafo. E ao contrário do Gilmaré, eu gosto de pedir perdão. E como gosto. Sim, porque o perdão não repara o erro, mas restaura a certeza de que é possível acertar da próxima vez. Sempre há próximas vezes, em tudo, todos e... chega! Usei uma reticência, coisa que detesto, mas me perdôo. E por falar em auto-perdão (não sei se é separado ou junto, pô!), digo-lhes ainda, e veementemente, que é necessário, essencial até, o perdoar-se constantemente. Exatamente porque, conforme digo no poema “Plural de Enigma”, “é preciso perdoar-se, antes que seja aberto o leque sem retorno da sentença”. Pedir desculpas a si mesmo é admitir a existência do outro, o radicalmente outro, que habita seu mais íntimo labirinto de emoções e sentimentos.

Pausa: ô canetinha ruim, nossa senhora da penha! Pelamor de deus, quê que isso!. Puta merda? Ave-maria, pelamãe do Guarda! E chega de reclamação! Vamos continuar, eu escrevendo e você lendo. Eu (é do livro Grünewald) escrevivendo pelo texto afora e você vendo morrer a cada frase essa inútil e desesperada vontade de querer ser importante. Sim, porque quem escreve à mão só quer mesmo ser melhor que muita gente e muita coisa também é claro! Dela há pouco de perdão, mas o escrever em si é um ato de incessante busca de perdão, sobretudo se considerarmos que quando escrevemos algo em nós parece de repente aliviar. Escrever é viajar quieto, é ir longe sem mover-se, é voltar sem nunca ter ido, é sair sempre de onde supostamente se está para os mais extasiantes e estranhos lugares, ocasiões e situações. Escrever, enfim, é subir como que, desce, sabendo que a superfície enigmática do papel é, a um só tempo, labirinto, exílio, certeza, solidão e desafio. Absoluto desafio. Um desafio que não se abala jamais, porque é perceptível, mas intocável, sem ser matéria (matéria sólida, como insistiria Ruy Jr., o guru) e intocável, porque imóvel, insensível (ainda que não concorde Aquino, o João, meu irmão, e os outros irmãos, os “campos”) e inteiriços em sua formação solidamente visível. Mas, o mais complicado é que o pensamento, que engana quem o vê abstrato, é o mais concreto dos sentidos humanos. O pensamento é, definitivamente, o sexto sentido. É o que incomoda, tortura, propõe, realiza, espera, vai, fica, sente absurdamente, enfim! O pensamento é o armazém de tudo que pulsa e arde em nós. Por isso, pensar é sofrer, com prazer, embora, ou não, sei lá: neste momento não penso em quase nada, porque medito (e me dito!) e tudo. E meditar é o fardo leve do pensamento. É a oportunidade de sermos o que podemos e o que queremos ser, sem nenhuma interferência, exterior, óbvio.

Mas, eu falava dos amigos, os que conquistei ao longo dos poucos anos de estrada e arte.

Então vamos lá:

Tem o Ulisses Aesse, com sua pose sutilmente professoral, o Tagore Biram e sua necessidade mal-resolvida de ser sempre o melhor, o que, no caso dele, é uma virtude, já que é lhe (existe esta combinação gramatical, hein Braz!) impossível ser de outro modo, então isso lhe transfere autenticidade e força de vida. O que me preocupa é que ser o melhor é um gesto de absurda solidão, pois, infelizmente, o mundo está avassolaradamente recheado de gente pior, inferior, medíocre, que nos governam. É por esse motivo que eu repito sempre, desde que ouvi pela primeira vez de um lábio iluminado, a frase: “a inteligência sempre serviu à mediocridade”. Não é sem razão, então, que os nossos, imerecidos mas eleitos, governantes, tentam, e na maioria das vezes conseguem, cooptar os inteligentes para assessorias e cargos de baixo calão (ou melhor: baixo escalão). Prosseguindo, tem o Sr. Eli, da lanchonete, que parece dar de comer ao mundo inteiro, tal a bondade de seu proprietário, a Maria José, que não perde nunca a elegância, sentimental e gestual, o Mário, o Eudaldo, “Seu Braz”, abnegados seres, que trocaram a tranqüilidade de serem apenas mais alguns funcionários públicos, para se dedicarem exclusivamente ao registro dos momentos, para os outros sempre importantes, para eles importantíssimos. Nunca perdem a posem nunca fazem cena, nunca reclamam, sempre fazem. E fazem bem – fazer bem para eles é uma questão de “vídeo” ou morte. Seres nota mil. A turma do cinema, sempre com o maior cartaz: projetando uma novidade que Goiânia, infelizmente, ainda não descobriu na sua totalidade. A equipe que trabalhou comigo na Caixego, em todas porque passei, também me vem à mente. E eu recordo cada um, na sua característica pessoal e intransferível e identificadora.
 


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POR EM 10/12/2008 ÀS 10:33 AM

A última entrevista de um filósofo irritado

publicado em

Pouco antes de morrer em Paris, em junho de 1995, o filósofo romeno Emile Michel Cioran deu esta entrevista ao escritor alemão Heinz-Norbert Jocks, publicada no nº 5 da revista "Kulturchronik", editada em Bonn pela InterNationes 

  Tradução do espanhol: Reynaldo Damazio

Apresentamos os trechos mais importantes desta conversa em que o autor de “Silogismos da Amargura”, “Breviário da Decomposição” e “História e Utopia”, entre outros, fala da morte, do tédio, de sua juventude, do escritor Samuel Beckett e do início de sua ligação com a filosofia. Cioran foi um dos autores mais corrosivos e polêmicos do século XX, colocando em xeque as pretensões racionalistas e tecnicistas da civilização ocidental, assim como os dogmatismos religiosos. Seus livros são escritos com fúria e beleza, muitas vezes resvalando pela linguagem poética, através de aforismos.  Cioran nasceu em Rasinari, Romênia, em 1911, mas desde jovem radicou-se em Paris. Considerado um filósofo niilista radical, enfrentou com insistência, em seus textos, os temas do desespero, da solidão e do vazio que ronda o homem contemporâneo. Normalmente é colocado ao lado de pensadores como Pascal, Kierkegaard e Nietzsche.

Qual o significado de sua vida na Romênia, de sua infância?

A Romênia foi um paraíso terrestre, isolado de tudo e cercado de escravos. Só ia para casa para comer e dormir, senão passava o tempo todo fora, ao ar livre, muito simples. A metade do povoado vivia nas montanhas, nos Cárpados. Eu tinha amizade com os pastores e gostava muito deles. Era um outro mundo, além da civilização. Talvez porque viviam em um país de ninguém, sempre de bom humor, como se todos os dias fossem dias de festa. O começo da Humanidade não deve ter sido tão ruim, segundo eles.

Quando isso acabou?

Em 1920, aos dez anos de idade, quando tive que abandonar meu povoado e mudar-me para Hermannstadt, para estudar na escola média. Jamais esqueci essa catástrofe, essa tragédia, meu desespero naquele dia. Parecia o meu fim. Na época não havia carros, de modo que um camponês levou meu pai e eu a cavalo. O primitivo, que vivi ali, parecia-me a única vida possível. O que conta é a pré-história, isto é, o tempo anterior à entrada na consciência, na história, a vida inconsciente. A Humanidade deve seguir sendo o que é (risos), porque a História é apenas um equívoco; a consciência, um pecado; e o ser humano, uma aventura sem igual.

Uma reflexão religiosa?

Eu não sou ateu, ainda que não creia em Deus e não reze. Mas há em mim uma dimensão religiosa indefinível, para além de toda fé. O crente se identifica com Deus, o que pode compreender, mas eu mesmo me sinto distante de tudo isso. Eu me movo na linha divisória. A grande idéia do pecado original do ser humano é compartilhada por mim, mas não no modo como se pensa oficialmente sobre o assunto. Tanto a História como também o homem são, queiramos ou não, produtos de uma catástrofe. A idéia do desvio do ser humano é imprescindível para se entender o desenvolvimento da História. Segundo essa idéia, o ser humano é culpado, não no sentido moral, mas por ter se envolvido nessa aventura. Quando abandonei minha aldeia, deixei de ser primitivo. Antes, havia pertencido à Criação, como os animais, com aqueles que tinham uma relação pessoal comigo; agora me encontrava fora, à distância.

Você discorreu sobre os santos, sobre a “Criação fracassada”, e viu-se metido em dificuldades?

Sim. Minha mãe era presidenta da Igreja Ortodoxa em Hermannstadt e meu pai — bom sacerdote, além de sincero, mas de modo algum um homem de profunda religiosidade — queria na verdade ser advogado. Ficou muito triste quando leu o texto Sobre lágrimas e Santos, no final de 1937, pouco antes de minha mudança para Paris. Quando enviei o manuscrito ao meu editor romeno, este me telefonou um mês depois para dizer-me que não poderia imprimi-lo. Ele mesmo não havia lido, mas sim um de seus linotipistas, e disse que devia seu patrimônio à ajuda de Deus e que não poderia publicar um livro assim por nada nesse mundo. De minha parte, em plenos preparativos de viagem à França, perguntei-me desesperado o que fazer. Na ocasião, encontrei-me com um romeno que havia colaborado com a Revolução Russa e tinha conhecido Lênin. Perguntou-me o que acontecia, contei-lhe a história e ele era dono de uma gráfica. Assim, meu livro foi lançado sem um selo editorial, pouco depois de ter-me mudado para Paris. Alguns meses depois, recebi uma carta de minha mãe, na qual falava sobre a desgraça que meu livro havia provocado. Ainda que não fosse em verdade uma religiosa, sentia-se sob fortes pressões e rogou-me que retirasse o livro de circulação. Respondi que era a única obra religiosa escrita nos Bálcãs, porque era uma confrontação balcânica com Deus. Quase todos meus amigos reagiram mal, sobretudo Mircea Eliade, que escreveu uma crítica extraordinariamente dura, enquanto que uma garota que eu conhecia me disse que era o livro mais triste que havia lido. Evidente que se tratava de uma experiência religiosa equivocada. Eu havia mergulhado de tal modo na vida dos santos que, na verdade, deveria ter rezado. Mas para isso me faltavam os dotes necessários, ainda que me sentisse atraído pelos grandes místicos. Porém, a fé religiosa não é nunca resultado da reflexão, mas algo muito complicado. A religiosidade pode ser tola, mas tem raízes muito profundas (risos).

Em sua obra transparece um elogio da vida primitiva.

Nesse povoado romeno em que vivia, tínhamos uma horta ao lado do cemitério e, por essa razão, desde pequeno fiquei muito amigo de um coveiro de cinqüenta anos. Era um homem que agia alegremente quando tinha que cavar uma tumba e jogava futebol com as caveiras. Tenho me perguntado sempre como podia sentir-se tão feliz dia após dia. Eu mesmo não era como Hamlet, não era suficientemente trágico. Mais tarde, nossa estreita amizade sofreu uma mudança e se converteu num problema. Eu me pergunto por que razão temos que experimentar tudo isso na vida. Somente para acabar como um cadáver? Essas impressões ficaram gravadas indelevelmente. Aquele homem — enfrentando a morte diariamente — se comportava como se nunca tivesse visto um morto. Gostava muito dele. Estava sempre sorrindo.

A morte é um tema ao qual você tem sido fiel.

Desde cedo. É uma postura com que se vincula outro tipo de intensidade. Tenho convivido com a morte, desde muito jovem. Ainda que agora tenha mais motivos para pensar nela, não associo com a morte nenhuma idéia compulsiva. Em minha juventude, a idéia que tinha da morte era uma obsessão que se apoderava de mim de manhã até a noite. Como núcleo da realidade, possuía uma presença opressora, muito distante de todas as influências literárias. Tudo girava em torno dela, para além da repugnância e do medo, ainda que de forma patológica. Isto, naturalmente, era também conseqüência de que não dormi bem durante sete anos de minha juventude, de que estava extenuado. Naquele tempo, escrevi No cume do desespero. Essa insônia persistente transformou minha perspectiva do mundo e minha atitude diante dele. O momento pior desta situação aconteceu em Hermannstadt, quando vivia com meus pais. Caminhava sem destino, pela cidade, à noite. Minha mãe chorava de desespero, e eu mesmo, que acabara de completar 21 anos, estava a ponto de me suicidar. Até hoje não sei porque não o fiz. É possível que tenha aplacado a vontade de suicídio por força de escrever. Eu não tinha a menor idéia concreta do que era minha vida.

Você mudou sua idéia da morte?

Não é possível mudar a opinião que se tem sobre a morte. Constitui de per si um problema, o problema da existência. Em comparação com ele, todo o restante se evidencia como carente de importância. Curiosamente, há muitas pessoas que não conhecem o sentimento da morte, não querem ou não podem pensar nela. Os que compreendem o que significa a morte são minoria. Aos demais falta valor e mesmo os filósofos evitam o problema.

Mas se filosofa sobre a morte.

Claro que a morte é um tema na história da filosofia (risos), mas não como vivência íntima. Em Baudelaire existe a morte, em Sartre não. Os filósofos têm se esquivado da morte fazendo dela uma questão, ao invés de experimentá-la como algo existente. Não a consideram como algo absoluto, mas entre os poetas é diferente. Eles adentram profundamente o fenômeno, rastreando-o. Um poeta sem sentimento de morte não é um grande poeta. Parece exagerado, mas é assim.

Numa série de ensaios sobre amigos, você escreveu sobre Samuel Beckett. O que o agrada na obra dele?

O fato de não necessitar de heróis, de ter criado um tipo humano incomum e, com ele, ter apresentado outro gênero de humanidade. Sua obra, assim, não está vinculada a um tempo determinado. É a obra singular de um sujeito singular.

Não os aproxima também a fascinação pelo fenômeno do tédio?

A experiência do tédio, não do vulgar, por falta de companhia, mas o absoluto, é muito importante. Quando alguém se sente abandonado pelos amigos, não é nada. O tédio em si advém sem motivo, sem causas externas. Com ele vem a sensação de tempo vazio, algo assim como a vacuidade, coisa que conheço desde sempre. Posso recordar muito bem da primeira vez, quando tinha cinco anos. Vivia, então, na Romênia, com toda minha família. Então, tive de repente a consciência clara do que era o aborrecimento, o tédio. Foi por volta das três da tarde, quando fui tomado pela sensação do nada, da absoluta carência de substância. Foi como se, de súbito, tudo tivesse desaparecido, tudo mergulhasse na nulidade e fosse o começo de minha reflexão filosófica. Esse estado intenso de solidão me afetou de maneira tão profunda que me perguntei o que significava realmente. Não poder defender-se, nem poder se livrar dele com a reflexão, assim como o pressentimento de que voltaria outras vezes, me desconcertou tanto que o aceitei como ponto de orientação. No auge do tédio se experimenta o sentido do Nada, e neste sentido não se trata de uma situação deprimente, já que para uma pessoa não crente representa a possibilidade de experimentar o absoluto, algo como o instante derradeiro.


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:10 PM

500 mil exemplares, 500 erros em cada

publicado em
Edição descuidada não impede “Condenado a Falar” de vender meio milhão, mas autor quer o dobro, com 300 mil só em Goiás, o que seria um recorde inimaginável 




Nilson Gomes
 
 Jorge Kajuru tem diversos títulos e só não usa o de eleitor, mas nem suas previsões mais otimistas diriam que venderia tantos exemplares de Condenado a Falar em tão pouco tempo. Pelos cálculos do autor, foram 350 mil exemplares “em 65 dias, somente no interior paulista” — onde nasceu (em Cajuru, que lhe deu o nome artístico) e mora (em Ribeirão Preto, que chama de “minha aldeia” — ali apresenta um programa diário de 15 minutos no SBT local). Em Goiânia, no sábado, 26, Kajuru comemorou a venda do exemplar número 500 mil. O problema do livro, portanto, não é o mesmo dos goianos: o encalhe. Mas — que paradoxo — o problema do livro é o mesmo dos goianos: a edição descuidada, na qual sobram erros. Entre pequenas falhas gráficas, equívocos em nomes próprios e deslizes ortográficos, são mais de 500, culpa não necessariamente do autor, pois há uma revisora, Walkiria Lobo, responsável pela caça às agressões.
 
Condenado a Falar tem dois subtítulos, De A a Z e Pólvora Pura, além da recomendação “Impossível não ler”. A capa expõe tudo isso, mais dez vezes o nome do autor, que aparece amordaçado, como se estivesse condenado a calar, não a falar. Kajuru ficou sem poder usar sua maior arma, a palavra, em algumas oportunidades, todas narradas na obra: quando as TVs o demitiram ou se demitiu e quando sua rádio, a K do Brasil, era tirada do ar. Como o livro não tem censura e nele fala o que quer, o esparadrapo cruzado na boca é anacrônico. Para chegar ao milhão de exemplares, a meta que se impôs, será melhor corrigir as falhas. Nesta semana, Kajuru começa parceria com o jornal Diário da Manhã e seu objetivo declaro é vender 300 mil livros em Goiás, mil vezes mais que a média de escritores locais.
 
Uma tiragem tão avassaladora já na primeira edição, 350 mil exemplares, mostrava que Kajuru esperava o sucesso. Faltou procurar uma editora, não dessas que roubam o autor e passam a perna nos livreiros, esses que passam a perna nas editoras e nos autores. Uma editora para o óbvio: editar. Kajuru é muito talentoso no vídeo e nos microfones das rádios, mas carece de igual desenvoltura na comunicação impressa. O livro é prova inequívoca disso. O próprio Kajuru assina como editor e diz terem sido 12 as mãos que escreveram, as próprias e dos produtores Nathália Vieira, Ródnei Souza, Rodrigo De Brino, Simone Magalhães, Théo Campos, que seriam alcançados pelos direitos autorais, caso sobrasse alguma coisinha. Não é o caso, como se lê em texto nesta reportagem.
 
POUCA

Pouca novidade e nenhuma pólvora
 
Condenado a Falar tem 264 páginas, não necessariamente de novidades. A rigor, apenas 97 são de Kajuru e menos de 50 têm algo relacionado a ser condenado a falar ou pólvora pura. As demais reproduzem artigos de Kajuru na Folha de S. Paulo, entrevistas em que é o autor (como com Romário) ou personagem (como no Programa do Jô), recortes de jornais e revistas, gráficos e até poemas — sem dúvida, a fraqueza de Kajuru: o grande profissional de rádio e TV não precisava se submeter a isso. Em três poemas, oferecidos às apresentadoras de TV Hebe Camargo (“Ave Hebe”) e Adriane Galisteu (“Eterna Dri”) e às mães do próprio Kajuru e de Galisteu (“Ê mamãe”). Nem Geraldo Coelho Vaz e Kleber Adorno fariam igual.
 
Os momentos altos do livro, destacados pela imprensa do Brasil inteiro, seriam as definições de “celebridades”, na lista “De A a Z”, e as 27 “páginas negras”, assim chamadas por serem impressas em preto, com as letras vazadas em branco, no fim da obra. Não há tanta pólvora assim. As críticas maiores são às redes de TV Record (principalmente a seu dono, Edir Macedo) e Globo e à Confederação Brasileira de Futebol (e seu presidente, Ricardo Teixeira). Mas nenhuma novidade capaz de abalar a estrutura das emissoras ou da CBF, até porque são informações já exibidas pela própria Globo. A irritação de Kajuru é por ter se resumido a um Globo Repórter as denúncias contra a cartolagem, a começar do maior nome do setor, o de Teixeira.
 
Conforme se lê em texto nesta reportagem, o próprio rol “De A a Z” tem mais elogios que críticas, ou mais “opa!” que “epa!”, ou mais pirulito que bala. São 128 comentários favoráveis, 37 contrários e nos demais fica morde e sopra. Até quanto a Teixeira, da CBF, fica com um pé no muro. Critica: “Sempre conheci tudo a seu respeito. Inclusive, o preço”. Em seguida, reconhece méritos no chefão da CBF: “Não misturo. Gerenciando e tomando decisões na Seleção, acertou mais do que errou”. Conclui profetizando: “Na Copa de 2014, só ele (Teixeira) ganhará. Rachará com alguns”. Diz e repete que foi “buscar todas as informações das profundezas do inferno”. E, como as que aparecem no livro são mornas, pelo jeito as quentes continuam queimando na casa do capeta.
 
O drama de querer livro “mais barato do mundo”
 
No início, Jorge Kajuru divulgou que Condenado a Falar seria vendido a 1 real, insuficiente para as despesas mínimas. Os orçamentistas de quatro gráficas consultadas em Goiânia ficaram abismados com a quantidade pedida pelo repórter, mas calcularam em quanto ficariam cada exemplar se fossem encomendados 350 mil, nos mesmos moldes do livro de Kajuru. Os preços variaram de 5 a 7 reais cada. Portanto, impossível vender a qualquer tanto abaixo, a menos que houvesse patrocinador. Não há. Kajuru ocupa a quarta capa com propaganda de três grandes escritórios de advocacia, mas avisa no alto da página: “Publicidade gratuita”. No miolo, nada de anúncio, pagou ou não.
 
Ao participar de Nada Além da Verdade, apresentado por Silvio Santos no SBT, Kajuru disse que sua meta era ganhar 40 mil reais, que salvariam a única herança de sua família, uma casa em Cajuru. O programa, que Kajuru gravou em 17 de dezembro de 2007, tem máquinas americanas que detectariam se o examinado mente; falseou, sai. Kajuru teve de expor as vísceras. Admitiu, por exemplo, três coisas que o machão típico relutaria contar até a si próprio: já brochou (“Passei mais de ano que não levantava, porque diabético é assim”), teve experiência homossexual (“Mas não gostei”) e seu pênis é pequeno — “defeito” que consta também do livro, onde também diz precisar de “mais 10 cm”. Mas não mentiu e levou mais que o dobro do que almejava, 100 mil reais, o prêmio máximo. Para subsidiar apenas a primeira edição, precisaria vencer 13 vezes seguidas o Nada Além da Verdade. Supõe-se que quem, há quatro meses, não tinha 40 mil reais para salvar o patrimônio, não tem 1 milhão e 400 mil para gastar com livros para o populacho. Os 100 mil ganhos no Nada Além... foram usados, segundo Kajuru, para pagar “todas” as suas dívidas.
 
Sem dinheiro para subsidiar, o jeito foi se render a algo próximo. Então, Kajuru não está tendo lucro, mas também não está perdendo milhão de reais, até porque não tem. Quem o conhece sabe que, se tivesse dinheiro ou bens, ele torraria até o último centavo num projeto como o do livro. Em Condenado a Falar, ele diz que gostaria de ser rico para bancar duas publicações, a revista Caros Amigos e o jornal Lance!, ambos de grupos milionários. Trabalhei com Kajuru e vi seu desprendimento com dinheiro, que distribui sem medida a empregados, pedintes, mulheres, projetos furados.
 
O algo próximo ao preço idealizado de 1 real foi cinco vezes mais. Na capa, Kajuru separa o público comprador: o da “Faixa salarial baixa” e o da “Faixa salarial média/alta”. O primeiro compraria o livro a 2 reais (“Pelas mãos do Kajuru”), 3 (“nos pontos de venda anunciados na TV pelo Kajuru”) ou “no máximo a 5, dependendo da distância da cidade” de quem adquire. Ao segundo, oferece por 20 reais “o Kit Completo”, composto de Condenado a Falar, um DVD com imagens do trabalho de Kajuru, um “CD surpresa”, o livro Dossiê K, que provocou polêmica em Goiás em 2002. O leitor passa pela capa e na próxima página vê outras três opções de preço: 4 reais (cidades a mais de 200 km de Ribeirão Preto, onde mora o autor), 5 reais (mais de 500 km) e “nunca acima de 6 reais”. Com isso, planeja vender 1 milhão de livros em um ano, sendo 200 mil autografados: “Serei vendedor de meu próprio livro (...) levando até você o livro mais barato do mundo”.
 
Em Goiânia, no sábado, 26, o livro foi vendido a 5 reais e quem se dispôs a enfrentar fila imensa recebeu autógrafo, tirou foto e conversou com Kajuru, que dá atenção a todos. Descontadas as despesas com passagens, hospedagem e alimentação do autor, mais o pessoal envolvido com a produção e as empresas de distribuição e venda, a conta ainda fecha. Kajuru continua tendo um prejuízo imenso. Ele já teve patrimônio razoável. Sua emissora, a Rádio K do Brasil, valia 8 milhões de reais. No capítulo “Um cala-boca milionário”, Kajuru conta que, em abril de 2000, recusou 3 milhões de reais por 49 por cento das ações da rádio, que seriam pagos por três empresários. Conta o nome de um deles, Rivas Resende, então diretor da Arisco e hoje dono da empresa Quick Logística. Em 2001, recusou quantia semelhante. Na página 55 e 63, reproduz partes dos contratos. Com semelhante quantia, bancaria mais livros a “preço acessível a qualquer cidadão”.
 
A realidade é outra. O patrimônio de Kajuru virou munha. Perdeu a rádio, que se à época valia 8 milhões, acabou dela saindo em 2003, sem um tostão e ainda dando graças a amigos por se livrar das dívidas. Atribui seu infortúnio a perseguição do então governador Marconi Perillo, um dos três personagens mais criticados do livro. Então, quem está bancando o déficit do livro? Seria possível que algum inimigo do trio ajudasse a subsidiar 1 milhão de exemplares de um livro que o detonasse? Seria. Se o autor fosse outro. Kajuru não se submeteria a isso. Quem já perdeu tanto (patrimônio, amigos, empregos, dinheiro) em nome da coerência, não se venderia.

O mapa dos erros
 
Há cinco erros na página 1 (numeração que não inclui a capa), inclusive um agudo no nome do pai de Kajuru: está “Zézinho”. Um de pontuação na 3 (sobra vírgula em “Assim como, o conteúdo”). Dois na 5 (pontuação e falta um “l” em julgará). O prefácio do ex-jogador Sócrates tem, no mínimo, onze erros: faltam cinco vírgulas (só as imprescindíveis) e hífen em “sem-número”; é impossível “gravar” sem pilha durante duas horas e não perceber; Kajuru não derrubou o então governador Maguito Vilela nem deixou irado o atual governador de Goiás, Alcides Rodrigues; confunde “nestes” com “nesses”; maiúscula desnecessária na assinatura: “Dr. Sócrates Brasileiro, Ex-craque”. No texto chamado “Por Rosana Zaidan” passaram sete erros fora esse de ter como título o nome da autora — ressalte-se a qualidade do texto, que tem boas frases, como: “Até hoje, Kajuru amarga crueldades, mas consegue transformar restos em iguarias”. Portanto, 26 erros até agora.
 
O texto “Por Alfredo Orlando” tem um erro interessante: conta que Kajuru, ao chegar à capital paulista, em 1978, era “um menino de calças curtas”. Kajuru já contava 18 anos e um sujeito maior de idade não usa calça curta nem em filme do Mazaropi. Como de Jeca Tatu Jorge Kajuru só tem a rima, subentende-se que houve uma licença poética, termo em nome do qual se comete bastante besteira. O material escrito por Emanuel Carneiro tem dois erros: está sem título, abaixo da reprodução de um anúncio; sobra vírgula na assinatura. Na página 15, há dois erros, um de vírgula, outro em Goiás, que está com agudo no “i”. Na 16, sete erros, inclusive no título: “Palavaras”, com um “a” a mais. Um oitavo erro é que o título é sobre nada, numa falha de edição. E assim por diante, há erros médios e pequenos em toda página escrita por Kajuru.
 
Alguns textos são repetidos em mais de uma página. O que ocupa a página 5 inteira está também na 179 e de novo toma toda a 211, inclusive com os mesmos erros. O da 27 é o mesmo da 229. Kajuru diz várias vezes, na capa e em muitos outros lugares, que seu livro Dossiê K foi “preso”. Não. Foi censurado, foi perseguido. No rigor do palavreado jurídico, que é o adequado ao caso, o livro não foi preso, mas apreendido. Como os textos de Kajuru são fiéis à linguagem oral, que utiliza no rádio e na TV, não se pode chamar de erros os diversos entraves provocados com o idioma e com regras de redação. Em vez de somados no quadro das falhas, devem ser creditados ao estilo vencedor de Kajuru. Portanto, não entraram na conta dos 500 erros.
 
Quase todos os erros de Kajuru poderiam ter sido evitados com uma leitura mais ou menos atenta. Centenas de descuidos com a pontuação, por exemplo, podem ser eliminados em poucos minutos, quando for preparada a próxima tiragem. Levará 1 segundo para colocar a vírgula que falta à página 28: “Meu 1º livro, agora pode ser lido na íntegra”. Basta o logotipo da Nike depois de “agora”. Não é apenas um sinal gráfico, é um símbolo que compromete o entendimento da frase. Uma vírgula intrometida aqui, a falta dela acolá, ponto usado nitidamente como recurso para evitar erro maior não são sinais de analfabetismo, mas de relaxo. É impossível um conjunto de doze mãos (e, claro, meia dúzia de cérebros) não esfregar ao menos uma unha para tirar a vírgula do mais clássico erro de pontuação, a separação entre sujeito e verbo em “Juca, foi o 1º a defendê-lo”. O escorregão toma proporções maiores porque está no alto de uma página ímpar, como chamada da reprodução de um artigo de Juca Kfouri, jornalista conceituado que deu vida a duas revistas, Placar (inventada por ele) e Playboy (recauchutada por ele).
 
Outro erro comum é a falta de preposições, conjunções e demais elementos de ligação, além de um apagão nas classes gramaticais por atacado. Às vezes, na dúvida, substitui por ponto. Outras, simplesmente pula. Coisa simples de resolver, mas que compromete: um comunicador famoso e admirado como Kajuru fica associado a gargalos no uso de uma ferramenta vital em sua profissão, o idioma. Kajuru sabe usar bem a língua (e aqui a referência é unicamente à portuguesa), mas quem digitou para ele ou corrigiu teve “brancos” terríveis. Repito, tudo fácil de resolver. O que custa, na página 32, digitar um “d” e um “e” antes de “ombudsman” em “... fazendo o papel ombudsman de verdade”? Mas, enquanto alguém não digita, está lá o erro. Encontrei 41 lapsos parecidos.
 
O uso de maiúsculas é uma fonte absurda de tropeços. Dependendo da regra que se adota, pois não há critério no livro, são mais de 200 erros. Considerei menos de 40, por não somar como erros algo como o “S”, o “T” e o “V” em “Relatório Sintético por Tipo de Veículo”. Mas somei o “G” maiúsculo em “... mídia oficial do Governo, desde 1994” porque há a mesma palavra, com o mesmo sentido, com minúscula. Não uniformiza nomes próprios (polícia civil na página 66 e Polícia Civil na página seguinte), cargos (Secretário, Porta-voz, Governador...) nem horários, que grafa de três maneiras diferentes: “nove e meia da manhã” (página 38), “20 horas e 30 minutos” (página 39), “por volta das 10h30 da noite” (página 66). Aí não há erro, apenas falta de critério. Mas os erros se sucedem. Um carimbo de “gravado” acrescenta cinco, pois não tem o agudo em “Áudio”.
 
O desmazelo na checagem de nomes próprios potencializa o volume de erros. O atual prefeito de Goiânia, Iris Rezende, aparece nas páginas 32, 36, 37, 38, 39 e 106 com o nome acentuado. É um erro minúsculo, menor que o agudo desnecessário, mas é um erro, que acaba multiplicado por 12, o número de vezes em que o nome Iris (o político, não a parte anatômica) aparece incorreto. O pequeno trecho “... pesquisa do Ibope, comandada em Goiás, pela afiliada da Rede Globo, Organização Jaime Câmara, que dava a Íris...” (página 36) tem três erros e é vitrine dos parágrafos anteriores: erra na pontuação (vírgula após Goiás), erra na informação (a afiliada da Globo a que se refere é a TV Anhangüera; OJC é o conglomerado que inclui outras afiliadas da Globo, gráficas, jornais, rádios...), erra no nome de Iris. E vai juntando erros aos 500.
 
A precisão nas datas também influencia. Dá a vitória de Marconi Perillo para governador de Goiás em 1998 no dia 6 de outubro. Foi em dois dias antes no primeiro turno e três semanas depois no segundo. Fora dados do gênero, a revisora Walkiria Lobo poderia ter aconselhado Kajuru a obediência aos pronomes. Assim, talvez se inspirasse e desse linearidade à personificação. Num mesmo fim de página, a 103, o autor mistura tudo. Refere-se a si mesmo como “disse ao Kajuru” e, duas linhas depois, volta a ser o narrador, mandando recado: “Caro amigo, te adoro baixinho (...) Você já sabia (...) Vai te catar, Romário!”. O velho problema da pontuação (“te adoro, baixinho) e do pronome (“Você” e “te”). Lobo não notou a falta de espaço entre palavras, de unidade gráfica nas páginas, de critério no tamanho das fontes. Foi omissa também ao corrigir a digitação, principalmente a degravação de entrevistas e nomes como “impeachment” (página 151). Sobram erros nas aspas (há entre aspas e outras vezes assinados textos do próprio autor, como se fosse alguém estranho), que seriam banidos se a revisora fosse caprichosa. Se tivesse editor, certamente diria a Kajuru para... Bom, no mínimo haveria edição, que Kajuru não fez pelo simples motivo de que não é a sua área, ele a assumiu por outro motivo simples: baratear o livro. Se tivesse editor, o melhor texto do livro, o que ocupa as páginas 223 e 224, não estaria sem título, com tanto erro e numa letrinha impossível de ler sem óculos.
 
A lista “De A a Z” tem 316 pequenas falhas, principalmente de maiúsculas indevidas, nomes errados, pontuação incorreta. Há erros também em textos de outros autores, como no do jornalista Luiz Carlos Bordoni: “... prova cabal do Brasil provincial que vivemos”. Sem o “em” entre “provincial” e “que”, disse que vivemos “o” Brasil e não “no” Brasil. No contexto, está errado. Entre falhas que só um chato como o resenhista nota e problemas relevantes, o leitor anotou quantos erros? Pode recontar: são mais de 500. Em seu favor, diga-se que são mil vezes menos que o de exemplares vendidos.
 
Marketing pessoal vende um bom “produto”  
 
Jorge Kajuru é craque no marketing pessoal. Nos lugares em que atua, seja um programa de TV ou a administração de uma rádio, cria-se o “Mundo K”, que gira ao redor de Kajuru. Como ele não tem privacidade, conta tudo a seu público, também revela inconfidências, dá furo com segredos. Seus telespectadores sofrem e riem com ele. Sabem sobre o casamento desfeito (culpa por isso, e por uma teia de vicissitudes, o senador Marconi Perillo quando governador), sobre a veneração à mãe, Maria José. Seus ouvintes o compreendem em tudo, não o questionam, apenas o seguem. Nos tempos em que a Rádio K do Brasil era suspensa, muitos ficavam com o rádio sintonizado no 730, ligado, gastando energia, à espera da volta do som. Por isso, mesmo for do ar, o prefixo de Kajuru liderava a audiência, porque quando o pesquisador do Serpes perguntava “em que emissora seu rádio está ligado”, a resposta era a K do Brasil.
 
O sucesso, claro, não reside apenas na autopropaganda. Kajuru tem conteúdo, por isso sua fama resiste à embalagem: “gordo, feio”, conforme se apresenta nos programas de TV, agora também quase cego, mas sempre querido pelo público do veículo mais exigente quanto a visual, a TV. Apesar de a TV ter lhe dado a notoriedade que o faz lotar shoppings em tardes de autógrafos num Estado em que quase ninguém lê livros, sua multiplicidade de talentos aparece mais no rádio. Entre seus feitos em Goiás está a ressurreição do AM, que sequer existia em grande parte dos aparelhos. Com a K do Brasil, as lojas passaram a vender rádios com AM, produto antes a caminho do lixão.
 
Marketing pessoal só funciona com essa equação. Kajuru vende um produto que o consumidor encontra no vasilhame. Então, o fato de Condenado a Falar tem 801 vezes o nome do autor, sendo nove apenas na primeira capa, não é o que faz vender 500 mil exemplares. Para encontrar 801 vezes o nome do autor em um livro, só se for numa autobiografia de mil páginas. Condenado... tem menos de 10 por cento disso em textos do autor e ainda assim parece normal haver seu nome 801 vezes, porque quem o conhece do rádio e da TV se familiarizou com o singular majestático, com o falar de si como se fosse outra pessoa, com a grandiloqüência, os exageros, os sentimentos expostos, os sofrimentos divididos.
 
A fama de polêmico e as brigas que compra com caciques deram a Kajuru uma aura de nervoso, como se estivesse sempre pronto a explodir. É o contrário. Trata-se de uma pessoa dócil, que se preocupa com quem está por perto. Fui seu comandado no jornalismo da Rádio K e por várias vezes o vi (para usar um verbo que no livro ele emprega à exaustão) se solidarizar com quem sequer conhecia. Com os empregados, era generoso a ponto de se prejudicar. Quando a rádio estava às portas da falência, fruto do enfrentamento com o governo do Estado, Kajuru sofria ao conviver com os pagamentos em atraso. Usando novamente um recurso empregado no livro, o tom confessional, conto um episódio particular. Quando soube que eu ia me casar, no auge da crise da rádio, Kajuru me procurou: “Você não vendeu sua quota e deve estar precisando de dinheiro. Vou lhe dar uma das minhas. Escolhe a que você quiser”. Eu tinha outros dois empregos. Dispensei a ajuda. Mas não me esqueci da oferta.
 
Também peça do marketing de Kajuru é o estímulo à divergência. Também não é só marketing. Sua equipe no jornalismo em Goiânia tinha do direitista assumido (coisa rara) Rosenwal Ferreira ao esquerdista radical Martiniano Cavalcante. Ele havia acompanhado minha campanha em favor de Marconi Perillo para governador e a defesa que eu fazia de suas ações para enterrar o PMDB e, mesmo sendo vítima do governo, me mantinha em seu programa de maior audiência, o K entre nós na Hora da Verdade. Talvez inspirado no chefe, mesmo governista ajudei a derrubar oito integrantes do governo com denúncias documentadas — nunca deixei de apresentar na rádio as provas que conseguia. Vai ser difícil compor outra equipe como aquela, num ambiente como aquele, sob comando de um mestre daquele nível.
 
Kajuru é o divisor de águas no rádio goiano. Antes dele, as equipes esportivas sobreviviam com patrocínio mirrado, a maioria de empresas de cartolas do futebol. Kajuru deu um soco em tudo isso e foi tanto sopro de independência que virou furacão. Multiplicou por muitos o número de ouvintes de rádio, dando sobrevida a um veículo então moribundo. Quando Kajuru voltou para São Paulo, Goiás voltou a ser aquele Estado do a favor, com o rádio ocupado a maior parte do tempo e dos prefixos com programas religiosos, distribuição de acepipes, vitrola para tocar música que nem quem pediu quer ouvir. Deixou muitos discípulos, inclusive este que vos escreve, tão kajurete que redige uma crítica desse tamanho sobre um sujeito que admira tanto. Crítica, nesse caso, 100 por cento merecida, pois o livro está muito aquém do patamar que Kajuru alcançou no rádio e na TV.
 
Excesso de falhas torna lista entediante
 
Na chamada grande imprensa, o que mais repercutiu de Condenado a Falar foi a lista “De A a Z”, mas há tanto erro que vira um tédio conviver com tamanho volume de falhas. Rebatiza mais da metade dos que define. O piloto Ayrton Senna aparece com uma reta, a do “i”, no lugar da encruzilhada do “y”. O dirigente esportivo Afonso Della Mônica surge grafado como na história em quadrinhos, mas não leva coelhadas por ter um chapeuzinho sobre o “o”, inexistente na certidão de nascimento. O canal de esportes da TV paga SporTV muda de gênero e vira feminino. Se os canais da Globo se transformam em travestis, o mesmo não ocorre com o fenômeno Ronaldo. Quando Kajuru editou o livro, em fevereiro passado, o Fenômeno ainda não havia se envolvido com os travestis no Rio nem Casagrande internado com drogas (um furo de Placar, a revista cuja morte Kajuru decreta na lista).
 
Passam de três centenas os erros, de A a Z, de todos os tamanhos, principalmente nos nomes dos envolvidos. Nada que não possa ser revertido na próxima edição, quando já terão sido vendidos 500 mil livros, mas se salvarão os próximos 500 mil. Faltou apenas conferir. Não precisaria, para isso, nem pagar revisor. Uma hora de consulta ao Google bastaria.
 
Condenado a Falar é ocupado por goianos do jornalismo (como Batista Custódio e Luiz Carlos Bordoni), da política (porrete em Marconi Perillo, muro para Iris Rezende, elogios a Ronaldo Caiado, referências a Jorcelino Braga), do empresariado (Rivas Resende, Odilon Valter Santos, Paulo Panarello Neto). A maioria aparece em reproduções de reportagens das revistas Veja (de que Kajuru diz ter sido fonte em matéria contra Marconi) e IstoÉ (que Kajuru chama de IstoFoi). Na lista, diz que Batista Custódio é do Diário da Manhã, mas poderia ser do New York Times, o jornal mais influente do mundo, e que “sabe escrever como mais uns três gênios”, mas não nomina o trio de texto perfeito. Como na maioria das definições, cutuca Batista: “Uma pena vê-lo vendendo mais opiniões do que espaços para poder sobreviver”.
 
Mesmo os goianos com os quais conviveu muito, fazendo até parte da família, são rebatizados. O dono do Goiás Esporte Clube, Hailé Pinheiro, cujo primeiro nome aparece com agudo em quase todo lugar, no livro tem um circunspecto circunflexo. Kajuru define Pinheiro com uma palavra: “Honesto”. Emitido por Kajuru, é um elogio e tanto, pois raramente destina o termo a alguém, muito menos para dirigentes de clubes de futebol. Iris (com agudo) Rezende (com “s”) é definido como “inimigo previsível. Politicamente, um zero. À direita”. Tem muito significado. Ou nenhum.
 
O maior inimigo de Kajuru em Goiás, o senador Marconi Perillo, é assim descrito: “Por algumas vezes eu tive vontade de matá-lo. Passou. Jorge Luís Borges tinha razão, ‘o esquecimento é a única vingança e o único perdão’. Marconis e os Miltons da imprensa: Borges foi ponta esquerda do Bangu!”. Os marconistas vão dizer que falta vírgula depois de “vezes”, o nome do escritor está grafado com um agudo a mais e falta hífen entre ponta e esquerda, além de sobrar “os” antes de Miltons, certamente, uma referência a seu maior inimigo na crônica esportiva, Milton Neves, responsável por 10 por cento dos mais de cem processos abertos contra Kajuru. 
 
NILSON GOMES é jornalista. 

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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:03 PM

A poesia de Rio do Sono

publicado em

A
poesia de Rio de Sono é original e forte. Constitui a primeira manifestação significativa da poesia denominada de modernista em Goiás. Poesia de lirismo e simplicidade, ternura por tudo o que existe, uma captação da essência amarga da vida, da essência alegre da vida
 
José Godoy Garcia

Alaor Barbosa

Rio do Sono
, o primeiro livro de poesia de José Godoy Garcia, foi editado há 31 anos pela Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, da Prefeitura de Goiânia. Apesar de tanto tempo passado, pouca gente o conhece fora de Goiás, e mesmo em Goiás.

Até hoje os livros publicados em Goiás não têm conseguido atravessar as fronteiras de Goiás e jazem escondidos numa espécie de ineditismo às avessas – situação de humildade muito própria dos goianos. Que-dirá em 1948, quando Goiânia ainda era uma capital sem nenhuma expressão e importância e Goiás mal deixava de ser uma terra remota e ignorada. Conta Machado de Assis, em uma das suas crônicas, que na sua época um grupo de escritores pensou em organizar uma expedição para viajar ao sertão a fim de ver se Goiás existia mesmo…

Sempre foi muito pobre e atrasada, a literatura de Goiás. Por causa do atraso econômico e do isolamento geográfico, a produção intelectual dos goianos foi até há pouco tempo muito escassa, chinfrim, imitativa e retardatária. Os movimentos da criação literária e transformação cultural chegaram sempre com muito atraso a Goiás. No tempo da colônia quase nada se produziu. Após a Independência, o que se fez tem pouca importância e significação. Goiás tem sido uma região periférica. O arcadismo de Minas e do Rio, o neoclassicismo da época da mineração, por exemplo, se manifestou em Goiás, porém com um atraso grande no tempo e trazido por um poeta talvez mineiro, talvez carioca, Bartolomeu Antônio Cordovil. O romantismo já morria em São Paulo e no Rio de Janeiro quando Félix de Bulhões o praticou em Goiás; e já morrera fazia muito tempo, quando Joaquim Bonifácio de Siqueira ainda continuava — fiel — a exercê-lo. E o Modernismo da década de 1920 só chegou a Goiás vinte anos depois, com Bernardo Élis, José Godoy Garcia e outros.

A geração de escritores e poetas que em Goiás superou o romantismo e o parnasiano apareceu, de fato, em redor de 1940.

A situação cultural de Goiás, na época do aparecimento do Rio do Sono, apresentava poucos pontos de contato com a dos centros culturais maiores São Paulo e Rio de Janeiro. Goiânia vivia um tempo diferente. Um tempo anterior. Os escritores e poetas que começaram a atuar em Goiânia, depois de 1930 e principalmente entre 1940 e 1950, enfrentaram a tarefa de superar um meio estacionado na atmosfera cultural do fim do século passado — um misto de romantismo e parnasianismo, castroalvismo e bilaquismo.

A poesia de Rio de Sono é original e forte. Constitui a primeira manifestação significativa da poesia denominada de modernista em Goiás. Poesia de lirismo e simplicidade, ternura por tudo o que existe, uma captação da essência amarga da vida, da essência alegre da vida. Aqui e ali, um tom de brincadeira e malícia, próprio dos poetas do 1922 paulista. Eis uma amostra, tirada do poema “Evocação de Maria Elvira”:
 
Um dia Maria Elvira me chamou no quintal de sua casa,
subiu no pé de manga,
apanhou manga
e jogou uma especialmente
para mim.
 
Joga, Maria Elvira ! ( A calcinha dela estava suja.)
      
Mas a poesia de Rio do Sono é séria diante da vida.

O autor inscreveu sob o título uma advertência: “Este livro foi escrito numa época em que não havia liberdade”. Refere-se à época da ditadura de Getúlio Vargas. Vem depois uma dedicatória: “Este livro é para MÁRIO DE ANDRADE, que morreu, mas há de ficar para sempre como lembrança de um homem; dedicado também aos outros homens, com exceção de Hitler, Mussolini, e Franco.”

A advertência e a dedicatória produzem uma impressão enganosa sobre o livro. Pensa-se que se vai ler um livro de poesia panfletária. Mas não é isso que acontece. Ao contrário. Na maioria dos poemas, Rio do Sono é repassado de lirismo, amor ao próximo, caridade, dó. Poesia toda compreensão e ternura humana, anseio de bondade, deseja de solidariedade. Poesia rica de observações psicológicas verdadeiras, essa espécie de verdades óbvias que a gente é quase tentado a consideração como a essência da poesia.
Aqui uma amostra:
 
A humildade dos homens que tiram retratos,
as mãos caídas,
o rosto firme, a roupa nova.
 
A humildade dos que devem,
A humildade dos que precisam de emprego,
a humildade dos que não esperam mais nada da vida,
acham que tudo é uma bobagem,
tiveram grandes decepções.
 
O poema termina assim:
 
Dentro, bem dentro de nós todos,
a mesma angústia, essa percepção que não se define
ao contacto das mãos, mas resiste ao vento, às chuvas,
aos dissabores e, principalmente,
aos inumeráveis equívocos a que sempre
estamos sujeitos...
 

Olhando a paisagem, o poeta vai definindo-a é um largo de cemitério. O poema se intitula “Paisagem gozada”:
 
O largo do cemitério é triste.
Você se lembra do velho Egídio?
Ele está dormindo nesta hora de sol quente.
No largo do cemitério da vida pára
quando os homens passam:
parece que os mortos, de dia, passeiam ali.
Pôr isso o largo é triste.
Ele é enorme e sofre do destino amargo de largo de cemitério.
 

O poeta e a noite. Vista e sentida, a noite provoca idéias, suscita sentimentos, relaciona-se como poeta:
 
A noite é uma mulher.
A noite quieta tem uivos
de cachorra doente.
A noite é como o silêncio
de um animal sofrendo.
A noite é pura como as mulheres
que andam à cata de homens.
A noite é a mesma criança sem rumo
como as que pedem esmolas instruídas pelos pais.
A noite é uma mulher
morta em desastre quando levava comida
para o marido operário...
A noite é um brinquedo de criança no lixo.
 

O poeta de Rio do Sono lembra aquela auto-definição de Carlos Drummond de Andrade:
 
Poeta do finito e da matéria
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas.
 

As lágrimas de Godoy Garcia não são fáceis, embora a piedade esteja no fundo da sua dureza. O poeta se afirma humano:
 
Gosto de todos.
Mesmo aos que consideramos inimigos;
para esses tenho as minhas reservas
nunca, porém, o meu ódio.
Sou daqui,
deste mundo.
 

Poeta do humano, “daqui, deste mundo”. Daí falar de preferência de crianças, bêbados, prostitutas, párias, arruinados, heróis anônimos, gente humilde. Sempre sem retórica e sem ênfase. Com versos diretos e curtos. Imagens substantivas e nuas.

No poema “Mulher do Povo”, a mulher é Rosa, o que lembra Drummond:
 
Rosa tinha um rosto
de menina.
Rosa tinha os seios
de moça
Rosa tinha os olhos
de uma prostituta.
Rosa tinha formas
de um irmão.
 
E no fim:
 
Rosa é pura e não sabe negar
quando
homens no beco se atiram contra ela
fedendo a suor
ou mesmo quando chove muito
que o barro toma conta do corpo
e eles fedem a roupa molhada, com mistura de barro
e suor.
Ela é pura como todas as puras
e em verdade ela é mulher boa e pura
como as que se entregam aos viciados em troca do
bem-estar deles
ou mesmo para servir a um amigo em horas penosas de
sua vida.
Rosa, a mulher do povo...
 

Em “A Rua dos Homens” o poeta afirma que a matéria do seu canto à a vida da rua:
 
Eu sou o poeta
desta pobre vida que está aqui na rua.
Eu sou o poeta sem muito recurso
mas faço versos assim mesmo:
alma da multidão que está na rua.
 
Explica a rua e repete:
 
Eu sou o poeta pequeno destas ruas
e me orgulho disso; poeta deste mundo
que não aprendeu direito nem aprenderá
jamais as regras de trânsito.
Poeta destas velhas e pobres ruas,
que às vezes sobem tortas
e às vezes descem retas, profundas na noite.
 

Poema duro quanto à significação e perfeito na estrutura e ritmo é “Os párias”:
 
Caiu um olho.
O homem ficou sem ele.
Caiu um dente.
O homem ficou sem ele.
Caiu a filha.
O homem passou vergonha.
Caiu a vergonha.
Vai pedir dinheiro emprestado no bordel.
 

“Os párias” é famoso em Goiás. Porém, mais famoso é o poema “Espécie de balada da moça de Goiatuba”, que está para a literatura de Goiás como o poema da pedra no caminho, de Drummond, está para a literatura brasileira. É um poema popularizado. O seu ritmo e simplicidade, malícia e amoralidade já se incorporaram ao patrimônio poético dos goianos. Tal como o nome de Drummond lembra “pedra no caminho”, José de Alencar a “virgem dos lábios de mel”, Monteiro Lobato, Jeca Tatu — assim o poema da moça de Goiatuba se liga a Godoy Garcia como algo de característico.
 
Em Goiatuba
tem uma moça
que o coração
grande ela tem
Em Goiatuba
tem uma moça
que coração
grande ela tem.
A moça de lá
é só chamar vem.
 

Assim começa o poema; e com variação pequena, termina assim. É o poema clássico e típico não só da poesia de Godoy, mas da poesia moderna de Goiás. Afonso Félix de Souza e Jesus Jayme fizeram paródias desse poema, o que lhe demonstra a enorme força expressional.

Também caracteristicamente godoiano e já famoso é o poema “Tudo tem seu tempo”, captação extra e expressão perfeita das características da cidade pequena brasileira:
 
Tudo tem seu tempo na pequena cidade.
Tempo de casamento.
É uma fartura
de casamento.
As mocinhas novas enjeitam
as velhas se entregam.
 

Embora original, a poesia de Rio do Sono lembra a de alguns outros poetas contemporâneos. Pôr isso se pode afirmar que é uma poesia de seu tempo. Poesia que reflete um tipo de sensibilidade e interesse peculiar à época em que foi elaborada. O lirismo simples tem uma ressonância de Manuel Bandeira. Um certo sentimento amargo do mundo sugere Drummond. A dose de malícia e, como dizer?, ironia também evoca Drummond e Bandeira. E como não pensar em Drummond, o do “Canto ao homem do povo Charlie Chaplin”, quando se lê o “Canto ao poeta irmão de Harlem”?
 
Li, Langston Hughes,
eu li o teu poema “O negro fala dos rios”
E perante todos, neste instante de lutas, (não quero o silêncio, que é forma de luta de covardes),
eu quero falar de negros,
muito me comove falar dos negros.
 

O poeta Godoy Garcia abre a camisa ao peito e se diz filho remoto de Espanha. E canta:
 
A tua cantiga é de paz, Langston Hughes,
é canto de guerra.
 

Hughes está longe — nos Estados Unidos – e a mensagem a ele terá de percorrer uma distância enorme:
 
                                            Eu te quero afirmar que esta mensagem por sim mesma
é a mais simples acenação que um homem pobre colocado no sertão
do Brasil te pode fazer.
 
O poeta clama pela união dos homens — união e eficiência na luta:
 
                                 É preciso que suportemos os fantasmas porque senão
jamais eles serão destruídos,
de nada vale a batalha individual dos matadores de baratas,
será preciso uma desinfecção geral, poeta.
 
No poema “Menino Sozinho”, o quadro é de pintura e fábula:
 
Não há mão: há um toco de mão
Vem do campo onde ele mora montado em seu cavalo,
Vem no trote mole, desenhado curvas através das moradas, pedindo a sua esmola.
De longe, quando avista os meninos brincando no largo,
ele já apressa a marcha, depois fica ali parado,
esquecido, olhando os meninos.
 

O menino faz um intervalo curto e prudente na faina de mendigar, e se vai.
 
Quando volta, de longe ainda volve os olhos e observa
a garotada que vai pela noite a dentro,
despreocupada, como multidão de pássaros
no céu limpo e azul.
 

O poeta atravessa uma época difícil, dura: o mundo sofre, o mundo geme: uma guerra assola e calcina o mundo, desfigura a terra, a boa terra dos homens — a guerra destrói as cidade e as plantações dos homens. A época é de crueldade lá fora, lá longe: os nazista dominaram a Alemanha e cresceram para cima do resto da Europa, cresceram para a Violência organizada cientificamente. O poeta mora afastado do teatro da violência: está em Goiás, e somente sabe da Violência organizada cientificamente. O poeta mora afastado do teatro da violência: está em Goiás, somente sabe da Violência porque os jornais contam, o rádio noticia, as informações circular e chegam até este interior longínquo do Brasil. O poeta é contra a Violência. Quando a França caiu, o poeta gravou o momento amargo:
 
Eu escrevo o meu verso no escuro.
Ele traz o mesmo som do escuro.
Ele conserva minha alma.
Sei que a mão traça no rude papel as palavras mais rudes
trágicas palavras sem pontuação
nos caminhos certos.
Há uma chaga negra que desce,
entra pela pauta:
são as palavras que se consomem
ante a treva do papel.
Sei que este é o meu verso mais puro
Como a troca de olhar no momento exato da morte,
meu verso fixou este momento, esta insônia, estse pensamentos e estas quatro horas da manhã, silenciosas e trágicas.
 
O poema “Verdade” tem um tom de fábula imemorial e perene:
 
A criança foi buscar o mar
e trouxe o mar, brincando.
 

O mar foi então arrumado nas covas já preparadas; a lua foi trazida; houve conseqüências:
 
O mar estava fazendo as pazes com as novas terras
e olhava para as crianças com muita gratidão porque
até o próprio mar não acreditava
e agora ele dava graças por estar gozando da nova vida.
 
O lirismo de Godoy Garcia tem muita força:
 
Quando uma moça dorme
é ver coelinho dormindo
a gente pensa muita coisa
e ri dos pensamentos...
 
Outra amostra:
 
Quando as noites mais claras
são misericórdia para os que amam,
quando nós nos conhecemos intimamente,
quando são límpidas as noites, irmã,
a vida se torna generosa como o nascer
de broto na hora estranha da madrugada.
Quando as noites são tristes e velhas,
a resignação e a dignidade de todos
repousam no silêncio selvagem
das almas desesperadas.
Oh, irmã, nós dois caminharemos tristes, nós dois seremos como cegos unidos,
sem esquecer que tão logo seja possível
lutarmos pela vida, pelos homens, irmã.
 

A poesia de Rio do Sono é íntima das coisas perenes — o ar, a madrugada, a manhã, a noite, a mocidade, a velhice, o amor, a morte, a água, o mar, os rios, a coragem, a dignidade, a luta, a bondade, o tempo... É uma poesia do brilho de orvalho da verdade mais corriqueira e simples. Poesia de poucas imagens e metáforas, ordena-se como uma seqüência — em ritmo quase de prosa — de verdades coordenadas com energia e concisão: beleza concentrada. O verso mais simples é um achado revelador, uma informação inaugural, que surpreende e entusiasma. É a voz de um poeta sentidor do mundo, espiador do mundo, compreensivo e amoroso a todas as coisas. Poesia de sentimento sertanejo, sim, mas de expressão universal. Uma voz de Goiás no mundo.

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