Arrependimento não mata
Estas coisas costumam acontecer com quem de vez em quando desentoca e sai pelo mundo cumprindo seu destino. Por diversos motivos, tenho saído da toca ultimamente, estando, portanto, sujeito a chuvas e trovoadas.
Numa dessas saídas (isso aconteceu em setembro deste ano tenebroso de 2008) descobri que arrependimento, desmentindo a língua de muitas comadres que andam por aí, não mata.
Uma repartição pública estadual precisou de meus serviços em uma cidade do interior de São Paulo e resolveu encarregar-se do meu transporte. Na hora marcada, sem atraso de um só minuto, o motorista anunciou-se pela campainha e cinco minutos depois já estávamos na estrada. Foram os cinco minutos em que um olha disfarçadamente a cara do outro para avaliar seu caráter e descobrir sua índole.
Meia hora de viagem e já éramos amigos de infância. É meu jeito, porque acredito no mal só como um bem que falhou (e tem falhado muito ultimamente). Por isso tenho a tendência a considerar, em princípio, a humanidade toda formada por amigos potenciais.
Algumas horas mais tarde, e para não faltar com a verdade, já tarde da noite, chegamos a nosso destino. Tínhamos o endereço do hotel onde havia uma reserva em meu nome. O preenchimento da ficha (o check in, pois vai-se tornando muito reles falar na língua de Camões) pouco demorou. Enquanto me ocupava da identificação, percebi o motorista ao telefone. Ele estava suando e com um ar desolado.
Não havia mais vagas na cidade. Um evento, que nem me lembro de que tipo, havia lotado a cidade de forasteiros. Perguntei-lhe se a empresa para a qual trabalha não havia providenciado uma reserva e fui informado de que ele mesmo deveria tê-lo feito, mas havia esquecido.
O motorista estava com uma cara muito próxima do mais sentido choro. Então, segurando as lágrimas, disse-me que teria de dormir dentro do automóvel. E isso me comoveu. Enfim, ajudou o bell-boy (Perceberam por que tenho dito que sofremos uma invasão consentida?) a subir com as malas até meu quarto. Quando vi pela porta aberta, as duas camas de solteiro com suas colchas lisas e as belas dobras que as camareiras fazem como ninguém sabe fazer, hesitei. Meu amigo de infância esperava dormir dentro do carro, com as pernas encolhidas, o pescoço torto, o barulho do entorno. Ele me olhou e senti que seu olhar era de esperança.
Não precisei oferecer uma segunda vez. Ele só me perguntou qual das duas eu preferia e jogou-se com o total de seu peso sobre a outra. Tudo bem, avisei, mas não estranhe se me vir trabalhando até tarde, que este é um hábito antigo.
Casualmente a viagem me havia exaurido de boas idéias e resolvi dormir cedo. Resolvi, porque não dormi. Cansado como deveria estar, o motorista dormiu em menos de três minutos. Não se haviam passado dez quando fui acordado por seu ronco. Levantei-me, fiz barulho arrastando os chinelos no piso, tossi, pigarreei, por fim, puxei um de seus pés. Ele serenou.
Deitei novamente e já estava assistindo à abertura das portas celestiais quando um trovão, vindo da cama ao lado, me fez pular na minha. Arrastei os chinelos, tomei água, abri a torneira do banheiro, pigarreei, tossi, assoviei uma valsinha das poucas que conheço até arrancar-lhe de cima a colcha com que se cobrira.
Passei a noite sem dormir ou dormindo muito mal e em fatias.
De manhã, ele se levantou faceiro, lampeiro e pensou que estivesse me acordando ao pronunciar meu nome. Eu estava apenas com os olhos fechados, vivendo de tanto arrependimento.
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