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POR EM 03/11/2008 ÀS 11:42 PM

Arrependimento não mata

publicado em

Estas coisas costumam acontecer com quem de vez em quando desentoca e sai pelo mundo cumprindo seu destino. Por diversos motivos, tenho saído da toca ultimamente, estando, portanto, sujeito a chuvas e trovoadas.

Numa dessas saídas (isso aconteceu em setembro deste ano tenebroso de 2008) descobri que arrependimento, desmentindo a língua de muitas comadres que andam por aí, não mata.

Uma repartição pública estadual precisou de meus serviços em uma cidade do interior de São Paulo e resolveu encarregar-se do meu transporte. Na hora marcada, sem atraso de um só minuto, o motorista anunciou-se pela campainha e cinco minutos depois já estávamos na estrada. Foram os cinco minutos em que um olha disfarçadamente a cara do outro para avaliar seu caráter e descobrir sua índole.

Meia hora de viagem e já éramos amigos de infância. É meu jeito, porque acredito no mal só como um bem que falhou (e tem falhado muito ultimamente). Por isso tenho a tendência a considerar, em princípio, a humanidade toda formada por amigos potenciais.

Algumas horas mais tarde, e para não faltar com a verdade, já tarde da noite, chegamos a nosso destino. Tínhamos o endereço do hotel onde havia uma reserva em meu nome. O preenchimento da ficha (o check in, pois vai-se tornando muito reles falar na língua de Camões) pouco demorou. Enquanto me ocupava da identificação, percebi o motorista ao telefone. Ele estava suando e com um ar desolado.

Não havia mais vagas na cidade. Um evento, que nem me lembro de que tipo, havia lotado a cidade de forasteiros. Perguntei-lhe se a empresa para a qual trabalha não havia providenciado uma reserva e fui informado de que ele mesmo deveria tê-lo feito, mas havia esquecido.

O motorista estava com uma cara muito próxima do mais sentido choro. Então, segurando as lágrimas, disse-me que teria de dormir dentro do automóvel. E isso me comoveu. Enfim, ajudou o bell-boy (Perceberam  por que tenho dito que sofremos uma invasão consentida?) a subir com as malas até meu quarto. Quando vi pela porta aberta, as duas camas de solteiro com suas colchas lisas e as belas dobras que as camareiras fazem como ninguém sabe fazer, hesitei. Meu amigo de infância esperava dormir dentro do carro, com as pernas encolhidas, o pescoço torto, o barulho do entorno. Ele me olhou e senti que seu olhar era de esperança.

Não precisei oferecer uma segunda vez. Ele só me perguntou qual das duas eu preferia e jogou-se com o total de seu peso sobre a outra. Tudo bem, avisei, mas não estranhe se me vir trabalhando até tarde, que este é um hábito antigo.

Casualmente a viagem me havia exaurido de boas idéias e resolvi dormir cedo. Resolvi, porque não dormi. Cansado como deveria estar, o motorista dormiu em menos de três minutos. Não se haviam passado dez quando fui acordado por seu ronco. Levantei-me, fiz barulho arrastando os chinelos no piso, tossi, pigarreei, por fim, puxei um de seus pés. Ele serenou.

Deitei novamente e já estava assistindo à abertura das portas celestiais quando um trovão, vindo da cama ao lado, me fez pular na minha. Arrastei os chinelos, tomei água, abri a torneira do banheiro, pigarreei, tossi, assoviei uma valsinha das poucas que conheço até arrancar-lhe de cima a colcha com que se cobrira.
Passei a noite sem dormir ou dormindo muito mal e em fatias.

De manhã, ele se levantou faceiro, lampeiro e pensou que estivesse me acordando ao pronunciar meu nome. Eu estava apenas com os olhos fechados, vivendo de tanto arrependimento.  


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:39 PM

O neoliberalismo agachado ou algumas idéias de quatro

publicado em


Na França do século XVIII, um comerciante de nome Gournay levantou a bandeira do laissez-faire, que os fisiocratas empunharam imediatamente. Estava inaugurado o liberalismo.

Raras vezes ouvi falar, em minha juventude, neste nome: neoliberalismo. Os economistas, a mídia, as pessoas ligadas ao assunto, se não me engano (e costumo me enganar) começaram a usar a palavra e os conceitos com certa insistência há coisa de uns vinte, vinte e poucos anos para cá. Isso no Brasil.

A defesa do neoliberalismo resultou algumas atitudes até meio furiosas. Às vezes ridículas. O Estado, diziam e dizem os neoliberais, não têm nada que se meter na economia do país. Banqueiros, industriais, fazendeiros e seus asseclas sem poder, mas com vocação para puxar o saco de quem o tenha, organizaram um coro bem afinado para cantar um hino à liberdade total do mercado para resolver seus próprios problemas. As leis do mercado passaram a ser exaltadas, glorificadas. E o hino era de tal maneira belo que acabou encantando a todos. Ou quase todos.

Nos Estados Unidos da América, a segunda pátria do liberalismo (agora renovado), a coisa pegou de maneira brutal. E isso que por lá se apregoa o fim das ideologias. Qualquer interferência do Estado nas atividades econômicas sempre foi, no Tio Sam, taxada de atitude comunista. Os mecanismos do mercado sabem melhor do que nós como resolver os problemas. No verdadeiro capitalismo, o Estado deve ser diminuto, barato, e deve ficar fora das questões de produção, distribuição e consumo.

Bem, parece que as coisas andaram mudando por lá. A crise dos bancos hipotecários, a série de falências sucessivas mandou que os economistas por lá começassem a teorizar de maneira diferente. Os economistas daqui, depois de lerem o que disseram os economistas de lá, acho que também vão assimilar novas teorias.

Houve uma época em que os bancos especularam, esbanjaram, ganharam muito dinheiro. Bem como a agricultura brasileira. Nessas circunstâncias o Estado era um demônio que melhor mesmo seria nem existir. Lá como aqui. Novela vista vezes sem conta. Agora entraram em crise. Ficaram nervosos.

Sim, porque o mercado de vez em quando apresenta-se com uns chiliques de neurastenia que dá vontade de interná-lo na Casa Verde, do Machado.

E de demônio, que era, o Estado passa a anjo salvador. Ora, pra que tanto cinismo? Então isso não é pura e simplesmente a ação da ideologia? O que é bom pra mim, é bom pra sociedade. Em 1700 e nada a Inglaterra, a França e outros países mais já conheciam esse tipo de pensamento.

Lembro-me de um livro que li, do Celso Furtado, de que pouco entendi, mas de onde aprendi algumas lições. Falando dos cafeicultores brasileiros, Celso Furtado diz que eles sempre privatizaram os lucros. Isto é, no tempo das vacas gordas, ninguém mexesse no lucro deles. Era o sagrado direito à propriedade privada e seu uso livre de qualquer ingerência. Mas vinha o tempo das vacas magras, então a gritaria era grande, clamando pelo socorro do Estado. Ou seja, socializavam-se os prejuízos.

Ah, sim, porque uma empresa não pode falir. Se ela tem uma função social, como deixá-la ir à bancarrota?

Se os bancos, as lavouras, as indústrias só se lembram de sua função social quando estão no vermelho, exigindo que todos nós os socorramos, proponho que se estenda essa função social também para os períodos em que estão no azul, socializando igualmente seus lucros.

Não seria mais justo?  
 


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POR EM 27/10/2008 ÀS 01:30 PM

Atordoamento

publicado em


Um dia cansativo, hoje eu tive um dia cansativo. Onde? Um dia extremamente cansativo. Eu sou um corpo enterrado numa poltrona deste ônibus que transporta um corpo enterrado. Onde? Hoje eu tive um dia cansativo. Mal sinto um corpo enterrado numa poltrona sem conforto de um ônibus: este. Depois de um dia cansativo, preciso atravessar a cidade e onde? Meus dias são todos. Meu corpo, que não trago agora comigo por questão de esquecimento, sacoleja no banco sem conforto de um ônibus, depois de um dia cansativo, este.

Um corpo enterrado numa poltrona. Eu sou um corpo enterrado numa poltrona deste ônibus que transporta um corpo enterrado numa poltrona. Onde? Hoje eu tive um dia muito cansativo. E tedioso. Os postes e fios derramando luz sobre as ruas. E os ônibus sacolejantes. Meu corpo. Como chuva de claridade do céu. A luz que escorre dos postes entra pela janela do ônibus cansativo. Preciso atravessar a cidade antes. Dos postes ainda escorre uma luz por cima das ruas. Onde? Ônibus sacolejantes e automóveis.

A cidade que tenho de atravessar antes lateja. O rumor. Só meus olhos e meus ouvidos? Latejante. Mal sinto um corpo enterrado numa poltrona sem conforto de um ônibus, apesar da claridade que chove dos postes, que desce do céu, mas sinto bem perto o cheiro forte do calor que exala das axilas. O cheiro da cidade no fim do expediente. Latejando? Algumas janelas fechadas impedem a entrada do ar e a saída do cheiro forte do calor que exala das axilas da cidade latejante.

Só chego em casa depois de atravessar a cidade. Preciso atravessar a cidade antes. Duas vezes. Na ida, a luz chove dos postes e o ônibus transporta meu corpo ainda quente do sono enterrado num banco sem conforto. Na ida, a cidade boceja com frio porque a aragem desce das montanhas de escuridão e cai sobre a luz que chove dos postes sobre as ruas. Ônibus e carros sacolejantes. Na ida, o frio. Na volta, o cheiro que exala das axilas da cidade no ônibus com várias janelas fechadas. Tem gente que viaja de pé porque precisa atravessar a cidade antes.

Em casa tem banho e jantar. O vapor sobe do prato. Mas preciso atravessar a cidade antes. Meu corpo viaja enterrado num banco sem conforto. Não sei onde fica meu corpo.

Um dia cansativo. Hoje tive um dia extremamente cansativo. O dia desce dos postes sobre a rua por cima de carros e ônibus. O dia. Um dia latejante, de calor e cheiro. O banco, debaixo de meu corpo, sacoleja por causa do ônibus.

A moça, de calça jeans e blusa de malha, quer descer e pede licença. A blusa azul tem manchas escuras na região das axilas. Ela pede licença e avança enfiando a cara e os braços pelas fissuras entre os passageiros. Pede licença e avança. Um pé, depois o outro, os braços e o corpo. A moça puxa sua mochila que também tem de descer e pede licença. Ela atravessou a cidade e precisa chegar em casa. Tem banho e jantar: o vapor sobe do prato. Ela avança devagar, mas não a vejo mais. Apenas seu pedido de licença dá existência à moça, de calça jeans e blusa de malha, que quer descer.

O ônibus parou e a moça deve ter descido para enfrentar a aragem da cidade latejante no fim do expediente, porque de sua voz só ficou um eco pedindo licença. .

Talvez eu não seja mais do que um corpo enterrado num banco sem conforto de um ônibus: este. Onde? Mas um corpo dotado de pensamento, capaz de em si mesmo, para si. Um corpo sendo carregado através da cidade latejante no fim do expediente. O calor e o cheiro. E meus dias todos. Na ida, a claridade chove dos postes sobre as ruas: ônibus e automóveis. E o frio. Na volta, a claridade chove dos postes sobre as ruas: ônibus e automóveis. E o calor. O calor e o cheiro que exala das axilas. Talvez.

O motor ronca. O motor que puxa o ônibus que me carrega ronca sua melodia. Meu corpo enterrado num banco sem conforto mergulha na melodia do motor e fica sonolento. O ronco do motor sacoleja na cidade latejante. É um rumorejo quente, com cheiro, que escurece o interior do ônibus. Onde? O banco debaixo de meu corpo ficou apenas como uma lembrança, um ser imaterial, evanescente. Na subida da ladeira o ônibus canta mais forte, oscilando. Esta ladeira está colocada antes, por isso é hora de pedir licença.

Um dia cansativo, hoje eu tive um dia cansativo.


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POR EM 20/10/2008 ÀS 03:40 PM

Para que serve um ombudsman

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Não conheço a teoria do ombudsman, se é que ela existe. O que conheço, e muito bem, é minha experiência pessoal toda vez que tento me socorrer dessa coisa esdrúxula, que, na minha opinião, só serve para que uma empresa se apresente como sendo moderninha porque pensa, acima de tudo (de tudo, entenderam bem?), no cliente. Só. E para mais nada.

Algumas pessoas têm o péssimo hábito de fazer julgamentos apressados, por isso já estou ouvindo uns resmungos em que sou acusado de radical. Então preciso continuar explicando meu pensamento. E isso com o auxílio de fatos.

Andei tendo problemas (muito sérios, aliás) com a banda larga. Vocês não imaginam como a inteligência dos meus dedos (que entendem muito mais de datilografia do que eu) que depois da letra “b” próxima passada puseram outra vogal. Como sou de família séria e não quero ser sua degeneração, tive de voltar e corrigir o que estava escrito.

Pois bem, depois de passar dez dias ligando para aquelas vozes que sabem o manual de cor, mas mentem tudo que dizem, porque o manual nunca dá as respostas satisfatórias, inventei de me queixar para um ombudsman. Quem disse que consegui? Ele, o ombudsman, é tão fantasma quanto essas vozinhas que servem de pára-choque para a empresa a que servem.

Tenho alguns amigos com mais sorte do que eu. Corrijo: a maioria de meus amigos têm mais sorte do que eu. Sem querer plagiar o Álvaro de Campos (Pessoa), não conheço ninguém que tenha levado porrada. Só eu, que nesta vida apanhei muito mais do que bati. Pois um desses amigos sortudos me contou que um dia conseguiu falar com um ombudsman. E me relatou sua experiência.

O ombudsman, contou-me o amigo, tem uma voz que não é mole não, uma voz daquelas de levar qualquer mulher séria, porém incauta, pra cama. Veludo puro, mas com potência bem equilibrada. Ah, sim, e sabe falar. Tem uma fluência, uma pureza de raciocínios, ele tem um modo especial de te fazer pensar que está vendo aberta a porta do céu. Isso tudo foi opinião do meu amigo.

Quando você desliga o telefone e sente-se nos braços de Cristo, aconchegado a seu peito, toda sua aspereza, brabeza, insatisfação somem milagrosamente.

Só alguns dias depois, com os ouvidos retornando a suas funções diárias, e com seu problema, miseravelmente, sem solução, é que você vai pensar: Caramba, mas então pra que serve um ombudsman?  

Você, que é muito novo, talvez não conheça a expressão “sem cuspe”.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 05:58 PM

Ainda uma vez: maniqueísmo

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O maniqueísmo começa como doutrina religiosa na Pérsia, séc. III da era cristã, e foi fundado por Maniqueu, também conhecido como Mani ou Manes. A doutrina baseava-se na convicção de que o Universo fora formado por princípios antagônicos e irredutíveis. Deus x Diabo, bem x mal, luz x trevas, espírito x matéria etc. De corrente religiosa, que dura mais de oito séculos, o maniqueísmo acaba impregnando a visão de mundo de grande parte da população.

No séc. XIX, sobretudo, o pensamento dominante ocidental era maniqueísta. O mundo está dividido em seus extremos. O herói romântico está do lado da luz, só pratica o bem, despreza a matéria. O antagonista, seu opositor, não tem o menor traço de bondade. Vilão é vilão. Vocês estão lembrados dos faroestes? Mocinho nunca tem um pensamento mau, pois ele é mocinho.

Depois de umas tantas descobertas, começamos a relativizar verdades até então intocáveis, e começou-se a entender o homem moderno, aquele em quem convivem mal e bem, luz e sombras.

Ninguém está livre de cometer um assassinato quando deita e encosta a cabeça no travesseiro. Este ser complexo, que vive todas as mediações entre os extremos, eis o homem moderno.

O maniqueísmo como forma de ver o mundo está hoje ultrapassado, mas sobrevivem seus traços, e muito fortes, em algumas modalidades culturais e principalmente em alguns países.

A Federação dos Cegos dos Estados Unidos move atualmente furiosa campanha contra o filme Ensaio sobre a cegueira, baseado em obra homônima de José Saramago. Dirigem-se ruidosamente para a frente de cinemas onde o filme esteja sendo exibido, tentando evitar a presença do público. Por quê?

Segundo eles, que não viram o filme, os cegos são apresentados como maus, degenerados. E os há.  Aparecem aqueles que procuram tirar proveito da situação. Mas há também os cegos que praticam o bem, que procuram unir-se para resistir aos maus e existe ainda a maioria, que em gradação vai de um extremo ao outro.

Quando se vive em uma sociedade que desconhece coisas tão simples como são as metáforas, a mesma sociedade que divide o mundo entre o bem (lado de cá) e o mal (os outros), que acredita em seus próprios faroestes e super-heróis, que incute o maniqueísmo no pensamento infantil utilizando historinhas para imbecilizar crianças, quando se vive em uma sociedade assim, vive-se exatamente na sociedade metaforizada por José Saramago em seu livro.


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POR EM 29/09/2008 ÀS 02:58 PM

Privado ou privada

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Um dia ainda escrevo uma crônica que comece assim: Um dos mais graves problemas do Brasil é que grande parte de seus políticos transformaram a coisa pública em privada.

Depois de um sorriso mordaz, que é o meu, cometida alguma traquinagem, continuaria por aí em fora. Então, para minha surpresa, receberia uma carta comentando um aspecto da crônica e confesso aos leitores que isso se daria pela primeira vez, ou seja, receber uma carta comentando uma crônica minha.

E a carta, escrita naquele modo antigo, em letras finíssimas e bordadas no papel, me diria: "Meu caro senhor colunista: Ontem à noite, estando eu no apartamento de um jovem erudito, e ao ler-lhe sua coluna, fez-me ele parar a leitura e, com ar de deboche, disse-me que este calembur já é bastante antigo."

Para não cansar os leitores, interrompo aqui a carta, apesar dos florilégios com que termina.

Uma semana mais tarde (minha coluna é hebdomadária), voltava eu ao assunto, mas por vias tortas, que a retidão de há muito parece-me quebrada. E voltava com a evidente vantagem de responder-lhe por via pública, com a força que tal via me oferece, enquanto aquela boa senhora, talvez senhorita, ou quiçá ainda "amiga de um erudito" (mordacidade com o fito de desqualificar minha oponente), como dizia, enquanto minha oponente utilizara-se da via privada.

"Minha cara e insolente missivista: Que o trocadilho é velho, sei-o eu muito bem."

(E aqui uma pausa para explicações: primeiro, ao imitar o estilo de minha leitora, saiu-me este hiato horroroso - "sei-o eu"; segundo, "calembur" é uma palavra de origem francesa, razão por que alguns esnobes a consideram mais nobre do que nosso velho "trocadilho".)

E continuaria:

Mas exatamente por ser velho, não me ocorria o nome de quem primeiro o usou no momento em que me pressionavam por telefone desde a redação para que entregasse minha crônica. E por não me lembrar do autor, também não lhe deixei expresso meu profundo reconhecimento pela colaboração."

E mais uma vez interrompo a missiva com o único propósito de não entediar o leitor.

Entretanto, devemos continuar, caso contrário não chegaremos à moral da história. Pois aquela senhora virtual (vamos chamá-la assim por absoluta ignorância de quem possa ela ser) apesar de apenas amiga de um erudito, simboliza uma boa parcela de nossa intelectualidade. Tão apegados à forma que esquecem o conteúdo, a ponto de muitas vezes confundirem o acessório com a essência.

O pior de tudo é que enquanto alguns ficam descobrindo o plágio de um calembur, grande parte dos políticos continua fazendo suas necessidades na privada em que eles transformaram a coisa pública.


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POR EM 22/09/2008 ÀS 06:36 PM

Em que espelho ?

publicado em


Nenhum de nós, do internato, podia dizer de onde caíra aquela figura singular, o nosso professor de Português. O professor Brandão (ou, como preferia o Diretor do colégio, o doutor Brandão) falava com esses e erres muito diferentes dos nossos, andava com passos mais curtos do que nós e tinha um ar sofrido que nós, entre os dez e os quinze anos, ainda não tínhamos razão para ostentar.

Algumas informações, finalmente, vazaram. Por exemplo, que nosso professor de Português era advogado. E a imaginação da rapaziada excitava-se em exercícios que justificassem aquele súbito aparecimento. Um dia, o pai de um aluno, em visita ao colégio, abordou nosso professor e perguntou se poderia assumir uma causa no fórum local. O professor Brandão ergueu para o céu seus dois olhos negros e redondos e, depois de um suspiro, afirmou em voz abafada que advogar, não, jamais voltaria a fazê-lo. Sua expressão, então, foi de profunda dor.

Nunca ficamos sabendo por que o doutor Brandão abandonara a profissão para a qual se preparara. Muitas pessoas, mais tarde aprendi, cometem o equívoco de levar um curso até o fim pela única razão de o haver começado. As vocações nem sempre se manifestam muito cedo. Mas o caso do doutor Brandão, que supúnhamos ter exercido a advocacia por muito tempo, parecia bem mais tenebroso. Algum deslize, uma escorregadela, coisa nem sempre provável mas quase sempre possível para um ser que luta pela sobrevivência neste conturbado mundo de Deus? Não sabíamos, mas conjeturávamos. Alguém trouxe de fora a informação de que se apossara, nosso cândido professor, de todos os bens de duas crianças órfãs. Foi quase uma semana de ódio e rancor. Ele não podia entrar na sala de aula sem que rosnássemos de cabeça baixa. Por uma série de detalhes, descobrimos, à luz de velas em nosso esconderijo, que era uma informação falsa. Ah, sim, porque também havia os alunos que o admiravam.

O professor Brandão era casado, e sua esposa, uma normalista, como então eram chamadas as professoras primárias, dava aulas nas séries anteriores ao ginásio. Eles não tinham filhos, e esse era outro motivo de assombro para nós, tão acostumados a famílias de proles numerosas, pois era assim que Deus mandava e o Brasil queria.

O que mais nos espantava, entretanto, era o ar de grande sofrimento de nosso professor quando tentava explicar as diferenças entre um verbo e um advérbio. Ele segurava o giz sem muita convicção, enrugava a testa, sacudia a cabeça e botava algumas palavras na lousa (que chamávamos de quadro-negro, porque o era realmente). Mas ele gostava de ler. E trazia poemas para que lêssemos e perguntava quem freqüentava a biblioteca, o que encontrávamos lá. Ouvíamos algumas histórias e às vezes contávamos algumas também.

Até o fim do primeiro ano, ninguém mais queria saber a origem do professor Brandão, nem por quais mistérios da vida um homem tão diferente dos outros que conhecíamos viera parar ali. Meu entusiasmo pelas fórmulas da matemática arrefeceu em favor de Mário de Andrade e Cecília Meireles. Nunca entendi por que essa aproximação em suas preferências, mas isso pouco ou nada me preocupou.

Quarenta anos mais tarde fui fazer uma visita ao colégio onde estudei interno. O prédio principal era ainda o mesmo, apesar da cor horrível com que o disfarçaram. Fui apresentado a outros prédios mais recentes. Uns intrusos. Os professores todos pareciam tão estranhos quanto nos parecera, no início, o professor Brandão. E ele, onde estaria? Ninguém sabia de sua existência. Não desisti enquanto não o encontrei. Ele estava colado, muito miúdo e assustado, em um quadro de formatura. Quanto a mim mesmo, descobri que não havia deixado o menor vestígio de minha passagem por lá. Em que espelho, Cecília, ficou perdida minha face?


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POR EM 15/09/2008 ÀS 05:32 PM

E agora, José ?

publicado em


As cidades nasceram sob o signo da insegurança. As feras atacavam impunemente este serzinho desprotegido, sem presas nem unhas que prestassem, que era o homem. Nasceram e logo depois foram muradas. Claro, não contente com os ataques ferozes, isto é, das feras, o homem inventou os ataques ferozes, isto é, do homem. As feras queriam fazer dos homens seu repasto ( não é preciso escamar nem depenar) e alguns homens a todo custo queriam tomar posse do que outros homens tinham. O remédio foi mesmo criar os muros.

Então veio o fim da Idade Média e os modos de ganhar o pão-nosso-de-cada-dia foram-se transformando. Depois do artesanato veio a manufatura. Depois da manufatura veio a indústria, e na era da sociedade industrial tudo foi racionalizado. As poucas e pequenas cidades começaram a inchar porque uma das leis do processo de industrialização era a concentração. Os custos caíam quando homens-produtores, máquinas, matérias-primas, homens-consumidores se aglomeravam.

Em nome dos baixos custos, ou seja, da maximização dos lucros (o economês é assim mesmo), criaram-se os grandes edifícios, as megalópolis cercadas de seus bairros populares, de suas fábricas e favelas.

Os problemas apareceram como subproduto da acelerada e tumultuada urbanização. Subproduto indesejável e de solução às vezes quase impossível. Onde arranjar escola para tanto bacuri, dizia o alcaide coçando a cabeça de ralos cabelos. E onde jogar tanto dejeto? Bem, alguns jogavam-se no rio, ou no mar, ou sabe-se lá onde. As cidades não davam conta de criar tantas veias pelas quais deveria circular nosso almoço de ontem antes de desaparecer. Os rios e os mares, então, arcaram com o sacrifício: foram poluídos. A saúde, ora a saúde, e muito bom tecnocrata raciocinava como verdadeiro Malthus. Mas nem todos eram malthusianos e o prefeito arrancava os fios restantes de cabelo.

Ora, em nome do lucro se tinha criado uma solução e um problema. Em nome do lucro criou-se também um outro tipo de sociedade: a sociedade de consumo. Sem consumo não há lucro. Então toca consumir, porque esse verbo passou a ser fundamental para a vida das cidades. No meu tempo de criança, íamos à padaria com uma garrafa de boca mais larga, conhecida como a garrafa do leite. Esta garrafa, depois de bem lavada voltava à sua nobre função, e isto por um, dois anos. Com sorte, ela durava uma geração toda. Hoje o leite nos chega num saquinho plástico que, depois de usado, vai fazer parte do lixo urbano. São milhares e milhões de casas em que se consomem mercadorias e se produz lixo.

Nós, os que não somos malthusianos, estamos escandalizados. A Cetesb (organismo que vigia o meio ambiente em São Paulo ) fez um levantamento e chegou à triste conclusão de que 50,4% das cidades paulistas jogam seu lixo em lixões a céu aberto, sem tratamento de resíduos, como deveria ser. Destes novos inimigos, quase sempre invisíveis, não há muro que nos defenda.
 


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POR EM 08/09/2008 ÀS 06:30 PM

Verba volant

publicado em

Quando sentei aqui em frente ao micro pensando em escrever minha crônica da semana, já vinha com uma história montada, mas, como sempre, começou a tortura do título. Conheço um jovem escritor que jorra títulos da melhor qualidade com a mesma fluência com que se alivia no mictório. Outros, como o Caio Porfírio Carneiro (foi ele quem me confessou – e não pediu segredo), perdem noites de sono atrás de um título que valha a pena. Estou incluído entre os últimos. Me lembrei, então, estimulado pela natureza da história que pretendia escrever, de minha velha professora de latim. Também mandei bilhetinhos clandestinos em sala de aula, no meu tempo, e um dia fui pego pela professora de latim. Leu o bilhete, sacudiu a cabeça e me disse: “Preciso falar com o senhor na saída.” Não preciso dizer que perdi o restante da aula. Os colegas todos, quando por fim trocou a sirene, saíram olhando para trás, gozando meu vexame. Sozinhos naquela imensa e vazia sala, dona Ilse (cara de valquíria e língua de tribuno romano) me disse que alguns assuntos nunca devem ser escritos. Scripta manent, verba volant, ela repetiu. Tinha lá meus treze anos e nunca mais me livrei da sentença de dona Ilse.
           
O incidente acima me ocorre, e hoje é um dia de recordações, porque um fato que vivi pela manhã me jogou dentro de uma crônica de mestre Rubem Braga, mestre de todos nós que fazemos de nós mesmos a matéria da distração alheia.
           
Nem todos vocês conhecem o Vital. Eu também, até pouco tempo não tivera este prazer. O Vital, com seu jeito de bicho-grilo, um cara muito na dele, me contou hoje de manhã que antes de me conhecer tinha lido alguns textos meus. Acho que há muita gente, neste exato momento, correndo os mesmos riscos: o mundo anda cheio de textos. Depois de vários comentários (ele é estudante de jornalismo e tem opinião), fez uma revelação que me deixou sobressaltado. Afirmou que sua vida começou a mudar depois de uma afirmação que fiz em uma crônica. Pois posso devolver, e publicamente, a revelação: isso que você me contou, Vital, pode mudar inteiramente o que daqui pra frente vou dizer. Saber que as palavras voam, a gente sabe. O que não se sabe é onde elas vão pousar. Isso não pode jamais ser esquecido por quantos têm o ofício “de viver em voz alta.”
           
Não resisto, a esta altura, à tentação de transcrever um trecho do mestre, retirado de sua crônica “A palavra”.
           
“Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito - como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. (...)
           
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.”

Que me perdoe o mestre Rubem Braga, se não foi dos melhores o uso de seu texto, mas era impossível evitar a lembrança depois do que ouvi. Prometo pensar melhor nas palavras que, daqui pra frente, soltar por aí a voar.

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POR EM 26/08/2008 ÀS 08:41 AM

Vou-me embora pra Pasárgada

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Toda vez que, ao ligar a televisão, sou assaltado pelas futricas eleitorais; e, abrindo o jornal, fico exposto, mesmo sem querer, aos ínvios caminhos de nosso processo democrático, me bate uma baita vontade de falar de jardinagem. Se você, caro leitor, pensa que as calças não têm nada a ver com tudo o mais, desculpe-me a crueza da revelação, mas você permanece ainda no rol dos seres ingênuos. Tenho dois bons motivos para discordar de você, meu caro e incauto leitor. As plantas, eis o primeiro dos motivos, segundo se aprende em botânica, não têm a propriedade da locomoção de moto próprio, isto é, sua motilidade reduz-se ao crescimento. Vegetativo, evidentemente E sendo assim, são inculpáveis de qualquer uma de nossas misérias políticas. O segundo motivo, prefiro deixá-lo para o encerramento desta crônica.
           
Políticos, cientistas políticos, juristas e até mesmo filólogos tentam impor-nos um conceito enganoso do que seja a nossa democracia. Os gregos, inventores de muitas coisas, praticavam-na na modalidade "direta". Todo mundo (um galicismo) aparecia na ágora e se manifestava. Todo mundo? Bem, escravo não era gente, como é o cachorro do Rogério Magri, para que não nos esqueçamos do ilustre Ministro de nossa república em passado recente. Democracia pra quem, então? Qualquer dicionário etimológico informa que demokráteia (de demo, povo e krátos, governo, poder) significa " poder do povo". Então anunciam do alto de sua ciência que democracia direta não é mais possível, e que temos de praticá-la em sua forma indireta, ou seja, a democracia representativa. Aí é que a coisa pega.
           
Você alguma vez já escolheu um representante? Não, não falo do voto, porque votamos em alguém que nos é imposto, como candidato. Eu digo escolher quem vai ser candidato. Não escolheu? Claro, os candidatos são escolhidos por umas poucas pessoas que detêm algum tipo de poder. Que povo? Não são cidadãos, como você e eu, cujo poder não vai além de nosso quintal. Isso na melhor das hipóteses, porque muitas vezes o candidato, ele mesmo, se escolhe. Se não há partido que o acolha, funda seu próprio PRN. Alguém, contudo, contra-argumenta que qualquer cidadão pode participar da vida política, habilitando-se a escolher democraticamente quem vai ser o candidato. E isso também faz parte do grande circo em que se tornaram as eleições.
           
Grande circo, eis a que foram reduzidas nossas escassas possibilidades de determinar nosso próprio destino. Participar da vida política para quê, se não existem partidos políticos no Brasil? Aqui não se vota em programa, não se escolhem idéias, plataformas. E não é verdadeiramente ridículo um processo de escolha pela marca da gravata e a cor dos olhos? Pois é, meu caro, se os últimos presidentes deste País tivessem vergonha na cara, entregariam o cetro aos marqueteiros que os puseram no trono. Engolimos presidentes como escolhemos a marca do sabonete. Com a mesma irresponsabilidade. No Brasil, é presidente o candidato que consegue contratar a melhor equipe de propaganda, o que me parece calhordice política. Tou fora. E em níveis inferiores nada muda. Sem dinheiro, e muito dinheiro, não se consegue contratar um marqueteiro desses top de linha, capazes de emplacar até o Presidente da ONU. O marketing político está em franco crescimento. Hoje, vereador que se preze, deve entregar sua campanha a um profissional de marca. O que, diga-se de passagem, aumenta o prestígio do candidato. O eleitor vota em quem teve a competência de escolher o melhor comunicador. Continuo fora.
           
Faz algum tempo, plantei um cipreste, muda pequena, em frente de casa onde morava. Três dias depois o buraco amanheceu vazio. Comprei outra muda, pouquinho maior, e enterrei no mesmo buraco, acreditando na pedagogia do saco inflável. Durou duas semanas. Voltei à floricultura e trouxe uma senhora muda de quase dois metros de altura. Era um cipreste já com cara de cipreste, e amarrei por baixo da terra suas raízes a traves de madeira. Agora quero ver!, pensava sorrindo e quase vingado. Quinze dias depois apareceu com o tronco quebrado a uns cinco palmos do chão. Hoje, aquele cipreste parece uma tuia comum: gordinho como um castrado, baixinho e arredondado. Não posso dizer que ele esteja feio, mas me dói o coração saber que foi frustrado em sua vocação para as alturas.

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