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POR EM 15/01/2010 ÀS 10:52 AM

Da alienação

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Encerrei o ano de 2009 lá pelo dia 15 de dezembro, claro, porque daí em diante tudo era festa. Encerrei o ano pensando em férias e de férias pretendia ficar pelo menos até o fim de janeiro. Sombra e água fresca no fundo do meu quintal. Foi então que descobri ser a alienação um estado involuntário. De nada adianta querer: é preciso ser. Eu fugia do mundo, mas ele continuava traiçoeiramente a me enredar.

2010 nasceu sob o signo de grandes desastres. Signo maldito que se repete a cada 365 dias com modificações apenas na superfície. Logo no início deste ano, o Brasil abalou-se com os estragos causados pelas chuvas. Angra, São Luís de Paraitinga, Agudos foram nomes que frequentaram a mídia por muito tempo. Muitos prejuízos sendo o maior deles as vidas que se apagaram. Geógrafos, geólogos, políticos sugerem sempre as mesmas medidas necessárias e que não serão tomadas. O povo tem memória curta, em março ninguém mais vai se lembrar do assunto.

Em janeiro acompanhamos o desenrolar da novela Arruda e os 40 ladrões que tinha começado no ano anterior. A desfaçatez dos protagonistas, seu imenso cinismo, são causas para indignação. Como podem zombar a tal ponto da opinião pública? Bem, poder eles podem, talvez com justa razão: nas próximas eleições lá estarão eles reivindicando nossos votos e muitos de nós, brasileiros, vamos continuar a elegê-los. Eles sabem disso. Agora as notícias que nos chegam do Haiti. Tanta miséria sem a colaboração da natureza já não era suficiente? Um desastre de proporções desconhecidas neste lado do novo mundo.


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POR EM 09/10/2009 ÀS 02:14 PM

Um banho de chope

publicado em

De que maneira, não sei, o certo, entretanto, é que precisamos trazer de volta o Stanislaw Ponte Preta. Ou seu espírito. E com urgência. Esteja ele onde estiver, porque o Brasil vem sendo assolado por uma enxurrada de besteiras que está ficando difícil de suportar. Precisamos de alguém com a verve e o humor do Stanislaw para que os besteirocratas não se sintam assim tão à vontade. É necessário que sintam pelo menos um pouquinho de medo do ridículo para que nos deixem em paz.

Ontem à noite, não me lembro por que, mas estava na frente da televisão quando minha casa foi invadida por um desses, como dizer... um desses pacóvios sarados sem muito treino na arte de pensar. O garotão veio anunciar uma festa que acontece em Santa Catarina e informou que os organizadores esperam um consumo de quarenta e cinco mil litros diários de chope durante os dezessete dias da festa.


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POR EM 19/09/2009 ÀS 08:52 AM

Dos umbigos

publicado em

Uns bichos meio xucros, meus irmãos e eu, mas em que pese nossa xucrice, vivíamos bisbilhotando o mundo e inventando o futuro. À falta de coisa melhor, era essa uma de nossas distrações prediletas. E foi numa dessas conversas com que nos distraíamos inventando o futuro que meu irmão um pouco mais velho do que eu lascou a frase profética: Um dia, ninguém mais vai usar roupa.

Estávamos sentados em um banco de madeira, no alpendre, tentando adivinhar com que cor ficariam as nuvens quando o Sol tocasse o horizonte. A imagem das nuvens e suas cores não descolaram mais de minhas hoje cansadas retinas. Assim como a frase assus-tadora, vibrando até agora no tímpano já cansado.

De lá pra cá tudo veio encurtando. Calça curta com tirantes, uma das marcas da infância (Como não me lembrar da primeira calça comprida que usei?), de repente apareceu com nome diferente, uma importação, certamente, que nos veio das Bermudas? Sociólogos, esses camaradas que vivem estudando os comportamentos da gente, devem ter a explicação para o atual nome da calça curta. E os tirantes? Nem tirantes nem suspensórios. Aliás, tirante meu amigo Deonísio da Silva, acho que no Brasil ninguém mais usa suspensórios.

Tudo encurtou. Diz-se, inclusive, que as distâncias também entraram no processo geral. O avião é a prova viva do que estou dizendo. Meu pai sempre deu aula de terno e gravata (Aliás, terno sem colete não é um oxímoro?), e seu filho que vos fala só usa paletó para solenidades, e, como sala de aula nada tem de solene, prefere camiseta regata, ou pólo, ou qualquer outra coisa permitida pela direção da escola.

Mas nada encurtou tanto como as blusas feminis. Elas foram subindo ao mesmo tempo em que as calças foram baixando. A cobertura da parte de baixo não deve chegar a menos de quatro dedos do umbigo, enquanto a cobertura superior não deve se aproximar deste botão sensual que o Criador inventou de botar no ventre das mulheres, para gáudio da homarada. Não que os homens também não tenham esta coisa esquisita por onde nos informam os anatomistas nos alimentávamos em tempos que depois não lembramos mais. Os homens têm. Mas umbigo de homem, confesso a vocês, não tem graça nenhuma.

Difícil encontrar atualmente mulher que não traga exposta sua diminuta rosa pousada na barriga. Algumas são de fato merecedoras de escultura, ou como se diz na modernidade, de um close televisivo. Mas outras, não reparem na falta de humor, mais parecem um pequeno tumor, uma ferida desabrochando, um cravo, uma verruga. Suas donas e portadoras não se tocam do ridículo que é expor partes do corpo sem nenhuma beleza? Ah, sim, e outro detalhe: não existe mais limite de idade para mostrar o umbigo, nem idade tampouco peso. E seria tão simples! Bastava não encolher a blusa.

Mas a ordem geral, nestes tempos, é encolher.

A profecia de meu irmão ainda não se cumpriu, mas agora concordo com ele: caminhamos nessa direção. 
 


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POR EM 06/09/2009 ÀS 10:44 AM

As aparências enganam

publicado em

De tão velho, este ditado, já não pensamos mais nele. Mas me parece que não é fora de propósito vez por outra relembrar essas verdades da sabedoria popular.

Quem não se lembra do Collor? Era o jovem bem falante, trajando ternos provavelmente importados, que agradava, por sua aparência saudável e elegante, à maioria do eleitorado brasileiro. Gostamos muito de saúde, mas muito mais de sua aparência. A eleição do Collor deu no que deu, no que todo mundo sabe.

Nas eleições seguintes, algum marqueteiro experto (assim mesmo, com x) lembrando-se do resultado da eleição anterior, deu um banho de loja no candidato Lula, que aproveitou para tomar outros banhos, como o banho neoliberal. E deu no que deu. O povo gosta de um terno bem cortado, de uma gravata com aparência de cara.

Sei de muita gente que escolhe os produtos a comprar pela embalagem. Os semiólogos explicam o fenômeno afirmando que o ato da compra não é apenas o ato de aquisição de algum bem. Muito longe disso. Quando se faz a compra de um objeto, o mais importante não é o valor de uso que ele possa ter, mas o status social que ele garante.

Vocês já viram como jovens da classe média não usam roupa cuja marca não esteja na moda?

Meu falecido pai, um homem antigo, andou muito tempo por aí dizendo que o importante, o mais importante, não é o aspecto exterior, mas as qualidades de caráter, isto é, o que é invisível porque está escondido por dentro do ser humano.

Pode ser que meu velho tivesse razão, mas os semiólogos dizem que tudo é linguagem e já ouvi alguns deles afirmando que o modo de se vestir revela muito do ser vestido. Não duvido.

O professor Edward Lopes, meu amigo e orgulho da semiologia nacional, conta uma anedota que tem Manuel Bandeira como personagem central. Nosso poeta, eleito para a Academia Brasileira de Letras, vestiu-se com o fardão engalanado, para tomar posse de sua cadeira, e tomou um táxi, pois ele nunca dirigiu. No caminho, o taxista examinava-o pelo retrovisor, com olhos espantados, de quem não está acreditando no que vê. Na avenida Brasil, o carro encontrou uma sinaleira (estamos no Rio) fechada. O taxista aproveitou a parada obrigatória e virou-se rapidamente para trás. Muito solene e respeitoso ele perguntou:

— Sois rei?

Aquele taxista sabia muito: ele transportava não um rei, mas um dos príncipes da poesia brasileira. 
 


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POR EM 29/08/2009 ÀS 12:16 PM

Adeus, meu pai

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Portas e janelas mantêm-se fechadas desde o início da noite: o frio lá fora, rondando a casa, silencioso, enquanto na sala enfumaçada de vez em quando alguém abafa a tosse com a mão, pede um copo dágua, tenta espantar o sono. A mulher que até agora vem puxando o terço abre um pouco a janela da frente, respira a noite — sua cabeça escondida atrás da veneziana: não suporta mais o cheiro adocicado e murcho das flores, ela esclarece assim que retorna.

Soltas no regaço, em repouso, as mãos de Ana, ásperas e rugosas, desde a véspera irremediavelmente inúteis, não se movem. Há muito elas já vinham assumindo esta coloração baça de gesso, de maneira imperceptível porém progressiva, até que, esta madrugada, ao fitá-las através da fumaça, seus olhos sujos de pasmo e sono, ela diz para si mesma pois é, e eu continuo aqui, livre e sem razão. E suspira. Apreensiva. Mas, apesar do desconforto de ter a casa devassada por tantos olhos, com os vizinhos vasculhando seus cantos escondidos, ditando as providências, mudando lugares e horários, é um momento em que não gostaria de estar sozinha. E não está.

Pouco antes, um daqueles intrusos encostou-lhe delicadamente o assento de uma cadeira nas curvas das pernas, senta, criatura de Deus, porque ninguém pode ficar assim, de pé parada, a noite toda. E ela sentou-se em silêncio, apalermada, o busto um pouco erguido demais para quem velava desde a tarde anterior — o modo como pensava assumir a chefia da casa — mas sem muita consciência do ritual que se cumpre em torno daquelas quatro velas que pouco iluminam e mesmo assim se consomem irremediavelmente nos castiçais.

O ar espesso da sala enfumaçada torna-se mais denso ainda com o sopro quente daquele cochicho: seus olhos enxutos. A noite toda assim: enxutos. A vizinha da frente tenta arrancar de Ana qualquer sinal de sofrimento, inconformada com tamanha serenidade, e, como não consegue, abre com estrépito a janela por onde entra uma golfada de ar gelado e o movimento nascente do bairro. Aquilo, seu gesto brusco, parece a muitos um desrecalque, alguma vindita, forma de jogar o velho, mais entrevado do que nunca, no meio da rua. Alguns chegam a trocar olhares significativos; nada mais que isso, entretanto. Ana apenas suspira, mais por cansaço que de dor, ao ver despejar-se tanto sol sobre o esquife do pai: seus olhos cerrados. Enxutos. Mais do que ninguém, naquela sala, ela tem razões para a tristeza, todos sabem, mas quando seca o coração e há flores murchas nos vasos ao redor da mesa, os olhos não vertem mais lágrimas. O coração de Ana, ainda jovem ela o espanejara, espremera-o bem, e o trancara por fora, protegido. Quem sabe para sempre. A vida dele em suas mãos, minha filha — sua mãe no quarto do hospital. Em suas mãos.

Lágrima nenhuma, cochicham os homens na cozinha, quase alegres com o escândalo que é a falta de sentimento daquela filha. Nenhuma, repete ainda um dos mais velhos, cigarro pendurado em um dos cantos da boca, cismarento, olhar perdido na superfície agitada da cafeteira, de onde retira a colher pingando e onde a espuma, aos poucos, se desmancha. Também, pudera, recomeça depois de encher as xícaras, e, percebendo que vários de seus companheiros se voltam para ele, curiosos, decide silenciar: boatos antigos, apenas, o ódio pelo pai e aquela paixão devastadora. Boataria. E, enquanto coloca xícaras vazias em uma bandeja (o café das mulheres que rezam o terço na sala), sacode a cabeça repetindo: tudo boato, claro. Maldade do povo desta rua.
A não ser pela ladainha intermitente das mulheres na sala e pelo espocar de uma que outra gargalhada depois de uma anedota na cozinha, a madrugada avança lenta e silenciosamente para a maioria dos participantes da vigília — os que afundam as mãos na geladeira, servem-se com desenvoltura do fogão, enchem os cinzeiros de tocos de cigarros e os esvaziam no cesto de lixo. Outros, derrotados pelo cansaço, ressonam jogados sobre a mesa, a cabeça apoiada nos braços. Vez por outra um deles levanta a cabeça, o cabelo empastado na testa, os olhos injetados, para perguntar se já está na hora.

E então, ele veio?, perguntam ao velho, mal aparece de volta na porta da cozinha. A expectativa de que o passado encontre sua outra ponta nesta noite longa e fria já vai esmorecendo porque o dia começa a entrar pelas frinchas das venezianas e pelas frestas por debaixo das portas. Talvez não venha mais, respondem seus braços abertos e suas mãos espalmadas.

Instigado pelo barulho repentino e pelo cheiro marrom do café, um dos amigos da casa consulta o relógio e avisa: a hora chegando. Ninguém lhe contesta o direito de determinar a sequencia das ações naquela casa e naquelas circunstâncias. Há mais de trinta anos, desde que o entrevado e a filha vieram morar nesta água-furtada de fim de rua, ele e João Pedro, seu primo, eram as únicas pessoas a frequentar a casa quase todos os fins de tarde, por conta daquelas infindáveis partidas de xadrez que mantinham o velho aceso e combatente. Durante duas décadas ou mais os moradores da rua maliciaram suas visitas, sugerindo entre risos que um dos dois ainda sairia casado com Ana. Ou os dois. E isso os deliciava muito, pois não conseguiam imaginar o que seria feito do velho, então. Por fim, sem resultados aparentes, desistiram de inventar o futuro e esqueceram-se de Ana em sua prisão: a vida dele em suas mãos, minha filha. Mas o povo não estava inteiramente errado. João Pedro, o mais novo dos dois primos, durante muito tempo não fez questão de ganhar ou perder aquelas batalhas intermináveis, em que peões e bispos, brancos ou pretos, eram abandonados à própria sorte, enquanto seus olhos sequiosos bebiam gota a gota cada gesto de Ana, mergulhavam nas curvas da moça enquanto seus braços fortes e roliços empurravam a cadeira do pai. Ela não tinha ainda estes olhos fundos tão tristes e medrosos nem sua pele era pálida como agora. Seu rosto não era assim chupado, de maçãs salientes, nem seus cabelos tinham sido ainda tingidos pelas mãos do tempo. No dia em que ele criou coragem e declarou seu amor, sem nada responder a jovem sumiu para os fundos da casa desmanchando-se em prantos. Em suas mãos, minha filha. Em suas mãos.

O jovem entendeu a recusa de Ana e seu silêncio, jurando com a maior seriedade nunca mais voltar ao assunto sem que a moça estivesse desimpedida de seu penoso encargo.

Com o olhar embrutecido pelo sono, Ana observa o antigo companheiro de seu pai, enquanto ele pega a tampa do esquife, até então de pé e encostada à parede, para fechar o caixão. Nos quatro castiçais de alumínio, pequenos tocos de vela irremediavelmente inúteis tentam ainda resistir à lufada de ar gelado que acaba de entrar pela janela. Ninguém se inclina sobre o féretro armado em cima da mesa da sala, o rosto macerado pela dor; ninguém se joga sobre o corpo, tentando retê-lo por mais alguns instantes. As mulheres, todavia, que há bastante tempo descansavam, sonolentas, recomeçam suas rezas, agora, ante a iminência do ato derradeiro, com muito mais empenho, atropelando-se umas às outras, perdendo-se no ritmo desarvorado, esganiçando palavras que nem elas mesmas sabem o que significam. Algumas pessoas levantam-se, indecisas, sem saber como deve continuar aquela ação. Ana permanece como está, as mãos soltas no regaço, o olhar turvo, o busto um pouco levantado demais para quem vela desde a véspera.

Primeiro as mulheres sentadas do lado de trás do caixão. Ao verem-no ali de pé, estancam assustadas a ladainha, enfraquecendo de repente os apelos em favor da alma do velho. Então as demais, as que estão de costas para a porta, leem o susto nos olhos das companheiras e viram-se de uma só vez para trás. Ele chegou, ouve-se alguém gritar para os fundos, onde os homens fumam e contam piadas.

Recortado contra a manhã clara e fria que espreita a sala escura pela porta aberta, João Pedro observa como as mulheres subitamente interrompem suas rezas por descobrirem-no sombra ali parado; vê como os homens chegam da cozinha, atropelando-se pelo corredor demasiadamente estreito e desembocam na sala pela porta oposta. O recém-chegado adivinha curiosidade e dúvida em alguns olhares, ternura e esperança na expressão de antigos companheiros. Não entra logo, também ele ansioso, sem saber como será recebido depois de tantos anos de espera. Entre as mulheres, tão-somente duas ou três fisionomias um pouco mais familiares e uma cabeça que não se volta, onde ele supõe muitos cabelos brancos.

Por fim, quando parece que nada mais vai acontecer, João Pedro com sua sombra invade silenciosamente a sala e pendura o chapéu num prego ao lado da janela. Ninguém mais se move, ninguém ousa falar, e mesmo a respiração parece estorvo para quem não pretende perder nada da cena que se desenrola ali, à frente de todos.

São apenas quatro passos, mas João Pedro avança arfante e com extrema dificuldade — as quilhas de seus pés, entorpecidos na espera, singrando aquele mar de flores murchas. Só quando atinge o espaldar da cadeira onde Ana o espera e depois de apoiar suas mãos pesadas nos ombros da mulher é que João Pedro percebe perplexo que os tocos de vela agonizam em seus castiçais. Ana segura a mão do amigo em seu ombro, tentando retê-lo mas de maneira relutante. E assim, amparados um no outro, sem rota possível, todavia, os dois permanecem por longo tempo.

É o primo de João Pedro quem, por fim, consulta o relógio e informa que não se pode esperar mais. Pega novamente a tampa do esquife, que havia largado com a chegada do primo, e espera que Ana contemple o finado pela última vez. Ana move os lábios quase imperceptivelmente:

— Adeus, meu pai.

Um homem com as duas mãos pousadas nos ombros de uma mulher, protetor, as pessoas olham enternecidas, acreditando ser o destino que finalmente se cumpre. Então, como acham que ali o ritual já está completo, levantam-se os que estão sentados e juntam-se aos que tudo observam de pé para sair acompanhando o féretro, que já está na calçada.

Quando, por fim, o último toco de vela expira, João Pedro força levemente a mão presa, e Ana a solta sem mover a cabeça, sem manifestar emoção alguma, mesmo porque, ela já não tem certeza de sentir o que quer que seja. Volta-se finalmente para vê-lo pegar o chapéu e sumir na intensa claridade da manhã recortada pela porta.
 


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POR EM 15/08/2009 ÀS 10:08 AM

Uma vergonha!

publicado em

Nesses últimos dias, tenho me lembrado muito do Boris Casoy, que nem sei por onde anda atualmente. Mas houve época em que era famoso o bordão com que demonstrava sua indignação com a política e os políticos brasileiros. Me lembrar do Boris  Casoy não implica adesão a seu pensamento ou concordância com tudo que ele dizia. Em muitos pontos, contudo, me parece que ele tinha razão. O sentimento da vergonha, em nossos frágeis corações, já é cicatriz que não desaparece nem com reza brava.

Tenho contado por aí passagens da minha vida, meu percurso até chegar a esta região que me acolheu como filho. Por isso aqui fiquei. Algumas pessoas até já sabem, mas nem todas, o que vou contar novamente com a esperança de não estar caceteando ninguém com o assunto. O caso é que investi a melhor parte de minha vida (os anos da juventude e boa parte da primeira maturidade) num projeto cujo centro era o Brasil, mas um Brasil democratizado. Vivi os anos de chumbo, melhor seria dizer sobrevivi a eles. Um dia conto isso tudo com mais detalhes. Acho que não é segredo o fato de que saí do Rio Grande do Sul clandestinamente no ano de 1965.

Os lances por que passei não foram privilégio meu, nem foram os piores. Houve gente que sofreu muito mais. Houve gente que não sobreviveu. Foi com lágrimas que participei dos comícios pelas diretas, na Praça da Sé e no Vale do Anhangabaú. O povo foi pra rua, os brasileiros queriam democracia.

Antes que alguém me interprete mal, declaro que jamais me arrependi um fio de cabelo pelo que fiz. Hoje vivemos em regime de liberdades democráticas.

Mas meu Deus do céu, o que os políticos que ascenderam ao poder (em nossas costas, diga-se de passagem) fizeram com a vida pública do Brasil é digno de um chiqueiro de porcos.  Não se passa uma só semana sem que um novo escândalo irrompa no horizonte do Brasil. São desvios de dinheiro, favorecimentos ilícitos a amigos e parentes, compra de votos e imoralidades de toda sorte. A Câmara Federal e o Senado (principalmente o Senado nestes últimos dias) tornaram-se palco de brigas de baixíssimo nível, dignas dos ambientes mais sórdidos.

Mas não se engane, caríssimo leitor. Não estou acusando este ou aquele partido, este ou aquele político. A verdade verdadeira é que não existe virgem na zona. As brigas não se dão porque fulano ou sicrano quer moralizar a vida pública brasileira. Ninguém é inocente, nesta história. As eleições, no ano que vem, é que motivam tantas acusações. Hoje é um grupo que mama nas tetas gordas do Estado, mas todos querem mamar, por isso brigam. E nós, que pagamos a conta, assistimos a tudo de camarote, como se nada tivéssemos a ver com tudo isso. Ora, ora, também não somos inocentes, pois sem nosso voto eles não estariam lá.

E viva a democracia! Por que não? Hoje somos um povo envergonhado, mas sem ela nem o direito de reclamar, como estou fazendo, nós teríamos.

Inté!
 


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POR EM 15/08/2009 ÀS 10:08 AM

Estátua de barro

publicado em

"Fixou a touceira onde a caça estava escondida.
Só folhas, só silêncio e folhas empastadas de
sombra. Mas, detrás das folhas, através das man-
chas pressentia o vulto arquejante da caça. Compade-
ceu-se daquele ser em pânico, à espera de uma
oportunidade para prosseguir fugindo."

  Lygia Fagundes Telles

No fundo do espelho, entre taças de cristal e xícaras de porcelana, o olhar de soslaio, severo, inspeciona a pose. Retoca. Este queixo, um pouco mais erguido, excelso, quem sabe, apontando para o horizonte, o espaço das aventuras. Assim. A sobrancelha esquerda, arqueada, assimétrica como um ponto de interrogação, talvez uma dúvida; e os lábios, ah! os lábios, mais firmes, entre cínicos e imperiosos, sem esta lassidão úmida de adolescente. Pronto, só faltava agora um bigode como o dele. Farto, dominador.

Preso entre os dedos, o cigarro aceso sobe até a boca apenas entreaberta, e a fumaça envolve-lhe a cabeça, em torvelinho, até dissipar-se, esgarçada, na lâmina de sol que penetra no aposento através da cortina deflorada e onde minúsculos pontos luminosos gravitam sem peso.

Reabre os olhos machucados pela fumaça, examinando-se, e descobre que, apesar das lágrimas, e do susto, levara sua experiência ao limiar de uma vitória. Recompõe-se. Fascinado pelo som marcial dos próprios passos, dá uma volta em torno da mesa, estufa o peito, ergue os ombros, tenta preencher os vazios que lhe impõe a idade. Um pouco largo, sobretudo nos ombros, o paletó exala um cheiro agridoce: os suores da vida, fumaças (noturnas?), perfumes proibidos. Leve tontura ao tirá-lo ainda há pouco e furtivamente do guarda-roupa dos pais — arca sagrada — e vesti-lo sobre o pijama, excitado pelo cheiro intenso e o sentimento da violação. Sente-lhe agora o peso de armadura, muito mais das histórias que já testemunhou e esconde do que da casimira inglesa de que foi confeccionado. Pára outra vez na frente da cristaleira e, com a mão direita espalmada, quase trêmula, afaga a lapela, onde coloca um cravo imaginário.

Senta-se à cabeceira da mesa de mogno, lugar do patriarca, o cigarro simuladamente esquecido em um canto da boca e o ar compenetrado de quem não se ocupa mais de pequenos vícios, assim como os heróis do faroeste que vê na televisão. Sufocado, porém, não resiste por muito tempo ao desconforto. No banheiro da escola, um dos pirralhos de vigia na porta, ninguém senão o Leonardo — olheiras profundas, sorriso sarcástico e histórias escabrosas — conseguia fumar assim, sem o auxílio das mãos. A tosse irrompe incontrolável e as duas mãos se cruzam violentas afastando a fumaça e desfazendo a estátua recém-composta no espelho.

Quando abre por fim os olhos, a pureza do ar restabelecida, sente um vazio no estômago, esta sensação de se estar a ponto de desertar do próprio corpo sem ter onde se refugiar: da porta inexplicavelmente aberta, descobre que o pai o observa - olhar em chamas — mas não sabe há quanto tempo. Tenta inutilmente esconder o cigarro. Inutilmente, pois já não tem o comando dos dedos, de nenhum centímetro do corpo, muito menos dos dedos. Também não consegue virar o rosto, apagar a paisagem enquadrada na porta: seu corpo imenso, feito de sombra e névoa. Toda vez que atravessava a praça — caminho da escola — a mesma vertigem ao passar olhando o duque enorme montado em seu corcel, com a espada erguida comandando o ataque. Quando as nuvens, no alto, serviam-lhe de fundo, então, tornava-se maior a certeza de que ele se movia, de que poderia precipitar-se daquela altura a qualquer momento para esmagá-lo. Sentia-se aterrorizado, mas não conseguia evitar o caminho nem o olhar. Não sabe se o cigarro continua a consumir-se nem tem coragem para conferir. O paletó está muito quente, o sol que penetra por uma frincha da cortina incendeia o ar da copa. Sozinho em casa, nem a mãe nem os irmãos que aparecessem para acordá-lo do pesadelo. No tempo congelado, em que mesmo a tênue escada azul de fumaça já não leva a lugar algum, ele espera, mas parece que entrou numa cena de caça de uma tapeçaria antiga em que o caçador, de arco retesado, aponta para um touceira espessa. O tempo esmaece o verde do bosque, o chapéu do caçador perde o brilho, mas lá está ele, apontando para um coelho amedrontado. Se o vento, se pelo menos o vento levantasse uma ponta da cortina cor-de-palha. Poderia ser o fim, mas também poderia ser o sinal de que chegara o momento da fuga.

Não se dá perfeita conta do que acontece ao levantar-se de um salto, derrubando a cadeira onde estivera sentado e interrompendo no ar o punho fechado. E ainda encara?, ele repete entre dentes, tem coragem de ficar encarando? Sem tempo ou coragem para dizer que não, que apenas não tem força para desviar os olhos. Ao aparar com a mão livre o segundo golpe, tropeçam ambos na cadeira caída e rolam no chão, esmagando o cigarro aceso e mergulhando na pequena lagoa de claridade que o sol desenha no assoalho. Alguma coisa se quebra: em seu peito ou nos bolsos do paletó. Os rostos se aproximam e se afastam, mudamente. O mesmo cheiro, agora mais forte, mais vivo, o mesmo cheiro do paletó. O esforço do pai para libertar os pulsos aprisionados dilata-lhe as narinas e as veias do pescoço. Há quanto tempo não vê assim de perto este rosto? Não se lembra mais de algum dia ter visto estas asperezas na pele, estes fios brancos no bigode.

Mera tentativa frustrada de resolver o mistério da caça e do caçador, ambos presos em uma tapeçaria antiga, coberta de poeira, que o tempo descolore mas não liberta. A respiração ofegante se acalma e, em suas mãos vigorosas, apenas dois pulsos inusitadamente frágeis e sem resistência. Ao levantar-se, prefere não se voltar mais para o espelho da cristaleira, pois percebe aterrado que todas as estátuas são feitas do mesmo barro.
 


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POR EM 08/08/2009 ÀS 01:53 PM

O proto-colo

publicado em

"Depois de ouvir da quinta secretária que entrasse para a sala seguinte, suspirou aliviado, achando que finalmente encontraria o homem. E mais aumentou sua convicção de que estava no caminho certo, porque foi recebido na porta por uma bandeja de cafezinho e em seguida perguntaram-lhe se preferia uísque escocês ou nacional"

 

O prédio da Prefeitura, construído sobre um outeiro, vigiava vinte e quatro horas por dia pelo sono da cidade. Era um edifício moderno, imponente, de linhas entre arrojadas e tímidas. Bem diferente desses vetustos edifícios públicos que andam por aí, enredados em arabescos, carcomidos pelo tempo, espiando acanhados por pequenos buracos a que davam o nome de janelas. Esse não, todo envidraçado, sem colunas dóricas ou jônicas, nem sacada tinha para o aparecimento público; aliás, coisa que vai saindo de moda, porque aos poucos se torna sinônimo de apedrejamento.

Mal abriram-se as portas de vidro em caixilhos de bronze polido, Adão entrou. O esplendor de saguão, com mármores de Carrara e lustres de cristal da Boêmia, assustou o visitante. Como saber se não estava entrando no palácio de Júpiter, no Olimpo, ou na folha de parreira — misto de agenda e bermuda — e certificou-se de que estava no lugar certo. Os olhos ainda um pouco ofuscados pelo brilho do interior, localizou, sob um letreiro a néon, a recepcionista.

— Muito bom dia, senhorita.
— Que Deus o obsequie da mesma forma, cavalheiro.

Observaram-se durante alguns segundos, até que a recepcionista tomou a iniciativa.

— O que posso eu fazer por você?

A recepcionista era moça elegantíssima e tinha um ar soberbo, de grande dama, aprendido na Escola Superior de Relações Públicas para Funcionárias Municipais. Adão sentiu-se, no primeiro instante, um pouco atrapalhado.

— Não vê que eu, não é, isto é, quer dizer, que na minha casa já falta água há mais de um mês. Pelo amor de deus, gentil senhorita, estou sem banho há igual tempo, e o meu pomar começa a murchar. A árvore da vida, cujo trato me é ao caro, acaba de perder todas as flores. Isso é grave, senhorita, porque sem maçã não se poderá consumar o pecado original. E a Eva já anda se esfregando até em perna de mesa.

A recepcionista abriu uma gaveta de onde retirou um bloco de papel com o brasão da Prefeitura.

— O senhor vai desculpar-nos, mas é uma formalidade desnecessária que, entretanto, nos mantém o “status” de povo civilizado.

Seu nome, por favor?

— Adão do Jardim Edênico, às suas ordens.
— Muito prazer, Eva do Jardim Botânico.

Apertarem-se as mãos efusivamente.

— Endereço?
— Jardim do Éden.

Ela escreveu repetindo pausadamente as sílabas.

— Ótimo. Agora, por favor, o senhor lave os pés ali naquela pia de bronze e suba ao primeiro andar pela escada de mármore cor-de-rosa. No fundo do corredor, à sua esquerda, o senhor vai descobrir o Protocolo.

Adão agradeceu com mesuras e palavras corteses, fascinado com tamanha gentileza.

Ao localizar, finalmente, o Protocolo, o coração de Adão pulsou aplausos de contentamento. Cansado e transpirando, escorou-se no balcão.

— Boa tarde, cavalheiro.
— Um momentinho.

O funcionário, absorto, mantinha os olhos fixos no relógio da parede. Faltavam cinco minutos para as duas. Quando enfim o ponteiro maior encaixou-se entre o um e o dois de meio-dia ou da meia-noite, o funcionário virou-se para o visitante e ordenou:

— Pode começar tudo de novo.

Encantado com tanta exatidão, o visitante sorriu, mas obedeceu.

— Boa tarde, senhor funcionário.
— Que Deus lhe dê em dobro tudo o que o senhor me desejar, senhor... como é mesmo que o senhor disse que é seu nome?
— Eu ainda não disse meu nome.
— Pois então não percamos tempo, que já são catorze horas e dois minutos e o expediente de hoje vai ser foda. Nome, por favor.
— Adão do Jardim Edênico.

O funcionário não declinou sua graça e Adão ficou decepcionado. Bem se vê, pensou ele, que é um empregado subalterno, sem as sutilezas de comportamento que só uma boa escola pode ensinar.

— Muito bem, seu Adão, e o que o traz até nós?

Nem sombra de embaraço, agora, por ser homem e demonstrar a simplicidade de quem não possui um diploma. Além do mais, o piso do primeiro andar era de cerâmica vermelha e a iluminação vinha de uma lâmpada fluorescente. Mesmo o letreiro, acima do balcão, era impresso com letras negras em uma cartolina branca. Nada do que causava a intimidação da entrada.

— Água, só água. Estamos sem água há mais de um mês, lá em casa, e o meu pomar...
— Perdão, cavalheiro, mas não tenho tempo para ouvir histórias. Quero síntese, entende? Síntese.

Adão começava a impacientar-se, por isso gritou.

— Eu vim aqui fazer uma reclamação.

O funcionário sorriu vitorioso.

— Ah, sim, agora começo a entender. O senhor veio aqui fazer uma reclamação, não é mesmo?
— Foi o que eu disse.
— E quem o mandou à nossa seção?
— Aquele monumento de mulher, que se eu não fosse casado há tanto tempo, não sei, não, mas acho que até poderia convidá-la para juntos cometermos algumas loucuras.
— Quem!? — interrompeu o funcionário, batendo o carimbo no balcão.
— A recepcionista.
— Correto. Era isso mesmo que supunha. Passe-me o papel então.
— Que papel?
— O senhor não veio até aqui entregar uma reclamação?
— Vim.
— Então, passe-me o papel.
— Mas por que um papel?

O funcionário sorriu novamente, mas agora, irônico.

— Me diz uma coisa, seu Edênico, o senhor é daqui mesmo?
— Como, daqui?
— O senhor mora aqui na cidade?
— Bom, moro mais ou menos.
— Mais menos do que mais?
— É. Acho que é.
— Onde.
— No Jardim do Éden.
— Bem que eu vi. É gente da periferia.
— Alguma coisa de errado nisso? Não são vocês, por acaso, que garantem o abastecimento d´água no meu bairro?
— Não, não é nada disso. É que o senhor não leu o letreiro aí em cima.

A impaciência raiava à revolta

— Claro que li!
— Então, e o que está escrito?
— Protocolo.
— Aí, tá vendo? Protocolo. E o que o senhor pensa que nós fazemos aqui na seção?
— Sei lá!
— Pois eu explico.

O funcionário respirou fundo, muniu-se de paciência e começou a explicar.

— Olhe, seu Adão, no Protocolo, a seção mais importante desta Prefeitura, nós protocolamos. Sem nosso serviço, os despachos ficariam todos engavetados, os requerimentos jamais chegariam aos destinatários, as reclamações não teriam por onde entrar, as execuções ficariam paradas. Sem nós, seu Adão, a vida na cidade seria impossível. Entendeu?
— Entendi.
— Pois bem, então vamos, o papel. Sem ele eu não posso protocolar.
— Mas eu não trouxe papel nenhum.
— E onde está a reclamação, meu amigo?
— Aqui, na minha cabeça.

O funcionário coçou o queixo, olhos enviesados, coçou a cabeça, catou um piolho na barriga e mastigou mostrando os dentes alvos.. Apertou um botão do interfone e, em voz baixa, conversou por várias horas com o chefe da seção. Por fim, virou-se para Adão e jorrou peremptório.

— Impossível.
— E posso saber por quê?
— Claro. É nosso dever manter os munícipes bem informados. No dia dois de fevereiro do ano em curso, o Mui Digníssimo Senhor Prefeito Municipal assinou um projeto, em seu Gabinete do Prefeito, que enviou à Egrégia Câmara de Vereadores no dia seguinte.

Os senhores Edis Municipais, em sessão do dia treze de março, deste mesmo ano em curso, aprovaram por unanimidade e devolveram ao Gabinete do Prefeito, com o número protocolar 24.68/32, o projeto retro citado, que, no dia seguinte, depois de sancionado, passou a incorporar o Código de Posturas Municipais, sob o número 404/1313.

— Sim, mas e daí?
—Daí, que estamos, nós do Protocolo, terminantemente proibidos de protocolar sua cabeça.
— Puta que os pariu! Eu não sou personagem de romance absurdo. Eu só quero água lá em caixa!

O Chefe da seção passava, paletó no ombro, e parou surpreso.

— Parece que ouvi gritos!

O funcionário, respeitoso, perfilou-se para responder.

— Com sua permissão, senhor Chefe. É este senhor aqui, de quem já lhe falei. Ele veio fazer uma reclamação, mas não trouxe nada por escrito.

O Chefe da seção, fingindo em tudo um comportamento bem educado para que ninguém desconfiasse de que não tinha diploma e que, se ocupava o cargo, era por ser amigo do Prefeito, sacudiu a cabeça lastimando a sorte do Adão.

— Sinto muito, senhor munícipe, mas o expediente acaba de encerrar-se. Só amanhã poderemos resolver o seu caso.

Nisto de expediente encerrado, o funcionário tirou o avental branco, sumiu por instantes no banheiro e de lá voltou de paletó, penteado, um riso faceiro na cara. Estatuado, Adão fitava os pés.

— Nós precisamos fechar a Prefeitura. O senhor vai ou fica?
— Fico.

Os dois se entreolharam assombrados.

— Mas isto não pode.

Adão pressentiu que era seu momento de desforrar-se

— Como não? Me digam: qual o capítulo, o artigo, o inciso, a alínea do Código de Posturas em que se proíbe alguém de ficar?

No Protocolo, como nas demais seções, os funcionários eram obrigados a saber de cor os itens que lhes diziam respeito. A situação, assim, ficava complicada. O Chefe e seu subalterno afastaram-se cinco passos para confabular. Como nenhum dos dois conhecia o Código em sua íntegra, resolveram consultá-lo. Adão sentou-se ali mesmo, ao rés do balcão, enquanto os dois empreendiam uma exaustiva investigação.

Tarde da noite, ao virarem a última página do Código, o Chefe concluiu:

— Se não diz que não pode, é porque pode. Boa noite.

Na manhã seguinte, o assunto já encaminhado na véspera, foi tudo bem mais simples. Resolveram que Adão não estava obrigado a protocolar coisa nenhuma e fosse conversar diretamente com o Engenheiro, atual Secretário Municipal do Abastecimento de Água e Derivados. Adão alisou a folha de parreira, que começava a murchar, e foi em busca do Gabinete do Secretário.

Depois de ouvir da quinta secretária que entrasse para a sala seguinte, suspirou aliviado, achando que finalmente encontraria o homem. E mais aumentou sua convicção de que estava no caminho certo, porque foi recebido na porta por uma bandeja de cafezinho e em seguida perguntaram-lhe se preferia uísque escocês ou nacional. Atravessou uma sala imensa e vazia, acarpetada por dez centímetros de calor, e aproximou-se da mesa de jacarandá da Bahia, móvel cujo estilo brigava com tudo que vira até ali.

— A que devemos a honra de sua visita? — gritou um homem de cabelos grisalhos.

Mesmo sem ter ouvido direito o que o outro dissera, Adão fiou-se no rosto simpático e contou sua história.

— Infelizmente este assunto não é comigo.

Desapontado, Adão consultou o relógio na parede: faltavam poucos minutos para encerrar-se o expediente.

— Com quem eu devo falar, então?
— Com o Engenheiro.
— Puxa vida, até que enfim nos entendemos. E onde eu o encontro?
— Ele saiu há quatro semanas em um périplo de vilegiatura pelos Estados Unidos.
— Porra! Como, nos Estados Unidos?!
— Sim, é lá que ele se encontra.
— E quem está no lugar dele?

O homem que o atendia, talvez um adjunto para questões eleitorais, soltou uma gargalhada.

— Seu pensamento, meu amigo, é anti... ou ante, e agora?

Ligou o interfone para a Secretária Sênior, que já se tinha ido, e contentou-se com Marina, a Secretária Júnior.

— Dona Marina, é anti ou ante?
— Depende, Doutor.
— Ora essa, mas depende do quê?

A voz eletrônica e ardida lascou sua explicação.

— A professora disse que se é antes do dilúvio, é ante-diluviano; mas se for contra veneno de cobra, é anti-ofídico.
— Ora, tenha a santa paciência, dona Marina! Não estou falando de cobra nem de dilúvio. Eu quero dizer que é contra a ciência.

O aparelho ficou mudo por alguns momentos.

— Perdão Doutor, mas disso ela nunca falou.
— Sei, sei. De qualquer forma muito obrigado.

Desligou o interfone e confidenciou a Adão:

— Estas secretárias juniores são umas mulas. Sem a sênior, não sei no que viraria isto aqui. Mas de que mesmo que estávamos falando?

Restavam apenas três minutos e Adão suava.

— O senhor dizia que o meu pensamento...
— Ah, é! Pois então, senhor Adão, o seu pensamento é contra a ciência, porque sua pergunta contraria as leis da física. Dois corpos, senhor Adão, não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo. Ninguém pode estar no lugar do Engenheiro.

Adão arrancou desesperado os últimos fios de pentelho.

— Pois bem, se eu não posso falar com o Engenheiro, porque ele não me ouviria de tão longe, com quem mais posso falar, que resolva o meu problema.

O Doutor, já de pé, preparando-se para ir embora, ainda respondeu.

— Com Deus.
— Não, com Deus não falo. Ele já não quis me quebrar o galho por causa de uma porra de uma maçã bichada, nem pensar na ajuda dele, neste caso.
— Sinto muito. Não tenho outra sugestão.

E saiu, sem ao menos perguntar se Adão saía ou ficava.

Duas semanas circulando pelos corredores de todos os andares, abrindo e fechando portas e janelas, apresentando-se a todo ser movente que encontrava, já era amigo da cozinheira, da servente, da recepcionista, dos chefes de seção, dos sub-chefes, do caixa, dos adjuntos e adjetivos em geral, dos substantivos e subtítulos licenciados, das secretárias das secretárias, das próprias, do Vice e do Prefeito. Nada mais natural, portanto, que fosse convidado a ocupar (e aceitasse) o cargo de Secretário Municipal de Abastecimento de Água e Derivados, no lugar do Engenheiro, cujo avião, de volta ao Brasil, mergulhara no Oceano, e cujo atestado de óbito acabava de ser protocolado sob o nº 24.69/ diga 33, para posterior encaminhamento ao arquivo, morto.




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POR EM 08/08/2009 ÀS 01:53 PM

Da arte de perguntar

publicado em

Muitas vezes perguntar é mais difícil do que responder. Mesmo assim, o mundo está coberto de perguntadores de tipos os mais variados. Alguns bons, com perguntas inteligentes, claras; outros, contudo, bem... melhor contar a história.

Em um Salão de Ideias, repete-se uma cena bem freqüente nas entrevistas a que tenho assistido. Quando o mediador é um jornalista inexperiente e ainda está entusiasmado com seu ofício, atropela o entrevistado sem dó nenhum. Aliás, situação bem comum nos melhores e mais sérios canais de televisão. Conheço entrevistadores de largo curso que continuam trabalhando com o mesmo frescor juvenil de quem começa, isto é, usam o entrevistado como pretexto para exibirem seu vasto repertório de conhecimentos.

Na penúltima “Bienal do Livro de São José do Rio Preto”, estávamos falando de literatura, uma das poucas praias que freqüento, quando uma senhorita de ar inteligente, provavelmente mestranda em alguma coisa que não consegui descobrir o que era, levantou o braço pedindo o microfone e lascou:

“Nos últimos tempos venho estudando as transformações comportamentais de algumas faixas etárias em relação ao meio ambiente. Em meus estudos, parti da premissa de que toda mudança encontra resistência por parte daqueles que teoricamente deveriam ser os transformados, isto é, justamente os mais interessados na questão. Consegui isolar alguns casos atípicos e os comparei ao que ocorre com as plantas em situações adversas. Empregando a ciência estatística e, com base em observações já realizadas na Inglaterra, cheguei à conclusão de que a resistência a qualquer tipo de mudança é natural, diria mesmo, uma necessidade do ser em questão. É o instinto da sobrevivência que motiva tal comportamento, uma vez que toda mudança pode esconder algum tipo de ameaça. Ainda não tive oportunidade de ler nenhum livro seu, mas me parece que o senhor tem alguma opinião sobre o assunto. O senhor concorda com meu raciocínio?”

— Concordo — respondi, e, em constrangido silêncio, esperei até que alguém se animasse a fazer novamente alguma pergunta sobre literatura.


 


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POR EM 01/08/2009 ÀS 11:58 AM

Em busca do tempo perdido

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Houve um tempo, não muito distante, em que fui perseguido tenazmente por uma mesma pergunta. Nas dezenas de entrevistas a que fui submetido, lá vinha ela. Já parecia que a quilometragem rodada por semana era o principal traço de meu caráter. Dezenas de vezes tive de responder que rodava mil e quinhentos quilômetros por semana. E isso não pareceria nada estranho aos repórteres se eu fosse um motorista profissional: sou professor. Mas à força de tanta repetição, a pergunta começou a fazer significado. “Repetitio mater sapientia est”, dizia minha velha professora de latim, repetindo os romanos antigos, conceito que, nestas épocas em que a memória quase descendeu à condição de vício humano (como se fosse possível a sobrevivência sem ela), é bom que se repita de vez em quando.
 
O significado que a pergunta começou a formular em minha consciência, contudo, eclodiu há alguns dias, quando uma repórter de sobrolho erguido, com ar meio incrédulo, acrescentou, Mas então quantas horas o senhor passa dentro do carro a cada semana? Pronto, estava estabelecido o conflito íntimo. A partir de então comecei a fazer cálculos, a estabelecer porcentagens, comecei a me torturar. Quanto tempo da minha vida estava jogando fora por semana, por mês, por ano? Os resultados me deixavam os fios restantes de cabelo de pé. Muito nítida a sensação de que eu era um perdulário da própria vida.
 
Torturei-me durante algumas semanas com essa idéia. Pensei até em mudar de profissão. Jogar fora pela janela das estradas meu precioso tempo, pareceu-me de uma irresponsabilidade sem perdão.
 
Ontem me lembrei de um poema daquele mágico que nós chamávamos de Mário Quintana, e que hoje brilha ali perto do Cruzeiro do Sul. Um poema lido há muitos anos e nunca mais encontrado. Era sobre a passagem do trem por uma estaçãozinha. Havia os que chegavam e havia os que partiam. Além deles havia os que não chegavam nem partiam, apenas ficavam sonhando com o mundo além, o mundo possível se houvesse a coragem de partir. E ele arrematava com uns poucos versos em que dizia não importar a estação de partida nem a de chegada. O que vale mesmo, dizia o mago do Caderno H, é a viagem.
 
A vida, meu caro, a vida aprende-se é na poesia. Os poetas são estes seres de olhar assustado porque veem tudo e, de vez em quando, quase que distraidamente, erguem uma pontinha do tapete para que vejamos um pouquinho do lado de lá.
                     
O poema do Mário Quintana devolveu-me a paz. Sem me sentir culpado por estar jogando fora a vida pela janela do carro, voltei a usar o tempo das travessias, em que o corpo está preso e condicionado a uns poucos movimentos mecânicos, para soltar a imaginação. Assim é que, no azul do céu quase sempre azul debaixo do qual costumo viajar, começaram a surgir revoadas de palavras que aos poucos e aos bandos se combinam, pintam cores e formas, botam algumas idéias respirando e de pé.  
 


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