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MENALTON BRAFF
EM 12/12/2011 ÀS 02:01 PM
Mais de duas horas aqui sentados neste barranco de rio sem qualquer sinal de vida, qualquer mensagem, as boias ali à toa na superfície da água, nos encaramos desistentes. As promessas não se cumpriam, apesar de nossa paciente insistência. O sol, estilhaçado e frio, cai sobre o remanso de onde esperávamos alguma notícia. É um momento meio triste, pois o dia definha irreversível e com alguma lentidão: morrente.
Sabe o quê, a gente, pra não perder a viagem, ainda pode nadar um pouco. E as roupas começam a voar para cima dos arbustos. Mas eu não sei nadar muito bem, alega meu amigo para justificar sua relutância em se jogar na água. Mesmo assim, já está pelado, a pele branca arrepiando-se com a brisa que desce das copas escuras, então arroja seu corpo de pele branca na direção da água e levanta um turbilhão de pingos que aproveitam os restos do dia para brilhar no espaço antes de se misturar novamente ao sorvedouro. A água é quase sempre uma alegria do corpo: o prazer despudorado.
Soltei os braços puxando o rio para trás, com a velocidade de quem quer chegar: o fingimento dos músculos. A cabeça ora afundava ora emergia acima da correnteza, os pés em movimentos rápidos, um ritmo só. Atravessei o remanso e o sorvedouro, e de lá, do outro lado, aonde o mato vem molhar os pés, grito para meu amigo que não tente a mesma reta. O caminho mais longo pode ser o mais seguro. Volto na mesma velocidade pela parte mais funda do rio, atravesso a correnteza e subo a uma pedra escura em função de plataforma. Do alto, aonde cheguei em poucos segundos, solto um berro de vitória: guerreiro. Então me jogo novamente no rio.
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MENALTON BRAFF
EM 09/09/2011 ÀS 11:38 AM
Isso não é privilégio de nossa cidade. Cenas idênticas tenho visto em toda parte. Mais fácil acreditar que seja característica de nosso tempo. O beijo de bico de minha época, que os jovens de hoje apelidaram de “selinho”, o beijo de boca, discreto ou cinematográfico, isto é, de perder o fôlego, de todos conheço como de todos experimentei. Sem esquecer o beijo de língua, o mais sensual de todos. Poderia ser chamado de beijo-véspera com muita propriedade. Pois outro dia fiquei assombrado ao presenciar um beijo de língua. Não por ser muito moralista, é que o beijo se deu entre uma garota e um cachorro. Meu liberalismo tem limites e meu estômago é fraco.
O que a língua andou limpando momentos antes ou se a proprietária contraiu cinomose, nada disso importa na hora do beijo, que é a demonstração maior de carinho. Aliás, me cochichou agora meu anjo da guarda, dizendo que cinomose é doença de cachorros e não costuma acometer mocinhas que os beijem. Na boca e com algum requinte cuja razão desisti de entender. Mas antes que me acusem de anticanino, devo declarar que sempre amei os cães e foram muitos os que tive. E juro que nunca usei de crueldade com eles. Se não foram inteiramente felizes em minha companhia, é porque não entenderam que em nossas relações jamais abdiquei de meus direitos. Mesmo quando os afagava, e o fazia com frequência, mantinha alguns princípios, como o da hierarquia, em vigor.
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MENALTON BRAFF
EM 29/08/2011 ÀS 10:29 AM
Lembro-me de meu pai, depois do almoço, contando coisas da vida para os filhos. Lembro-me dele contando que o Coelho Neto tinha uma fascinação tão grande pela palavra inusual, imprevista, pela palavra desconhecida, que, ao ouvir qualquer uma delas, tratava logo de anotá-la para uso futuro. Contava meu velho que certo dia, sem papel à mão, o escritor anotou a palavra no punho engomado da manga da camisa.
Poucos anos mais tarde, os jovens iconoclastas do Modernismo levantaram a bandeira da fala das ruas, da literatura que se aproxima da fala popular.
Diante de tais extremos, não há como não lembrar Machado de Assis. Em seu texto “Instinto da Nacionalidade”, pontifica o mestre: “Mas se isto é um fato incontestável, e se é verdadeiro o principio que dele se deduz, não me parece aceitável a opinião que admite todas as alterações da linguagem, ainda aquelas que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma. A influência popular tem um limite, e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razão.” Ele acabava de dizer, no parágrafo anterior: “Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes.”
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MENALTON BRAFF
EM 16/08/2011 ÀS 11:20 AM
Uma das coisas mais aborrecidas a que tenho assistido ultimamente é o desfile das estatísticas. Claro, estou falando de futebol.
Alguns canais não conseguem transmitir um jogo sem que usem o direito de nos encher a paciência. Vocês devem-se lembrar do que estou falando.
O Palmeiras está jogando com o Flamengo no Maracanã. A certa altura do jogo, o narrador começa: O Palmeiras já jogou cinquenta e sete vezes com o Flamengo, obtendo quinze vitórias e sofrendo igual número de derrotas. Os dois times empataram vinte e sete vezes. Quando o jogo é no Parque Antártica, o Palmeiras leva ligeira vantagem. Dos vinte e seis jogos em sua casa, o Palmeiras venceu oito, empatou doze e perdeu seis vezes. E isso, somando-se os jogos do Campeonato Brasileiro e os da Copa do Brasil. A situação inverte-se no Maracanã. O alviverde venceu sete vezes, sofreu nove derrotas e conseguiu quinze empates. Ou seja, o Flamengo, em sua casa, fala mais grosso.
Meu amigo Adamastor, o obscuro, por ter assistido à passagem do Vasco da Gama pelo Cabo das Tormentas antes de virar clube de futebol, sempre tem explicação para tudo. É o tédio do jogo, ele afirmou. Eles não têm o que dizer, por isso ficam recitando esses números. Já imaginou um telespectador vendo o jogador caído fazendo careta e apertando o joelho, cercado por amigos e inimigos (antigamente eram adversários), juiz, enfermeiros, médicos e tudo mais de que se necessita em uma hora dessas, e o narrador sem ter jogadas para narrar? Ou naquelas ocasiões em que a bola foge das quatro linhas e lá veem os segundos em que o gandula (seu time está ganhando) finge não encontrá-la? Dizer o que, numa hora dessas? Os comentários do comentarista já foram repetidos dezenas de vezes. Os mesmos. Pois é essa exatamente a hora da estatística.
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MENALTON BRAFF
EM 01/08/2011 ÀS 10:32 AM
Pedi emprestados os olhos de Usbek para observar melhor o entorno. Para quem não leu Montesquieu (e eu confesso que só li as “Cartas Persas”, mas os estudantes de Direito, pelo que se saiba, todos eles leem o pai da matéria), Usbek é uma personagem de que se utiliza o autor para falar de Paris. Já devo ter comentado por aí que o forasteiro vê em nosso meio o que nós mesmos não vemos. Nossos sentidos, anestesiados pelo hábito, não percebem aquilo que nos rodeia. Você já tentou fazer o itinerário de todos os dias com os olhos abertos? É uma experiência sensacional. Usbek era um persa que vivia em Paris e via nos franceses o que os franceses não viam.
Logo que recebi emprestados os olhos de Usbek, uma das coisas que vi é que os moradores de certa cidade, cujo nome prefiro omitir, sofrem de uma leve megalomania, de uso corrente na cidade, praticada com a naturalidade de quem toma um copo de água. Tudo, ali é maior ou melhor. Não quero ferir suscetibilidades, por isso não vou falar de rodoviária, de clubes de futebol y otras cositas más. A cidade e seus cidadãos têm virtudes, claro, e sou um admirador da cidade, mas acho que tenho o direito de descrever seus defeitos. Mesmo sendo um forasteiro. Ou talvez por isso mesmo. Os românticos (e estou falando de escritores brasileiros que escreveram entre 1836 e 1881) disseram que o Brasil é o maior país do mundo. Não é. Que nosso céu tem mais estrelas. Não tem. Muito tempo acreditamos que nossos bosques têm mais vida. Têm? Gigante, céu estrelado, mais vida, foram ideias bairristas que sem ou com malícia esses autores nos impingiram como verdades. E as crianças, coitadas, repetem isso até hoje sem o menor senso crítico, lógico, pois são crianças.
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MENALTON BRAFF
EM 12/07/2011 ÀS 08:58 PM
Na década de 1970, Vinícius de Moraes já era um poeta e músico mais ou menos conhecido no Brasil e famoso, muito famoso, na Europa. Sua “Garota de Ipanema”, só para se ter uma ideia, foi durante muito tempo uma das músicas mais tocadas no mundo inteiro. Eram tempos em que o gosto musical do brasileiro ainda não tinha sido invadido pelos fulano e sicrano. Porque então vieram botas e chapéus de aba larga, bem à moda texana e nos tornamos um sítio de mais de oito milhões de quilômetros obtusos.
Mercê dessa fama, Vinícius viajava muito, apresentando-se em teatros de muitos países, para cantar, falar apenas, declamar seus poemas. Homem vivido, cultura vasta, não era difícil encantar as mais variadas plateias. Quem conta este episódio é Chico Buarque de Hollanda. Estava morando na Itália, quando Vinícius apareceu para um show.
Vinícius falava muitas línguas, mas atrapalhava-se com os falsos radicais, misturava um pouco uma língua com outra. A semelhança sonora induz o falante a pensar que é a mesma coisa. Intend, em inglês é pretender, ao passo que pretend é fingir. Confundir, como o Vinícius muitas vezes confundia é a sina de quem viaja muito. Seu nome, nessa época, causava furor entre o público italiano. Bom de palco, descontraído, bom de papo, lá vai o Vinícius de Moraes com seu indefectível copo de uísque na mão.
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MENALTON BRAFF
EM 01/07/2011 ÀS 02:15 PM
Quase todos nós passamos a vida buscando dar-lhe, à vida, um sentido ou, pelo menos, procurando descobrir o sentido que ela pode ter. “Ser” era o verbo que no passado se conjugava com o maior respeito. Então vinha uma lista de virtudes que acompanhavam sempre o bom homem. São muitas e conhecidas, as virtudes, desnecessário, portanto, desenrolar o rol delas. Aristóteles, em seu “Ética a Nicômaco”, praticamente esgotou o assunto.
Mas então veio o capitalismo selvagem e consumista, e a maioria das pessoas encontrou no consumo a conjugação do verbo “ter”. Depois do verbo, a imensa lista dos bens. Agora, o bom homem passou a ser aquele que conseguisse possuir a melhor parte da lista imensa. Nas teorias econômicas o valor já teve (e talvez ainda tenha) a companhia de vários adjetivos. Um deles era (ou é) a locução “de uso”. O valor de uso teve a competição do valor-trabalho, além do valor de troca, e a confusão estava feita, com teorias digladiantes e inconciliáveis. Pois bem, nenhum desses valores (nem o valor de uso) entraram mais na conta do consumista inveterado. Ele não compra objetos, senão o prazer que o ato de comprar proporciona, pois comprar significa dispor de poder. Em ambos os casos, as pessoas, ou sua maioria, conjugavam esses verbos aí como o sentido enfim descoberto para a vida. Hoje, evoluímos. Nem “ser” nem “ter” dão algum significado à vida da imensa maioria das pessoas. O verbo que dá sentido à existência, hoje, é o verbo “aparecer”. Nem seu cognato “parecer”, nem ele, satisfaz mais quem quer que seja. De que me adianta parecer se não apareço?
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MENALTON BRAFF
EM 21/06/2011 ÀS 11:39 PM
Alunos de Letras debatem-se entre duas correntes que coexistem de maneira conflituosa. De um lado, aqueles que defendem a gramática normativa, achando que o aluno do ensino básico deve aprendê-la, que o professor de Português deve corrigir o que antigamente se chamava erro, e que hoje se chama apenas desvio da norma culta. Do outro lado, uma corrente que se vem tornando cada vez mais forte, a daqueles que, aproximando-se da Linguística, propugnam por um ensino da língua materna como meio de expressão, sem privilegiar este ou aquele dialeto, sem corrigir nada porque não existe erro.
Não me meto, é óbvio, nessa briga, por absoluta falta de maior formação teórica no assunto. E antes que você confunda minhas divagações, declaro que não estou pensando na cartilha do MEC, que tanta celeuma tem causado. Aliás, cartilha que não li, mas que foi lida por meu amigo Adamastor. Segundo ele, o que aconteceu foram leituras descontextualizadas e parciais, pois em nenhum momento o “desvio da norma culta” é dado como proposta de linguagem que se deva empregar. Isso é lá com eles, que ainda gostam de uma boa briga. Não quero nem posso tomar partido, pois o assunto me chegou pelas asas de pombos e gaviões. Para mim, contudo, que estudei num tempo em que aprendíamos latim, que sabíamos o que era sujeito e predicado, e mais, que não se usa vírgula entre os dois, para mim fica uma espécie de nostalgia dos tempos em que escrever requeria certo tipo de conhecimento, que se pode chamar de conhecimento da ferramenta. Ora, se não existe erro, basta que se queira dizer alguma coisa para que se tenha o direito de dizer. Nada de avaliação.
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MENALTON BRAFF
EM 13/06/2011 ÀS 11:04 AM
Um dos pilares do existencialismo sartriano é a ideia da responsabilidade. Sem ela, é inviável a liberdade. Somos responsáveis por nossos atos e fim de conversa. Não adianta ficar acusando Deus, o destino; de nada adianta acusar os pais, o namorado, o professor. Cada um deve assumir a autoria de suas escolhas e de suas ações. E mesmo quando você aliena a terceiros seu direito de escolha, está escolhendo a escolha de terceiros. Por razão bem simples: é muito duro admitir o próprio erro. Se algo não dá certo, você continua um ser irrepreensível, pois foram outros que fizeram a escolha e errada, e será então possível dizer: Bem, se fosse eu quem tivesse feito a escolha...
Essa introdução de caráter geral conduz a uma verdade nem sempre aceita: muitas vezes o caminho para alcançar o destino é escolha pessoal. “Destino”, aqui, não com o sentido de força inelutável, mas significando o fim do caminho. E é claro, não estou fazendo qualquer referência à morte como opção, como solução para problemas insuperáveis. Isso daria uma bela polêmica, mas em outro lugar. Quero comentar é a escolha por ignorância ou imprudência. Não faz muito tempo, assisti a uma cena que vai tornando-se comum: três jovens, abastecido seu carro, saíram da lanchonete do posto com braçadas de latinhas de cerveja. Sou de um tempo em que se acreditava na incompatibilidade entre bebida e direção de automóvel. Se você é dos que julgam como atrasada essa crença, pois bem, então éramos atrasados. Só por ser desse tempo foi que me espantei. Claro, no tempo de que falo dirigir embriagado era proibido. Consequência lógica: não se vendia bebida alcoólica em posto de combustível. Alguém pode me retrucar dizendo que hoje ainda perdura a proibição. Sei, mas acontece que no Brasil as coisas são proibidas apenas para que a população tenha o gostinho da infração.
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MENALTON BRAFF
EM 18/05/2011 ÀS 09:42 PM
Não, não falo com plantas. Elas muito provavelmente não entendem o português, ou pelo menos o português contemporâneo, esta língua que nós falamos. Se na Idade Média as camponesas falavam com as “froles do verde pino”, isso é um problema lá delas. Na Idade Média aconteceram coisas tenebrosas e não é impossível até que as “froles” tenham respondido às perguntas ansiosas das servas. Mas se elas se entendiam em galego-português, por que raios deveriam entender-me agora, se nós não entendemos o que eles diziam então?
Não falo com as plantas. Mas elas têm muito o que nos ensinar. Em sua mudez sem pressa, sem necessidade de nenhuma palavra, podem nos dar muitas lições.
Uma das lições, aprendi hoje de manhã.
Debaixo da escada que sai da sala para o andar superior, resolvemos colocar algum verde aqui mesmo, dentro de casa. Plantamos um pé de filodendro e dois de bromélia. As folhas do filodendro, verde escuro e brilhante, pareceram respirar satisfeitas, protegidas que estavam, agora, do sol inclemente, deste sol de arrebentar mamona. Tornaram-se mais verdes e mais brilhantes, e se eu fosse de acreditar em alma de plantas, umas almas vegetais, acreditaria até que elas sorriem sem parar, satisfeitas com o ambiente que lhes destinamos.
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