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MENALTON BRAFF
EM 29/04/2010 ÀS 10:19 AM
A avenida Anhaia Melo, em São Paulo, praticamente nasce na favela da Vila Prudente. Houve uma época de minha vida em que era aquele meu caminho da roça. O trânsito, naquele local, é muito intenso, pra não dizer vertiginoso. Os carros que descem o viaduto vêm despencando sem dó, pois vão cair em uma reta bem longa. Só que, cinqüenta metros além, está um semáforo. Pois é nesse farol que uma multidão de bacuris ganha a vida. Alguns deles, dizem, representam a única renda familiar. Não sendo repórter, nunca tive a curiosidade suficiente para investigar a veracidade disso. Mas, sendo ou não verdade, é pelo menos verossímil. Na breve parada dos carros, lá vêm eles limpando pára-brisas, vendendo balas e tudo que é bugiganga. Os olhos arregalados, o discurso decorado, a coreografia do improviso.
Muitas vezes vi aquelas canelas finas trocando passo às pressas, com a planta do pé aparecendo e sumindo como se fossem verdadeiras máquinas. Frágeis máquinas de viver. Eles correm entre os carros, se for preciso pulam por cima do capô. Mesmo com o semáforo a favor do fluxo da avenida, os garotos a atravessam com uma ginga de fazer inveja a qualquer Ronaldo da vida. É um drible veloz, um jogo de corpo de toureiro. Passa um carro e o menino corre, pára entre duas faixas, olha para o lado, corre mais um pedaço, finalmente pula exultante na calçada do lado de lá. Mais uma vitória contra a morte que ronda o tempo todo, lambe-se gulosa e volta pra casa insatisfeita.
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MENALTON BRAFF
EM 09/04/2010 ÀS 09:38 AM
A escola, como a conhecemos hoje, está na sua juventude. A verdade é que, na Idade Média, quando as crianças ainda não se queixavam por ter de ir à escola, e era inexistente a necessidade de conhecer o alfabeto e seus correligionários, os valores éticos eram de transmissão oral. A sabedoria popular, como se costuma denominar esse tipo de conhecimento ingênuo da vida, era veiculada pelos ditados populares.
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, para incutir persistência (supostamente uma virtude). Supostamente, é claro, pois o filho do meu vizinho, que persiste em desobedecer aos pais, brindando-os com os mais cabeludos palavrões, não acredito que mereça ser chamado de virtuoso. Quem espera sempre alcança, é o que se costuma dizer para aqueles cuja esperança já está acabando. E o mundo está cheio de casos de uma vida inteira à espera sem ter alcançado coisa alguma.
Pois bem, até hoje crescemos ouvindo essas jóias da tradição oral e, à força da repetição, os ditados tornam-se verdades indiscutíveis. Para uma grande parte da população é assim. Não foram mordidos por aquela curiosidade de abrir para ver o que tem dentro. Era isso o que estávamos discutindo ontem à tarde no bar do Ranulfo, lugar em que costumamos libar enquanto desvendamos os mistérios da raça humana.
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MENALTON BRAFF
EM 01/04/2010 ÀS 10:38 AM
Todos vocês devem saber quanto é difícil, em determinadas situações, manter a esperança. Eu, de minha parte, tenho alimentado algumas esperanças fazendo um esforço que me protra e me deixa extenuado. Não sei até quando vou poder suportar o peso dessa “ferida verde” como a caracterizou minha amiga, a poeta Ruth do Carmo.
Há muito tempo as pesquisas vinham apontando o brasileiro como um leitor de 1,8 livros ao ano. É pouco, muito pouco. Principalmente se tivermos em conta que o argentino lê alguma coisa aí por volta dos 8 livros no mesmo tempo. Atualmente se fala em 4,9 e a gente precisa fingir que não sabe ter havido mudança nas técnicas de pesquisa, comparando-se, agora, laranja com abacaxi, ou melhor, somando-se dez laranjas com cinco abacaxis, quantas laranjas são? Apesar disso, quando me perguntam o que penso da leitura no Brasil, procuro mostrar-me otimista, dizendo que é preciso olhar a curva de tendência, que já foi pior do que está, que tem muita gente trabalhando para reverter essa realidade, e essas coisas todas de alimentar esperança. E para não ficar só na palavra, faço-me soldado da cruzada do incentivo à leitura. Tenho feito isso na sala de aula e fora dela. Tenho perdido algum tempo com o assunto. Mas esperança é um desgaste muito grande de energia. Manter a panela fervendo, exige muito combustível. E eu, que já me alimentei de muito mito, acabei ficando um ser desconfiado de minhas próprias crenças.
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MENALTON BRAFF
EM 19/03/2010 ÀS 09:05 AM
Isto me acontece com certa frequência: jovens que me assediam querendo saber, então, como é que é? O mundo do livro, em um país onde ele é artigo de luxo reservado a poucos privilegiados, conserva umas sombras misteriosas com que a moçada não se conforma e tenta iluminar. Quase sempre consegue apenas obscurecer. Rebelde sem causa, então, bate no dedão do próprio pé pensando que atinge a cabeça de quem viveu antes, também foi rebelde e agora prefere a doce e merecida paz conquistada com ou sem suor.
O último que me atacou com suas dúvidas queria saber se era possível alguém escrever um livro sem ter lido nenhum. Sim, porque na escola aprende-se o funcionamento da representação gráfica dos sons das palavras. Em geral, qualquer egresso de escola sabe ler e, muitas vezes, escrever. Tive de responder que, bem, impossível, inteiramente impossível não é. Uma vez que tenha frequentado uma escola e saiba traduzir em letras os fonemas de alguma língua, o essencial já está feito. Seus olhos brilharam vitoriosos. E imaginei que fosse um de seus projetos. Meu lado mau não deixou barato. Mas um livro desses eu não leio, acrescentei para estragar sua alegria.
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MENALTON BRAFF
EM 03/03/2010 ÀS 11:01 AM
Levantei hoje com aquela sensação na boca do estômago geralmente chamada de náusea, que é a sensação causada pela certeza de que o planeta dá voltas em volta de si a uma velocidade terrível, e que a história, este cronicão das sociedades que vieram depois da pré-história com seus registros, não fica atrás dando voltas como louca.
Como andei fossando em livros que relatam a queda de impérios, para escrever meu romance “A Muralha de Adriano” (que não é um romance histórico quanto aos fatos, mas tem um viés alegórico relacionado à queda dos impérios), me vieram à lembrança aspectos do Império Romano em seu processo de decomposição.
Em geral quando se pensa na invasão do Império Romano atribuída aos bárbaros, imagina-se uma horda de homens de cabeleiras loiro-sujas montados em cavalos semi-selvagens que, a galope e aos gritos, ultrapassa as fronteiras do Império devastando plantações de trigo, destruindo pontes e estradas, ateando fogo nas aldeias, estuprando belíssimas e virginais camponesas romanas. Enfim, invasão de bárbaros deve ser uma invasão bárbara. E o cinema ajuda muito a manutenção de algumas falsas verdades.
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MENALTON BRAFF
EM 25/02/2010 ÀS 02:37 PM
Houve um tempo que tudo me parecia eterno. Era um mundo parado, sem movimento, em que o verbo esgotar não entrava. Meu pai era um homem imenso, seus poderes não tinham limite. Era um tempo e um mundo muito confortáveis. Não tinha muita consciência de mim mesmo, quando acordava para a vida, e me parecia que os seres, como eu, teriam para sempre o mesmo formato e o mesmo tamanho congelado com que os via.
Depois vieram tempos mais modernos, em que a desconfiança passou a gerir os negócios dos homens. A desconfiança e a convicção de que um dia não haverá mais florestas, então os rios poderão estar secos; não haverá mais água potável, porque os aquíferos já foram poluídos ou também secaram. Tempos secos, serão aqueles. O Loyola, quando escreveu “Não Verás País Nenhum” estava profetizando, ele, que não é um profeta profissional, mas como diletante tem acertado muito, pois estamos bem perto das bolhas de calor que ele descobriu antes de todos nós. Alguém viu onde foi parar a gasolina? Só os mais velhos, conservados ainda como arquivos da memória humana, só eles ainda saberão o que era a gasolina. Vivemos em tempos de buracos negros, de camada de ozônio, de tsunames, el niño, e tantos outros tormentos com que a natureza nos ameaça. Nossos avós deitavam-se à noite e dormiam pensando em um mundo amigo, meio compadre da gente. Nossos avós. Porque os avós de uns outros por aí dormiam pensando em como transformar a natureza em lucro. E transformavam.
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MENALTON BRAFF
EM 08/02/2010 ÀS 05:05 PM
Somos um povo sonhador. Estamos sempre sonhando com algum milagre, com algum “meu tio da América”, como no filme de Alain Resnais. E isso vem de muito longe, de muito antes de 1385, quando cada português pensou que merecia pelo menos um marquesado.
Meu compadre Adamastor, o gigante mais bem informado a respeito de sonhos, afirmou outro dia ser herança do cristianismo. Desde cedo, dizia ele, estamos ouvindo frases feitas e bonitas, muito feitas e ainda mais bonitas, histórias exemplares, hagiografias, enfim, toda sorte de textos de nossa formação cristã e ocidental, que nos induzem a estar sempre à espera de um milagre. Ah, os milagres! Que mal fizeram a esta humanidade portuguesa e brasileira! Quem espera sempre alcança, a esperança é a última que morre e outras frases reforçando nossa crença de que algo além de nossa força e de nosso esforço vai acontecer dando solução a nossos problemas. Quantas e quantas vezes “quem espera” não alcança nada, pois esperando não sai do lugar! E a esperança pode ser verde, mas murcha e seca e morre, contrariando o ditado popular.
Não duvido de meu compadre, mas me lembro daquele rei D. João I, de Portugal, o Mestre de Avis, que, depois de 1385, levantado o cerco de Lisboa, danou-se a conceder títulos de marquês, conde, visconde a antigos mesteirais (barbeiros, tanoeiros, celeiros e tantos outros eiros). Desde então, nós, mais ou menos portugueses, e plebeus, estamos sempre à espera de algum rei que nos conceda um feudo, com castelo, gado, plantações e servos. Em suma, esperamos um milagre.
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MENALTON BRAFF
EM 23/01/2010 ÀS 11:03 AM
Um amigo, dos poucos que me restam, outro dia me disse que, tentando ser irônico, eu não consigo passar do sarcasmo. E o sarcasmo é grosso, pesado, ele acrescentou, com a certeza de quem acaba de inventar a roda. Meu caro, a grossura e o sarcasmo, se você ainda não percebeu, estão aí a nossa volta para ver quem quiser.
Só pra não viajar muito, veja o que vem acontecendo com as artes brasileiras, principalmente as ditas artes populares. A não ser que você seja fã do Tigrão e congêneres, então dou um tapa nesta máquina e vou dormir. Você já prestou atenção aos sambas-enredo? O Stanislaw, meu caro, o Stanislaw Ponte Preta foi um dos maiores profetas, não, poeta, não, eu disse profeta, deste país varonil. Seu “Samba do Crioulo Doido” deveria entrar como um dos livros do segundo testamento.
Dias atrás apareci em um evento, coisa que muito pouco tenho feito, e ouvi um ex-político, com a facilidade verbal que a maioria deles tem quando há público, afirmou que o povo brasileiro vai-se acanalhando. É um povo, são palavras dele, de chapéu na mão e sorriso calhorda, à espera das migalhas debaixo da mesa. E é claro que a mídia, sobretudo a eletrônica, que depende de índices de audiência para sobreviver, é claro que essa mídia não é inocente no caso. Os ratinhos da vida andam por aí, ditando gosto, lotando auditórios, olhando pra baixo.
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MENALTON BRAFF
EM 15/01/2010 ÀS 10:52 AM
Encerrei o ano de 2009 lá pelo dia 15 de dezembro, claro, porque daí em diante tudo era festa. Encerrei o ano pensando em férias e de férias pretendia ficar pelo menos até o fim de janeiro. Sombra e água fresca no fundo do meu quintal. Foi então que descobri ser a alienação um estado involuntário. De nada adianta querer: é preciso ser. Eu fugia do mundo, mas ele continuava traiçoeiramente a me enredar.
2010 nasceu sob o signo de grandes desastres. Signo maldito que se repete a cada 365 dias com modificações apenas na superfície. Logo no início deste ano, o Brasil abalou-se com os estragos causados pelas chuvas. Angra, São Luís de Paraitinga, Agudos foram nomes que frequentaram a mídia por muito tempo. Muitos prejuízos sendo o maior deles as vidas que se apagaram. Geógrafos, geólogos, políticos sugerem sempre as mesmas medidas necessárias e que não serão tomadas. O povo tem memória curta, em março ninguém mais vai se lembrar do assunto.
Em janeiro acompanhamos o desenrolar da novela Arruda e os 40 ladrões que tinha começado no ano anterior. A desfaçatez dos protagonistas, seu imenso cinismo, são causas para indignação. Como podem zombar a tal ponto da opinião pública? Bem, poder eles podem, talvez com justa razão: nas próximas eleições lá estarão eles reivindicando nossos votos e muitos de nós, brasileiros, vamos continuar a elegê-los. Eles sabem disso. Agora as notícias que nos chegam do Haiti. Tanta miséria sem a colaboração da natureza já não era suficiente? Um desastre de proporções desconhecidas neste lado do novo mundo.
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MENALTON BRAFF
EM 09/10/2009 ÀS 02:14 PM
De que maneira, não sei, o certo, entretanto, é que precisamos trazer de volta o Stanislaw Ponte Preta. Ou seu espírito. E com urgência. Esteja ele onde estiver, porque o Brasil vem sendo assolado por uma enxurrada de besteiras que está ficando difícil de suportar. Precisamos de alguém com a verve e o humor do Stanislaw para que os besteirocratas não se sintam assim tão à vontade. É necessário que sintam pelo menos um pouquinho de medo do ridículo para que nos deixem em paz.
Ontem à noite, não me lembro por que, mas estava na frente da televisão quando minha casa foi invadida por um desses, como dizer... um desses pacóvios sarados sem muito treino na arte de pensar. O garotão veio anunciar uma festa que acontece em Santa Catarina e informou que os organizadores esperam um consumo de quarenta e cinco mil litros diários de chope durante os dezessete dias da festa.
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