Ambição excessiva
Nossos valores, geralmente formados e sedimentados na infância, eram transmitidos pela família, pelas histórias que se ouviam ao redor da mesa depois do jantar. Meu velho, enquanto viveu e eu meninei, gostava de contar-nos histórias, e, entre aquelas de que mais gostava estavam as histórias de Pedro Malasartes, tradição que nos veio da Idade Média europeia. Histórias exemplares, quase sempre, porque se sabe que é mais fácil reter na memória uma narrativa do que um conceito abstrato. Tenho certeza de que todos os discursos a respeito da ambição excessiva que você ouviu e eu também ouvi, já foram esquecidos. Mas uma história, ah, isso até hoje eu ainda posso repetir.
Aborrecido com o que Pedro Malasartes fizera com sua filha, a princesa, o rei condenou-o à morte por afogamento. Preso no interior de uma barrica, lá foi o Pedro, de carroça, na direção do lago real. Nas vizinhanças do lago havia uma taverna, e os dois funcionários encarregados da execução da sentença real resolveram que a hora era boa para uns copos de vinho. Espiando pelas frestas da barrica, Pedro Malasartes tudo viu. Neste momento aproximava-se uma carruagem ricamente ornamentada. Em sua boleia, ao lado do condutor, vinha um jovem que, por suas vestes, era de alta estirpe.
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Dia desses, um jornal diário publicou uma crônica em que este antigo rabiscador (atualmente um digitador) propunha um dia para se homenagear a sogra. A resposta não me veio de sogra nenhuma, mas de uma intelectual das mais respeitadas da região, cujo nome declino por não estar autorizado a expô-la à sanha popular. Essa intelectual, que é minha amiga, mandou-me um emeil fazendo-me o reparo ao informar que o Dia da Sogra já existe e que é o dia 28 de abril. Agradeço pela informação, prometo marcar o dia em meu calendário e ainda sugiro àqueles que, como eu, adotaram a mãe de seu cônjuge como sua segunda mãe que façam o mesmo. Elas merecem.
Depois de um período conturbado em que me envolvi com algumas viagens, umas tantas palestras e a tirania de uma dor enjoada na altura da articulação do fêmur com a bacia ilíaca, voltei às minhas caminhadas. E logo no início do retorno, me lembrei das aulas de anatomia, no Ginásio, quando ficava questionando por que tinha de aprender essas coisas, se não queria ser médico? A vida ajuda a superar tais questionamentos, pois não foram poucas as vezes que tive de mexer em eletricidade, anatomia, ácidos e bases e por que não?, até com trigonometria. Como a gente se engana com aquela idade.
Que a expressão significa alguma coisa como tarde demais ou algo parecido, isso toda gente sabe. Um prazo vencido, uma oportunidade perdida, algum acontecimento irreversível, e lá vem alguém e diz: Agora Inês é morta.
A avenida Anhaia Melo, em São Paulo, praticamente nasce na favela da Vila Prudente. Houve uma época de minha vida em que era aquele meu caminho da roça. O trânsito, naquele local, é muito intenso, pra não dizer vertiginoso. Os carros que descem o viaduto vêm despencando sem dó, pois vão cair em uma reta bem longa. Só que, cinqüenta metros além, está um semáforo. Pois é nesse farol que uma multidão de bacuris ganha a vida. Alguns deles, dizem, representam a única renda familiar. Não sendo repórter, nunca tive a curiosidade suficiente para investigar a veracidade disso. Mas, sendo ou não verdade, é pelo menos verossímil. Na breve parada dos carros, lá vêm eles limpando pára-brisas, vendendo balas e tudo que é bugiganga. Os olhos arregalados, o discurso decorado, a coreografia do improviso.
A escola, como a conhecemos hoje, está na sua juventude. A verdade é que, na Idade Média, quando as crianças ainda não se queixavam por ter de ir à escola, e era inexistente a necessidade de conhecer o alfabeto e seus correligionários, os valores éticos eram de transmissão oral. A sabedoria popular, como se costuma denominar esse tipo de conhecimento ingênuo da vida, era veiculada pelos ditados populares.
Todos vocês devem saber quanto é difícil, em determinadas situações, manter a esperança. Eu, de minha parte, tenho alimentado algumas esperanças fazendo um esforço que me protra e me deixa extenuado. Não sei até quando vou poder suportar o peso dessa “ferida verde” como a caracterizou minha amiga, a poeta Ruth do Carmo.
Isto me acontece com certa frequência: jovens que me assediam querendo saber, então, como é que é? O mundo do livro, em um país onde ele é artigo de luxo reservado a poucos privilegiados, conserva umas sombras misteriosas com que a moçada não se conforma e tenta iluminar. Quase sempre consegue apenas obscurecer. Rebelde sem causa, então, bate no dedão do próprio pé pensando que atinge a cabeça de quem viveu antes, também foi rebelde e agora prefere a doce e merecida paz conquistada com ou sem suor.
Levantei hoje com aquela sensação na boca do estômago geralmente chamada de náusea, que é a sensação causada pela certeza de que o planeta dá voltas em volta de si a uma velocidade terrível, e que a história, este cronicão das sociedades que vieram depois da pré-história com seus registros, não fica atrás dando voltas como louca.