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MENALTON BRAFF
EM 14/12/2010 ÀS 10:06 PM
O Adamastor me fez lembrar que todos nós nos entregamos à mórbida preferência por ver os vícios e defeitos humanos. E para exemplificar o que me dizia apenas como conceito, começou a citar filmes e livros, sobretudo filmes com sucesso de bilheteria. Mas é o pobrismo, hoje moda no Brasil, rebati. Bom que fosse só isso, refletiu meu amigo. E continuou dizendo que o facínora fascina porque comete o que muitos gostariam de cometer, sem coragem de arrostar a sociedade e arcar com as consequências.
Me lembrei dessa conversa com meu amigo, ontem de manhã. Como todos os dias, minha mulher e eu vamos de carro até certa avenida onde caminhamos por cinquenta minutos em passo acelerado. Antes do exercício, costumamos fazer alongamento. Colocamos as duas mãos empurrando o carro e as pernas se contorcem para soltar os músculos renitentes e infensos ao gosto do exercício. Agora reconheço: a posição em que trabalhamos as pernas é um pouco estranha.
Pois ontem, em pleno alongamento, vimos uma jovem mulher, não mais de vinte e cinco anos, atravessar a avenida olhando para nós, com semblante preocupado. Ao se aproximar, ela perguntou para a Roseli: A senhora não está se sentindo bem? Eu moro aqui perto, vamos até lá em casa.
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MENALTON BRAFF
EM 07/12/2010 ÀS 10:51 AM
Afirma o Adamastor, reflexivo como compete a um gigante da sua estirpe, que a civilização de qualquer forma acabaria conduzindo a humanidade a esse beco escuro, sem saída e perigoso. A solidão cósmica acabaria, mais cedo ou mais tarde, transtornando o ser humano que, à guisa de consolo, anula-se com um desprezo também sideral, elegendo outros seres para o digno posto de protagonistas do mistério da existência. Seres com anima, movimento próprio e que se reproduzem sexuadamente.
Agora, ele continua, começam a surgir grupos cada vez maiores defendendo a ideia, de aparência ingênua, de que é suma maldade o homem servir-se de animais, seus irmãos, como cobaias. Matam-se coelhos, ratos e macacos, para salvar a vida deste reles ser, deste ser desprezível que é o homem. Experiências em laboratórios com animais deveriam ser proibidas, pois eles são nossos irmãos.
Para sermos coerentes, diz meu amigo, imagino que comer frango, churrasco de carne bovina, comer ovo de galinha ou uma bela costeleta de porco, tudo isso também pode ser considerado como verdadeira agressão à parentalha. Os açougues deverão ser fechados, matadouros proibidos e o confino de animais, de todas as espécies, extirpado da face da Terra.
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MENALTON BRAFF
EM 01/12/2010 ÀS 05:13 PM
Quem relata, é uma professora de cidade vizinha, município com menos de vinte mil habitantes. Seus alunos ainda não conheciam cinema, apesar de viciados em televisão, e ela resolveu levá-los a um shopping de uma cidade maior, em viagem civilizatória. Enfim, civilização pressupõe, entre outras coisas, o consumo dos bens criados pela inteligência humana. O filme era bom, segundo seus parâmetros de julgamento, um filme de sucesso. Os próprios alunos o escolheram. Como geralmente acontece, a escolha deveu-se à badalação da imprensa, que prefere julgamentos de quantidade a considerações de qualidade. O filme já fora visto por tantos milhões etc e continuava atraindo multidões ao cinema por seu aspecto espetaculoso.
Como é praxe acontecer nesses casos, antes do cinema são necessárias duas visitas: uma chegadinha à lanchonete e outra ao banheiro. Não há primeira visita a um shopping Center sem essas duas chegadinhas. No meio de um filme, aparecer criança choramingando de fome ou pedindo para a “tia” para fazer xixi, ah, não, é de estragar a festa. De admirar, a prudência dessas professoras de cidade pequena, que preparam seus roteiros baseadas na experiência com crianças. Até a lanchonete, nada de extraordinário: comeram salgadinhos, tomaram refrigerante e estas coisas todas que se costuma fazer num estabelecimento comercial do gênero. O problema foi no banheiro. As meninas não saíam mais. Todo mundo ali no corredor, com cara de quem espera alguém que foi ao banheiro, que é uma cara muito especial. E nada de as meninas aparecerem.
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MENALTON BRAFF
EM 23/11/2010 ÀS 12:39 PM
Choveu muito esta noite, uma chuva monstruosamente pesada. Hoje de manhã, a primeira coisa de que me lembrei foi do filhote de andorinha que tinha aparecido na varanda, chamando a mãe. Ele não tinha idade tampouco natureza para me tomar por protetor de coisa nenhuma.
Saí para o jardim a fim de ver se descobria alguma pista do passarinho, mas pareceu-me que ele conseguira fugir. De manhã cedo, quando o sol ainda não se torna veneno, andar pelo jardim é como estar no Éden sem saber. Abri moitas de impatienses, vasculhei molduras de pingo de ouro, examinei o interior de um tufo de barba-de-bode e só encontrei ausências. Já estava feliz com a vitória daquele serzinho insignificante, quando vi, rente ao muro, uma bolinha preta, imóvel, meio opaca. Era o filhote, rígido, inteiramente morto. Sua cabeça tentava penetrar numa barreira de azedinhas, que, por muito densa, não dera entrada e proteção àquele ser frágil, incapaz de resistir à chuva.
Lembrei-me, então, de uma das mais belas crônicas daquela que foi uma das mais belas cronistas do Brasil. Cecília Meireles, com a mão leve que tinha, descreveu seu encontro casual com um cachorro doente, em “Um cão, apenas”. Da crônica da Cecília Meireles desci assustado para minha experiência empírica imediata, enquanto removia o diminuto corpo sem vida, que, enrolado em meio metro de papel higiênico, foi jogado no cesto de lixo. Como não pensar, numa hora dessas no destino de alguns seres, humanos ou não?
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MENALTON BRAFF
EM 16/11/2010 ÀS 03:49 PM
Ontem apareceu um filhote de andorinha na varanda aqui de casa. Como chegou até aqui, não imagino. Sei que elas, as andorinhas, andaram rondando meu telhado, mas daí a ocupá-lo sem permissão me parece uma invasão ilegal. O filhote piou com tal intensidade que, mesmo sem saber ainda tratar-se de um filhote de andorinha (com sua capa escura e o peito branco) me botei a procurá-lo. Encontrei o filhote escondido atrás de um vaso de calanchoê. Ele ficou imediatamente mudo, pois, em lugar da mãe, o que lhe apareceu foi um monstro horrível. Imagino que nesse momento estivesse arrependido de haver piado, pois pio sempre denuncia. Assim é a vida. Os antigos diziam que bom cabrito não berra. E acho que não berram para não se denunciarem.
Levei a mão aberta em sua direção, num gesto que qualquer um deveria entender tratar-se de uma oferta de ajuda, mas que a avezinha, em sua profunda ignorância dos gestos humanos, quem sabe com profundo conhecimento dos mesmos, interpretou como ameaça à sua pequena vida. Saiu batendo as asas, que foram feitas para cortar espaços, ou para planar em longos e suaves círculos, mas elas ainda não tinham treinado o suficiente. Enfim, sua vida era ainda pequena. Mal conseguiu uma altura de mais ou menos um metro, já teve de aterrissar, por causa do cansaço. Mas ele tinha uma vida a preservar, por isso manteve-se atento.
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MENALTON BRAFF
EM 10/11/2010 ÀS 07:49 PM
O Adamastor me chegou indignado, outro dia, com o que leu no Quincas Borba. Às vezes me esqueço que já estou aposentado e recomendo algum livro ao meu amigo. Mas como, vociferava ele, um escritor, reputado como o maior entre os escritores brasileiros, teve o cinismo de escrever uma coisa dessas! Perguntei assustado a causa da gritaria e meu amigo confessou que estava lendo aquele livro de Machado de Assis, e por recomendação minha. Quase sempre me esqueço de que, quando meu amigo lê, já sei que vou ter problemas. E o Adamastor é daqueles (a maioria das pessoas) que confundem o papel de um ator com sua vida civil, e qualquer pensamento em um livro com o pensamento do autor. Sem contar que a confusão entre narrador e autor é ainda maior.
Quincas Borba é uma personagem irônica, expliquei, figura comum na literatura de Machado. Aproveitei para uma pequena introdução à leitura do texto literário. Não se deve ler literatura ao pé da letra. Os sentidos estão quase sempre escondidos nos escaninhos do discurso. Ambigüidades, ironias, eufemismos e tantos outros recursos de retórica fazem parte do que há de lúdico na literatura, ou seja, participam de sua literariedade. Tive a impressão de que não fora suficientemente claro, pois meu amigo sacudiu a cabeça em movimentos horizontais, provavelmente significando que não, não concordava com nada daquilo.
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MENALTON BRAFF
EM 02/11/2010 ÀS 02:16 PM
Ás vezes me aparece aqui em casa o Adamastor, meu amigo gigante, para serrar um cafezinho, uma cerveja, um bate papo em disponibilidade. Ao sentar-se, ontem, desconfiei de que não vinha com sede, pois sua testa trazia estampada uma pergunta, pela qual não tive de esperar muito.
Você não acha que um ano político prejudica a economia? perguntou e ficou com os olhos cravados em mim. Cocei a cabeça. Economia não é minha praia, isso é lá com os economistas, me deu vontade de dizer. Então pedi a ele que prestasse bastante atenção porque em sua pergunta havia uma impropriedade vocabular, e esse sim, esse é assunto de minha área de interesse.
Ele abriu um pouco a boca, mas, além de dentes, nada mais se encontrava lá dentro. Era apenas, como eu já sabia, sua cara de esperar explicação. Fechei a pasta onde procurava um texto antigo de que estava precisando e o encarei. Como eu não fosse dar resposta imediata e direta àquilo que o preocupava, ele disse que aceitaria um cafezinho. Tomamos o cafezinho que encomendei em silêncio escuro e quente. Política, expliquei por fim, é a ciência referente aos fenômenos do Estado, como mais ou menos dizem todos os dicionários. E isso num sentido bastante restrito, porque Carlos Nélson Coutinho, filósofo brasileiro, afirma que todo ato com repercussão no outro é ato político. O Adamastor remexeu-se impaciente na poltrona. O assunto, na forma como o desenvolvia, não era de seu agrado.
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MENALTON BRAFF
EM 26/10/2010 ÀS 10:58 PM
Nada contra a posse de bens, mesmo os materiais, pois sem eles a vida seria impossível. Quanto aos bens espirituais, bem, sem eles vive-se tanto quanto vivem patos e marrecos, bois e cavalos, e alguns bípedes muito encontradiços em nosso meio. A busca de bens materiais é natural, se deles dependemos. O que causa espanto, desalento, o que causa descrença nesse pequeno ser que se chama humano é ver como algumas pessoas vendem a alma ao diabo. Não, não vou falar de literatura, que por ela já passeei bastante ultimamente. Não vou falar do Fausto, tampouco do Riobaldo, famosas personagens que se deixaram seduzir pela ideia de que o diabo podia ajudá-los a alcançar algum objetivo em troca da alma, que a ele deveriam entregar após a morte. A venda da alma de que me ocupo é outra. Falo da sedução exercida pelo mercado e que conquista muitas almas. Nos dias que correm (e céleres) pode-se dizer que o mercado conquista a grande maioria das almas.
O ser há muito perdeu sua importância. Vivemos, como já se disse por aí, numa época em que ter vai conquistando a maioria dos corações. Pior ainda. Há quem diga que parecer, nos dias atuais, é o canal, a verdadeira causa de satisfação. Talvez seja, mas o que me ocupa agora é o modo fácil como a maioria absoluta da população é capaz de sacrificar afinidades, valores éticos, amizades, prazeres, sonhos e encantamento pela posse de um objeto qualquer. E muito qualquer. Quase nunca um objeto que lhe trará algum benefício. Não aprendemos com a semiótica que se compra não o objeto, mas sua significação? Em outras palavras, compra-se o objeto que dê status, a marca que dê prestígio, isto é, compram-se aparências.
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MENALTON BRAFF
EM 19/10/2010 ÀS 12:17 PM
Numa época em que a maioria dos casamentos eram muito mais arranjos familiares do que impulso e atração pessoais dos nubentes, estamos no século XIX, os escritores românticos pintaram o amor com as cores da pureza e os pincéis da fidelidade. Aliás, em algumas correntes o amor sofre algum tropeço para não chegar a seu corolário sexual.
Em “Eurico, o presbítero”, de Alexandre Herculano, Eurico busca a morte voluntariamente ao enfrentar os mouros, sem couraça ou elmo; e sua amada, Hermengarda, enlouquece ao ver-se entre o dever e o amor. Pouco depois, Camilo Castelo Branco, daria a morte a Simão e Teresa, antes que os amantes se tocassem a não ser com olhares distantes.
Com ou sem intenção, o fato é que se tentava amenizar o peso do matrimônio por interesse com as tintas fortes de sua sacralidade. Romances de amores-paixão, como o “Amor de Perdição”, de Camilo, funcionariam como elemento catártico, como ocorre até hoje, sobretudo com as novelas de televisão. Tudo aquilo que não posso viver na realidade, vivo na imaginação. E com isso, mantinham-se em razoável estado de saúde os sagrados laços matrimoniais. São raros os casos, nesse período, de histórias em que aparece alguém cometendo adultério. E quando isso acontece, é com intenção moralizadora, é para denunciar as fraquezas humanas.
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MENALTON BRAFF
EM 12/09/2010 ÀS 06:16 PM
Lúcia era seu nome de guerra. Na pia batismal chamaram-lhe Maria da Glória, nome que usou até os dezessete anos, época em que as circunstâncias de sua vida forçaram-na a esquecer sua madrinha, a Nossa Senhora da Glória.
Até aquela idade, teve uma vida comum, de menina que estuda apenas o suficiente enquanto espera o amadurecimento para tornar-se esposa e mãe, uma dona de casa para ser acrescentada como um número nas estatísticas demográficas. Na escola, durante o Ensino Médio, experimentou cigarro e sentiu a boca muito amarga, ficou duas ou três vezes com meninos da classe, conhecendo alguns amassos masculinos em exercício de maturidade. Repetiu, até então, o que via e ouvia em sua volta. Nunca tivera vocação para rebeldias além daquelas de ficar um almoço sem comer, para a aflição da mãe, por não lhe terem permitido passar o fim de semana em excursão com os colegas de classe.
O pai foi sempre um homem trabalhador, taciturno mas honesto, cumpridor, sem mancha alguma em sua ficha. Enfim, trabalhar pouco mais de vinte anos na mesma empresa era façanha admirada por parentes e amigos. Um dia, entretanto, a empresa teve de enxugar-se e enxugou-se nas costas de alguns de seus empregados com toalha infelizmente muito áspera. Pairava sobre os lares uma fumaça ameaçando crise mundial e o pai de Maria da Glória inchou o dedo médio batendo em portas fechadas.
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