Desenho de  Wendy MacNaughton
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Menalton Braff

POR EM 20/03/2011 ÀS 02:10 PM

Consumo involuntário

publicado em

Estou pensando seriamente em viajar semana que vem. Mas viajar para muito longe, provavelmente para alguma região da Amazônia, lá onde se pode ficar a cem quilômetros de qualquer outro ser humano senão da família. Trocar buzinas pelo canto do uirapuru, o concurso de aparelhos de som automotivos pelo marulho de algum córrego entre as pedras.

Disse ontem exatamente isso ao Adamastor e ele me olhou muito espantado. Sei muito bem o sentido de seu olhar: ele acha que estou ficando louco. E ele tem razão. A vida entre seres humanos invasivos vem corrompendo meu juízo. Todos os habitantes de qualquer cidade, ou quase todos, expõem seus ruídos despudoradamente, tornam-se produtores públicos de barulho, certos de que temos necessidade deles.

Vivemos, sobretudo nos centros urbanos, mesmo os mais suburbanos, a falta de respeito que tem caracterizado nossa época. Ninguém mais se lembra de que a vida em sociedade só foi possível até hoje porque existiam normas de conduta em que um respeitava o espaço do outro. Hoje, qualquer um chega e vai entrando em sua casa, sem pedir licença, sem perguntar se você, o eventual ocupante daquele lugar, está a fim ou não de consumir o que ele vai impingindo, queira-se ou não.


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POR EM 03/03/2011 ÀS 01:55 PM

Confissão de um fraco

publicado em

Nunca me imaginei tão fraco como agora me descubro. Sem querer imitar o Estrangeiro que não parava de fazer perguntas ao Teeteto, para que entre ambos houvesse comunidade de entendimento, preciso começar determinando com mais clareza que tento me referir. É claro que existem muitos tipos de fraqueza e só me confesso fraco para alguns dos tipos. Se me ausculto, por exemplo, procurando fraquezas físicas, não encontro grande coisa. O desgaste natural da máquina, lógico, vai-se tornando evidente. Também não tenho mais dezenove anos. Um joelho perrengue, já farto de tanto trabalho e exigindo sua aposentadoria, uma vista da qual as principais virtudes debandaram, o ouvido que fica procurando lábios alheios com a insistência de quem gostaria de não perder o que se diz, e por aí vai. Nada que um bom geriatra não consiga lenir. E, se não conseguir, devo encarar como natural a curva descendente.

Não, não é na carcaça que encontro a fraqueza, mas em órgão que geralmente não se mostra em público, e que, às vezes, quando cheio, ameaça estourar. Enfim, ainda não se fabricam de aço. E um presidente da república, um dia, disse que o tinha roxo. Mas a cor não interessa, no caso, e sim sua resistência. Do meu já anda perto do fim.


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POR EM 20/02/2011 ÀS 12:58 PM

Companheiras inseparáveis

publicado em

Chavão, para o que nos interessa, não é aumentativo de chave. Uma chave muito grande. Segundo mestre Aurélio, chavão é a “Sentença ou provérbio muito batido pelo uso.” Existem palavras que parecem não conseguir sobreviver sem alguma companheira. São as companheiras inseparáveis, aquelas que deslustram o estilo e enfraquecem a eficácia do texto. Esse título, aí em cima, pode ser usado como exemplo. É um clichê. Se você duvida, preste atenção, entre outras coisas, às entrevistas de jogadores de futebol. Pelo menos da maioria. “Vamos dar uma alegria à torcida”, “Vamos fazer o que o professor mandar” e assim por diante. Caramba, “assim por diante” é mais um chavão.

Você já viu, por exemplo, na descrição de uma pessoa, a qualificação de “frio” sem que viesse acompanhada de “calculista”? Parece que toda pessoa fria deve também ser calculista. Você, é claro, conhece o adjetivo “ingente”, mas já encontrou alguma vez tal palavra no plural sem que viesse antecedida pelo substantivo “esforços”?

O mesmo acontece com “abalizada”, que logo chama sua companheira “opinião”. É claro que não se precisa falar dos “com certeza” da vida, ou os “por conta de”, modismos que a televisão se encarrega de divulgar, e que as pessoas de escasso vocabulário têm necessidade de copiar. É muito tentador, mas não vou falar daquela aberração que é a estrutura “amanhã vamos estar enviando”, cópia horrorosa que algumas secretárias treinadas nos Estados Unidos fizeram do “tomorrow we ara going to send”, que é um tipo de futuro correto em inglês ou qualquer coisa semelhante. Felizmente a fase de macaquice de algumas pessoas vai arrefecendo, e já pouca gente, exceto vendedores, telefonistas e recepcionistas, continua usando essa fórmula indecente.


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POR EM 15/02/2011 ÀS 06:25 PM

Como se fazem os heróis

publicado em

Nunca dou muito crédito às histórias que o Adamastor me conta, mas algumas delas são interessantes. Esta que aí vai é exemplar. E as histórias exemplares tanto podem ser verdadeiras como ficção que isso pouco importa. O Aristóteles já dizia que o poeta está mais próximo da filosofia do que o historiador. Não sou ninguém para duvidar do Aristóteles.

Na cidade onde o Adamastor nasceu, ele me conta que conheceu um vizinho, bombeiro, homem pacato, sem vocação nenhuma para gestos grandiosos, altos cometimentos. Um bombeiro que não se tratava propriamente de um gigante. 

Uma tarde terrivelmente quente de verão, a corporação de seu conhecido foi convocada para debelar as chamas de um incêndio e tentar, ao mesmo tempo, o resgate de duas, três pessoas que ainda permaneciam lá dentro, por trás do fogo, o que era mera ilação justificada pelos gritos que se ouviam e que pareciam vindos do inferno.

Sob o comando de um sargento, alguns bombeiros começaram a jogar água no prédio em chamas, enquanto outros entravam desassombradamente pelos corredores escuros de fumaça. A multidão, em volta, olhava pasma para tudo aquilo, sem nada poder fazer. Alguns, para chegar um pouco mais perto, traziam lenços molhados com que aliviar o calor do rosto e evitar muita fumaça nos pulmões. 


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POR EM 08/02/2011 ÀS 07:26 PM

Cidade à noite

publicado em

Na sacada aqui de casa, fiquei parado contemplando a cidade à noite. Há muito tempo não fazia isso: contemplar. Nossa visão torna-se veloz como os meios de comunicação, e o muito que vemos é pouco mais que o nada que sabemos. Perdemos o hábito de olhar, e ver já nos basta. Mas eu estava com calor e não tinha nada de urgente com que me ocupar. Por distração, fui acabar na sacada. À noite. Vultos distantes, luzes que hesitavam, sombras sobre a Terra. Aos poucos fui perdendo o sentido do aqui, numa espécie de vertigem, como estar solto no espaço, como ter desenterrado os pés do barro em que geralmente os mantemos. E, na medida em que desaparecia qualquer ligação com a proximidade, com o entorno que nos corporifica, mas que também nos aprisiona, nesta mesma medida o agora foi perdendo sua lógica.

Desligado, por fim, de minha condição de um ser envolvido pela concretude da existência, pareceu-me poder ouvir simultaneamente cada suspiro, cada gemido produzido no interior dos milhares de casas de que se compõe a cidade. Senti que havia um pulsar de vida em cada uma das janelas que se recortavam na escuridão, que ali, onde a vista percebia apenas pequena mancha de luz, existiam sonhos e planos e desilusões e frustrações, acertos e erros, maldade e bondade, que tudo junto é a massa de que somos formados.


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POR EM 25/01/2011 ÀS 10:45 PM

Carta às icamiabas

publicado em

Não sei onde foi, que ultimamente ando bastante desatento, mas li qualquer coisa sobre as icamiabas. Ora, só conhecia essa palavra em apenas um contexto,  não houve como escapar ao humor marioandradino, que só não o teve bom quando brigou com o Oswald, o debochado.

Em sua conhecida “Carta às icamiabas}”, capítulo do romance “Macunaíma”, que ele preferiu chamar de rapsódia, Mário de Andrade critica o fato de se falar uma língua e se escrever em outra. Bem, naquele estádio, quando se iniciavam os estudos linguísticos, pareceu uma crítica aceitável. Mas hoje, depois dos estudos das linguagens, depois de Saussure, Martinet e todos que lhes seguiram os passos, tenho certeza de que o autor teria outra visão dos fatos. A verdade é uma donzela, às vezes bela, às vezes horrorosa, e que, camaleoa, nunca é hoje o que foi ontem nem o que será amanhã.

A presença física tem um grau de riqueza na comunicação que jamais será alcançado pela escrita. A voz, suas intenções, os gestos (quem disse que mão não fala?), as expressões faciais, o mover dos olhos, enfim, uma infinidade de detalhes que enriquecem o ato da comunicação oral que não são encontrados na língua escrita. A oralidade é por natureza, senão por necessidade, reiterativa, redundante.


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POR EM 18/01/2011 ÀS 01:12 PM

Carne levare

publicado em

Ainda não descobri se vai ser em fevereiro ou março. Até hoje não sei o mecanismo da alegria que às vezes cai num mês e no ano seguinte temos de nos alegrar em mês diferente. Sei que alguém tem firme e seguro o calendário nas mãos e exerce o controle sobre nossa alegria, mas também não sei quem tem esse poder.

É provável que dessa expressão aí acima tenha vindo a palavra carnaval. “Afastar a carne” seria seu significado. E carne, aqui, com toda certeza no sentido de corpo, nesta dualidade que nos impuseram: o corpo em oposição à alma. O carnaval tem sua origem provavelmente nas celebrações ao deus Dioniso, na Grécia, ou Baco, em Roma. Tais celebrações tinham a forma de festas orgiásticas em que o vinho liberava os costumes e tudo era permitido. Afirmam os estudiosos do assunto que era uma válvula de escape para o peso da civilização.

Quanto mais desenvolvida a civilização de um povo, maiores serão os impedimentos, as proibições, os encargos. Quanto mais civilizado um ser, mais preso fica a regulamentos, a imposições de toda ordem. A duplicata no banco, o aniversário do filho do amigo, os beijos nas faces, as frases convencionais. Sua memória fica entupida de números e senhas, de procedimentos adequados ou não. Nostálgico de sua vida primitiva e livre, o homem tinha necessidade de deixar-se conduzir pelos instintos vez por outra para não arrebentar. A embriaguez era o caminho mais rápido.


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POR EM 05/01/2011 ÀS 02:50 PM

Cara de tacho

publicado em

Se você nunca se sentiu com cara de tacho, não precisa ler esta crônica até o fim, pois quem não passou por tal experiência não vai entender o que certa vez se passou comigo. Esta é uma história que ninguém me contou. Eu a vivi ao vivo com as cores do rubor da face.

Era a década de setenta e eu já andava com mania de escrever. Mania que me vinha de longe e de que não consegui até hoje me desfazer. Descobri, já nem me lembro como, lá perto da PUC de São Paulo, uma livraria frequentada, principalmente, por escritores e aspirantes. Estar entre eles, pensei, me fará não um igual, que não tenho tanta pretensão, mas, pelo menos, e num grau mais baixo, um assemelhado. Comprei alguns livros, fiz amizade com o Wladyr Nader, dono da livraria e hoje professor de jornalismo na PUC de São Paulo, tomei algumas cervejas com famosos e outros nem tanto num barzinho ao lado da livraria.

Quase todo sábado, meu dia de folga, marcava ponto na Livraria Escrita. Foi lá que conheci o João Antônio, num lamentável lançamento de livro (chovia canivete de ponta naquela sexta-feira tenebrosa); o Dyonélio Machado, de passagem por São Paulo bateu papo com a gente; o Jamil Almansur Haddad, depois de ter lançado na França, veio à livraria do Wladyr lançar o “Avis aux Navigateurs”.


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POR EM 31/12/2010 ÀS 11:32 AM

Caminhando e cantando

publicado em

Continuo caminhando, apesar de todas as minhas objeções muito bem fundamentadas, porque ninguém pode ficar parado. Se o espírito já voa devagar, nada melhor do que botar o corpo em movimento. E para que a sensação de perda (de tempo) não me estrague o dia, como às vezes acontece a qualquer vivente, abro olhos e ouvidos bem abertos e colho em minha tarrafa peixes de todo tipo e tamanho.

Ontem cruzei com um velhinho de outros tempos, que já viu e viveu até o que não existe mais, a não ser nele mesmo. Pelo menos foi essa a idéia que me ocorreu quando o ouvi gritar, em plena avenida: veeeer-durei-rooo. A melodia de sua voz, bem, não há como reproduzi-la aqui, mas é a mesma que, resistente, também vem atravessando a bruma dos tempos. Oh, já ouvi essa mesma canção quando adolescente, num dia em que estava namorando na praça, os livros em uma das mãos e o coração na outra. Depois de ter feito minhas primeiras barbas, ela, a melodia, me tirou da cama em uma manhã de domingo, quando me agradaria muito corrigir os excessos da noite levantando só depois do meio-dia. Na medida em que os anos me ressecavam a pele e branqueavam o cabelo, esses apelos foram sumindo, cada vez mais esmagados pelos modernos supermercados. Os velhinhos vendendo nas ruas, aposentados ou não, iam perdendo sua razão de existirem.


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POR EM 22/12/2010 ÀS 09:56 AM

Café filosófico

publicado em

Nem sempre se consegue estar atualizado, conhecendo tudo que acontece ao redor da gente. Tem-se ouvido muito falar em Café Filosófico, Salão de Ideias, Café Literário, tudo mais ou menos com o mesmo formato, mas algumas pessoas conseguem ver apenas um microfone aberto e uma oportunidade de se expressar. A coisa não é bem assim.

Corro o risco de ser acusado de ter produzido uma crônica didática, mas ela me parece necessária. Tenho visto muito equívoco envolvendo o assunto. Sem querer passar por dono da verdade, aí vão algumas observações que tenho feito, mas o objetivo real destas poucas e mal-traçadas linhas é bem outro.

O Salão de Ideias é o espaço da interação autor/leitor. Dúvidas, observações, talvez até contestações cabem no Salão de Ideias. Há um mediador com a função de esquentar a máquina, dando traços da biobibliografia do convidado e fazendo as primeiras perguntas para animar o público. Nada mais.

O Café Filosófico, originariamente, acontecia em um café na situação de informalidade que lhe é peculiar. Convidava-se alguém cuja assinatura aparecesse em algumas publicações, para esclarecer seus pontos de vista, para expor suas ideias a respeito de algum assunto de sua área. O autor fala, a plateia ouve. Só no final, as pessoas podem tirar suas dúvidas. Neste formato não existe o mediador. É uma palestra com tema definido, especialidade do palestrante. O nome, muitas vezes é uma impropriedade, pois o assunto abordado raramente é a filosofia.


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