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POR EM 18/07/2009 ÀS 08:51 AM

A velhice da crônica

publicado em

Durante algum tempo, como fazem cronistas precavidos, mantive um banco de crônicas. Era uma notícia de jornal, a lembrança fugaz, qualquer experiência do dia, que me arrancasse da rotina, tudo ia sendo transformado em crônica. Aquele banco de crônicas era meu sossego, minha garantia. Podia adoecer, sair de viagem, vagabundear, sem preocupação com a próxima crônica. Ela estava pronta, com todas as vírgulas, num arquivo do micro. Um conforto. 
   
Mas o tempo passou e as necessidades modificaram-se. Não continuei alimentando o tal banco, que aos poucos diminuiu, mas que permaneceu com cerca de dez crônicas residuais, esquecidas no fundo do quotidiano.
   
Outro dia, por engano, abri a pasta onde as mantinha mofando. Então não resisti e passeei minha curiosidade pelo meio delas. Passeando, cheguei a pensar que algumas seriam aproveitáveis, porque, enfim, eram pedaços meus que fui largando ao longo do caminho. E, sem querer abusar do Machado de Assis, senti saudade de mim mesmo.
   
Reli uma primeira em que havia escrito: Mas acontece que, apesar de moribundo, o Celso Pitta de morto é que não tem nada. Muito vivo é o que ele é. Vivíssimo. Ora, meu caro leitor, quem poderá estar ainda interessado nas mutretas de um ex-prefeito, mesmo que o seja de uma das maiores cidades do mundo? A crônica estava velha, ela sim, moribunda.
   
Na segunda tentativa, encontrei uma afirmação estapafúrdia do Ministro da Educação, coisa de que ninguém mais se lembra: O Ministro da Educação, num arroubo popular, quisera dizer que a escola é aborrecida, entediante. Lembrei-me do tempo em que frequentava esse tipo de instituição. Se deixassem por minha conta, eu passava o dia lendo gibi e outras revistas do gênero, que eram muito mais divertidas do que aprender o nome dos ossos e o quadrado ou o cubo das hipotenusas. Meu pai, um homem antigo, dizia: Tuas revistas, só depois dos deveres cumpridos. Chamávamos as lições de casa de deveres. E ai de quem descuidasse dos deveres. As exigências começavam em casa mesmo. E os castigos também. Mas meu pai era um homem antigo. Ficava exigindo que cumpríssemos, eu e meus irmãos, estes tais de deveres. Que razões me fariam comentar, depois de tanto tempo, uma bobagem ministerial?
   
Alguém se lembra daquele caso de um partido político encomendando História, assim com H maiúsculo? Pois é, ninguém se lembra e por isso a crônica não serve mais. Na época, escrevi: Bem, que o PSDB esteja querendo reescrever a História do Brasil, em si, não me parece tão preocupante, mas existem dois pontos a considerar. 
   
Vocês já imaginaram se a moda pega!? O PMDB vai querer dar sua versão, e pode dizer que o Tiradentes não morreu coisa nenhuma, ele só está esperando a situação acalmar, descansando em uma fazenda de Vila Rica; e o PT não vai deixar por menos, provando que Tomás António Gonzaga foi preso quando tentava promover a Reforma Agrária e sua ida para Moçambique foi apenas uma saída estratégica, para iniciar, a partir da África, a Campanha Abolicionista; o PFL e outros partidos mais à direita vão provar que o ACM é herdeiro direto de Maurício de Nassau, e que a Companhia das Índias Ocidentais desfilou nuazinha em pêlo na Barão de Sapucaí. O Stanislaw Ponte Preta, meu compadre, ele é quem sabia das coisas, um dos mais bem informados profetas deste País varonil, ao compor seu Samba do Crioulo Doido. 
   
Então voltei a me lembrar do Tomás Antônio Gonzaga: Sobre as nossas cabeças/Sem que o possam deter, o tempo corre. Não sei se pode servir de consolo, mas acabei de descobrir que as crônicas, pelo menos, envelhecem mais depressa do que nós.
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:05 AM

Paraíso prometido

publicado em

Mas e eu, ela pensava em língua estrangeira na escuridão interrompida apenas pela vela de luz precária. Em seus olhos o ódio pela última pessoa do mundo a mais de quarenta quilômetros. Suas mãos tremiam feridas enquanto o velho molhava a barba com lágrimas antigas. Nem morrer em paz se pode neste inferno, ele dissera ao ser derramado no chão batido da choça. Nem morrer e as lágrimas desciam mornas para a barba crespa. Mas e eu, gritava seu pensamento adolescente, e seu rosto jovem duro se estriava de lágrimas anoitecidas.

O banquinho de três pernas foi posto de pé, e Gustavo sentouse alisando a corda de embira que ainda abraçava seu pescoço. Gustavo, inteiramente envelhecido, desistente, sem direito algum, nem ao menos o de morrer. A coleira, de tão rústica, machucava os olhos e a tristeza da filha. Mas e eu, seu pensamento continuava insistindo, cada vez mais baixo.

Faltavam ainda algumas horas para o dia, e os catres ficaram esfriando, mudos e com cheiro forte de corpos doloridos de trabalho.

Mal se viam, dançando sombras nas paredes de varas e frestas, mal se olhavam rancorosos. Hilda, que tinha interrompido a fuga em vôo de Gustavo, a busca do além, precisava ainda carregar seus catorze anos nas costas e sentia impossível fazêlo sozinha onde habitavam cobras e pedras, e animais ferozes ficavam dia e noite à espreita. Gustavo, completando sua desistência, só não tinha contado com o barulho do banquinho, seu baque, ao ser empurrado pelos dois pés dependurados. Seus caminhos divergentes: o que restava de uma família, agora inteiramente bifurcada. 

As lágrimas secaram, tanto as velhas quanto as jovens, ambas salgadas do mesmo sal que vieram descobrir na América desconhecida: o paraíso prometido.

Além dos banquinhos rústicos, tãosomente dois, erguidos sobre três pernas magras, a mesa de tábua lavrada com o machado e o fogão de pedras, onde as latas com água fervente e a comida, em suas horas. No canto oposto à entrada, o pilão e a talha de barro; ele para apiloar, principalmente o arroz colhido na várzea, ela para saciar as sedes noturnas e outros embaraços. Por cima de suas cabeças, barrotes abarrotados de tentações, as que eles provocaram no velho por causa da altura. Nas varas internas, a parede separando, uma abertura para o quarto, o lugar de amontoar o corpo pesado de cansaço, e de chorar a terra um dia abandonada com toda a família em busca do sonho adulto. Mas e ela, com que poderia sonhar nos seus nove anos de idade além de bonecas loiras de olhos azuis? Apenas um biombo de varas separando pai e filha, na hora da saudade e do sono.

No primeiro destino, a colônia, todos falando a mesma língua, ainda sobravam os três, porque o casal de irmãos tinhamse extraviado pelo mundo, a irmã mais velha num trem europeu, fumacento, com rumo que sua idade não podia compreender, e o irmão, seguindo com o navio para as alturas, distâncias, os lugares que nem a imaginação conseguia configurar. E a mãe, com doença da viagem no navio, em menos de um ano deixoua sozinha com o pai.

Aqui não fico mais, ele dizia, molhando de baba e lágrimas o rosto frio e inorgânico da mulher deitada com os dedos cruzados dentro do caixão. Nunca mais Hilda se lembraria da mãe que não fosse daquela cor de entrar no céu, envolta pelo cheiro forte de flores murchas. A fumaça das velas. Quatro velas pobres ajudando o mortuório. Tarde da noite e alguns patrícios, companheiros de viagem, quase todos, falando baixinho para não perturbar o sono de ninguém. E o pai, num canto, dizendo que aqui não fico mais, numa língua que todos entendiam. Sem a esposa, agora ele queria de volta seus bosques limpos, sua neve e os rebanhos de ovelha. Mas como, se o paraíso era tão exigente, e não havia com que pagar a passagem de volta? Resumiu aqui, para significar somente a colônia onde estavam, que em poucos dias abandonaram para esquecer todos aqueles dias infelizes.

Com o trabalho de operário, na cidade, o paraíso encolhiase em excesso quase infernal, traduzido finalmente em comida três vezes ao dia, casinha em bairro pobre e aluguel rico, e pouco, muito pouco mais. Não foi isso que vim buscar, dizia o pai, e ficava triste. Nos curtos serões da cidade, Gustavo cantava com lágrimas nos olhos e contava como tinha sido sua infância de pastor. Maçãs, ele dizia, como não existem iguais no mundo. E a filha, aprendendo com os colegas de escola a língua difícil deles, entendia as recordações do pai, conhecia cada sílaba de sua voz meio estragada, e punhase a suspirar como se fossem também suas aquelas recordações.

Quando surgiu a oportunidade de ver o paraíso de perto, sua porta aberta, Gustavo hesitou. Voltava para casa, desfalcado da família, mas voltava a ver seus campos, onde pasciam rotundas ovelhas lanudas, sentia novamente o sabor das nédias maçãs, e sentavase ao pé do borralho enquanto a neve descia silenciosa de brumas insondáveis? Percorria as trilhas conhecidas de bosques limpos ou aceitava a gleba no sertão, ajudando este governo a povoar regiões desabitadas?

Hilda mexiase na cozinha, providências de dona de casa, sem contudo tirar o olho do pai, que nada dizia, porque já diziam seus olhos fixos num ponto qualquer da parede. Não consultou a filha, na hora da decisão, porque uma criança, se sonha, sonha com bonecas loiras de olhos azuis. E sua Hilda, mulher para o serviço de casa, era criança para ter opinião.

Até que um dia, o sol ainda bocejando, apareceu a carroça que os levaria até a gleba que lhes tocava. Dois cavalos fortes, de grandes patas e pernas possantes, sacudiam as caudas, parados na frente de uma casa pobre de bairro afastado. Machado, enxada, facão, foice, martelo, serrote e outras ferramentas fornecidas pelo serviço de imigração. Tudo num feixe padrão, promessa de desenvolvimento regional. Mantimentos para um mês, em caixas de tábuas claras e finas. Gustavo tremia muito ao conferir a carga com que se encaminhava para seu futuro.

Ao partirem, Hilda olhou várias vezes para trás lastimando tudo que deixava naquela casa, como sua cama, o fogão, sua primeira menstruação e as vizinhas, com quem já conseguia conversar. Fungava sentida como quem parte para o desconhecido, pois ela partia para o desconhecido. A carroça ia abarrotada, mesmo assim só levava o essencial.

A primeira cabana, os medos noturnos — vozes de um povo de animais demoníacos —  ventos e chuvas como jamais imaginara ver, o castigo do sol, tudo isso (o pavor de enfrentar uma natureza rebelde) eram coisas do passado. Como dois homens, puseramse a trabalhar, mal chegados ao morro que agora era deles. Sem vizinhos com quem discutir limites ou repartir o bolo de inhame. Sem conhecidos para quem se queixar de uma dor de dente.

Gustavo ia deixando de cantar, o corpo moído do trabalho, as lembranças entorpecidas. Chegava da roça arrastando as pernas, claudicando, e muitas vezes sem comer jogavase no catre à espera de que o sono o matasse um pouco, pelo menos por algumas horas. Hilda, atenta ao único ser humano com quem convivia inverno e verão, pensou que o pai já se esquecera das histórias de sua infância: bosque limpo, rebanho de ovelhas, nédias maçãs e a neve dos meses de inverno. Ele nunca mais falava sobre aquilo, não lhe contava mais como fora sua vida. Ele parece que aos poucos desaprendia de falar. Em qualquer língua.

Apesar de não ter sido consultada sobre enterrarse nas brenhas daquele sertão, ela conformavase com sua sorte, pois seu horizonte estreitavase em torno da família que lhe restara. Não era amor que a prendia àquele homem taciturno, mas a certeza de que sua sobrevivência dependia dele. Por isso acompanhou com preocupação as mudanças de humor do velho e afinou vistas e ouvidos para evitar que lhe fugisse.

Com o baque do banquinho derrubado com as pontas dos pés dependurados, Hilda saltou da cama mesmo antes de abrir os olhos. Empoleirada na mesa, feroz, sua mão esquerda encontrou rápido a corda esticada que seus olhos não podiam ver. Com dois, três golpes de faca a corda rompeuse, e o corpo do pai se derramou no chão batido da cozinha.

O velho pôsse a tossir por causa do pescoço machucado, enquanto a filha o punha sentado no outro banquinho de três pernas magras. Nem morrer em paz se pode neste inferno, ele queixouse na única língua que ainda lembrava. E o pensamento da menina gritava, mas e eu, na mesma língua do pai.

Quando os primeiros raios do sol atravessaram as frestas da parede, encontraram Gustavo muito quieto recordandose dos bosques limpos da sua infância, da melhor maçã do mundo. Em sua frente viu desfilar um rebanho de ovelhas lanudas antes que as montanhas se cobrissem de neve.
 


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POR EM 11/07/2009 ÀS 09:04 AM

Moça debaixo da chuva: os ínvios caminhos

publicado em

Uma rua tão melancólica e metalúrgica, tão ocupada com o volume de sua produção industrial que, distraída, parecia há muito ter esquecido no abandono a própria aparência: charme nenhum. Uma rua de paredes sujas e de reboco carcomido, no alto das quais, já perto do beiral, apareciam ridiculamente inúteis algumas janelas estreitas, como se Deus e seus anjos precisassem daquilo para espiar o interior dos galpões que se escondiam para além das paredes e onde pessoas sujas de carvão faziam gestos cujos significados não alcançavam.

Eu caminhava apressado e descontente, olhando às vezes para o céu com a sensação de que tinha caído numa armadilha de onde não conseguiria escapar jamais. O céu que me restava era apenas uma estreita faixa cinzenta de nuvens que se moviam sem direção definida, mas de maneira mais ou menos frenética. Só nós dois, o vento e eu, passávamos pela rua àquela hora da tarde. Sobre o vento, sei que é de seu destino às vezes varrer as ruas. Quanto a mim, não consigo me lembrar do que fazia por lá: o lugar parecia não ter afinidade alguma comigo. Lembro-me, entretanto, de que o céu estava escuro e baixo, como a tampa cinza de um alçapão, quando o vento, encanando por aquele desfiladeiro, levantou poeira tamanha que me vi forçado a proteger os olhos com as mãos. Com a poeira, alçou vôo uma folha de jornal cujas manchetes amarfanhadas gritavam que a chuva era iminente e, além de gritarem, embaraçavam-me as pernas que tentavam correr em busca de abrigo.

Os primeiros pingos da chuva eu os ouvi na pureza de sua individualidade: alguns pesados, líquidos e sonorosos, pérolas que se espatifavam ao cair, e caindo levantavam o pó do passeio. Apenas os primeiros, porque em seguida desabou o aguaceiro de pingos homogêneos, massa contínua de sons sem identidade: água jorrada. Não me alcançou, pois começou a cair exatamente na hora em que cheguei à esquina e saltei para dentro do bar, feliz ainda por ter podido escapar.

Depois de tomar o primeiro copo da cerveja que me justificava no interior do bar, voltei à porta para matar um pouco daquele tempo agora inútil, mas também para ver a chuva caindo — aquele modo estrepitoso de cair. Foi então que deslumbrado a vi: colada à parede suja e de reboco carcomido, no outro lado da rua, ela tentava proteger a cabeça com um jornal aberto ao meio, e o peito, com a mão esquerda espalmada. Seu vestido azul, seco ainda, tremulava ao vento sem temer o escândalo de seu gesto nervoso.

Inteiramente ocupada com sua proteção, a moça, para que me percebesse exposto na porta do bar, a observá-la. Parecia sentir-se muito desconfortável naquela faixa estreita onde a chuva ainda não tinha chegado. Equilibrava-se, por vezes, nas pontas dos pés, numa coreografia assimétrica e de equilíbrio quase impossível, como se quisesse entrar na parede, a mão esquerda sem dar conta de todas as regiões a proteger, a direita segurando ainda um jornal dobrado sobre a cabeça.

Antes mesmo de que me olhasse, ensaiei vários gestos à guisa de aceno, mas, quando me olhou (Meu Deus, de onde aqueles olhos entre doces e assustados, aquela mesma boca rasgada de lábios carnudos, a testa altiva e os cabelos caindo sobre os ombros, de onde?), perturbado, não arrisquei aceno algum, temeroso de espantá-la com minha ousadia. Ela me encarou, e seu jeito de me encarar era um pedido de socorro: seu vestido azul, marcas da chuva, grudara-se-lhe nas pernas, deixando de gesticular.

Com duas rajadas oblíquas do vento, a chuva engrossou ainda mais, encurralando a moça, cujas mãos já não protegiam coisa alguma.

Na sarjeta, um córrego de águas barrentas arrastava impetuoso uma caixa de papelão com que eu brincara de barco. Fiquei atento ao modo como ela era arrastada. Havia uma espécie de desespero naquele rolar silencioso e sem resistência. Alguns passos à frente, escancarada, a boca-de-lobo a esperava. No fim do quarteirão, meus primos me chamavam, mas eu não conseguia sair do lugar. Era uma luta em que eu me envolvera, em que me envolveria a vida inteira. Joguei todas as minhas esperanças no momento em que a caixa chegasse àquela boca escura: sua última oportunidade. Não demorou quase nada para que isso acontecesse. De repente, a caixa tornou-se magnífica em sua muda resistência. Ela cresceu ao pressentir o perigo. Ergueu-se, altaneira, as mãos e os pés fincados nas bordas, recusando-se a aceitar passivamente o próprio fim. A água insistiu violenta, brutal, mas a caixa, apesar de trêmula, não arredava pé, não se movia. Houve um instante de alegria, em meu peito — o vislumbre de uma possibilidade, se bem que remota, de ver derrotada a força bruta. Mas o córrego estufou por baixo da espuma escura, preparou-se com a paciência dos que têm a certeza da vitória e arrojou-se, finalmente, contra seu obstáculo. A caixa dobrou-se ao meio, aflita, e desapareceu. Mais uma vez. Por que mais uma vez, por que sempre assim?

Nossas decepções cruzaram-se no ar, seus olhos e seus cabelos inundados de chuva e tristeza.

Finalmente, percebendo que o aguaceiro aumentava, arrisquei um gesto, ainda que tímido, convidando-a para o abrigo do bar. A água descia-lhe pelo rosto, penetrava caudalosa no decote do vestido azul, perdia-se nas profundezas de seu corpo, que lentamente ia perdendo qualquer nitidez, mancha assimétrica colada em uma parede. Em pouco tempo a água já conseguira apagar seus lindos olhos negros, transformando a boca de lábios carnudos em um risco arroxeado, deformando testa e queixo, embrutecendo o que ainda há pouco era delicadeza e harmonia.

A sarjeta já sumira, e a ilha em que a moça a custo se mantinha diminuía rapidamente. Eu me preparava para providenciar algum meio de salvá-la quando parou, em sua frente, um ônibus escuro e vazio que a roubou de minha visão.

Aproveitei para encher o copo de cerveja e, justo na hora em que me voltei, vi que o ônibus arrancava furioso, levantando água, inundando o passeio. A chuva cessava e o sol, pressuroso, começava a empurrar as nuvens para o horizonte, para trás dos prédios mais altos. O último copo de cerveja chegava ao fim. Olhei para fora e, no outro lado da rua, vi apenas uma parede encharcada e de reboco arruinado. Bem no alto, um palmo abaixo do beiral, umas janelas estreitas e ridiculamente inúteis, por onde o sol espiava o interior daqueles galpões que ficavam para além das paredes e onde homens sujos de carvão não conseguiam entender seus próprios gestos.
 


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POR EM 04/07/2009 ÀS 10:08 AM

Olhaí, o Adauto

publicado em

Conheci o Adauto nem me lembro quando, mas sei que faz alguns anos. Ele foi meu aluno no terceiro ano do colegial. Ainda não tínhamos resolvido os problemas da educação mudando os nomes. Era, naquele tempo, primário, ginásio e colégio. Hoje já nem sei mais como chamam isso tudo. Quer dizer, até que sei, mas os nomes de agora são tão água morna com sal que prefiro esquecer.

Então conheci o Adauto numa sala de aula. Ele não era muito diferente dos seus colegas a não ser pelo fato de que usava piercing na asa da narina esquerda, tinha uma tatuagem colorida naquele músculo que desce do ombro para braço, meu deus, no ginásio eu sabia o nome de todos esses músculos! E os ossos, não me escapava um só, com o nome e a posição. Pois é, mas era assim o Adauto. Um jovem handsome. O inglês tem dessas coisas: mulher pode ser pretty, mas homem não. Nós por aqui costumávamos usar, quando se tratava de alguém do sexo masculino, uma locução perifrástica: um jovem bem apessoado.

O Adauto era alegre e extrovertido, namorador, muito bem humorado. Comecei a notar o Adauto porque toda aula ele pedia para contar a última. E ríamos de suas piadas, que geralmente eram engraçadas. Em seguida, depois de tê-lo notado por causa das graças que ele fazia, descobri que o Adauto era um quadrúpede. Simpático, mas quadrúpede. Pra somar dois mais dois, contava nos dedos. Ah, sim, e quando começaram as provas, que ele tinha de assinar, percebi que às vezes ele escrevia Adauto, mas quase sempre grafava o próprio nome como Adalto. Um dia, curioso, quis saber a razão. Sabe, psor (era assim que ele me chamava) certeza, certeza mesmo do nome certo eu não tenho. Então tanto faz.

Aqui no Brasil vivemos tropicaliamente a síndrome do tanto faz. Que deus nos proteja.

Alguns tempos depois, soube que o Adauto, ou Adalto, já que tanto faz, estava envolvido em negócios madeireiros na região amazônica. Me garantiram que tinha enriquecido e se tornara um grande empresário. Não duvido. O mundo é assim mesmo. Não que eu tenha feito opção consciente pela pobreza, mas não quis investir minha vida em acumular fortuna. Há quem o faça.

Pois bem, qual vocês acham que tenha sido o destino do Adauto? Ou tanto faz. Mordido por uma cascavel? Esmagado por uma sucuri? Assassinado com um tiro na testa ou com uma flecha no peito? Suposições erradas, todas elas. Ontem abri o jornal, coisa que não faço com muita frequência, porque os fatos pouco me interessam e as reflexões morrem de pura obviedade, e o que leio lá? O Adauto, ou Adalto, tanto faz, membro de uma Comissão de nossa Câmara Federal. E para dizer toda a verdade, não sou profeta, mas alguma coisa já me dizia, nos tempos em que ele fora meu aluno, que ele acabava assim mesmo. A continuar deste jeito, ainda chega a Presidente.  
 


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POR EM 22/06/2009 ÀS 10:20 AM

A inutilidade da literatura

publicado em

A palestra era para um público heterogêneo e o assunto era a linguagem literária. A certa altura, querendo exemplificar (o que sempre dá uma melhorada nos conceitos mais abstratos), parodiei um poema:

“Certa mulher declara que nem se deu conta do envelhecimento e está perplexa por não se reconhecer, como conseqüência das mudanças causadas pela passagem do tempo.”

Em seguida li, da Cecília Meireles,

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Surpreso, ao perguntar qual dos dois textos o público preferia, ouvi uma senhora dizer que preferia o primeiro, porque era mais direto, mais claro e ela o entendia melhor.

Confesso que passei alguns segundos na angústia de não ter o que responder, atordoado com a surpresa. O inesperado sempre nos desmonta um pouco.

Duas considerações: A mulher, do primeiro texto, não existe, era uma invenção minha. Portanto, a informação não informa nada. Não é isso que se busca na literatura. O primeiro texto está escrito em linguagem de domínio social, comum a todos, sem nada de original, sem marca nenhuma de autoria. O segundo texto explora toda a virtualidade das palavras: a sonoridade, as combinações inusitadas, a interação entre elas que as potencializa. O segundo texto, por seus arranjos e combinações, pelo eco, pela delicadeza no modo de falar de sentimentos mais concretos, por tudo isso, é um texto que não serve para informar, mas para encantar.

Quem busca informação na literatura, ainda não busca a literatura. Ela até pode eventualmente informar, mas não é sua especificidade. Como explicar aquele homem voando, no conto do Gabo, a quem pensa que literatura é instrumento de informação?

Enterrados em sua circunstância material, nem todos se encantam com a beleza.

 


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POR EM 12/06/2009 ÀS 11:20 AM

Pela porta dos fundos

publicado em

O início daquele jogo foi uma frase que me incendiou. O nosso jogo. No fim da peça, passei pela frente de seu camarim, e ela me disse não vivo sem você. Seu riso quente, então, invadiu minhas veias, ocupou cada célula do meu corpo. Não vivo sem você. Sem coragem para entrar, fiquei parado no limiar da porta fruindo até a última gota do olhar com que ela me amarrava ali. Tentei dizer alguma coisa para dar a entender que tinha ouvido sua frase e que seu riso já ocupava muitas de minhas noites, mas não con-segui mover os lábios, como não conseguia mover os pés.

Só bem mais tarde descobri ter entrado em um jogo julgando tratar-se da vida.

Meses depois, quando Diana disse hoje você me salvou mais uma vez, percebi que fora para mim, e só para mim, que a tinha salvado. Esbarrava em minha consciência um sen-timento de posse até então desconhecido. Diana era uma pertença a meu alcance. Sem minha voz, que só ela ouvia, a peça teria desandado. Foi a primeira vez que fingi estar jogando, mas o fingimento era apenas dos lábios, porque eu fingia que estava fingindo. Enquanto eu estiver por perto, foi minha resposta, você está salva. Nós dois misturamos nossos risos, e pensei que misturávamos nossas vidas. Até então, eu era uma estátua para seus ditos graciosos. E com que encanto, então, Diana os proferia, sabendo que me embaraçava − um vegetal em combustão.

Diana me amava, eu aparecia em seus sonhos, ela não podia viver sem mim. Quantas vezes ouvi tudo isso, meu sangue a ebulir, caudal de que mal dava conta o coração. Os outros integrantes da companhia sorriam para mim ao se referirem àquele caso entre nós dois. E eu, com a voz clara de um riacho entre pedras, e a dicção pura que jamais perdeu um só fonema, me encolhia sem nada dizer a meu favor. Sorvia tão-somente com ex-tremo gosto aquelas alusões cheias de malícia e que a meu ver justificavam minhas es-peranças.   

Houve meses em que era sacrifício imenso ficar na gaiola do ponto até tarde da noite. Mas era um sacrifício a que me dedicava sem relutância, pois era dele que emanava minha certeza de estar vivo. Minhas vistas se desgastaram na obscuridade em que era forçado a participar do espetáculo. Caí em desespero à simples idéia de me separar do palco. Um par de óculos foi que me restituiu a confiança em mim mesmo.

Restabelecida a rotina, meu único sofrimento acontecia nos dias de folga da companhia. Ficava em casa perdido, sem saber como passar o tempo vazio da espera, sem interesse por nada que não fosse a contagem de cada minuto que me separava de Diana. Da sala para a cozinha, da cozinha para a varanda, me movia num mundo descolorido, nem frio nem quente, um mundo de tempo feito de uma pasta viscosa e grossa, caldo lento e pe-sado.

Cheguei a desconfiar, por algum tempo, da sinceridade daqueles sorrisos. Como imagi-nar que todos, atores e atrizes, tivessem entrado em um jogo, ainda que como meros coadjuvantes? Para mim era mais conveniente acreditar na pureza da alegria com que me cumprimentavam piscando olhos maliciosos.

Na semana passada nos cruzamos nos bastidores depois de uma noite infeliz de Diana. Ela não conseguia se concentrar e pelo menos umas cinco vezes se pendurou em meus lábios, de olhos e ouvidos abertos. Desconheço suas razões, como não sei quase nada de sua vida. O que vivíamos debaixo dos spots já me satisfazia. Naquela noite estávamos todos cansados por causa da tensão provocada por um desempenho apenas medíocre. Diana, suada e de olheiras roxas, me disse assim na minha cara você é o homem da mi-nha vida. Disse e continuou andando na direção do camarim. Voltei e segui atrás dela. Ninguém diz impunemente uma coisa dessas, foi o que pensei.

Ela mal tinha entrado, a porta ainda aberta, e mergulhei no gesto mais ousado de minha vida. Sim, mergulhei, pois foi como se meu corpo todo, meus sentidos, estivessem na-quele momento penetrando em um elemento denso e perigoso, do qual nem sempre se pode sair com vida. Eu não conseguia respirar direito e achei que fosse morrer sufocado. Entrei também e tranquei a porta. Seu olhar de espanto me abalou, mas não me fez de-sistir. Peguei-a pelos dois braços e, mais perto de seu rosto do que jamais conseguira chegar, disse com a voz distorcida pela emoção, apesar da articulação perfeita de todas as sílabas, como eu sempre soube fazer, que queria casar com ela.

O que se seguiu, oh suor que não larga mais minhas mãos, oh nuvem que escureceu meu céu e minha vida, o que se seguiu não consigo lembrar claramente, As palavras e os gestos, a expressão de seu rosto, tudo me fez perder a noção de onde estava e o que fazia. Na luz mais forte do camarim, nos espelhos que nos rodeavam, nas flores mur-chas que tresandavam a cemitério, em tudo só consegui mergulhar como arrastado por um vórtice a que não se pode resistir. Eu me afogava. Você não se enxerga?, foi o últi-mo grito que ainda ouvi com alguma clareza. Seus olhos aterrorizados me enlamearam de ódio de alto a baixo.

Não sei como nem quando cheguei em casa. Ruas noturnas e silenciosas testemunharam meus passos incertos, recolheram muitas de minhas lágrimas. Eu queria morrer, mas não sabia como se faz isso. Também não sei se era mesmo morrer que eu queria. Às vezes, ao cobrar uma esquina, mudando a paisagem, me ocorriam idéias sinistras e me parecia que matar seria muito melhor do que morrer. Cheguei sujo e cansado, e do jeito que cheguei me atirei na cama. E dormi como quem acaba de morrer: um sono escuro e vazio.

Também não sei a que horas acordei no dia seguinte. O céu estava encoberto, as árvores da minha rua tinham adquirido esta cor de palha seca das coisas que morrem. Nenhum som dos muitos que sempre amei da cidade me ligavam ao mundo. A dor que andei derramando pelas ruas à noite transformou-se num clarão do ódio inventado pela desilu-são.

Tomei um copo de água gelada e sentei numa cadeira perto da mesa da cozinha. Olhava minhas mãos imóveis sobre a tampa da mesa e não entendia que elas fizessem parte de mim. Que utilidade teria comer, seguir a velha rotina de anos, indo à padaria logo de-pois de levantar, botar água a ferver para passar um café, ler os jornais, repassar os tex-tos da noite?

O sol bateu na janela e atravessou a cortina. Foi um raio dele que me atingiu os olhos e o cérebro. Tomei outro copo de água e corri à sala, onde me aguardava uma cópia da “Casa das Bonecas”, cuja estréia se daria no próximo fim de semana. Como geralmente fraco, tinha acompanhado os últimos ensaios para observar os principais obstáculos en-contrados pela memória dos artistas. Minha cópia estava rabiscada, com anotações que me ajudassem nos momentos de maior necessidade. Sem medo de mentir, eu já sabia a peça quase toda de cor. Mas resolvi estudá-la em cada fala e foi o que fiz até a chegada da noite.

Nos dias seguintes, tive um só pensamento: restaurar meu amor próprio abalado.

Ontem foi a estréia. E lá estava eu, naquela posição incômoda, o texto à minha frente, com todas as anotações que tinha feito durante os ensaios e mais algumas que durante a semana eu fora acrescentando.

Ali, a bem poucos passos de distância, quando abre o pano, Diana/Nora exercita sua generosidade e diz ao entregador que não precisa devolver o troco. Meu único temor é de ter os olhos inundados e não poder exercer minha função ou falhar nos meus planos. Quantas e quantas vezes, fascinado pela imagem da minha deusa, eu passaria semanas sem comer, sem dormir, dentro da minha concha, contemplando o semblante do ser a-mado. Pela primeira vez me soa extremamente falsa a bondade de Nora e estou para eleger Helmer como a personagem empática.

O primeiro ato transcorre sem novidades. Nora troca a deixa no final de uma de suas falas e diz: “Então os médicos declararam que ele precisava ir aos banhos”. Quando deveria ter dito ir para o sul. É isso, tenho certeza, que desorienta a Senhora Linde, que me olha desesperada. “É verdade: vocês passaram um ano inteiro na Itália”. E Nora se reencontra com as falas e vai em frente.

Logo nos primeiros minutos do segundo ato, começo a suar, porque meu momento se aproxima.

É uma das falas mais fáceis, mas sei que Diana, principalmente porque está desconcen-trada, como desde o início venho observando, não vai conseguir lembrar.

Com sua conhecida arrogância, Helmer se dirige à esposa.

HELMER – (afagando-lhe o queixo) “Gentil por obedecer ao seu marido? Vamos, mi-nha tontinha, bem sei que não foi isso que você quis dizer. Mas não vou importuná-la. Sei que você está querendo experimentar a roupa”.

Neste ponto ela se aproxima, pois também sabe que nunca lembra a fala seguinte. Al-guma coisa em sua memória se rebela contra a continuação, e ela depende de mim. Me mantenho um instante mudo, olhando para o texto, adivinhando apenas o desespero de Diana. Então ergo a cabeça, tudo isso em fração de segundo, um tempo que a platéia não chega a perceber. Ela agora está inteiramente em minhas mãos. E sabe disso. Eu não sou o homem de sua vida? Os tapinhas que recebia nas costas, o sorriso escarninho com que me cumprimentavam, tudo isso não era porque ela não vivia sem mim e tudo o mais que durante muito tempo ouvi, sim, com estes ouvidos sensíveis a todos os sons da voz humana, ouvi embalado por um caudal de esperança? 

Diana faz um gesto de nervosismo, gira sobre seu próprio corpo e passa a mão direita no rosto, como se assim vá lembrar-se do texto. Ah, mas aí mesmo é que não se lembra. Depois de levantar a cabeça, eu posso ver nitidamente os bagos de suor logo acima de seus lábios. Mário, que faz Helmer, também se angustia, tentando inventar alguma saí-da, quando concluo ter chegado minha hora. Mas reluto. É tal o pânico que percebo no olhar de Diana que me comovo. Seu rosto está desfigurado, com feições que se desman-cham. Tento desistir de meu plano, o que não é mais possível. Há dentro de mim um demônio que me guia contra minha vontade. Nora, neste momento, deve dizer apenas: “E você, vai trabalhar?” Apenas isso para que Helmer responda: “Vou”. E depois de mostrar uns papéis a Norma, continua seu discurso. 

Então minha voz, que a mim mesmo assombra pela clareza inusitada, sai nítida como lâmina de adaga para introduzir uma fala do terceiro ato, já perto do final.

NORA – “Durante esses três dias eu vivi um conflito terríve”l.

Não é a deixa esperada e Mário me olha perplexo. O que está acontecendo, justo numa estréia para um público convidado, atores de outros grupos, críticos e resenhistas de toda a cidade, professores e estudantes de artes cênicas? Tudo isso deve estar passando por sua cabeça, quando decido ajudar e insisto na fala com que Helmer deve assumir o erro: “E chegou a se desesperar;...”  Ele parece não me ouvir, os olhos relampejando, e insisto na deixa de Nora, repetindo cada vez mais alto, para ocupar seu cérebro. Sem escolha, finalmente ele repete.

HELMER – “E chegou a se desesperar;...”

Mário pega minha ajuda e continua, como se tudo estivesse transcorrendo normalmente.

Dali até a interrupção, não vi mais o que aconteceu.

Abandonei o ponto e saí rapidamente por um corredor pouco usado, porque ia dar na porta dos fundos, que se abria apenas para carga e descarga. Eu trazia a chave no bolso.

Do corredor ainda ouvi o diretor gritando para que se fechasse o pano de boca, sua voz abafada por vaias ruidosas. 
 


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POR EM 06/06/2009 ÀS 11:33 PM

Privado ou privada

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Um dia ainda escrevo uma crônica que comece assim: Um dos mais graves problemas do Brasil é que grande parte de seus políticos transformaram a coisa pública em privada. 
           
Depois de um sorriso mordaz, que é o meu, cometida alguma traquinagem, continuaria por aí em fora. Então, para minha surpresa, receberia uma carta comentando um aspecto da crônica e confesso aos leitores que isso se daria pela primeira vez, ou seja, receber uma carta comentando uma crônica minha.
           
E a carta, escrita naquele modo antigo, em letras finíssimas e bordadas no papel, me diria: "Meu caro senhor colunista: Ontem à noite, estando eu no apartamento de um jovem erudito, e ao ler-lhe sua coluna, fez-me ele parar a leitura e, com ar de deboche, disse-me que este calembur já é bastante antigo."

Para não cansar os leitores, interrompo aqui a carta, apesar dos florilégios com que termina.
           
Uma semana mais tarde (minha coluna é hebdomadária), voltava eu ao assunto, mas por vias tortas, que a retidão de há muito parece-me quebrada. E voltava com a evidente vantagem de responder-lhe por via pública, com a força que tal via me oferece, enquanto aquela boa senhora, talvez senhorita, ou quiçá ainda "amiga de um erudito" (mordacidade com o fito de desqualificar minha oponente), como dizia, enquanto minha oponente utilizara-se da via privada.
           
"Minha cara e insolente missivista: Que o trocadilho é velho, sei-o eu muito bem."
           
(E aqui uma pausa para explicações: primeiro, ao imitar o estilo de minha leitora, saiu-me este hiato horroroso - "sei-o eu"; segundo, "calembur" é uma palavra de origem francesa, razão por que alguns esnobes a consideram mais nobre do que nosso velho "trocadilho".)
           
E continuaria:
           
"Mas exatamente por ser velho, não me ocorria o nome de quem primeiro o usou no momento em que me pressionavam por telefone desde a redação para que entregasse minha crônica. E por não me lembrar do autor, também não lhe deixei expresso meu profundo reconhecimento pela colaboração."

E mais uma vez interrompo a missiva com o único propósito de não entediar o leitor.
           
Entretanto, devemos continuar, caso contrário não chegaremos à moral da história. Pois aquela senhora virtual (vamos chamá-la assim por absoluta ignorância de quem possa ela ser) apesar de apenas amiga de um erudito, simboliza uma boa parcela de nossa intelectualidade. Tão apegados à forma que esquecem o conteúdo, a ponto de muitas vezes confundirem o acessório com a essência.
           
O pior de tudo é que enquanto alguns ficam descobrindo o plágio de um calembur, grande parte dos políticos continua fazendo suas necessidades na privada em que eles transformaram a coisa pública.     


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POR EM 23/05/2009 ÀS 12:58 PM

Arrastavam-se móveis

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Quando acordei, hoje cedo, tentei por instantes não existir, porque estava com os olhos apagados e a colcha tinha escorregado para os pés. Acordei no meio de um sono duro e seco, com a sensação bem nítida de que houvera uma invasão. Por isso puxei a colcha até cobrir a cabeça. A primeira impressão que tive da vida, ao acordar, foi a de que se arrastavam móveis dentro de meus ouvidos.

Quando acordei.

Virado para a parede, tentava esconder-me do barulho áspero de móveis que se arrastavam, mas eles se arrastavam dentro de meus ouvidos, cobertos comigo debaixo da colcha, onde sufocávamos sem nenhum conforto. Num movimento brusco, empurrei a colcha de volta para os pés e me expus àqueles ruídos que me atrapalharam o sono, justamente em sua melhor parte. Minha testa estava levemente úmida quando me vi livre da colcha. As mãos também, as duas.

Mas então eram mesmo móveis que se arrastavam? Com a testa enrugada finalmente descobri que os móveis se arrastavam na sala. Era de lá que me chegavam aquelas vozes abafadas e uma tosse velha, sem catarro.

Sempre tive medo de acordar porque quem abre os olhos torna tudo definitivo, com todas as mudanças que a noite não viu. Como sair da cama, de manhã, e fingir que o mundo é o mesmo, que sei muito bem onde fica o banheiro e aquele cabo verde é de minha escova? Como abrir os olhos e não perceber que durante o sono penetrou água pelas fissuras e que o musgo em fina camada cobriu minha pele? Por isso levanto tarde. E de mau humor.

Hoje, entretanto, ah, hoje fui acordado pelos móveis que se arrastavam dentro de meus ouvidos. Até que os empurrei para a sala, de onde me chegavam aquelas vozes abafadas e uma tosse velha, sem catarro. Só então, quando já não havia mais possibilidade nenhuma de continuar fingindo que nada tinha mudado, foi que me levantei e fui abrir a porta do quarto. A claridade me vestiu de cueca e camiseta, aumentando o ruído dos móveis e das vozes que se arrastavam, secas. Não senti necessidade de resistir, por isso voltei para a cama.

Acordar é sempre uma aventura imprevisível.

Na cama costumo envolver-me com meus segredos, pois é um lugar vedado a quaisquer aproximações. É ali que refaço todos os atalhos, me procuro, quando pareço extraviado, ou me perco, por excesso de confiança, enfim, é sobre a cama que reconheço cada uma das dobras e rugas dos panos que me envolvem com carícias. Nos limites da cama é que exerço diariamente minha soberania, aquela que a ninguém jamais transfiro.

Já não parecia mais necessário esconder-me debaixo da colcha, por isso tinha deixado a porta aberta. Por onde. O ruído de móveis que se arrastavam também, pela porta. E as vozes, pisadas secas de botinas velhas, cada vez com maior nitidez. Quando vi passando em frente à porta do quarto dois homens bem músculos e de sorrisos que se escondiam por trás de barbas e bigodes, entendi o sentido do ruído, sua mensagem decifrada.

Para não chamar a atenção, tranquei-me imóvel sobre a cama. Teso. Meus ruídos sutis, eu mesmo os absorvia, não permitindo que me denunciassem. A respiração tornou-se tão leve que me pareceu possível flutuar. Se a borboleta, eu pensei, pesa menos do que sua cor, por que não posso ficar suspenso em minha respiração? E assim fiquei. Apenas os olhos se moviam porque o ruído que eles fazem ao se virarem para os lados nem mesmo as formigas, em geral tão concentradas, conseguem ouvir.

Não, não foi tenso que fiquei. Apenas imóvel. Porque o medo ainda não era tão grande que impedisse o controle sobre meu corpo. Imóvel apenas, com o corpo solto sobre a cama. Um corpo em repouso horizontal. Alguma coisa se quebrou na sala, um vaso, talvez, que se transformou em riso. Pois nem isso me fez repuxar um único gesto.

No início pensei que fosse o medo a inflar meu peito, mas logo percebi que aquilo era náusea, um sentimento materializado por certo aperto no estômago, como se uma bolota meio quente tentasse alcançar minha garganta. Isso eu descobri ao mesmo tempo em que senti minhas mãos úmidas nas palmas e o mundo oscilando suavemente. O pior mal-estar é nunca saber para que lado ele penderá no instante seguinte. O mundo nunca me parecera, como naquele momento, um barco inseguro, descontrolado. Minha boca encheu-se de uma saliva grossa, salobra, e tive de a engolir para evitar algum movimento.

Duas cabeças muito próximas uma da outra atravancaram a porta. Seus olhos apertaram-se avaliando a intensidade da sombra do quarto ao mesmo tempo em que forçavam passagem para um exame mais detido. Um dos homens, com passo firme, desenhou uma linha reta até a janela, que escancarou para espantar os resíduos da noite que ainda me envolviam. Eles não falavam, mas notei que seus olhares trocavam informações. O que entrou primeiro no quarto espalmou a mão na parede do guarda-roupa e o empurrou sem muito esforço, medindo seu peso. Fez um gesto rápido de sacudir a cabeça com as pálpebras descidas como um sono. Era fácil, agora, adivinhar-lhes o significado dos gestos. Prendi a respiração, surpreso com o movimento seguinte, que consegui prever: o segundo homem contornou o guarda-roupa pela frente, enfiou um saco enrolado por baixo de seus pés e em poucos segundos o móvel desaparecia na direção da sala.

A percepção de que o quarto tinha aumentado não me trouxe alívio algum. Tive até a impressão de que o espaço maior, vago, pesava sobre mim. E era uma impressão muito nítida, em que supunha ver o movimento de partículas girando a esmo numa faixa tímida de sol que entrava pela janela. Eram átomos que ainda não orbitavam organizados, o mundo em formação. Que mergulho poderia ser aquele, do qual voltava sem nada nas mãos ou na mente? Preferia o quarto em seu tamanho primitivo.

Minutos depois, os homens entraram novamente no quarto e pararam interceptando com as costas a faixa tímida de sol que descia oblíqua. De mãos nos bolsos me olharam algum tempo e trocaram duas, três palavras num timbre excessivamente grave para que eu pudesse entender. O mais alto sacudiu a cabeça, confirmando, e os dois passaram suas cordas de saco enrolado por baixo da cômoda.

No quarto fiquei eu e minha cama, com a colcha me cobrindo uma das pernas.

No início tentei concentrar-me em alguma passagem antiga, episódio que não me comprometesse, mas não me vinha uma só imagem que não estivesse fragmentada pela rapidez. Era impossível reter qualquer pensamento por mais que uns poucos segundos. Então desisti e me deixei ficar aqui deitado, quedo e sonolento, apaziguado pela certeza de que eles jamais voltarão.
 


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POR EM 01/05/2009 ÀS 01:54 PM

Conversa de bar

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Parece que alguém já afirmou que cada um frequenta o bar que merece. Isso não me consola e continuo morrendo de inveja do João Ubaldo Ribeiro, que fica atiçando a imaginação e a vontade de simples mortais, como este que vos fala, com Flor do Leblon e Tio Sam. Não tenho remédio senão contentar-me com o bar do seu Juca Amaro, ali perto da padaria, aqui mesmo onde moro. Sentado em cima de uma caixa de cebola, costumo ouvir com atenção o que pensa o povo e, principalmente, procuro entender as opiniões de um de seus melhores representantes, meu amigo Adamastor, que há muito não circula por estas páginas. 

Ontem o assunto, não sei como isso foi acontecer, era cultura. Parece que há um clima de insatisfação de algumas pessoas com o modo como a matéria vem sendo conduzida pelo poder público em geral no Brasil. Bem, mesmo sem conhecer perfeitamente a gênese da conversa, prestei atenção, interessado que devo pelo menos ser no assunto.

Pois acontece que o Leonardo, filho do seu Juca, futuro bacharel e orgulho da família, não concordava com o Adamastor, e sua discordância ameaçava nossa paz. Tive de pedir mais uma cerveja e exigir que os dois levantassem um brinde à paz mundial para que em tom mais ameno o rebento do seu Juca expusesse suas idéias. Uma boa discussão é assim: todos têm oportunidade de falar e ninguém precisa ganhar no grito. Grito não é argumento.

Num sentido amplo, disse o Leonardo, cultura é tudo aquilo que se opõe a natural. Tudo aquilo que depende do homem. Assim, sexo é natural e casamento é cultural. Mas mesmo entre as formas do sexo, algumas são mais naturais que as outras.

O Adamastor apelou: pô, você não está sugerindo que o governo invente agora de cuidar de nosso sexo. Os olhos do dito rebento massacraram o Adamastor. Tive de intervir novamente. E o meu jogo de damas? Perguntou meu amigo. Meu jogo de damas não é cultura? 

O jovem bacharelando continuou: secretaria de cultura tem de cuidar de cultura, mas num sentido mais estrito. É de arte, que se trata. E entretenimento não é arte. Ninguém sai de um entretenimento mais sábio, melhor, mais humanizado. Pode sair mais descansado. Mas sai do mesmo tamanho. Arte não é passatempo.  O Adamastor cochichou ao meu ouvido: esse cara é elitista. Tive de pedir que ele se calasse mais uma vez.

O baile da saudade, disse o Leonardo Amaro, é cultural, nem por isso precisa da assistência  de uma secretaria governamental. E se precisar, não é de uma secretaria que deve cuidar da cultura.

O ambiente, que parecia ter acalmado, sofreu a interferência de outros circunstantes. Nem todos eu conhecia e me recusei a pagar uma rodada de cerveja pra tanta gente. Meteram-se no assunto, pedindo mais música sertaneja nas praças do Brasil. E por conta de nossos impostos.

O filho do seu Juca Amaro esvaziou um copo. Lambendo ainda a espuma, ele esclareceu: arte erudita é diferente de arte popular que não tem nada a ver com arte de massa. Esta última não precisa do poder público. É auto-sustentável. Arte popular precisa de apoio porque é praticada por aqueles que de menos recursos dispõem. Mas é a arte erudita, apesar de ser a mais elitizada, a que mais precisa de apoio do poder público. Uma orquestra sinfônica, em nossas cidades, não se mantém sozinha, e é uma das maiores aquisições da civilização. A transmissão escolar, o desenvolvimento técnico, o grau de perfeição alcançado, a sensibilização, tudo isso é obrigação do poder público manter. Vocês admitem uma cidade sem escola? Um homem sem escola também vive, assim como sem orquestra sinfônica. Mas viver, então, é mera função animal.

Quando ameaçaram dar uma surra no rapaz e ele teve de fugir para trás do balcão, joguei uma nota de dez na mão do seu Juca e vim ler alguma coisa do Theodor Adorno, que sabia, dessas coisas, muito mais que nós.    
 


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POR EM 21/04/2009 ÀS 02:57 PM

Cara de anjo

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Só não falei com as plantas. De tudo que me sugeriram, só isso faltou. E não falei, por uma espécie de constrangimento moral. Me senti na situação de quem pega o telefone ao contrário e tenta falar pela concha receptora. Isso nem o Ricardo, meu vizinho aqui do lado, e que ultimamente vem tendo sérios problemas com o satanismo de alguns objetos caseiros amotinados contra o dono, isso nem ele faz. Poderia até tentar, apesar de minha arraigada descrença em comunicação intergenérica, mas imaginei alguém passando naquele exato momento e o que poderia sair por aí dizendo a meu respeito na vizinhança, onde já não desfruto de grande prestígio.

De tudo tentei, mas infrutiferamente. As plantas de meu jardim estavam mesmo era com saudade. Ah, sim, ainda não disse que a causa de tudo isso foi o Moisés. Não um Moisés de barbas brancas e olhar que dispara dúzias de raios aterradores. O Moisés, mesmo, com artigo e tudo, porque um sujeito simples, familiar, que visitava meu jardim todos os meses e que de repente alegou problemas em uma cidade distante para não voltar mais. Com o maior orgulho pelo estado do jardim de nossa casa, dispensei os serviços do Moisés. Deixe comigo, foi o que eu disse. Deixe comigo. Estou mesmo precisando de um pouco mais de atividades físicas.

Nos primeiros dias, tive a impressão de que as plantas ficaram até mais bonitas. Ah, os olhos, como são enganosos! Geralmente vemos o que estamos querendo ver. Ou precisando ver. Pois tive a impressão. Principalmente porque a glicínia, de um vaso de barro, soltou uma flor de um veludo roxo-vivo que encantou a família toda. Pois não é que leva jeito!, ouvi dizerem-me pelas costas enquanto fingia não ouvir nada.

A grama, as tuias (a azul, a compacta, a dourada), a touceira de areca, o legustro, a camélia, a palmeira fênix, com seus espinhos, pingos-de-ouro, sálvias, todas elas, as incontáveis plantas de meu jardim, algumas semanas depois da despedida do Moisés, começaram a demonstrar descontentamento. Reguei, adubei, podei. Só não conversei por razões já expostas. Fiz de tudo. Elas recusavam qualquer coisa que eu fizesse. Começaram a definhar. As begônias, nos vasos, melaram todas. Até melhoral na água eu andei botando, por recomendação da mãe de uma amiga, maga das plantas, no dizer desta. Nada. Foram meses de lutas e canseiras sem vislumbre de vitória. Visitei floriculturas, consultei especialistas. Resposta nenhuma dessas ingratas.

Há um mês, pouco mais, recebi um telefonema noturno. Era o Moisés. Não se dera bem na cidade distante e me perguntava se poderia ser aceito em seu antigo posto.

No dia seguinte bem cedo, acordei com o Moisés cantando ao ritmo de seu tesourão. Quando saí para cumprimentá-lo, ele sorriu e me disse qualquer coisa que, de longe, não entendi direito, mas que adivinhei. Já perto, disse a ele que cuidei, sim, dentro de minhas possibilidades. Ele não desmanchou o sorriso incrédulo.  

Hoje fui ler sentado à sombra do chorão mexicano (das poucas árvores que se mantiveram fiéis a mim) e, olhando em volta, me lembrei do Tistu, aquele menino do dedo verde. De anjo é que o Moisés não tem nada, acho eu, mas as plantas do meu jardim são capazes de jurar que ele é um anjo disfarçado de jardineiro.
 


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