Garrafa ao mar
Ontem acordei melancólico. Sofri, talvez, uma recaída do espírito juvenil, e me senti como se estivesse carregando o mundo nas costas. Mas também não sei se era essa a razão daquela tristeza não localizada e sem causa aparente. Porque é isso a melancolia. Pelo menos é isso que se aprende na diferença que o Freud faz entre ela e o luto. E como a cama estivesse pesada, resolvi levantar para enfrentar as agruras da vida.
Estava tomando café, olhos boiando na superfície marrom, quando fui perturbado pela primeira pergunta. Bem provável ter sido a mesma que mexera em meu humor na hora de acordar. E se você está pensando em frescura existencial do tipo “de onde vim, para onde vou, quem sou eu?”, etc. que nos caracterizam a adolescência, como a pergunta que me perturbou, sinto dizê-lo, mas seu pensamento sofre de leviandade. Isso não são perguntas que em perfeita sanidade se façam depois dos vinte, não é mesmo?
A pergunta da maior gravidade que me fiz foi: É possível melhorar o mundo? E antes de pensar em uma resposta positiva ou negativa, percebi que era preciso determinar em que me parecia que o mundo carece de melhora. Cheguei à conclusão de que a vida do homem em sociedade não é lá grande coisa. Dominantes e dominados, possuidores e despossuídos, letrados e iletrados, os que trabalham e os que se divertem, os que gozam a vida e aqueles que a sofrem. Ninguém vai me convencer de que o mundo está bem organizado. Além do Cândido, só um vizinho meu, que não conhece o Voltaire, consegue acreditar.
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Às vezes vale a pena pensar sobre a vida. Não sobre o que temos ou não consumido, tampouco a respeito do que fizemos ou deixamos de fazer. São aspectos factuais que, mais do que ajudar em uma reflexão mais profunda, tornam-se barreiras ao pensamento abstrato, aquele onde vamos encontrar as verdadeiras significações. Chegamos quase à Ideia de Platão, mas aí já o terreno é extremamente perigoso e podemos nos enredar.
A claridade é pouca, mas me incomoda, mesmo assim não consigo ficar de olhos fechados. A luz deve ser do sol e emana de maneira difusa das quatro paredes do quarto. A porta está muda, pelo menos é o que a chave em seu orifício está querendo significar. Mal consigo ver as telas de que o Roberto tanto se orgulha e que são a expressão de seu gosto pelo kitsch, colocadas em simetria rigorosa em volta da tapeçaria da parede aqui ao lado. Não é justo, isto não está certo. Tento me fixar em uma delas, mas o que vejo é fruto da memória: claridade insuficiente. Estar na cama a uma hora em que a cidade se move nervosa, as pessoas se movem nervosas, e mesmo os automóveis se movem nervosos, isso me escandaliza. Eu precisava, contudo, para que a consciência me deixasse em paz, dar mais esta oportunidade ao meu ex, como agora já posso me referir a ele. A sensação, entretanto, de estar na cama a esta hora, é a de estar praticando um ato ilícito. Ou pior: imoral. E pensar que muitas outras vezes estivemos aqui, fizemos amor nesta mesma hora, e saímos leves, meio tontos, prontos para rir das pessoas que se moviam nervosas, numa cidade trepidante.
Não chega a ser um assombro ler que os membros do júri do Nobel, em 1961 esnobaram J.R.R. Tolkien. Me parece que o verbo esnobar não cabe no caso, por sua forte carga pejorativa. O que encontro nos jornais, e onde mais encontraria? É que CS Lewis tentou indicar seu colega ao Prêmio Nobel de Literatura, provocando reação contrária dos outros membros do júri. A razão apresentada, "o resultado não se comparava às ficções de boa qualidade", não me parece fora de propósito, muito menos ofensivo. Quando alguém resolve escrever, precisa fazer algumas opções. E a propósito transcrevo trecho encontrado no facebook de Matheus Arcaro: “A alta literatura faz o leitor tropeçar. E não é todo mundo que está preparado para cair. Por isso os best sellers são best sellers: porque dizem o que o leitor espera. O leitor menos preparado chama isso de ‘identificação com a obra. ‘Puxa vida, este autor diz exatamente o que eu penso.’ Não percebe que o prazer da leitura é justamente fechar o círculo’.” Não me parece que recusar alguém por falta de qualidade seja o mesmo que esnobar.
Esta história das sanguessugas tem provocado discussões homéricas e acho que é bom, é saudável que se exercite um pouco esta coisa que se chama cidadania. Não importa que os conceitos sejam muitas vezes primários, que os resultados sejam viciados por visões tortas do mundo. O que vale, mesmo, é o exercício. Sem ele, jamais passaremos de multidão a povo.
Há poucos dias fomos alvo de brincadeiras nos jornais do mundo todo, principalmente nos espanhóis. E mexeram justamente em nossa ferida, ou aquilo que a grande mídia elegeu como tal: o futebol. Numa das manchetes publicadas em Barcelona, lia-se o belo trocadilho “Deuses e Santos”.
Mais de duas horas aqui sentados neste barranco de rio sem qualquer sinal de vida, qualquer mensagem, as boias ali à toa na superfície da água, nos encaramos desistentes. As promessas não se cumpriam, apesar de nossa paciente insistência. O sol, estilhaçado e frio, cai sobre o remanso de onde esperávamos alguma notícia. É um momento meio triste, pois o dia definha irreversível e com alguma lentidão: morrente.
Isso não é privilégio de nossa cidade. Cenas idênticas tenho visto em toda parte. Mais fácil acreditar que seja característica de nosso tempo. O beijo de bico de minha época, que os jovens de hoje apelidaram de “selinho”, o beijo de boca, discreto ou cinematográfico, isto é, de perder o fôlego, de todos conheço como de todos experimentei. Sem esquecer o beijo de língua, o mais sensual de todos. Poderia ser chamado de beijo-véspera com muita propriedade. Pois outro dia fiquei assombrado ao presenciar um beijo de língua. Não por ser muito moralista, é que o beijo se deu entre uma garota e um cachorro. Meu liberalismo tem limites e meu estômago é fraco.
Lembro-me de meu pai, depois do almoço, contando coisas da vida para os filhos. Lembro-me dele contando que o Coelho Neto tinha uma fascinação tão grande pela palavra inusual, imprevista, pela palavra desconhecida, que, ao ouvir qualquer uma delas, tratava logo de anotá-la para uso futuro. Contava meu velho que certo dia, sem papel à mão, o escritor anotou a palavra no punho engomado da manga da camisa.
Uma das coisas mais aborrecidas a que tenho assistido ultimamente é o desfile das estatísticas. Claro, estou falando de futebol. 