Desenho de  Wendy MacNaughton
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Menalton Braff

POR EM 26/01/2012 ÀS 12:32 PM

Felicidade suprema

publicado em

Às vezes vale a pena pensar sobre a vida. Não sobre o que temos ou não consumido, tampouco a respeito do que fizemos ou deixamos de fazer. São aspectos factuais que, mais do que ajudar em uma reflexão mais profunda, tornam-se barreiras ao pensamento abstrato, aquele onde vamos encontrar as verdadeiras significações. Chegamos quase à Ideia de Platão, mas aí já o terreno é extremamente perigoso e podemos nos enredar.

Tentar entender o que é a felicidade talvez seja um dos caminhos para se chegar ao sentido da vida. É um assunto para o qual não há dona de álbum de pensamentos que não tenha uma resposta pronta: A felicidade não existe. Existem momentos felizes. Essa é uma verdade chocantemente inócua, pois não chega a pensar o que seja a felicidade como também não esclarece o que são tais momentos felizes. Pois bem,

O assunto me ocorre ao me lembrar de que vivemos em uma sociedade excessivamente consumista, sociedade em que a maioria considera-se feliz se pode comprar. Assim é o capitalismo: entranha-se em nossa consciência essa aparência de verdade fazendo parecer que os interesses de alguns sejam verdades inquestionáveis. O que é bom para mim tem de ser bom para todos. Isso tem o nome de ideologia, palavra tão surrada quão pouco entendida. E haja propaganda para que a máquina continue girando. Não sou contra o consumo, declaro desde já, mas contra o consumismo. Erigir o consumo de bens materiais (principalmente) como o bem supremo de um ser humano é tirar-lhe toda a humanidade, é reificação.


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POR EM 19/01/2012 ÀS 11:36 AM

Envolta no lençol

publicado em

A claridade é pouca, mas me incomoda, mesmo assim não consigo ficar de olhos fechados. A luz deve ser do sol e emana de maneira difusa das quatro paredes do quarto. A porta está muda, pelo menos é o que a chave em seu orifício está querendo significar. Mal consigo ver as telas de que o Roberto tanto se orgulha e que são a expressão de seu gosto pelo kitsch, colocadas em simetria rigorosa em volta da tapeçaria da parede aqui ao lado. Não é justo, isto não está certo. Tento me fixar em uma delas, mas o que vejo é fruto da memória: claridade insuficiente. Estar na cama a uma hora em que a cidade se move nervosa, as pessoas se movem nervosas, e mesmo os automóveis se movem nervosos, isso me escandaliza. Eu precisava, contudo, para que a consciência me deixasse em paz, dar mais esta oportunidade ao meu ex, como agora já posso me referir a ele. A sensação, entretanto, de estar na cama a esta hora, é a de estar praticando um ato ilícito. Ou pior: imoral. E pensar que muitas outras vezes estivemos aqui, fizemos amor nesta mesma hora, e saímos leves, meio tontos, prontos para rir das pessoas que se moviam nervosas, numa cidade trepidante. 

Jogou o corpo flácido para o lado e dormiu, sem se dar conta dos cheiros que deveriam ser do amor e que agora não passam de vestígios do sexo com que tenta me reter. Ronca a meu lado, sua perna direita dobrada por cima do meu quadril. Há muito eu vinha dizendo, Não dá mais, Roberto, isso tem que acabar.    

 


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POR EM 12/01/2012 ÀS 04:40 PM

Esnobar ou não eis a questão

publicado em

Não chega a ser um assombro ler que os membros do júri do Nobel, em 1961 esnobaram J.R.R. Tolkien. Me parece que o verbo esnobar não cabe no caso, por sua forte carga pejorativa. O que encontro nos jornais, e onde mais encontraria? É que CS Lewis tentou indicar seu colega ao Prêmio Nobel de Literatura, provocando reação contrária dos outros membros do júri. A razão apresentada, "o resultado não se comparava às ficções de boa qualidade", não me parece fora de propósito, muito menos ofensivo. Quando alguém resolve escrever, precisa fazer algumas opções. E a propósito transcrevo trecho encontrado no facebook de Matheus Arcaro: “A alta literatura faz o leitor tropeçar. E não é todo mundo que está preparado para cair. Por isso os best sellers são best sellers: porque dizem o que o leitor espera. O leitor menos preparado chama isso de ‘identificação com a obra. ‘Puxa vida, este autor diz exatamente o que eu penso.’ Não percebe que o prazer da leitura é justamente fechar o círculo’.” Não me parece que recusar alguém por falta de qualidade seja o mesmo que esnobar.

Ora, não há como negar que em literatura se têm duas categorias básicas: alta literatura e literatura digestiva. A primeira é arte; a segunda entretenimento. A primeira vende pouco, pois são poucos seus leitores; a segunda tem um caráter marcadamente comercial e consegue atingir o grande público. Não faço aqui apologia nem de uma nem de outra. Isso é apenas juízo de realidade, não de valor. 


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POR EM 07/01/2012 ÀS 03:54 PM

Farinha do mesmo saco

publicado em

Esta história das sanguessugas tem provocado discussões homéricas e acho que é bom, é saudável que se exercite um pouco esta coisa que se chama cidadania. Não importa que os conceitos sejam muitas vezes primários, que os resultados sejam viciados por visões tortas do mundo. O que vale, mesmo, é o exercício. Sem ele, jamais passaremos de multidão a povo. 

O Adamastor, homo morbide politicus, não para mais de discutir. A tônica do que se ouve sobre o assunto é sempre a mesma: políticos são todos corruptos. 

Entrei numa dessas discussões no bar do Zégeraldo para tirar meu amigo de uma enrascada. Ele havia dito o que pensava e isso é sempre perigoso, pois ele pensa. 

Valendo-me da maiêutica (parto, em grego, método socrático), perguntei ao oponente mais exaltado do Adamastor, se político tem família (pai, mãe, irmãos) e ele disse que sim, claro. E que tal a família de um político?, voltei a perguntar. Um olhar gelado de desconfiança me cobriu. Ora, nada de especial com a família de um político. 

Os outros começaram a coçar os braços, principais órgãos do pensamento em algumas situações. Voltei à carga, querendo saber se ele conhecia algum político, algum vereador, que fosse. Disse-me com orgulho que ao lado da casa dele morava um. Então perguntei se era possível notar algum sinal particular em seu vizinho. Não, nada de especial. Pelo contrário, um homem bem comum. Olhando assim para ele, revelou o adversário do Adamastor, ninguém imagina que se trata de um vereador. Igual a nós. 


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POR EM 22/12/2011 ÀS 10:56 AM

Precisamos aprender a lição

publicado em

Há poucos dias fomos alvo de brincadeiras nos jornais do mundo todo, principalmente nos espanhóis. E mexeram justamente em nossa ferida, ou aquilo que a grande mídia elegeu como tal: o futebol. Numa das manchetes publicadas em Barcelona, lia-se o belo trocadilho “Deuses e Santos”. 

Bem, o fato de o Santos Futebol Clube, ou seja lá qual for seu nome completo, ter perdido para uma equipe espanhola, teria sido digerido com a maior facilidade, não fôssemos o “país do futebol”.  A mídia, sobretudo a grande mídia, que em um de seus segmentos vive à custa do esporte, cria uma expectativa, forjada à base da repetição (técnica de Goebbels?), que muitas vezes não encontra base na realidade. 

Primeiro, nos convencem de que o Santos é o Brasil. E não é. Depois vão formulando por vias indiretas o silogismo “Se o Brasil é o melhor do mundo (a premissa maior já é uma falácia) e o Santos é o Brasil (premissa menor é outra), (conclusão) o Santos é o melhor do mundo. Ora, com duas premissas falsas eles criam a tal da expectativa que só pode redundar na frustração dos torcedores, pois não acontece o que se espera. 

Mas deixando a lógica menor de lado, o fato é que perder para o Barcelona, como muita gente assinalou, não é desdouro nenhum. Concordo. Mas perder de 4 a zero, bem, amigos, aí já é mais difícil de engolir a pílula. Já me parece um caso de humilhação. E não vamos cair na besteira de pensar no Brasil de joelhos perante a Espanha. Calma lá. Isso é só o futebol. Se a competição tivesse como objeto o analfabetismo, o desemprego, o desenvolvimento das ciências, o nível da saúde pública e do desenvolvimento intelectual de seu povo, sei lá, se fosse algo mais sério, então seria o caso de nos preocuparmos.  


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POR EM 12/12/2011 ÀS 02:01 PM

Anoitecendo

publicado em

Mais de duas horas aqui sentados neste barranco de rio sem qualquer sinal de vida, qualquer mensagem, as boias ali à toa na superfície da água, nos encaramos desistentes. As promessas não se cumpriam, apesar de nossa paciente insistência. O sol, estilhaçado e frio, cai sobre o remanso de onde esperávamos alguma notícia. É um momento meio triste, pois o dia definha irreversível e com alguma lentidão: morrente. 

Sabe o quê, a gente, pra não perder a viagem, ainda pode nadar um pouco. E as roupas começam a voar para cima dos arbustos. Mas eu não sei nadar muito bem, alega meu amigo para justificar sua relutância em se jogar na água. Mesmo assim, já está pelado, a pele branca arrepiando-se com a brisa que desce das copas escuras, então arroja seu corpo de pele branca na direção da água e levanta um turbilhão de pingos que aproveitam os restos do dia para brilhar no espaço antes de se misturar novamente ao sorvedouro. A água é quase sempre uma alegria do corpo: o prazer despudorado. 

Soltei os braços puxando o rio para trás, com a velocidade de quem quer chegar: o fingimento dos músculos. A cabeça ora afundava ora emergia acima da correnteza, os pés em movimentos rápidos, um ritmo só. Atravessei o remanso e o sorvedouro, e de lá, do outro lado, aonde o mato vem molhar os pés, grito para meu amigo que não tente a mesma reta. O caminho mais longo pode ser o mais seguro. Volto na mesma velocidade pela parte mais funda do rio, atravesso a correnteza e subo a uma pedra escura em função de plataforma. Do alto, aonde cheguei em poucos segundos, solto um berro de vitória: guerreiro. Então me jogo novamente no rio.   


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POR EM 09/09/2011 ÀS 11:38 AM

Falando de amor

publicado em

Isso não é privilégio de nossa cidade. Cenas idênticas tenho visto em toda parte. Mais fácil acreditar que seja característica de nosso tempo. O beijo de bico de minha época, que os jovens de hoje apelidaram de “selinho”, o beijo de boca, discreto ou cinematográfico, isto é, de perder o fôlego, de todos conheço como de todos experimentei. Sem esquecer o beijo de língua, o mais sensual de todos. Poderia ser chamado de beijo-véspera com muita propriedade. Pois outro dia fiquei assombrado ao presenciar um beijo de língua. Não por ser muito moralista, é que o beijo se deu entre uma garota e um cachorro. Meu liberalismo tem limites e meu estômago é fraco.

O que a língua andou limpando momentos antes  ou se a proprietária contraiu cinomose, nada disso importa na hora do beijo, que é a demonstração maior de carinho. Aliás, me cochichou agora meu anjo da guarda, dizendo que cinomose é doença de cachorros e não costuma acometer mocinhas que os beijem. Na boca e com algum requinte cuja razão desisti de entender. Mas antes que me acusem de anticanino, devo declarar que sempre amei os cães e foram muitos os que tive. E juro que nunca usei de crueldade com eles. Se não foram inteiramente felizes em minha companhia, é porque não entenderam que em nossas relações jamais abdiquei de meus direitos. Mesmo quando os afagava, e o fazia com frequência, mantinha alguns princípios, como o da hierarquia, em vigor. 


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POR EM 29/08/2011 ÀS 10:29 AM

Estética literária

publicado em

Lembro-me de meu pai, depois do almoço, contando coisas da vida para os filhos. Lembro-me dele contando que o Coelho Neto tinha uma fascinação tão grande pela palavra inusual, imprevista, pela palavra desconhecida, que, ao ouvir qualquer uma delas, tratava logo de anotá-la para uso futuro. Contava meu velho que certo dia, sem papel à mão, o escritor anotou a palavra no punho engomado da manga da camisa.

Poucos anos mais tarde, os jovens iconoclastas do Modernismo levantaram a bandeira da fala das ruas, da literatura que se aproxima da fala popular.

Diante de tais extremos, não há como não lembrar Machado de Assis. Em seu texto “Instinto da Nacionalidade”, pontifica o mestre: “Mas se isto é um fato incontestável, e se é verdadeiro o principio que dele se deduz, não me parece aceitável a opinião que admite todas as alterações da linguagem, ainda aquelas que destroem as leis da sintaxe e a essencial pureza do idioma. A influência popular tem um limite, e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventam e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razão.”  Ele acabava de dizer, no parágrafo anterior: “Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes.”


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POR EM 16/08/2011 ÀS 11:20 AM

Estatísticas inúteis

publicado em

Uma das coisas mais aborrecidas a que tenho assistido ultimamente é o desfile das estatísticas. Claro, estou falando de futebol. 

Alguns canais não conseguem transmitir um jogo sem que usem o direito de nos encher a paciência. Vocês devem-se lembrar do que estou falando. 

O Palmeiras está jogando com o Flamengo no Maracanã. A certa altura do jogo, o narrador começa: O Palmeiras já jogou cinquenta e sete vezes com o Flamengo, obtendo quinze vitórias e sofrendo igual número de derrotas. Os dois times empataram vinte e sete vezes. Quando o jogo é no Parque Antártica, o Palmeiras leva ligeira vantagem. Dos vinte e seis jogos em sua casa, o Palmeiras venceu oito, empatou doze e perdeu seis vezes. E isso, somando-se os jogos do Campeonato Brasileiro e os da Copa do Brasil. A situação inverte-se no Maracanã. O alviverde venceu sete vezes, sofreu nove derrotas e conseguiu quinze empates. Ou seja, o Flamengo, em sua casa, fala mais grosso.  

Meu amigo Adamastor, o obscuro, por ter assistido à passagem do Vasco da Gama pelo Cabo das Tormentas antes de virar clube de futebol, sempre tem explicação para tudo. É o tédio do jogo, ele afirmou. Eles não têm o que dizer, por isso ficam recitando esses números. Já imaginou um telespectador vendo o jogador caído fazendo careta e apertando o joelho, cercado por amigos e inimigos (antigamente eram adversários), juiz, enfermeiros, médicos e tudo mais de que se necessita em uma hora dessas, e o narrador sem ter jogadas para narrar? Ou naquelas ocasiões em que a bola foge das quatro linhas e lá veem os segundos em que o gandula (seu time está ganhando) finge não encontrá-la? Dizer o que, numa hora dessas? Os comentários do comentarista já foram repetidos dezenas de vezes. Os mesmos. Pois é essa exatamente a hora da estatística. 


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POR EM 01/08/2011 ÀS 10:32 AM

Espelho, espelho meu

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Pedi emprestados os olhos de Usbek para observar melhor o entorno. Para quem não leu Montesquieu (e eu confesso que só li as “Cartas Persas”, mas os estudantes de Direito, pelo que se saiba, todos eles leem o pai da matéria), Usbek é uma personagem de que se utiliza o autor para falar de Paris. Já devo ter comentado por aí que o forasteiro vê em nosso meio o que nós mesmos não vemos. Nossos sentidos, anestesiados pelo hábito, não percebem aquilo que nos rodeia. Você já tentou fazer o itinerário de todos os dias com os olhos abertos? É uma experiência sensacional. Usbek era um persa que vivia em Paris e via nos franceses o que os franceses não viam.

 Logo que recebi emprestados os olhos de Usbek, uma das coisas que vi é que os moradores de certa cidade, cujo nome prefiro omitir, sofrem de uma leve megalomania, de uso corrente na cidade, praticada com a naturalidade de quem toma um copo de água. Tudo, ali é maior ou melhor. Não quero ferir suscetibilidades, por isso não vou falar de rodoviária, de clubes de futebol y otras cositas más. A cidade e seus cidadãos têm virtudes, claro, e sou um admirador da cidade, mas acho que tenho o direito de descrever seus defeitos. Mesmo sendo um forasteiro. Ou talvez por isso mesmo. Os românticos (e estou falando de escritores brasileiros que escreveram entre 1836 e 1881) disseram que o Brasil é o maior país do mundo. Não é. Que nosso céu tem mais estrelas. Não tem. Muito tempo acreditamos que nossos bosques têm mais vida. Têm? Gigante, céu estrelado, mais vida, foram ideias bairristas que sem ou com malícia esses autores nos impingiram como verdades. E as crianças, coitadas, repetem isso até hoje sem o menor senso crítico, lógico, pois são crianças.


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