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POR EM 30/08/2010 ÀS 09:11 PM

A segunda chance

publicado em

Li outro dia num site sobre animais uma coisa que me deixou perplexo de susto e descoberta: li que a águia é uma ave capaz de viver 70 anos. São muitos anos para uma ave, nenhuma vive tanto tempo. Mas por volta dos 40 anos a águia tem que tomar uma difícil e fundamental decisão, porque nessa idade suas unhas cresceram tanto e estão tão compridas e flexíveis que ela já não consegue mais caçar suas presas e sabe que vai acabar morrendo de fome antes de chegar aos 70 anos que poderia completar.

E mais: seu bico que já é alongado e pontiagudo cresce tanto que fica curvo e as penas das asas se tornam tão grossas e pesadas que ela já nem consegue mais voar com a leveza de sempre. Então só lhe sobram duas alternativas: uma é deixar-se morrer pouco a pouco, conformada em ir perdendo a majestade sem voar direito e sem poder caçar. A outra é enfrentar um dolorido processo de renovação que as águias conhecem muito bem e que pode durar mais de 5 meses.  As águias envelhecidas voam até o paredão de uma montanha bem alta, se recolhem e se ajeitam num ninho de onde elas não precisarão voar. Quando encontram esse lugar elas começam a bater o bico com extrema força sobre as pedras da rocha até conseguirem arrancá-lo dolorosamente. Daí então ficam quietas pra não gastar energia porque vão ficar sem comer um bom tempo esperando um bico novo crescer. Ele cresce, fica novamente forte e com o novo bico elas começam a arrancar suas próprias unhas pra que caiam e cresçam também novas. Da mesma maneira, com o bico novo elas começam a arrancar as velhas e grossas penas que tornaram seu voo pesado, espera que cresçam e aguarda o grande momento em que, finalmente, vão poder se atirar do alto da montanha pro seu voo de renovação.  Aí, sim, elas sabem que poderão viver mais 30 anos. Claro que algumas águias preferem morrer que enfrentar esses meses todos de recolhimento, fome e dor.


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POR EM 03/08/2010 ÀS 12:13 PM

Roda gigante

publicado em

Conheço muitas pessoas trabalhadoras, artistas, pequenos empresários pagadores de altos impostos, atores que lutam dia e noite pra conseguir uns trocadinhos nas leis que eles chamam de incentivo à cultura.  Enfim, conheço muita gente que vive o dilema de saber se não escolheu a profissão errada porque vê todos os dias que a única coisa que facilita a vida financeiramente neste País — e não provoca dilema — é ser político ladrão.

Para eles é uma maravilha serem eleitos e se transformarem em ladrões. Há no Brasil todas aquelas leis, mordomias e proteções para não permitir que sejam presos e obrigados a devolver o que roubaram. Têm a garantia de ter suas fotos estampadas em grandes dimensões nos jornais, imagem exposta nas TVs por mais de 10 minutos, e isso por baixo, porque há ladrões que conseguem ficar no ar quase um telejornal inteiro e em horário nobre.

Para os artistas honestos, conseguir uma foto em branco e preto de algum dos seus espetáculos numa terceira página carece uma batalha com a editoria do jornal, ir pessoalmente à redação das TVs e mesmo assim é comum que alguns na redação encarem como se estivessem fazendo um grande favor ou prometem e ignoram em seguida o pedido pessoal.


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POR EM 17/07/2010 ÀS 09:01 AM

Amenidades

publicado em

Grandes polêmicas fizeram o mundo caminhar, evoluir e quem quiser saber mais é só ler a “História das Civilizações”. Polêmicas levam o homem a pensar, a ponderar, a desenvolver-se criticamente, a libertar-se dos comportamentos que as grandes massas de carneirinhos obedientes estabelecem como regra. Só as polêmicas são atraentes. O resto é corriqueiro e tedioso, mesmo quando são questões que propõem algo de novo pra se matutar e ângulos novos de um mesmo tema.

Mas polêmicas hoje são evitadas de qualquer maneira. Primeiro, pelos meios de comunicação que são os primeiros formadores de opinião: TVs, jornais, revistas, rádio —  todos eles têm pânico de assuntos polêmicos que, acreditam, podem trazer-lhes problemas jurídicos. Só amenidades são liberadas e incentivadas. Claro, o resultado disso é que quase todos os meios de comunicação são iguais, tediosos, repetitivos, acomodados, sonolentos, evidentemente medrosos nos cuidados com que jornalistas e apresentadores são orientados no que escrevem e falam.

Agora se controlam até os artigos com opiniões pessoais que antes eram respeitadas e das quais os jornais se eximiam naturalmente de responsabilidade, mas publicavam. Só o óbvio nos debates previsíveis gravados e editados que são revelados às massas nas TVs e, quando são debates ao vivo, estabelecem-se tantas regras e normas de censura que o que um fala é praticamente igual ao que os outros dizem.


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POR EM 21/04/2009 ÀS 02:50 PM

Tente o Google

publicado em

Friedrich Nietzsche, pros que só ouviram o galo cantar, mas não sabem onde, era um filósofo alemão. Tá bom, eu sei que há pessoas que se coçam e têm urticária ao simples nome de alguém inteligente como o Nietzsche – não quero provocar urticária em ninguém só o citei pra começar dizendo que esse “brother” (aposto que agora alguns se ligaram mais) me ensinou muitas coisas pela vida afora.

Quer saber mais dele? Tente o Google.

Ele ensinou-me, por exemplo, que os homens são divididos em carneiros e águias. Os carneiros são os “maria-vai-com-as-outras”, os “covers”, os coadjuvantes do segundo time, os que passaram do segundo grau, às vezes até das universidades, mas permanecem no primário, os que procuram fazer parte de algum bando como os carneiros procuram se juntar aos seus, os fraquinhos de espírito e intelecto, os que têm 40 anos com idade mental de 11.

Carneiros também podem ser definidos como aquele tipo de gente que acusa alguém de preconceituoso e na mesma frase o xinga de veado...sim, eles acham que chamar alguém de veado é xingamento. Cabecinhas de vento que com uma mera furadinha de agulha fina se esvaziam e desabam como aquelas bonecas infláveis de Miami.

Quando os carneiros estão irados eles se juntam ainda mais corporativamente contra o que os irou e berram, berram, berram pra demonstrar sua ira. É a única situação em que berram, normalmente eles apenas acompanham silenciosamente a manada, passivamente desde que tenham à disposição as pobrezas espirituais e materiais que os satisfazem: música ruim, conversas idiotas, comunidades e críticas em blogs, vinho mioranza ou sangue de boi que eles sorvem em grandes goles, gritinhos do tipo Ihuuuuuuu...essas coisas tão interessantes que fazem a felicidade dos carneiros.

Claro que o leitor inteligente sabe que simplifiquei muito os ensinamentos do Nietzsche pra facilitar a compreensão dos carneiros que estão aqui lendo este artigo, todos eles lêem é só observar a maioria dos comentários da revista. Afinal, não dá pra falar profundamente do filósofo alemão com gente que ainda acredita e participa de comunidades que colocam chifrinhos em fotos para demonizar alguém. As águias – NÃO, pensando bem, melhor é não definir as águias porque vai humilhar muito os carneiros-leitores, coitadinhos.

Se quiserem saber mais eles que procurem no Google.

Ah! Esqueci de um detalhe: carneiros detestam águias e isto é perfeitamente compreensível e mais que isso, é lógico.
Mas atualmente, tanto quanto com Nietzsche, aprendo com os budistas quando os leio – alguns são mesmo geniais, bons astrais e ensinam como se livrar de “bodes-pretos”.

(Vá ao Google)

Foi o que fiz na última semana quando uma carta que escrevi e um artigo que publiquei aqui despertaram os baixos instintos de carneiros aí pelas encostas. Águias, sim, sabem conversar com argumentos inteligentes, carneiros só dão coices. Pra contrabalançar o astral dos ovinos ofendidos conversei com meu mestre budista e ele me orientou: que eu acendesse muitos incensos de sete ervas feitos em Pindamonhangaba, poderosíssimos; que só colocasse no meu som a música do Vivaldi ou do Chopin (pena que alguns não os conheçam, nenhum dos dois foi roqueiro) e recebesse em minha casa pessoas de notório grau de inteligência, humor e boa conversa.

Fiz isto e não senti os efeitos nefastos nem aquele cheiro característico que os carneiros exalam quando estão enfurecidos e sem eixo. Como tô em fase de finalizar um espetáculo de teatro musical chamado “THEATRO MUZYCAL PROFANO” estou tendo a felicidade de ocupar minhas noites e dias com coisas sagradas como arte e artistas originais excelentes e divertidos, solares e bem humorados.

Meu trabalho me põe em estado de graça. Nada oriundo das profundezas tem o poder de interromper o processo de criação junto aos músicos e atores e cenógrafo e figurinista e regente musical e pintores e marceneiros e iluminador e webdesigner e costureiras e bordadeiras e produtores e o próprio deus Dionísio. É com esses que eu vou. Aliás, já fui...

PS luxuoso: que a BULA descanse de mim enquanto cuido de estrear meu novo espetáculo e viajar pra Espanha em seguida, dia 12, convidado pra dirigir no Teatro Real de Madrid um show da maior cantora espanhola do momento, uma diva moderna.

(vá ao Google, vá ao Google)

Levo comigo os incensos de Pindamonhangaba, claro. Mas desde já sei que os carneiros vão sentir muito minha falta:  afinal, provocando seus berros, eu os faço ter a impressão que existem.
 


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POR EM 13/04/2009 ÀS 12:58 PM

Cretinos

publicado em

Era tão pomposa essa palavra, tão sonora e perfeita pra nomear os próprios. Caiu de moda, sei lá porque. Quem sabe esse artigo nos ajude a reavaliá-la e reaprender a identificar seus destinatários no mundo. São muito antigos os cretinos, alguns arqueólogos os situam em idades pra lá de mezozóicas e dizem que aumentam aceleradamente. Acredito.

Todos são praticamente obrigados a conviver com cretinos nas várias áreas das atividades humanas, eles estão em toda parte porque cretinos sempre  foram, ainda segundo os arqueólogos, se não a maioria, os mais visíveis nas grandes sociedades. E procriam muito: ah, cretinos são férteis sob esse ponto de vista.

Consigo conviver e me divertir com eles como, aliás, quase todo mundo consegue, mas o melhor é evitá-los porque cretinos passam dos limites freqüentemente, não percebem sua cretinice, gostam de impor sua presença. Acham-se geniais e insubstituíveis quase sempre.

Pode ser que algo leve o leitor a imaginar que cretinos são pessoas de pouca cultura, psicologia simplista, desconfiômetro movido a pilha descartável – mas, não é assim, muito pelo contrário: cretinos existem com muito mais visibilidade nas áreas de pensamento classe média alta como a cultural, a política, a empresarial, pode observar.

Conviver com eles é fácil quando se concorda ou se elogia, caso contrário tornam-se chatos e previsíveis como abóboras. Minta pra eles, adoram. Dizendo o que se pensa deles o normal seria angariar entre a categoria inimigos que dariam pra encher um estádio, mas cretinos não se ofendem facilmente porque nunca vestem a carapuça e não são bons “percebedores” da realidade, estão quase sempre muito ocupados em perceber a si mesmos, como os pavões abrem seu leque de penas numa auto-admiração compulsória ou como a águia que se embriaga com seu próprio vôo.

Gosto, até me delicio em tê-los como inimigos porque, como ensinou Reich, inimigos é que nos fazem perceber o oposto, quer dizer, o que é ter amigos. Provocar cretinos surte o mesmo gostoso efeito que surte o assobio para os perus – não tem erro, sempre reagem, pra satisfação de quem os provoca. São muito divertidos nesse aspecto. Tô sempre disposto a provocá-los, mas cretinos, infelizmente, não são bons de briga, são fracos, medrosos, covardes e, portanto, adversários medíocres. Brigar com eles é muito sem graça.

Você, leitor, deve conhecer dezenas deles: adoram escrever cartas idiotas e ofensivas pras seções de cartas de leitores de jornais e revistas; costumam escrever poemas paupérrimos que guardam nas gavetas e que um dia despejam na cabeça dos incautos ou enviam pra publicações do gênero; os livros que teimam em escrever são normaizinhos e não acrescentam nada à literatura de lugar nenhum – mas são milhares em comparação com os bons livros; quando ouvem ou lêem qualquer coisa que lhes parece verdadeira ficam indignados e se defendem imediatamente porque a verdade lhes parece deboche ou irrealidade insuportável, coitados. Seus egos têm fermento.

Cretinos falam preferencialmente por metáforas ou alguns códigos que eles consideram inteligentíssimos, mas que não passam de tolices infantilóides e só são compreendidos por outros cretinos. O que eles escrevem são frases ou sentenças perfeitamente identificáveis por essas metáforas que consideram o supra-sumo da inteligência avançada.

Deve ter sido um cretino que inventou as metáforas – metafóricos são aqueles tipos de pessoas que nunca dizem a palavra certa e clara na cara de quem desejam alcançar. São sinuosos os cretinos – nem retas nem círculos... sinuosidades.  

Aqui vai outra boa dica pra identificá-los: quase tudo o que cretinos fazem é colonialismo, isto é, se “baseia” em alguma coisa ou em alguém ou em alguma música ou algum livro ou alguma idéia alheia. Eles amam o que “se baseia” em algo porque nunca têm idéias próprias.

Você conhece alguma coisa mais cretina e sem imaginação que covers? E rocks feito por aquelas figuras de preto e tachinhas metálicas oriundas dos 70/80, os anos deprês nos EUA? Cópias imperfeitas e superficiais – cretinas.

Na política os cretinos se lançam com genuína ferocidade, aí incluída a perversidade e o despotismo acrescidos dessa coisa sórdida e moderníssima que apelidamos de “lei de Gérson” onde o se dar bem anula quase todos os outros bons conteúdos da política como a generosidade e o desejo de ajudar ao próximo, freqüentemente relegados a terceiro plano. 

Também, como já disse, estão aos bandos na área da cultura apesar de acharem bem lá no fundo que cultura é coisa de veado, de velhinho burocrata, de funcionário público com prisão de ventre, de homens sem sensualidade, mulheres frígidas, profissionais liberais metidos a bestas. Mas como cretinos tem baixa auto-estima eles adoram se inserir na área da cultura pra se sentirem “in”, sabe como é?

Exatamente isso faz deles cretinos típicos, essa camuflagem de pensamentos e a falsa crença em qualquer coisa superior do espírito. Vivem no rame-rame. Mesmo lendo livros de Joyce ou Dostoiévski, vivem mesmo é no rame-rame.

Pronto: muitas pistas pra você, leitor, identificar cretinos por aí. Afinal, é uma palavra sonora, que enche a boca, precisa ser recuperada.  Exercite-se: comece agora mesmo a procurar nesta revista pra ver se encontra algum cretino e se tiver certeza que eu sou um deles, não se preocupe, vou fingir que não sou e não sofro com isso.

Como faz muito bem, aliás, um cretino autêntico.
 


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POR EM 06/04/2009 ÀS 05:38 PM

O que faz diferença

publicado em

O óbvio: cultura faz a diferença e é o que distingue povos de todas as épocas em todos os tempos. Mesmo não conhecendo a Itália, sabemos do Renascimento; difícil se lembrar quem governava a Inglaterra quando Shakespeare escreveu "Romeu e Julieta", mas a Inglaterra está para sempre associada ao nome do gênio, assim como nos lembramos de Portugal ao falarmos de Fernando Pessoa ou nos remetemos à Espanha diante de uma obra de Salvador Dali — a cultura engendra a identidade de qualquer povo, óbvio. No âmbito nacional, por exemplo, a Semana de Arte Moderna de 1922 é paulista; a Bossa Nova é carioca; o barroco brasileiro é mineiro, etc... Isso se aprende com mestres.

Agora, maduro, ando querendo devolver e retribuir espalhando as coisas que fui aprendendo pelo mundo afora com outras pessoas que sabiam mais que eu, que se interessaram por mim e me impulsionaram para frente.

Era um menino tolo e jeca quando fui lançado no Rio de Janeiro para estudar e anos depois pude avaliar a importância que algumas pessoas mais velhas que eu, ou colegas de colégio e faculdade, atores parceiros nos grupos de teatro, tiveram na minha vida.

Generosos, perceberam a enorme curiosidade que tinha de aprender e foram me orientando sobre o que ler, o que ouvir, permitindo que fizesse minhas escolhas a respeito de quase tudo. A curiosidade pelas coisas do mundo não diminuiu ainda hoje, não diminui nunca, só aumenta porque nunca se sabe o suficiente para deixar de se surpreender a cada manhã. Acreditamos que só as pessoas mais maduras, vividas, têm algo a ensinar e, assim, perdemos a chance de aprender com gente jovem que, mesmo não tendo vivência, tem uma maneira especial de observar o mundo, um ângulo ainda não viciado de perceber o que alguns velhos já não percebem. Portanto, melhor é se entregar aos mestres, todo tipo de mestre, novo ou vivido, e desfrutar os prazeres das descobertas que, nem de longe, se revelam de uma vez só — aprender é viver a vida em conta-gotas. As gotas podem ser uma boa conversa entre amigos, a leitura de um livro de um grande autor, a visão nova sobre a natureza humana que um filme nos sugere, as notas musicais que uma sinfonia insuspeitada nos revela, e por aí vai... Ensinam os mestres orientais que o aprendizado não é um diálogo entre um professor e um aluno, é uma espécie de diálogo entre dois amantes. Amigos podem ser amantes, um escritor e seu leitor são amantes, ouvir uma sinfonia de Beethoven o torna amante do compositor dela — só sendo amantes o que está acima, o além, pode ser expresso.

O que aprende deve estar sempre numa receptividade feminina como a de um útero para que qualquer coisa que seja recebido nele não seja apenas agregada como conhecimento morto, mas cresça. Ensinam também que há dois tipos de linguagem: a lógica e a amorosa. A linguagem lógica é egocêntrica porque pressupõe que eu estou certo e o outro errado e eu não estou interessado em você, mas em mim, em provar que eu sei e você não. Com esses não se aprende nada.

A linguagem amorosa, aquela que nos faz aprender e nos transforma, nos faz interessados no outro, em ajudá-lo a crescer, não é egocêntrica, é viva e bem-vinda.

Penso que é a melhor maneira de passar adiante o que vamos aprendendo pela vida afora, fazendo evoluir os que nos cercam e sendo evoluídos pelos que sabem e querem transmitir amorosamente o que sabem. Vivendo assim faríamos jus à nossa humanidade e mais, faríamos o mundo bem melhor, mesmo com todas as suas mazelas e desencontros. Penso nisso e sinto cada vez mais claramente que o que cada um sabe não lhe pertence, mas a todos e reter conhecimento é uma doença do ego como tantas outras porque conhecimento agregado que não circula é conhecimento morto.

Retribua por aí o que o mundo lhe ensinou e estará contribuindo para a evolução e transformação da sociedade em que vive.

E com vantagem e a garantia do que ensinou João Guimarães Rosa: “Mestre não é quem ensina, mas quem, de repente, aprende”.
 


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POR EM 30/03/2009 ÀS 08:16 PM

É bem feito

publicado em

Somos um povo que recebe exatamente o que merece, nem mais nem menos. Temos os governantes demagogos, desonestos e incompetentes que elegemos e os merecemos. A massacrante maioria dos nossos políticos são descarados, ladrões, sem-vergonha e mentirosos e nós mesmos os elegemos.

Nosso sistema judiciário é insensível e preguiçoso, desonesto e corporativista — nós os merecemos igualmente. Nossa polícia é despreparada e corrupta e nós fazemos jus a ela. Homens e mulheres desse País: ninguém faz nada?

Há anos não se nota a presença do Estado a não ser na cobrança de impostos e nas cascatas de explicações sobre a falta de segurança, de trabalho, de incentivos. Todas as autoridades parecem ter sido treinadas numa mesma escola sobre como justificar a inoperância.

E todos parecem permanentemente ocupados em preservar seus carguinhos, seus ganhos, seus postos embalados pelo poder, mordomias, garantias e blindagens. E fazendo aquilo que chamam política que é o que vai lhes garantir a permanência no poder nos próximos anos.

Assim como a grande maioria dos eleitores que votaram, você também leitor, deve ter votado pensando que o atual presidente do Brasil nos livraria das piores pessoas que ele mesmo dizia combater e que o Brasil não suporta mais.

O que se vê é que todos os pequenos homens que sugam os cofres brasileiros e debocham do povo: José Sarney, Delúbio Soares, Severino Cavalcanti, Marta Suplicy, Marcos Valério, Marco Aurélio Garcia, Fernando Collor, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Roberto Jefferson, todos eles e muitos mais é que foram e são as companhias perfeitas para o presidente da República.

Morro de medo de ser preconceituoso involuntário, mas o que mais se poderia esperar de gente tão ignorante e pouco aculturada no comando da nação?

O que esperar de um chefe de nação que se diz orgulhoso da sua falta de cultura e que nem falar direito sabe? Que afirma com todas as letras que ler um livro é chato? Que acha que ler jornais lhe causa azia? Que só sabe se expressar através de metáforas sobre galinhas, ovos, futebol e grogotós, além das piadas sem graça e das comparações indigentes.

Que divide o mundo em brancos de olhos azuis, os maus e os outros. Reinaldo Azevedo, colunista da “Veja” os chama de “petralhas” mistura perfeita de petistas com os irmãos metralhas. São eles que se proclamaram donos do País.

E será preciso falar dos seus aliados oportunistas e parasitários de outros partidos?

Esqueçamos a tal esperança de que o País um dia vai melhorar isso é utopia cega, não vai melhorar nada enquanto incompetentes estiverem nos governando.

Nada vai melhorar enquanto forem eleitos pela grande maioria também alienada e analfabeta que se contenta com cestas básicas e acredita (ainda) que um ex-operário no poder é capaz de mudar as coisas, um ex-operário travado pela imobilidade e a vaidade de se considerar o messiânico pai da pátria.

O que define os destinos de um país é a classe média com alguma informação e cultura, gente que trabalha de fato e não necessita de esmolas governamentais para decidir seu voto. São os intelectuais sem empregos públicos, eternas minorias, mas capazes de pensar estratégias contra a mediocridade...ou deveriam ser.

Enquanto a maioria der a esse governo a sensação de que o aprova como tem acontecido através das pesquisas continuaremos a viver num País governado pela corrupção, a falta de ética, de segurança, de saúde, de educação e de caráter. Operário deslumbrado pelo poder só pode gerar culto ao ego, há muitos exemplos na história do século XX.

As dezenas de ministérios, secretarias e os cargos mais importantes não são distribuídos conforme a competência de cada um, mas oferecidos aos companheiros aliados. O que essa gente corporativista entende de segurança, de turismo, de malha aérea, de agricultura, de cultura? Por que algum deles se aventuraria a alguma mudança de fato na ordem das coisas correndo o risco de perderem seus empregos?

E nós apenas nos indignamos e não fazemos nada, desconsideramos nossa capacidade de mobilização contra o que nos aflige, sentamos diante da TV pra assistir de camarote as humilhações a que nos submetem e arrotamos depois da pamonha mal digerida.

E acordamos cedo pra trabalhar e pagar os impostos que vão alimentar essa máquina de fazer doidos —  as vítimas trabalhando pra felicidade dos algozes.

Melhor repetir: merecemos tudo. Fazemos jus a tudo isso porque, apesar de tudo isso, as ruas estão vazias da nossa presença, só nos manifestamos na intimidade dos nossos lares, acuados, sem coragem de encarar as praças que não deveriam ter a única função de reunir pessoas pro lazer, mas também ajuntamentos e participação.

Utopia que faz relembrar a frase do Bertolt Brecht: “Se os bois pudessem se comunicar entre si, com a força que têm, jamais iriam pro matadouro”. Seguimos cabisbaixos pro curral final.

E pensar que já tivemos coragem de enfrentar as armas e as prisões da ditadura militar nos juntando nas ruas e praças pra exigir democracia e liberdade. Conseguimos e não sabemos o que fazer delas.

Uma porção de ração e uns empreguinhos mequetrefes conseguem mais que silenciar as massas: fazê-las aplaudir e aprovar a mediocridade e a incompetência. E os que pensam permanecem calados.

Bem que merecemos, bem que merecemos.
 


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POR EM 23/03/2009 ÀS 07:35 PM

Arte da mentira

publicado em

Quando era primeiro ministro de Portugal Antônio Guterres numa entrevista que li no jornal “Público” de Lisboa veio com esta pérola abominável:

“A política é a arte de não dizer a verdade”

Fiquei paralisado e indignado ao ler isto.

E não me consta que ninguém disse nada sobre esta barbaridade, pelo contrário, a impressão que dá é que todos os políticos brasileiros a leram, concordam com ela e a praticam intensamente.

Só pra me ater aos vereadores e deputados goianos, mais próximos de nós, é difícil extrair das palavras, declarações e comportamentos deles qualquer vestígio remoto de verdade, agem como se estivessem, e estão, acostumados à mentira como a grande arte que permeia a política.

Há um vereador líder que funciona como o exemplo-capa-de-livro e que a cada entrevista na TV olha fixamente dentro do olho da câmera acreditando passar firmeza e credibilidade, mas conseguindo ser apenas captado como um grande mentiroso, dissimulado, que teve um papel primordial no episódio da invenção de mais dois meses nos salários dos vereadores de Goiânia. Voltou atrás e desmentiu tudo, como qualquer bom mentiroso sabe fazer.

Agora um pastor vereador quer de novo mais três salários que, diz ele, lhes é de direito.

Como é evangélico deve acreditar que é direito divino. Claro que nenhum deles está sozinho na sua crença de que política é a arte de não dizer a verdade: há um bonitão que jura que é o escolhido dos deuses por ter sido dos mais bem votados; um outro que está há anos encarrapitado no cargo e cuja arrogância e onipotência conheço muito bem.

Este, em 2000, atuou durante a instalação da lei municipal de cultura tentando emplacar fora das normas alguns artistas sertanejos seus protegidos, furando fila pra falar com secretários, usando e abusando do seu direito de “autoridade”. Quando é pego numa armadilha faz cara de bebê-chorão e desova frases burras de efeito duvidoso.

Um outro que tem cargo de presidente, tem cara e atitudes típicas de menino-criado-com-avó e faz visível e risível esforço pra parecer inteligente. Todos sabem como ele chegou a ocupar aquele cargo há alguns anos.

Claro que ninguém que pensa nesse Estado se sente representado por nenhum desses tipos, ainda há pessoas que acreditam na verdade, na honestidade, na inteligência.

Na assembléia não é nada diferente, apenas pensam ter mais poder e o usam da maneira mais carreirista possível: querem e tentam se dar bem seguindo a lei de Gérson. Nenhuma das duas casas está preocupada em legislar e atuar a favor da população que elegeu seus componentes. Agem como predestinados que foram colocados ali por merecimento, competência, brilhantismo intelectual e político.

É mentira, nós sabemos que quase todos estão lá por conta do dinheiro que investiram na campanha ou porque aproveitaram do prestígio de outros políticos como maridos, pais, pastores mais velhos que emprestaram seus nomes às suas candidaturas.

São seguidores das capitanias hereditárias onde o poder passa de parente pra parente. Basta observar o numero de filhos jovens que alguns deles nos impõem e que posam como messias aos 22 anos.

Ou porque, simplesmente, mentiram mesmo e conseguiram enganar a muitos. Claro, há exceções, felizmente, poucas, mas há.

Um deputado, meu ex-amigo, ex-comunicador antes de ser deputado, era pobre, assalariado numa empresa de comunicação, tinha um carrinho velho, pagava aluguel num dois-quartos-e-sala bem distante da cidade e gostava de dizer que um dia sua voz o levaria onde queria. Pois não é que ele estava mesmo certo?! Chegou onde queria e hoje faz um verdadeiro milagre mensal com aquele pobre salário de deputado: comprou uma bela casa num setor nobre, anda de carro importado, vai ser dono de uma fazendinha onde criará bois, terá filha estudando no exterior – tudo conseguido com a enganação que a sua bela voz transmite ao público. Não se trata de competência, mas de oportunismo, já que todos sabemos que radialistas e apresentadores de televisão têm exposição suficiente pra pleitearem cargos públicos à custa dos seus ouvintes.

Afinal, muitos usam do mesmo recurso, angariam votos oferecendo prêmios pobrinhos a pessoas pobres num pobre programa de TV.

Estamos mal, leitor.

São esses pobres de espírito, grandes maiorias no País, facilmente conquistadas com pequenos prêmios que elegem os ignorantes que dizem nos representar.

Talvez tenhamos de recorrer à mentira para nos ajudar a fingir que essas situações mesquinhas e medíocres não estão acontecendo.

Ou reagir concretamente e com indignação conforme fazem pessoas civilizadas em todos os países civilizados do mundo.

Pena que no Brasil gente civilizada ou é intelectual sem ação, ou é acomodada ou é medrosa e sem atitude ou, o que é mais comum, as três coisas ao mesmo tempo -são esses que avalizam o status quo político no Brasil.


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POR EM 16/03/2009 ÀS 01:41 PM

Ridículos

publicado em

Existem muitos tipos de crises apesar de só se falar numa delas, a do dinheiro. Uma das piores é a crise que afeta a inteligência e a sensibilidade. Telespectadores são suas vítimas mais comuns porque é uma verdadeira tortura o que é veiculado por alguns canais de TV em Goiás.

Não basta sermos submetidos diariamente ao trânsito irritante e estressante; expostos à paranóia de chegar em casa com vida; sofrer as noticias dos telejornais na hora do jantar ou entre o jantar e o sono...além de tudo isso somos também testemunhas do imenso ridículo de algumas pessoas e situações quando ligamos a TV pra tentar desanuviar um pouco o peso do dia.
O ridículo perturba e constrange quem o testemunha.

E em matéria de ridículo as revistas e colunas sociais eletrônicas goianas são imbatíveis. Numa delas, a mais conhecida, o antigo apresentador incentiva os entrevistados a elogiarem-se uns aos outros enquanto a câmera passeia, cruel, pelas mesas das festas que seu programa visita focando corpos rígidos e rostos tensos e feios.

As mulheres que freqüentam essas atividades sociais parecem ter saído todas do mesmo salão de antibeleza: o mesmo penteado, a mesma maquilagem carregada, o mesmo figurino de gosto duvidoso e fora de moda.

Gente feia é que faz vida social em Goiás? Pergunta-se um desavisado telespectador. As mulheres mais jovens dão a impressão de terem combinado ir à festa vestidas de princesas. E tome brilhos, longos faiscantes brilhosos, bijuterias baratas, exagero competitivo.

Se num outro dia o leitor acessar o mesmo canal vai assistir os micos e os ridículos de um outro apresentador que finge que o telespectador não sabe que ele está recebendo jabá para elogiar tudo o que elogia — e elogia tudo, literalmente. O mundo pra ele é absolutamente um sucesso feito de criaturinhas fantásticas, comidas inacreditáveis, hotéis espetaculares, cidades lindas e bebidas deliciosas e, apesar de tudo isso ele consegue a cada semana ser pior do que já é.

Dá até uma certa pena ver um homem velho ter de se submeter a elogiar pra ganhar algum dinheiro —  não é uma boa maneira de envelhecer, convenhamos. E esse usa uma linguagem tão antiga que parece que seu programa está no ar há quase cem anos como ele gosta de frisar: a idade do programa.

Meu Deus do céu! Quem vai mexer nesse vespeiro com aparência de cultura? Quem vai assumir a coragem de denunciar o ridículo a que Goiás é exposto com programas como esses diante de pessoas de fora ou diante de seus cidadãos pensantes?

E quem há de nos livrar daquele dublê de jornalista e publicitário cujo sonho maior é ser cover, o Roberto Justus do cerrado e que é péssimo em tudo o que faz, mas consegue a proeza de estar em dois canais da cidade sempre se exibindo, contando suas viagens internacionais, cuspindo sua falsa erudição entre uma pergunta e outra a entrevistados desavisados?

E o que dizer do ridículo de alguns políticos que fazem aniversários, mas se lixam pra data, só fazem dela um pretexto para demonstrar poder e conexão política. Alugam página inteira de algum jornal onde veiculam fotos suas com figuras carimbadas como senadores, ministros, artistas, governador, vips em geral — o que importa é aparecer ao lado de pessoas que ajudam a impulsionar seu prestigio.

Parece que não há como ser mais ridículo. Mas há.

Preste atenção em deputados, senadores, vereadores sendo entrevistados e assassinando diante das câmeras o idioma português a cada frase que pronunciam. Criam neologismos absurdos com uma convicção que beira dicionário ou atiram frases que começam ou terminam assim: houveram muitas situações dessas; o pessoal gostaram muito; a situação econômica nesta cidade é esbanjativa; só tem que apresentar a indentidade na portaria...etc...

Uma cidade de quase um milhão e meio de habitantes ser representada por tipos como alguns vereadores grosseiros e ignorantes; um deputado oportunista que chegou à Assembléia e a uma secretaria, mas não passa mesmo é de um populista medíocre desses que as televisões produzem às dúzias; pastores evangélicos moralistas e retrógrados; jovens filhos herdeiros de velhas raposas políticas que metem a colher em qualquer assunto e até escrevem artigos pra jornais como se fossem inteligentes — são apenas bonitinhos e burros.

Meu Deus! Ridículo não tem limite?

Enquanto essa gente estreita representar a política, a sociedade e a cultura goianas havemos de fazer cara de cachorro-que-peidou-na-igreja a cada vez que alguém de fora nos visitar e conhecer quem nos representa.

O mais grave é que todas essas barbaridades acontecem num canal que leva o nome de cultura e é mantido pelo governo de Goiás, quer dizer, pago por nós.

Quem mais vai atirar pedra na caixa de marimbondos?
 


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POR EM 01/12/2008 ÀS 07:36 PM

Sei não

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Pra que servem intelectuais? Conheço alguns que são capazes de promover debates e discussões sobre a nacionalidade de Adão e Eva, seus temas são geralmente inúteis e não ajudam o mundo, nem a inteligência do mundo, apenas alimentam o ego dos debatedores e preservam seus empregos

Sei não...será que não será a poesia que poderá nos salvar da enfermidade da violência no dia-dia? Não sei, mas tenho pensado muito nisso e feito experiências de só ler poesia por longos períodos pra observar como reage meu organismo – tenho andado menos tenso.

Sei não, mas fico tenso em seguida quando desconfio que não temos mais salvação nesta outra violência a da pequena política que se faz no Brasil e especialmente em Goiás onde só os medíocres é que quase sempre se sobressaem e se elegem e pra confirmar é só dar uma espiada na assembléia e na câmara; sei não, mas acho que o George Orwell tinha razão já em 1949 quando previu que seríamos uma sociedade apática, submissa e indolente – atirou no macaco acertou na onça; sei não, mas tenho pensado e Deus permita que eu esteja errado, mas não parece haver nenhum sinal no horizonte que sugira mudanças; não sei, mas duvido que alguém discorde que somos governados por um homem lúgubre, lento, sem carisma, sem brilho e que fica ali no palácio apenas contando os dias pra ir embora – sonolento; sei não, mas acho que esse governo aí tem consciência de tudo isso acima e de como atrasa a vida deste Estado e não sabe o que fazer; não sei, mas basta dar uma espiada em dois secretários, o de comunicação e o da cultura, que nos foram impostos pra entender o governo que nos governa e o porque da certeza de que nada vai dar certo até que tudo se revire de novo com outra eleição – ou não; eu não sei, mas vejo que cada vez mais ainda permanece em certos meios tidos como de elite aquela visão provinciana de colônia do império que assolou o Brasil inteiro e ainda assola alguns – todos se contentam em admirar seu próprio umbigo, é só acessar a TBC Cultura que de cultura não tem nada; sei lá, mas sempre que ligo a TV me pergunto pela enésima vez pra que ela serve: se for pra fazer a massa se hipnotizar ouvindo histórias não seria melhor que a massa lesse romances e prosa em geral? As histórias da TV são sempre e eternamente as mesmas que o Shakespeare contou em Romeu e Julieta – cópias pobrinhas, verdade; sei não, mas cada vez que releio Antonin Artaud mais concordo com ele: as pessoas são idiotas, a literatura está esvaziada, a alma é insana, não existe mais amor nem ódio, tudo é amorfo, todos os corpos estão saciados, as consciências resignadas, só existe uma enorme satisfação consumista de inertes almas bovinas, escravas da estupidez que as oprime...; sei não, sei que é duro concordar com isso, chega a doer, mas não há nada que o desminta; também não sei pra onde caminhamos nas relações afetivas que de afetivas não têm mais nada, meros contatos frios e esporádicos e meras confusões entre o que é ter amigos e ter colegas; sei não, mas acredito que quanto menos tempo de vida se tem pra viver menos temos tempo a perder, o instante que passa, passa definitivamente e  estamos desperdiçando preciosas horas, ricos minutos, dias plenos, meses inteiros, muitos anos despendidos com mediocridades, pequenas sensações, livros ruins, músicas horríveis, conversas idiotas, preocupações tolas, invejas destrutivas, ócio pouco criativo, amores equivocados, sexo lambão, amigos-da-onça...; sei não, mas acho que o Artaud podia dizer tudo porque nunca foi um intelectual; e, sei não, o que será que significa hoje um intelectual?

Pra que servem intelectuais? Conheço alguns que são capazes de promover debates e discussões sobre a nacionalidade de Adão e Eva, seus temas são geralmente inúteis e não ajudam o mundo, nem a inteligência do mundo, apenas alimentam o ego dos debatedores e preservam seus empregos; não sei, mas às vezes paro pra imaginar o que seremos daqui alguns poucos anos e descubro que nada pressupõe grandeza num futuro próximo - seremos resultados certos do que plantamos hoje; não sei, mas desconfio que quem quer qualidade nas artes, nas letras, na cultura em geral que evolui o espírito tem sempre de recorrer às manifestações mais antigas – há 30 anos tudo isso era maior que quase tudo que produzimos hoje: política, teatro, música, idéias, livros, dança, reflexões, filosofia, artes plásticas, pode prestar atenção; não sei, mas tenho percebido que estamos todos perdendo o medo de aranhas, escorpiões, cobras, feras selvagens, doenças incuráveis, fenômenos brutais da natureza – o grande medo do homem é do homem mesmo, somos todas essas catástrofes juntas e a qualquer momento podemos nos confrontar com elas num único homem; é, não sei não, mas tô achando melhor parar de refletir esses pensamentos caóticos  antes que a doença do século ataque a quem escreve e aos que o lêem – a depressão; não sei, mas vou tentar diminuir o impacto de tais achômetros lendo Pablo Neruda e ouvindo Jan Garbarek à meia luz e os leitores que encontrem seus alívios naquilo que lhes parecer melhor porque, sei não, mas muitas vezes pensar dói sim.


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