POR MARCOS FAYAD
EM 29/07/2008 ÀS 06:02 PM
Emoções baratas
publicado em arquivo
Nada me emociona mais que a solidariedade. Nenhuma das dezenas de estréias de espetáculos que já vivi, nem minha primeira vez no sexo, nem minha formatura, o primeiro cliente que atendi sozinho no consultório, nem a morte de muitos dos meus entes queridos, nem o confronto com a dor de me sentir relegado ao segundo plano nalguma relação afetiva, nada me causa maior comoção que ver um homem ajudando outro homem e de coração aberto porque só assim a solidariedade se realiza plenamente: sem pensar em nenhuma recompensa.
É bonito demais!
Fico bobo e sentimental quando assisto a cenas assim, solidárias, nos períodos de grandes catástrofes. Na época em que ocorreu aquele tsunami e milhões de pessoas ficaram desamparadas me emocionava muito quando assistia aviões chegando ao País e distribuindo comida e cobertores aos desabrigados ávidos.
Chorava mais quando via voluntários curando feridas, cuidando de crianças.
É como se toda a grandeza do homem se manifestasse nesse ato simples que noutros tempos devia ser bem mais corriqueiro. Observar a grandeza do homem se revelando nos redime um pouco da auto-estima baixa dos tempos atuais.
Guardo na memória o primeiro exemplo de solidariedade que conheci - na cidadezinha onde nasci os homens faziam rodinhas sentados nos finais de tarde nas portas das ruas e ali passavam horas conversando, contando dissabores, alegrias, angústias, apreensões, vitórias e alegrias uns aos outros. Era menino e parava de brincar pra ouvir histórias adultas. Meu avô era uma espécie de conselheiro sábio, um maçon de alto grau que era procurado por todos da cidade como aquele que podia aconselhar ou apenas ser solidário. Essa era a psicanálise daquela época: todos ouviam as histórias de todos, se solidarizavam com todos e saíam dali aliviados e leves, prontos pra viverem tudo de novo. A solidariedade nos garante, ampara e nos torna mais fortes. Era ela que eu tirava da manga quando atendia num consultório e ouvia durante 8, 10 horas seguidas a todas as piores e impensáveis dores humanas.
Driblava o cansaço não sendo apenas o profissional frio e correto, mas o homem solidário com o outro que estava à sua frente. Se por um lado perdia no cumprimento dos ritos psicanalíticos por outro ganhava em profundidade humana. Sempre funcionou.
Porque o amparo da solidariedade cura muitas dores.
Para haver solidariedade há que haver consciência e compaixão associadas e isso só acontece com a espécie humana. Animais podem se proteger e se amparar por instinto contra os perigos, mas não podem ser conscientemente solidários com os outros depois das grandes dores ou do ataque de outros animais.
O riso, a compaixão e a solidariedade são prerrogativas humanas, três itens que nos distinguem dos outros animais apesar deles serem muito superiores em tantas outras coisas, segundo Walt Whitman. Conseguem ser plácidos e serenos sem ajuda de calmantes; não sofrem nem lamentam sua condição; não ficam acordados no escuro chorando seus pecados; não causam asco discutindo seus deveres com Deus; nenhum está insatisfeito; nenhum sofre da mania de possuir coisas; não se ajoelham diante de outro de sua espécie, nem de seus ancestrais que viveram há milênios...mas, principalmente, nenhum animal é respeitável como existem homens respeitáveis.
Na comparação com eles perdemos quase sempre e isso talvez seja o que valoriza tanto a solidariedade, característica tão humana e tão emocionante.
É bonito e alegre de se ver a solidariedade do homem quando seu semelhante comemora vitórias ou o nascimento de um filho ou perde alguém e recebe o abraço solidário de quem nada pode fazer a não ser isso.
E isso é tudo. Experimente praticar a sua com alguém necessitado dela e vai perceber que solidariedade reverte imediatamente seus benefícios a quem a pratica porque toda solidariedade é produto do lado iluminado do homem.
Nos nossos dias anda bem difícil perceber esse lado no meio de tantas emoções baratas. Ando apavorado com a idéia de que até esse sentimento seja relegado burocraticamente à lista de grandes sentimentos que o homem vai esquecendo no redemoinho individualista que vivemos. Dá paranóia imaginar que a solidariedade diante da dor e da morte de um semelhante possa ser esquecida como quase tudo é esquecido em tempos em que predominam des-valores.
Minha inquietação chega ao auge quando penso em tudo o que vamos perdendo na degradação das relações humanas, dos costumes, dos princípios éticos.
Inquietação justificável se até já inventamos, no lugar da solidariedade, essa coisa abominável chamada corporativismo.
Agora só falta um pulo.
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