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Marcos Fayad

POR EM 29/07/2008 ÀS 06:02 PM

Emoções baratas

publicado em


Nada me emociona mais que a solidariedade. Nenhuma das dezenas de estréias de espetáculos que já vivi, nem minha primeira vez no sexo, nem minha formatura, o primeiro cliente que atendi sozinho no consultório, nem a morte de muitos dos meus entes queridos, nem o confronto com a dor de me sentir relegado ao segundo plano nalguma relação afetiva, nada me causa maior comoção que ver um homem ajudando outro homem e de coração aberto porque só assim a solidariedade se realiza plenamente: sem pensar em nenhuma recompensa.

É bonito demais!  

Fico bobo e sentimental quando assisto a cenas assim, solidárias, nos períodos de grandes catástrofes. Na época em que ocorreu aquele tsunami e milhões de pessoas ficaram desamparadas me emocionava muito quando assistia aviões chegando ao País e distribuindo comida e cobertores aos desabrigados ávidos. 
 
Chorava mais quando via voluntários curando feridas, cuidando de crianças. 
 
É como se toda a grandeza do homem se manifestasse nesse ato simples que noutros tempos devia ser bem mais corriqueiro. Observar a grandeza do homem se revelando nos redime um pouco da auto-estima baixa dos tempos atuais. 
 
Guardo na memória o primeiro exemplo de solidariedade que conheci - na cidadezinha onde nasci os homens faziam rodinhas sentados nos finais de tarde nas portas das ruas e ali passavam horas conversando, contando dissabores, alegrias, angústias, apreensões, vitórias e alegrias uns aos outros. Era menino e parava de brincar pra ouvir histórias adultas. Meu avô era uma espécie de conselheiro sábio, um maçon de alto grau que era procurado por todos da cidade como aquele que podia aconselhar ou apenas ser solidário. Essa era a psicanálise daquela época: todos ouviam as histórias de todos, se solidarizavam com todos e saíam dali aliviados e leves, prontos pra viverem tudo de novo. A solidariedade nos garante, ampara e nos torna mais fortes. Era ela que eu tirava da manga quando atendia num consultório e ouvia durante 8, 10 horas seguidas a todas as piores e impensáveis dores humanas.
 
Driblava o cansaço não sendo apenas o profissional frio e correto, mas o homem solidário com o outro que estava à sua frente. Se por um lado perdia no cumprimento dos ritos psicanalíticos por outro ganhava em profundidade humana. Sempre funcionou. 
 
Porque o amparo da solidariedade cura muitas dores.
 
Para haver solidariedade há que haver consciência e compaixão associadas e isso só acontece com a espécie humana. Animais podem se proteger e se amparar por instinto contra os perigos, mas não podem ser conscientemente solidários com os outros depois das grandes dores ou do ataque de outros animais. 
 
O riso, a compaixão e a solidariedade são prerrogativas humanas, três itens que nos distinguem dos outros animais apesar deles serem muito superiores em tantas outras coisas, segundo Walt Whitman. Conseguem ser plácidos e serenos sem ajuda de calmantes; não sofrem nem lamentam sua condição; não ficam acordados no escuro chorando seus pecados; não causam asco discutindo seus deveres com Deus; nenhum está insatisfeito; nenhum sofre da mania de possuir coisas; não se ajoelham diante de outro de sua espécie, nem de seus ancestrais que viveram há milênios...mas, principalmente, nenhum animal é respeitável como existem homens respeitáveis.
 
Na comparação com eles perdemos quase sempre e isso talvez seja o que valoriza tanto a solidariedade, característica tão humana e tão emocionante.
 
É bonito e alegre de se ver a solidariedade do homem quando seu semelhante comemora vitórias ou o nascimento de um filho ou perde alguém e recebe o abraço solidário de quem nada pode fazer a não ser isso. 
 
E isso é tudo. Experimente praticar a sua com alguém necessitado dela e vai perceber que solidariedade reverte imediatamente seus benefícios a quem a pratica porque toda solidariedade é produto do lado iluminado do homem.
 
Nos nossos dias anda bem difícil perceber esse lado no meio de tantas emoções baratas. Ando apavorado com a idéia de que até esse sentimento seja relegado burocraticamente à lista de grandes sentimentos que o homem vai esquecendo no redemoinho individualista que vivemos. Dá paranóia imaginar que a solidariedade diante da dor e da morte de um semelhante possa ser esquecida como quase tudo é esquecido em tempos em que predominam des-valores.
 
Minha inquietação chega ao auge quando penso em tudo o que vamos perdendo na degradação das relações humanas, dos costumes, dos princípios éticos.
 
Inquietação justificável se até já inventamos, no lugar da solidariedade, essa coisa abominável chamada corporativismo. 
 
Agora só falta um pulo.

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POR EM 23/07/2008 ÀS 09:57 AM

Andar com fé eu vou

publicado em

...ou: A fé não costuma faiá, poderia ser também o título do artigo. O leitor escolhe ao final.
 
Dize-me com quem andas e eu te direi quem és, reza a máxima popular.  Alguns nutricionistas fazem o mesmo quando afirmam que o homem é o que ele come ou os estilistas que checam a elegância das pessoas pelo bom gosto (ou não) que elas demonstram ao se vestir, e por aí vai... 
 
Como estamos em época de eleições eu (nos) pergunto: o que lêem os políticos ou pretendentes a políticos que se exibem nos meios de comunicação de massa? E lêem? Porque o que um homem lê o define melhor que os itens enumerados acima, já que a leitura é muito mais significativa e conotativa da personalidade e caráter. 
 
Sabe-se, através de um ensaio sobre comportamento humano realizado por Jeremy Rice, o que liam certas personalidades mundiais como Hitler que se empanturrava com as biografias de Napoleão; Pinochet que desanuviava sua mente com histórias de Disney e tinha predileção pelas tirinhas sobre os irmãos metralha; Richard Nixon que se deliciava secretamente com o que se escreveu sobre czares russos; Idi Amin Dada, o sangrento ditador de Uganda que torturava seus desafetos atirando-os aos crocodilos entre uma máxima e outra do livro de São Cipriano conhecido manual de maldades e magia negra escrito em forma de orações; Stalin que desde criança não escondia sua admiração por contos macabros e cheios de suspense, etc... Seguindo as mesmas pistas pode-se até intuir que livros liam homens como Francisco Franco, ditador espanhol que se empenhou pessoalmente no assassinato do poeta Garcia Lorca em 1936 ou Salazar que tiranizou Portugal e odiava Fernando Pessoa e qualquer livro que cheirasse a poesia.
 
Mas voltemos ao nosso pequeno universo e fantasiemos sobre as preferências literárias dos políticos que nos pedem votos para se elegerem a cargos públicos. 
 
O que será que lêem esses homens e mulheres que apregoam por aí seus méritos e qualidades? Entre uma ironiazinha e outra a seus pares se sentam para ler algo de útil a seus espíritos ambiciosos e competitivos? Interessam-se por livros?
 
Sabe-se, pelo menos até o término desse artigo, que a maioria deles ainda não apresentou seu projeto de governo, caso seja eleito. Sabe-se também, por antigas práticas, que a cultura não ocupará grande espaço nesses projetos, apenas constará como coisa necessária para que não dêem o vexame de admitir que não levam em conta esta área da atividade humana. Algumas linhas servem para resolver o problema e ajudá-los a responder a algum jornalista o que farão pela cultura na cidade que pretendem governar. Como quase sempre, farão apenas o burocrático para manter a cultura respirando por aparelhos, sabemos todos, mas fingirão que esta é uma das suas preocupações e nós fingiremos que acreditamos que eles cuidarão dela de fato. 
 
Pura hipocrisia porque eles não sabem nem têm condições para opinar numa área em que são ignorantes por opção ou conveniência: cultura é realizada ou incentivada por pessoas que pensam, têm opinião, não se contentam com camisetas e outras esmolas do gênero, sabem distinguir intenções de realizações e costumam ter língua afiada e botar a boca-no-trombone, como este colunista atrevido, melhor evitá-las e adoçar sua boca com “perspectivas”. 
 
Na semana passada, exatamente como a quatro anos, fui convidado a participar de uma reunião onde se falaria de cultura com olhos à elaboração do projeto de governo de um dos candidatos a prefeito e, entre muitas bobagens discutidas, decidi fazer perguntas sobre o que o candidato lia, o que lhe interessava culturalmente, o que pensava para impulsionar a cultura em Goiânia, o que achava que melhoraria o nível das atuações que desenvolvemos aqui, quanto disporia, caso se elegesse, para o segmento cultural da cidade realizar ações que evoluíssem e fizessem diferença entre o que há atualmente.
 
O candidato não lê nada, insisti, mas nem se lembrava do último livro que leu, não assistiu a nenhuma atividade cultural em Goiânia nos últimos anos, mas citou um show que assistiu no Canecão no Rio e um musical norte-americano em São Paulo. 
 
Ficou confuso com minhas perguntas, não sabia o que responder, perplexo com o atrevido que, aceitando o convite para ajudá-lo a elaborar um programa de governo deveria era lhe agradecer pela grana preta que lhe pagaria ao invés de lhe fazer perguntas incômodas e inconvenientes diante dos seus assessores que, aliás, são todos limitados como ele.
 
Meio constrangido com o que tive coragem pra lhe dizer sobres seus conhecimentos culturais pediu sugestão de três ou quatro livros que eu sei que nunca vai ler, não sugeri nenhum e decidi escrever este artigo. Duvido que ele leia a Bula, mas...
 
Por aqui, e para não me omitir, sugiro ao candidato que leia pelo menos a letra da música criada pelo Ministro da Cultura e que faz voto de “andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá”. 
 
Quem sabe assim se anima a tocar uma campanha onde apenas a fé pode levá-lo a pensar em nos governar do baixo de sua ignorância cultural. 
 
Quanto a nós, só nos resta mesmo a trinca: fé, esperança e a caridade de suportar a sua presunção.

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POR EM 16/07/2008 ÀS 07:58 PM

Haja saco

publicado em

Desde que foram inventadas, buriladas e sedimentadas em vários idiomas, as palavras servem não só para permitir e facilitar a comunicação entre os homens, mas também para camuflar os pensamentos e as verdades que eles não ousam dizer. Atrás de palavras como “tudo está sob controle”, pode estar escondida verdadeira situação caótica e descontrolada. E quantas vezes o leitor já respondeu tudo bem a uma pergunta sobre sua vida quando na verdade ela nunca esteve tão mal?

Os séculos nos habituaram a trocar o sentido das palavras negando o que elas afirmam, desmentindo seus significados como muito bem sabem os homens que governam ou os que não querem expor suas vidas. Durante a ditadura brasileira era voz corrente que todas as afirmações dos militares que o leitor lia no jornal deveriam ser interpretadas exatamente com o sentido oposto. Era só trocar o sim pelo não e já estaríamos nos aproximando da real situação política do momento.

Palavras o vento leva, preconizava o bardo inglês.

Vivesse hoje e Shakespeare teria muito mais a dizer sobre a capacidade dos homens modernos de inventar novos sentidos, cada vez mais falsos, para antigas palavras esvaziadas de sentido.

Algumas palavras e expressões entram na moda, vão e vêm, repetidas à estafa apenas por estar na moda, mesmo que não se saiba o verdadeiro significado delas.

Já esteve mais na moda a expressão a nível de... que servia para demonstrar a modernidade de quem a usava. Qualquer idiotice proferida tinha que ter alguns a nível de...para impressionar quem lia ou ouvia. “A nível de sexo e enquanto mulher, eu não o quero na minha vida”, vomitava a namorada intelectual . Era o não definitivo, apoiado por uma idiotice lingüística incontestável. Esta expressão está definhando de velhice e também porque foram encontradas palavras mais fresquinhas com o mesmo grau de burrice. 

Por exemplo: resgatar. Experimente o leitor contar quantas vezes por dia ouve essa palavra na TV, a lê nos jornais, a engole nas conversas...resgatar é a palavra-salvação para qualquer um que deseja parecer inteligente e moderno. Usada até mesmo por burros e retrógrados, está dando mostras de que, em breve, sairá de cena. Tá ficando velha.
 
Há uma nova circulando intensamente por aí: pontuar. Poucas pessoas ainda dizem frases como: “vou colocar esse assunto na reunião”, mas pontuar o assunto. Bobagem pura.
 
Cidadania – esta ocupa qualquer coluninha de jornal e discurso de político, firme no seu vazio de sentido já que ninguém demonstra saber exatamente o que ela significa aplicada ao nosso dia-a-dia - serve pra tudo. Um homem que compra verduras saudáveis na feira está exercitando sua cidadania.

Da mesma forma, oferecer um pão a um mendigo é resgatar sua cidadania. Haja saco!

Mas tem coisa ainda pior que essas duas palavrinhas tolas em vigor.
 
A primeira delas foi introduzida na sociedade pelos economistas, esses príncipes da reinvenção verbal do terceiro mundo – agregar valor. Respeitar os velhos agrega valor aos nossos sentimentos, diz o estatuto dos velhos recém aprovado pelo governo.
 
Assim também se agrega valor a um imóvel situado numa região da moda na cidade. Expressão mais velha que andar pra frente ela é usada para significar qualquer coisa, desde que passe a impressão de que o que a usa está inserido no contexto e revestido de modernidade verbal.

A outra expressão é um primor. Trata-se da coisa mais profunda em matéria de vazio, e não passa um dia em que o leitor não a vê expelida por algum vereadorzinho de província, um diretor de marketing do governo, um diretor de teatro louco para comover autoridades com seus projetos de inclusão social

Impressionante. Esta surgiu imediatamente após a instalação do governo do PT, sejamos justos. Confirma uma grande preocupação com os pobres e desvalidos, pretende incluí-los em todos os programas de governo e das empresas, não há mais a menor chance de um projeto cultural ser aprovado pelos governos se não contiver o item mais importante: inclusão social. Um espetáculo ou um filme que apenas faça rir ou pensar não basta, é preciso incluir socialmente o espectador, mesmo que ele jamais perceba que foi incluído.

É uma maneira hipócrita de aplacar a culpa dos que têm mais do que necessitam e provar que têm sentimentos comunitários.

Enquanto os políticos e os diretores de empresas tomam vinho Romanèe Conti que custa os olhos da cara, discutem os projetos de inclusão social que lhes são apresentados por artistas e intelectuais, esses sim, necessitadíssimos de ser incluídos na grande farofa nacional.
 
Convenhamos: tivéssemos coragem de expressar sentimentos, lidar com a verdade, recusar hipocrisias, desvestir camuflagens, não teríamos, conseqüentemente, de usar palavrinhas tão vazias que apenas atiçam a fogueira de nossa indigência cultural.

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POR EM 11/07/2008 ÀS 12:01 PM

Vamos em frente!

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O grande João Guimarães Rosa, médico, diplomata e escritor escolhia só ler jornais ou assistir aos noticiários da TV depois das 22 horas. Assim, tinha a impressão que retardava o desconforto de tantas notícias ruins e inúteis e se poupava grandes dissabores com o que ocorria no mundo. O sono próximo se encarregava de amenizar os resíduos das noticias que não podia evitar. Foi desde que tomei conhecimento desse seu macete de proteção à saúde mental que adquiri o hábito que pratico ainda hoje: uma vez por semana escolho não ligar o computador, não ler nenhum jornal, revista ou ver algum programa de TV. Notícias e programas de TV não têm espaço para a imaginação e o sonho e, cada vez mais, o que faz diferença no mundo são as mentes utópicas, imaginativas, sonhadoras. Em oposição a isso há os racionais, os muito bem informados que vêem o mundo através das embaçadas e confusas lentes do real, do insosso, do aqui-agora.
 
Os primeiros privilegiam a beleza, a arte, a cultura, as idéias originais, enquanto os segundos valorizam mesmo o real: os fatos, o dinheiro, o poder, os rituais sociais, o convencional.
 
Claro que não é tão simples assim, há variáveis. 
 
Nem significa que escolher um dia da semana para se dedicar à sua inteligência e sensibilidade vai transformá-lo imediatamente num criador transcendental ou numa pessoa apaziguada e harmonizada – é preciso tempo para descondicionar a mente das mediocridades a que somos submetidos na maior parte do tempo. 
 
Afinal, forma-se uma espécie de crosta invisível que vai nos tornando incapazes de perceber o grau da doença provocada pela burrice geral, pela superficialidade, pela informação massacrante, pelo lixo cultural, a violência, a esperteza política, as mentiras, artigos comuns em tudo o que um homem é obrigado a ver e ler no dia-a-dia. O melhor disso é que a cada exercício de não tomar conhecimento das mazelas do mundo através dos meios de comunicação circundante, ao não ler nem ver notícias inúteis em grande maioria, descobre-se que se as tivesse lido ou visto não teriam mesmo tido nenhuma importância, não acrescentariam absolutamente nada à qualidade do dia.
 
De vez em quando me isolo por duas semanas numa fazenda no Pantanal longe de qualquer cidade e, quando retorno, percebo que não perdi nada, não preciso recuperar o fio da meada de nenhuma informação, nada mudou nem pra melhor nem pra pior. 
 
Isso chega a ser um grande alívio à mente submetida a doses cavalares de bobagens e inutilidades na informação. Recentemente poderíamos ter ignorado os micos pagos por aquele jogador e os travestis exibicionistas que ocuparam todos os espaços por mais de três semanas. Ou os muitos dias de verdadeiro massacre da imprensa tentando colocar o País a favor ou contra aquele autor de novelas que abandonou tudo e voltou três dias depois. Ou a discussão transcendental sobre se deveria ou não haver um beijo gay numa certa novela. Isto para falar só das bobagens. E o que dizer do nojo de ver o corporativismo triunfar entre os políticos e executivos? 
 
E as notícias sobre civis e padres pedófilos atacando crianças protegidos pelos seus cargos? E as idiotices proferidas com ares de importância pelos tolos e chatos apresentadores de todos os programas sobre futebol? 
 
Se apenas um minuto, um único e diário minutinho só, do imenso tempo gasto nas TVs com futebol fosse oferecido a algum homem inteligente para recomendar um bom livro aos telespectadores, seríamos um país de leitores, portanto menos burros, muito menos alienados. Pra isso bastaria um minuto. A TV tem esse poder.
 
O que será que se pode fazer com 24 horas livre da ditadura das más noticias e dos programas de TV? Tudo. Desde conversar ao som de Jan Garbarek, namorar ou fazer um filho, inventar um artesanato criativo e pessoal, ver aquele filme antigo do Fellini mais inventivo e delirante, admirar uma bela paisagem, ler o livro que nunca se consegue ler porque o tempo é gasto diante da telinha, imaginar, descansar os neurônios ou não fazer nada. Segundo Domenico De Masi, sociólogo italiano, o ócio é criativo e no mínimo nos põe de novo em contato com o que temos de melhor: nossa imaginação infinita. A cultura da informação a qualquer custo está nos tornando escravos dela, está nos distanciando de nós mesmos. Nos intoxicamos de cultura inútil, substituímos os sentimentos pela informação sobre ele, as viagens pelas drogas sejam café, álcool, comida ou derivados e já desaprendemos o que fazer do que pensamos longe da TV. Apenas como exercício, experimente o leitor dedicar 24 horas a si mesmo, sem nenhuma outra informação que não seja referente à sua própria vida. No dia seguinte vai perceber quanto papel e tinta são desperdiçados para escrever sobre nada e vai valorizar o que é pertinente. Aproveite para pensar em quantas milhares de árvores são derrubadas e transformadas em papel para imprimir tolices a que chamamos informação.
 
Se quiser, ignore também este artigo, só não ignore sua imaginação e criatividade – elas, sim, importam. 
 
E vamos em frente!

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POR EM 07/07/2008 ÀS 11:11 AM

Meus tipos inesquecíveis

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Alguns homens marcam definitivamente seu lugar no mundo desde muito jovens, com sua personalidade, a vibração que irradiam, a competência que, desde cedo, demonstram ter. E sendo assim influenciam muitas outras pessoas vida afora. Boas influências.
 
Nunca fui de ter ídolos, gurus, guias, orientadores, essas coisas que beiram a fanatismo, mas sou capaz de reconhecer o que alguns homens e mulheres fizeram por mim da infância até hoje.
 
Tive a sorte de ler João Guimarães Rosa e Nietszche ainda muito jovem e eles desfolharam minha cabeça para sempre. Houve uma época em que eu achava que ninguém mais além de mim entendia as palavras de Rosa em
 
 “Grande Sertão: Veredas” porque eu lia trechos do livro para meus amigos do colégio e nenhum era capaz de dizer o que ele tinha dito.
 
Presunção juvenil, claro. Muito mais tarde, quando Guimarães Rosa morreu eu já vivia no Rio de Janeiro, tinha lido toda a sua obra e o amava de tal forma que fui me postar ao lado do corpo dele velado na Academia Brasileira de Letras. Chorava tanto que muitos daqueles figurões que o cercavam ali devem ter pensado que eu era um parente qualquer.
 
Através daquele homem descortinei um universo imenso. Perdi uma espécie de pai-mentor sem nunca o conhecer em vida.
 
Um outro criador, diretor de teatro polonês chamado Tadeusz Kantor foi minha fonte de inspiração por alguns anos desde que vi um vídeo de um espetáculo e uma entrevista dele aos 19 anos e fiquei impregnado daquele teatro profundo e verdadeiro. A maneira como ele explicava suas idéias cênicas me abriu portas para a percepção de coisas que eu teria dificuldade em perceber se não o tivesse conhecido. Por pura sorte, muitos anos depois, convidado para um festival de teatro internacional em Caracas dou de cara com Tadeusz Kantor fumando calmamente no saguão do mesmo hotel onde eu me hospedava.
 
O respeito e a perplexidade me fizeram travar um pouco, mas mesmo assim me apresentei e conversamos por uma boa hora – senti ali uma espécie de batismo teatral e o celebrante era quem eu mais admirava nos palcos do mundo.
 
Também em Caracas, noutro ano, fui ministrar uma oficina de interpretação para atores latino-americanos e acabei assistente de direção de um homem que eu admirava muito sem conhecer, apenas de ler sobre e sua grande obra teatral: Peter Brook. Por 16 dias trabalhava no espetáculo que ele encenava no festival e me beliscava a cada um desses dias pra garantir que era mesmo verdade.
 
Há pessoas assim, definitivas, que interferem na vida de outras. Aqui no Brasil tinha esse mesmo sentimento pelo Paulo Autran.
 
Durante a ditadura militar eu matava aula quase todos os dias pra ir vê-lo ensaiar “Liberdade Liberdade” peça que provocava a ditadura e foi muito perseguida mesmo depois de estreada. Todas as noites eu ia ao teatro Opinião pra ver o Paulo Autran interpretando e aprendi mais vendo o que ele fazia nos ensaios do que jamais aprendi em qualquer escola de teatro. Mesmo morto ele continua sendo o retrato da dignidade do ator brasileiro, intenso e sério, divertido e sarcástico, elegante e acima de tudo inteligente.
 
Há décadas faz escola no Brasil e foi uma unanimidade capaz de magnetizar platéias aos 85 anos. Agora que morreu vai se transformando num mito, como merece.
 
Jantei uma vez com ele aqui em Goiânia e pude dizer-lhe o quanto me ensinou sem saber.   Como ele temos a Marilia Pêra e sua versatilidade forjada desde menina nos camarins onde sua família atuava em meados do século XX.
 
Ao vê-la em cena sou sempre testemunha viva e aprendiz da sua integridade, humor e a comovente entrega total ao que faz.
 
Marilia arrisca sua vida em cena ao se submeter a uma autêntica cirurgia emocional quando vive personagens. E com isso contamina a todos com sua grandeza, melhora por algumas horas a nossa precária qualidade de vida, nos faz acreditar no ser humano.
 
Essas pessoas íntegras, iluminadas e honestas são o contraponto para a mediocridade e a desonestidade dos tipos humanos que prevalecem hoje no Brasil e no mundo. São grandes, não roubam, trabalham para elevar o espírito das pessoas e ao encenar obras que elevam e divertem estão voltadas para o bem estar de todos. Os políticos teriam muito que aprender com eles, mas ao se elegerem são mordidos pela mosca do poder insano e do (mau) caráter dos bandidos. É uma escolha. Nós também podemos escolher quem nos influencia.
 
Todos temos nossos tipos inesquecíveis e, felizmente, nunca ouvi falar que alguém tivesse como seu tipo inesquecível pessoas como bandidos, políticos, assassinos policiais de qualquer espécie, autoridades incompetentes, enganadores contumazes, tapeadores da hora, executivos metidos a espertos e tipos que tais...          
 
Esses tipos as gentes costumam esquecer e relegá-los ao plano do deboche e do ostracismo merecido. Sei que eles têm seu tempo e é o próprio tempo que se encarrega de pulverizá-los de nossas vidas.
 
Bom mesmo é se espelhar nos grandes homens como os que citei acima e que nortearão para sempre minha honesta passagem por aqui.
 
O leitor também deve ter os seus. Gostaria de saber quais são.

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POR EM 26/06/2008 ÀS 10:35 AM

Postais da alma

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Que quase todos os valores estão revirados do avesso no planeta que habitamos, sabe-se. Nós os reviramos e agora pagamos o preço com a imensa solidão e uma espécie de calvário individualista que cada um tem de seguir e sem saber onde vai dar. Pelo que leio e sei era mais fácil seguir a vida e encarar seus percalços há alguns anos quando a amizade era um sentimento levado a sério, considerado por muitos como superior ao amor entre duas pessoas. Todos os problemas eram enfrentados com a ajuda de amigos verdadeiros, há até histórias bonitas que foram escritas baseadas nisso: a amizade.
 
Nos meus delírios reflexivos de adolescente, quando a insegurança batia à minha porta num belo domingo de tarde, para me reconfortar eu pensava: todos os sentimentos são perecíveis menos as amizades, essas resistem ao tempo e independem de chuvas e trovoadas, é um pouco de saúde nas doenças do mundo.
 
Ditados populares diziam que quem tinha amigos não precisava de parente, que amigo é a família que a gente escolhe e por aí vai...
 
Doce ilusão, tudo isso se esvaiu com os anos. 
 
No confronto com a realidade hoje as amizades só frutificam e evoluem se os amigos não exigirem nada mais que o título de amigos e compartilharem apenas as festas e as alegrias.
 
Basta alguém apresentar algum problema para ver seu circulo de amigos diminuir acentuadamente. Se num primeiro momento se recebe a solidariedade deles o problema persistindo vão se distanciando com as mais diferentes desculpas e justificativas.
 
 Ninguém mais quer dividir dores e problemas, cada vez mais as amizades se assentam na superficialidade da confraternização e no riso que daí possa vir. Nem Aldous Huxley previu a enrascada afetiva em que nos meteríamos nesses tempos em que vivemos. Para provar a imensa solidão dos homens e como eles estavam condenados a serem sozinhos, Huxley usava uma bela metáfora: quando os cristãos iam pra arena pra serem comidos pelos leões iam solidários, de mãos dadas enfrentar as feras. Mas eram devorados solitariamente, um a um, irremediavelmente. 
 
É o nosso destino, a solidão? Se for, foi agravado pelos tempos porque nunca se ouviu falar e se viu tanta solidão como agora e, da mesma maneira, nunca se evitou tanto falar dela nas rodas, na imprensa, nos bares. É um assunto que parece perturbar a maioria das pessoas.
 
Os políticos são solitários; os assassinos são solitários; os casais também; as pessoas nos bares mesmo em mesas repletas estão sempre falando nos seus celulares e nenhum sinal de solidão é mais contundente que celular em bares; a família assistindo televisão junta na sala é uma das cenas mais solitárias que se pode assistir – ninguém está interessado na vida do outro, nem na sua, mas na daquelas personagens da tela. Observe a solidão disfarçada dessas pessoas que freqüentam festas que aparecem nas revistas eletrônicas das TVs – cercadas de luzes, decoração exuberante, música alta, centenas de pessoas parecem solitários ratos de laboratório com um sorriso congelado estampado nos rostos tristes. É preciso fingir. Admitir sua própria solidão equivale a um atestado de isolamento, ninguém tem interesse em pessoas solitárias e a elas se dão nomes diversos: bode preto, barra pesada, alça de caixão, lexotan de velório, diva deprê, etc...
 
Fingir-se cercado e amado por muitos amigos é a ordem nos tempos atuais, mesmo que todos os amigos sejam apenas colegas que nada sabem de sua vida a não ser o visível dela. 
 
Mesmo que estejamos confundindo coleguismo com amizade profunda.
 
Thomas Braid, estudioso do comportamento humano, afirma que estamos condenados a uma solidão de luxo, cercados de todos os bens de consumo, tendo acesso a todas as formas de comunicação, podendo, como nunca se pôde em todos os tempos, expressar sentimentos, opções sexuais, opiniões e abusar do direito de ir e vir sem que nada disso nos traga mais calor humano, mais daquela segurança de se saber amado por amigos profundos com os quais se pode contar em qualquer situação.
 
O individualismo está nos transformando em animais introspectivos e dissimulados. Segundo o mesmo Braid as raves e outras dezenas de formas de diversão espalhadas pelo mundo e usadas com intensidade são apenas sintomas concretos do drama humano a que chamamos solidão. Claro que ele também relaciona o aumento do consumo de drogas ao mesmo drama.
 
E olha que esse é apenas um dos postais da alma do homem do nosso tempo. Há muitos outros e temo que tão sombrios como quase todos os postais psicológicos e emocionais que estamos enviando uns aos outros atualmente. 

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POR EM 22/06/2008 ÀS 05:14 PM

Transgressor devasso pornográfico gênio!

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Estréio nos próximos dias 19 e 20 de abril e 16 e 17 de maio um espetáculo acalentado durante muitos anos. Chama-se POR PRAZER e foi criado a partir da obra de um gênio que a humanidade reverencia e que foi considerado um devasso e um libertário - o poeta americano Walt Whitman.  A crítica mundial o considera também como o maior e o mais importante poeta da literatura norte americana.
 
Morreu com 72 anos em 1892.
 
Seu livro mais conhecido Folhas de Relva foi lançado há mais de 150 anos e tem uma energia tão universal que seus poemas são cada vez mais assimilados por diferentes culturas. Seus leitores hoje são considerados devotos e fazem comunidades no mundo inteiro chamadas de whitmania. Cultuado como o poeta da liberdade, da democracia, do homem, em toda a sua vida fez apologia do corpo humano como a fonte suprema de prazer.
 
Em Folhas de Relva ele assume publicamente sua bissexualidade e até escreve sobre seus companheiros.
 
“Como um Deus meu adorável parceiro dorme a meu lado a noite toda
e me agarra ao raiar do dia...
depois brinca na relva comigo...solta o nó da garganta...
nada de palavras, música, nem rima eu quero nesses momentos
nem bons costumes ou sermões por melhor que sejam
Eu gosto, eu só quero sua calma, o murmúrio da sua voz valvulada.
Eu me lembro bem de quando uma vez nos espichamos deitados
certa manhã... e de como ele forçou a cabeça nos meus quadris e
gentilmente se virou pra mim e me rasgou a camisa no osso do peito
e enfiou a língua em meu coração nu
e foi assim até tocar minha barba e me tocar os pés
E então eu soube que a mão de Deus é a promessa da minha
E o espírito de Deus é irmão do meu
E que o amor é a centelha e o esteio da criação.
 
Amaram alguma vez o corpo de uma mulher?
Alguma vez amaram o corpo de um homem?
Não perceberam que são exatamente os mesmos
pra todo mundo e em todas as nações e em todas as eras do planeta?”
 
Foi muito criticado e combatido pelos eternos moralistas de plantão e chamado mesmo de pornográfico. Mas suas atitudes e seus poemas influenciaram pessoas como Fernando Pessoa, Garcia Lorca, Manuel Bandeira, Pablo Neruda e muitos outros pelo mundo afora. Um crítico Robert Strasburg, professor emérito de música da Universidade Estadual da Califórnia disse dele: “No século XXI Whitman será mundialmente conhecido como Shakespeare ou Beethoven.” Parece que tinha razão: há um grande movimento universal para colocar a obra de Whitman em pauta nas grandes discussões sobre literatura, poesia e temas sobre a democracia. Mas em pleno século XXI Whitman ainda permanece quase um desconhecido por grande parte das pessoas interessadas em arte e cultura no Brasil.
 
Ao encenar esse espetáculo também desejo reverter a frase comum de que “uma imagem vale mais que mil palavras” que estamos praticando há alguns anos. Vivemos uma época de tanta saturação de imagens que elas deixaram de ter um valor concreto, são só abstrações. Walt Whitman é um daqueles poucos homens que conseguem, felizmente, fazer com que as palavras signifiquem algo concreto.
 
Pois o espetáculo POR PRAZER é centrado nas palavras dele, poderosas e emocionantes e eu o compartilho com o público.
 
“Se alguma coisa é sagrada
Sagrado é o corpo humano
E o sexo contém tudo:
Corpos, almas, sentidos, provas, purezas, delicadezas
resultados, avisos, canções
saúde, o mistério materno, o leite seminal
todas as esperanças, benefícios
todas as dádivas, paixões, amores, beleza
todos os governos, deuses, juizes
pessoas no mundo com seguidores
Tudo isso no sexo está contido
ou como parte dele ou como sua razão de ser.”               
 
Apesar da grandeza da obra de Whitman não é um espetáculo que recorre a grandes lances estéticos, pirotécnicos – toda sua ação é a partir disso, da palavra de um gênio que influenciou muitos outros gênios.
 
Mais do que nunca eu quis criar um espetáculo teatral puramente artesanal que não pode, nem de longe, ser comparado ao cinema ou à televisão e que leva uma grande vantagem sobre esses dois meios: é um ritual direto, vivo, acontece no momento em que o espectador dá o sinal para que ele se inicie como só o teatro pode ser.
 
Se for verdade, como afirmam alguns pesquisadores da psicologia humana, que as pessoas estão muito saturadas das formas de comunicação que não têm essa relação direta esse é um bom momento para o teatro.
 
Portanto, quanto mais cinema, DVD ou TV existam melhor pro teatro.
 
As pessoas valorizarão ainda mais o risco que os atores correm em cena direta vivendo as emoções ali na sua frente. Resumo da ópera: teatro dá ao ator certas emoções e a possibilidade de expressar muito profundamente aquilo que sente durante o ritual, em cada momento dele e fazer isso em público, coisa que a maioria das pessoas, infelizmente, não pode fazer. Talvez seja essa entrega e essa exposição sentimental pública aquilo que atrai e interessa o espectador de teatro – por isso o teatro é arte para os próximos milênios. Mas falo do teatro verdadeiro não dessas comediazinhas que copiam o que o público vê na TV e que são politicamente corretas até no seu humor – é assim que agradam aos caretas.
 
O verdadeiro teatro não é politicamente correto, é transgressor, propõe novas idéias, sugere que a vida pode ser nova a cada dia e maior do que é, como Whitman propõe. Ao estrear com uma obra de Walt Whitman levo em conta que as pessoas possam ter preconceitos e medo do novo contido nas palavras dele que atuam como armas contra a mediocridade. Isso costuma assustar as massas e hoje tudo está sujeito às massas. 
 
Sorte é que o teatro é sempre uma arte minoritária, para poucos privilegiados sensíveis e inteligentes.

Já era assim na Grécia, era assim em Roma e continua sendo assim na nossa sociedade.
 
Mas, pensando bem, isso conta pouco porque nós artistas temos como pátria o mundo - assim tenho a convicção de que vou estar em boa companhia. Tanto do Whitman quanto do público que o for assistir. 

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POR EM 21/06/2008 ÀS 03:47 PM

Caramba, que chatice!

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Todos os meus amigos acham que, apesar de provocador e cínico, meu humor sempre foi à prova de bala, está preservado e não se deixa abater por qualquer idiotice das muitas que rolam por aí. Temo que estejam perdendo a razão. Costumo, por natureza mesmo, espernear diante de situações que incomodam, de gente limitada posando de ícone da inteligência, de bobões acomodados que acham tudo lindo e que, diante de situações desagradáveis, não se cansam de apregoar a velha frase feita de que “a vida é assim”. A vida é o que fazemos que ela seja e, ultimamente, não a estamos fazendo muito interessante – tudo anda tão chato que ameaça até o humor.
 
Os assuntos diários perderam os encantos novidadeiros e se repetem numa sucessão infinita na des-arte de chatear, mesmo quando apresentados e anunciados como um ponto de luz em meio às trevas da mesmice. Suportamos há anos a voz rouca, entediante e arrogante do Presidente martelando nossos ouvidos com suas alienações e metáforas sobre futebol – que saco!; os mesmos programas de TV com velhos apresentadores e suas eternas “atrações” nada atraentes; o repetitivo quebra-cabeça dos amores impossíveis nas novelas; alguns espetáculos de teatro chatos e equivocados que apenas alimentam o ego de seus executores; o pregão dos telejornais que repetem e repetem as mesmas notícias de manhã, ao meio dia e de noite e a permanente ameaça da doença do tédio pairando sobre as cabeças. 
 
Sim, leitor, o tédio mata tanto quanto qualquer bala perdida, mata aos poucos e se não mata o corpo comete o pior assassinato, o do espírito. Alguns amigos cubanos que não conseguiram ou não quiseram escapar do tédio reinante na ilha me escrevem cartas (sim, em Cuba ainda se escrevem cartas) para falar da meia-morte contra a qual têm de lutar hora a hora para não sucumbir e se anestesiar de corpo e alma. 
 
Não sabem que vivemos todos a mesma situação com a diferença de que aqui a mesmice vem acompanhada de grande estardalhaço da mídia. Quem há de suportar, por exemplo, a onda da modernidade retrô que nos acomete a cada estação? Atualmente são os anos 80 que estão de novo na moda nos figurinos, nas musiquinhas ou nos badalados encontros de velhos cantores em shows repetitivos, nos filmecos sentimentalóides puxados a lágrimas fáceis que entopem os cinemas do país, nos livrecos de auto ajuda que parecem inesgotáveis no seu otimismo que gera muita grana arrancada dos entediados em ascensão crescente ou nas turnês da Madona, do Bob Dylan ou dos Rolling Stones e seus quatro senhores roqueiros cantando os mesmos temas...tudo chato demais. Na imprensa escrita os artigos se esmeram em falar o de sempre com diagramação moderna, toques inúteis que nem roçam os objetos de seus toques e críticas. O mundo está literalmente domesticado, a arte sobrevive em função de patrocínios de grandes empresas que só apóiam o que não lhes ameaça ou o que não questiona nada. Giramos em círculo e o ponto de chegada é absolutamente previsível, mas mesmo assim continuamos a girar, como aqueles burros magros que rodam as rodas dos oleiros amassando barro. 
 
Nada pressupõe que amanhã será diferente, a não ser uma denúncia a mais, um novo assalto corriqueiro, mais uma entrevista com uma figura qualquer que, como todas, nada tem a dizer, mas fala sem parar ou desfia um rosário de coisas que o País precisa para se tornar um grande país. Que chatice! 
 
Até o eterno tema dos grandes amores que sempre alimentaram a imaginação das pessoas no mundo inteiro, até ele se restringiu a encontros eventuais, superficiais e descosturados sem a dimensão que os sentimentos costumam imprimir a quem ousa experimentá-los. Salve-se quem puder – parece ser o bordão do momento.
 
Sem grandes amores, sem adrenalina, sem o arrepio das novidades a percorrer a espinha do mundo, sem perspectiva do novo, sem a arrebatação do conhecimento e da cultura, estamos todos vivendo como o burro do moleiro que nem sonha mais com um mundo onde os pastos são verdes e amplos, as amizades profundas, as pessoas interessantes, as notícias pertinentes, os temas renovados, a ânsia retrô anulada pela excitação do porvir. Que mundo chato! Ou cada um de nós obriga a vida a nos responder como queremos ou nos resignamos e assumimos de vez o ar bovino e insosso do tédio reinante.
 
O que não podemos nem devemos é aceitar aquele símbolo da mesmice que, ano após ano, buzina nossos ouvidos com os versos que dizem: “quando eu estou aqui vivendo esse momento lindo” – é apenas mais uma mentira entre muitas. E todas chatas.

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POR EM 14/06/2008 ÀS 06:45 PM

A sociedade do espetáculo

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Reconfortante não depender de emprego municipal, estadual ou federal, assim corro menos risco de que comprem minha opinião ou minhas convicções diante das coisas do mundo. Essas três instâncias de poder são boas compradoras. É comum que se compre consciências mundo afora, o leitor bem sabe, como sempre se fez desde a idade média com artistas que interessavam aos governantes, igreja e mecenas.
 
Distantes a idade média, mergulhamos na idade mídia, e nem por isso alguma coisa mudou nesse aspecto, as consciências são compradas da mesma maneira e, para piorar, com aparatos de espetáculo público, que é o adequado aos tempos que correm. Estamos em pleno reinado da sociedade do espetáculo. Nada mais tem existência real se não for comprado e bem embalado por elementos espetaculares que ocupem espaço, se transformem em assunto do dia. Uma foto de artista famoso em atitude suspeita vale milhões e causa frisson no mundo. Na política daqui a pouco vão começar mais uma vez as convenções que se transformam em espetáculos ruidosos, bexigas de plástico colorido, tambores, música, luzes, câmeras, os candidatos de mãos dadas erguidas em gestos teatrais, como atores que buscam a emoção interessada – maus atores, é bem verdade, mas quem liga para isso? Já nos acostumamos com a canastrice dos políticos “interpretando” inocência diante da evidência de suas falcatruas. Fossem eles atores convincentes e seriam ainda mais desprezíveis e hilariantes, dado que a arte de representar é avessa à mentira, apesar da habilidade em transformá-la em verdade. 
 
Mas o cerne dos autênticos bons espetáculos é de outra natureza, outra matéria prima, eterna, não perecível como os conteúdos políticos da política atual, felizmente. Bem que eles tentam imprimir um certo tom de alegria e positivismo aos seus pseudo-espetáculos, inutilmente, já que estão sempre rodeados pelo mesmo público, gente sem graça e sem entusiasmo por conhecerem o espetáculo de cor e de trás para frente. A imprensa costuma ser mais generosa com eles do que com os verdadeiros artistas, estampa suas caras e braços erguidos como marionetes, alheios ao mundo. Para mim são figuras tristes, porque deve ser triste depender de uma massa anônima e sem face para conduzi-los às cadeiras do poder que almejam. Suas vitórias não dependem deles, mas do poder de fogo (leia-se: dinheiro) e dos cabos que mobilizam para ganhar eleições. A sociedade do espetáculo não gera conquistas por mérito, é apenas um jogo de perdas e ganhos de improvável previsão. Compram consciências para se elegerem. Assisto-os com olhos lassos, penalizado com tanto esforço inútil por uma dignidade que não se mantém de pé por muito tempo. Lembra-se do espetáculo do crescimento anunciado com alarido pelo presidente da República? É alimentado todo dia por algum factóide presidencial – precisa do espetaculoso pra sobreviver na mídia. Como a mídia precisa disso pra atingir bons índices. As redações vibram com jogador de futebol em motel com travestis, assassinatos e pedofilia, estupros de menores, cantores sertanejos que não pagam pensão a ex-mulheres e outros temas edificantes.
 
Nessa ciranda temos também padres espetaculosos tentando arrebanhar ovelhas para Deus através de músicas e danças idiotizantes que atinjam a emoção fácil das gentes – assim como certos pastores criam espetáculos de exorcismo de demônios mal ensaiados em vãos de igrejas improvisadas.
 
Só a cultura do espetáculo pode nos elevar a Deus, segundo seus arautos.
 
Até os grandes desfalques e corrupções são vigiados por câmeras que garantem os espetáculos exibidos semanalmente nas TVs e isso sem falar em alguns publicitários que, não contentes em serem vendedores de produtos, bem remunerados por empresas que compram suas pobres idéias, aspiram o centro do palco e as luzes do espetáculo, vendem suas imagens pessoais através de lançamentos espetaculosos de livros, promovem festas em torno de si mesmos, estampam seus rostos em grandes outdoors que os anunciam como competentes e responsáveis etc...desejosos do status de celebridades, tema tão em voga. O pensador conservador, Fukuyama, garantia que “chegamos ao fim da história do homem”, mas desconfio que estava enganado, redesenha-se uma nova história através da espetaculização dos fatos mais banais numa tentativa de dar a eles uma importância que não têm. Os crimes bárbaros ficaram vulgares e banais, mas ajudam os pipoqueiros e baleiros a venderem melhor seus produtos nos aglomerados trágicos que se exibem e exibem slogans para as TVs. 
 
Dia desses estava passando por uma rua onde havia uma multidão crescente, umas 100 pessoas se acotovelando para verem um acidente de moto com duas mortes. Excitação eletrizante no ar, corpos no asfalto, sangue, expectativa, curiosidade. Não pude deixar de pensar no pequeno público que costuma assistir espetáculos de qualidade. Esse tipo de espetáculo não interessa a quase ninguém mais, só aquele que gera histeria coletiva, medo, ódio, desejos dos baixios das bestas.
 
A ideologia do imobilismo, característica do final do século XX, engendrou a cultura do espetáculo que assistimos perplexos nesse século XXI.
 
E, extrema ironia, o espetáculo é muito ruim.  Azar o nosso.

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POR EM 10/06/2008 ÀS 03:45 PM

Os bobos de Goiás

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Como muitos leitores devem saber acabo de fazer uma temporada do espetáculo POR PRAZER sobre a obra do grande Walt Whitman. Como sempre este também foi um espetáculo criado em longo período de gestação, pesquisa, leituras, experimentações dos textos que funcionavam melhor no palco, estética e embalagem do produto.

Isso sem falar na longa pesquisa musical empreendida pelo professor e doutor em música Pedro Martelli que criou uma trilha com 18 canções raras dos séculos 18 e 19. Coisa pra paladares finos.

Sim, para se inserir no mercado da arte, um mercado como qualquer outro, é preciso levar em conta a qualidade da produção e o bom acabamento da obra, se quiser interessar minimamente ao público. Gosto de cuidar disso.

Não creio que ninguém mais decide sair de casa, estacionar o carro, correr riscos nas ruas, comprar ingresso para assistir no palco algo ruim, chato e mal acabado. Os confortos que se tem em casa são muitos e se os espetáculos não têm a garantia de que se vai assistir algo de qualidade quem se anima a sair?

Superficialidades a TV oferece de graça com direito a sofá, chinelo e cervejinha gelada, não vale a pena sair, é o que deve pensar o público.

Mais ainda quando se trata de espetáculo daqui mesmo, visto sob o eterno prisma de que o que se produz aqui não tem o mesmo interesse do que o que vem de fora. Afinal, competimos com artistas de novelas e tolices que entopem os teatros como as caricaturas que alguns fazem de caipiras do século 19 que desrespeitam a mais mínima centelha de inteligência de espectadores habituados ao pior. 

Confesso que ao criar e encenar um espetáculo nunca tenho a pretensão de que o teatro vai estar lotado de público eletrizado e curioso, não sou ingênuo e sei que minha arte não é para grandes multidões. Crio mais biscoitos finos que brós grosseiros de farinha-de-mandioca e, portanto, tenho consciência que jogo pérolas a poucos. Mas confesso também que é decepcionante, além de muito ilustrativo que os “poucos” goianienses não tenham se interessado minimamente por Walt Whitman. O Teatro quase vazio comprovou isso.
 
E é preciso frisar que este era o único espetáculo em cartaz numa cidade de mais de um milhão de habitantes. Isso, por si só, já informa muito sobre um povo, uma sociedade. Enquanto a peça acontecia no único tablado numa cidade carente de atividades culturais as pessoas estavam nas suas casas vendo a novela das 21hs, na pecuária bebendo cerveja e respirando poeira, ou entupindo os bares. É de rir?

Nem se pode reclamar, como às vezes ouço nas rodas e leio por aí, que o Brasil inteiro nos veja apenas como um povo sentado sobre uma porteira de fazenda vigiando o gado nelore e inventando duplas sertanejas – é lugar comum que o País não acredita que aqui se produz boa arte e cultura, que goianos não são disso, cansei de ouvir coisas assim viajando com espetáculos em quase vinte anos.

Tá certo que os bobinhos de Goiás não tenham interesse em ver teatro, coitados, isso se compreende, mas e as centenas de atores, escritores, cantores, pintores, músicos, jornalistas, professores de literatura, estudantes de artes e letras, filosofias, formadores de opinião e pessoas afins..?

Onde estiveram essas pessoas nos quatro dias em que sobre um palco da cidade de mais de um milhão de habitantes um único espetáculo se apresentava e com roteiro sobre a obra de um dos grandes iluminados da literatura mundial?!
 
É ilustrativo lembrar que sempre que se fazem eventos culturais regados a vinho de terceira e salgadinhos fritos costumeiros nas bocas livres essas personagens “culturais” saem de suas locas e aparecem em massa.

É de rir.

Lançamentos com gororobas e coquetéis são sempre muito prestigiados – mais ainda se forem em palácio. Intelectuais adoram festas em palácio. Também adoram demonstrar erudição discutindo autores e críticos que dão a eles status de grandes leitores, mas não devem achar que o teatro seja uma arte importante pra desobnubilar seus cérebros provincianos.

Não digo nada disso por mim próprio, pensando na bilheteria, já recebi meu pagamento da Funarte, o que me interessava era propor às pessoas inteligentes da cidade onde vivo uma reflexão original sobre as idéias do espetáculo. Mas vou ter de propor noutro terreiro e, felizmente, existem muitos.

Chega a ser irônico e novamente demonstrativo que mesmo antes de estrear o espetáculo POR PRAZER tenha sido convidado a se apresentar em vários festivais internacionais de teatro em Portugal (Lisboa, Porto e Coimbra) e em Santiago do Chile e Porto Alegre, Rio de Janeiro, Curitiba e até São José do Rio Preto... E isso apenas em função dos releases enviados.

Mais sintomático ainda que dois críticos do Rio e São Paulo, informados da estréia pelo mesmo release da produção, tenham vindo a Goiânia por sua própria conta para assistir a encenação que criamos aqui e noticiado a estréia em seus jornais nacionais. Sintomático porque nem umazinha das importantes TVs da cidade e que receberam os mesmos releases e informações se dignaram durante duas semanas a repassar essas informações aos seus telespectadores.

Nunca se encenou Walt Whitman no Brasil, daí o interesse dos críticos. Aqui devem ter pensado que esse tal de Whitman é mais um gringo chato que costuma aportar em Goiás durante a pecuária e pronto, estamos conversados. Impossível não rir do jequismo dominante. Enfim, eu vi os bobos de Goiás. E eles não estavam na platéia do teatro. 
 
PS- Obrigado Luis Cláudio Araújo pelo título.

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