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POR EM 27/10/2008 ÀS 12:21 PM

As minorias têm sempre razão

publicado em


Sou remanescente dos utópicos dos anos 70, aqueles que acreditavam que iam mudar o mundo com suas idéias e a prática delas. Digo remanescente porque até hoje acredito que o meu teatro pode incentivar as pessoas a pensar, desejar e trabalhar para um mundo melhor. Tem coisa mais utópica que fazer teatro num país onde os governos destinam verbas para a cultura duas vezes menor do que as que destinam aos carros oficiais? Os utópicos dos anos 70 adotaram um padrão de sonho: ter uma casa no campo onde pudessem compor muitos rocks rurais e reunir seus amigos, seus discos e livros...e nada mais. Acreditávamos em Carlos Castañeda que ensinava que cada homem precisa encontrar seu lugar de “poder” e só ali ser feliz para sempre. Nunca tive dinheiro suficiente pra comprar uma terrinha e nela praticar a harmonia entre bichos, plantas e homens e, pouco a pouco, caí na roda-viva do capitalismo desvairado que empurra qualquer homem para a periferia de si mesmo – ainda que permaneça fiel às suas idéias.

Reavivei meu sonho quando vim pra Goiás e conheci uma certa fazenda onde não se faz filosofia do sonho, mas onde se pratica a grande utopia através de parcerias e convergência de utópicos em geral.

Ela não queria ser propriedade exclusiva de um homem, seu dono, mas de todos que quisessem ajudar a fazer dela um ponto de poder onde arte, ecologia, produtividade sem ganância, evolução espiritual e harmonia com fauna e flora convivessem sem os grandes conflitos que acabam levando tudo de roldão. Os que acreditavam nisso eram, como de costume, tratados com condescendência como se tratam loucos mansos, inclusive o dono dela, maduro, rijo e forte como só os utópicos sabem ser.

Anos se passaram até que leio no livro do escritor alemão Wulfing Von Rohr, que pesquisa exatamente lugares no mundo onde se concentram esses pontos de poder e espiritualidade que a fazenda Santa Branca, situada no coração do Brasil, em Goiás, foi incluída como um dos 48 lugares onde o homem pode atingir esse grau de harmonia com a natureza e a elevação espiritual.

Estamos em boa companhia como a Ilha de Páscoa, o Monte Sinai, Santiago de Compostela, o Gran Canyon, Éfesos, e outros 48 etcs...

Na Áustria onde a cada ano se promove o prêmio Nobel alternativo para reconhecer homens e idéias inovadoras no mundo o nosso Leonardo Boff foi um dos premiados e a fazenda Sta Branca estará na lista no próximo ano, segundo o próprio Von Rohr. Os que conhecem a fazenda dirão que ela é também um empreendimento comercial situada entre os conhecidos lucros capitalistas.

Não se pode sobreviver de brisa e por isso ela fez parcerias que a sustentasse, mas deixo esse ângulo da história para a publicidade dos empreendedores porque não é a parte comercial que existe o que a fazenda tem de mais importante, mas sua sede freqüentada por gente do mundo inteiro.

O que é preciso dizer é que temos aqui, ao lado de Goiânia, o único ponto da América Latina onde se realizou o sonho de muitas gerações que é recorrente em várias culturas: permitir ao homem viver com dignidade sem que para isso tenha de subjugar a natureza e fazer dela um trampolim para as mais sórdidas ambições que se estabeleceram no pós-guerra.

Se tivermos muito do que nos orgulhar em Goiás, e temos, este é mais um motivo de orgulho: um novo modelo de uso da terra que desestabiliza o velho modelo rural que vem do colonialismo até os coronéis.

Esse parâmetro de uso da terra praticado nesta fazenda chega a ser revolucionário quando propõe parcerias que levam a um mundo mais justo onde a palavra companheirismo se reveste do seu significado real e ancestral.

Ali se realizam espetáculos teatrais, cursos e palestras sobre questões ambientais e psicosociais, sempre disponível para reunir gente aberta a novas idéias e encontros condizentes com pessoas inteligentes e sensíveis, antenadas com o que se faz de melhor no mundo em matéria de ecologia e evolução de valores humanos. Ali se celebra a vida e se cultiva a paz de espírito e a convivência entre os que acreditam que a vida não é só essa faixa estreita entre o consumismo, o poder, a aparência e a ostentação.

Se esse ponto de poder ainda é conhecido por alguns poucos apenas como um lugar onde se pensa, se medita, se discute, se renova, se areja, se harmoniza com a natureza está mais que na hora do leitor acreditar no alemão Von Rohr e mergulhar nesta nova visão de mundo que nos coloca ao lado de outros grandes sonhos realizados como as minorias utópicas sempre preconizaram.

Afinal, concordo com Henrik Ibsen, as minorias têm sempre razão.


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POR EM 20/10/2008 ÀS 03:53 PM

Solidão a dois

publicado em

Gosto desses ditados que o povo inventa, eles são poderosos quando revelam  nossos comportamentos camuflados ou atitudes variadas. E é o povo que diz, num desses velhos ditados que a melhor maneira de conhecer uma pessoa é viajando com ela ou comendo um quilo de sal junto. Em viagem as pessoas ficam sem suas referências cotidianas e acabam, por se sentirem inseguras, se revelando. O quilo de sal é coisa do tempo, enquanto o sal não acaba vai-se percebendo quem é quem. Entre as muitas coisas que se descobrem em viagens é que a grande maioria das pessoas não tem do que falar. Juntas emitem alguns conceitos nos primeiros dias, falam sobre as surpresas da viagem nos dias subseqüentes, mas não se aprofundam em nenhum assunto que possa expô-las aos outros ou ao outro.

Casamento, por exemplo: que fantástica e cruel exposição da alma humana!

Quando vou só a algum restaurante, ou num banco de espera de algum aeroporto gosto de observar os casais durante uma hora em silêncio, cabeça baixa comendo, usando algumas interjeições, mas num silêncio constrangedor por absoluta falta do que falar mais a não ser o trivial do tipo: parece que vai chover, será que demora muito? esse lugar é legal, pede água pro garçon...

Quando atuava num consultório de psicanálise percebia que a grande maioria dos casais que se separam decidem isso durante as férias. Como passam muito tempo junto acabam descobrindo que não têm nada que falar um com outro.

E só descobrem enquanto estão de férias porque os assuntos são mais recheados de silêncios que de palavras interessantes.

Acaba-se falando frases feitas e clichês banais apenas pra interromper o mal estar do silêncio – isso, por si só, é um sintoma.

Ainda tenho em mente os argumentos e justificativas que as pessoas davam a si mesmas: foram sete dias sozinhos na frente do mar, isso nos obrigava a falar mais e não tínhamos assunto; sabia que nós não devíamos parar nossa rotina pra encarar as férias, ficar só por conta um do outro; eu prefiro ver pouco minha mulher, só nas poucas horas que passo em casa pra durar mais nossa relação; e se eu não tiver nada pra acrescentar à nossa rotina nesse período sem fazer nada? não sou especialmente interessante, nem culto, nem aventureiro e ela vai perceber isso quando estivermos sozinhos; nas férias ficamos sem a proteção da cidade, nem o apelo dos cinemas onde se pode ficar em silêncio sem problema; fico sem saber o que falar com ela porque me sinto nu sem minha carapaça de diretor da empresa.; ela vai descobrir que sou uma fraude; tenho uma tendência a mascarar as coisas com a agitação do dia-a-dia e nas férias tudo vem à tona – são algumas preocupações comuns.

As máscaras que um homem sustenta por algum tempo acabam caindo irremediavelmente e a decepção de ver o outro despojado das máscaras que alimentou por tantos anos causa confronto, desconfianças que, freqüentemente, acabam em agressões mútuas.

O psicólogo alemão Wilhelm Reich passou anos demonstrando que o casamento não é uma situação natural entre os seres humanos, apenas uma farsa aceita socialmente por conta da hipocrisia e convenções. Natural é alguém estar com outra pessoa pelo tempo necessário para que os dois mantenham o interesse mútuo e não apenas o interesse sexual, mas o interesse afetivo e intelectual. 

Quando se estabelece a solidão entre os casais não há mais muito que fazer. Um já não pode oferecer ao outro nem o prazer da companhia nem as delicias da solidão escolhida. Fica-se no meio do caminho – e o meio, a mediocridade, enfim, é a pior das situações em todos os campos: da arte aos sentimentos.

A solidão a dois que escolhemos apenas pelo instinto sexual sem pensar no que virá depois que ele for satisfeito é um dos mais crescentes desajustes emocionais do nosso tempo. Alguns estudiosos dizem que o swing, a troca de casais com o consentimento dos quatro parceiros é uma forma de diminuir a solidão, reativar o instinto, mas não perder o outro facilmente. Temo que não resolva o principal: a falta de assuntos interessantes entre os casais.

Isso passa até mesmo pela cultura, ou principalmente por ela, mas também pelos interesses comuns que ambos tinham antes de se unir.

A cultura gera pensamentos e assuntos instigantes e ter interesses comuns pode despertar diferentes graus de interesse em um e outro.

Também poderíamos amenizar o mal sendo civilizados e sinceros uns com os outros, falando as coisas que sentimos de verdade, tendo coragem de expor-nos e criar assim uma base sólida e duradoura na relação.

Mas um artigo é só pra provocar discussão, a decisão do que fazer é do leitor.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 06:51 PM

Cultura revigorada

publicado em


Um cartão postal apregoa por aí que a coragem não torna necessariamente as coisas mais fáceis, mas pode torná-las possíveis. Coragem é o que mais têm os artistas que fazem arte e cultura nesse Estado. Lendo nos jornais informações do governo de que serão ainda mais curtas as verbas para fomentar a cultura goiana imagino que tempos áridos virão por aí, se é que mais aridez ainda seja possível. Mas há uma saída honrosa e recorro a ela para sugerir aos artistas goianos que se atrevam corajosamente a colocar uns silicones básicos nos seus corpos e caras para verem como muda imediatamente o foco de interesse por suas criações – o público é louco por silicone, independente do que o artista faz.

Tem silicone? Entopem teatros, viram alvos de revistas, vendem CDs, atiçam a curiosidade das massas. É incontestável a atração que esse plástico sofisticado exerce nas pessoas no Brasil, qualquer idiota siliconada é elevada à condição de musa pelos órgãos de imprensa, alardeia sua “arte” em programas dominicais, eleva sua conta bancária em valores multiplicados em relação ao que gastaram com os mililitros de silicone, arrastam multidões, independem de verbas públicas para fazer cultura.  

Juro que não estou sendo irônico sou a favor, penso que o silicone está aí para nos promover, iluminar o que chamamos os “áridos caminhos da cultura”, resolver de vez a dificuldade de promover CDs, vender livros, atrair público aos cinemas e teatros, ganhar espaços nos segundos cadernos, galgar as coluninhas de fofocas televisivas e outras glórias.

Com uma mínima quantidade do produto injetado em alguma parte estratégica do corpo e fartamente noticiado, claro, um escritor não teria mais que fazer esforço para convidar pessoas e vender livros nos seus lançamentos – o silicone faria o milagre.

Todos os cantores goianos, cotizados, aplicariam litros divulgados com antecedência e já estariam garantidos vários shows com lotação esgotada; espetáculos teatrais também se beneficiariam dessa cirurgia simples para convencerem os espectadores de que um artista é tanto mais importante e atraente quanto a quantidade de silicone que consegue injetar na sua embalagem ambulante e assim, finalmente, o teatro alçaria vôo nesse Estado onde as águias siliconadas que vêm de fora teriam competidores à altura. Tão simples.

Pintores posariam ao lado de suas obras, inflados e inflamados de recentes e criativas aplicações em alguma parte de seus corpos, esses sim, transformados na própria obra de arte.  Quem não quereria ver esta “performance” moderníssima?

Em tempos bicudos vale qualquer coisa para atrair a atenção das massas e chega a ser irrisório o fato de que tenham sido pessoas tão tolas que nos deram a dica do que deveríamos ter feito há muito tempo. Siliconadas são pessoas sábias disfarçadas de gente burra para não despertar suspeitas.

Como explicar que artistas, verdadeiras antenas do mundo, não perceberam isso antes?! Só mesmo por preconceito, diga-se de passagem, coisa de intelectuais invejosos sem coragem de encarar até mesmo uma simples agulha de injeção, como o fazem tão corajosamente os famosos recheados por médicos ainda mais famosos. Sim, aplicar silicone e botox gera fama também pros médicos, é o efeito cascata.

É isso que falta ao interior do Brasil, às cidades médias como Goiânia que adoram cultuar, para além do silicone, pessoas que vêm de fora. Está aí a segunda sugestão para driblar a crise cultural: sair de Goiás, virar um artista “de fora”. É uma equação muito simples e observável a olho nu, basta um goiano sair daqui por alguns meses para viver em São Paulo ou Rio para, quando voltar, ser paparicado e incensado por jornalistas deslumbrados com sua coragem de fazer sucesso lá fora. Tão chique quanto ter silicone espalhado pelo corpo é goiano que vive fora de Goiás – transforma-se imediatamente em ícone da boa arte, paladino da cultura goiana a irradiar nosso progresso para o mundo. Uma cantora goiana que passou a vida aqui tentando cantar e gravar, enfrentando noites em bares com público distraído, fazendo serenatas em festinhas de aniversário, virou estrela luminosa com o simples toque cosmopolita de ir viver na Holanda com seu namorado. Se nunca foi notícia aqui, depois do advento holandês passou a ser freqüentadora assídua de colunas sociais goianas.

Silicone e fuga de sua terra, dois ingredientes poderosos para se fazer sucesso em Goiás.

Concordo que aplicar plástico no corpo pode ser menos dolorido que a constatação cruel de que só ausente da cidade, um artista consegue se tornar presente e motivar o público.

Se nenhum desses argumentos convencerem os artistas goianos, por falta de coragem de encarar uma seringa de injeção ou o desgosto de ter que viver fora de sua cidade, afirmo que a realidade está estampada em qualquer página de segundo caderno, em qualquer coluninha social ou bloco de entrevistas de algum telejornal daqui: o silicone e o auto-exílio parecem que são capazes de fazer com que uma pessoa preste enorme serviço de utilidade pública à cultura de seu Estado. E, afinal, o que interessa é parecer.

E, assim, ninguém sentirá falta do dinheiro que o governo não vai aplicar para fomentar a cultura e estamos conversados.

Pensando bem, que marketing pode ser mais poderoso que aplicar silicone e botox em cérebros atrofiados numa época dominada pelo marketing?

Nada, muito menos a arte.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 06:08 PM

Macaquices

publicado em


Não sou nenhum Ariano Suassuna, mas como ele também me sinto irritado com os americanismos que sou obrigado a ler nas fachadas e nos cartazes dos mais diferentes estabelecimentos pelas ruas. Em todas as cidades.

Já fomos chamados com muita propriedade de macacos-de-imitação da América do Norte e nenhuma crítica, nenhum deboche parece ter revertido essa sanha de colocar nomes e trejeitos americanos em lojas, bares e até em ferrros-velhos. O uso americano do apóstrofo é ainda mais que ridículo como o último que vi numa periferia da cidade Álvaro`s Ferro Velho ao lado de um certo salão de beleza da Aline`s Cabeleireira que fica logo depois do Guto`s Bar e tudo isso na mesma rua. Lojas chiques não anunciam mais suas liquidações anuais, mas estampam nas vitrines “Sale” para reforçar seus chiquismos segundo a visão dos proprietários. Music no lugar de música para propagandear eventos já virou lugar comum e ninguém mais chama bicicleta de bicicleta, mas de bike sem vergonha nenhuma. Bandas cover significam cópias mal ajambradas que tentam dar algum significado ao macaquismo sem criatividade. E tome cover dos Beatles, do Pink Floyd e outras sandices repetitivas.

Quase todas as academias de ginástica batizam seus espaços com nomes americanos do tipo Sport Dance Academy ou bobagens como Men`s Health ou Muscle and Fitness pra atrair os tolos que acreditam que o que é estrangeiro é melhor.

Nem se pode dizer, como pensam alguns, que estrangeirismo é coisa de pobre de espírito que deseja impressionar porque empreendedores tidos como inteligentes lançam complexos imobiliários e anunciam resorts e apartamentos com lounge sem nenhum pudor. Claro que empreendedores não são, necessariamente, o oposto de pessoas pobres de espírito, há de concordar o leitor, mas têm mais condições de perceber o ridículo de macaquear. Será? Pelos nomes dos condomínios fechados habitados pela elite pode-se comprovar que não. Colunistas supostamente sociais adoram usar estrangeirismos nas suas notas, hábito colonial usado desde sempre – pensam que isso lhes dá ares cosmopolitas, coitados. Só reforça seu jequismo.

Nomes próprios também são chupados de nomes americanos e fazem as crianças parecerem ridículas quando sabemos que se chamam Stefany, Richardson, Jennifer, John Waine, Elvis Presley, James Din e isso quando não atendem pelo nome que a mãe escolheu pela sonoridade tipo Carolaine, Daiane.

Em Catalão um pobre de espírito quis registrar seu filho como Washington que o burro do cartório teimou em registrar como leu: Vasqueton. Esse seu Vasquetão passou a vida inteira maldizendo o nome e nós, meninos, aproveitando pra tripudiar sobre ele fazendo rimas que combinassem com essa aberração.

Nunca compreendi e acho até que não há o que compreender porque nunca aparecem estrangeirismos surrupiados do francês ou do espanhol, talvez porque os tolos têm mesmo contato com a cultura de massa que é imposta pelos norte-americanos através de filmes ou dessas viagenzinhas em bando que costumam fazer a Nova York. Voltam inebriados do que acham que seja civilização e reproduzem aqui o que viram por lá. E tome de copy systems,
self service, delivery, up-grade, etc...Recentemente vi o banner (eles adoram essa palavra) que anuncia uma futura galery center periférico que vai se chamar nada mais nada menos que Jatobá`s Center – combinação perfeita para atrair jecas-tatús.

Todos os nomes poéticos que herdamos dos índios, as expressões bonitas que incorporamos ao nosso idioma herdadas deles são literalmente jogadas no lixo em detrimento dos tais americanismos pervertidos.

Assim, temos uma loja de tênis chamada footwear, uma boate com o sugestivo nome de midnight, um salão onde o jeca não é mais maquilador, mas beauty stylist, uma loja metida a chique num shopping que anuncia underwear e tie invés de cueca e gravata e até loja de animais chamada pelo originalíssimo nome: dogs and cats.  

É. A vaca já foi mesmo pro brejo.

O que antes era caipira agora é country com todos os seus complementos desavergonhados mamados do Texas e dessa perversão não escapou nem a quadrilha de São João dançada ao som de ritmos alienígenas que combinam mais com os cinturões, chapéus e botas americanas.

Claro que o leitor vai encontrar muito mais do que os nomezinhos infames que expus aqui basta andar pelas ruas prestando atenção nas plaquinhas mal escritas. Mas irritante mesmo foi ler o folder (eles também gostam dessa palavra) que li num man stilist hair (antes era barbeiro) onde se anunciava a inauguração de uma futura casa goiana de festas e eventos cujo nome será Pequi`s Place. Claro que não conheço os proprietários, mas precisa conhecer pra saber quem são eles?

Basta seguir o que diz com muita propriedade e objetividade o ditado popular: “pela bosta se conhece o bicho”


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POR EM 29/09/2008 ÀS 05:54 PM

Bordel Brasil

publicado em


Muitos sentimentos tomam conta das pessoas quando vêem canalhas milionários à custa de bilhões surrupiados do povo brasileiro circulando por aí livres, leves e soltos. Eles estão por toda parte: na saúde, nos gabinetes do palácio do Planalto, nas grandes empresas, nas instituições governamentais, nas ONGs, nas câmaras de vereadores, assembléias legislativas, congresso nacional. Os pequenos ladrões ficaram desmoralizados (e tinham moral antes?) diante dos ladrões milionários de gosto refinado que são presos um dia, escondem as algemas com suéteres de grife e saem no dia seguinte com sorriso cínico estampado na cara. Nela, vergonha que é bom, nada.

Tudo isso culpa nossa. Esta semana teremos mais uma chance de interferir na grande vergonha nacional com nosso voto e precisamos nos manter atentos, abrir os olhos, examinar cada um, não votar por amizade.

Em Goiânia são mais de 600 candidatos, alguns espertinhos renitentes que precisam ser cuspidos fora do cargo a que nós mesmos os conduzimos, já conhecemos seus truques.

Não adianta nada se indignar sem ação. Indignação só faz sentido quando vem acompanhada de sua ação correspondente. Nós permitimos que esses canalhas riam de nossa cara; permitimos que a justiça tenha esses mil-e-um jeitinhos pra libertar ricos; permitimos que os tribunais superiores os libertem imediatamente após serem presos com algum dos recursos disponíveis na lei – tudo culpa nossa.

Não reagimos, estamos chapados na poltrona da sala assistindo á derrocada final que nem sabemos quando virá, mas que virá com certeza.

Derrocada moral.

Nos esquecemos que qualquer vereador, qualquer juiz, qualquer delegado federal, qualquer autoridade com autoridade pra interromper essa pouca vergonha são meros funcionários pagos por nós e não exigimos nada deles.

No redemoinho daquilo que, passivamente, consideramos uma tragédia nacional, nada fazemos pra interromper a roubalheira.

Tragédia certamente não é porque na tragédia originária na Grécia antiga havia sempre o embate entre Eros e Tânatos, vida e morte com seus respectivos sentimentos de culpa e castigo. Só assim as tragédias se realizavam.

Nem a grandeza da tragédia vivemos porque se o que caracteriza uma tragédia é o embate entre esses sentimentos; se são eles que lhe dão dimensão estamos mesmo é condenados à caricatura dela – um mero drama.

Culpas e arrependimentos desapareceram porque não existe o castigo, os políticos e os ricos cometem seus crimes e não são castigados, mas os homens comuns, sim, são castigados ainda que não pela suas consciências – o pior castigo. Na Grécia e na tragédia era imprescindível a figura de um deus, tudo se baseava no triângulo: a relação com deus, natureza e polis (cidade).

Hoje os deuses estão mortos, a natureza está morrendo e as cidades e o mundo estão em péssimas condições.

Hoje o posto dos deuses foi tomado pelo prefeito, o gerente do banco, o diretor da empresa, o presidente e só falamos das misérias cotidianas. Por isso é que hoje a tragédia não passa de mero drama, sem grandeza e sem horizonte.

Nenhuma grandeza resistiria sem perspectivas.

No bordel Brasil todas as falcatruas são cometidas porque se sabe que não haverá punição e, como disse acima, se houver todas as chicanas de advogados pilantras cuidarão de libertar o pilantra chefe. São dezenas e dezenas de exemplos recentes nos sendo atirados na cara quase que diariamente.

Só Prefeitos, Governadores e deputados indiciados são 181, todos envolvidos com algum processo e suspeitos de alguma falcatrua. 35 senadores da república na mesma situação, indiciados ou suspeitos. Como é que um pai ou mãe explica pros filhos o que é honestidade se eles vêem todas as noites nas TVs homens engravatados e aparentemente respeitáveis sendo alvo de todos os tipos de suspeita?

Li recentemente em O Globo que há mulheres que consideram seus maridos pobres e trabalhadores como uns bobões metidos a honestos; há filhos que invejam a desonestidade milionária dos pais de seus amigos que, mesmo aparecendo algemados e sendo comprovadamente desonestos, podem oferecer o melhor pra seus filhos.

Porque conforto e bem estar o dinheiro compra sim, sendo roubado ou não.

Se nós que pagamos e bancamos toda a festa do bordel em que esses homens vão transformando o Brasil, não reagirmos individual e coletivamente contra tudo o que nos indigna, então estamos justamente condenados a fazer mero mea culpa.

E mea culpa é nada mais que um ato improdutivo e masoquista ensinado pelas religiões. Em outras palavras: não serve pra nada.


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POR EM 23/09/2008 ÀS 11:02 AM

Boca loca

publicado em


Responda aí dom Aurélio: depois de ter terminado de ler meu conto achas que eu sou muito louco? 

Respondo a você sir Maurílio: “Sem a loucura o que é o homem senão uma besta sadia?” (Fernando Pessoa).

Mas nesse caso, brother, dom Aurélio acredita que podes identificar alguma identidade entre nós?

Não sei querido her Maurílio, a única coisa que eu sei é que “Eu só serei eu na medida em que tu fores tu” (Heideger)

Admiro muito as coisas que dizes, hermano Aurélio, mas só vou enviar outro conto meu pra leres quanto sentir que criei algo mais absoluto.

Nada disso querido dom, Maurílio, escrevendo como escreves já devias saber que “O absoluto é aquele momento em que alguma coisa alcança a sua máxima profundidade, o seu máximo sentido, deixando, então, de ser interessante”. (Júlio Cortazar), e eu sei que não é isso que queres hermano.

Não é mesmo, sir, dom, Aurélio porque vivendo aqui tão distante do que se considera civilização eu quero mesmo é atingir a fortuna de escrever e ser lido e a fortuna de angariar fundos através da minha agência de publicidade e preparado para ambas porque “Quando a fortuna nos surpreende e nos dá ilustre posto, sem que a ele cheguemos por degraus, ou sem que a ele nos tenhamos elevado com as nossas esperanças, é quase impossível ali ficarmos bem e parecermos dignos de o ocupar, já nos ensinou o mestre (La Rochefoucaud), não achas?

Perfeito dom Maurílio tem toda razão, me lembrei agora de que Cortazar certa ocasião andava pela rue de vie em Paris e deu de cara com La Rochefoucaud que he perguntou: porque não comes maçâs no café da manhã em vez de pêras, são frutas mais humildes apesar de que nessas coisas não se deve ter humildade como bem ensinou outro mestre:

“O verme pisado encolhe-se. É a astúcia. Diminui, assim, a probabilidade de ser novamente pisado. E isso, na língua da moral, chama-se humildade” (Friedrich Nietzsche) como você bem deve saber já que, imagino, é também grande leitor de Nietzsche.

Não brother, her Aurélio, não conhecia essa conversa cotidiana entre os dois gênios e lhe informo que não sou um mero leitor de Nietzsche, sou absolutamente identificado com ele a ponto de sofrer quase que diariamente as mesmas cólicas que o atacavam com freqüência e acreditar que é minha a frase dele:“De que serve um livro que não saiba levar-nos para além de todos os livros?”

Nisso discordo frontalmente de Nietzsche, frater, dom , lord Maurílio porque não sei ainda hoje, mesmo sendo escritor, pra que serve um livro. Será que é para nos elevar ao sublime?

Mas “o que é o sublime? Parece que ninguém o definiu. É uma figura? Nasce das figuras de estilo ou pelo menos de algumas figuras?

O sublime aparece em todo o gênero de estilos, ou existe apenas nos assuntos elevados? (La Bruyère)

Como vê ainda estou em busca do sublime e do belo nas coisas que leio e escrevo.

Mas meu caro her, sir, dom Aurélio “O belo é, essencialmente, o espiritual que se exterioriza materialmente e se apresenta ao ser material” (Hegel)

Mais uma vez discordo e desta vez do Hegel e de ti porque acredito que “O belo, em arte e literatura é sempre verdadeiro: mas nem sempre o verdadeiro é belo” (Ernest Rietshel)

Pois é, dom, sir Maurílio há certa verdade nisso porque “O pior é que a beleza é tão misteriosa quão terrível. É uma luta entre Deus e o demônio, e o campo de batalha é o coração do homem”.(Dostoievski)

Será dom Aurélio? Será? Chupa essa manga.

Não sei dom hermano Maurílio, o que eu sei é que “É muito melhor amar prudentemente, não há dúvida. Mas amar doidamente é sempre melhor do que ser incapaz de amar” (Woody Allen)

Concordas, hermano?

Claro que concordo, considero esse cara muito melhor que Dostoievski, brother, hermano, dom Aurélio. O que ele fala e faz pra mim é lei.

Estás falando sério, brother, dom??

Eu também considero isso desde criancinha. Engula esse caroço.

Então nisso estamos em concordância, não é dom?

Claro, é nossa verdade em comum. “A nossa verdade possível tem de ser invenção, ou seja, literatura, pintura, escultura, agricultura, psicultura, todas as turas deste mundo. Os valores, turas, a santidade, uma tura, a sociedade, uma tura, o amor, pura tura, a beleza, tura das turas” (Júlio Cortazar).  Só posso rebater esta bela frase do bardo argentino com esta do bardo francês: “Nossos atos prendem-se a nós como a luz ao fósforo: fazem nosso esplendor, é verdade, mas tão somente à custa de nosso desgaste” (A. Gide)

Pirastes, dom, brother, hermano?  Eu estava falando de Woody Allen e Cortazar e me vens com frase sem sentido? Fala sério, dom...

Sem sentido sister, brother, dom? Pelo que vejo não aprendeste nada com o nosso maior escritor: “Cada um fala o que quer, o que conta é a dimensão da boca...” (Paulo Coelho)

Paulo Coelho, não, me poupa! Não tens mais o que fazer, não, dom Maurílio, ficas o dia todo aqui citando frases dos outros, é?

Até de escritores de segunda?

E tu, sir Aurélio, que respondes a todas as questões com citações copiadas de livros, também dedicas seu tempo a respostas como essas?

“O resto é silêncio” (Voltaire)

Só volto a falar contigo na próxima semana.

Vade retro sir satanás! (Jesus Cristo)
 


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POR EM 15/09/2008 ÀS 06:53 PM

Assombrações

publicado em


Quem será que construiu aquele elefante colorido que haveria de ser um dia um centro cultural desenhado pelo Niemeyer? Os nomes dos políticos já estão registrados e des-eternizados nalguma daquelas placas de bronze que eles adoram descerrar com ares graves e compenetrados.

Disso se sabe.

Mas não foram eles que assentaram tijolo por tijolo, placa a placa de concreto, milhões de pinceladas vermelhas e brancas, sol a sol, durante muitos meses.

Quem serão os operários que ergueram aquele monumento ainda inútil sem nem saberem a que de fato se destinava? Será que um dia vai funcionar? E os que sabiam o que construíam por lerem nas placas da construção terão algum dia o direito, o figurino e o prazer de assistir um espetáculo nas dependências de sua obra, caso ela funcione algum dia?

Retirarão algum livro das estantes da biblioteca? Lá tem biblioteca?

Quem serão essas centenas de homens anônimos, remunerados com salário mínimo e absolutamente desconsiderados no final da equação?

Um centro de cultura não é para eles, mesmo que teoricamente devesse ser.

E o que dizer dessas imensas mansões dos condomínios horizontais que pedreiros tão simples levantam e que só conhecem por dentro antes de serem habitadas por seus donos, orgulhosos de as terem construído?

E as pontes, viadutos e amplas estradas asfaltadas que os governantes exibem como troféus de suas realizações, quantos litros de suor, quantas marmitas frias, quantos radinhos de pilha, quantas pilhas, quantos músculos distendidos e calos nas mãos custaram aos seus verdadeiros construtores? 

Só cruzarão essas obras de engenharia moderna a bordo das conduções coletivas ou de algum pau-velho ano 75.

Nas placas de bronze não caberiam seus nomes, eles são a leva, a horda, a escória que erguem palácios, catedrais, templos inúteis de cultura, mansões, estradas, pontes e são milhares, todos desprovidos de rosto e personalidade social.

Nos dias de inaugurações, refletores e glórias sobre os poucos que levam a fama, esses homens-números estão recolhidos em casebres e barracos comendo o bró grosseiro e honesto do seu arroz-com-feijão. Assistem pelas TVs suas obras iluminadas e incensadas pelos discursos oficiais e nem citados são na lista de meros agradecimentos genéricos.

Anos e anos se passam, os tais governantes dão lugar a outros, se revezam, caem no ostracismo, apesar das placas de bronze – os operários é que são sempre os mesmos só mudam de nome. Morrem anônimos e são substituídos por outras hordas mais anônimas, sempre invisíveis, meros assombrações.

Chega a ser impensável, por exemplo, que as inaugurações dos centros culturais fossem feitas com grandes espetáculos destinados às centenas desses que trabalharam nas obras durante tanto tempo. Uma platéia lotada de operários que jamais terão uma segunda chance de voltar ali depois. Muito melhor do que encher a pança dos infalíveis e indefectíveis convidados de sempre, aqueles velhos comedores de quibinhos gordurosos e vinho barato das solenidades oficiais.

Isso, sim, seria uma notícia original a ser oferecida aos repórteres das coberturas dos segundos cadernos dos jornais.

Que fio tênue liga a vida dessas pessoas às obras grandiosas que construíram?

Não são perguntas novas nem originais, Bertolt Brecht já se perguntava num poema dos anos 50 quem construiu as pirâmides, as muralhas da China, a Catedral de Nôtre Dame, os estupendos portais de Tebas, os palácios, as sete maravilhas do mundo. Os nomes que ficaram para a história são os dos faraós, dos imperadores, presidentes, não se faz nenhuma referência aos milhares de seres invisíveis que elevaram aos céus esses monumentos.

Gosto de observar, quando vou ao circo, aqueles homens de uniformes sujos na lida custosa de montar, desmontar e remontar o picadeiro, as jaulas de ferro e os trapézios para os artistas entrarem vestidos de lamês e purpurinas e brilhar.

Presto atenções neles tão ágeis, responsáveis e precisos, o espetáculo depende deles, mas não são para eles os aplausos.

Nada disso é apenas uma injustiça histórica e social, é uma injustiça mais profunda, uma injustiça pertencente à outra área das relações humanas, talvez até filosófica, se é que isso existe.

Um artigo modesto e solitário não vai restabelecer as coisas, mas pode servir pra que pensemos juntos no assunto e o coloquemos de novo na pauta.

Afinal, quem poderia, além dos artistas e intelectuais desse Estado, esses chatos sempre dispostos a muita discussão e pouca ação, erguer a voz contra esse abuso incontido dos que nos governam? Escrevi para um jornal um artigo a respeito do tema e fui literalmente censurado.

Nota- Estive recentemente no que deveria ser o tal centro cultural Oscar Niemeyer e comprovei o que um jornal noticiou sem alarde: tudo está se esfacelando, infiltrações se acumulam, cheiro de mofo, sensação de abandono e a pior sensação que é a de que um governo inteiro desperdiçou muitos milhões do dinheiro dos goianos para erguer uma obra de mentirinha, inaugurá-la às pressas para capitalizar votos e abandoná-la no dia seguinte. Está interditada por falta de pagamento às empreiteiras e, repito, nenhum artista, intelectual ou jornalista ousa levantar a lebre. Os primeiros estão envolvidos com seu próprio umbigo, os segundos preferem filosofar, citar frases de autores famosos e discutir quem é melhor na literatura clássica mundial.

Os últimos adoram mesmo é fazer matérias sobre as belezas do ypê amarelo nesta época do ano.

É cada um por si e Deus contra. 


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POR EM 08/09/2008 ÀS 08:51 PM

Muitos abrazos

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Mesmo vivendo numa pequena cidade do interior, ainda menino podia ouvir minhas tias cantarem músicas latino-americanas que faziam sucesso em todo o continente. Músicas peruanas, argentinas, chilenas entre outras eram as que chegavam pelas ondas do rádio a todos os rincões dessa América e ainda não havia essa invasão de música norte-americana sufocando todas as outras com seu poder de divulgação feito em dólares e nos impondo massacrantemente esse samba-de-uma-nota-só em inglês.

Ouvia-se também nos anos 70 canções italianas, espanholas e francesas e, portanto, o leque cultural era muito mais amplo, conhecíamos Domenico Modugno, Rita Pavone, Jacques Brel, Lucho Gatica, etc...

Enfim, o mundo ficou mais pobre no aspecto musical, nenhuma novidade nisso. Mas só percebe quem viveu a diversidade.

Durante muitas décadas as ditaduras apoiadas pelos EEUU, muito comuns neste continente, nos levaram a acreditar numa mentira histórica de que a América Latina é um conjunto de países e o Brasil um País à parte.
 
Usaram as diferenças de idiomas dos nossos colonizadores para nos afastar dos outros países que falam espanhol. Pura conveniência política.
 
O Brasil é grande demais e se fosse unido e identificado com os outros países seríamos o continente poderoso com que sonhou Simon Bolívar ou o Che, por exemplo.
 
Somos todos a América Latina!
 
O mágico é a matéria prima do nosso cotidiano, aqui ou na Bolívia, no Equador ou na Venezuela.
 
Estamos vivos por pura mágica e somente o surreal explica e define nosso vigor e nossa alegria apesar de todas as mazelas.
 
Nos anos 70 não havia um jovem politizado e inteligente que não havia lido o livro “As Veias Abertas da América Latina” do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Assim como os filmes de arte do cinema novo esse livro foi o livro de cabeceira de uma geração inteira. Apaixonante, panfletário e ilustrativo demonstrava como fomos explorados e massacrados pelos países mais ricos como a Espanha e Portugal que nos colonizaram.
 
Foi por causa dele que decidi durante os anos 80 percorrer toda a América entrando em contato com dramaturgos, atores, músicos e diretores de teatro.
 
Queria me sentir irmanado com os povos latinos e consegui.
 
Depois de meses voltava revigorado pro Brasil porque descobria identidades muito mais profundas com todos os povos que me recebiam como hermano.
 
Trouxe para o Rio de Janeiro diversos autores latino-americanos, dramaturgos desconhecidos e suas obras maravilhosas: José Ignácio Cabrujas, Isaac Chocrón, Roman Chalbauld... Promovi shows com cantores de vários paises que conheci nas viagens e reforcei o intercâmbio que nos fortalecia.
 
Também estive realizando oficinas de interpretação em alguns.
 
Sinto que abri portas e janelas dessa América sofrida e mágica para outras gerações de artistas que, como eu, desejavam se arejar artisticamente.
 
Nos anos 90 Caetano Veloso gravou um CD chamado “Fina Estampa” só com canções populares latino-americanas e que foi um grande sucesso.
 
O cineasta Almodóvar colocou algumas dessas canções em seus filmes por serem belas e para tentar, como declarou, reavivar o interesse pelos artistas desse Continente. Talvez seja a literatura a única arte que nos chegou sempre mais fortemente através de Jorge Luis Borges, Canetti, Mario Vargas Llosa, Júlio Cortazar, Gabriel Garcia Marquez e tantos outros autores que nos revelaram identidades insuspeitas até então.
 
Nos festivais internacionais de teatro os espetáculos dos grupos latino-americanos são sempre os que mais se destacam porque instintivamente conhecemos a arte de transformar dificuldades em beleza plástica e isso encanta os outros povos em qualquer lugar, tenho comprovado.
 
Festivais europeus de teatro sem a presença de grupos dos países desta América significam festivais bem-comportados, pouco vibrantes, meio incolores, sem paixão cênica porque nossa exuberância se manifesta em toda arte que criamos mimetizando nossa exuberante natureza física e emocional.
 
Gosto de ser assim e, sendo, não poderia ser diferente disso.
 
Meu interesse e curiosidade pela América Latina permanecem inesgotáveis.
 
Foram eles que me motivaram a escrever o roteiro do Show que estreamos recentemente aqui em Goiânia e que se chama ABRAZOS.
 
São dez músicas latino-americanas e algumas brasileiríssimas como a música do Villa Lobos e da Chiquinha Gonzaga que promovem abrazos entre os nossos povos.
 
Um espetáculo em que os textos curtos do escritor uruguaio Eduardo Galeano conduzem o público pelas sonoridades e pelas planícies que, se conhecêssemos mais profundamente, nos tornariam mais amplos.
 
E essa profundidade a música pode promover, é linguagem universal.

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POR EM 26/08/2008 ÀS 01:21 PM

Patrimônio imaterial

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Entre tantas expressões novas e reinventadas esta é uma das que me encantam por sua precisão e senso de justeza: patrimônio imaterial. Pra quem não sabe o que isto significa é só refletir um minuto sobre as duas palavrinhas. Não há povo, por mais pobre que seja, que não tenha seu patrimônio imaterial. Estive uma vez numa cidadezinha inexpressiva do México onde não havia nada de atraente, nenhuma importância turística, coisa alguma que a distinguisse, apenas uns três mil habitantes orgulhosíssimos de seu patrimônio imaterial, um velhinho sábio, descendente dos índios tarahumara que conhecia a cura de todas as doenças e, de quebra, sabia até como atingir a mais provecta idade.

Ele tinha uns 95 anos quando o conheci, mas era quase um jovem nos seus movimentos e na ironia sábia com que se referia a nós, homens comuns tomados por sentimentos menores como a raiva, a inveja e que se alimentam de venenos vendidos com selo de qualidade nos supermercados, segundo ele. Ensinava a quem quisesse uma receita simples de saúde e longevidade feita apenas com alho e álcool de cereais que garantia ser herdada de seus antepassados, velhíssimos como ele, capazes de ainda fazer filhos aos 85 anos. As pessoas o reverenciavam porque confirmavam na prática o que ele ensinava e o que ensinava eram os efeitos terapêuticos do riso e dos prazeres do sexo, fora a receita do alho, claro.
 
Todos os artistas que participavam do Festival Internacional de Teatro do México subiam as montanhas para conhecer essa catedral humana. 
 
Quando desciam eram pessoas melhores. 
 
Talvez tenha morrido, mas era, sim, um verdadeiro patrimônio imaterial, tanto que estou aqui falando dele muitos anos depois de tê-lo conhecido. 
 
Ativando a memória penso nos nossos próprios patrimônios imateriais surgidos e forjados aqui nesse cerrado goiano, homens e mulheres que nos legaram verdadeiros museus vivos de sabedoria, ética e grandeza humana. Nesses tempos sórdidos vive melhor o povo que identifica e assimila o exemplo desses patrimônios não palpáveis e eles, felizmente, existem em qualquer cafundó-do-judas ou até nas grandes cidades porque independem de dinheiro, de status, do grau escolar e do polimento intelectual.
 
Em Pirenópolis tivemos o seu Ico, nem tão velho assim, mas de uma simplicidade sábia, bem humorada e comovente; quem vai esquecer a genialidade de contador de histórias do Geraldinho? E o que dizer da Cici Pinheiro, uma mulher que nos legou a determinação e o atrevimento para continuar fazendo teatro quando todas as condições são adversas?
 
Uma casa, um quartinho, alguns livros, a memória de seus doces deliciosos nos lembram concretamente de Cora Coralina, mas seu espírito longevo paira sobre tudo isso imprimindo ânimo, delimitando e definindo o que chamamos, ou desejamos que seja, goianidade.
 
Em Catalão viveu um homem, Antônio Chaud, responsável pela cabeça de algumas gerações de estudantes que aprenderam com ele o prazer de ler um bom livro e a importância da informação numa época em que a informação, nem de longe, tinha a força que tem hoje. Sempre esteve muitos anos à frente do seu tempo e ensinou o visionarismo a garotos que, como eu, seriam apenas homens provincianos não fosse a influência dele.
 
É um autêntico patrimônio imaterial, fundamental.
 
A melhor cantora de Goiás chama-se Eli Camargo e as novas gerações não a conhecem. No Brasil é comum que os jovens pensem que o mundo começou no dia em que nasceram, deletam qualquer coisa que veio antes deles.
 
Eli Camargo não faz o gênero jovem, nem a brejeira, a versátil ou a sensual, mas é capaz de nos remeter com sua voz límpida a um Goiás que tanto nos empenhamos em preservar através do nosso patrimônio arquitetônico ou natural.
 
Esses homens e mulheres são tão nosso patrimônio quanto a velha Goiás tombada e reconhecida mundialmente. São tantos e de tão variadas ordens que não seria possível citá-los todos num artigo como esse, mas podemos e devemos reconhecê-los da mesma maneira que reconhecemos os sabores muito próprios desta terra.
 
Não haveria teatro em Goiás sem os trieiros abertos sofridamente por Cici Pinheiro e Otavinho Arantes. Nem cinema sem João Bênio. O jornalismo aqui se assenta em homens como Jaime Câmara e Batista Custódio, só para citar dois deles. 
 
Qualquer cantor ou cantora goiana deve mais a Eli Camargo do que aos patrocinadores que possibilitam a gravação de seus discos e apresentações de shows, porque ela é que deu consistência e profissionalismo ao ato de cantar. É a nossa voz.
 
São pessoas como essas que nos distinguem em meio à mediocridade que iguala tudo através dessa onda terrível chamada globalização. Somos seus beneficiários diretos e com eles aprendemos a olhar o mundo fora da mesmice imposta pelo mundo. 
 
Vivemos decididamente a cultura do dinheiro, do poder, da superficialidade, das coisas descartáveis e é através de nosso patrimônio imaterial, imune às influências do tempo, que podemos preservar nosso direito à alegria, à sabedoria e à humanidade.
 
São umas espécies de reserva utópica e espiritual que não arrefecem nunca e é nos refletindo neles que podemos manter a certeza de que o mundo é um lugar delicioso pra se viver. Ainda bem que são eternos.

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POR EM 19/08/2008 ÀS 03:25 PM

Brincadeira de mau gosto

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Hoje começa a propaganda eleitoral em todo o Brasil e aqui em Goiás vamos ouvir falar muito de Jorge Alfaiate, Tim da Retífica, Lindomar Pedreiro, Gordin do Carnágoiânia, Floripes Costureira, Chicão do Buteco, Deusdete da Van Azul, Erondina da Feira, Clarisval da Loteria, Seu Santos da Padaria, Deolindo Mecânico, Zé Marreteiro, Teo da Boléia, Lila da Avon, Rosiron da Praça Calixto, Marizete Cabeleireira, Juvenil do seu Delfonso, Alípio da Vicentina, Tiao Sukita, Manezim do Verdurão, Nenê do Picolé, Junim do Mercado, Vanderlino do Cinema, Tilde do Caminhão, Neuza do Quartel, Luzia Enfermeira, Eli da Rua da Grota, Sobral Tapeceiro, Lucivaldo da Borracharia, Nenzin da Melancia...e mais uma infinidade de nomes como esses que tive a paciência de recolher através de telefonemas disparados às dezenas de municípios goianos onde vai haver eleição para vereador e prefeito. O leitor votaria em algum desses entendidos em política para legislar na sua cidade? Pois saiba, repito, que são algumas das opções que o povo tem para fazer valer seus direitos em quatro anos de mandato.
 
Sei não, mas diante dessa brincadeira de mau gosto resta pouco a comentar. Mesmo assim elocubremos: pelas profissões acopladas aos primeiros nomes de cada um, desconfia-se que o salário de vereador que esses homens e mulheres desejam é apenas para complementar suas rendas pessoais advindas das borracharias, das retíficas, das padarias, nunca por algum interesse em servir o povo das cidades onde forem eleitos. Difícil acreditar que tenham a mais mínima noção do que seja legislar, que um vereador deve saber interpretar leis ou qualquer outra atribuição do mandato, tratam de aproveitar uma certa popularidade para chegar onde imaginam que vão se dar bem. Todos os dias podem assistir nos noticiários das TVs outras centenas de políticos se dando bem em muitos dígitos, impunemente e se sentem no direito de fazer o mesmo, isto é, carreira política, aparecendo nos jornais, sendo tratados como excelências por seus pares.
 
Devemos considerar que para alguns pode até nem ser assim, senão incorreremos num pré-conceito, mas que essa hipótese é tentadora, lá isso é.
 
Ou será que alguém, em sã consciência, acredita mesmo que um homem chamado Gordin do Carnágoiânia possa ter condições de representar uma cidade e por ela fazer alguma coisa que não seja um bom agito carnavalesco? Tivesse esse senhor um grau mínimo de instrução além de saber ler e escrever e ele mesmo não se apresentaria numa eleição com esse nome. E a Deusdete da Van Azul? Segundo me informei esta senhora a partir de 1 de agosto decidiu oferecer gratuitamente sua Van azul ao povo para levar quem quiser de um lado a outro da cidadezinha onde pretende ser vereadora, até organiza piqueniques angariando a simpatia e os votos necessários à sua subida ao pódio da Câmara. E numa cidade bem perto da capital o tal Manezim do Verdurão anda distribuindo gratuitamente a todo o povo umas levas muito gostosas de abacaxis pérola. Segundo a informação o povo está entusiasmado com ele, vai ganhar.
 
Um capitalista nato: investe uns abacaxis agora pra ganhar muito mais à frente.
 
Uma maravilha digna da ficção do prefeito Odorico Paraguassu. Perigoso, porque nesse caso não se trata de ficção, mas de realidade que acaba interferindo na vida de muitos. Candidatar-se é um direito de todos e convencer o povo pode até ser uma questão de estratégia, cada um elabora a sua, quem não tem marqueteiro vai de Van mesmo, quem há de condenar? E condenar o que?
 
Também é direito de todos estudar numa universidade federal, mas pra isso têm de passar por uma prova de competência.
 
Uma prova assim não seria útil nas eleições?
 
Quando mostrei a alguns amigos o resultado das minhas pesquisas em muitas cidades goianas que revelaram os nomes citados, uns riram, outros acharam que era brincadeira, um ou outro acreditava que nomes assim não têm a menor chance de serem eleitos, mas nenhum sabia como se comportar diante da absurda relação.
 
Afinal, ter nome bonito e pomposo não é sinônimo de ética e competência, fosse assim...fosse assim...bom, deixa para lá.
 
Desejemos que daqui a quatro anos esses homens e mulheres da borracharia, da retífica, da tapeçaria, da loteria, do caminhão, possam fazer melhores as cidades que os elegeram e que não se percam pelo caminho, acusados de alguma falcatrua que imite os modelos das grandes que vêem na TV.
 
Certo é que muitos tratarão de guardar-o-pito, ficar mudo, não interferir em nada e receber o sempre gordo salário que lhes é devido; ou ainda outros que, aderindo a algum político mais poderoso, garantirão uma vantagenzinha a mais para fazerem papel de zumbis. Este é o ancestral jogo do “quem tem a boca maior engole o outro”.
 
E pensar que homens como o Jorge Alfaiate, o Lindomar Pedreiro, a Floripes Costureira, o Deolindo Mecânico, a Luzia Enfermeira e tantos outros, bem poderiam se contentar em ser grandes e competentes nos seus respectivos ofícios, engrandecendo suas cidades sem se expor ao ridículo ou enganando pessoas.
 
Acho que os merecemos.

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