Desenho de  Wendy MacNaughton
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Marcos Fayad

POR EM 24/11/2008 ÀS 08:54 PM

Será?

publicado em

Se fôssemos inteligentes de fato, investiríamos todo o dinheiro, tempo e trabalho que temos a oferecer à sociedade na educação e na cultura.

Ou exigiríamos isso dos governantes.

Tudo o mais, saúde, segurança, crianças nas ruas, produtividade e riquezas, tudo seria mera conseqüência que um povo educado e culto trataria de produzir naturalmente. Há provas disso em outros países.  Educar não é apenas alfabetizar, oferecer comida, disponibilizar salas, etc...é muito mais profundo e depende diretamente da cultura de quem nos governa, nos representa, e é responsável pela área durante certo tempo. Precisaríamos de uma lei ideológica-apartidária sobre a Educação, isto é, que não dependesse dos governos, já que são todos cíclicos, passageiros.  

Educar seria um fértil projeto a ser executado como prioridade em longo prazo, elaborado por homens e mulheres de comprovado saber, obrigatoriamente seguido por qualquer governo.

Não é assunto que muda de rumo conforme o partido no poder, retomando tudo do zero, anulando metas traçados pelo anterior. Cada governo leva meses, à vezes anos para “tomar pé da situação”, e a Educação, matéria da sensibilidade e inteligência é quase sempre gerida por pequenos homens e mulheres culturalmente limitados.

Nada do que disse é novidade, era a grande meta de um dos maiores educadores do País: Paulo Freire. Educação e Cultura só podem caminhar e se desenvolver juntas. Educadores deveriam ter acesso a ela, tê-la como matéria importante do seu currículo educacional porque não há cultura sem Educação e vive-versa.

Há um certo aspecto da cultura que nós chamamos folclore, manifestações de festas populares, atividades para-teatrais como as cavalhadas e congadas que, por darem votos, são apoiadas e freqüentadas por políticos.  Ninguém mais se ilude, estão pouco interessados na arte que o povo produz, mas nos votos dele. Afinal, cultura popular reúne massa, palavra mágica que atiça a ambição de qualquer político. Claro que devemos preservar a história e as tradições que desenvolvemos espontaneamente ao longo dos anos, são nossa trajetória, mas devem ter cuidados redobrados quando são apoiadas – costumam aliciá-las e pervertê-las.

Como resolver esse teorema?

Educação e Cultura juntas descortinam soluções para muitos problemas – mas os governantes as querem? Todos eles anunciam a Educação como prioridade.

Mas o que é cultura? Ninguém sabe, é matéria etérea e fugaz, variável e diferente em cada recanto.  Talvez o melhor seja defini-la pelo que ela não é: aquele intelectual chato e antiorgástico que sabe citar de cor frases de grandes autores; o idiota cheio de títulos e diplomas na parede; os merdalhões  amargos que confundem criticar com falar mal;  os que têm as maiores bibliotecas enfeitando paredes decoradas com lombadas coloridas mas que nunca abriram os livros;  os que sempre encontram desculpas por não terem visto uma obra de arte; os freqüentadores assíduos e festeiros dos lançamentos de livros e vernisages , papa-coquetéis enfeitados de cultos; os freqüentadores  eventuais que só vão ao teatro quando tem algum nome que já viu na TV; escritores medíocres que ocupam cargos de direção de entidades culturais; carreiristas políticos que sempre dão um jeito de serem nomeados para áreas culturais; os tiradores de casquinha em fotos com artistas e intelectuais famosos; os limitados homofóbicos que acham que cultura é coisa de veado;  os que confundem diversão com riso , nunca com o prazer da beleza e do pensar; os donos-da-verdade que não sabem nem de si mesmos; os vomitadores de regras estabelecidas e velhíssimas...

Felizmente nada disso é cultura.

Cultura é alguma coisa próxima da verdadeira e prazerosa sensação de que você está apto a discernir o que é bom do que é ruim. Não porque algum jornal ou publicidade da TV lhe disse, não porque leu uma regra em algum livro de receitas de como ser culto, mas apto por ser capaz de juntar as pedras de tudo o que foi aprendendo pela vida afora, até o quebra-cabeça fazer sentido espiritual – cultura é coisa de evolução de espírito. 

Só boa leitura, bons espetáculos, filmes, músicas, boas conversas e tantos bons etcs...podem criar cultura.  

A escola tem papel fundamental nisso – educar é ensinar as crianças a serem leis de si mesmas a desenvolverem e elevarem a personalidade e autoestima e a serem dependentes de si mesmas. Coisas tão vitais como a matemática, o português, a geografia. Educar é fazer com que as especulações da alma sejam cercadas de estímulos geradores da cultura.  

Mas como tudo isso são meras especulações, deixo ao leitor a tarefa de pensar sobre o assunto e decidir como terminaria esse artigo.

Posso botar pilha na lanterna com uma informação preciosa que acabo de ler numa publicação da UNESCO: todas as crianças e adolescentes que têm acesso a atividades culturais associadas às educacionais desenvolvem maiores potenciais, mais personalidade própria e, conseqüentemente, menos violência, menos drogas, menos mediocridade – as grandes enfermidades sociais do nosso tempo.  

Educação e Cultura é que fazem um País decente que um dia, ainda acredito, faremos.


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POR EM 17/11/2008 ÀS 04:40 PM

De salto alto

publicado em

Quando se está dentro do avião e ele levanta vôo é bom ficar com o nariz colado no vidro da janela observando a lenta subida aos céus. Em poucos minutos o homem, a casa do homem, as ruas do homem, os carros do homem...tudo isso vai se distanciando, ficando pequenininho até que a gente se dá conta de que o bichinho que se acha tão importante não passa mesmo de um pequeno verme circulando lá embaixo. Com poucos metros acima ele fica invisível, coitado, basta subir 5 mil metros e ele perde imediatamente tudo isso que o faz pensar que é imprescindível na rotação do planeta terra.

A verdade é que não contamos nada para o universo: nossas alegrias ou nossas dores não afetam em nada o movimento do mundo no grande espaço cósmico.

Não posso imaginar que haja um momento mais propício que esse para meditar sobre a vida que é quando ela mais parece assumir sua verdadeira dimensão.

Assim, desprovidos da presunção de sermos únicos, grandes, poderosos podemos atinar e encarar uma realidade oposta. O que talvez nos ajude a perceber isso seja também a fragilidade com que nos encontramos dentro daquela geringonça voadora, antinatural, precária – somos obrigados a entregar-nos ao fato de que nenhum controle podemos exercer sobre o vôo e o controle é uma das ferramentas do homem para se sentir seguro num universo absolutamente inseguro, ele imagina estar de plena posse dos comandos e a ferro-e-fogo controla na maior parte do tempo e se reveste de uma autoridade que nunca possuiu.

Controlamos para garantir nosso papel de donos do mundo, mas, felizmente, não conhecemos nem nosso próprio universo particular e quando se perde a possibilidade de controlar é que se cai na real – nosso poder é desmentido pelos fatos, pelas coisas, pelos acontecimentos.

Não exercemos nenhuma ascendência de fato sobre nada.

No entanto, quando perdemos o controle e estamos mais frágeis é que somos mais bonitos. Quando dormimos, por exemplo: uma pessoa que dorme profundamente adquire uma aura de encantamento difícil de definir e aí, sim, fica até impossível imaginar que pode ser também má.

Um assassino tem a mesma placidez quando dorme que um bebê de um ano.

Pertence a outro plano, o da pureza do sono, do inconsciente onírico que pode levá-lo a reinos desconhecidos onde ele poderá ser melhor, não controlar nem seu inconsciente, assumir-se como de fato é.

Homens poderosos são feios, pode observar, são como águias atentas e vigilantes, jamais parecem relaxados e seus sorrisos mais parecem esgares musculares que a representação metafórica de uma felicidade interior. É ela que gera o sorriso.

Mas um sorriso pode ser também produzido conscientemente mexendo alguns músculos como o desenho caricato faz com a figura real: ela pode ser identificada no traço do desenho, mas não capta a alma de quem é caricaturado.

A fragilidade é da sina do homem e tão certa quanto a morte – podemos fingir poder e força, podemos até infundir temor, mas nos sabemos frágeis.

A área cultural, a arte em geral está repleta de homens frágeis, lúdicos, meio meninos, carentes de elogios e que, por isso mesmo, tiveram o privilégio de entrar em contato direto com os deuses da criação, porque eles concedem o privilégio, mas não aceitam competição. Homens que se acreditam poderosos são competitivos, num embate com a força dos deuses perdem sempre e o castigo pela perda nessa luta inglória é a insensibilidade, a visão estreita para as belas coisas do universo, a rigidez de princípios, as tensões, o jeito desajeitado de viver, a insanidade de correr atrás de coisas falsas e a tristeza de pautar suas vidas pela força do hábito que a eles foi imposto.

Gente frágil, criativa, alegre e sem esse desejo de poder como são os artistas é que se aventura nos meandros da vida e descobre ângulos novos que nem de longe podem ser percebidos pelos tristes – são aqueles que sinalizam sobre como a vida pode ser divertida, descomplicada quando assumimos nossa pequenez diante dela.

Quando desce do salto alto é que o homem se dá conta de que perante a grandeza do universo só lhe resta fazer reverência ou se harmonizar.

Nem o dinheiro nem o poder político podem conferir-lhe grandeza.

Parafraseio Whitman: “Grande é a vida – é real e mística!

Grande é a morte – certa como a vida!”

E acrescento: grande é o pequeno homem que sabe avaliar sua dimensão diante do grande universo e fica feliz com ela.

Há mais delícias em ser frágil que ser poderoso.


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POR EM 10/11/2008 ÀS 10:23 PM

Se não mata aleija

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Deve ser insuportável pra eles que a revista cresça e apareça e eu os entendo perfeitamente, coitados. É sempre mais fácil passar a mão na cabeça de fracassados do que cumprimentar e solidarizar-se com vencedores. Dói menos nos invejosos


A natureza humana parece que não muda nunca, é absolutamente previsível e observá-la é sempre um grande exercício. Sabe-se que, infelizmente, nem tudo no bicho homem são sentimentos de grandeza, convivemos com os pequenos homens e os muitos conteúdos mesquinhos que vão armazenando nos corações vida afora.

De todos eles o pior é a inveja, um dos sete pecados capitais para os católicos e o mais maléfico para quem o carrega na cabeça e no coração, ensina a psicologia.

Surgiu no mundo através de Caim, enfurecido de inveja de seu irmão Abel.

Foi o primeiro invejoso, mas há outros famosos como o músico e maestro Salieri que se roeu e definhou a cada nova partitura de seu desafeto genial chamado Mozart que ele considerava um cretino.

Como é que um menino levado e produtivo podia, com as mesmas sete notas musicais, criar obras celestiais enquanto que ele, Salieri, vivido e experimentado, produzia apenas convencionalismos musicais mediocres?

Invejosos sempre existiram e eles é que criaram os preconceitos agredindo seus alvos com palavras que foram se modificando no decorrer da história como: boêmio, cachaceiro, drogado, esquizofrênico, maconheiro, preto, bicha, etc... —  é preciso desqualificar seu objeto de inveja para sentir-se alguém.

Como críticos criticam obras geniais e põem em dúvida sua qualidade pra parecerem melhores que a obra criticada.

Uns tolinhos infantis enquadrados no beabá do caráter humano.

Os tratados de psicologia sabem que o invejoso deseja mesmo é ser seu objeto de inveja, mas como isso é impossível ele quer que o outro não produza nada que possa ser comparado consigo para não ampliar ainda mais o fosso que os separa.

Invejosos querem estancar a fonte criadora do objeto que invejam e produzem bílis corrosiva em quantidade suficiente pra se autodestruir e acabam se tornando cada vez mais secos e áridos de vida. Invejoso transa mal, é obeso mental, é covarde, cínico, mal amado, nada criativo, tem a pele macerada e são os maiores consumidores de antiácidos.

Invejoso não vive, gravita em torno de si mesmo e seus minúsculos sentimentos, mas, principalmente gravita em torno de quem inveja.

Amam o que invejam.

O maestro Tom Jobim, quando foi reconhecido pelo mundo convidado a tocar e cantar com Frank Sinatra conheceu bem a inveja dos músicos brasileiros que o atacavam e cunhou uma frase famosa: “Sucesso no Brasil é considerado ofensa pessoal”. Mais sintético e preciso impossível.

Carmen Miranda, no auge do sucesso nos EEUU chegou a ser considerada traidora da pátria pelos invejosos de plantão permanente.

Ambos causaram muito mal involuntário aos sempre alertas invejosos.

Carmen e Tom ficaram na história, mas cadê os invejosos? Que nomes tinham?

Os árabes também inventaram uma sentença para este tipo de gente:  “Os cães ladram e a caravana passa”.

Pois nesta última semana muitos cães ladraram entupindo a caixa de comentários da revista Bula com mensagens furiosas e agressivas contra alguns dos articulistas.

Um bom sintoma de que a revista melhorou mais ainda e é de fato um êxito na sua categoria.

Se despertou a ira dos invejosos — e isso pode ser comprovado pelos comentários de alguns homúnculos que usam pseudônimo, tempo e palavras pra agredir pessoas que escrevem aqui — é porque é sucesso de fato.

Apesar de ser lugar comum a frase é batata: “Não se atira pedras em árvore que não dá fruto”.

Deve ser insuportável pra eles que a revista cresça e apareça e eu os entendo perfeitamente, coitados. É sempre mais fácil passar a mão na cabeça de fracassados do que cumprimentar e solidarizar-se com vencedores. Dói menos nos invejosos.

Qualquer artista goiano sabe do que falo, muitos são objetos da inveja paralisante dos néscios. Mas isso acontece em quase todos os campos de atividades humanas, não é privilégio dos artistas — só que com eles repercute mais, têm mais tambores.

Há uma lógica doentinha usada pelos invejosos, uma lógica invertida e aleijada: “Se eu não consigo ninguém mais pode conseguir”.

O mundo ideal pra eles seria a paralisação absoluta onde só o mal teria importância e vez. Uso esse espaço pra informar a eles que esta é uma doença sem cura: nem a psicologia, nem as novenas, nem a água benta, nem o pó de hóstia, nem o dente de alho são capazes de reverter a inveja, seu portador acaba sempre pálido, amarelado, sem viço, bilioso, amargo, limitado a xingamentos vazios, envolvido pela teia venenosa secretada por sua própria bílis.

Enfim, se antropofagizam. (Corram ao dicionário!)

Minha sugestão aos invejosos escrevinhadores agressivos é que recorram ao amargor de nossa jurubeba tida como de grande valia para os males do fígado, porque vão ficar ainda mais biliáticos quando se derem conta de que os objetos de suas invejas não se abalaram e continuam seguindo em frente.

Haja jurubeba!

Pessoalmente gosto que eles existam e me invejem e me detestem porque são como combustível e impulso e me causam muita graça quando expressam seus baixos sentimentos por mim. Gosto de provocá-los como se provocam perus pra ouvir o glu-glu inútil, rio deles, os ignoro e vou adiante.

Sugiro a todos da Bula que os ignorem também — eles existem pra isso e nada os destrói mais que serem ignorados e reduzidos à sua verdadeira dimensão.

Afinal, que problema há em ser agredido por reles pseudônimos?

Que não esperem de mim nenhuma resposta às suas ironias ou agressões — escolho meus interlocutores a dedo e sou exigente como todo objeto de inveja.

Mas, pra compensá-los de sua doença digo que invejosos também são úteis: dão ânimo e incentivo para criadores criarem e, indiretamente, deflagram o prazer de produzir artigos como este.

Sim, são migalhas, mas eles sabem que ser coadjuvantes é o máximo que podem almejar na vida.

O resto é silêncio. 


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POR EM 04/11/2008 ÀS 09:33 AM

Um Deus que não sabe dançar

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Fico matutando sobre o que pretendem os evangélicos ao mergulhar na política? Agradar a Deus certamente não é, Deus, há séculos, é desagradado suficientemente por católicos, fanáticos islâmicos que praticam barbaridades em seu nome e outras seitas que até induzem seus seguidores ao suicídio para chegar até Ele mais depressa, não deve se sentir muito glorificado com essa invenção humana chamada política.

Sem perceber, pouco a pouco, fomos tomando conhecimento que os evangélicos deixaram de ser apenas um segmento e agora, cada vez mais, pleiteiam o pódio político, já não lhes bastam os púlpitos das suas igrejas, querem mais, querem nos representar, misturam religião com política. Nessas eleições eles ganharam ainda mais espaço aqui em Goiânia e no Brasil – todos com aquelas caras gordinhas e rosadas de menino-criado-com-a-avó que eles têm.

Pura aparência porque são mesmo umas águias ambiciosas ágeis como setas em direção ao seu alvo.

Têm conseguido o que querem.

No Rio de Janeiro assisti agora na campanha eleitoral a exposição de idéias do bispo candidato a prefeito e fiquei assustado com a moralidade retrógrada, a falta de graça, a ausência de sensualidade e humor, a tentativa subliminar de impor regras, as regras em que ele acredita. Destila burrice pelos poros e nisso não difere em nada dos seus pares do País inteiro. Um jornalista perguntou que livros ele lia no momento e ele só conseguiu citar o óbvio: a bíblia.

Fosse prefeito do Rio de Janeiro e os cariocas acabariam concordando com o filósofo alemão Nietzsche que “só acreditaria num deus que soubesse dançar”. O do tal bispo carioca não sabe e ele tentaria, com certeza, impor ao povo a rigidez com que encara a vida.

Mas, com todo seu discurso moralista, dançou há dois anos na CPI do mensalão. Ele e outro bispo, seu braço direito foram comprovadamente beneficiários do dinheiro sujo e um deles foi cassado, chorou diante das câmeras de TV, negou tudo, mas teve de voltar ao púlpito de sua igreja. Seus fiéis podem ter perdoado seus roubos, mas não viram a cor do dinheiro que ele conseguiu com seu cargo político.

Aqui há pouco tempo os jornais deram conta de que um deputado da Assembléia Legislativa de Goiás foi indiciado por peculato e esteve envolvido, segundo a polícia, com repasses de dinheiro a funcionários fantasmas todos nomeados por ele mesmo e organizados por seu irmão pastor de uma igreja.

Muitos fiéis da Igreja recebiam dinheiro do povo através de salários da Assembléia Legislativa e repassavam ao tal pastor.

Misteriosamente abafaram o caso, mas eu não estou inventando nada, são dados colhidos nos jornais que já foram comprovados pela polícia. Roubos e falcatruas já não assustam mais ninguém no país, o que ainda provoca apreensão e indignação é essa associação entre política e religião.

Esses senhores criadores e seguidores das novas igrejas conseguem amealhar grandes fortunas usando o nome de Jesus e a boa fé de ignorantes facilmente cegados pela rigidez das doutrinas e a promessa de privilégios divinos conforme o dízimo que pagam.

Penso que o leitor sabe que igrejas são isentas de pagamento de impostos.

Não entendo. Como também não entendo por que alguns jornais do país não permitem que se toque nesse assunto. Passa da hora de se mexer nesse vespeiro como já mexemos em tantos outros para separar os zangões das abelhas.

Religião é uma coisa, política é outra.

No Brasil ficou comum misturar uma e outra é usar a primeira para camuflar as falcatruas da segunda.

A história das civilizações comprova que sempre que os homens misturaram política e religião o resultado foi catastrófico.

Salazar, o violento ditador que subjugou Portugal, governava respaldado pela Opus Dei, entidade da igreja católica que ainda hoje representa o que há de mais conservador, hipócrita e atrasado no mundo.

Da mesma maneira o general franco, carrasco da Espanha, se orgulhava de, entre um assassinato e outro, ser visto piedosamente assistindo a missas solenes na catedral de Madri.

Ambos, ao misturar política e religião conseguiram camuflar seus roubos e assassinatos sem que ninguém pudesse censurá-los ou levá-los a julgamento – afinal, eram religiosos e supostamente tementes a Deus, se escondiam atrás Dele.

Não tocar nesse assunto, não escrever sobre ele dá aos evangélicos uma blindagem supostamente religiosa que lhes permite fazer o que querem quando ingressam nessa arte terrena que é a política.

Por que são diferentes quando cometem os mesmos erros que qualquer um? Falar dos maus e ladrões não significa que nas igrejas, quaisquer igrejas, não existam os honestos, os que lá estão porque, por algum motivo, precisam se sentir próximos de Deus.

Os canalhas, sim, usam o nome de um deus que não sabe dançar, se escondem atrás dele que é bem diferente do Deus alegre e generoso que, mesmo também não sabendo dançar, é respeitado e glorificado pelos honestos e os de boa fé desde sempre.

Porque afinal, para muitos, Deus é apenas uma projeção da mente de cada homem e cada um o reflete segundo sua imagem e semelhança.

O meu adora dançar.


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POR EM 27/10/2008 ÀS 12:21 PM

As minorias têm sempre razão

publicado em


Sou remanescente dos utópicos dos anos 70, aqueles que acreditavam que iam mudar o mundo com suas idéias e a prática delas. Digo remanescente porque até hoje acredito que o meu teatro pode incentivar as pessoas a pensar, desejar e trabalhar para um mundo melhor. Tem coisa mais utópica que fazer teatro num país onde os governos destinam verbas para a cultura duas vezes menor do que as que destinam aos carros oficiais? Os utópicos dos anos 70 adotaram um padrão de sonho: ter uma casa no campo onde pudessem compor muitos rocks rurais e reunir seus amigos, seus discos e livros...e nada mais. Acreditávamos em Carlos Castañeda que ensinava que cada homem precisa encontrar seu lugar de “poder” e só ali ser feliz para sempre. Nunca tive dinheiro suficiente pra comprar uma terrinha e nela praticar a harmonia entre bichos, plantas e homens e, pouco a pouco, caí na roda-viva do capitalismo desvairado que empurra qualquer homem para a periferia de si mesmo – ainda que permaneça fiel às suas idéias.

Reavivei meu sonho quando vim pra Goiás e conheci uma certa fazenda onde não se faz filosofia do sonho, mas onde se pratica a grande utopia através de parcerias e convergência de utópicos em geral.

Ela não queria ser propriedade exclusiva de um homem, seu dono, mas de todos que quisessem ajudar a fazer dela um ponto de poder onde arte, ecologia, produtividade sem ganância, evolução espiritual e harmonia com fauna e flora convivessem sem os grandes conflitos que acabam levando tudo de roldão. Os que acreditavam nisso eram, como de costume, tratados com condescendência como se tratam loucos mansos, inclusive o dono dela, maduro, rijo e forte como só os utópicos sabem ser.

Anos se passaram até que leio no livro do escritor alemão Wulfing Von Rohr, que pesquisa exatamente lugares no mundo onde se concentram esses pontos de poder e espiritualidade que a fazenda Santa Branca, situada no coração do Brasil, em Goiás, foi incluída como um dos 48 lugares onde o homem pode atingir esse grau de harmonia com a natureza e a elevação espiritual.

Estamos em boa companhia como a Ilha de Páscoa, o Monte Sinai, Santiago de Compostela, o Gran Canyon, Éfesos, e outros 48 etcs...

Na Áustria onde a cada ano se promove o prêmio Nobel alternativo para reconhecer homens e idéias inovadoras no mundo o nosso Leonardo Boff foi um dos premiados e a fazenda Sta Branca estará na lista no próximo ano, segundo o próprio Von Rohr. Os que conhecem a fazenda dirão que ela é também um empreendimento comercial situada entre os conhecidos lucros capitalistas.

Não se pode sobreviver de brisa e por isso ela fez parcerias que a sustentasse, mas deixo esse ângulo da história para a publicidade dos empreendedores porque não é a parte comercial que existe o que a fazenda tem de mais importante, mas sua sede freqüentada por gente do mundo inteiro.

O que é preciso dizer é que temos aqui, ao lado de Goiânia, o único ponto da América Latina onde se realizou o sonho de muitas gerações que é recorrente em várias culturas: permitir ao homem viver com dignidade sem que para isso tenha de subjugar a natureza e fazer dela um trampolim para as mais sórdidas ambições que se estabeleceram no pós-guerra.

Se tivermos muito do que nos orgulhar em Goiás, e temos, este é mais um motivo de orgulho: um novo modelo de uso da terra que desestabiliza o velho modelo rural que vem do colonialismo até os coronéis.

Esse parâmetro de uso da terra praticado nesta fazenda chega a ser revolucionário quando propõe parcerias que levam a um mundo mais justo onde a palavra companheirismo se reveste do seu significado real e ancestral.

Ali se realizam espetáculos teatrais, cursos e palestras sobre questões ambientais e psicosociais, sempre disponível para reunir gente aberta a novas idéias e encontros condizentes com pessoas inteligentes e sensíveis, antenadas com o que se faz de melhor no mundo em matéria de ecologia e evolução de valores humanos. Ali se celebra a vida e se cultiva a paz de espírito e a convivência entre os que acreditam que a vida não é só essa faixa estreita entre o consumismo, o poder, a aparência e a ostentação.

Se esse ponto de poder ainda é conhecido por alguns poucos apenas como um lugar onde se pensa, se medita, se discute, se renova, se areja, se harmoniza com a natureza está mais que na hora do leitor acreditar no alemão Von Rohr e mergulhar nesta nova visão de mundo que nos coloca ao lado de outros grandes sonhos realizados como as minorias utópicas sempre preconizaram.

Afinal, concordo com Henrik Ibsen, as minorias têm sempre razão.


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POR EM 20/10/2008 ÀS 03:53 PM

Solidão a dois

publicado em

Gosto desses ditados que o povo inventa, eles são poderosos quando revelam  nossos comportamentos camuflados ou atitudes variadas. E é o povo que diz, num desses velhos ditados que a melhor maneira de conhecer uma pessoa é viajando com ela ou comendo um quilo de sal junto. Em viagem as pessoas ficam sem suas referências cotidianas e acabam, por se sentirem inseguras, se revelando. O quilo de sal é coisa do tempo, enquanto o sal não acaba vai-se percebendo quem é quem. Entre as muitas coisas que se descobrem em viagens é que a grande maioria das pessoas não tem do que falar. Juntas emitem alguns conceitos nos primeiros dias, falam sobre as surpresas da viagem nos dias subseqüentes, mas não se aprofundam em nenhum assunto que possa expô-las aos outros ou ao outro.

Casamento, por exemplo: que fantástica e cruel exposição da alma humana!

Quando vou só a algum restaurante, ou num banco de espera de algum aeroporto gosto de observar os casais durante uma hora em silêncio, cabeça baixa comendo, usando algumas interjeições, mas num silêncio constrangedor por absoluta falta do que falar mais a não ser o trivial do tipo: parece que vai chover, será que demora muito? esse lugar é legal, pede água pro garçon...

Quando atuava num consultório de psicanálise percebia que a grande maioria dos casais que se separam decidem isso durante as férias. Como passam muito tempo junto acabam descobrindo que não têm nada que falar um com outro.

E só descobrem enquanto estão de férias porque os assuntos são mais recheados de silêncios que de palavras interessantes.

Acaba-se falando frases feitas e clichês banais apenas pra interromper o mal estar do silêncio – isso, por si só, é um sintoma.

Ainda tenho em mente os argumentos e justificativas que as pessoas davam a si mesmas: foram sete dias sozinhos na frente do mar, isso nos obrigava a falar mais e não tínhamos assunto; sabia que nós não devíamos parar nossa rotina pra encarar as férias, ficar só por conta um do outro; eu prefiro ver pouco minha mulher, só nas poucas horas que passo em casa pra durar mais nossa relação; e se eu não tiver nada pra acrescentar à nossa rotina nesse período sem fazer nada? não sou especialmente interessante, nem culto, nem aventureiro e ela vai perceber isso quando estivermos sozinhos; nas férias ficamos sem a proteção da cidade, nem o apelo dos cinemas onde se pode ficar em silêncio sem problema; fico sem saber o que falar com ela porque me sinto nu sem minha carapaça de diretor da empresa.; ela vai descobrir que sou uma fraude; tenho uma tendência a mascarar as coisas com a agitação do dia-a-dia e nas férias tudo vem à tona – são algumas preocupações comuns.

As máscaras que um homem sustenta por algum tempo acabam caindo irremediavelmente e a decepção de ver o outro despojado das máscaras que alimentou por tantos anos causa confronto, desconfianças que, freqüentemente, acabam em agressões mútuas.

O psicólogo alemão Wilhelm Reich passou anos demonstrando que o casamento não é uma situação natural entre os seres humanos, apenas uma farsa aceita socialmente por conta da hipocrisia e convenções. Natural é alguém estar com outra pessoa pelo tempo necessário para que os dois mantenham o interesse mútuo e não apenas o interesse sexual, mas o interesse afetivo e intelectual. 

Quando se estabelece a solidão entre os casais não há mais muito que fazer. Um já não pode oferecer ao outro nem o prazer da companhia nem as delicias da solidão escolhida. Fica-se no meio do caminho – e o meio, a mediocridade, enfim, é a pior das situações em todos os campos: da arte aos sentimentos.

A solidão a dois que escolhemos apenas pelo instinto sexual sem pensar no que virá depois que ele for satisfeito é um dos mais crescentes desajustes emocionais do nosso tempo. Alguns estudiosos dizem que o swing, a troca de casais com o consentimento dos quatro parceiros é uma forma de diminuir a solidão, reativar o instinto, mas não perder o outro facilmente. Temo que não resolva o principal: a falta de assuntos interessantes entre os casais.

Isso passa até mesmo pela cultura, ou principalmente por ela, mas também pelos interesses comuns que ambos tinham antes de se unir.

A cultura gera pensamentos e assuntos instigantes e ter interesses comuns pode despertar diferentes graus de interesse em um e outro.

Também poderíamos amenizar o mal sendo civilizados e sinceros uns com os outros, falando as coisas que sentimos de verdade, tendo coragem de expor-nos e criar assim uma base sólida e duradoura na relação.

Mas um artigo é só pra provocar discussão, a decisão do que fazer é do leitor.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 06:51 PM

Cultura revigorada

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Um cartão postal apregoa por aí que a coragem não torna necessariamente as coisas mais fáceis, mas pode torná-las possíveis. Coragem é o que mais têm os artistas que fazem arte e cultura nesse Estado. Lendo nos jornais informações do governo de que serão ainda mais curtas as verbas para fomentar a cultura goiana imagino que tempos áridos virão por aí, se é que mais aridez ainda seja possível. Mas há uma saída honrosa e recorro a ela para sugerir aos artistas goianos que se atrevam corajosamente a colocar uns silicones básicos nos seus corpos e caras para verem como muda imediatamente o foco de interesse por suas criações – o público é louco por silicone, independente do que o artista faz.

Tem silicone? Entopem teatros, viram alvos de revistas, vendem CDs, atiçam a curiosidade das massas. É incontestável a atração que esse plástico sofisticado exerce nas pessoas no Brasil, qualquer idiota siliconada é elevada à condição de musa pelos órgãos de imprensa, alardeia sua “arte” em programas dominicais, eleva sua conta bancária em valores multiplicados em relação ao que gastaram com os mililitros de silicone, arrastam multidões, independem de verbas públicas para fazer cultura.  

Juro que não estou sendo irônico sou a favor, penso que o silicone está aí para nos promover, iluminar o que chamamos os “áridos caminhos da cultura”, resolver de vez a dificuldade de promover CDs, vender livros, atrair público aos cinemas e teatros, ganhar espaços nos segundos cadernos, galgar as coluninhas de fofocas televisivas e outras glórias.

Com uma mínima quantidade do produto injetado em alguma parte estratégica do corpo e fartamente noticiado, claro, um escritor não teria mais que fazer esforço para convidar pessoas e vender livros nos seus lançamentos – o silicone faria o milagre.

Todos os cantores goianos, cotizados, aplicariam litros divulgados com antecedência e já estariam garantidos vários shows com lotação esgotada; espetáculos teatrais também se beneficiariam dessa cirurgia simples para convencerem os espectadores de que um artista é tanto mais importante e atraente quanto a quantidade de silicone que consegue injetar na sua embalagem ambulante e assim, finalmente, o teatro alçaria vôo nesse Estado onde as águias siliconadas que vêm de fora teriam competidores à altura. Tão simples.

Pintores posariam ao lado de suas obras, inflados e inflamados de recentes e criativas aplicações em alguma parte de seus corpos, esses sim, transformados na própria obra de arte.  Quem não quereria ver esta “performance” moderníssima?

Em tempos bicudos vale qualquer coisa para atrair a atenção das massas e chega a ser irrisório o fato de que tenham sido pessoas tão tolas que nos deram a dica do que deveríamos ter feito há muito tempo. Siliconadas são pessoas sábias disfarçadas de gente burra para não despertar suspeitas.

Como explicar que artistas, verdadeiras antenas do mundo, não perceberam isso antes?! Só mesmo por preconceito, diga-se de passagem, coisa de intelectuais invejosos sem coragem de encarar até mesmo uma simples agulha de injeção, como o fazem tão corajosamente os famosos recheados por médicos ainda mais famosos. Sim, aplicar silicone e botox gera fama também pros médicos, é o efeito cascata.

É isso que falta ao interior do Brasil, às cidades médias como Goiânia que adoram cultuar, para além do silicone, pessoas que vêm de fora. Está aí a segunda sugestão para driblar a crise cultural: sair de Goiás, virar um artista “de fora”. É uma equação muito simples e observável a olho nu, basta um goiano sair daqui por alguns meses para viver em São Paulo ou Rio para, quando voltar, ser paparicado e incensado por jornalistas deslumbrados com sua coragem de fazer sucesso lá fora. Tão chique quanto ter silicone espalhado pelo corpo é goiano que vive fora de Goiás – transforma-se imediatamente em ícone da boa arte, paladino da cultura goiana a irradiar nosso progresso para o mundo. Uma cantora goiana que passou a vida aqui tentando cantar e gravar, enfrentando noites em bares com público distraído, fazendo serenatas em festinhas de aniversário, virou estrela luminosa com o simples toque cosmopolita de ir viver na Holanda com seu namorado. Se nunca foi notícia aqui, depois do advento holandês passou a ser freqüentadora assídua de colunas sociais goianas.

Silicone e fuga de sua terra, dois ingredientes poderosos para se fazer sucesso em Goiás.

Concordo que aplicar plástico no corpo pode ser menos dolorido que a constatação cruel de que só ausente da cidade, um artista consegue se tornar presente e motivar o público.

Se nenhum desses argumentos convencerem os artistas goianos, por falta de coragem de encarar uma seringa de injeção ou o desgosto de ter que viver fora de sua cidade, afirmo que a realidade está estampada em qualquer página de segundo caderno, em qualquer coluninha social ou bloco de entrevistas de algum telejornal daqui: o silicone e o auto-exílio parecem que são capazes de fazer com que uma pessoa preste enorme serviço de utilidade pública à cultura de seu Estado. E, afinal, o que interessa é parecer.

E, assim, ninguém sentirá falta do dinheiro que o governo não vai aplicar para fomentar a cultura e estamos conversados.

Pensando bem, que marketing pode ser mais poderoso que aplicar silicone e botox em cérebros atrofiados numa época dominada pelo marketing?

Nada, muito menos a arte.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 06:08 PM

Macaquices

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Não sou nenhum Ariano Suassuna, mas como ele também me sinto irritado com os americanismos que sou obrigado a ler nas fachadas e nos cartazes dos mais diferentes estabelecimentos pelas ruas. Em todas as cidades.

Já fomos chamados com muita propriedade de macacos-de-imitação da América do Norte e nenhuma crítica, nenhum deboche parece ter revertido essa sanha de colocar nomes e trejeitos americanos em lojas, bares e até em ferrros-velhos. O uso americano do apóstrofo é ainda mais que ridículo como o último que vi numa periferia da cidade Álvaro`s Ferro Velho ao lado de um certo salão de beleza da Aline`s Cabeleireira que fica logo depois do Guto`s Bar e tudo isso na mesma rua. Lojas chiques não anunciam mais suas liquidações anuais, mas estampam nas vitrines “Sale” para reforçar seus chiquismos segundo a visão dos proprietários. Music no lugar de música para propagandear eventos já virou lugar comum e ninguém mais chama bicicleta de bicicleta, mas de bike sem vergonha nenhuma. Bandas cover significam cópias mal ajambradas que tentam dar algum significado ao macaquismo sem criatividade. E tome cover dos Beatles, do Pink Floyd e outras sandices repetitivas.

Quase todas as academias de ginástica batizam seus espaços com nomes americanos do tipo Sport Dance Academy ou bobagens como Men`s Health ou Muscle and Fitness pra atrair os tolos que acreditam que o que é estrangeiro é melhor.

Nem se pode dizer, como pensam alguns, que estrangeirismo é coisa de pobre de espírito que deseja impressionar porque empreendedores tidos como inteligentes lançam complexos imobiliários e anunciam resorts e apartamentos com lounge sem nenhum pudor. Claro que empreendedores não são, necessariamente, o oposto de pessoas pobres de espírito, há de concordar o leitor, mas têm mais condições de perceber o ridículo de macaquear. Será? Pelos nomes dos condomínios fechados habitados pela elite pode-se comprovar que não. Colunistas supostamente sociais adoram usar estrangeirismos nas suas notas, hábito colonial usado desde sempre – pensam que isso lhes dá ares cosmopolitas, coitados. Só reforça seu jequismo.

Nomes próprios também são chupados de nomes americanos e fazem as crianças parecerem ridículas quando sabemos que se chamam Stefany, Richardson, Jennifer, John Waine, Elvis Presley, James Din e isso quando não atendem pelo nome que a mãe escolheu pela sonoridade tipo Carolaine, Daiane.

Em Catalão um pobre de espírito quis registrar seu filho como Washington que o burro do cartório teimou em registrar como leu: Vasqueton. Esse seu Vasquetão passou a vida inteira maldizendo o nome e nós, meninos, aproveitando pra tripudiar sobre ele fazendo rimas que combinassem com essa aberração.

Nunca compreendi e acho até que não há o que compreender porque nunca aparecem estrangeirismos surrupiados do francês ou do espanhol, talvez porque os tolos têm mesmo contato com a cultura de massa que é imposta pelos norte-americanos através de filmes ou dessas viagenzinhas em bando que costumam fazer a Nova York. Voltam inebriados do que acham que seja civilização e reproduzem aqui o que viram por lá. E tome de copy systems,
self service, delivery, up-grade, etc...Recentemente vi o banner (eles adoram essa palavra) que anuncia uma futura galery center periférico que vai se chamar nada mais nada menos que Jatobá`s Center – combinação perfeita para atrair jecas-tatús.

Todos os nomes poéticos que herdamos dos índios, as expressões bonitas que incorporamos ao nosso idioma herdadas deles são literalmente jogadas no lixo em detrimento dos tais americanismos pervertidos.

Assim, temos uma loja de tênis chamada footwear, uma boate com o sugestivo nome de midnight, um salão onde o jeca não é mais maquilador, mas beauty stylist, uma loja metida a chique num shopping que anuncia underwear e tie invés de cueca e gravata e até loja de animais chamada pelo originalíssimo nome: dogs and cats.  

É. A vaca já foi mesmo pro brejo.

O que antes era caipira agora é country com todos os seus complementos desavergonhados mamados do Texas e dessa perversão não escapou nem a quadrilha de São João dançada ao som de ritmos alienígenas que combinam mais com os cinturões, chapéus e botas americanas.

Claro que o leitor vai encontrar muito mais do que os nomezinhos infames que expus aqui basta andar pelas ruas prestando atenção nas plaquinhas mal escritas. Mas irritante mesmo foi ler o folder (eles também gostam dessa palavra) que li num man stilist hair (antes era barbeiro) onde se anunciava a inauguração de uma futura casa goiana de festas e eventos cujo nome será Pequi`s Place. Claro que não conheço os proprietários, mas precisa conhecer pra saber quem são eles?

Basta seguir o que diz com muita propriedade e objetividade o ditado popular: “pela bosta se conhece o bicho”


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POR EM 29/09/2008 ÀS 05:54 PM

Bordel Brasil

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Muitos sentimentos tomam conta das pessoas quando vêem canalhas milionários à custa de bilhões surrupiados do povo brasileiro circulando por aí livres, leves e soltos. Eles estão por toda parte: na saúde, nos gabinetes do palácio do Planalto, nas grandes empresas, nas instituições governamentais, nas ONGs, nas câmaras de vereadores, assembléias legislativas, congresso nacional. Os pequenos ladrões ficaram desmoralizados (e tinham moral antes?) diante dos ladrões milionários de gosto refinado que são presos um dia, escondem as algemas com suéteres de grife e saem no dia seguinte com sorriso cínico estampado na cara. Nela, vergonha que é bom, nada.

Tudo isso culpa nossa. Esta semana teremos mais uma chance de interferir na grande vergonha nacional com nosso voto e precisamos nos manter atentos, abrir os olhos, examinar cada um, não votar por amizade.

Em Goiânia são mais de 600 candidatos, alguns espertinhos renitentes que precisam ser cuspidos fora do cargo a que nós mesmos os conduzimos, já conhecemos seus truques.

Não adianta nada se indignar sem ação. Indignação só faz sentido quando vem acompanhada de sua ação correspondente. Nós permitimos que esses canalhas riam de nossa cara; permitimos que a justiça tenha esses mil-e-um jeitinhos pra libertar ricos; permitimos que os tribunais superiores os libertem imediatamente após serem presos com algum dos recursos disponíveis na lei – tudo culpa nossa.

Não reagimos, estamos chapados na poltrona da sala assistindo á derrocada final que nem sabemos quando virá, mas que virá com certeza.

Derrocada moral.

Nos esquecemos que qualquer vereador, qualquer juiz, qualquer delegado federal, qualquer autoridade com autoridade pra interromper essa pouca vergonha são meros funcionários pagos por nós e não exigimos nada deles.

No redemoinho daquilo que, passivamente, consideramos uma tragédia nacional, nada fazemos pra interromper a roubalheira.

Tragédia certamente não é porque na tragédia originária na Grécia antiga havia sempre o embate entre Eros e Tânatos, vida e morte com seus respectivos sentimentos de culpa e castigo. Só assim as tragédias se realizavam.

Nem a grandeza da tragédia vivemos porque se o que caracteriza uma tragédia é o embate entre esses sentimentos; se são eles que lhe dão dimensão estamos mesmo é condenados à caricatura dela – um mero drama.

Culpas e arrependimentos desapareceram porque não existe o castigo, os políticos e os ricos cometem seus crimes e não são castigados, mas os homens comuns, sim, são castigados ainda que não pela suas consciências – o pior castigo. Na Grécia e na tragédia era imprescindível a figura de um deus, tudo se baseava no triângulo: a relação com deus, natureza e polis (cidade).

Hoje os deuses estão mortos, a natureza está morrendo e as cidades e o mundo estão em péssimas condições.

Hoje o posto dos deuses foi tomado pelo prefeito, o gerente do banco, o diretor da empresa, o presidente e só falamos das misérias cotidianas. Por isso é que hoje a tragédia não passa de mero drama, sem grandeza e sem horizonte.

Nenhuma grandeza resistiria sem perspectivas.

No bordel Brasil todas as falcatruas são cometidas porque se sabe que não haverá punição e, como disse acima, se houver todas as chicanas de advogados pilantras cuidarão de libertar o pilantra chefe. São dezenas e dezenas de exemplos recentes nos sendo atirados na cara quase que diariamente.

Só Prefeitos, Governadores e deputados indiciados são 181, todos envolvidos com algum processo e suspeitos de alguma falcatrua. 35 senadores da república na mesma situação, indiciados ou suspeitos. Como é que um pai ou mãe explica pros filhos o que é honestidade se eles vêem todas as noites nas TVs homens engravatados e aparentemente respeitáveis sendo alvo de todos os tipos de suspeita?

Li recentemente em O Globo que há mulheres que consideram seus maridos pobres e trabalhadores como uns bobões metidos a honestos; há filhos que invejam a desonestidade milionária dos pais de seus amigos que, mesmo aparecendo algemados e sendo comprovadamente desonestos, podem oferecer o melhor pra seus filhos.

Porque conforto e bem estar o dinheiro compra sim, sendo roubado ou não.

Se nós que pagamos e bancamos toda a festa do bordel em que esses homens vão transformando o Brasil, não reagirmos individual e coletivamente contra tudo o que nos indigna, então estamos justamente condenados a fazer mero mea culpa.

E mea culpa é nada mais que um ato improdutivo e masoquista ensinado pelas religiões. Em outras palavras: não serve pra nada.


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POR EM 23/09/2008 ÀS 11:02 AM

Boca loca

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Responda aí dom Aurélio: depois de ter terminado de ler meu conto achas que eu sou muito louco? 

Respondo a você sir Maurílio: “Sem a loucura o que é o homem senão uma besta sadia?” (Fernando Pessoa).

Mas nesse caso, brother, dom Aurélio acredita que podes identificar alguma identidade entre nós?

Não sei querido her Maurílio, a única coisa que eu sei é que “Eu só serei eu na medida em que tu fores tu” (Heideger)

Admiro muito as coisas que dizes, hermano Aurélio, mas só vou enviar outro conto meu pra leres quanto sentir que criei algo mais absoluto.

Nada disso querido dom, Maurílio, escrevendo como escreves já devias saber que “O absoluto é aquele momento em que alguma coisa alcança a sua máxima profundidade, o seu máximo sentido, deixando, então, de ser interessante”. (Júlio Cortazar), e eu sei que não é isso que queres hermano.

Não é mesmo, sir, dom, Aurélio porque vivendo aqui tão distante do que se considera civilização eu quero mesmo é atingir a fortuna de escrever e ser lido e a fortuna de angariar fundos através da minha agência de publicidade e preparado para ambas porque “Quando a fortuna nos surpreende e nos dá ilustre posto, sem que a ele cheguemos por degraus, ou sem que a ele nos tenhamos elevado com as nossas esperanças, é quase impossível ali ficarmos bem e parecermos dignos de o ocupar, já nos ensinou o mestre (La Rochefoucaud), não achas?

Perfeito dom Maurílio tem toda razão, me lembrei agora de que Cortazar certa ocasião andava pela rue de vie em Paris e deu de cara com La Rochefoucaud que he perguntou: porque não comes maçâs no café da manhã em vez de pêras, são frutas mais humildes apesar de que nessas coisas não se deve ter humildade como bem ensinou outro mestre:

“O verme pisado encolhe-se. É a astúcia. Diminui, assim, a probabilidade de ser novamente pisado. E isso, na língua da moral, chama-se humildade” (Friedrich Nietzsche) como você bem deve saber já que, imagino, é também grande leitor de Nietzsche.

Não brother, her Aurélio, não conhecia essa conversa cotidiana entre os dois gênios e lhe informo que não sou um mero leitor de Nietzsche, sou absolutamente identificado com ele a ponto de sofrer quase que diariamente as mesmas cólicas que o atacavam com freqüência e acreditar que é minha a frase dele:“De que serve um livro que não saiba levar-nos para além de todos os livros?”

Nisso discordo frontalmente de Nietzsche, frater, dom , lord Maurílio porque não sei ainda hoje, mesmo sendo escritor, pra que serve um livro. Será que é para nos elevar ao sublime?

Mas “o que é o sublime? Parece que ninguém o definiu. É uma figura? Nasce das figuras de estilo ou pelo menos de algumas figuras?

O sublime aparece em todo o gênero de estilos, ou existe apenas nos assuntos elevados? (La Bruyère)

Como vê ainda estou em busca do sublime e do belo nas coisas que leio e escrevo.

Mas meu caro her, sir, dom Aurélio “O belo é, essencialmente, o espiritual que se exterioriza materialmente e se apresenta ao ser material” (Hegel)

Mais uma vez discordo e desta vez do Hegel e de ti porque acredito que “O belo, em arte e literatura é sempre verdadeiro: mas nem sempre o verdadeiro é belo” (Ernest Rietshel)

Pois é, dom, sir Maurílio há certa verdade nisso porque “O pior é que a beleza é tão misteriosa quão terrível. É uma luta entre Deus e o demônio, e o campo de batalha é o coração do homem”.(Dostoievski)

Será dom Aurélio? Será? Chupa essa manga.

Não sei dom hermano Maurílio, o que eu sei é que “É muito melhor amar prudentemente, não há dúvida. Mas amar doidamente é sempre melhor do que ser incapaz de amar” (Woody Allen)

Concordas, hermano?

Claro que concordo, considero esse cara muito melhor que Dostoievski, brother, hermano, dom Aurélio. O que ele fala e faz pra mim é lei.

Estás falando sério, brother, dom??

Eu também considero isso desde criancinha. Engula esse caroço.

Então nisso estamos em concordância, não é dom?

Claro, é nossa verdade em comum. “A nossa verdade possível tem de ser invenção, ou seja, literatura, pintura, escultura, agricultura, psicultura, todas as turas deste mundo. Os valores, turas, a santidade, uma tura, a sociedade, uma tura, o amor, pura tura, a beleza, tura das turas” (Júlio Cortazar).  Só posso rebater esta bela frase do bardo argentino com esta do bardo francês: “Nossos atos prendem-se a nós como a luz ao fósforo: fazem nosso esplendor, é verdade, mas tão somente à custa de nosso desgaste” (A. Gide)

Pirastes, dom, brother, hermano?  Eu estava falando de Woody Allen e Cortazar e me vens com frase sem sentido? Fala sério, dom...

Sem sentido sister, brother, dom? Pelo que vejo não aprendeste nada com o nosso maior escritor: “Cada um fala o que quer, o que conta é a dimensão da boca...” (Paulo Coelho)

Paulo Coelho, não, me poupa! Não tens mais o que fazer, não, dom Maurílio, ficas o dia todo aqui citando frases dos outros, é?

Até de escritores de segunda?

E tu, sir Aurélio, que respondes a todas as questões com citações copiadas de livros, também dedicas seu tempo a respostas como essas?

“O resto é silêncio” (Voltaire)

Só volto a falar contigo na próxima semana.

Vade retro sir satanás! (Jesus Cristo)
 


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