Era tão pomposa essa palavra, tão sonora e perfeita pra nomear os próprios. Caiu de moda, sei lá porque. Quem sabe esse artigo nos ajude a reavaliá-la e reaprender a identificar seus destinatários no mundo. São muito antigos os cretinos, alguns arqueólogos os situam em idades pra lá de mezozóicas e dizem que aumentam aceleradamente. Acredito.
Todos são praticamente obrigados a conviver com cretinos nas várias áreas das atividades humanas, eles estão em toda parte porque cretinos sempre foram, ainda segundo os arqueólogos, se não a maioria, os mais visíveis nas grandes sociedades. E procriam muito: ah, cretinos são férteis sob esse ponto de vista.
Consigo conviver e me divertir com eles como, aliás, quase todo mundo consegue, mas o melhor é evitá-los porque cretinos passam dos limites freqüentemente, não percebem sua cretinice, gostam de impor sua presença. Acham-se geniais e insubstituíveis quase sempre.
Pode ser que algo leve o leitor a imaginar que cretinos são pessoas de pouca cultura, psicologia simplista, desconfiômetro movido a pilha descartável – mas, não é assim, muito pelo contrário: cretinos existem com muito mais visibilidade nas áreas de pensamento classe média alta como a cultural, a política, a empresarial, pode observar.
Conviver com eles é fácil quando se concorda ou se elogia, caso contrário tornam-se chatos e previsíveis como abóboras. Minta pra eles, adoram. Dizendo o que se pensa deles o normal seria angariar entre a categoria inimigos que dariam pra encher um estádio, mas cretinos não se ofendem facilmente porque nunca vestem a carapuça e não são bons “percebedores” da realidade, estão quase sempre muito ocupados em perceber a si mesmos, como os pavões abrem seu leque de penas numa auto-admiração compulsória ou como a águia que se embriaga com seu próprio vôo.
Gosto, até me delicio em tê-los como inimigos porque, como ensinou Reich, inimigos é que nos fazem perceber o oposto, quer dizer, o que é ter amigos. Provocar cretinos surte o mesmo gostoso efeito que surte o assobio para os perus – não tem erro, sempre reagem, pra satisfação de quem os provoca. São muito divertidos nesse aspecto. Tô sempre disposto a provocá-los, mas cretinos, infelizmente, não são bons de briga, são fracos, medrosos, covardes e, portanto, adversários medíocres. Brigar com eles é muito sem graça.
Você, leitor, deve conhecer dezenas deles: adoram escrever cartas idiotas e ofensivas pras seções de cartas de leitores de jornais e revistas; costumam escrever poemas paupérrimos que guardam nas gavetas e que um dia despejam na cabeça dos incautos ou enviam pra publicações do gênero; os livros que teimam em escrever são normaizinhos e não acrescentam nada à literatura de lugar nenhum – mas são milhares em comparação com os bons livros; quando ouvem ou lêem qualquer coisa que lhes parece verdadeira ficam indignados e se defendem imediatamente porque a verdade lhes parece deboche ou irrealidade insuportável, coitados. Seus egos têm fermento.
Cretinos falam preferencialmente por metáforas ou alguns códigos que eles consideram inteligentíssimos, mas que não passam de tolices infantilóides e só são compreendidos por outros cretinos. O que eles escrevem são frases ou sentenças perfeitamente identificáveis por essas metáforas que consideram o supra-sumo da inteligência avançada.
Deve ter sido um cretino que inventou as metáforas – metafóricos são aqueles tipos de pessoas que nunca dizem a palavra certa e clara na cara de quem desejam alcançar. São sinuosos os cretinos – nem retas nem círculos... sinuosidades.
Aqui vai outra boa dica pra identificá-los: quase tudo o que cretinos fazem é colonialismo, isto é, se “baseia” em alguma coisa ou em alguém ou em alguma música ou algum livro ou alguma idéia alheia. Eles amam o que “se baseia” em algo porque nunca têm idéias próprias.
Você conhece alguma coisa mais cretina e sem imaginação que covers? E rocks feito por aquelas figuras de preto e tachinhas metálicas oriundas dos 70/80, os anos deprês nos EUA? Cópias imperfeitas e superficiais – cretinas.
Na política os cretinos se lançam com genuína ferocidade, aí incluída a perversidade e o despotismo acrescidos dessa coisa sórdida e moderníssima que apelidamos de “lei de Gérson” onde o se dar bem anula quase todos os outros bons conteúdos da política como a generosidade e o desejo de ajudar ao próximo, freqüentemente relegados a terceiro plano.
Também, como já disse, estão aos bandos na área da cultura apesar de acharem bem lá no fundo que cultura é coisa de veado, de velhinho burocrata, de funcionário público com prisão de ventre, de homens sem sensualidade, mulheres frígidas, profissionais liberais metidos a bestas. Mas como cretinos tem baixa auto-estima eles adoram se inserir na área da cultura pra se sentirem “in”, sabe como é?
Exatamente isso faz deles cretinos típicos, essa camuflagem de pensamentos e a falsa crença em qualquer coisa superior do espírito. Vivem no rame-rame. Mesmo lendo livros de Joyce ou Dostoiévski, vivem mesmo é no rame-rame.
Pronto: muitas pistas pra você, leitor, identificar cretinos por aí. Afinal, é uma palavra sonora, que enche a boca, precisa ser recuperada. Exercite-se: comece agora mesmo a procurar nesta revista pra ver se encontra algum cretino e se tiver certeza que eu sou um deles, não se preocupe, vou fingir que não sou e não sofro com isso.
Como faz muito bem, aliás, um cretino autêntico.
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