Desenho de  Wendy MacNaughton
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Lauro Marques

POR EM 03/11/2008 ÀS 11:17 PM

A morte exata do crítico medidor

publicado em


 

Em seu escritório atapetado, cercado de livros por todos os lados, o crítico avaliava, com régua métrica, calibrada pelo Instituto Nacional de Metrologia, quantos centímetros de espessura possuía o texto do escritor X ou Y. Era seu lazer e sua vocação, para a qual havia dedicado grande parte de sua vida e carreira, ambas devotadas integralmente às letras.

Por escolha própria não havia contraído nenhum matrimônio, nem tido filho. Evitava mesmo a todo custo o contato com outras pessoas. A não ser os fortuitos e de breve permanência. A crítica literária era sua única e verdadeira paixão. Havia nascido para isso, para ser crítico. E era o que exercia com afinco, na sua solidão de celibatário aplicado, até mesmo nos piores momentos de sua vida, nem sempre alegre.

Havia começado seu trabalho de medição da escritura do texto dos autores com uma medida em palmos, mas, aos poucos, com sua fama crescente e na proporção em que se avolumavam os pedidos que lhe chegavam de todas as partes do globo, havia abandonado esse padrão, já há muito ultrapassado, em favor de um mais pertinente ao sistema métrico vigente.

O nível máximo de escritura que algum autor já havia alcançando na sua rígida escala pessoal havia sido de 40 centímetros -e o mínimo, em torno de ¼ de um palmo, cinco centímetros. Era um crítico diligente e tenaz e vivia, literalmente, afundando-se em livros e leituras.

Nos últimos dias de sua vida, estivera a ponto de desenvolver um novo método revolucionário, que iria lhe permitir medir, além da espessura, também a massa ou -dito em outras palavras,- o peso da escritura de determinado autor.

Para isso já havia feito diversos testes, com balanças de todos os tipos, analógicas e digitais, nacionais e importadas, chegando a delinear um projeto de um protótipo especialmente adaptado às suas exigências, desenhado por ele próprio, para o qual, entretanto, infelizmente ficaram faltando muitos desenvolvimentos que permaneceram inconclusos.

Sua estante, como alguém poderia esperar, era abastecida com uma multiplicidade sem fim de livros, que cresciam numa torrente até o pé-direito do escritório que chegava à altura máxima de sete metros. Aos mais espessos e pesados, assim medidos por ele, dedicava um lugar de honra no topo da estante, que estava ficando para lá de abarrotada.

Foi vítima de um acidente inusitado e infeliz, porém, conseqüente com sua atividade literária, enquanto cochilava sobre uma pilha de livros recém-medidos, o pescoço molemente apoiado sobre o último da pilha, quase que se oferecendo inconscientemente ao sacrifício. Num momento e zás! A estante inteira veio a desabar em cima dele, causando-lhe morte súbita por esmagamento e quebra do pescoço.

Hoje se encontra enterrado sob sete palmos de terra. De vez em quando, algum autor timidamente iniciante, sedento de julgamento, ainda vem depositar algum livro que acabou de dar à luz sobre sua lápide, por uma crença que ficou difundida principalmente entre os escritores mais jovens. Na vã esperança de que, do além onde se encontra, o nosso crítico possa ler e declarar a sua apreciação, a respeito da medida exata de sua escritura.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:50 PM

O telefone está tocando, Delia

publicado em

"A bandeja, sacudida no suporte pelo ritmo do esfregar, se juntava à percussão de um blues cantado pela mesma garota de pele escura que Delia admirava nas revistas de rádio. Sempre preferia as transmissões da cantora de blues: às sete e quinze da noite"

As mãos de Delia doíam. Como vidro moído, a espuma de sabão ardia nas rachaduras de sua pele, punha nos nervos uma dor áspera ferida repentinamente por lancinantes agulhadas. Delia havia chorado sem disfarces, abrindo-se para a dor como para um abraço necessário. Não chorava porque uma secreta energia a repelia para a queda fácil do soluço; a dor do sabão não era razão suficiente, depois de todo o tempo que tinha vivido chorando por Sonny, chorando pela ausência de Sonny. Teria sido degradar-se, sem a única causa que para ela merecia a dádiva de suas lágrimas. E, além disso, ali estava Babe, em seu berço de ferro comprado a prazo. Ali, como sempre, estavam Babe e a ausência de Sonny. Babe em seu berço ou engatinhando sobre o tapete surrado; e a ausência de Sonny, presente em todas as partes como são as ausências.

A bandeja, sacudida no suporte pelo ritmo do esfregar, se juntava à percussão de um blues cantado pela mesma garota de pele escura que Delia admirava nas revistas de rádio. Sempre preferia as transmissões da cantora de blues: às sete e quinze da noite -a rádio, entre uma música e outra, anunciava a hora com um “hi, hi” de ratazana assustada- e até às sete e meia. Delia nunca pensava: “às dezenove e trinta”; preferia a velha nomenclatura familiar, tal como proclamava o relógio de parede, de pêndulo fatigado que Babe observava agora com um cômico balanceio de sua cabecinha insegura. Delia gostava de olhar a todo instante para o relógio e escutar o “hi,hi” da rádio; apesar de que lhe entristecera associar ao tempo a ausência de Sonny, a maldade de Sonny, seu abandono, Babe, e o desejo de chorar, e como a senhora Morris havia dito que a conta da despensa tinha que ser paga imediatamente, e que lindas eram suas meias cor de avelã.

Sem saber de início por qual motivo, Delia se pegou olhando furtivamente para uma fotografia de Sonny, pendurada ao lado da prateleira do telefone. Pensou: “ninguém me ligou hoje”. Pouco se compreendia a razão de continuar pagando mensalmente a conta de telefone. Ninguém ligava para esse número desde que Sonny se fora. Os amigos, porque Sonny tinha muitos amigos, não ignoravam que agora ele era um estranho para Delia, para Babe, para o pequeno apartamento onde as coisas se amontoavam no reduzido espaço dos dois cômodos. Somente Steve Sullivan ligava às vezes e falava com Delia; falava para dizer-lhe o muito que o alegrava de saber que gozava de boa saúde, e que não acreditasse nunca que o ocorrido entre ela e Sonny seria motivo para que deixasse de ligar perguntando por sua boa saúde e pelos dentinhos de Babe. Somente Steve Sullivan; e esse dia o telefone não havia tocado nem uma única vez; nem sequer por causa de um número errado.

Eram sete e vinte. Delia escutou o “hi,hi” misturado a anúncios de creme dental e cigarros mentolados. Ficou sabendo também que o gabinete Daladier perigava por instantes. Depois voltou a cantora de blues e Babe, que mostrava propensão para o choro, fez um gracioso gesto de alegria, como se naquela voz morena e espessa houvesse alguma guloseima que ele tinha gostado. Delia foi despejar a água com sabão e secou as mãos, queixando-se de dor ao friccionar a toalha sobre a carne macerada.

No entanto, não ia chorar. Só por Sonny ela podia chorar. Em voz alta, dirigindo-se a Babe que lhe sorria desde o seu berço em desordem, buscou palavras que justificaram um soluço, um gesto de dor.

-Se ele pudesse compreender o mal que nos fez, Babe... Se tivesse alma, se fosse capaz de pensar por um segundo o que deixou para trás quando fechou a porta com um empurrão de raiva... Dois anos, Babe, dois anos... e não tivemos mais notícias dele... Nem uma carta, nem um vale... nem sequer um vale para você, para roupa e sapatinhos... Não se lembra mais do dia de seu aniversário, não é mesmo? Foi mês passado, e eu estive ao lado do telefone, com você em meus braços, à espera que ele ligasse, que ele dissesse somente: “Alô, felicidades!”, ou que lhe mandasse um presente, nada mais que um presentinho, um coelhinho ou uma moeda de ouro...

Assim, as lágrimas que queimavam suas bochechas lhe pareciam legítimas porque as derramava pensando em Sonny. E foi nesse momento que tocou o telefone, justamente quando da rádio assomava o cansativo e pequeno chiado anunciando sete e vinte dois.

-Alguém ligou- disse Delia, olhando para Babe como se a criança pudesse compreender. Se aproximou do telefone, um pouco insegura ao pensar que poderia ser a senhora Morris exigindo o pagamento. Sentou-se no banquinho. Não demonstrava pressa apesar do tilintar insistente. Disse:

-Alô.

Demorou para se ouvir a resposta.

-Alô. Quem...?

Claro que ela já sabia, e por isso lhe pareceu que o apartamento girava, que o ponteiro de minutos do relógio se convertia numa hélice furiosa.

-Quem fala é Sonny, Delia, Sonny.

-Ah, Sonny.

-Vai desligar?

-Sim, Sonny -disse ela, muito devagar.

-Preciso dizer-lhe muitas coisas, Delia.

-Está bem, Sonny.

-Está... está zangada?

-Não posso estar zangada, estou triste.

-Sou um desconhecido para você... um estranho agora?

-Não me pergunte isso. Não quero que me pergunte isso.

-É que me dói, Delia.

-Ah, te dói?

-Por Deus, não fale assim, nesse tom...

-...

-Alô.

-Alô. Pensei que...

-Delia...

-Sim, Sonny.

-Posso te perguntar uma coisa?

Ela notava algo estranho na voz de Sonny. Claro que podia já ter se esquecido de uma parte da voz de Sonny. Sem formular a pergunta, compreendeu que estava pensando se ele ligava para ela de uma prisão ou de um bar... Havia silêncio por detrás de sua voz; e quando Sonny se calava, tudo era silêncio, um silêncio noturno.

-... uma única pergunta, Delia.

Babe, no seu berço, olhou para sua mãe inclinando a cabeça com um gesto de curiosidade. Não mostrava impaciência nem desejo de irromper num pranto. A rádio em outro extremo do apartamento, acusou outra vez a hora: “hi, hi”, sete e vinte e cinco. E Delia ainda não havia posto para esquentar o leite para Babe; e não havia pendurado a roupa recém-lavada.

-Delia... quero saber se me perdoa.

-Não Sonny, não te perdôo.

-Delia...

-Sim, Sonny.

-Não me perdoa?

-Não, Sonny, o perdão não vale nada agora... Se perdoa a quem se ama ainda um pouco... e é por Babe, por Babe, que não te perdôo.

-Por Babe, Delia? Me crê capaz de esquecê-lo?

-Não sei Sonny. Mas não deixaria jamais você voltar para o lado dele porque agora é apenas meu filho, apenas meu filho. Não deixaria nunca.

-Isso já não importa, Delia -disse a voz de Sonny, e Delia sentiu outra vez, mas com mais força, que faltava algo (ou sobrava?) à voz de Sonny.

-De que lugar você me liga?

-Também não importa -disse a voz de Sonny como se lhe afligisse responder assim.

-Mas é que...

-Deixemos isso, Delia.

-Está bem, Sonny.

(Sete e vinte e sete.)

-Delia... imagine que eu me vá...

-Você, ir-se? E por quê?

-Pode acontecer, Delia... Acontecem tantas coisas que... Compreende, compreende... Ir-me assim, sem teu perdão... Ir-me assim, Delia, sem nada... nu... nu e só!

(A voz estranha, tão estranha. A voz de Sonny, como se ao mesmo tempo não fosse a voz de Sonny.).

-Por que fala desse jeito, Sonny?

-Porque não sei... Estou tão só, tão privado de carinho, tão estranho...

-Mas...

Como através de uma neblina, Delia mirava fixamente à sua frente, na direção do relógio. Sete e vinte e nove; o ponteiro coincidia com a linha firme anterior ao traço mais grosso da meia hora.

-Delia... Delia!

-De onde você fala...? -gritou ela, inclinando-se sobre o telefone, começando a sentir medo, medo e amor; e sede, muita sede, e querendo pentear entre seus dedos o cabelo escuro de Sonny, e beijá-lo na boca-. De onde você fala...?

-...

-De onde você fala, Sonny?

-...

-Sonny...!

-...

-Alô, alô...! Sonny!

-...Seu perdão, Delia...

O amor, o amor, o amor. Perdão, que absurdo já...

-Sonny... Sonny, vem...! Vem, te espero...! Vem...!

(“Deus. Deus...!”)

-...

- Sonny...!

-...

-Sonny! Sonny!!

-...

Nada.

Eram sete e trinta. O relógio assinalava. E a rádio: “hi hi”. O relógio, a rádio e Babe, que sentia fome e olhava para a mãe um pouco assombrado com a demora.

Chorar, chorar. Deixar-se ir corrente abaixo do pranto, ao lado de um menino gravemente silencioso e como compreendendo que ante um pranto assim toda imitação devia se calar. Da rádio veio um piano muito doce, de acordes líquidos, e então Babe foi quedando adormecido com a cabeça apoiada no antebraço da mãe. Havia no apartamento como que um grande ouvido atento, e os soluços de Delia ascendiam pelas espirais das coisas, se demoravam, resfolegando, antes de perder-se nas galerias interiores do silêncio.

A campainha. Um toque seco. Alguém tossia, junto à porta.

-Steve!

-Sou eu, Delia -disse Steve Sullivan-. Passava, e...

Houve um longa pausa.

-Steve... vem da parte de...

-Não, Delia.

Steve estava triste, e Delia fez um gesto maquinal convidando-o a entrar. Notou que ele não caminhava com o passo seguro de antes, quando vinha à procura de Sonny ou para jantar com eles.

-Sente-se, Steve.

-Não, não... me vou em seguida. Delia, você não sabe nada de...

-Não, nada...

-E, claro, você já não o quer a...

-Não, não o quero, Steve. E isso que...

-Trago uma notícia, Delia.

-A senhora Morris?

-Se trata de Sonny.

-De Sonny? Está preso?

-Não, Delia.

Delia se deixou cair no banco. Sua mão tocou o telefone frio.

-Ah...! Pensei que poderia ter me telefonado da prisão...

-Ele ligou para você?

-Sim, Steve, queria pedir-me perdão.

-Sonny? Sonny lhe pediu perdão por telefone?

-Sim, Steve. E eu não o perdoei. Nem Babe nem eu podíamos perdoá-lo.

-Oh, Delia!

-Não podíamos, Steve. Mas depois... não me olhe assim... depois chorei como uma tonta... veja meus olhos... e queria que... mas você disse que era uma notícia... uma notícia de Sonny...

-Delia...

-Já sei, já sei... não me diga; roubou outra vez, não é verdade? Está preso e me ligou da prisão... Steve... agora sim quero saber!

Steve parecia confuso. Olhou para todas as partes, como buscando um ponto de apoio.

-Quando ele lhe ligou, Delia?

-Faz pouco tempo, às sete... às sete e vinte, agora me lembro bem. Falamos até sete e meia.

-Mas, Delia, não pode ser.

-Por que não? Queria que eu o perdoasse, Steve, e somente quando caiu a ligação compreendi que estava verdadeiramente só, desesperado... E então era tarde, ainda gritei, gritei ao telefone... era tarde. Falava da prisão, não é verdade?

-Delia... -Steve tinha agora o rosto branco e impessoal e seus dedos se crispavam na aba do chapéu manuseado-. Por Deus, Delia...

-O que foi, Steve...?

-Delia... não pode ser, não pode ser...! Sonny não pode ter ligado faz meia hora!

-Por que não? -disse ela, pondo-se de pé e em um só impulso de horror.

-Porque Sonny morreu às cinco, Delia. Mataram-no com um tiro, na rua.

Do berço chegava a respiração rítmica de Babe, coincidindo com o vai e vem do pêndulo. O pianista da rádio já não tocava mais; a voz do locutor, cerimoniosa, louvava com eloqüência um novo modelo de automóvel: moderno, econômico, extremamente veloz.


_____
* Extraído do livro de contos “La otra orilla” (1945), publicado em: Julio Cortázar/ Cuentos completos 1- Buenos Aires: Punto de  Lectura, 2007.


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POR EM 03/11/2008 ÀS 10:33 PM

Minimum res (coisa mínima)

publicado em

AFORISMO SEM NENHUM PRÉ-JUÍZO (para Valdivino Braz)
Em terra de cego quem tem um olho é semi-ótico. 

ARTE É INTERPRETAÇÃO
 
Uma obra de arte é um signo. Como tal já é interpretação, antes mesmo de ser interpretada. Ela representa algo para um intérprete futuro. Esse intérprete futuro é virtual.
 
Signo de quê? Do objeto que “aparece” por meio da mediação que a obra de arte faz entre o objeto -que não é individual, mas múltiplo, o universo “criado” pelo artista, algo que é “dado”, ou seja, “aparece” por meio dela - e um intérprete futuro. O primeiro intérprete desse signo assim “criado” sendo o próprio artista.
 
É interpretação, de algo anterior a ela, desde a origem, seja na forma de pintura, partitura, livro, filme, já é uma interpretação. Como se dá essa interpretação é que vai definir se ela é arte. É olhando para o produto “criado” que podemos emitir algum tipo de julgamento. Claro, há muita subjetividade envolvida nesse julgamento, mas ele não pode ser somente subjetivo.
 
OBJETIVIDADE DA ARTE
 
Há uma objetividade na obra de arte que está na origem desta como um signo (algo que não vive numa esfera à parte, mas está sempre “grávido” de mundo, de um objeto). Uma pintura não deixa de ser arte quando se apagam as luzes do museu e não há ninguém mais para admirá-la. Ela “contém” algo.
 
Assim como uma pintura, uma partitura é um sistema de signos, que vai ser lido, “interpretado” por alguém. Obviamente ninguém “tira” Mozart de qualquer partitura Então há um ponto de partida para a música - uma “ontologia da arte” - que vai ser executada depois, e isso é fixado por quem escreveu a partitura, uma pessoa, mil, não importa. O que importa é o produto.
 
ARTE É PROCESSO
 
A vida dos signos é “comunicar idéias”. Como um signo, uma obra de arte está sempre apta a uma interpretação. Essa interpretação é um signo mais desenvolvido, não no sentido de algo melhor, mas de que foi gerado pelo primeiro. A execução da música é um signo mais desenvolvido de uma partitura. Há arte em ambos, arte é processo. Está sempre em processo. Como tal não é “acabada” nunca.
 
DIGRESSÃO: NEM TUDO É ARTE, MAS TUDO PODE SER INTERPRETADO
 
Mesmo a arte conceitual precisa de objetos. Duchamp é o caso paradigmático. Affonso Romano de Sant'anna disse que não havia o que ver na exposição de Duchamp que está acontecendo aqui em São Paulo. Segundo alguns críticos, os “objetos” de Duchamp não são obras de arte, mas reflexões sobre o fazer artístico.
 
No entanto, essas reflexões não existem apenas na cabeça de Duchamp. Elas ganharam uma forma, que não é - nunca é - destituída de conteúdo. Algumas pessoas confundem as coisas e passam admirar somente as formas do urinol, sua “beleza estética”. Um artista que visitou a exposição confessou ao jornal que ficou emocionado porque fez girar com a mão a roda da bicicleta -uma “cópia” da “original”, que foi jogada no lixo pela irmã de Duchamp, que, obviamente, “não entendia” nada de arte.
 
Dissemos que arte é interpretação. Mas qualquer coisa pode ser interpretada. Um banco de madeira não é simplesmente um banco de madeira. Ele inclui, no próprio processo de fabricação, a forma humana. Tem uma determinada altura, que é a altura que uma pessoa normal poderia se utilizar para sentar. Em alguns casos, pode ter um encosto para os pés. A forma é determinada pela função.
 
Do mesmo modo, uma roda de bicicleta. Nenhuma forma é destituída de conteúdo. As rodas da bicicleta têm uma função, são feitas para cumprir essa função, que é fazer com que a bicicleta se mantenha em pé e se movimente.
 
Duchamp pega esses dois elementos que não coexistem (na verdade são antípodas) e cria, reinterpreta, a partir de um conceito, que é o surrealismo, um novo objeto, que é um “mix” de ambos: um banco de madeira, feito para sentar, que se move! (Ao fazer isso, ele “recria” a bicicleta, devolvendo uma característica de estranhamento ao que é considerado “normal”).
 
O “produto final” é também uma idéia - mais do que nunca um signo, imaterial. Paradoxalmente, essa idéia precisa, como dissemos, de uma forma para se expressar. Não por acaso, os curadores das exposições ganharam destaque. São eles os responsáveis pela organização dessa forma, o que já fazem os museus. Os museus, as exposições, “reinterpretam” as obras, que já são interpretações. A arte morre - é a tese de Hegel - para se tornar “filosofia da arte”. A História, no entanto, continua.

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:49 PM

O toalete ou Hamlet

publicado em


Comecei a comentar o texto de
Stanley Fish, traduzido na Bula passada, mal tinha terminado de ler. O que segue é um apanhado, com alguns acréscimos, do que comecei a rascunhar na própria seção de comentários da revista.

Concordo que o estudo das Humanidades não salva ninguém. Ponto. Aliás, é muito mais condenar, ao desemprego, por exemplo, do que salvar. No nosso País, então nem se fala. Só que Fish pensa demais como americano, confortavelmente instalado num posto de prestígio de uma universidade de um País tremendamente rico, e não só culturamente. (Ele é professor emérito de Humanidades na Davidson-Kahn Distinguished University e decano do College of Liberal Arts and Sciences da Universidade de Illinois em Chicago.)

Imagine um mundo sem arte. Imagine o Afeganistão dos talibãs ou a América fanática de Bush que nega Darwin (coisa que dificilmente alguém letrado defenderia). Ou o Brasil com seu povo explorado e feliz, se achando um habitante do Paraíso. Eis aí os “efeitos concretos” experienciáveis de um mundo sem acesso às Humanidades. 

Nesse texto não acho que ele esteja questionando apenas a utilidade “prática” das interpretações de textos literários, ainda que esse possa ter sido seu alvo inicial, mas coloca em xeque o próprio valor desse estudo. E por extensão das artes. É o velho argumento, com uma roupagem nova, de que é melhor investir na cura de doenças do que em teatro, livros, ou no estudo das artes. (À primeira vista fica difícil de negar que não seja assim). A questão toda gira em torno do financiamento do departamento de Artes e Humanidades. Ao que parece, para Fish, os integrantes desse departamento não têm o direito de reclamar da ausência de financiamento. Afinal não há como justificar tal financiamento, as Humanidades não servem para nada, elas não produzem efeitos “palpáveis”, a não ser proporcionar prazer aos seus apreciadores. Elas não servem a um bem maior, mas são seu próprio bem.
 
Em um artigo chamado “Verdade e Toaletes: Pragmatismo e as Práticas da Vida”, Fish diz também que “pontos de vista filosóficos são independentes dos pontos de vista de uma pessoa (e logo de suas práticas) em qualquer outro domínio da vida diferente do domínio muito específico e refinado do fazer filosófico”. O mesmo, segundo ele, se dá com o estudo das Artes e Humanidades em geral. Não nos torna mais nobres ou pessoas melhores, mas mais habilitados a responder sobre esses campos específicos, quando solicitados. E Fish ainda afirma, nesse mesmo artigo publicado como uma reflexão sobre a coletânea “O revival do pragmatismo”, de 1999: “A tese de que toaletes são mais essenciais à vida do que a filosofia me parece auto-evidente”. No fundo ele tem razão,o estudo da arte e humanidades não salva a vida de ninguém, mas saneamento básico, e a existência de banheiros, sim.
 
A minha total discordância é quando ele afirma que as Humanidades, o estudo ou ensino ou a prática disso, “não podem produzir efeitos concretos”, e só podem ter sua existência justificada, “em relação ao prazer que dão àqueles que as apreciam.” Ele está obviamente minimizando o impacto da Cultura na sociedade, e reduzindo tudo a uma questão hedonista. Para ficar num caso bem conhecido, lembremos que Hitler utilizou argumentos estéticos (de raça “pura”) para propor varrer os judeus da Alemanha. Não só para o “bem”, mas para o “mal”, uma esfera influencia a outra. Essa pretensa autonomia dos saberes que ele pretende não existe.
 
Levada ao extremo a opinião de Fish, nem deveria haver ensino de filosofia ou humanidades em geral em países pobres como o Brasil. Realmente não há como justificar o financiamento dessa área em relação a outras muito mais “rentáveis”. É justamente por propor um distanciamento entre as diferentes áreas do saber, que Fish só consegue justificar a existência da área em que atua recorrendo à noção gasta de prazer.
 
A milésima interpretação de Hamlet é tão “útil” à sociedade quanto foi a primeira e quanto será a milésima primeira. Não se pode medir a produção acadêmica desse modo. Hamlet continuará sendo lido e estudado enquanto houver pessoas dispostas a lê-lo e ensiná-lo - e fazem isso porque o julgam merecedor de tal ato, como algo importante em suas vidas. 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:17 PM

Crime e castigo

publicado em


A polifonia e a diversidade de vozes estão nos personagens dostoiévskianos, muito mais complexos do que os de Woody Allen, tendo Dostoiévski inspirado o existencialismo, Nietzsche e Freud, entre outros





Flávio Paranhos escreveu na edição anterior desta Revista Bula, taxativo: “Crimes e pecados é filosoficamente superior a Crime e castigo”. A frase pode muito bem ser lida como uma mera “opinião de torcedor”, segundo ele próprio critica a respeito dos comentários ao artigo dele postados no mural da Bula. Portanto não é de se admirar que os comentários tenham sido, naquele momento, no mesmo nível. No texto publicado depois, melhorou um pouco, mas está muito longe de ter convencido.
 
O problema maior talvez esteja já no título, bem geral, “Por que Woody Allen é superior a Dostoiévski”. Pura provocação, e a Bula dá sempre o maior destaque para as polêmicas. (Como critico isso, peço ao editor que não cometa o mesmo erro, colocando meu texto em primeiro plano, mas sim no espaço que ocupo normalmente na minha coluna). Dentro do artigo de Paranhos, isso já fica mais atenuado. É o final do filme de Woody que é superior, filosoficamente, porque “aberto” a várias teorias morais, em relação ao Epílogo, “fechado” de Crime e Castigo. Mas depois, a afirmativa vira de novo generalista -e por isso mesmo empobrecida- de que “o filme é mais rico na medida em que, polifonicamente, dá voz a várias teorias morais sem eleger a ‘correta’” (grifos meus). Algo que é repetido na chamada do artigo da revista.
 
Sem querer discutir neste momento a validade do argumento enunciado, que elege a variedade de teorias morais como critério para decidir se uma obra é mais rica (ou “filosoficamente superior”) a outra, algo em si bastante discutível, a minha oposição é que: primeiro: o livro não pode ser considerado “fechado”, pois dá expressão a várias vozes. Abstraindo-se o final moralizante, as personagens de Dostoiévski sempre são polifônicas. Algo implícito até mesmo no nome Raskólnikov, personagem principal de Crime e Castigo.Raskol”, em russo, significa “cisão”, “fragmentação”, caracterizando o personagem como cindido e atormentado. Trata-se de uma “consciência fragmentada”.
 
A esse respeito remeto o leitor ao ensaio de Boris Schnaiderman, “Dostoiévski: a ficção como pensamento”, publicado na coletânea Artepensamento, organizada por Adauto Novaes. Schnaiderman cita dois trabalhos russos: “Dostoiévski e Hegel (Sobre o problema da ‘consciência cindida’”), de V. A. Batehínin, e “Sobre a problemática ético-filosófica do romance Crime e Castigo”, de I. F. Kariákin.
 
O tradutor para o português de Dostoiévski, nascido na Ucrânia, afirma que ambos fazem referência ao item “A lei do coração e o delírio da presunção” do capítulo “Certeza e verdade da razão”, da Fenomenologia do espírito de Hegel. O item contém uma análise da revolta do indivíduo, que afirma sua lei em oposição à lei a que todos se submetem e, ao mesmo tempo, apresenta esta sua lei como algo necessário ao bem estar da humanidade. Schnaiderman então se pergunta: “Não se tem aí algo muito próximo às lucubrações de Raskólnikov sobre o ‘direito’ que teria de matar a velha usurária, uma criatura que não faria falta ao mundo e graças a cuja morte ele poderia fazer o bem a tantas pessoas?”.
 
O importante, contudo, de acordo como arremata o próprio Schnaiderman, não é tanto “pesquisar uma possível influência de Hegel sobre Dostoiévski, mas sim mostrar como as mesmas preocupações levaram Hegel àquela reflexão e se corporificaram na personagem Raskólnikov”. Ele ressalta ainda que foi preciso esperar por Mikhail Bakhtin e seu livro Problemas da poética de Dostoiévski, de 1963, para que se tivesse uma abordagem realmente em profundidade do embate de idéias na obra do romancista -que Schnaiderman chama de “o romancista-filósofo por excelência”-, do estudo das vozes que as expressam, e do que este embate representa como princípio estruturador. Cito integralmente a opinião de Schnaiderman sobre o texto de Bakhtin (também tratada por ele em dois outros livros):
 
“Segundo Bakhtin nos mostra com grande riqueza de pormenores, Dostoiévski não constrói seus romances e contos em torno de sua ideologia, mas joga-a em meio às demais, discute com suas personagens, dá maior força de convicção ao oponente, em suma, realiza o tipo mais elevado do romance de idéias, aquele em que as personagens encarnam princípios e concepções de mundo, sem perder nada de sua extraordinária vitalidade”.
 
A polifonia e a diversidade de vozes estão nos personagens dostoiévskianos, muito mais complexos do que os de Woody Allen, tendo Dostoiévski inspirado o existencialismo, Nietzsche e Freud, entre outros. “Dostoiévski, o único psicólogo, seja dito de passagem, do qual tive algo que aprender” (Nietzsche). Nem Woody Allen, que costuma fugir dessas comparações, teria a pretensão de ter “superado filosoficamente” o mestre russo, por mais criativo que seja o seu cinema e apesar dos filmes dele estarem muito acima da média dos atuais. Qual personagem de Woody tem a mesma força marcante do “personagem-ideólogo por excelência” Raskólnikov?
 
Em Crimes e Pecados, o personagem Judah Rosenthal é uma sombra do princípio que rege Raskólnikov, uma mera variação, pálida e superficial, deste. Ele, ao contrário do russo, não se arrepende de ter mandado, por sugestão de outro, mais “malvado” do que ele, matar a sua amante e não se entrega. Ele não aspira a nada mais do que manter a sua estabilidade de homem bem-sucedido e casado. Raskólnikov, afirma Dostoiévski, no epílogo do romance, estava disposto a dar sua vida “por uma idéia, por uma ilusão, até por um sonho. A simples existência sempre tinha significado pouco para ele; sempre aspirara a mais. Talvez só pela força do seu desejo chegara a sentir-se então um homem ao qual era permitido mais do que os outros”.
 
A propósito da influência de Dostoiévski -e mais especificamente do personagem Raskólnikov, “germe do ‘espírito livre’ nietzschiano”, contrário ao sujeito ressentido- sobre o Nietzsche, a professora de filosofia da Universidade Caxias do Sul Jaqueline Stefani assinala, em artigo intitulado “Nietzsche e Dostoiévski: A unidade e o limiar”:
 
“As personagens de Dostoiévski são, como afirma Bakhtin, polifônicas, ou seja, há múltiplas vozes que falam, não havendo uma consciência, mas várias que coexistem num diálogo constante dentro de um mesmo ser numa profunda tensão psicológica. É um esforço demasiado perigoso tentar caracterizar seus protagonistas quanto ao caráter ou à personalidade, de modo unívoco. Neste sentido vejo o primeiro encontro com a teoria de Nietzsche: a crítica à unidade da consciência.”
 
Ainda segundo a professora, mestre em filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), “Dostoiévski, em suas personagens, brinca com as várias perspectivas, com essas múltiplas vozes, das quais, nenhuma tem a ‘palavra final’, é a dialogicidade e a polifonia, características que, ao que parece, Dostoiévski foi pioneiro. Na obra Memórias do subsolo, percebe-se um constante movimento dialético sem síntese. De uma afirmação segue sua própria negação. É a descrição da própria inconstância de um sujeito que não consegue afirmar seu próprio ser.”
 
É nos personagens, portanto, e na obra inteira, não ancorando-se apenas no epílogo de Crime e Castigo -assim mesmo, muito superior, em filosofia, densidade dramática e poesia ao final do filme de Woody Allen- ou no cristianismo de Dostoiévski, que se deve procurar pela polifonia de vozes, internas aos personagens, que são multidimensionais. Não se deve confundir o autor com a obra. Assim como em Os Irmãos Karamazov, há quem se identifique com o pensamento de Aliocha, outros, o meu caso, com o de Ivã. Podemos perceber no homem “extraordinário”, representado em Crime e Castigo por Raskólnikov, vestígios do “além-homem” de Nietzsche. Por isso, entre outras razões que já citei e outras que não preciso destacar agora, a tese de que Crime e Castigo seria “filosoficamente inferior” a Crimes e Pecados, em razão do seu final “fechado”, é fundamentalmente errada.

 

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POR EM 13/10/2008 ÀS 05:12 PM

A performance

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Pedro e Marta haviam combinado de irem juntos à abertura, cercada de mistério, da instalação do artista que estava causando sensação naquele momento na cidade. Mas Pedro tivera um problema no trabalho àquela tarde e chegara muito atrasado ao casarão transformado em galeria e local para exposições e performances como aquela. Chovia e ele procurou em vão Marta na pequena multidão que deixava o local às pressas, molhada e espavorida. Como não a encontrou, resolveu juntar-se ao segundo grupo que já se formava na fila de entrada.

O casarão ficava numa parte elevada e tinha uma construção bizarra por causa do terreno desnivelado. Antes de chegar à porta principal passava-se por uma piscina ladeada por paredes altas, localizada na parte abaixo do casarão, e um muro lateral por onde subia uma escada de degraus largos, cercada de jardins.

Passando pela porta, chegava-se às muitas salas. Um recepcionista mudo entregou o programa a que se deveria assistir. Setas e placas apontavam a direção. O programa dividia-se em duas partes. Na primeira, em uma sala de cinema especialmente preparada era projetado um documentário fictício em preto-e-branco sobre vítimas da ditadura em um país latino-americano. Nos dois lados da sala havia máquinas, em torno de dez, metade em cada lado, que Pedro notou serem imitações de aparelhos mata-moscas eletrônicos de luz negra, que no início da sessão permaneciam apagados.

No final do filmete, falado em espanhol e português, que durou 15 minutos, os personagens principais reapareciam na tela e os que haviam sido torturados até à morte diziam seus nomes e iam lentamente desaparecendo da tela, quando, para cada menção, se acendia o mata-moscas fazendo o barulho característico de eletrocussão e um cheiro de carne queimada era exalado.

Em seguida, ia-se a outra sala onde um outro filme mostrava o próprio artista caracterizado de Little Richard cantando acompanhado por uma banda de músicos vestidos como gângsteres. No meio do show, a apresentação era interrompida e em seu lugar eram exibidas imagens do lado de fora. As imagens focavam as pessoas que tinham saído da sessão anterior deixando o local apressadamente, ao som de uma música marcial, descendo os degraus da escada atabalhoadamente, alguns corriam.

Canhões laser disparavam finos feixes de luz vermelha sobre as pessoas. Os feixes de laser eram seguidos de sons que imitavam balas sendo disparadas e barulhos de detonação e pessoas gritando. No meio daquela confusão, Pedro pôde distinguir Marta, num momento em que quase caiu e olhou para trás, a câmera aproximou seu rosto num close.

Por fim, as luzes se acenderam, a música terminou e era a vez dos que tinham assistido ao filme sair para a rua. Pedro tentou ligar para Marta, mas do outro lado do celular ninguém atendeu a ligação.

Chovia mais forte quando ele deixou o casarão, o que tornou a “escapada” ainda mais dramática.

Pedro abriu o guarda-chuva preto iluminado por fora pelo canhão de luz vermelha em meio aos estampidos, silvos e gritos e forçou a passagem pelo grupo que ia mais à frente.


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POR EM 06/10/2008 ÀS 06:16 PM

México City - Diário de Viagem

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Instantâneos


Xochimilco: Pântano Azteca de águas oscuras. Aquí hay gente que vive aislada. A mãe levando de balsa, remando, seus filhos para la escuela. Nosotros y los mexicanos bebiendo frescas cervezas. Triste-alegres, “valsam”. Noches Buenas, los terribles Mariachis e bem no fundo, quase não se notam, emplumados para a guerra, eles nos olham.

Teotihuacan
: Das casas de palha e barro, nenhum vestígio. Palácios, um rei morou aqui. Do alto da pirâmide, larga vista para o vale dos mortos -“camelando” suas últimas bugigangas.

Centro, praça do Zócalo: Em uma tenda zapatista armada, solitária, alguém canta uma velha canção, Che Guevara. Policiais no palacio del Gobierno montam-guardam os murais de Rivera.

Centro, Catedral
: Silêncio. No centro, à entrada, de interior negro, Jesus Del Veneno, oscuro, pende da cruz, como se pendesse de um galho, antes dos outros santos e altares. Tudo alto y dependurado. Cheiro incenso -mais silêncio, intenso, vindo de fora, da praça, um canto, irreproduzível, la-la-la-la, de tristeza amplificada de micrófono, alegre y desesperada. Um campesino escuta a si próprio na sala reservada, a conversar com estátuas, que lhe olham, e a si mesmas, assustadas, em seu silêncio de luto e de madeira.

Palácio de Belas-Artes
: Fora os santos! Catedral (in)útil onde se odeia/adora o homem: de novo Rivera, Orozco -um rasgo nas paredes, melhor que os murais, gigantescos e tirânicos: Gironella, pinturas que são um corte e sangram.

Museo Nacional de Arte: Bela moldura, em espanhol. Patio sin nombre -onde contemplo o vazio, o tempo, como se fosse a mais bela das artes, subindo e descendo as escadas.

Calle Francisco de Souza: O ocre cor de terra das casas da calle Francisco de Souza, hijos de la Malinche, também tingida de azul cobalto y Frida, que eu não vi, as aquarelas do museu de aquarela...


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POR EM 29/09/2008 ÀS 07:29 PM

Tradução: Pequeno café, de Paul Valéry

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Pequeno café obscuro, solidário, secreto, paraíso de pureza e de pensamentos.

Asilo de pedra oca de uma bela palidez contendo espelhos, fazes bem ao viajante, forno de sombra e de frescor, curvatura em berço muito doce...

Há somente eu dentro dessa gruta. Eu e os “Débats” sobre uma mesa de fundo.

Um gênio em roupas escuras, grosseiramente pintado de barba quase azulada... Ele se entedia tanto de sua solidão! Pega um banco para mim. Ele me traria qualquer coisa. Compreendo que vive num mundo imaginário.

Sinto-me um cliente abstrato, essência de cliente.

Vem, e embalsama o ar! - Fumo e perfume, amargo chocolate a evocar biscoitos tostados!...

Daqui a pouco, após muitos cigarros, desejaremos pedir a esse vago pensador gordo e mal barbeado, um desses glace au citron* que queimam de frio os lábios e a língua...

Livre enfim dos museus!

As coleções, contrárias ao espírito; o harém para o amor.

Estamos cansados das disputas dessas damas sultanas. A soma de todas essas belezas é absurda, fatigante. Uma reunião de objetos excepcionais, uma multidão de singulares só pode agradar aos marchands, seduzir os insensíveis que se julgam sensíveis, e as pessoas crédulas. Um olho espiritual não veria nenhum visitante nas galerias, mas adjetivos errantes. Ao fim de tudo, o objetivo dos artistas, o único objetivo, se reduz a obter um epíteto...

Esse chocolate tem um gosto severo que convém a esse lugar vazio e agrada a meu humor. Uma colherada, - um pensamento - uma baforada, - um gole de água gelada, - e essa sequência de julgamentos:

Os museus são odiosos para os artistas.

Eles os adentram somente para sofrer, ou espionar, roubar segredos militares.

Se sentem prazer, é devido à atrocidade de seus desprezos.

Pintar os horríveis sofrimentos da inveja artista.

Michelangelo, houvesse ousado, teria envenenado.

Ciúmes que ele tem de Leonardo. O que isso implica.

Lionardo não era cioso a não ser de suas idéias.

Um homem de talento, diante de mim maravilhado, ao tomar conhecimento da morte ou da demência, - não sei mais, - de um escritor mais conhecido e mais recompensado que ele, permite-se dizer vivamente: Tanto melhor... É chegada a minha vez.

Ousamos escrever as histórias das letras ou da arte sem dizer uma palavra de coisas como tais, sem aprofundar. A arte é tão quanto o amor. A arte e o amor são criminosos em potência, - ou não existem.

Tudo que vem dos deuses causa o inferno nos homens.

Esse café é deveras delicioso. Vemos daqui o calor vibrante sobre as pedras da rua. Eu passo a mão acariciando a carafe** gelada. - Uma trintena de moscas suspensas por seu movimento no espaço criam um sistema planetário e um movimento estatístico indiferente.

Aqui o espírito abatido pelas obras-primas ama a existência, se enleva, e avalia. Tudo que os homens fizeram, fazem e farão, soa para ele como esse barulho local e circunscrito do formigamento alado de trinta insetos. O corpo soergue imperceptivelmente os ombros. O próprio soerguimento, que condena os humanos, é bastante mal recebido. É impossível para a justiça que há em mim, não ver a necessidade de meu sentimento.

- As flores da florista aninhada sob a grande porta do palácio que está à frente dispensam as mensagens e os devaneios de amor. O que não ocorrerá jamais, o que não pode ser, embalsama, tem um perfume.

Eu desenho figuras geométricas no mármore do guéridon*** onde a ponta do lápis é tão feliz, tão livre.

- E de que me serve a necessidade de meu sentimento? Ela te serve muito, meu amigo.

Ela faz desse sentimento o que ele é,- o que são todos os sentimentos. Todo sentimento é o saldo de uma conta da qual o detalhe se perdeu. Impossível se obter uma declaração desses débitos e desses créditos. Encontraríamos aí operações que remontam ao ano mil; outras ao macaco ou ao castor. O pecado original é uma integral, sem dúvida.

Vamos, distrações, frescores, espírito, cessem de dominar!

Um pouco mais de fumaça com gelo; inalemos no ar o odor dos limões amorosos. Paguemos e partamos.


___________
*(N. do T.) Creme gelado ou sorbet de limão.
**(N. do T.) Garrafa, em árabe, no original.
***(N. do T.) Uma pequena mesa de centro, geralmente circular ou oval. Peça do mobiliário francês.

Esta tradução é dedicada à Monica, que ama os lugares, as coisas e as sensações estéticas. 

 


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POR EM 24/09/2008 ÀS 03:36 PM

Coisas mínimas II - miscelânea

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Realidade das coisas


O sol nasceu outra vez hoje.

A Realidade das coisas consiste em sua persistência forçando a si mesmas ao nosso reconhecimento. Se uma coisa não tem uma tal persistência, é um mero sonho. Realidade, então é persistência, é regularidade [o que introduz a categoria da Terceiridade. Linguagem verbal é uma parte ínfima, muitíssimo ínfima mesmo dessa categoria. Aqui é preciso entender a noção de categoria como conceito geral. No Caos original, onde não havia nenhuma regularidade, não havia existência. Tudo era um sonho confuso. Isso nós podemos supor foi no passado infinitamente distante. Mas na medida em que as coisas estão a ficar mais regulares, mais persistentes, elas estão a ficar menos plenas de sonhos e mais reais. (Charles Sanders Peirce).


Real e existente

Real e existente são coisas diversas. O existente é o reino do concreto, da compulsão “bruta”. Para além dessa faceta da realidade, que nos é por demais familiar, há também o acaso (qualidade, possibilidade) e a lei. O dia ou sol que nasce e morre hoje independentemente daquilo que pensamos, é o mesmo sol de ontem e não outro. Por isso trata-se de uma possibilidade real, que ele irá nascer amanhã, novamente. E a experiência mostra que uma crença em tal fato é verdadeira.


A metáfora da serpente

A metáfora da serpente, um ser vivo, sendo usada para descrever o drama Shakespeariano, faz lembrar Valéry, traduzido por Augusto de Campos - PENSER (PENSAR): SERPENT (SERPENTE).


Estética: origem etimológica


O termo aesthetica deriva do grego aisthanesthai, que designa “perceber” (tanto pelos sentidos quanto pela inteligência); aisthesis: “percepção”; aisthetikos: “o que é capaz de percepção”.

Num primeiro sentido – que, aliás, é o seu sentido primordial – designa originalmente a sensibilidade [...], como tendo o duplo significado de conhecimento sensível (percepção) e de aspecto sensível da nossa afetividade. Deste modo, Paul Valéry podia dizer que: “A Estética é a estésica”. (Denis Huisman, “A estética”, p. 9).



Problemas da Estética

Alguém nos perguntou se, abstraindo-se de considerações morais ou culturais (como se isso fosse de algum modo possível), o atentado terrorista de 11 de setembro às torres do WTC, em Nova Iorque, não poderia ser considerado “estético”? É verdade que o “espetáculo” do avião se chocando contra a torre atrai na percepção, o que prova o fato de ter sido reproduzido centenas de vezes, desde então, e continuar despertando a atenção do público. Porém, certamente nenhum ser humano normal suportaria a mesma cena, repetidas vezes, caso ela nos mostrasse os corpos das vítimas queimando ou esfacelados, seus órgãos espalhados em meio aos restos do avião e do prédio. Essa imagem causaria repugnância até mesmo nos mentores do atentado - ainda que os mesmos pudessem se sentir reconfortados pelo sentimento de vingança contra o “inimigo”, o fato não poderia ser considerado “estético”.

[...]



Salva-vidas

Trouxemos o nosso barco até esta praia. Pusemo-lo na água, demos algumas voltinhas com ele e regressamos mais ou menos são e salvos até este ponto de nossa jornada. Viagens mais longas sempre necessitam de reparos. Sem esquecer do uso providencial do salva-vidas.


Perspectivismo (poema)

Livre ou aborrecido
O pássaro gira em círculos no céu
Suas asas molhadas, sob a chuva
Úmida
Traçando cálculos precisos.
Acaso não sonha ele
Com pés e mãos
Na terra
Livre de sua prisão?


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POR EM 16/09/2008 ÀS 06:51 PM

Liquidação de descontos

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História de Cronópio

Certa vez contou que viu arrastar-se
pelas ruas de uma cidade em ruínas à noite
um fugitivo cronópio, muito verde e muito úmido.
(Mentiu que isso aconteceu em Paris).
 
O infeliz polichinelo mendigava
enquanto chacoalhava seus guizos
contra o chão de paralelepípedos
perseguido apenas pelo ruído
dos gritos das crianças, do canto
dos grilos e do latido dos cães.

Dois costureiros
 
- Vamos costurando nossas belezas - disse o primeiro.
 
- Sim, conquanto faremos uma bandeira e não uma mortalha... Um parangolé e não uma bandeira - apressou-se em corrigir-se o segundo. 
 
Dez maneiras de se entrar numa casa
(para Alcimar Fernandes)
 
Em uma das dez (ou quiçá 12, mas só direi das dez) realidades possíveis, ele atravessou o jardim sentindo o cheiro perfumado da noite e foi abatido assim que o seu pé direito tocou no batente da porta por um tiro de espingarda vindo da janela de cima. Numa segunda realidade, um cão da raça fila enorme e negro ficou observando-o parado por cerca de dois minutos até que, num único salto, estraçalhou a sua jugular. Numa terceira possibilidade, quando terminou de pular o muro, escutou três vezes o pio de uma coruja e tomou isso como um mau agouro, dando meia-volta e escalando para fora de novo o muro. Numa quarta e hipotética possibilidade, o celular tocou quando estava para pular o muro da casa, era sua mãe e ele havia esquecido de desejar-lhe parabéns pelos os seus 70 anos. Numa quinta hipótese, o alarme disparou e ele foi pego em seguida após uma perseguição no terceiro quarteirão. Numa sexta, ele colocou a mão no bolso e havia esquecido a arma. Numa sétima, estava sem bala. Numa oitava, ele escorregou e caiu quebrando a clavícula. Quando acordou, um policial chutava sua cara. Numa nona, ele teve que matar toda a família. Numa décima, a porta estava aberta, não havia ninguém em casa, as luzes estavam todas acesas e o cofre estava vazio e quando ele saiu foi recebido a tiros pela polícia.


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