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Lauro Marques

POR EM 01/07/2008 ÀS 10:35 PM

Relendo Borges

publicado em

Releio o volume 1 das Obras Completas de Jorge Luis Borges, publicada pela Editora Globo. Devo dizer que não escolho muito os autores que vou ler. Geralmente, os livros aparecem para mim e graças a Deus (isto é, ao Acaso) tenho tido sorte. Esse livro apareceu durante minha mudança de casa. Tentei resistir à leitura, pois tenho muito déficit a cumprir, mas não foi possível. Sobrevoei os poemas e novamente achei-os desinteressantes, como da primeira vez, esses poemas antigos de Borges, a não ser por terem sido escritos pela mesma mão que escreveu o Aleph ou Ficções. O melhor livro de poesia de Borges para mim ainda é o que ele ditou, já em um estado avançado de cegueira, aos 70 anos: O Elogio da Sombra, de 1969. Minha avaliação, como sempre, é pessoal. Esse livro também veio até mim pela mão de meu pai. Li-o quando já estava morto e li-o, lendo a sua leitura, por meio das marcas que deixou, em grafite, assinalando uma ou outra passagem. Não sei com quem está esse livro, procurei-o agora mesmo e não o encontrei. Em que mãos andará? Aguardo paciente o retorno. Livros são objetos carregados de afetividade. Não tenho muitas fotos em casa, nenhuma do meu pai. Fiquei com esse livro dele e uma edição dos contos de Poe, com a data de 1979, escrita à mão -quando eu tinha sete anos e lembro que a capa em preto e dourado com um homem trajando um manto cheio de motivos geométricos e arabescos, terminando nuns quadriculados, acompanhado de um gato preto, povoou os meus pesadelos-, além de um ou outro volume de filosofia, que me esforço para me lembrar qual agora (talvez os Pensamentos de Pascal). O resto está espalhado pelo Rio de Janeiro, Alemanha e Natal, onde moram meus quatro irmãos.
 
Voltemos a Borges e às suas Obras Completas, Volume 1. Após passar a vista nos poemas, fui direto para a leitura que me prendeu ao livro, e que me fez chegar até aqui, a esse ponto do meu relato: o conto que dá nome ao título mais famoso de Borges: O Aleph. Uma vez que caímos na sua armadilha não o esqueceremos jamais. O Aleph é pois um tipo de Zahir borgeano, o objeto que é capaz de nos fazer esquecer todo o universo. No caso, o esquecimento pode ser das outras obras de Borges, assim como A Metamorfose é para alguns, péssimos leitores, o Zahir kafkiano, e não me admiraria se ele tivesse querido em algum momento desfazer-se desse conto. Mas é sem dúvida exagero dizer isso e só o faço por uma questão de estilo. O Zahir é tema de outro conto do livro, uma espécie de conto irmão deste, talvez escrito antes do Aleph, e em ambos o autor assinala, num epílogo de 1949, a influência da estória “The crystal egg” (1899), de Wells. Talvez o Aleph seja afinal um reflexo de uma outra miragem de Borges, de outro livro, anterior, Ficções, e dentro deste o conto: o Jardim de Veredas que se Bifurcam, o labirinto dentro de um livro, com suas dobras temporais: presente em que releio (e portanto situado no passado) e futuro em que será relido (fecha-se o círculo que é eterno). Começa-se a ler Borges e fica-se prisioneiro das referências, dessas palavras e termos, enriquecido pelo conhecimento, dessas metáforas vertiginosas, de sua mise en abîme. Não se esquece, rememora-se, vai-se adiante e retorna-se. Não se deve ler Borges começando pelo Aleph, como fez um conhecido meu. As obras completas têm portanto essa vantagem, de trazer ao leitor recém-iniciado tudo de uma só vez. Ler saltando de uma estória a outra, e no tempo, é outro dos prazeres. Falei em enriquecimento e não há melhor palavra para descrever. Borges é o tipo de escritor que nos torna mais inteligente, ou em contato com a sua inteligência superior, nos faz sentir mais inteligentes do que realmente somos. Abrem-se mundos, que não existiam antes, deuses que criamos, fala-se com os mortos, alguns até ressuscitam.

 

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POR EM 26/06/2008 ÀS 10:30 AM

Balada para um morto ( Canto Augural )

publicado em

PARTE 1

LIVRO PÓSTUMO

PUBLICADO AO REVERSO: Epílogo-Parte 4-Interlúdio 2-Parte 3-Parte 2-Interlúdio 1-Parte 1
 
 
“Devemos entrar na morte como quem entra numa festa.”
 
Jorge Luis Borges
 
Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo.”
 
            Álvaro de Campos
 
 
Intro
 
Para mim basta
O brilho das coisas vencidas.
O belo não me agrada mais.
Já vi mais palavras “coloridas”,
Do que poderia suportar;
A luz que me alumia,
O sol que me enfastia...
Entrego a ti as tuas fadas.
Deixa-me morrer em paz
Com meus demônios!
 
 
I-ESCURIDÃO DE PASTO
 
Escuridão de pasto que volveia os sentidos
Vento crepuscular da aurora da noite
Torvelinho de emoções sentidas;
Encharca tua boca leprosa de vinho
Dize aos nove mundos tua prece:
 
“Que venha o mar, tenho sede
Sua volúpia não me arrastará
Que venha o sol, tenho frio
Sua chama não vai me queimar
Hoje, dos quatro elementos,
Quero me fartar!”
 
O olho do mundo
Um gigante descarnado de luz
O céu prepara seu próprio funeral
As nuvens estão vestidas de vermelho
Daqui a pouco, a noite se cobrirá de luto
“Impressionante cotejo fúnebre
São as nuvens que passam
Carregadas de chuva
E de negrume!”
 
Alegra-te
Hoje, da carne de teu pescoço,
Faremos um almoço
Das vísceras desse animal morto.
 
 
II-FOGO DE MORTEIRO
 
Fogo de morteiro.
Pranto que não se afoga:
 
“A paisagem ocre está mudada.
Vi metáforas coloridas subindo
Um céu sem vida.”
 
Indiferente às estrelas brilha
um descampado de natureza morta.
 
 
III-EU QUIS O AÇO
 
Eu quis o aço,
o gosto áspero dos metais
 
Não me foi dada a primavera.
 
“Põe teu fêmur sobre a pilha e incinera!”
            —Gritei
 
            (Cega pela luz a faca enterrada
                        no peito
             à noite sangram os girassóis)
 
            Como se fosse a aurora,
                        a luz que ilumina o bosque
                                   o homem
                                               A G I G A N T O U – S E
                                                          
E perdeu a forma
 
 
O orvalho esquecido das horas tardou
E a cigarra cantou os versos de outrora.
 
 
IV-PEIXE FORA D’ÁGUA
 
Carne exposta ao vento e ao sol, a secar.
Hirto de pavor, um surto de dor, que me cega o peito
e chamusca a alma.
Peixe fora d’água, dilacera-me as guelras
A ânsia vã de respirar.
 
 
V-CONVULSÃO DE ALMA
 
Convulsão de alma.
O espírito está distorcido e abandonado.
Em águas turvas se banham os condenados.
E sua essência é espuma de um mar salgado.
 
“Um bando de éguas azuis passam trotando
no meu crânio repleto de pensamentos vazios.
Cego das coisas, eu me avizinho.”
 
A alma em pânico pede socorro e sai rasgando
as entranhas —na verdade se agarra.
Um fio de sangue lhe aflora à boca pálida.
Apodera-se de si um terror inominável.
Sinapse de neurônios desarticulados, suas têmporas latejam
 
(Segue uma série de movimentos em falso)
 
O ocaso entregue aos deuses da loucura e do cansaço,
Um grito se estampa na cara
 
E numa golfada de sangue, escancara:
 
“Misto de oceano e búfalo o corpo se afoga em lágrimas.”
 
 
VI-A PESTE
 
Fogo descendo da terra ao mar.
Cobriu-se de cinza e sombra.
Morte! Terror! Destruição! A peste que se espalha...
 
—“Veste tua mortalha homem comum!”
O grito que se ouve por noites....
Prisão! Açoite! Espírito pagão! Infâmia!
Debela-se em vão a canalha...
Ainda ufana-se de ti pobre e prostrado?
Humano demasiado, assiste à própria desonra...
AOS DEUSES A QUEM PROCLAMA,
ERGUE A ESPADA E DESCE O MACHADO!
 
Lamento ignorado, prossegue-se a cerimônia.
 
 
VII-SUS
 
Dor implacável!
Junte-se a mim os fracos,
os que perderam a razão!
Anda! Levanta os braços! Caminha moirão!
Que sabe de ti, estúpido palhaço, incalculável fiasco,
rosna cachorro, com sofreguidão!
Vai-te! Come teu pão!
Que amanhã lhe falta...
 
E vê se não lhe engasga a emoção!
 
 
VIII-REVELAÇÕES
 
...E eis que vejo-me inteiro.
Desprovido de carne.
Feridas entreabertas e o sussurrar das veias e artérias
Pulsando sangue.
 
Toscos os corpos na luta,
pouco a pouco acham-se cansados.
Os aparelhos incinerados e dão por perdida a batalha:
 
“Por que os sons que ouvia ’inda agora,
chegam já tão tarde aos meus ouvidos debilitados?
Onde estão as fadas e os sinos,
que cercavam condenados?
 
“Havia campos, havia mares,
de tão fulgurosa existência...
Que há agora que se compare,
senão desertos, demônios insulares?”
 
 
IX-A ALMA
 
Prisão de incontáveis desígnios,
a alma, encharcada de tédio,
sofre muito para chegar
num ponto qualquer.
 
Eqüidistante das estrelas.
 
 
X-EX MACHINA
 
Abrem-se os céus em desuso
Uma carruagem enferrujada de anjos
Longa linha que separa e une
Rasgões de sangue pele carne & ossos
 
 
XI-DESCONTINUIDADE
 
“Eis-me aqui reunido à turba,
dos que me olham com ares de enfado.
Sou forte, sou alto,
minha bandeira tremula em chamas
—e dessespero-me!”
 
—Preces contínuas ao inferno—
 
—Sangue de Cristo derramado—
 
“Viajante que passa!
És o sol!
Quero vê-lo engolfado em sombras,
o corpo coberto de manchas,
gritar meu nome!”
 
—“Descontinuidade!”-
 
Clama aos ares em fúria
 
—Sonsa pele que irá por toda parte-
 
—Paredes de aço amareladas-
 
Luta contra si mesmo... e sem alma...
 
“Uma bandeja de prata!
Ofereço-lhes o momento do meu enfastio.”
 
 
XII-A CARNIFICINA
 
(A cerimônia das luzes,
corpos em profusão ao som da
sinfonia dos ruídos indizíveis
—AO SOL.
 
Comunico-lhes o terror
—O PÂNICO
 
Deuses imaculados sobre a mesa
 
A muralha dos tempos perdidos...
 
Ergo a minha cabeça e assisto
 
A CARNIFICINA).
 
 
XIII-CRESCE
 
Longo caudal,
Pira funerária ou fúria —
Cresce.

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POR EM 21/06/2008 ÀS 03:44 PM

Balada para um morto. Interlúdio (1)

publicado em

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INTERLÚDIO (1) (DO AMOR)

LIVRO PÓSTUMO
PUBLICADO AO REVERSO: Epílogo-Parte 4-Interlúdio 2-Parte 3-Parte 2-Interlúdio 1
  
 
I-BARCA VOGANTE
 
É chegada a estação do desânimo.
Teria o amor,
essa barca vogante,
finalmente me aniquilado?
 
(Quilha tão fina corta o lago —
e estremece a superfície.)
 
 
II-PERGUNTA
 
Quereria por fim todas as minhas dúvidas,
entregar-me de vez a essa infelicidade —
os corpos já lacerados,
as tristes histórias,
na loucura e no amor fatigados —
ou seria melhor sofrer
no peito as dores de um parto
não realizado?
 
(Ó deuses! Demência! Diabo!
Ainda que fosse possível aplacar sua ira -
a ela fosse-me dado
o menor sentimento de culpa!)
 
Se ao menos fossem felizes!
Que importância teriam para mim,
todos os sonhos e pesadelos do mundo?
Se fóssemos PEDRA,
quem tiraria de nossas costas
o LIMO?
 
E sustentar um peso impossível...
 
De todas as nossas fraquezas, a pior das piores.
 
 
III-A PRIMAVERA
 
Vê bem,
a primavera trouxe
os pássaros dardejantes
do Norte.
Envolta em soluços,
a deusa desnuda,
fria e carnal,
lúcida como o vento,
e de eternos abraços,
deu-me a palma da mão,
que beijei com hesitação.
 
 
***
 
—Ah, não tivesse sangue em minhas veias,
mataria tua sede, eterna traidora!
Louca, insolente!
Bebe tua água envenenada,
dá-me tua boca,
rogo-lhe,
leva logo daqui
esse pedaço de carne inútil!
 
 
***
 
—Ah, deusa grega,
miserável romana,
filha bastarda do Norte
Deixa-me!
Lavar minha carne
nesses teus lábios imundos!
 
 
IV-A MUSA
 
E de tão pequenina que era,
imperceptível mesmo,
e de olhos profundos,
estreitos,
e coberta de afagos,
veio até aqui e encarou-me.
 
Dei-lhe o nome de musa.
 
Acorrei, acorrei aos milhares!
 
...E lançaram-me olhares de ódio e ingratidão.
 
Deitaram-me numa cama devidamente preparada
para conter a minha loucura.
Ataram-me os pulsos e as pernas,
amordaçaram-me a boca e olhos
vendaram-me.
Fizeram correr incisões e ventosas
o meu corpo todo.
Por fim julgaram-me CULPADO,
o causador de todos os males,
que a doença propagara.
E fui condenado.
—Mas ainda eu respirava quando baixaram o caixão!
E o meu peito ainda batia
—mais forte!—
e um só pensamento meu infectou toda a terra,
quando finalmente me deixaram,
meu corpo em direção à sepultura.
 
Cuspiram-me o cadáver —o amor!
O amor estava sendo preparado
—deram-me o amor!
 
Aí então me tornei a doença que tanto temiam.
 
 
V-A LOUCA
 
A bela louca em seu vestido de sedas,
veio até mim com suas garras
e seu olhar de morcego
arrastando asas
por sob sua cabeleira loura e pálida,
a louca,
sorriu-me.
 
—Doze catedrais de aço em Paris verteram lágrimas—
 
A paixão rompeu os laços de misericórdia.
 
Rumores alados puseram-se em fuga.
 
 
VI-DEMÔNIOS
 
Há um demônio esperando por cada amanhecer,
se a noite não lhe foi pródiga &
há um demônio dentro de cada um de nós
a vir
à tona.
 
 
VII-SONETO BAUDELAIRIANO
(O POSSESSO)
 
Na noite em que eu insone,
anjo, quanto mais doce, infernal,
a ti, quando invoquei teu nome,
e vi surgir, do tédio, que é abissal,
 
ó musa dos enfermos, a inspiração
que emprestas às almas condenadas,
o vinho do esquecimento, o alcatrão
de tuas saias perfumadas,
 
incendiaram-me de vez as narinas.
E demônios como aves de rapina,
o meu peito vieram assaltar.
 
E noite adentro fui levado,
presa desse amor fanado,
Belzebuth a te adorar!
 
 
VIII-EU FRAGMENTADO
 
 
EU,
Moribundo feto de vontades
incubadoras
De espírito indelével e falho
Amante das cousas não duradouras
Aos quatro elementos me espalho:
 
LÍNGUA LAMBE A NAVALHA
CARNE ROMPE OS TENDÕES
PEITO NÃO CABE NA MALHA
NEURÔNIOS DESATAM EMOÇÕES!
 
Rompimento craniano do acaso
Morbidez inveterada dos traços
Glorificação dos termos da loucura
 
Que à noite torna espuma
aliterada e fútil
cobre de terra, excessos, inútil
 
Galga os montes de escória
Roga dos deuses a memória
Come o esterco dos dias
 
Rouba de si mesmo o silêncio. 

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POR EM 12/06/2008 ÀS 12:10 PM

Balada para um morto ( parte 2)

publicado em

 

LIVRO PÓSTUMO
PUBLICADO AO REVERSO: Epílogo-Parte 4-Interlúdio II-Parte 3-Parte 2
 
 
 
I-AINDA PRESO À PRAIA
 
Ainda preso à praia:
“Em que porto distante, nuvens, repousará
 minha armada?”
Cruzam silentes os barcos insones em manobra
(na praia)
“Jus fará ao meu nome?”
As nuvens são nações de ódios
“Ah, venha tu, ó morte abençoada!”
(Faz calar a multidão dos cantores)
“A música das esferas!”
 
-Partem as nuvens em fuga
-Música que cai como chuva-
-Num país distante.
 
 
II-ACIMA DA MULTIDÃO
 
Acima da multidão,
-bandeiras festivas-,
um olhar de pedra ergue:
 
“Um sorriso ao pó despede!”
 
-vertigem, cor,
                        -pássaros de chumbo,
                                   -pena,
                                               -leve...
-Rumor-
 
“Ah, em breve! Tudo é som”,
silencia...
 
-Neblina espessa que sobe os olhos e queima
            as pupilas.
 
 
III-TEMPLOS DE AÇO
 
Templos de aço, trilhos sobre o pó.
Colinas de mármore lambidas pelo fogo d’um amarelado cinza.
“São tantas as almas em procissão!”
Uma espessa neblina.
Danças, sorrisos, enorme povo se aproxima:
“Ei-lo! O senhor morto! Eis que vacila!”
Estatuário tomba.
Pedaços de carne viva.
 
 
IV-INSÔNIA CONSENTIDA
 
Insônia consentida,
máquinas terríveis queimando
as barrigas dos dormentes na ponte.
Ilusão de ótica, rodopio de flechas,
a noite nebulosa.
Caminho a um passo assassino,
entre rochas,
de metais à flor-da-pele,
rosas.
Todas as coisas sensíveis ao toque.
Abro o olho de uma imagem apodrecida na memória.
Os pés sangram.
Noite infinita por onde ando.
E beijo estátuas.
 
 
V-DESCIDA
           
Luzes fugidias de aço cintilante,
punhais metálicos de frio,
melancólicos pontos cortando vastidões.
Tristes senhoras cingidas de véus,
nuvens,
lançando-me olhares,
atroz.
 
“Sombria sensação”.
 
Subida ao cadafalso.
 
A contemplar,
filão de cidades re-esquecidas,
pulsos ratificantes,
rasgões de seda no véu da nuvem-estrela cinza
mesclada de chuva
de noite vestida
O parapeito aberto de mármore
os braços apontando,
direção.
 
“O vento sente o cheiro da carne.
E o meu suspiro é beijar-te”.
 
“Sombria sensação”.
 
Descida.
 
 
VI-CANTO-DANÇA
 
Danças da carne, sangue.
Cruéis como são todos os amantes.
(Dar de comer ao fogo,
 “Oh, decrepitude sonhada!”)
 
As noivas distantes.
Ouço chamá-las os homens.
(“A eternidade alcançada”)
 
Fúrias são os lamentos das jovens.
Gemidos tonitruantes.
(“Tudo é perdido,
o próprio instante.
A infinitude encarnada!”)
 
Erguem-se as cruzes.
“Imolação”.
Calma e volúpia.
 
Erguem-se brados como animais selvagens.
 
Luta, luta, luta
 
Adoração.
 
 
                                                                       -Mar,
amplidão.
Noite perdida.
Ilusão.
Alvorada de sangue, rasgando.
Encardido silêncio. 
 
 
VII-FRÁGIL DESESQUECIMENTO
 
Lua majestosa ou sol estival.
De novo aos pés do bronze
és ridícula esmigalhada.
Ah, adorno dos deuses,
ó prantear das estrelas
a tingir de luz o firmamento!
Frágil desesquecimento,
na melhor das hipóteses,
cálida,
quem tremeria ao som
dos teus rugidos-tambores?
 
Pores do sol,
manadas de elefantes,
tísicos amantes,
róis da tua alma,
filha imprópria,
hora-errada,
sentimental ignara,
atéia-fogo por instantes.
 
Ver surgir a noite clara,
túrgida de sangue,
lua opala os teus pensamentos rudes -
quando a tua mão afaga,
onde os teus olhos se escondem?
 
 
VIII-ANAXIFORMINGES!
 
Olhos de chumbo ou mel, beldades
sobre a terra
cantam as macieiras
que foram perdidas
na flor
da idade
soluços como água, vento
cortando as feridas
lanças de aço e PÓLVORA
-nenhum lamento.
Saem ao meu encalço
O cão e a hiena.
Pasmo, plasmado, acena:
“Mas rompam-se os tendões!”
Morno cai no chão
(com gáudio e estardalhaço)
“Quando os ramos negros da noite
tocarem seus cabelos,
ANAXIFORMINGES!
Olhos fixos no firmamento;
são minhas lágrimas,
águas turvas que se juntam a nuvens pálidas
-num dia cinzento.”
 
A procissão corria bem,
graças ao acaso
dos lábios que roubaram
os frutos da cerejeira.
 
 
IX-VISÃO MIRACULOSA
 
Aonde andarão os gigantes sibilantes d’outrora?
E os salteadores da orla-marinha?
 
Admirável de se ver!
Visão miraculosa,
a cornucópia rediviva
seres de água, espantalhos
de palha dançando
em volta de olhares e ouvidos
balançando as nuvens
olhos vesgos sob o céu
de um azul límpido e puro
avança o sereno
homem encarcerado
“Custa-me o ardor da luta
Essas cicatrizes não pagam
O que me foi ofertado é pouco
O corno dos deuses dourado”
 
O corpo fundido em dois
Trespassado de luz
Gravitam em torno de si
Gigantes e nibelungos.
 
 
X-PÓLEN REFLORESCIDO
 
“Ah, o étereo vento!
A borboleta petrificada de luz
em pleno movimento
a pender do galho!”
 
-O pólen reflorescido,
a copa das árvores,
noite que tudo escurece-
 
“Eleve-se pois das alturas!”
 
-Raio ou relâmpago,
risco de fogo,
limalha de céu oculto,
explodem as estrelas.

 


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POR EM 03/06/2008 ÀS 06:37 PM

Balada para um morto ( parte 3)

publicado em
LIVRO PÓSTUMO
PUBLICADO AO REVERSO: Epílogo-Parte 4-Interlúdio II-Parte 3
 
 
I-PELES SUJAS DE GELO
 
Peles sujas de gelo
No meu camarim carmim
Dilatam-se pupilas
 
E peles apodrecidas.
 
 
II-CINZA O CÉU
 
“Cinza o céu, cinza eu, cinza
o espaço.
Abrem-se num abraço
o firmamento e as estrelas.
Deus!
Carniceiro e carrasco,
aqui em baixo,
sofrerei de todas as maneiras
 
O fio da tua espada.”
 
—Vem o vento e anuncia.
Pássaros tombam pesados.
O que era belo morria.
E ele anda:
 
“A perfeição engana.
Estás só!”
 
 
III-A QUEDA
Amante do vento,
a sua lembrança
o trouxe de volta:
 
“A morte, a guerra,
tudo foi em vão.
A primavera, a relva
florindo pelo chão.
A luz, o calor do sol ressequido,
as minhas mãos trêmulas
anseiam por -
TERRA.”
 
E então ressuscitado:
 
“Anda a pé o soldado!
Dos deuses ignorado,
a missão é cumprida:
Vida,
restituída a ilusão!
Novas canções serão ouvidas.”
 
 
IV-CANÇÃO DA TERRA
 
A árvore esconde debaixo de si
Os maiores tesouros
 
Todos os amores tornam a terra
 
Até a morte desde o nascedouro
 
Se esforçando o homem erra.
 
 
V-CANÇÃO DO SOL
 
Abro minha alma ao sol
Monstro florido e róseo
E eu pálido de amores.
 
 
VI-VENTO
 
“Vento, ah, vento!”
—Sangue fresco sobre o chão.
 
 
VII-CANÇÃO DA CHUVA
(O afogado)
 
Alimento divino, o infortúnio lamenta
Na vaga profunda, a insustentável tormenta
E naus à deriva o têm navegado
O oceano, mar de chuva, senhor e escravo
Tantas vezes ido e tornado
Furacão e sombra:
 
“A noite escureceu o abismo
Agora sinto em meu peito o gosto salgado
O mesmo amargo que há em minha língua,
Corrente ou força divina
Do horizonte me há arrastado.”
 
As fontes sobem os cimos mais altos
E depois desabam.
 
 
VIII-CANÇÃO DO NAUFRÁGIO
 
“Álcoois!”,
sussurram em pranto os mortos
de sede e
fome
naufraga a nau -
estilhaços e rastros
de sangue
nos lençóis
 
 
(e zune
-dormita-
a mosca tapando um
buraco de sol
por onde trafegam mastros
de cores cintilantes e onde
marujos bêbados ainda
entoam canções.)
 
 
IX -ESTAR PRONTO É TUDO
Readiness is all” – Hamlet, Ato V, Cena II
 
Arde um gosto acre ao respirar as narinas
de cavalo avantajado em fuga
A fumegar —nuvens de areias escaldantes
 
(Retorcidas as últimas apedrejadas
primaveras intactas)
 
Toque ao celebrado momento o galope
que como um raio vem retirar-me
e lançar-me no imenso teu corpo vazio
 
(Uma lembrança há muito regateada
um abraço, forte como um coice -
em disparada):
 
“Habituado que estou a pisar em espinhos
não reconheço mais o odor das flores.”
 
 
X-MOLUSCO
Ferro brasadormecida
crostas e encostas enegrecidas
Eu!
pétrea-estupidificada
ensandecida
brutamolecida
rosa
“molusco”.
 
 
XI-RARO
 
Pesada a fronte
Como por um raio
Iluminada a noite
 
                         RARO.
 
Ao pé do monte.
 
 
XII-À VISTA DO CADAFALSO
 
À vista do cadafalso
pistas, sons, assim
e s p a c i a l i z a d o s -
Esse sangue coagulado
em minhas mãos
Um lago sem fim
 
Borbulhando.
 
 
XIII-O CAMPO DE BATALHA
 
Falsificada,
combalida e nua
(ou apenas como im-
pura poesia)
a verdade esmagada
ressurgirá do pó
em que foi lançada
—junto com o tempo—
e essas palavras
—insones.
 
 
***
 
 
Uma pura mentira,
feita de nada
-Mas como brilha!

 


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POR EM 20/05/2008 ÀS 10:20 AM

Balada para um morto

publicado em

 

LIVRO PÓSTUMO
PUBLICADO AO REVERSO
 
INTERLÚDIO (2) (PEQUENAS BALADAS)
 
1-QUERER SER OUTRO
 
Querer ser outro
Cortar campos e comer trigo
recém-colhido
pela mão -
 
Ir ser infeliz em outro
Canto.
 
A magia?
A magia é estar vivo
para o mundo
Dizer para si mesmo e bem
alto:
 
Eu valho tanto,
que me acalmo
em ser eu mesmo.
 
 
2-ESPERO (DOCE SEGREDO)
Espero
Que mais espero?
Desespero que
a folha seca bata de novo
à porta de gelo.
 
E em linguagem clara
 
-aos olhos bárbaros
de cimitarra-
 
Faça falar
 
(Doce segredo).
 
 
3-PÁRIA
 
E o mar que nunca chega
à essa praia gelada?
 
Não reconheço o sal
dessa água
Pária, nada é minha
morada
Tudo é só pó,
estrada
Que eu nunca
pisei.
 
Todas as ilhas distantes
Todas as caras pálidas
 
-E apesar de ensolarada
a alma-
 
Um porto fechado
Pronto para partir.
 
Nunca alcancei o outro lado.
 
 
4-PALCO (PARA DENTES AFIADOS)
 
Não,
Essa ânsia não será interrompida.
 
Nem essas cadeias de aço.
 
Procuro um palco,
Dê-me espaço,
         eu lhe mostro os dentes.
 
Eu bebo essa água ardente.
 
Eu não meço o grau das palavras.
Eu não procuro o Graal.
 
Eu não peço escravas
 
Peço almas
 
Peço salvas
 
De palmas.
 
 
5-CAOS
 
Você,
que organiza e
desorganiza minha vida
Você
 
C
                   A
                            O
         S,
 
         Mulher,
dócil e agressiva,
que fiz eu para
te
des-
merecer?
 
 
6-RIVERRUN
"—Quem agora cem rimas não tiver,
Eu aposto, sim,
Estará perdido!"
(Nietzsche)
 
 
 
Aqui rolam-se
essas pedras
num passar de águas
claras.
 
Aqui pranto e
acalanto
se irmanam
em ribanceiras
rasas.
 
Para onde o refluxo
(quando acaba)
qual nascente
         hino,
            sagra.
 
 
7-QUADROS
 
Tríptico de Bacon
 
I
 
O que esconde esse teu rosto
Que não podemos fitar?
O que procuras dissimular
exilada num córner qualquer triangular
e encurvada?
(Uma ressaca brava...)
 
Por que olhas esse ponto, por quê?
Porque pareces querer voar
-mas não podes-
anjo torto
e contorcido
a lembrar uma mulher
 
que amamos um minuto antes
de nos desesperar.
 
 
 
II
 
De olhos vendados
A Fúria
GRITA
 
Seu nome
 
Um passeio pelo paraíso ou
Inferno
de delícias.
 
 
 
III
 
Grita mais
Grotesco piano de cauda
Em carne e osso
A espatifar melodias
de som mudo pelo ar
Grita
 
de dor, alegria, remorso, culpa
ou gozo
ou apenas
Grita.
 
 
 
8-TIRÉSIAS
NÃO, POETAS
vocês não são Tirésias,
mas falsos
profetas
a embalar os homens
em seus versos mel-
odiosos
 
Não, vocês também
não são
pássaros-
 
Porém, cuidado!
A esses,
de vez em
quando,
le perforan
los ojos
para melhor ouvir seu
canto.
 
 
9-FÁBULA
No alto daquela montanha
à noite gris
no meio de
nenhum lugar
há pássaros
de pio lento
e raro
estofo negro &
pálido
matiz-
que voam longe
e só pousam
para descansar.
 
 
10-QUALIA
 
Entre prantos
-quantos?-
Panos sujos
-brancos-
-pântanos-
Passeia a alma.
 
Rara,
qualia,
-e adorada.
(Até quando?)
 
 
11-EM FRENTE AO MAR
 
Numa praia em frente ao mar
Um homem e uma mulher
Brincam de ser eles mesmos
A noite toda e o dia seguinte
Entre conchas, e bancos de areia e pedras e restos de ondas
Inutilmente
 
Só é verdadeiro o mar.
O homem, a mulher, e o promontório não existem.
 
 
12-VERÃO
 
Porque eu não posso esperar retornar
A esse verão ardente
E as palavras caem da minha boca
Como pétalas esmaecidas num jardim de inverno
(As palavras já caem velhas)
Nisso eu não creio, porém persigo
Os poetas só podem ser profetas de si mesmos e adivinhar
Seus próprios destinos. 

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POR EM 13/05/2008 ÀS 11:29 AM

Balada para um morto

publicado em


 

(PARTE 4)
LIVRO PÓSTUMO
PUBLICADO DE TRÁS PARA FRENTE
-POESIA ACIDENTAL-
 
 
I-VELA LEVE (TUDO DE NOVO)
 
Agora vem à vela,
O peso lasso
Um passo em falso e
            tomba
Levanta & voa
Como se fosse um pássaro
A rir à toa
Tudo de novo/vivo ou
morto
Ao amanhecer do
dia:
 
“Nada há de tão ralo
Que não permaneça
A todo lugar disparo
Sem que de mim me esqueça”.
 
 
II-REINAI NESTA CANÇÃO
 
“Tanto lido, tanto
Campo em que vagueio
Sem mar, sem norte, sem estei-
O meu canto de morte/ressur | rei-
   ção, santos os devaneios
De um homem são | Ai | n-
   da sem nome-entoa | Es | st-
   a canção.”
 
 
III-ROSAESPINHO
 
Rosaespinho, rosalegre, rosa-defunto
Rosa, e ele dança
Cor, cheiro, unha, leve
Como uma cerveja weiss
 
“O presente rudemente intervém
Agora nunca mais -evapora
E já -mais retorna
 
Outra fibra
(ou libra)
(ou pint of beer )
-Admirável!
A vida não foge -
Vibra.”
 
 
IV-BROKEN BALLAD
 
Uma balada como qualquer outra
Uma balada solta, louca
Costumeira e arredia
Que interfira nesses dias em que
               Chovescorre uma matéria mole
      Da janela que avista o dia
Broken-ballad
Uma balada alegre que brote
Deste peito enorme-inerme
E explode irradiante
Da beleza ajoelhe e açoite
Se provar for ela belaamarga dama
Broken-ballad
Sem razão de ser alguma
Uma balada como essa
Traga de novo a fonte
Que recomeço algum acaba e
(Traga) como poesia-água esfumaça e
Funda e corre e (solitária)
Soa.
 
 
 
V-DEMÔNIOS, BLAKE
 
Demônios, Blake
trombetas, o oceano-sono
passeia nesta
tarde insana
que
sonha o som
com sede exangue.
 
 
VI- MALCOLM LOWRY (METAFÍSICA DE UM CÃO)
 
Por que volver ao labirinto?
Por que essa água revoluta e
caliente
esses olhos que não dão mirada?
Por que preferir estar com os mortos
-Malcolm Lowry-
do que vivos?
Porque a vida, ensimesmada,
me fascina
como um porto
que já não alcanço
à hora da partida
sempre ida e volta
não resolvida
e canto
feito um louco
por amá-la assim
mais ainda
      além
aquém
outro
      alguém
outra vida.
 
O passado sempre é tão mais intenso
e pleno
e cheio de sentido!
O presente,
não duvido,
é olvido
e névoa:
 
Sólo es real la niebla.
 
O futuro é ação
que se projeta
e se enche novamente
de passado
VIVO
labirinto
o tempo:
 
Metafísica de um cão.
 
VII-RITORNARE
 
Força herculínea
            Ou
            Frágil-
            Idade

            "Tenho uma galáxia dentro de mim"

            (Ri)

            "Ritornare".
 
 
VIII-ARDEANDA (O MAR-ANZÓL)
 
Vai balada, vai
Vê no cristal a fala, o teu fado
Canta!
O que te falta?
(Graça, riso, pranto?)
Vai!
Não foste?
Temes a carne?
Acaso não sabes?
Por mais afiada a faca
Não fere o covarde
Vai!
Ardeanda
Incendeia &
Dança
Alardeando versos tropeçando em chamas
 
Vai e fere
Feminina lâmina
Pluma temerosa em fender o espaço
               em branco!
                  -Improvável como um canto é
                     O mar-anzól
 
                        Verão nenhum ou coisa inanimada
                           Ruminar as noites insensível ao tato
                        O vento-nordeste esfriar as costas
                           Estremecer o asfalto alinhavar as caras
                       Laço ou ato, enfim, infindável.            
 
 
IX-PARTO/BARCO
 
Agora rumor novo transborda em
Insensato corpo
Parto/barco desmorto
Despai desfilho cego enfim ou
                                            louco.
 
 
X-POESIA ACIDENTAL
 
Esta poesia
Afunda
Os dedos na carne
E se entreabre.

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POR EM 10/05/2008 ÀS 09:46 AM

O verbo da alquimia

publicado em

 

Epílogo de Balada para um Morto (livro póstumo)
 
I-A PÓLVORA
 
A pólvora espalha o pó no campo de batalha
E eu só -pulha- à muralha,
 
Enamorado da hulha.
 
 
II-O VERBO DA ALQUIMIA
 
A palavra pólvora a zumbir nos meus sentidos
 
Não a pólvora, mas a palavra
Não a palavra, mas o som
Ecoa
Com uma balada, com uma balada
Ave-voa e
Palra / Paira
No ar
Um imenso fedor
Uma nuvem de enxofre & belo
                                                          Negror:
 
                         O pó
da palavra.
 
 
III-BARCAS BRANCAS (PINTURA)
 
Para além dos telhados
Bocas
Sôfregas
Barcas      Brancas
Ao largo
 
Que o furacão/cólera res-
   Suscita:
 
“À boca calada a aurora
Os passos as cordas vibram
O meu semblante oculto
Em surdo monótono ritmo EX-
               CITA!”
 
Não há mais nada agora...
 
 
IV-CANÇÃO DO NAVIO
 
Luzes no reboque
à praia
faroleiro louco
um signo superposto
                        ao outro
gira, tonto
                        cansado de tanto
girar
 
Não importa os mares   distante
o navio tem de singrar
não importa a distância
                        a ânsia
de chegar
                        a nenhum lugar
 
 
V-CANÇÃO DO RIO
 
Como a um rio acorrentado
Forçado a ir em frente
Mas, sendo ele capaz, de
Com seu próprio pulso
Mudar o curso
 
 
VI- CANÇÃO DO INSTANTE-DISTANTE (Lírica)
 
 
Canto, pois não me contento, diante do espaço vazio, contemplar
O vento, a lua -milha que flutua- em ascendente posição
Sob a névoa amarela, poluída e bela, no céu-oceano
Trespassar o aero/plano, sem que os apanhe!
 
 
VII-CANÇÃO DA ÁGUA
 
Uma canção, talvez a última
Antes que o domo azul escureça
 
O poema findará em harmonia
 
-Disperso, o meu guia será
       também o seu guia
 
                        Água que a noite esfria,
                        Mas não esfria o meu verso.
 
 
VIII-ELEGIA (OUTONO)
 
O sol no topo dos edifícios
-Na parede de tijolos
Tremulando,
As sombras das árvores que brincam
Com o vento:
 
Outono.
 
Elegia, meu Deus, para quê, elegia?
 
 
IX-ENVOI (A QUATRO VOZES)
 
Canta a estrela mais baça
                                                           No universo frio e profundo
Um canto cheio de graça
                                                           (Um murmurinho mudo)
E na floresta mais densa
                                                           O animal vil e imundo
Canta também um poema
                                                           De sangue, gemido, e uivo
 
Assim como tal o poeta
                                                           Um dia vagando sem meta
Embora estranho pareça
                                                           -Antes de apodrecer-
Ergueu a sua cabeça
                                                           A plenos pulmões gritou
Para si mesmo esquecer
                                                           Seus versos de ódioeamor.

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POR EM 30/04/2008 ÀS 08:34 AM

Post Scriptum

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Fragmentos de Balada para um morto (livro póstumo) 

 
Havia eu me perguntado se acaso existe caminho sem volta? Pois bem, tomei a direção errada. E o destino providenciou-me os espinhos. Ah, mas são frutos tão doces esses ainda em floração na primavera! E assim também o são no estio... E nessas noites maravilhosas! Em que a dor é infinita, como corpos se abrindo em direção ao espaço, livres de todo empecilho. Que esvoaçam antes mesmo de terem tempo de tocar o chão. Mortos em pleno vôo. Em ascensão. Que as flores floresçam! É obrigação da natureza arrancar-lhes à vida. Mas serão sempre essas raízes tuberosas... As mortas de solicitude. Ah, e em abundância! Contas de um terço estelar. Estrelas fúnebres da paixão. Irreconhecíveis em seu féretro moribundo. Essas vítimas assassinadas do amor. A falência de todas as horas. Esse inconstante cessar. As últimas a serem disciplinadas. Tormentosa sirene de corpos na escalada da noite! Vapores, suores, mendigas dores. A longeva certeza cravada no seio. Intacta. Alma mater amorosa. Senhora de todos os seres. A borboleta que pende do galho petrificada, em movimento etéreo. Que rumor dissolvido em silêncio! E a indiferença que tudo isso causa. Como cansam as contemplações! “Contemplar te é proibido!”, assim falam os guardiões. Figuras patéticas alucinadas por um raio de luz, em seus claustros pálidos. Como tremem e arquejam por sentir. Ah, quando ultrapassadas as últimas alegrias, quando logradas as últimas solicitudes, o que sobra de nós nesse momento? São divagações tolas... Mas deixem-me agir! Aqui o sacrifício ainda é recebido com homenagens. Pelo menos em reconhecimento ao esforço titânico. O tirano único que ousou conhecer! Quando irradiam as funestas luzes, no umbral da porta quantos se voltam? É injusto que clamem por ti? Ah, o notório esquecimento! Tantos tormentos irreconhecíveis. Como lavrar a alma do sofrimento? Tenebroso fim... Funéreas virtudes do por vir. A necessidade plena dos amores, vícios, solitudes, tristes amplitudes. Os canhões impotentes ainda regurgitam balas, de pólvora seca. A necessidade premente, as vantagens alucinatórias. Rompe-se o dique que estava seco de água. E por amor ao paradoxo, deságua. Perdição eterna! Vozes que se somam a outras menores. Calores terríveis. Distanciados dos tempos, os relógios param. E em marcha lenta tocam em surdina. À noite, removendo templos...
                   
Teria enfim, qualquer consequência?
 
 
CANTO-DANÇA
 
Danças da carne, sangue.
Cruéis como são todos os amantes.
(Dar de comer ao fogo,
 “Oh, decrepitude sonhada!”)
 
As noivas distantes.
Ouço chamá-las os homens.
(“A eternidade alcançada”)
 
Fúrias são os lamentos das jovens.
Gemidos tonitruantes.
(“Tudo é perdido,
o próprio instante.
A infinitude encarnada!”)
 
Erguem-se as cruzes.
“Imolação”.
Calma e volúpia.
 
Erguem-se brados como animais selvagens.
 
Luta, luta, luta
 
Adoração.
 
 
                                                                       -Mar,
amplidão.
Noite perdida.
Ilusão.
Alvorada de sangue, rasgando.
Encardido silêncio.      

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POR EM 25/04/2008 ÀS 02:44 PM

Spleen e ideal

publicado em

Porventura posso eu ter roçado de leve a curiosidade do hipotético leitor destas mal-ajambradas linhas, quando evoquei um poema de Baudelaire na última coluna, ao tratar das garrafas PET que um ser bem intencionado e auspicioso, sob a égide de arte conceitual ou “de protesto”, mandou plantar às margens nada plácidas do rio-esgoto Tietê, que bem podia se chamar Anhanguera ou diabo ou Hades - ou o principal dos seus rios, na mitologia grega: Stix, “a repugnante”, um dos espíritos fluviais (as filhas de Oceanôs).
 
Faz pouco tempo, foi ontem, o meu sogro, atualmente com 62 anos, praticava remo no Tietê-Stix, um pouco antes as pessoas nadavam. Houve um tempo, dizem, que se pescava. Esse rio estupendo penetra o Estado de São Paulo e quilômetros adiante ainda vive no interior, miraculosamente, com águas quase puras.
 
O poema chama-se Spleen. Recitava para mim em voz baixa, dirigindo devagar. Voltava de uma estada no campo, longe nas serras. Chovia, pouco, uma casca fina e gelatinosa, quase sólida, envolvia as janelas do carro e alguns seres humanos dignos de pena se arrastavam às margens da rodovia. A noite se elevava projetando sombras nos edifícios ao longe e nos casebres dos crentes filhos de Deus empilhados em volta, ameaçadora e cinzenta, escorregadia como um muco, escorrendo à medida que eu adentrava, rumo à luz, a cidade-cemitério, armada de cimento e os seus cheiros, tão adoráveis ao olfato de um cão, intraduzíveis.
 
Transcrevo, na tradução de Ivo Barroso, que é a que está à mão, o poema de Baudelaire:
 
Quando o céu plúmbeo e baixo pesa como uma tampa
Sobre o espírito exposto aos tédios e aos açoites,
E, ungindo toda a curva do horizonte, estampa
Um dia mais escuro e triste do que as noites;
 
Quando a terra se torna em calabouço horrendo,
Onde a Esperança, qual morcego espavorido,
Sua asa tímida nos muros vai batendo
E a cabeça roçando o teto apodrecido;
 
Quando a chuva, a escorrer as tranças fugidias,
Imita as grades de uma lúgubre cadeia,
E a muda multidão das aranhas sombrias
Estende em nosso cérebro uma espessa teia,
 
Os sinos dobram, de repente, furibundos
E lançam contra o céu um uivo horripilante,
Como os espíritos sem pátria e vagabundos
Que se põem a gemer com voz recalcitrante.
 
- Sem música ou tambor, desfila lentamente
Em minha alma uma esguia e fúnebre carreta;
Chora a Esperança, e a Angústia, atroz e prepotente,
Finca em meu crânio penso uma bandeira preta.
 
 
* * *
 
As garrafas PET infláveis, feitas de vinil, serão ao cabo de alguns meses de “exposição”, desmontadas e submetidas a um processo de higienização e em seguida transformadas em duas mil mochilas a serem doadas a estudantes. A higienização é necessária, por causa das bactérias, fungos, vírus e sabe-se mais o quê a que ficarão expostas. Não seria melhor doar de uma vez o material, o qual, devido à ausência de uma coleta seletiva do lixo, de uma forma ou de outra voltará ao rio? Ou tratar os 32 mil litros de esgoto despejados ali por segundo (solução custosa para a qual seriam necessários investimentos muito maiores)?
 
Não, pois essa não é a lógica do espetáculo. Primeiro é preciso submeter ao fogo, para somente após, vencida essa primeira etapa de existência simbólica, ritual, estender a mão num gesto de generosidade que não passa de uma desculpa esfarrapada para aliviar a consciência da culpa e legitimar a inutilidade, a não ser para o próprio espetáculo, e as “boas intenções” do ato.

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