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POR EM 03/06/2008 ÀS 06:33 PM

Borges, o poeta

publicado em

Talvez todos nós nos lembremos de um escritor, quando chamados a buscar na memória aquele que primeiro nos impressionou, na vida. O nome que tenho em mente é o de Jorge Luis Borges, que sempre imagino ter lido antes de qualquer outro. Foi, também, o que me ficou como parâmetro de boa, de grande literatura; a descoberta desse mundo mágico, fantástico, dos livros. Durante um bom tempo, achei que ninguém no mundo escrevia melhor do que ele, talvez porque me identificasse com seu estilo, tão característico, e com problemas metafísicos (nessa mesma época, estava lendo Schopenhauer). Naturalmente, descobri que há autores tão bons e até melhores do que Borges, mas me recordo dele com maior carinho do que de qualquer outro. Foi meu primeiro clássico, criador de contos antológicos como Avelino Arredondo e o horripilante There are more things, do olvidado Livro de Areia.

Sempre ouvimos falar de Jorge Luis Borges, o grande ficcionista argentino, como autor de contos fantásticos. Foi como se celebrizou, ao lançar a coletânea Ficções, em 1944, onde se encontra o famosíssimo Pierre Menard, autor o Quixote. Como contista, Borges é amplamente devedor de Kafka, embora sempre se fale de sua formação literária como especificamente inglesa. Além de contos, relatos e ensaios memoráveis, Borges foi também um notável poeta – e começou como poeta -, um meticuloso artesão da palavra, sendo portanto curioso que nos reportemos a ele sem nos lembrarmos desse fato. Teve, nesse particular, a mesma sorte que Machado de Assis. O brasileiro, na coletânea Ocidentais, escreveu poemas tão bons quanto Álvares de Azevedo (salvo engano, de acordo com José Guilherme Merquior,
em De Anchieta a Euclides), e ninguém parece saber disso, senão os críticos. É um erro, imagino, esquecer de um escritor a parte menos célebre de sua produção, pois aí do mesmo modo podemos encontrar várias relíquias. Para entender: fosse apenas poeta, arrisco a dizer que Borges seria já um dos primeiros nomes das letras hispânicas e quiçá do mundo.

Borges tinha perceptivelmente uma angústia terrível em relação ao tempo. Era obcecado por este tema. Rio e Areia são figuras marcantes em sua obra poética, e boa parte de sua poesia é uma variação dessa obsessão, que conduz à certeza da própria aniquilação:
 
Dos ciclos toda a areia é sempre a mesma
pois é infinita a fábula da areia;
e sob as tuas ditas e desditas
a eternidade incólume se abisma.
 
(...)
Não vou salvar-me eu, fortuita coisa
de tempo, que é matéria degradável.
 
De outro poema, não por acaso chamado Heráclito:
 
Que rio é este
pelo qual corre o Ganges?
Que rio é este, cuja nascente é inconcebível?
Que rio é este
que arrasta espadas e mitologias? 

São imagens fortes e precisas, alguns dos versos mais belos que há escritos sobre o tempo e a corrosão de nossas vidas. Na coletânea O fazedor, temos alguns poemas que revelam um Borges cultor das formas tradicionais de composição, lembrando-nos nosso Manuel Bandeira, que, embora modernista, não desamparou os esquemas métricos cultivados no passado. Vemos isso no poema Arte poética, revelador de um artista cujo credo último foi a arte, onde se resguardou do mundo e de suas mazelas corruptíveis:
 
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.
 
... reiterado nesses versos de exímio sonestista, em homenagem a Camões:
 
Quero saber se aquém dessa ribeira
Última compreendeste humildemente
Que quanto foi perdido, o Ocidente
E o Oriente, a têmpera e a bandeira,
Perduraria (alheio a toda humana
Mudança) em tua Eneida lusitana. 

Borges, ao contrário de outro gigante latino-americano, Octavio Paz, não foi homem de ação, como bem lembrou o crítico uruguaio Emir Rodriguez Monegal (cf: A poética de Borges). Era um cético, que parecia não acreditar que pudéssemos ser os responsáveis pelo nosso próprio destino, traçado pelos deuses ou por Deus. Não dava muito importância à história e a peleja humana, exceto como mistérios de nossa condição. Daí seu conceito de que “A história universal talvez seja a história da diferente entonação de algumas metáforas.” (A esfera de Pascal). Não é à-toa que outro tema eleito por sua poesia seja o destino, que nos conduz ao seu bel prazer sem que possamos oferecer-lhe resistência; sem que possamos fazer nada. Borges não parecia acreditar, de jeito nenhum, no livre arbítrio. O passado, e não o futuro, é que era o tempo em que acreditava – se é que este discípulo dos empiristas acreditava
em algum. Eis um encadeamento revelador dessa convicção:
 
                         É de ferro teu destino
como juiz.
 
do poema Labirinto, e dois versos no mesmo diapasão de outro, Xadrez:
 
Que Deus atrás de Deus o ardil começa
De pó e tempo e sonhos e de agonias? 

Platônico, nada nele é real ou tem sentido por si mesmo: tudo é símbolo; tudo remete a outra coisa, tudo é reflexo, projeção, espelho de outra realidade, uma supra-realidade, provavelmente melhor do que esta, desbotada e melancólica. Dizia que queria morrer completamente. Não, não era otimista, mas tinha o poder de encantar, de tocar o que há de mais nobre em nossa sensibilidade. Dizem que O golem é seu melhor texto lírico – cujo teor é cabalístico -, mas, de todos os poemas de Borges que conheço, o que mais me emociona é Outro poema dos dons, que diz assim, entre outras coisas:
 
Graças quero dar ao divino
labirinto dos afetos e das causas
(...)
pelo rosto de Helena e a perseverança de Ulisses
pelo amor que nos deixa ver os outros
como os vê a divindade
(...)
pelo mistério da rosa
que pródiga cor e que não a vê... 

Embora refratário à história e à luta – se tanto, desenhava indivíduos armados ou bandoleiros, como os irmãos Iberra e como Jacinto Chiclana – e tenha feito de si um lírico, Borges é o nosso Homero, digo, o Homero da latinidade americana. Como sabemos, também foi cego, e prodigou-nos imagens de sonhos e de rara beleza. Ele certamente teria muito orgulho em ser identificado como poeta, mesmo que ficasse só como autor de ficção. Poeta é certamente o título mais honroso que se dá a um artista (não só escritores), síntese – ou símbolo - do próprio trabalho artístico, que consiste
em criar. Borges foi um, no mais pleno sentido da palavra.

Privilegiados os que leram sua poesia.


 

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POR EM 06/05/2008 ÀS 11:00 AM

O Brasil Visceral de Euclides

publicado em

A literatura brasileira tem, como a de qualquer outro país, livros grandiosos, seus clássicos dos clássicos, talvez três ou quatro de cada gênero, se tanto. São livros de consenso praticamente universal, que não dependem apenas de gosto e submetem, com sua autoridade, as tão festejadas listas pessoais. Os sertões, de Euclides da Cunha, é certamente um desses livros.

Imagino que se por algum motivo justifica classificá-lo entre as interpretações originais do Brasil, este motivo há de ser a exposição, pioneira, da face trágica de nossa nacionalidade, sem nenhuma economia ou pudor. Euclides abriu a cortina com que nossas elites procuravam encobrir algumas verdades incômodas acerca da realidade brasileira. Nenhuma outra interpretação nacional foi, nem de perto, tão enfática neste sentido. Pelo menos Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre – tão diversos noutros aspectos, embora partilhando o historicismo - preferiram tematizar nossa docilidade pouco afeita à idéia de conflito, de ruptura social, revelando um imaginário bastante eficaz: nos ofereceram, ao contrário de Euclides, um brasileiro de espírito muito mais cômico que trágico, pelo qual ainda nutrimos um indisfarçável orgulho. O eminente historiador paulista reconheceu que a propensão afetuosa vinculada a esta mentalidade é normalmente falsa e indesejada, tendo sido causa do conflito entre público e privado, no Brasil.

Sérgio Buarque e Gilberto Freyre, este com nostalgia, aquele com ânsia, fizeram um discurso de conciliação nacional, só não batendo sua fórmula política, pois um era conservador e o outro liberal-democrata. Já em Euclides não há conciliação possível: os fortes hão de debelar os fracos, inevitavelmente, porque esta é uma lei natural. Foi assim que se dedicou, na virada do século XIX para o XX, a uma questão política instigante e nunca antes dissecada: a violência. Os sertões é de tal modo enfático sobre esta questão que não há nele uma só nota de bom humor: ali a presença humana em nenhum momento altera o tom geral de gravidade, só amplificado pelo meio ambiente infernal da caatinga. É incapaz, por isso, de refletir os mais divulgados ingredientes do ethos nacional, pelo menos de acordo com aqueles que terão sido nossos dois maiores mitólogos no século XX, os quais só fizeram realçá-lo no panorama do ensaio social brasileiro. Não significa que Euclides tenha se enganado: significa apenas que se oferece como contraste proveitoso a leituras mais condescendentes sobre a formação de nosso caráter.

O que fez Os sertões de mais importante foi revelar que nós, brasileiros, somos trágicos como qualquer outra sociedade belicosa, sem a ilusão de que somos pacíficos por natureza. Um inventário das guerras ocorridas neste país, muitas das quais desferidas contra a própria gente brasileira – índios, negros e mestiços – prova-o incontestavelmente. Contando os silvícolas dizimados, é provável que superemos o milhão de mortos em conflitos diretos, em conseqüência da ação truculenta do Estado, desde a criação do Governo-geral, em 1549. Foi por isso significativo que Euclides da Cunha tenha criado a imagem crucial da “Tróia de taipa”, alusão que enforma a resistência homérica de um povo contra a vilania de seu agressor, aqui simbolizado pelo horripilante “minotauro de seis mil estômagos”, que é o modo com que, a certa altura do terceiro capítulo, A luta, descreveu o nosso exército. Os militares, é bom que se diga, foram apenas a ponta de lança de um corpo político e social carcomido pela situação de profunda desigualdade, como diria o autor, gravíssima!
 
Devassar Os sertões é descobrir que, além de doces e hospitaleiros, nossa têmpera é também cruel e intolerante; portanto, que somos mais complexos do que normalmente imaginamos. É claro que o livro reflete uma época, quando o país se meteu em várias guerras nas suas províncias e fora de suas fronteiras. Estamos nos reportando à Guerra do Paraguai e aos combates no norte e nordeste do país que inspirariam Caio Prado Jr. a escrever, nos anos 30, outro retrato pioneiro de um país conflagrado, A evolução política do Brasil. O tempo passou, mas o conflito social denunciado por estes dois clássicos extravasou o Império e avançou República adentro, permanecendo sob diferentes formas: o inimaginável “minotauro de seis mil estômagos” serve de metáfora desta última forma de governo, desde sua proclamação até datas recentes ou mesmo atuais. O registro jornalístico dos conflitos agrários e da guerra civil desencadeada nas grandes metrópoles brasileiras, hoje, não é senão a transfiguração do drama perpetuado pelo correspondente Euclides da Cunha, há mais de um século.

Na reincidência continuada de fatos semelhantes em brutalidade, todos relacionados ao espaço público no Brasil, enxergamos a persistência da mesma causa secular: a incapacidade do Estado brasileiro em promover mudanças estruturais capazes de aniquilar o fosso que divide a mesma nação em duas metades em permanente tensão. É verdade que as coisas melhoraram nas últimas décadas, mas ainda somos um país de excluídos. Num determinado momento, a tensão existente no país, ainda colonial, foi entre reinóis e mazombos, e nela flagramos os primeiros indícios de coesão e espírito de nacionalidade, maturado pela guerra em pleno século XVII. Mas, uma vez declarada nossa independência política, as desavenças passaram a ser entre os próprios filhos da terra, cindidos principalmente pelas diferenças econômicas. É certo que, como bom naturalista, Euclides enxergou uma motivação fatalista e datada: a raça.

De qualquer modo, o que se quebra a partir de Os sertões é, então, a idéia de que constituímos um povo pacífico. A noção enganosa foi parcialmente herdada da formação positivista de nossas classes dominantes. Essa formação, de acordo com Octavio Ianni, “reitera a idéia do caráter ‘não-violento’ da história brasileira”, desdobrando-se no lema ordem e progresso, vindo a reincidir tardiamente, com espantoso vigor, no Golpe Militar de 64 (cf, do autor, O ciclo da revolução burguesa). De forma que a idéia, a priori simpática, é pertinente sobretudo como força de legitimação: só quando as elites atentam contra o Estado de Direito – se preciso contra setores sociais descontentes -, a violência parece aceitável e até necessária, e assim tem sido desde quando nos entendemos por República. Da mesma forma com que escamoteamos um racismo amiúde comunicado por piadinhas de mau gosto, somos capazes de velar nossa veia turbulenta, predisposta a burlar as instituições ou a acometer-se contra nossa própria irmandade. Com Euclides, o que passou a acusar a nossa boa consciência foi saber que a violência que praticamos era (e continua sendo) praticada entre irmãos, filhos de uma pátria amiúde madrasta, e isso garante sua atualidade.

José Murilo de Carvalho (em Os bestializados) pode observar que, já nos começos da República, a idéia de Pátria também identificava-se com os elementos afetivos e familiares, refratários àquela racionalidade que reclama o espaço público tão aspirado por Sérgio Buarque de Holanda, desvirtuando um ideário de pretensões universalizantes. Inaugurada pelos mesmos sentimentos personalistas de outrora, esta res publica não poderia, tão cedo, constituir-se num agregado de cidadãos, a implicar direitos e deveres mútuos. Teoricamente, manifestá-los-ia exemplarmente um ente abstrato, o Estado Nacional Brasileiro, capaz de prover os anseios legítimos da sociedade como um todo. Não foi possível, pois a formalidade jurídica sob a qual procurou assentar-se, a carta constitucional de 1891, tampouco resistiu aos imperativos de um caráter deformado, em que ausentava as mínimas noções de cidadania. Daí, podemos supor, a mania que tivemos (tomara, no passado) de rasgar constituições.   

Todos concordam que o que Euclides nos legou, em boa medida, foi uma peça de acusação, mas este caráter não resume Os sertões, livro suficientemente controverso para permitir conclusões unilaterais. Concordamos com Alfredo Bosi: 
“Os sertões são um livro de ciência e de paixão, de análise e de protesto: eis o paradoxo que assistiu à gênese daquelas páginas em que alternam a certeza do fim das “raças retrógradas” e a denúncia do crime que a carnificina de Canudos representou.” 

O tensionamento captado por essas palavras diz respeito à certeza de extermínio implicar num julgamento cientificamente conservador que eram as convicções do próprio Euclides; o que, paradoxalmente, resulta numa denúncia digna de qualquer consideração política de cunho revolucionário.

Euclides da Cunha foi homem de convicções positivistas, e sempre que pensamos no Positivismo como doutrina social e política se nos impõe uma história de tumultos. Enquanto ideologia catalisadora de algumas das mais importantes forças sociais que atuaram no Brasil, da segunda metade do século XIX ao século XX, o Positivismo até sustentou causas progressistas favoráveis a uma parcela da classe trabalhadora urbana, mas também se deixou levar por métodos extremos, e sua concepção de poder jamais logrou expressões verdadeiramente democráticas. De índole tutelar e autoritária, extravasou os limites da República da Espada e contaminou a ordem civil inaugurada por Prudente de Morais, chefe oligárquico responsável pelo mais traumático dos massacres da história brasileira: essa Guerra de Canudos. O extermínio de uma comunidade de cinco mil almas expôs às claras o nosso belicismo, bem como a incapacidade do regime republicano, mesmo quando de extração liberal, em incorporar à nação as classes humildes, problema crônico do novo regime no seu nascedouro.  

É por isso surpreendente que Euclides não corrobore a noção de “sociedade pacífica”, de acordo com uma das matrizes ideológicas predominantes na elite intelectual, política e militar brasileira, e da qual participa essencialmente. Pelo contrário: prefere enxergar essa mesma sociedade de forma crítica e não encomiástica. A literatura – e aqui pensamos a obra euclidiana em termos literários quanto científicos – nem sempre está ai para fazer exaltações: para isso existem as instituições religiosas, familiares, morais etc; mecanismos poderosos de criação e legitimação de modelos a serem seguidos. O artista, e tal foi Euclides da Cunha, não existe para cumprir este papel: seu sentido está na capacidade, que lhe é inata, de perceber as contradições do organismo social, suas anomalias ocultas, os desajustes individuais e coletivos que nela emergem por todos os lados, enfim, tudo aquilo que problematiza as relações que nos cercam.

Ao proceder à narração de um acontecimento traumático de nossa história, Euclides cumpriu bem este objetivo e tornou-se um dos primeiros intelectuais não só a problematizar como a se preocupar com o tema do povo brasileiro. Tão importante quanto ele foi outro autor íntimo do positivismo, Capistrano de Abreu. Seu livro, Capítulos de história colonial, surgiu logo depois de Os sertões, em 1907; nele, o historiador detalha a ocupação da extensa faixa litorânea e do sertão brasileiro, até os confins da região amazônica, revelando os conflitos, resistências e verdadeiras hecatombes provocadas pelo conquistador no contato com os silvícolas - tupiniquins e tupinambás -, sujeitos ao alvitre de portugueses, bandeirantes e jesuítas, infestando a terra com métodos hoje tidos como violentos quando praticados pelos excluídos.  

Como outro grande nome de nossas letras – Capistrano de Abreu - Euclides demonstra é que nem toda a intelligentsia instruída pelo Positivismo serviu aos propósitos oficiais nem participou de uma concepção de Estado que privilegiasse a violência como mecanismo apropriado de resolução dos seus conflitos internos, preferindo denunciá-la. Capistrano, de sangue indígena, não tinha particularmente nenhum interesse de vindicar as teses positivistas: “Por um ato de vontade e de contorcionismo teórico, nega-se o destino prefixado pelos cientificistas europeus, que afirmam a impossibilidade de uma nação civilizada nos trópicos e ainda por cima miscigenada.”(Cf.: José Carlos Reis, As identidades do Brasil) Isso fará, de acordo com os seus críticos, com que se afaste da matriz original de seu pensamento e realize sua melhor obra sob a guarita do historicismo, modelo que lhe permitiu enxergar a singularidade do processo brasileiro.

A inovação historiográfica germinada por Capítulos de história colonial só de forma mais problemática pode ser entrevista em Os sertões. Problemática porque Euclides, ora acusando a República, ora denegrindo a mestiçagem, denuncia ainda um olhar indeciso sobre a situação do homem sertanejo, embora seja estilisticamente muito enfático. Felizmente, este conflito não o leva a abdicar de uma análise muito pessoal que acaba, de uma forma ou de outra, redimindo os pretensos “inimigos” da República perante a consciência nacional. A despeito de seus preconceitos de formação – aquele amálgama de evolucionismo, naturalismo e positivismo -, quando Euclides atua como denunciante das instituições republicanas, pelo erro que cometem de análise da realidade social brasileira, e, conseqüentemente, pelo massacre que daí advém – oficialmente um ato “cívico e nacionalista” -, acaba enxergando seu país, como depois Capistrano, das vísceras para a epiderme. Foi assim que conseguiu, no limite, dividir opiniões até entre o pensamento marxista.
 
 
 

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POR EM 09/04/2008 ÀS 11:43 AM

Chávez: Atos e Conceitos

publicado em
 
Este ensaio tem a intenção de analisar o comportamento político do presidente venezuelano, Hugo Chávez, sem os habituais exageros de caráter esquerdizante ou direitista. Não se trata de amá-lo ou odiá-lo – risco permanente sob o calor dos acontecimentos -, mas de compreendê-lo historicamente, ainda que não tenhamos a distância necessária tampouco a ilusão de sermos totalmente imparciais. Adam Schaff (cf. História e verdade) já nos alertou devidamente sobre a ilusão deste propósito.

Nosso ponto de partida é uma reportagem - O clone do totalitalismo - da edição de 4 de maio de 2005 da revista Veja, órgão da imprensa dita conservadora, no Brasil. A opinião desta revista coincide com a de uma parcela expressiva de nossa população, ao associar o líder venezuelano a Fidel Castro, ao lado de quem aparece em destaque. Há, certamente, exagero em classificar Chávez como exemplo totalitário, mesmo que de esquerda: nos moldes clássicos, isso pressuporia pelo menos a existência de um único partido político em seu país, amparado numa polícia terrorista. Não existe uma coisa nem outra, na Venezuela. É questionável, também, a exploração da imagem pessoal do líder  fardado, com a intenção subliminar de enquadrá-lo entre os caudilhos locais, sugerindo uma possível vocação ditatorial. É certo que a farda é uma fantasia de mau gosto, em função da memória ruim que desperta nos povos latino-americanos, duramente oprimidos por sucessivas ditaduras militares no séc. XX. Trata-se do mais contraproducente elemento da estratégia de comunicação chavista.

Calçada nas opiniões do cientista político Adrián Gurza Lavalle, da Universidade Católica de São Paulo, Veja sustentou que “a Venezuela já não era um Estado democrático”, até aquelas circunstâncias, pelas seguintes razões: a) porque Chavez interferiu na autonomia dos poderes, ao nomear juízes de sua confiança, b) porque amordaçou a oposição, enquadrando-a no Código Penal, c) porque obrigou a imprensa local a autocensurar-se, d) porque desestabilizou o regime político e c) porque não respeitou a propriedade privada.

Em contrapartida, poderíamos com igual igual parcialidade omitir esses dados e dizer que Chávez foi eleito diretamente, em eleições livres, por três vezes consecutivas: em 1998, 2000 e 2006, sempre com maioria dos votos; que se valeu do referendo popular para aprovar a Constituição Bolivariana, em 1999; que se submeteu a plebiscito para permanecer no cargo, em 2004, e, finalmente, que colocou o cargo à disposição da Assembléia Nacional constituinte, em 1998 – quando, aliás, o Congresso local não era todo chavista. Significativo, recentemente acatou o plebiscito que democraticamente desautorizou a expansão de seus poderes. E daí? Justamente: daí que ficariam elas por elas, o dito pelo não dito. Com efeito, não se trata este do melhor método para se conhecer as intenções do presidente venezuelano, antes concluindo o óbvio: Chavez tanto cometeu aqueles atos denunciados quanto se submeteu aos últimos, com louvor. É, portanto, o produto das duas coisas. Necessário é, deste modo, compreender o sentido disso e ver de que lado pesa a balança – se a seu favor ou contra ele.

Para Ivo Tonet (cf: Revista Práxis, nº 8), a democracia se objetiva basicamente através do sistema político e do respeito aos direitos civis, políticos e sociais. Chávez talvez não satisfaça todas estas exigências, ignorando particularmente a alternância de poder, já que toma para si uma tarefa que supõe histórica - o que demanda tempo. Por outro lado, na Venezuela continuam existindo partidos e pluralismo políticos, parlamento e eleições periódicas. Trata-se, portanto, de um regime aberto, onde se resguardam espaços democráticos, embora não todos. Aliás, nem sempre se pode culpar o presidente vizinho pela imperfeição dessas instituições, em seu país. Citemos as eleições para o parlamento ocorridas em 2000, quando a oposição colocou-se fora do processo como forma de protesto. Ninguém se opôs ao seu direito de ir às urnas. Ao se negar este direito, todavia, a direita local favoreceu a formação de uma legislatura cem por cento governista, e se isso depõe contra o modelo representativo, não se pode atribuir a causa à situação.

A democracia é, conforme Winston Churchil, o melhor regime inventado pelo homem em sociedade. Certamente, entretanto, tal opinião diz muito pouco a todos nós, porque o conceito de democracia não é tão simples como o ato de simplesmente nomeá-la. Trata-se de saber de que democracia estamos falando, afinal. Há tantas democracias quanto teóricos do problema, de forma que a democracia defendida por John Stuart Mill difere substantivamente daquela em que acreditava Alexis de Tockeville, por exemplo. Vê-se por aí que nem mesmo nas trincheiras liberais há um consenso sobre a “medida ideal” de democracia! Para o último, a democracia, quanto mais ampla for, mais condiz com o despotismo e com a supressão da liberdade. Converte-se, pois, numa espécie de ditadura da maioria sobre a minoria e, no limite, sobre a autonomia individual. É a crença à qual se opõe o liberalismo mais radical, identificado com a preservação do individualismo, uma esfera que transcende o poder e o direito de interferência do Estado.

Talvez a maioria dos críticos de Chávez sejam, na verdade, mais liberais que democratas, um pouco à maneira de Tockeville. Aliás, isso não é novidade na América Latina, onde o liberalismo das elites de praxe se deixa acompanhar de métodos autoritários, não suportando movimentos de inclusão no processo político. Não é essa a história do Brasil? Na Venezuela, sabe-se que a opção chavista é pela democracia participativa – justamente aquela temida por esse tipo de liberalismo. É provável que as elites do continente se sintam mais confortáveis diante de um sistema político representativo, em que o poder se encontra menos difuso e seja mais susceptível à barganha dos interesses econômicos privados.
 
II
 
Se, mesmo assim, devemos concordar que a democracia venezuelana tem problemas (não é correto dizer que inexiste tampouco que é satisfatória), isto há de ser considerado à luz da revolução. Nossa tese é de que o processo revolucionário em curso naquele país – não estamos discutindo se vitorioso ou fracassado - impede o exercício pleno da democracia, ou pelo menos de uma democracia tipicamente burguesa. Teoricamente, os vários elementos de uma revolução estão configurados no quadro político-institucional venezuelano. Senão, vejamos.

De acordo com os conceitos analisados por Gianfranco Pasquino (cf. Dicionário de política, organizado por Norberto Bobbio), podemos qualificar o caso venezuelano como revolucionário porque a) promove profundas mudanças políticas (os movimentos e grupos sociais têm um peso decisivo em seu governo), juridico-institucionais (começou por reescrever a Constituição) e econômicas e sociais (assumiu o socialismo como meta), b) dispõe em alguma medida da violência para sustentar-se, no confronto com a oposição e c) porque conta com a ampla adesão dos setores populares, desenhando um quadro de clara ruptura social – basta ver as incontáveis manifestações de rua, na capital, Caracas. Sem contar que o exército não reprime a povo, entendido como os setores populares historicamente marginalizados. É claro, falta aqui um elemento supostamente fundamental: a tomada de poder via golpe de Estado, portanto violenta. Isto não aconteceu, já que Chávez chegou à presidência sempre por intermédio de eleições livres, democráticas e aliás sancionadas por observadores internacionais. Na prática, entretanto, a ausência de golpe não alterou substantivamente as conseqüências daquele processo.

Com efeito, é preciso interpretar todos os atos mencionados pela revista Veja por outro ângulo, em que possam ser compreendidos como necessários, ou seja, como atos de revolução, fase transitória em que a democracia é a possível. Conceitualmente, supomos que cada gesto listado pela revista materializa um ato desta natureza, e não se sabe onde houve uma revolução – isto é, um processo de desmonte institucional, político e sócio-econômico – em que tenha sido possível coadunar a idéia de revolução com a de liberdades democráticas plenas. Tomemos dois exemplos práticos, oportunamente burgueses: Napoleão e Getúlio Vargas. O corso fez exatamente como Chávez, assim que acendeu ao trono da França, em 1804. Entre outros gestos de autoridade, confiscou os bens da Igreja, instalou uma polícia repressiva e censurou duramente a imprensa de oposição. Diferente não foi na história do Brasil, quando se sabe que Getúlio fez quase exatamente o mesmo, por aqui, entre 1930 e 1945. Além disso, assim como Chávez nosso ex-presidente assumiu o poder três vezes, embora - pior que seu consorte crioulo -, se submeteu às urnas uma única vez, em 1951. 

Algo mais sobre a estabilidade política: em tempos de revolução não há que se falar nisto. Em apenas 12 anos, a Revolução Francesa converteu-se num autêntico rodízio administrativo: primeiro foram os girondinos, segundo os jacobinos, terceiro a Diretriz, quarto o consulado trino, quinto o consulado vitalício e só então, em sexto lugar, o império pessoal. A respeito da experiência getulista, embora Vargas tenha governado durante quinze anos o Brasil, enfrentou nesse período inúmeras rebeliões e tentativas de golpe, como a da Revolução Constitucionalista de 32, a da Aliança Nacional Libertadora, em 1937, e o golpe bem-sucedido dado em 1945 pelos próprios ex-aliados militares. Quanto a reclamar que Chávez não é democrático porque não respeita a propriedade privada, isso não significa necessariamente que seja contrário à democracia: significa, com certeza, que é antiliberal. Mas isto ele nunca negou. 
 
III
 
Por desmazelo ou por má-fé, já se disse na imprensa brasileira também que Hugo Chavez é um populista. Em Chávez, na verdade, há mais elementos totalitários do que populistas, propriamente ditos. De acordo com Edda Saccomani (idem), entre as características do fascismo – e, acrescentaríamos, do comunismo - incluem-se a) o culto do chefe, b) o dirigismo estatal e c) o controle da propaganda. É inegável que são três tendências facilmente identificáveis nas atitudes do presidente venezuelano. Tais são, aliás, as tendências que menos nos atraem em sua figura, como líder e como projeto. O fechamento da uma rede de tv no país poderia servir de argumento as seus detratores, salvo por um motivo: não se nega ao Estado, na ordem democrática, o direito legítimo e legal – previsto na Constituição, a exemplo do que ocorre na Carta Magna brasileira - de reaver uma concessão. Pode-se (mas essa é outra história) não ser conveniente o uso que o mesmo aparelho faça desta concessão.

Um parêntesis esclarecedor: a história do culto à personalidade é antiga e não nasceu com a esquerda moderna, muito menos com Chávez. Embora Mao Tse-Tung e o norte-coreano Kim Jong II se façam onipresentes na paisagem de seus respectivos países, estampados em impressos gigantescos ou erigidos em pedra, este tipo de culto começou com a expansão do capitalismo, embora tenha sido restrito ao gozo privado dos cortesãos. Os reis das principais cortes européias se fizeram retratar pelos artistas plásticos mais famosos da Europa, desde o absolutismo até a implantação do liberalismo burguês. O maior quadro existente no Louvre – 150 metros quadrados - é a representação da coroação de Napoleão I, em 1804. Jackes Louis-David, pintor oficial de Bonaparte, pintou inúmeros trabalhos exaltando a figura do imperador francês e, de certa forma, um ideal revolucionário. Sirva-nos de exemplo a tela O assassinato de Marat. Além dele, Jean Baptiste Ingres, Antoine van Dyck, Jean Fouquet, Diego Velásquez, entre outros, imortalizaram com seus pincéis a glória de diversos príncipes nacionais. Talvez Goya tenha sido o único que, ao ser convidado para cumprir este papel, melhor retratou a morbidez egolátrica de um rei, Carlos I, da Espanha.  

O mundo já não é aquele da nobreza européia ou da burguesia ascendente, tampouco suas motivações, mas a imagem não perdeu o seu poder de sedução. Muito pelo contrário: é a grande isca de nosso tempo. Numa sociedade espetacular como a nossa, onde a comunicação de massas cumpre um papel altamente destacado, Chávez abdicou dos pintores e, coerente com os mecanismos mais modernos e apropriados, lançou-se à televisão, à maneira de um pop-star ou, antes, de um apresentador de auditório. Repete, à sua maneira, a pantomima dos antigos burgueses. Nesta operação parece ter fundido com sucesso aquelas duas características de fundo totalitário: o culto à personalidade e o controle da propaganda (afinal, vende a própria imagem e a de seu governo, em pessoa). Outra vez, aqui, coloca-se o problema da dosagem, como no da democracia, e pode-se admitir que qualquer tipo de overdose desse gênero contraria o ideal marxista, onde a sociedade prepondera sobre o indivíduo – portanto sobre o líder, também. Ou será que não?

Não é lícito concluir que Chávez é um fascista por essas razões: não só a plutocracia é sua inimiga – todo o sistema capitalista o é – como ele estabeleceu para a Revolução Bolivariana o ideal socialista, embora, então, isto soe contraditório. Deste modo, materializou-se em seu projeto uma clara identidade ideológica, inimiga mortal do fascismo e desconhecida do populismo. O populismo não é uma fórmula revolucionária, não acredita em luta de classes, tem componentes racistas e prega o nacionalismo, ao contrário do que tem feito sistematicamente Chávez, ao exportar suas crenças para toda a região, com as francas adesões de Rafael Díaz e de Evo Morales. Não se deve esquecer, afinal, a herança de que se crê portador: o pan-americanismo de seu suposto precursor, Simon Bolívar – por ironia, um dos liberais mais importante da história continental!         

Certo, se Chávez pretende realmente implantar um socialismo de tipo novo, adaptado às necessidades do século XXI, não poderá jamais abrir mão da democracia – deve, isto sim, ampliá-la sem, contudo, ameaçar a liberdade individual. O liberalismo tem coisas das quais não se abre mão, como a conquista dos direitos humanos e a defesa de algumas liberdades fundamentais (expressão, reunião etc.) Com o fim do império soviético, em 1989, a esquerda mundial finalmente descobriu que a democracia não é, como se acreditava preconceituosamente, um “instrumento burguês”, antes um valor universal. Lembrando que o principal fator de desigualdade entre os homens é a defesa ilimitada da propriedade privada, encerremos este ensaio com uma oportuna citação de Norberto Bobbio:
 
“Para reforçar o nexo de compatibilidade (ou melhor: de complementaridade) entre socialismo e democracia, foram sustentadas duas teses: antes de tudo, o processo de democratização produziria inevitavelmente, ou pelo menos favoreceria, o advento de uma sociedade socialista, fundada na transformação do instituto da propriedade e na coletivização de pelo menos dos principais meios de produção; em segundo lugar, apenas o advento da sociedade socialista reforçaria e alargaria a participação política e, portanto, tornaria possível a plena realização da democracia, entre cujas promessas – que a democracia liberal jamais seria capaz de cumprir – estava também a de uma distribuição igualitária (ou ao menos mais igualitária) do poder econômico e do poder político.” (in: Liberalismo e democracia)
 
 

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POR EM 03/04/2008 ÀS 05:59 PM

O pico, da ante-sala

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Nunca li Ulisses, de James Joyce, salvo alguns trechos isolados. Para dizer a verdade, tudo o que conheço de autoria do irlandês se resume à metade dos contos de Dublinenses, a parte pefeitamente legível de sua obra. Soaria sem sentido falar sobre um livro que não se leu, mas se soaria é porque o texto presente objetiva refletir acerca de, não exatamente sobre, ao modo de quem estuda a montanha antes de nela subir. Não me arrependo de não ter avançado, haja vista que os comentários em geral são bastante conclusivos: Ulisses é demasiadamente complicado e cansativo, e não é preciso conhecê-lo inteiramente para concordar com o julgamento. Requer cabeça, tempo e paciência, isto é,tudo aquilo que infelizmente não temos de sobra.

Parto do princípio de que não compensa embrenhar num livro singular como Ulisses sem determinadas condições, até porque não é algo que se empreende uma vez a cada um ou cinco anos. Das duas uma: ou você lê e relê o livro para o resto da vida ou apenas uma única vez, graças às suas dificuldades intrínsecas. Otto Maria Carpeuax, depois de dedicar alguns meses ao galimatias, foi enfático: estava “firmemente decidido a aproveitar para outras coisas o resto da vida.” (cf. Ensaios Reunidos, vol.1). Não é à-toa, e a analogia sugerida acima me parece razoável: estamos falando do Everest da literatura, no século XX, de acordo com a crítica e autores de todos os meridianos – salvo, quem sabe, um ou outro Lobo Antunes.

Lobo Antunes, o festejado escritor português, zombou de determinadas exigências culturais ao declarar, numa entrevista a Edney Silvestre (Globo News), que lera mesmo foi Flash Gordon, e que isso é que era bom. Ex-adepto de quadrinhos de super-heróis, sou mais ou menos desse partido: não acredito que ninguém é obrigado a nada, nem mesmo a ler Ulisses. Pode ser uma infâmia, já que estamos falando de uma obra decididamente seminal. Mas, se o critério de avaliação é o que de importante se lê, perguntaria quem leu, de fio a pavio – ou apenas pela metade -, Finnegans Wake, à disposição no Brasil com o título de Finicius Revém. Não é pecado de ninguém admitir que a tarefa é insuportável, dada as exigências quase intransponíveis. Não é algo que se lê por pedantismo, além do mais deixaríamos de conhecer muitas outras coisas boas enquanto estivéssemos dissecando palavras aglutinadas de mais de sessenta idiomas em dicionários sem fim. É provavelmente o único livro cujo progresso durante a leitura supõe outros livros de auxílio, como dicionários e mais dicionários. Repare que até o mísero título seu é incompreensível e requer exegese, e que a tradução, como em nenhum outro caso, parece ser completamente uma recriação, permitindo talvez elevar seus vertedores à categoria de artistas, quando já não o seriam por outro motivo.

Imagino aliás que só especialistas como Augusto de Campos e o catarinense Donaldo Schuler – último que encarou o desafio de traduzir a obra no Brasil - têm disposição e fôlego para se dedicar a um texto tão extraordinariamente complexo. E, no entanto, estamos a falar da possível obra-prima de Joyce, do livro que se põe ainda acima do próprio Ulisses.

Mas, então, voltemos a Ulisses, mais popular. Ter idéia do que seja este romance é bastante aconselhável; convém municiar-se antes encará-lo diretamente, se um dia muitos de nós ainda pretende fazer o assalto. A prudência talvez nos impeça de um ato infrutífero, evitando que nos percamos e não tiremos dele o máximo de informação e proveito estético. Partindo para uma comparação oposta, não compensa descer à jazida sem estar certo de trazer algumas pepitas de ouro: não nesse caso, tão precioso. José Maria Valverde, em Conhecer James Joyce (ed. Ulisseia) classifica Ulisses de “realismo psicológico absoluto”. Até onde me informei, é coerente: o procedimento de Joyce terá sido exatamente o oposto do de Flaubert: enquanto este descreveu minuciosamente a realidade externa - que era aliás o traço do cientificismo na narrativa oitocentista -, aquele procurou “descrever” de forma original, alógica, a realidade humana interior, de onde a intuição fundamental de utilizar uma escrita capaz de refletir o fluxo ininterrupto do nosso pensamento; capaz, pois, de justificar os seus absurdos contínuos, sob os quais boiam instantes de razão e sentido.

Há pelo menos duas maneiras complementares de se encarar um livro, das quais Ulysses obviamente não escapa: uma pela obra em si (o aspecto metalingüístico), a outra pelo impacto que teve ou tem, na produção artística posterior. A primeira abordagem merece comentário à parte, polêmica que é, também, e tem a ver com a capacidade que os escritores pós-joyceanos tiveram ou não de ser originais. Tem-se como ponto passivo que a aventura de Stephen Dedalus atingiu um limite de invenção, a partir do qual seria impossível avançar, daí a idéia de que o romance havia definitivamente entrado em crise, enquanto gênero literário. Cervantes abriu as portas e Joyce as fechou, pelo menos é o que muitos dizem, embora o abalisado Antonio Houaiss, que o verteu, afirme categoricamente que Ulisses teve um papel “fecundante”. Afinal, a arte só faz sentido como tal se for capaz de surpreender, mas surpreender pressupõe o surgimento de técnicas novas ou pelo menos renovadas. Se isso se deu, então o romance continua sendo uma fórmula válida – à parte o problema considerável da extensão -, caso contrário só resta partir para outro tipo de experiência, caso não queiramos nos repetir.

Sabemos que Ulysses tem um enredo – há um, rigidamente estabelecido, ao que parece -; tem uma história, uma estrutura coesa e um conjunto de técnicas revolucionárias. Tudo muito bem pensado, é bom que se diga. Sabemos também que os capítulos são simbólicos e que Homero é uma referência importante. Que Dublin é possivelmente o principal personagem e que a aventura toda é um dia na vida de um jovem, Stephen Dedalus, que no itinerário topa com o comerciante judeu Leopold Bloom cuja esposa, Molly, encerra o livro e o dia entrando na subversiva região dos sonhos. Não é por acaso que o livro seguinte de Joyce é o onírico e ilegível Finnegans Wake. Consta que a obra anterior a Ulisses, O retrato do artista quando jovem, é o começo dessa possível trilogia que encerra com aquela apoteose lingüística. Com efeito, seria interessante começar a aventura pelo retrato, onde Dedalus já figura. O personagem transita deste livro a Ulisses conforme os personagens de Balzac vão de uma obra a outra da Comedia Humana, técnica criada pelo francês a partir de Pai Goriot.

Mas que importância tem enumerar pela enésima vez tais aspectos, afinal de contas? No caso da maioria dos livros existentes, a consciência prévia do elenco que dá vida à história possivelmente seja um exercício ocioso, porque quase sempre não corremos o risco de nos perder. Quem se perderia, por exemplo, em Terras do sem fim, de Jorge Amado, em O tronco, de Bernardo Elis ou em São Bernardo, de Graciliano Ramos? É diferente com Ulisses, que é possível ser lido apesar de tudo. Ulisses requer um leitor excepcional, mas não seria indesejável que o mesmo tenha certas noções, utéis como bússola e outros instrumentos de navegação. Afinal, que tenha o cuidado de Jasão: valer-se do fio de Ariadne, que vem a ser esse máximo de informação possível, capaz de garantir seu sucesso na aventura.

Tal leitor não seria um praieiro só de bermuda e óculos de sol, deitado numa cadeira sob uma sombrinha: seria um moxileiro com cajado – tem lá a necessidade de ser estoico –, botas nos pés e todos os apetrechos disponíveis para enfrentar o talude (perdôem o pleonasmo) íngreme e escarpado.   

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POR EM 25/03/2008 ÀS 10:53 AM

Um projeto, duas análises e uma lei

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Faltam ainda dois anos para terminar o governo Lula. Com efeito, este artigo está seriamente comprometido, embora seja testemunhal. Paciência! Se é certo que não me favorece a distância – tampouco a isenção – para emitir um juízo histórico, nem por isso deixamos de ter uma opinião.

Opinião, para ir ao ponto, de como Lula poderá ser avaliado quando o seu período for visto em perspectiva, como um lava vulcânica resfriada. Pode soar exagerado, mas já foi mais ou menos assim: a coisa era quente, o PT era um caso de paixão, o único partido no Brasil que tinha uma torcida organizada. Quem não se lembra? Quem, do contra, não teve medo da onda “comunista” de 89? Quem, na trincheira oposta, não imaginou um cenário de caos e baderna, se o Caçador de Marajás perdesse? Já do lado da estrela solitária, era mais ou menos assim: haveria um antes e um depois de Lula, na história do Brasil. Sua vitória eleitoral sufragaria um marco, um corte profundo, algo proporcional ao que fez Getúlio Vargas – só que ao lado (não apenas em benefício) dos trabalhadores. Um passo além.

Penso que Lula realmente acabará sendo lembrando como Vargas, não pela proporção de sua eventual “revolução”, mas pelo lado que se pôs e pelos benefícios concedidos aos mais pobres. Como o “pai dos pobres”, se aliou à elite nacional – não importa se porque “conquistou o poder mas não a sociedade”, se em função do processo político brasileiro e, portanto, em função das necessidades de coalizão e governabilidade. Aliás, nesse aspecto, Lula repetiu FHC e amargou o escândalo do mensalão. O líder e seu partido não têm mais nenhuma semelhança com Lula e o PT de 89: se ganhassem naquela conjuntura, realmente seria uma experiência diferente, ainda não comunista – muito, muito longe disso – porém talvez mais radical do que hoje e quem sabe fracassada. E quem disse afinal que não se fracassou após a vitória de 2002? A ruptura operada por intelectuais históricos (Chico de Oliveira, Octavio Ianni, Frei Betto etc.) e o expurgo de ex-militantes e parlamentares diz que sim, ao passo que os “heróis da resistância” garantem que não. Daí certa esquizofrenia, o impasse, a névoa.

O momento de fato não favorece uma avaliação consciente, uma resposta satisfatória. Porém, julgamos que no futuro impor-se-ão duas maneiras de se avaliar a trajetória pessoal de Lula e, de resto, de seu partido (que, quer se admita ou não, se confunde pouco republicanamente com seu líder maior). Em perspectiva histórica, será talvez o melhor governo que teve a classe trabalhadora, apesar de tudo. Excluindo Vargas, não recordamos outro presidente que tenha colocado tanto o Estado a serviço dos mais necessitados. É uma realidade. E com uma vantagem: faz isso dentro da normalidade democrática. Juscelino é uma legenda, mas foi homem de elite, praticamente ignorando, por exemplo, os trabalhadores rurais, a quem não levou os benefícios da CLT. É um mito (se a definição ainda faz sentido) burguês. Quanto a Jango, bem que tentou, mas não teve tempo nem habilidade para incluir a maioria dos brasileiros. Quanto aos demais presidentes do país, sabemos que se dividiram entre oligarcas e direitistas, sem a mínima identificação popular e com tendências fortemente autoritárias.

A segunda maneira de se avaliar Lula e o PT, no futuro, não é tão otimista quanto essa, e talvez sirva mais ao consumo da militância partidária, embora tenha igual importância histórica. É a avaliação que põe em evidência o discurso e a retórica programática, em face do governo. Nesse caso, é inevitável o choque entre o que foi dito antes e o que efetivamente se faz, depois; entre a promessa socialista e a adesão ao projeto, não acreditamos que neo-, mas ainda assim liberal e capitalista: está aí o vultoso lucro dos bancos para confirmar – lei do mercado. Enorme contradição, de que aliás é vítima toda utopia, em qualquer parte do mundo. É a velha história: quem chega ao poder tende inevitavelmente a conservar. Não há locomotiva revolucionária que resista aos freios do poder.

Não sabemos aliás o que foi feito da história nos dias de hoje – dizem que acabou – mas surpreendemos ainda, aqui, uma lição dos antigos: a de que a história possui leis (estranhíssimo dizer isso em 2008!). Razão, três estados, espírito, luta de classes... – essas e outras abstrações foram chamadas de leis, no passado. Aderir ao conservadorismo assim que se chega ao poder é talvez uma lei, porém uma lei mais concreta, mais palpável - e nada filósófica, posto que pragmática. É a lei que posterga os sonhos em nome da “viabilidade". Viabilidade do quê?
 


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POR EM 18/03/2008 ÀS 09:25 AM

O sujo, o mal lavado e quem paga

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O que é o terrorismo? Faço a pergunta porque, segundo a mídia, as FARC são um grupo terrorista. Não sei se se pode acreditar em tudo o que a mídia vende. Terrorismo é um conceito político. Mas, entre um terror e outro, fica a pergunta: que impressão as famílias dos civis mortos no Iraque têm do exército “de libertação” norte-americano? Aposto que não é o da opinião pública norte-americana. Com efeito, o que vale: o conceito político ou a impressão das vítimas? Tomemos o partido das vítimas. O sofrimento humano não distingüe entre o “assassinato” perfeitamente legal (suspeito que não seja o caso da guerra contra o Iraque, uma vez que passaram por cima da ONU) e o assassinato promovido por grupos rebeldes. Quem morre morre do mesmo jeito, assim ou assado, e quem sofre idem. Não há diferença. Os mortos e feridos da Colômbia – que tanto “horrorizam” a mídia – equivalem, a meu ver, aos mortos e feridos do Iraque (mais de 30 mil civis inocentes, até agora!), entretanto, temos a ligeira impressão de que as coberturas jornalísticas em relação à guerra no Oriente Médio são mais condescendentes com o terrorista: os Estados Unidos da América.

Estou dizendo exatamente isto: que a ação norte-americana é também um ato terrorista. Saddam era um criminoso – não nos esqueçamos jamais de Tikrit – e, obviamente, detestamos os tiranos. Pena que os EUA não estavam ligando para Saddam, que aliás não era o único ditador sanguinário oriental, ou em todo o mundo. O problema de Saddam era ser inimigo dos EUA, por uma infelicidade conjuntural. Aí entrou em cena a mais destrutiva arma de guerra que existe: a mentira. Era estratégico angariar o apoio da opinião pública internacional e justificar a invasão. Vamos dizer que Saddam tem armas de destruição em massa. Quem vai desmentir os Estados Unidos no “mundo livre”? Ninguém, é claro, exceto um inspetor da ONU, Hans Blitz – mas a ONU não importa, muito menos um burocrata seu, metido a besta. O que queremos mesmo (imaginemos o que foi dito no Salão Oval e nos escritórios do Pentágono...) o que queremos mesmo é o petróleo, e que se dane o resto. De quebra, damos uma resposta à população norte-americana sobre o 11 de setembro: vamos lá e quebramos o pau, no melhor estile “big stick!”. Terrorismo.
 
Mudando de hemisfério e de lado – não se diga que somos parciais, portanto -, eu também acho que o que as FARC fazem com seus reféns na América Latina é terrorismo. É inexplicavelmente paradoxal que um movimento que se baseia numa ideologia que propõe um mundo justo – o marxismo – cometa tantas injustiças, tantas atrocidades como as que temos visto. Não parece razoável; é mesmo uma contradição em termos. A única diferença entre as FARC e os EUA é o leitmotiv: aquela age por ideologia num mundo sem ideologia, já aquele, pior ainda - mais primitivo -, age por puro instinto de sobrevivência. Noutras palavras, age simplesmente por interesse, por egoísmo. O fantasma de Schopenhauer, tão vivo quanto o de Darwin.
 
Se não convencem os EUA, tampouco as FARC. Não acho que é uma questão de dizer que um lado está certo e o outro errado. Os dois estão errados, na minha opinião. Eu jamais seria adepto das FARC, e na verdade passo a ter repulsa, embora reconheça que o movimento existe em permanente estado de guerra – o que justificaria seus atos de crueldade. A guerra, como sabemos, tem suas próprias leis. Durante sua existência cessam algumas prerrogativas da Declaração Universal dos Direitos do Homem, posto que cabem punições inimagináveis aos inimigos, como a tortura e a pena de morte. Estranho é que a União Soviética, então comunista (corria o ano de 1949), subscreveu esses direitos “enfatizando a libertação do medo e da penúria”, segundo Carl J. Friedrich (cf. Uma introdução à teoria política). O problema, de uma maneira ou de outra, não é simplesmente mais de discordância com as FARC ou com o gigante do norte – é de discordância final com a guerra, esse flagelo que assola não só a América Latina mas o mundo inteiro. Não importa quem faz a guerra: à direita ou à esquerda seu saldo é sempre a morte, a aniquilação da humanidade, que é quem paga o preço. A guerra é sempre um ato de terror, mesmo quando se manifesta em resposta a regimes inaceitáveis como o nazismo.

Preocupante é concluir que a tradição oposta, a de homens como H. D. Thoureau, Gandhi e Luther King soa risível aos nossos ouvidos. Estamos mesmo muito longe da razão.

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POR EM 04/03/2008 ÀS 11:20 PM

Publicidade e arte: tão perto, tão longe

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Se uma palavra pode definir o mundo publicitário, creio que é esnobismo. É que a publicidade é a cara do mundo, digo, do capitalismo, digo, o lado rico, endinheirado, do capitalismo. Talvez não pudesse ser de outro jeito, para quem, profissionalmente, precisa conhecer a alma do sistema, para vendê-la. São irmãos siameses, mercado e publicidade: só existe esta em função daquele. Acabou o mercado, acabou a publicidade – a que vende de tudo, é claro: inclusive a imagem de um homem, se preciso. A arte, não: existe desde sempre; existirá sempre. O Arquipélago Gulag sobreviveu a Stálin. Mc Donald`s, entretanto, não pisou a Rússia antes de Gorbatchov. Não antes, portanto, que houvesse mercado. 

Talvez pudéssemos dizer que a publicidade é a irmã pobre, da arte, embora ela é que tenha aparência aristocrática. A irmã que anseia pelos atributos da arte, mas que não pode ser arte. Não é sua condição existencial. Salvo raras exceções – Matisse, Jorge Guillén etc -, arte normalmente é revolta, antipatia, asco, nojo, repulsa – a publicidade, embora se vista de arte (pois está sempre no encalço da estética, fetichista) não pode nunca se dar o luxo de ser do contra. É o oposto: o espelho da ordem. Precisa iludir. Precisa maquiar, adornar, não despir. Quem fala a verdade sobre a nossa condição é Francis Bacon: as vísceras da espécie. A publicidade, não: se limita a ser o pacote, a superfície, a aparência: é Roberto Justus (não o homem, mas o arquétipo). Arte é arte; publicidade, artifício.

A arte é operação gratuita, e talvez por isso é revestida de uma aura superior. A publicidade, não: pragmática, tem preço. Só se manifesta se lhe pagam bem. Talvez por isso tenha sempre aquela cara. Aquém do além.

A intenção da arte não é vender, nunca. Encontra comprador sem procurar. Não corre atrás, orgulhosa. A publicidade, pelo contrário, só existe em função do mercado: vende tudo. Humilde e humilhada, se vê na obrigação de correr atrás, qual ambulante qualquer. A arte é única; a publicidade, vária. Só existe um Nu descendo a escada, mas podem existir quantos anúncios se desejar, de uma campanha. Publicidade é equipe; arte, solidão. Não adianta falar no grupo tal: arte é, por excelência, solidão. Procure o Vinicius de Morais pra saber.  E favor não confundir arte com indústria cultural, que é, por exemplo, o forte do mercado fonográfico e Romero Brito.

O capitalismo odeia solidão, embora a promova sistematicamente. A arte é, muitas vezes melancólica; já a publicidade é, necessariamente, gregária, sempre alegre e extrovertida. Suspeito que seja uma fórmula de sucesso, uma embalagem: ou o profissional age assim ou, no dizer do outro, está demitido! O capitalismo é tribal; a arte, Ralph Waldo Emerson – apóstolo do individualismo. Curiosamente, as grandes causas contam com a abnegação dos artistas. O individualismo destes flerta amiúde com a solidariedade e com o ser; o do publicitário pode não ser menos solidário, mas anseia primeiro, e antes de tudo, pelo ter. O publicitário é um homem, no mínimo, simpático ao consumo, e de alto padrão.

Enfim, não fosse porque se veste bem - muito bem -, a publicidade não iludiria ninguém. É útil e necessária, ao capitalismo. A arte – seu suplício de Tântalo - ao homem. 

 


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POR EM 27/02/2008 ÀS 09:08 PM

A educação na era Lula-FHC

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Tem-se falado muito sobre a qualidade da educação, no Brasil, ultimamente. Parece que, organizados “os fundamentos da economia”, chegou finalmente a hora do país pensar em educação, sem o que não haverá crescimento sustentável. Esta-se descobrindo finalmente que o fator humano é de fundamental importância, embora continuemos pensando a cultura não como uma aquisição ampla e necessária da humanidade, mas restrita às questões técnicas e pragmáticas. A educação como imperativo econômico. Já ouvi economista respeitado dizer na tv que, ao invés de aprender “questiúnculas de gramática”, o trabalhador deve ter é formação profissional. A sociedade do conhecimento, no Brasil, se limita ainda a preparar mão-de-obra, não a produzir ou estimular cérebros competentes. Com efeito, se por essa ordem virtual cérebro (leia-se produção de ciência e tecnologia) vem em terceiro lugar, e mão-de-obra como simples operação de máquinas em segundo – o que vem em primeiro? Educação fundamental. O básico. Não temos nem isso, com suficiência.

Nos últimos quatorze anos, o Brasil foi governado por uma geração identificada com a democracia e com os anseios populares, a geração que se deixou liderar por FHC e por Lula, símbolos de resistência e de progresso social, sob um regime de opressão. É curioso, portanto, que ambos não tenham feito pela educação o que o país inteiro esperou que fizessem. Eu esperei e tenho certeza que muitos dos leitores desse artigo esperaram.

Digo “mesmo” porque temos aqui uma enorme contradição, daquelas que nos fazem desacreditar nos homens e nos projetos políticos. Não importa se um deles passará à história como, provavelmente, um dos dois ou no máximo três melhores presidentes que o país já teve, a despeito das incoerências de seu governo.

Isso ocorre porque educação, no Brasil, nunca foi - e não é - prioridade de governo; não é, ao pé da letra, Projeto de Nação. Contentam-se nossos agentes políticos, sediados em Brasília, com reformas pontuais e com os gastos de sempre, prescindindo da única coisa que fará realmente diferença ao país: uma revolução nesse setor. Getúlio Vargas priorizou a industrialização, Juscelino a construção de Brasília, os militares a infra-estrutura nacional, o próprio FHC o combate à inflação – porque não pode haver um que bata na mesa e diga que a prioridade é a educação!? Não há o menor indício de que isto esteja ocorrendo ou em vias de acontecer, no Brasil: não se nega eventuais melhoras, mas, decididamente, não acontece uma transformação visível, patente e inquestionável. Isso não. Os dados apresentados todos os dias na imprensa dizem exatamente o contrário, com o benefício de nossa percepção: que a coisa continua de mal a pior, mesmo sob os mandatos de FHC e Lula.

Segundo dados recentes, amplamente divulgados pela mídia, a educação fundamental é um dos gargalos ao desenvolvimento do Brasil. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em vigor desde 1996, diz em seu artigo 32 que essa etapa intermediária da formação escolar objetiva “à formação básica do cidadão”, mediante, ente outras coisas, “o domínio pleno da leitura, da escrita e do cálculo”. Quem dá aula em escola pública, para alunos da quinta à oitava séries, sabe muito bem que “domínio pleno” está muitíssimo distante da realidade. O estudante em questão mal sabe ler e escrever – diria mesmo que tem aversão aos dois processos, sem os quais, ao lado do cálculo, não há possibilidade de mão-de-obra especializada, muito menos de ciência e tecnologia. Sem contar o contraste diante do elenco de valores familiares e sociais requeridos por essa lei, já que impera quase sempre o caos e a violência nas escolas. Faltam-lhes estruturas adequadas, além dos péssimos salários pagos a profissionais que deviam ter, no mínimo, o status de médico: o professor.

FHC e Lula por causa de suas afinidades políticas de origem e muito mais por causa de suas biografias. O fato de um ter nascido filho de general e outro de retirante é uma vicissitude, não chega a ser um abismo. De realidades diametralmente opostas – um virou acadêmico e o outro não passou da quinta série –, não apenas convergiram sua liderança em favor de um país mais justo como, também, viram definidas suas relações com a educação: um por falta, o outro por, digamos assim, “excesso”. Um conquistou vários títulos de doutor honoris causa pelo mundo afora, o outro apenas o estigma de “analfabeto”, até entre os analfabetos de verdade (o que é coerente). A junção daquele ideal de justiça com esse contraste de formação representa, com efeito, uma grande ironia, para o Brasil contemporâneo. Nosso país nutriu boas expectativas seja com o primeiro presidente intelectual de sua história, seja com o primeiro que quase não freqüentou a sala de aula. O favor de um adveio justamente da oportunidade que lhe deu a educação, o encanto do outro do fato de ter sido excluído dela, pelas contingências da vida. Entenda-se: um nos compreenderia porque era mais esclarecido, o outro porque era igual a nós - um prático sem firulas, que teria legitimidade para reclamar um direito universal.

Lula conheceu a exclusão social na prática, FHC na teoria. Justiça seja feita, poucos estudiosos traçaram um diagnóstico tão preciso de nossa realidade social como este scholar, e, até certa idade, ninguém encarnou tão bem o excluído quanto aquele, retirante. FHC e Lula, com efeito, porque conheciam o Brasil melhor do que ninguém, e se um foi operário, o outro foi professor: ambos tiveram a experiência e a expectativa do trabalhador comum – aquele que faz greves e reclama por melhores salários. Lula e FHC, se quisermos mais motivos, porque ambos lutaram contra a Ditadura, e se por essa razão um acabou no exílio, o outro conheceu a cadeia. Um foi marxista (conceitualmente, um dos melhores que tivemos), e o outro, se não chegou a tanto, fundou um partido que é, estaturiamente, socialista. Acreditem, é a pura verdade!

FHC e Lula, obviamente, seriam os líderes nacionais mais sensíveis à educação, até porque viveram entre estudantes e professores: vivenciaram esse mundo como “mestre” e como “companheiro”. Mais que Sarney, mais que Collor, que Itamar ou que qualquer outro presidente em nossa história republicana inteira. Eram particularmente íntimos desse universo. Não apenas instigaram, sobretudo conquistaram a simpatia de estudantes e professores: eram os naturais porta-vozes dessa gente, candidatos a finalmente resolver o maior impasse da nação, a fazer uma revolução sem armas: a revolução da educação. Tinham apoio e representavam a esperança. Candidataram-se e chegaram ao poder. De deputado e senador foram elevados sucessivamente a presidentes da República. Teria chegado a hora.

Mas deu errado. Deu errado: logo descobrimos que a educação de um era tamanha que seu principado se confundiu com o da elite charmosa e esclerosada, e que a carência do outro era tão marcante que teve orgulho de se bastar ao seu conhecimento prático das coisas, sem poder incentivar o amor aos livros e à escrita. Um parece simplesmente ter desprezado os sem-educação, o outro - ressentido? -, os educados. Provaram-se extremos demais. Não eram, infelizmente, os candidatos a cumprir esse papel revolucionário. Faltou-lhes equilíbrio.

Hoje podemos dizer, sem nenhum receio, que, se em doze anos à frente do governo, FHC e Lula não deram o passo imenso da educação no Brasil (investiram o bastante para manter o ritmo ordinário da história), não será nos próximos dois anos que isso se fará. Aí teremos interado dezesseis anos e fechado um ciclo. Um ciclo, também, de desencanto. Se esses dois homens, com as credenciais e os votos de apoio que tiveram, acharam desnecessário uma revolução na educação – quem, em seu lugar, achará que é necessário?  


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