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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:55 PM

A história ao modo de Emerson 2

publicado em

Registremos que, da Guerra da Sessessão (como dizíamos na priemeira parte), até pelo menos 1862, quando o México declina em favor de Napoleão III, a Doutrina Monroe não passou, literalmente, de uma ousadia do espírito. Eis, então, de forma cabal, outro desprezo invejável pelas limitações de ordem material: como seus pares, o ex-presidente Monroe “via o presente com os olhos no futuro: não via aquelas cidades dispersas e empoeiradas, mas as metrópoles luminosas; não a oficina miserável, mas a fábrica palpitante; não as estradas sulcadas, mas os trilhos cintilantes”, consoante Henry Steele Commager (in: O espírito norte-americano). Isto nos leva à hipótese de que a auto-suficiência estadunidense – e se quisermos, a sua arrogância - não é um produto de sua hegemonia nos campos militar, político e econômico, como os vê nossa conjuntura perpassada pelo antiamericanismo. Pelo contrário: nossa tese é de que tornaram-se hegemônicos porque tinham disposição de caráter para isso, mesmo quando eram virtualmente impotentes em face da dominação européia.  

De modo que estes dois exemplos emprestados pela história – Jefferson e Monroe - servem para situar Emerson no seu contexto mental, provando que a matéria-prima de que se valeu – a autoconfinça – estava à sua disposição e a fonte, podemos acreditar, era abundante. Esses dois homens de Estado eram, de acordo com a interpretação histórica do século XIX por Commager, apenas a expressão de um espírito disseminado de alto abaixo, na sociedade norte-americana de seu tempo. Exceto o Sul escravista, seu temperamento era provavelmente o do mineiro e do lavrador que desbravaram o Oeste e do puritano industrioso da Nova Inglaterra. Ao lado de Whitman, Emerson é, assim, o fiel remanescente da mentalidade norte-americana oitocentista, célebre pela maneira com que encarava o mundo. Autêntica injeção de ânimo, os dois escritores seriam a síntese acabada desse ethos social invejável - embora Emerson provavelmente não acreditasse nisso! Afinal, é bom repetir, tinha ele aversão à sociedade:
 
“Por toda parte a sociedade está em conspiração contra a virilidade de cada um de seus membros. A sociedade é uma companhia por ações, na qual os sócios concordam, para melhor assegurar o pão de cada acionista, em renunciar à liberdade e à cultura de quem dela desfruta. A virtude de maior demanda é a conformidade. A autoconfiança é causa de aversão. À sociedade não aprazem realidades e criadores, mas nomes e costumes.” (Ensaio Autoconfiança).
 
Os norte-americanos do século XXI começam-no dando mostras de uma degenerescência cultural e espiritual desencadeada, provavelmente, no final dos anos 80 do século passado, quando sobraram como a única potência mundial, iniciando paradoxalmente sua lenta e incontornável agonia. O contraste romano é inevitável: quando o maior império da antigüidade se viu na solidão do superpoder, seguiu-se a famosa pax romana. Os quarenta anos do consulado de Augusto redundaram numa ventura jamais experimentada, antes e depois. Com o moderno Império de George Walker Bush acontece exatamente o oposto: o que assistimos é uma verdadeira cruzada bélica americana, capitaneada por neo-conservadores da pior espécie possível. O que, no século XIX, era um sentimento admirável de autoconfiança, magistralmente captada nas melhores páginas de Emerson e Whitman, no último século e no despontar do atual degenerou-se em bárbaro fundamentalismo, puro e simples.
 
Este impasse moral deve-se, na lógica do ensaísta, à ausência de um grande personagem no centro das decisões políticas. Emerson é um metafísico, o que o torna bastante excêntrico nos dias de hoje.

Historiograficamente, tem afinidades com a concepção vigente no século XVIII, o que o coloca em companhia do idealismo e de um ente abstrato chamado espírito. Afinal, segundo ele, “toda a história deslinda-se muito facilmente na biografia de umas poucas pessoas decididas e convictas”, do que discordarmos, mas esta é a sua opinião. Opinião que serve para refletirmos sobre um determinado e importante sentido de ausência: enquanto, na Antigüidade, Virgílio privava da corte augustana, um festejado crítico norte-americano comentou, com ceticismo: “duvido que esse George Bush II tenha lido Walt Whitman, ou sequer ouvido falar de Hart Crane.” Problemático, este não é naturalmente um critério inequívoco de avaliação de um governante, mas também não há dúvida possível de que os comensais de Bush, ao invés de poetas capazes de legar ao mundo uma Eneida, são broncos e genocidas da espécie de Karl Rove e Paul Wolfowitz..
 
Estes e outros personagens representam, além da virulenta corrupção moral das instituições públicas norte-americanas, um fundamentalismo enraizado na cultura nacional tão torpe quanto o dos terroristas árabes: como para estes, Deus é que os conduz ao assassinato, justificando-os. Invocando o absoluto, tiram de nós qualquer contra-argumento possível. De modo que, embora os “bárbaros” – principalmente os latinos - estejam mesclando maciçamente o último império da humanidade e Osama bin Laden tenha aspirado a ser o novo Odoacro, o belicismo da Doutrina Bush deixa-nos esta lição, tendo a época de Augusto por parâmetro: a história nunca se repete, e parece continuar fora da lista das ciências nomotéticas (aquelas regidas por leis), obscurecendo de vez a herança iluminista.
 
É por tais circunstâncias que, do ponto de vista espiritual, pode-se afirmar com alguma segurança que o grande século norte-americano foi aquele em que viveram Emerson e Whitman:
 
“Com o otimismo veio uma sensação de poder e de enormes reservas de energia. O norte-americano tinha idéias amplas, sua imaginação vagava por um continente e ele se impacientava com as pequenas transações, com as hesitações e a timidez. Criar uma fazenda de uma milha quadrada ou um rancho de cem milhas quadradas, educar milhões de crianças e alimentar o Mundo Ocidental com o seu trigo e o seu milho não lhe pareciam coisas notáveis.” (Commager, op.cit.)
 
 O século XIX foi um período diverso dos últimos cem anos e do inicio do século XXI, pois foi realmente a época do otimismo, que cedeu à arrogância crescente derivada do expansionismo, passando pelos governos de James Polk e T. Roosevel e culminando com a desastrosa família Bush, da qual o Estado americano se tornou um braço militar. O oitocentos foi quase todo dedicado pelos Estados Unidos às realizações domésticas, e foi sempre do contato com o outro – a principiar dos índios e dos mexicanos – que vicejou o lado mais sombrio do seu caráter.     

Enfim, nos parece que Emerson foi a mais fiel expressão de seu povo, inacessível àqueles que não lhe assemelhem os instintos sociais. Quem mais poderia olhar à sua volta com um sentimento tão grande de indiferença? Não encontro outro palavra para designar tal instinto. Em contraste, somos tentados a acreditar que os brasileiros custariam a ensejar um projeto tão ousado (e é claro: tantas vezes indesejável) de nação, simplesmente porque – se possui dimensão territorial e população o bastante – lhe falta o principal: a têmpera. Por ironia, um dos mais eloqüentes sintomas da enorme diferença entre nós e os norte-americanos é que, ao mimetizar o american way of life, nossa sociedade acaba por dispensar justamente o indispensável, na ótica deles: o sentimento auto-referente que fundamenta sua moral. A insistência cabotina em absorver os códigos culturais ianques – um exemplo: o uso freqüente do idioma inglês para nomear coisas e lugares - é, na verdade, o lado mais irritante de nossa própria têmpera. Isso revela de nossa parte pouco auto-estima, e alimenta o desprezo dos que, com razão, respeitam apenas a auto-afirmação e a originalidade: e o que entendemos por isso? Nosso débil patriotismo nunca dura mais que a execução do hino nacional.
 
Conclusão: Emerson deve ser, para um número maciço de brasileiros – leia-se parte considerável de nossas elites políticas e econômicas -, como um idioma ininteligível. Ficamos a pensar, neste caso, a dificuldade que teria para ser compreendido em culturas como a nossa, diversa da estadunidense, de sorte que a crença em si mesmos parece ter sido uma virtude intrinsecamente ianque. Sinceramente, não acho que temos muita crença em nós mesmos, e ler Emerson nos impõe essa reflexão, tão estranha ao nosso caráter.
 
 

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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:51 PM

Seria o jequismo, nosso ismo?

publicado em

Nosso parâmetro de qualidade, inclusive nas manifestações artísticas, não é o complexo e o inusitado, mas o simples e óbvio — ou, por outras palavras, o fácil. De regra, demonstramos pouca ou nenhuma vocação para abstrair, daí a reserva quase rancorosa que se percebe em relação à crítica

 

Quando, em 1957, o governo Juscelino Kubitscheck acatou a idéia de se construir uma nova capital para o Brasil, a oposição fez um alvoroço. Um dos motivos contrariava o sítio escolhido, em pleno Centro-Oeste do país. Goiânia tinha já mais de 20 anos, ostentando o honroso título de primeira capital estadual brasileira planejada, no século XX. Seu projeto era realmente moderno, mas quem sabe não fosse suficientemente contemporâneo ou pelo menos modernista, a ponto de impressionar a nação litorânea. Simplesmente ignoraram a existência da gente local e, parece, o fruto visionário de seu líder, Pedro Ludovico. Disseram que isso aqui era, ainda, “um deserto” e “terra de índio”, ferindo o orgulho goiano, que tanto se jacta de suas coisas. Não é de impressionar que tenham feito tal juízo em meados do século passado. Anda hoje – quando nos constituímos numa metrópole regional - nossa cidade é tratada como “roça”. Seríamos mesmo uma reles “província” ? O que isso tem de verdade?
Não estou aqui para responder satisfatoriamente a tal pergunta, pois não fiz e não conheço pesquisas científicas a respeito. Minha intenção é problematizar; dizer de minha impressão pessoal e do que ouço com freqüência sobre o tema – o que não deixa de ter validade heurística. Costuma-se dizer que Goiás – e mesmo Goiânia - é bom porque, mesmo tendo se desenvolvido (sinônimo de crescimento urbano e adensamento populacional), mantém as “características de interior”. Uma das interpretações possíveis dessa afirmação revela algo que não me parece tão positivo: que somos uma sociedade conservadora. Sabemos que a mentalidade rural é lídima expoente daquilo que certa tendência historiográfica chama de “longa duração”, exatamente porque é sedimentada em valores seculares, fechados sobre si mesmos. Nos goianos, o fato de gostar da roça se justifica inconscientemente por essa ligação atávica, mas ainda muito forte entre nós, com um tempo sem pressa, litigado com a velocidade dos mais modernos mecanismos de sociabilidade e intercâmbio.
Paradoxalmente, esse desejo no mundo contemporâneo, onde se impôs o tema do meio ambiente, perde seu caráter retrógrado em favor da idéia, pretensamente avançada, de um retorno à natureza. Entramos aqui em outra discussão, porém, e nosso foco no momento é também outro: os impasses da cultura erudita em face da persistência de clichês tradicionais nesse universo. Daí o sentido crítico do que chamamos de “conservadorismo”.   
 É importante considerar – nós e os de fora que eventualmente lerem este artigo – que há razões históricas que certamente explicam esse ranço conservador que nos abate. O desenvolvimento econômico de Goiás teve várias etapas, segundo os historiadores e os economistas: conhecemos o ciclo do ouro, da pecuária e da agricultura. Mas não ultrapassamos a fase da agroindústria, o que revela o peso da economia primária – isto é, commodities - em nosso modo de vida, até hoje. Alia-se a isso o fato de que nossa capital tem menos de 80 anos de existência. Se o impulso norteador da Revolução de 30, no Brasil, foi a industrialização, para os insurgentes locais a indústria não teve nenhum apelo eleitoral, portanto nenhum peso político. Ainda assim, Goiânia cresceu dramaticamente: é o único centro urbano estadual realmente comparável às grandes cidades brasileiras, onde se supõe haver uma cultura mais aberta, mais “cosmopolita” e irreverente.
Porém, dimensão não conta. O que conta é o elemento humano, em que por exemplo divergimos de Recife ou Curitiba, quando pensamos em ocupação do espaço: a última teve moradores já em 1649, e mesmo Manaus – mais remota que Goiânia, ainda – data de 1669, enquanto somos de 1934. Nenhuma outra capital brasileira, se tem o nosso porte, tem a idade-menina que temos. Goiânia é única no Brasil, nesse aspecto. Não é uma cidade jovem – é adolescente, mesmo, diante das gigantescas escalas históricas.
Isso significa o seguinte: muitos dos pioneiros locais ainda estão vivos, mistura que contribui para explicar o que somos, por força de hábitos e costumes herdados. É provável que a maioria de nós descenda de pais vindos de cidades do interior ou diretamente da roça. É o caso deste colunista, cujo pai cultiva a viola e compreende melhor as lides do campo, tendo ainda uns poucos alqueires de terra, no município de Vianópolis. Sou filho de lavradores. Sendo esta uma tendência marcante, é fácil entender a influência original e avassaladora, de caráter rural, sobre nossas idéias e conceitos. Goiânia estaria, hoje, se tanto, numa fase de transição para uma sociedade efetivamente urbana, nascida na cidade (quadro que jamais se completa, por força dos fluxos migratórios). Por outras palavras, não seríamos ainda frutos de uma cultura, pelo menos hegemonicamente, citadina. Não seria correto exigir que fôssemos como Rio e São Paulo, ou que Porto Alegre e mesmo Belo Horizonte, portanto, em termos de “evolução” mental, seja lá o que isso significa.
O impacto dessa relação entre gerações distintas na produção cultural é tangível: Goiás só se sobressaiu nacionalmente em função da música “sertaneja” – pelo menos na perspectiva midiática. Muitos não gostam. Confesso que acho o ritmo alegre, e não veria graça em me sentar num boteco pra tomar cerveja ouvindo Edith Piaf (tenham a Santa Paciência!). Porém, boa parte dos críticos dessa moda se volta também para as tradições rurais, para as chamadas “raízes”. Ou seja, se mostram também conservadores, ao seu modo. Odeiam a festa da pecuária e seu corolário de atrações, mas cultivam o passado que lhe é circunvizinho, ainda que sob roupagem folclórica e de algum modo pitoresco. O tempo com o qual mais nos identificamos, em conjunto, é o passado e suas coisas, sem concessões à vida moderna e suas características, inclusive estéticas. É difícil, aqui, não entrar no terreno dos valores e não fazer julgamentos dessa natureza, deixando a história de lado e partindo para a crítica.
Nesse sentido, não é à-toa que outro fenômeno marcante daquela herança, na esfera simbólica, é a verdadeira adoração pela Cidade de Goiás, antiga Vila Boa, manifesta em estratos significativos de “nossa elite cultural”. Os filhos não se contentam em preservar e admirar o universo mental dos pais e avós: querem se possível incorporar em ritos aquelas tradições que talvez nem mais lhes pertençam, enquanto elementos novos e de fora. Isto é, não são mais os filhos daquela Goiás que inclusive sediara os governos oligárquicos e autoritários, num passado não muito distante. Nem todos nasceram ou moram ali, entretanto vivem a sua nostalgia, saudosos de uma realidade que não é a de sua geração. Não se diga que temos agora uma realidade melhor, mas a que temos é a realidade presente e isso basta: temos a obrigação de ser outra coisa.
Devíamos imaginar que Cora Coralina não quisesse um altar para si e tivesse mais satisfação em conhecer novidades. Ela é a escola de seu próprio tempo; não precisamos repisá-lo, remoê-lo e assim desmerecê-lo, rico que é em face de nossa virtual pobreza. Não deixar nossa poeta em paz, por outro lado, é sintoma preocupante de que não ultrapassamos seus dotes literários – e será isto positivo?
Se estamos falando de história, então estamos falando de sujeitos – não ligo para Foucault -, daí o tom realmente crítico deste remate. A nova geração deveria ser a cara de outro mundo, bem mais amplo e efervescente – um mundo ávido de novidades. Responsável por criar coisas que dialoguem, porém não se sujeitem servilmente à tradição rural e aos seus estereótipos. Brasigóis Felício cunhou um termo que me parece adequado para classificar esse estado de coisas: “bovinocultura”. Nosso problema, certamente, não é tanto o de cultivar tais estereótipos quanto o de replicá-los e ao-pé-da-letra: não bastava um Geraldinho, autêntico, é preciso uma plêiade artificial e sem-graça deles. Não basta uma dupla que faça o gênero caipira: é preciso clonar a “idéia” ao limite do tédio, da náusea. Não basta que se toque berrante na fazenda: é preciso importar para Goiânia e expor na televisão como – pasmem! - se fosse a coisa mais excepcional do mundo ou, pior, “arte”.
Aliás, nosso parâmetro de qualidade, inclusive nas manifestações artísticas, não é o complexo e o inusitado, mas o simples e óbvio – ou, por outras palavras, o fácil. Daí aquela simpatia ingênua pelos tipos e representações comuns – seria o jequismo, nosso ismo? -, contra as “complicações” de um Zé Celso Martinez Corrêa, tropicalista. Zé Celso foi invenção cerebral. O cérebro e não o espontâneo, a elaboração custosa e não a natureza dada. De regra, demonstramos pouca ou nenhuma vocação para abstrair, daí a reserva quase rancorosa que se percebe em relação à crítica, essa preciosidade inaceitável se extravasa os limites do encômio, não por acaso sem futuro. Diga-se de passagem, o futuro é categoria que nos amedronta.
O que cansa nossa beleza, enfim, é a overdose conservadora e exótica, estimulada por setores influentes da mídia. Valendo-me de uma analogia, é como se os paulistas vivessem ritualizando o bandeirante e não estimulassem o surgimento de Tunga – o extremo que eleva a cultura a novos patamares, e que é também uma necessidade histórica. Uma necessidade do espírito. Afinal de contas, se só vivermos do passado, quem, no futuro, terá referências do presente em que estamos? É um caso seriíssimo a se pensar.  

 


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POR EM 03/11/2008 ÀS 09:30 PM

A história ao modo de Emerson

publicado em

Uma breve lembrança da história dos Estados Unidos basta para nos convencer de que, neste curto período, um surto de prosperidade varreu a sua nação, dotando-a do mesmo espírito que contaminaria seu maior ensaísta. Emerson foi um intérprete nacional vigoroso, e se quisermos ter a idéia aproximada da psicologia que permeou a sociedade norte-americana, durante aqueles dois decênios e meio, é indispensável conhecê-lo

( Parte 1)



Ralph Waldo Emerson é um dos grandes ensaístas mundiais dos últimos cento e cinquenta anos. Nasceu em 1803, em Boston, EUA, e ficou famoso sobretudo pela publicação dos seus Ensaios, que viriam a lume quase em meados do século XIX, 1841. De acordo com Erick Hobsbawm, um século não equivale necessariamente a cem anos, podendo muito bem ser confinado entre dois marcos capazes de conferir uma relativa unidade nas grandes estruturas material e ideológica, formando uma Era. O evento conhecido como a Paz de Gand propiciou o começo de algo parecido na história norte-americana; com efeito, consideremos a seguinte conjectura: “Tanto para os Estados Unidos como para a Europa, o século XIX começou em 1815.” (André Maurois, História dos Estados Unidos). 1841, aquela outra ponta que nos interessa, não é um divisor de águas desta natureza, mas entre estas duas datas se passaram 26 anos – uma idade possível do novecentos “americano” que serviu de base para Emerson.

Uma breve lembrança da história dos Estados Unidos basta para nos convencer de que, neste curto período, um surto de prosperidade varreu a sua nação, dotando-a do mesmo espírito que contaminaria seu maior ensaísta. Emerson foi um intérprete nacional vigoroso, e se quisermos ter a idéia aproximada da psicologia que permeou a sociedade norte-americana, durante aqueles dois decênios e meio, é indispensável conhecê-lo. Tal psicologia – ou melhor, aquilo que gostam de chamar de caráter – esbanjou-se depois de 1815, quando, de uma vez por todas, foram rompidos seus últimos grilhões coloniais. Souberam, como nenhum outro povo à época, tirar proveito de suas duas independências – a política e em seguida a econômica – criando um sistema genuinamente seu, abraçando o nacionalismo e desdobrando sua maré humana na direção do oceano Pacífico. À expansão geográfica coincidiu a expansão do espírito: “Nascida da Geografia, nutrida pela História e confirmada pela Filosofia, a confiança própria foi elevada a credo filosófico e, com o tempo, individualismo se tornou sinônimo de americanismo.” (Henry Steele Commager, O espírito norte-americano).

Individualismo, otimismo, autoconfiança. Tais disposições de caráter já transbordavam de modo exuberante desde a época colonial nos Estados Unidos, levando-os a desprezar suas limitações objetivas, derivadas de seu estatuto político. Ausentava-lhes uma mentalidade histórica, dimensão por excelência da presença coletiva, mas isso pouco importava: de acordo com uma visão peculiar de mundo, não lhes faltaram personalidades exemplares, cujas vidas converteram em alegorias de Clio, respeitando a precedência do indivíduo sobre a sociedade. Foi assim com Thomas Jefferson: através deste homem os norte-americanos prescindiram de sua independência econômica para se afirmarem diante do mundo, bastando para isso a de ordem política. Em 1774, contando apenas 32 anos, impressiona a naturalidade com que o jovem estadista dispôs os Estados Unidos entre “as potências da terra”, ao redigir a Declaração da Independência. Entendera, na ocasião, que tal direito era “divino” e ponto final, alheio à real distância que separava o seu país das principais potências da época, no mundo Ocidental, França e Inglaterra. Diz Jefferson, “Quando o curso dos acontecimentos humanos obriga o povo a romper os vínculos políticos que o unem a outro povo para ocupar entre as potências da terra a posição igual e distinta à qual as leis naturais e divinas lhes dão direitos, um elementar respeito humano obriga-o a declarar as causas que motivaram esse rompimento.” 

Seria inimaginável um estadista brasileiro proferindo estas palavras no curso do século XVIII, ou mesmo agora, no tardio século XXI - mas que diferença, afinal, existiria entre nossa atitude e a dos EUA diante da metrópole britânica? Uma coragem semelhante causaria o escândalo de nossos homens públicos, dedicados executores daquilo que a mídia ironicamente classifica como “dever de casa” (Míriam Leitão, da Rede Globo, foi uma refinada manipuladora da expressão). Eis a fórmula unilateralmente responsável que por muitos anos empatou o nosso destino histórico, como o colonialismo inglês empatou o norte-americano - ou estariam os seus grandes estadistas enganados sobre a necessidade de se opor, também, à opressão econômica?

Fôssemos um dos Estados confederados naquele tempo, com a mentalidade política que tivemos e possivelmente ainda temos, é provável que, no Congresso Continental reunido em Anapolis, aconselhássemos os nossos irmãos a continuar pagando seus tributos ao rei Jorge III. Fica claro que nosso erro político mais imperdoável é fingir que revolução é coisa de radical, com que se alcunham os antigos comunistas, quando tão bem no-la ensinam os liberais de cepa, desde sempre. Por uma perversa distorção dos fatos, quando algum líder latino-americano é nutrido por um móvel semelhante ao de Jefferson, logo o acusam de insuflar a instabilidade e a baderna no continente. Não precisa de um algoz externo que o combata, como Washington e seus exércitos improvisados precisaram: nós mesmos cuidamos de massacrá-lo em favor alienígena. Se é que a América Latina é mesmo uma terra de excentricidades, esta é com certeza uma delas.

O insucesso das idéias republicanas entre nós na mesma época da Revolução Americana, culminando no assassinato de Tiradentes – entregue sem qualquer resistência à Coroa portuguesa - não me deixa mentir a respeito deste assunto. Mas, por ora, deixemos de lado as ilações, reconhecendo que a lição de Jefferson, genuína, acabou refletindo nas palavras de Emerson:
 
“Exprimi vossa convicção latente e ela será a opinião universal; pois aquilo que é mais íntimo torna-se, no seu devido tempo, o mais externo”.

História e sociedade estão entre as piores associações que se pode fazer em relação a Emerson, que aqui nos fala, evidentemente, na intimidade dos espíritos. A sociedade que Emerson aprova é, no máximo, aquela pequena comunidade de amigos com a qual mantém estreitas relações de afeto e cordialidade. Há um dualismo que há por trás de seu pensamento e consiste nisso: num extremo a sociedade, no outro o indivíduo, incompatíveis como água e óleo. A impossibilidade de conciliação entre ambos determina o seu próprio pessimismo. Melhor, portanto, é continuar absorvendo exemplos puramente pessoais para compreendê-lo e à sua nação, ainda que aqui nos interesse tirar algumas conclusões úteis da associação entre indivíduo e história. Gostaria, por isso, de insistir num segundo exemplo de natureza pública: James Monroe.

Em 1823 – portanto quase meio século depois da Declaração de Jefferson – os Estados Unidos eram ainda um território bastante incompleto, sem grande valia econômica e dotada de um poderio militar quase inexpressivo. E daí?, poderiam perguntar com franco desdém os conterrâneos do Benjamin Franklin, porque a despeito disso só prosperava a confiança no seu destino. A Doutrina Monroe, recémanunciada ao mundo, faria suspeitar que uma potência de fato existia por trás deste importante documento de política externa. Bastou que arrogassem na seguinte declaração: “é inadmissível a intervenção de qualquer país europeu nos negócios internos e externos de países americanos.”Ninguém disse que Monroe era um louco por causa disso, muito embora o país devesse esperar ainda pela transição ao novo século para sustentar esta posição com armas, se necessário, várias décadas depois (e não hesitou em fazê-lo contra o estertorante Império espanhol). Mas apenas depois da Guerra da Secessão é que a futura potência – graças à unificação norte-sul, ao expressivo aumento populacional e ao vertiginoso crescimento econômico – passou a ter as condições materiais para ensejar um efetivo controle geopolítico da região, baseado na força. 

Continua... 
 
 

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POR EM 20/10/2008 ÀS 04:15 PM

O round da política

publicado em


Antes de meados de 2008, milhões de pessoas no mundo já passavam fome, bilhões padeciam as piores condições de pobreza e miséria. Mas ninguém, nem mesmo por isso, falava em “crise”, em “socorro” a quem precisa do Estado: não era a economia que necessitava dele, apenas... pessoas de carne e osso! Até dia desses, só se ouvia falar em prosperidade, conclusão lógica de um sistema financeiro mundial com “saúde de ferro”. (Não importa se o sistema financeiro mundial serve a apenas alguns milhares de indivíduos podres de rico.)

De repente, os lobos vestiram a pele do cordeiro; se dizem preocupados com o homem comum, com o aumento do “desemprego” e do “custo de vida”, e tudo porque o seu sistema de lucros exorbitantes entrou em crise. Suspeito que a sociedade entrou nesse papo foi de álibi. Ela sofrerá, sim, as piores conseqüências, mas, como desta vez não vai sozinha para o buraco – está levando consigo um punhado de banqueiros -, acharam perversamente que era hora de apelar para os bons sentimentos e argumentar que a população mundial será castigada nos próximos anos. É a desculpa que o mercado precisa para garantir recursos para si mesmo. Faz lembrar a cena do afundamento do Titanic, o filme, onde o nobre (e canalha) inglês usa uma criancinha para garantir vaga num bote de salvamento, na hora crítica.

Desde os anos oitenta – precisamente Era Ronald Reagan / Margareth Thatcher – os ultra-liberais iniciaram na prática o encolhimento do Estado, seguido depois pelos países em desenvolvimento, entre os quais o Brasil. Sobretudo depois da ruína do leste europeu, a sociedade passou a acreditar que o mercado havia triunfado absolutamente. Isso converteu-se numa crença radical e religiosa – tão religiosa quanto o comunismo -, como se, de fato, houvéssemos alcançado o último estágio de uma suposta evolução, a parusia, mesmo sabendo que a história real não tem relação com a fábula cristã: começo, meio e fim. O extremo oposto dessa evolução era a política. O “Fim da história” propalado por Francis Fukuyama foi interpretado como fim das contradições no reino humano, fim das lutas sociais e, conseqüentemente, fim da ideologia.

Como – e com ingênuos que ares de desforra! – ouvimos no dia-a-dia, mesmo dos colegas de trabalho, a cantilena dominante de que a ideologia havia acabado, como se tal crença não fosse, ela própria, a ideologia do mercado. Caíram todos como patinhos no conto do vigário, e mais uma vez prevaleceu a fórmula de Goebels: uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade.

Por mais de duas décadas, soou extemporâneo defender a presença e a atuação do Estado na economia, orientado a cortar investimentos na área social, em nome do “equilíbrio das contas públicas”. Era a teoria do Estado mínimo, de alguns economistas brilhantes dos anos 70. Sujeito às leis do mercado, cada membro da sociedade que se virasse por si mesmo, rico ou pobre. O mercado proveria. A crença, algo totalitária, era de que o agente econômico poderia tudo, e que qualquer coisa fora dele era bobagem, incluindo a política e suas representações simbólicas. O problema dos que pensavam assim é que o bote salva-vidas, ai de cima, é o Estado: restou em último caso apelar para ele, provando, entre outras coisas, que a entidade política nunca deixou de existir nem nos países centrais do Ocidente, entre eles os Estados Unidos.

O Estado existe e é robusto. A diferença é que se tornou uma mega-instituição com atribuições específicas, demandadas pelo setor privado, e só pode entrar em ação para socorrer o mercado. Afinal, quando foi que viram-no sacar três trilhões de dólares para fazer justiça social e distribuir riqueza?

Os últimos acontecimentos levam a crer que os governos funcionam, hoje, como eficientes coletores de impostos, destinados a transferir recursos do contribuinte para instituições privadas e seus sócios irresponsáveis, se necessário. Única explicação para o colossal paradoxo do ultra-liberalismo, ao fazer com que o Estado use recursos públicos para tornar-se sócio de grandes instituições financeiras, à beira da falência. Parece programa econômico daquela esquerda que, até a bem pouco, foi tachada de retrógrada e obsoleta, pela direita. Mas é pior do que isso, pois os fins são privados: França e Inglaterra acabam de gastar meio trilhão de dólares comprando papéis pobres de alguns bancos particulares.

Compulsoriamente, o risco foi partilhado com os contribuintes e eleitores de um regime que se diz democrático, obrigados a pagar o preço da farra generalizada do capital nas últimas três décadas. É bem pior.

Celso Furtado tinha razão, quando dizia que neste sistema os lucros são privatizados e os prejuízos socializados. Mas a grande lição que fica é esta: a política – isto é, o Estado, o governo e a ideologia – não são coisa do passado. A história é cíclica e nada em seu vórtice é para sempre: é pena que, por enquanto, a ação dos governos tenha sido de conluio com a jogatina. Wall Street sempre soube que podia contar e, mais esperto que todo mundo, vendeu um peixe no qual nunca acreditou: a noção de triunfo final da economia sobre a responsabilidade dos homens.

Infelizmente, o mundo real é mais cruel que o Titanic: nele, um bando de ricaços é que entra no bote salva-vidas (portanto, o Estado), embora façam uso do inocente.  Alegam, comovidos, que o fazem inclusive para salvar este inocente, em seus braços. Mas ninguém, na verdade, está nem ai para o tal do inocente. O bando quer salvar é a si mesmo, e que se dane o resto. Caso contrário, o exército ocidental, capitaneado pelos Estados Unidos, já teria invadido alguns países da África e quebrado o pau – com ou sem a promessa de lucros.


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POR EM 13/10/2008 ÀS 05:30 PM

Mais, do mesmo

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Dezesseis dos trinta e cinco vereadores de Goiânia foram reeleitos nessas eleições. Dentre eles, os principais articuladores e votantes às escondidas do 14º e 15º salários, um privilégio, sem dúvida.

Trabalhador não sabe o que é isso. Sem hipocrisia, não acho que vereador ganha rios de dinheiro em função do que, em tese, representa: a coletividade. Acharia justo se ganhasse até mais do que hoje ganha, para cuidar da cidade. Quanto ganha, por exemplo, um atacante do Goiás? Ora, não acho que um atacante do Goiás seja mais importante do que um vereador. A riqueza de alguns parlamentares não deriva obviamente do que percebem de forma regular: é fruto de tudo aquilo que lucram por fora, através da corrupção – valores muitíssimo superiores ao vencimento em folha. Se, além disso, acumula privilégios – como o 14º e 15º mínimos -, então de fato enriquecem-se, tornando o cargo uma via de ascensão social.

No fundo, a maioria quer apenas isso mesmo: ganhar uma eleição para ficar rico e obter reconhecimento. É essa a mentalidade dos mentirosos.

Parece que o mal-caratismo é invisível aos olhos da mesma população que tanto diz odiar a política.

Insiste que odeia porque essa classe não presta!, porém, eterna contradição, a cada pleito os acusadores legitimam a bandalheira que condenam, votando nos mesmos que emporcalham a imagem do parlamento. Prova de que o povo está perdido. O povo não rebela-se, conforma-se: nunca vai ser uma ameaça aos que o exploram. Sua ignorância dispersa não pode com a inteligência dos bem articulados. Quem perde, todas as vezes, são os justos colocados na vala comum e o própria população, incapaz de fazer uma leitura minimamente crítica da realidade. Conclusão?, “é tudo igual!” É mais fácil reduzir tudo a uma sentença inócua do que defender os próprios interesses. Este ponto, aliás, não é tão simples.

Desde que se tenha dinheiro e disposição para comprar pessoas, pode um mandatário aprontar à vontade. Até porque, mesmo com as seguidas restrições impostas pela Justiça Eleitoral – que promete equalizar a disputa através de financiamento público – não se conseguiu debelar duas artimanhas de difícil correção: o favor político e a compra de votos. Destaque-se a primeira: o que a princípio parece correto – trocar o voto por benefícios – revela-se na verdade uma fonte de deturpação. Não se alterou a prática: o que mudou (ou acentuou-se) foi abdicar dos benefícios comuns em troca de favores estritamente particulares. E ai não importa o caráter do candidato, desde que resolva algum problema alheio. Um voto vale um monte de terra, um emprego para o filho, um estágio para si mesmo, uma quebra de multa, e por ai vai. A lista de interesses pessoais é generosa, não tem limite.

Porque o eleitor faz isso? Talvez porque, tendo perdido as esperanças, resolveu tirar proveito ao menos pra si. Toma lá dá cá, esquecendo-se de que seu erro implica prejuízo para todos. Corrompeu-se também: o voto não é uma arma, é uma moeda de troca. A vereança não existe para a cidade, nisso concordam certos eleitores e certos parlamentares: existe para, de um lado, ajudar fulano ou cicrano, de outro para ajudar o eleito, pelo roubo e pela fraude. A sociedade, de forma geral, é tão pragmática quanto seus representantes, tão suja quanto seus políticos. Salvo as exceções, ela também quer que se dane o interesse comum, desde que preserve o de certos membros seus. Ela é o eleitor ideal para o tipo de parlamentar que temos. Se não concordo que a sociedade tem o governo que merece, é porque me considero parte daquela exceção.

A parcela da sociedade na qual me incluo não merece a Câmara que elegemos, merece coisa melhor.

É uma parcela descontente, frustrada e perdedora. Perde todas as vezes, porque a ignorância do povo é terrível e avassaladora. Frustra-se porque tem a ilusão de que os interesses da sociedade se superpõem aos do indivíduo, quando os indivíduos levam sempre a melhor. Acha sinceramente que o eleitor, e não a política, é que não presta: faltou-lhe educação, ou sei lá o quê, para fazer escolhas conseqüentes.

Absurdo que ainda seja obrigatório o voto de tanta gente despreparada, quando o que uma eleição mais requer é responsabilidade!


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POR EM 26/08/2008 ÀS 08:39 AM

Deuses mortos na praia

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O Brasil ficou na 25ª colocação no quadro de medalhas de Pequim, 2008. Não importa se não somos uma potência do esporte: podíamos ter ficado, no mínimo, em 13º, à frente da Jamaica e atrás da Holanda. Bastaria, para tanto, termos confirmado conquistas prováveis, no vôlei masculino (incluindo o de praia) e no futebol feminino e masculino. O que faltou ao Brasil? Como torcedor, tenho meus palpites. Não vimos em nossas equipes o que argentinos e norte-americanos esbanjaram nas decisões, pra cima de nós: frieza e cálculo, o bastante para reagir quando, e se, necessário.
Na realidade, estou sendo modesto. Podíamos ter conquistado não 15, mas dezoito ou vinte medalhas, no total. Seria bastante razoável que Jadel Gregório (salto em distância), Daiane dos Santos e Diego Hipólyto (ginástica artística), Rodrigo Pessoa (hipismo), Tiago Camilo (judô) e Fabiana Murer trouxessem, no mínimo, algumas pratas e bronzes a mais. Não deu certo: a última foi vítima de uma loteria improvável (perderam sua vara), Diego e Tiago foram simplesmente inexplicáveis, e Daiane não teve remate, detalhes francamente bobos que fizeram toda a diferença entre o ouro e nada.
Terei eu almejado algo além de nossas reais possibilidades? Absolutamente, não. Não alcançamos um melhor resultado porque continuamos a depender de investimento, segundo de preparo físico e psicológico dos nossos atletas, quase sempre imprevisíveis e excessivamente passionais.
O envolvimento e apoio de órgãos de governo e da iniciativa privada é fundamental para o sucesso do esporte brasileiro. Quer chateação maior do que perder no futebol para os Estados Unidos, logo eles? Mas há uma explicação exemplar: lá o futebol, praticado entre as mulheres, é institucionalizado nas universidades. Dispõe daquilo que no Brasil não existe: apoio e estrutura. Como ficou claríssimo, futebol feminino no Brasil é, literalmente, pura raça. Aliás, de fazer inveja aos craques pachorrentos dos gramados.
Apesar da prata, Marta e Cia merecem nosso respeito, vá lá. Não sejamos injustos. Resgataram uma característica que se ausenta cada vez mais em nosso futebol masculino: o ataque. Sobrou até pra Ele, numa mistura de intimidade própria dos deuses do esporte com a informalidade mais que brasileira: “O que foi que eu fiz pra merecer isso, meu Deus?”, reclamou a melhor do mundo, desesperada. Perderam, mas estavam inegavelmente imbuídas do espírito de vitória. Marta e Cia amargaram a prata como quem ingere fel. Foi uma raiva de dar orgulho!
As meninas do futebol tinham disposição, mas faltaram-lhes pernas, justo na final. Com os homens deu-se o inverso: não faltara-lhes o vigor físico, mas não tinham cabeça. Acaso, prevalece entre eles, todas as vezes, uma irritante apatia. É o ego farto de quem, jogando na Europa –mais que isso, vivendo e se aculturando na Europa -, já conquistou tudo o que o futebol pode dar: dinheiro, celebridade e mulheres a rodo. E vivem longe do Brasil, tendo certamente mitigados seus sentimentos patrióticos. Fazer feio com a amarelinha virou parte de sua rotina, a ponto de sequer esboçarem aquela raiva que dignifica o espírito olímpico.
Não devem nada ao Brasil, parecem dizer de modo cifrado em sua gramática de pernas, passes, dribles e chutes sem a mínima empolgação, quase protocolar e apta a provocar bocejos. Que seleção (perdoem a franqueza) de merda!
Moral da história: quando temos físico e técnica, falta-nos cabeça (Ronaldinho e Cia., Daiane em 2004). Quando temos cabeça e técnica, falta-nos preparo físico (Marta e Cia.). Quando temos físico e cabeça, falta-nos técnica (Daiane em Pequim, talvez Diego, Tiago, Rodrigo etc., etc.). Diagnóstico possível: o Brasil nas olimpíadas – não só no futebol, mas em todos os esportes - é como uma imagem desfocada. Quando conseguirmos casar os registros e termos corpo, mente e habilidade em sintonia – ai, sim: será provável que nossos deuses do esporte voltem a pisar nossas praias com muito mais (l)ouros.
Será mais provável que tenhamos, também, um pódio mais digno de nossa fiel e sofredora torcida. Pô, a gente merece!

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POR EM 12/08/2008 ÀS 06:26 PM

A Babel de Luiz Ruffato

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A arte pós-moderna é bem diferente da arte anterior, digo, daquela arte praticada na primeira metade do século XX. Um dos traços marcantes do modernismo foi a política de grupo, os grandes “movimentos” estéticos – futurismo, expressionismo, surrealismo etc – tendo por conseqüência a publicação de inúmeros manifestos e revistas. De certa forma, nem Dada, a vertente mais anárquica daquele período, escapou a essa tendência: teria três grupos dispersos pela Europa – Zurique, Paris e Berlin - e um possível manifesto, escrito tardiamente por Tristan Tzara, em 1918. Ainda assim, é o que mais se assemelha em espírito e atitudes ao que assistimos hoje. Uma ponte, talvez.
 
De lá para cá houve uma mudança radical e não se ouve mais falar em grupos organizados e idéias pré-concebidas e escritas: o que parece contar, na cena atual, é a experiência solitária do indivíduo, independentemente de sociabilidades e projetos coletivos. A propósito: se essa arte é um reflexo da realidade contemporânea, vivemos então numa época absolutamente triste e indesejável. Solidão e individualismo parecem ser as marcas cruéis da realidade presente. O que prevalece é o fragmento e, de modo bastante irônico, a incomunicabilidade, o que explicaria uma forte tendência para o monólogo. O que vale é a verdade de cada um, logo as formas inusitadas: tudo serve de matéria e de suporte.
 
Assim como nas artes plásticas – cujas “esquisitices” ainda causam escândalos em muita gente -, na literatura brasileira da última geração temos um bom exemplo desse processo dispersivo na obra de Luiz Ruffato, jovem mineiro autor do estranho Eles eram muitos cavalos, lançado em 2001 . Não se trata, obviamente, de romance, de novela, de conto ou poema – tudo o que sabemos é que combina prosa e poesia, mas não se enquadra em nenhum gênero conhecido particular. Não é original por isso, mas explora até o paroxismo essa indefinição, razão pela qual é um daqueles livros que põem em xeque a validade desse tipo de classificação que - verdade seja dita - atende muito mais aos interesses da crítica do que da literatura strictu sensu . A crítica literária não escapa às vicissitudes da classificação, método científico universal, muito embora sejamos tendente a encarar boa parte de suas análises como performance ficcional. Posso estar redondamente equivocado, mas sou daqueles que, não raro, desconfiam dos foros de veracidade dos exegetas (opinião de um leigo curioso).
 
Eles eram muitos cavalos é isso - uma mistura de cartas, anúncios eróticos e de emprego, simpatias, poemas em prosa, diálogos, monólogos e até Oração a São Expedito! São na maioria relatos e depoimentos, resultando numa mistura de comédia e lirismo: o trágico, aqui, é patético e sem grandezas. Às vezes quem fala é a primeira pessoa, outras vezes o texto é inteiramente impessoal: o autor simplesmente transcreve um diploma da Igreja do Evangelho Triangular, por exemplo. Não tem começo nem fim, tampouco enredo, e podemos começar a lê-lo na página em que o abrimos, para frente ou para trás, tanto faz. Ruffato é um experimentador nato: explora diversas fontes tipográficas e chega a usar, inclusive, duas páginas em preto (apropriação de uma técnica usada pelo concretismo). A linguagem é crua e de um realismo visceral: vale-se de gírias, expressões erradas e neologismos como bundar , zoação, pruquê, cunhadaria , alaridar , lhufas, apê, arvinha, trampar, minas, corajar, bonachonamente etc. Os “heróis” e “heroínas” do livro são freqüentemente buscados na classe média decadente dos grandes centros urbanos (aqui, São Paulo), outras vezes no meio da ralé. Gente como a gente, aos montes e fugazes, consumidos pelo turbilhão de vozes que é o livro.
 
Um exemplo dessa escrita fragmentária ( 25. Pelo telefone ): “Oi, aqui é a Luciana. Deixe seu recado após o sinal”.
 
Agora deu pra mijar no chão... Não aquela gotinha no assento do vaso, não... que isso é até normal... Mas uma pocinha no chão... como se... como se o jato não tivesse mais força, entende?, como se o jato não tivesse mais força...
 
Eis a suposta esposa traída queimando o filme do marido para a amante “desgraçada!”. É apenas um exemplo da série vertiginosa de 69 lampejos de afetos, desejos e frustrações de ninguém porque de todo mundo, instantâneos das carências, da desagregação e da violência nas grandes cidades. Aos desavisados e tradicionalistas Eles eram muitos cavalos parecerá uma porra-louquice, mas não aos leitores de vanguarda: Ruffato tem sentido, densidade e dialoga com a realidade.
 
A conclusão é um truísmo necessário: um dos deveres dos amantes da literatura – particularmente dos que estão interessados em escrever - é ler autores contemporâneos seus. Se o clássico é vital, o contemporâneo não deixa de ser essencial: assim como não se escreve com profundidade ignorando a tradição, tampouco se escreve com interesse para o leitor presente sem que o mesmo reconheça, ali, o seu mundo particular.
 
A quem possa interessar, Luiz Ruffato é uma boa pedida.

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POR EM 29/07/2008 ÀS 11:24 AM

Borges, o atualíssimo

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O título acima é meio que uma paródia do conto Funes, o memorioso, constante em uma das primeiras coletâneas narrativas de Jorge Luis Borges, Ficções, editada em 1944. Há um dado curioso nesse livro, ou em torno dele, que foi ter sido escrito na década de quarenta do último século. Parece, assim, que estamos diante de um artefato antigo. Ledo engano, embora tenha vindo a lume, para ser exato, há 68 anos atrás. Nessa idade o livro seria já velho: fosse um homem. (Não que não o seja, de certa forma).
 
Mas por que – indaga o leitor – um dado curioso? Porque não havia naquela época a internet, sequer indícios de que os homens empreenderiam algo tão fantástico. O universo já existia desde sempre, ou pelo menos desde quando foi escrito o primeiro poema épico ou o primeiro livro, quer dizer, no último caso: as primeiras tentativas de armazenar o todo. (d`Alembert foi um desses ambiciosos obreiros, e criou um dos objeto de culto do escritor argentino) Por outras palavras, somente três décadas depois do surgimento deste livro premonitório que se chama Ficções os homens começaram – década de setenta – a edificação concreta de algo mais sutil, e cujo nome pode ser A biblioteca de Babel. Tratá-la por Babel não tem a mínima importância, pois equivale a um reflexo, um efeito comum em Borges.
 
A biblioteca de Babel é um conto ilustre daquele título famoso. Nele, o argentino inventa uma arquitetura cujo número de recessos evoca, já, os labirintos da rede mundial. Borges, como sabemos, cultiva com especial predileção algumas palavras, qual pátio, vindicação, contestação, prodigalizar e intuição. De seu vocábulo interessa-nos esta, pois ele terá intuído – ou previsto – o surgimento dessa enorme empresa que os homens logram, agora, com êxito espantoso, e se não alcançaram o infinito, beiram-no vertiginosamente. Quem navega pelo ciberespaço pode não chegar a lugar nenhum ou fazer uma viagem inútil, movido pela curiosidade de abrir janelas. O problema é que essas aberturas não têm fim.
 
Quem lesse A biblioteca de Babel em outro ano, digo, outra década anterior – seja 1989, ano por acaso em que Borges faleceu – não poderia associar essa história ao futuro, e quem sabe se perdesse em seu intrincado argumento (com argumento intrincado eu seria menos explícito). Poderia, se tanto e por associação, vincular o conto aos livros na sua forma tradicional, e pensar – o que já é quase uma nostalgia – nas bibliotecas povoadas de livros tradicionais. Nem mesmo os críticos e admiradores de Borges – Emir Rodriguez Monegal, Allan Robbe-Grillet ou Michel Foucault, por exemplo – tenderiam para o futuro, embora seu cabedal e seu gênio tenham sido especialmente raros. Quem sabe se pudesse pensar, tanto tempo depois da publicação de Ficções, que este livro se tornasse cada dia mais datado. Porém, quis o destino ou quiseram os deuses que as cápsulas aí encerradas por Borges – que queria morrer completamente – se tornassem indestrutíveis pelo concurso da técnica, condenando-o.
 
Borges, que merece de nós o epíteto de atualíssimo, viverá, ainda, longos anos, graças a essa sutil descoberta. Há momentos em que ele a intui translucidamente:
 
“prefiro imaginar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito…” (trecho de A biblioteca de Babel)
 
Leio esta linha e percebo, no ato, que estou diante de um monitor, vagando na internet, onde alimento este texto para um blogue semanal. Jorge Luis Borges candidata-se de vez à imortalidade porque previu e fala aos homens do futuro, sem menoscabar a tradição. Uma das possíveis lições contidas nessa descoberta é de que o escritor, ao se lançar em seu trabalho poliédrico, deve esforçar-se por intuir o universo futuro, captando em seu instante os possíveis sinais ou vestígios desse universo posterior. É assim ou desaparece. O artista deve ser, na feliz expressão de Ezra Pound, a antena da raça e tornar-se a fonte para uma extravagante arqueologia do devir. Imagino que Borges conseguiu esta proeza com talento e fidelidade, ao manipular a metáfora, que é definitivamente mágica.
 
A título de esclarecimento, retornei à leitura d`A biblioteca de Babel por vias travessas. Agora sei que, quando a li pela primeira vez, não entendi nada ou entendi muito pouco. Cansado de outros afazeres, fui assistir a um canal de televisão, e acabei descobrindo que não perdi meu tempo. (Supostamente, poderia estar fazendo algo mais útil, escrevendo ou estudando. Mas assim poderia ter passado em branco o presente “conto-artigo”). Então, deparei nesse canal com uma entrevista em que a artista digital Gisele Beigelman abordava a arte na era da internet. Foi ela quem citou Borges como escritor capaz de refletir sobre o universo em que vivemos, lendo um trecho de Funes, o memorioso. Instigado, fui ao texto e continuei o jogo: soube que Funes era “o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente exato.” Giselle tinha razão, embora tenha citado um dos últimos parágrafos do conto para justificar sua tese. Porém, dei-me conta de que noutras partes de Ficções também está cifrada essa coisa que agora sabemos: a www.
 
Com efeito, A biblioteca não foi um acidente: a internet foi prevista muito antes e povoa o universo fantástico de Jorge Luis Borges.

 

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POR EM 07/07/2008 ÀS 11:10 AM

Manual de guerra

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O segredo de Maquiavel é o homem. Lemos seu manual de guerra, O príncipe, descobrindo página por página que o pensador investigou primeiro o homem, a sua natureza íntima, chegando daí às conclusões políticas


 


 
Um respeitado medievalista brasileiro, Hilário Franco Júnior, repara em um de seus trabalhos, Idade Média, o nascimento do ocidente, que esse período, ao contrário do que é vulgarmente afirmado, legou algumas contribuições fundamentais à civilização moderna. Entre elas destaca o Estado nacional, as sementes do parlamentarismo, o contratualismo e o trabalho assalariado, que teria aparecido entre os séculos XII e XIII, no curso da Idade Média Central. No campo da cultura, não foi menos destacada sua contribuição, desmentindo a idéia de uma época criativamente estéril, consagrada apenas a um misticismo entorpecente.
 
Está certo que a Igreja não só monopolizou como, em parte, atravancou o progresso do conhecimento, em particular o especulativo, mas nem tudo foi perdido nos longos mil anos deste reinado religioso. Em que pese suas maiores realizações, a Idade Média continua, rigorosamente falando, uma época insuperada. Basta dizer que não concebemos as profundezas do homem moderno sem o amparo de Dante Alighieri, o maior dos poetas, ladeado, parece, por Shakespeare. Tampouco é possível pensar a política, ainda hoje, sem nos servirmos das análises de outro florentino genial, Nicolau Maquiavel. Maquiavel nasceu em 1469 e escreveu sua obra mais importante, O príncipe, por volta de 1513, quando já falamos de período moderno, cujo “mito de origem” remonta à reconquista de Granada pelos cristãos, em 1492, ou, quando muito, à descoberta da América, em 1500. Menos simplista é concordar que se trata de um demorado período de transição, onde as águas do tempo se misturaram até o fluxo pender para um dos lados, esmaecendo de vez os resíduos do outro. Como ensina a historiografia francesa dos annales.
 
Quem, nos últimos 500 anos, definiu melhor a política do que Maquiavel, homem que viveu na passagem entre estes dois mundos, o medieval e o moderno? E fê-lo com tamanho acerto, em nosso entendimento, por um detalhe - o método.
 
O segredo de Maquiavel é o homem. Lemos seu manual de guerra, O príncipe, descobrindo página por página que o pensador investigou primeiro o homem, a sua natureza íntima, chegando daí às suas luminosas conclusões políticas. Em outras palavras, Maquiavel não partiu de uma abstração conceitual que chamamos de “política”, a exemplo do que fez, peguemos ao acaso, Marx, quando Marx partiu da “economia” para chegar a um sistema explicativo das relações humanas, a propósito altamente coerente e modelar. Paralelo elucidativo, é possível conceber o homem moderno a partir da leitura econômica de O capital, sendo inversamente possível, também, chegar a uma compreensão da política a partir da leitura humana de O princípe. É improvável que o método não tenha sido escolhido conscientemente por seu autor, já que está lá, impondo-se à sensibilidade do leitor. É um caminho bastante original, se o compararmos ao processo investigativo de outros politólogos e cientistas sociais, conforme exemplificamos com Marx. Amiúde, a investigação científica social parte de outras categorias e abstrações, seja a economia, a cultura, as leis, o Estado etc., etc. A categoria de Maquiavel é o homem.
 
Em alguns momentos, lemos seu livro com a satisfação de quem lê uma tragédia como Macbeth, embora uma coisa seja arte e a outra, evidentemente, não. O expediente atroz com que Agátocles Siciliano e Oliverotto da Fermo recorreram para ascender ao poder (cap.VIII) são traduções reais das famosas carnificinas do dramaturgo inglês, da mesma forma com que o veneno que inadvertidamente matara César Bórgia e seu pai, o perverso Alexandre VI, sucessor de Pedro, recorda os meios com que os vilões shakespearianos eliminam seus antípodas. Com efeito, não há nenhum exagero quando o mestre inglês encerra suas grandes peças eliminando todos os protagonistas, embora não tenhamos notícias de que tenha lido Maquiavel. Eis a política real, aquela de que trata Maquiavel: nada é mais humano do que a guerra, e infelizmente não há nenhuma ironia nisso.   
 
Mas O príncipe evidentemente não é arte, ainda que possamos auscultar esses incontroláveis impulsos subjetivos que caracterizam seus personagens, analisados pela objetividade às vezes ambivalente de um pensador. Diga-se aliás que o mesmo não quis ornar com retórica - ferramenta indispensável dos artistas neoclássicos -, seu belo manual. Não faz muito diferença, pois o resultado corresponde a isto: à semelhança do que acontece num romance, assistimos nesse livro ao escrutínio moral de várias personas, refletidas em suas disposições psíquicas e de caráter; são, todavia, personas reais, personas históricas. Maquiavel, ao contrário de um Boccaccio, não inventou suas criaturas (salvo a referência a figuras mitológicas como Moisés, Rômulo, Teseu e Davi, relacionadas por razões presumivelmente didáticas). Não é arte, como dissemos, mas o móvel que inspira Francesco Sforza ou Cipião, este ou Braccio da Mantone e, é claro, o povo, é a paixão. Prova disso é o uso abundante que Maquiavel faz de termos substantivos como gratidão, injúria, inveja, amizade, desgosto, escrúpulo, medo, vingança e tantos mais que tão bem conhecemos de nossas relações pessoais.
 
Uma das causas da “ruína e desonra” da Itália de seu tempo – e que também ameaçou a França de Luís XVI, rei à época – era o recurso às milícias mercenárias e às forças auxiliares de outros príncipes (cap. XII e XIII). No caso, a conseqüência desastrosa foi a fragmentação do país em vários Estados. Ora, e qual terá sido o ponto fraco desses exércitos de empréstimo? A instabilidade, a ambição, a indisciplina, a infidelidade, a deslealdade – tanto dos chefes quanto dos seus soldados. Teria sido esta, também, a causa da desgraça romana durante o período de anarquia militar que conduziu o maior império do Ocidente à ruína, até 476 d.C. Naturalmente, já não bastariam as virtudes reunidas de um capitão exemplar como Severo para impedir a bancarrota de seu mundo. Dizem que a grandeza de um indivíduo é proporcional ao estado ruim de coisas que encontra e reverte, e Maquiavel quis reverter a situação italiana tornado-se o preceptor de Lourenço de Médicis. A raiz de sua grandeza é a desgraça da Itália. 
 
 
Aquele caudal de sentimentos opostos é parte do movimento dialético. É a dialética que, em última instância, determina a sorte do condestável ou governante, e que constitui a linha condutora de O príncipe. Refiro-me à relação entre o mérito ou virtude - por si só uma qualidade do espírito-, e a sorte ou fortuna, que independe da vontade individual, mas apenas de forças externas e imprevisíveis. São os favores alheios, a boa vontade de terceiros, a saúde e outras coisas do gênero. Na política há, então, fundamentalmente, dois tipos em ação: o virtuoso, “um homem dotado de grandes talentos e predicados”, e o afortunado, que não é lá grande coisa por si mesmo, exceto pelas circunstâncias que possam brindá-lo. Conhecemos inúmeros afortunados, quase todos crápulas e fanfarrões, e raríssimos virtuosos – únicos que, ao conquistar o poder, podem e talvez mereçam ser glorificados. Políticos há que se valem, ainda, ou do “crime” ou do “apoio dos concidadãos” – venturosa astúcia -, embora não seja mais possível escapar à influência, ainda que pequena, de um dos dois fatores polares, inelutáveis como uma lei.
 
Próximo dos ficcionistas – sem, repetimos, confundir-se com eles - o pensador florentino avalia os indivíduos em termos de virtudes ou de atrocidades, razão pela qual um dos objetos de sua obra é “a forma de ser e de proceder”, “os feitos e a vida” desses mesmos indivíduos exemplares. São dignas de atenção construções desse tipo: “natureza dos vencidos”; “se observarmos as suas particulares ações e condutas”; “excelência das virtudes pessoais”; “desdenha os maus sentimentos”; “Examinando seus feitos e trajetórias”, entre outras. Justifica, em tais termos, a dedicatória a Lourenço de Médicis, onde realça como qualidade maior de seu manual a humanidade que lhe é intrínseca: “Sua humanidade é para mim uma garantia de que Ela [a Magnificência de Lourenço] a receberá com simpatia...”, fazendo analogia de seu trabalho ao de um paisagista que descreve o seu objeto. É um pintor.
 
Como tal, Maquiavel parece ser herdeiro de uma tradição que se firma a partir do Quatrocento, e que vem a ser o naturalismo, uma concepção secular e racional do homem e da vida, tributária, segundo Arnold Hauser, da classe média ascendente. É significativo que Florença, a cidade do pensador, seja o centro irradiador desta tendência. O realismo de Maquiavel está em saber que o homem é homem, mas também animal (cap.XVIII). Ele não descobriu o mau-caratismo, o homem antiético, mas para sempre ensina como se precaver contra sua permanente ameaça, ainda quando, para que assim suceda, seja necessário fazer-se temido. Em suas relações, de acordo com ele, cada um deve ser seu próprio Aníbal, haja vista que, nesse mundo, é mais fácil ver rompido os vínculos da estima que o dos interesses pessoais: “os homens não tardam a esquecer a morte de um pai quanto a perda de um patrimônio”. Às vezes, como aqui, o gênio se reconhece pelas obviedades que diz. Não sabemos se Shakespeare leu Maquiavel, mas esse último ensinamento bem poderia ter inspirado a malvadeza familiar do vilão Edmundo.
 
A concepção maquiavélica de política permanece imbatível – basta conferir os noticiários para confirmá-lo -, embora seja originalmente uma concepção renascentista. Daí a centralidade do homem e de sua natureza íntima. Daí a sensação algo estesiante provocada pelo O príncipe, em que pese, imagino, o interesse pelo retrato individual de homens de carne, osso e espírito, observados sem nenhuma ilusão, à maneira do que fizeram talentos posteriores como Stendhal, como Lampedusa, embora com outras finalidades. A diferença fundamental, que exclui dele justamente qualquer possibilidade de ficção, é sua crua objetividade, sua referencialidade ineludível, sua triste e horrorosa realidade. A violência rotineira dos papas medievais não é ilusória como a dos vilões Iago e Lady Macbeth. Não é arte o que contém O príncipe, portanto, mas, para além de nossas suspeitas, seu autor julgava que pelo menos o Estado era de fato uma realização artística:
 
“Maquiavel, seguindo a tendência de sua era, dizia que o Estado era a maior de tôdas as criações artísticas. A maior de todas as artes era aquela que construía uma ordem política. É verdade que ele encarava a construção do Estado em termos muito renascentistas. Era uma atividade na ordem de Brunelleschi, o construtor do Duomo de Florença...” Na sua opinião, “os materiais usados na grande obra de arte que era o Estado eram os sêres humanos.” (Carl J. Friedrich, Uma introdução à teoria política, p.p.144-145)
 
O pendor fascista de algumas “democracias”, em nossos dias, faz pensar que o capítulo mais discutível de O príncipe tenha se tornado o IX, “Do principado civil”. Não parece que, em situações normais, o povo seja tão indispensável conforme Maquiavel imaginou, aí e adiante. Se o é, ainda, ao invés da consideração verdadeira pelo vulgo, muitos “príncipes” e governos atuais valem-se na realidade da propaganda para estabilizar seus impulsos, enquanto na obscuridade praticam outras coisas. Não se pode negar que os meios de comunicação evoluíram muito, de modo que a tarefa de iludir tornou-se muito mais fácil do que num passado tão remoto quanto a Renascença. No mundo contemporâneo uma das maiores fontes de poder são os meios de comunicação de massa, invariavelmente concentrados nas mãos de umas poucas famílias muito ricas. Daí que a influência dos grandes – mais do que ninguém sobre o controle hegemônico da opinião pública - parece ter-se tornado mais importante e decisiva, seja ela a minoria que for. Talvez a Internet, baseada na interatividade e em escolhas pessoais, possa reverter a situação em favor da ampliação do espaço democrático. Pelo menos em tese. Essa, porém, é outra discussão.
 
Ao lado de Sun Tzu – A arte da Guerra – e de Carl von Clausewitz – Da Guerra -, O príncipe é um dos mais brilhantes manuais do gênero, na história. A humanidade tem seu lado perverso, e é sobre alguns desses aspectos que instiga à reflexão este valioso manual da vida prática, fonte preciosíssima da real politic – aquela que sempre alveja nossas mais nobres e doces ilusões. A propósito: vicejem elas à direita (Maquiavel seria um ideólogo burguês) ou à esquerda. Ou sabe o leitor de alguma diferença metodológica, na prática?  

 

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POR EM 01/07/2008 ÀS 05:31 PM

Preto, pobre e genial

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Machado de Assis é, seguramente, o sol do nosso sistema literário. Fundamental no romance e provavelmente no conto, é importante também pela crítica que exerceu e talvez pela poesia que nos deixou, inteiramente medíocre para uns, antológica para outros, em certas partes. Seu teatro — ele, que tanto apreciou Shakespeare — é o que menos importa. Sua grandeza é única, em que pese sua escala universal, fato que é confirmado pela melhor crítica. Alfredo Bosi já disse, em sua História Concisa da Literatura Brasileira, que, com o surgimento de Memórias Póstumas de Brás Cubas, ele antecipou — em décadas — as principais “descobertas” de pelo menos dois autores consagrados mundialmente no século XX: “Foi nesse livro surpreendente que Machado descobriu, antes de Pirandello e de Proust, que o estatuto da personagem na ficção não depende, para sustentar-se, da sua fixidez psicológica, nem da sua conversão em tipo; e que o registro das sensações e dos estados de consciência mais díspares veicula de modo exemplar algo que está aquém da persona: o contínuo da psique humana.” (p.180)

Isso parece não ter sido, ainda, reconhecido em outras plagas, embora seu auditório internacional seja cada vez mais amplo e consolidado. Seguindo os passos de Bosi, podemos acreditar que o genial escritor brasileiro foi ainda mais longe, pois suas leituras de Lawrence Sterne levaram-no a antecipar-se a todos os principais nomes da literatura moderna, no séc.XX. O que ele descobriu no sátiro inglês os demais foram buscar, mais tarde, na filosofia de Henri Bérgson: certas noções antimaterialistas do tempo, que culminaram na nação de fluxo de consciência, e que vem a ser este “contínuo” machadiano. É claro que Proust, Virginia Wolf e outros de igual relevo não tiveram contato com a obra de Machado de Assis, e por este motivo foram tão originais quanto ele. Certo, não lhe devem um vintém, ao contrário dele mesmo, que tem dívidas consideráveis com mais estrangeiros, entre os quais Almeida Garret e Poe. Mesmo assim, um dos méritos de Machado foi ter conseguido algo que nenhum outro havia conseguido então, e quem sabe até hoje, no Brasil: desenvolver e consolidar uma técnica narrativa revolucionária — manifesta na Europa contemporânea e nos EUA só depois da Segunda grande Guerra —, tanto quanto coincidir esta antecipação com uma aguda consciência nacional.

Infelizmente, a influência que um escritor exerce sobre outros é decisiva para dimensioná-lo num determinado nível, e Machado de Assis não foi descoberto a tempo por ninguém fora de seu próprio país; sequer a América espanhola, fronteiriça, o conheceu suficientemente bem.

Insista-se, entretanto: alguns dos escritores que revolucionaram a literatura mundial nos últimos 80 anos — além dos citados, Joyce e Faulkner — não chegaram, conclusão lógica, antes de Machado de Assis, talvez o segundo a operar aquela técnica narrativa cujo paroxismo extravagante seria manifesto por Molly, personagem de Ulysses, de James Joyce. Isto nos faz pensar — hipótese inteiramente absurda — que, se o criador de Capitu tivesse nascido na França ou na Inglaterra, e não no Brasil, é possível que seu impacto universal fosse outro, simplesmente porque tínhamos aí os principais centros irradiadores da cultura literária ocidental naquele tempo e ainda hoje. Seria alçado, quiçá, às alturas de Hugo, de Dickens, o que não deveria soar pretensioso de nossa parte. Harold Bloom disse que ele é o maior escritor negro que já existiu; disse pouco: é também maior que a maioria dos escritores brancos, com exceção de duas ou três dezenas que incluem Tolstói e Flaubert.

Não se trata, como adverte Bosi no livro citado, de idolatrar “um autor que fez da literatura uma recusa assídua de todos os mitos”. Trata-se apenas de convirmos com uma verdade sumamente objetiva, que é seu pioneirismo inconfundível, fiado pelo tempo: simplesmente nasceu e produziu antes, e nada pode falar mais alto. Se fôssemos movidos pela emoção neste julgamento, não tergiversaríamos por Guimarães Rosa, em sua companhia no panteão nacional — nem acima nem abaixo —, porque isto corresponde exatamente ao que sentimos. Entretanto, com pesar, temos de admitir que o autor de Grande Sertão: Veredas claramente divide opiniões: gênio realizado para Sérgio Buarque de Holanda e Franklin de Oliveira (que lhe dedicou uma louvação), não convenceu Wilson Martins e parece que nem Carlos Heitor Cony, hipótese que assumiria aspectos de heresia, senão de ignorância pura e simples, em se tratando de Machado de Assis.

Para citar outro que aborda a novidade representada pelo aparecimento de Machado, lembremos de Hélio Pólvora, aqui tendo por matéria analítica o conto moderno, principalmente:“Ele se antecipou à ambigüidade de Joseph Conrad, à ambivalência narrativa de Faulkner, que vem a ser das mais perversas, ao impressionismo de Proust e aos silêncios eloqüentes de Tchekhov”. (46)

Pólvora lembra que os criadores do conto clássico foram Nicolai Gógol, Edgar Alan Poe, Guy de Maupassant e Anton Tchekhov. Machado, contemporâneo deste e tão original quanto ele, sem sequer conhecê-lo, poderia tranqüilamente figurar em tão distinta seleção, não fosse a sorte, outra vez, de ter nascido num país periférico, consagrado à marginal mas honrada língua portuguesa. Consta que uma das contribuições decisivas de Tchekhov à short story foi ter inventado histórias em que o silêncio é que fala mais alto, o que, pela mesma época, fez magistralmente nosso Machado.

Pensemos no erótico “Missa do Galo”. Muito parecido com “Uns Braços”, em seus motivos — neste conto também um forasteiro se delicia com a visão sensual do braço de uma senhora —, é, no entanto, mais denso, talvez melhor. Curioso, este conto não importa pela conclusão vulgar: o protagonista, Nogueira, realmente sai para assistir à missa, conforme o combinado com um amigo. O que o eleva são as entrelinhas, a sugestão, o subentendido já a partir do primeiro diálogo entre a resignada D. Inácia e esse seu hóspede. A atmosfera de sensualidade corre frouxa entre os dois — ela, que se sabe traída pelo marido, e ele, que sabe disto —, entretanto os vence, afinal, a repressão da moral cristã e burguesa ou, quem o saberá?, o relógio. Ninguém pode julgar até onde iriam aquele moço pio, suspenso, porém, pela tentação da carne, e aquela mulher casada, contudo enfastiada do lar, já sentada ao seu lado, quase entregue, em devaneio...quando batem à porta! Um primor.

Dizem, então, que este é um conto “à maneira de Tchekhov”. Isto o subestima; é receio de assumirmos um lugar que deveras nos pertence no concerto literário universal. Se “Missa do Galo” é tchekoviano — a razão de “O Beijo” não ser machadiano explica o caso contrário —, então Dom Casmurro é o esteio deste jogo, ou pelo menos sua versão romanceada, e seu autor deveras um monstro, que terá chegado primeiro a muitos, ou, pelo menos, junto, não na retaguarda. Analisando a estrutura deste romance, Barreto Filho ousa dizer que, com ele, Machado de Assis criou um gênero novo: “O livro é feito de pequenas cenas e incidentes, uma urdidura cerrada, obedecendo muito à estrutura de uma peça teatral, na entrada e saída das personagens, nos diálogos curtos e breves. Mas seria uma peça à qual se incorporaram o trabalho dos bastidores e as indicações e movimentação cênica. Isso lhe dá um aspecto único. É um gênero novo, estritamente machadiano”. (p.165)

Duas coisas: a precaução exige que tal hipótese se deixe confirmar por outros exegetas, além do que tal gênero parece não ter deixado cultores que o consolidassem como aos demais, se fosse realmente o caso. Adverte-se, apenas, que essa opinião nos remete a criadores prodigiosos, do nível de Montaigne e de Cervantes. Acreditamos que é um exagero, mesmo assim não é favor nenhum, de uma vez por todas, reconhecer o lugar de Machado de Assis sem que nos estorve nosso constrangimento habitual e passe da hora. Essa convicção ampara-se no próprio texto machadiano e em conclusões que nos soam exatas, como as do mesmo Barreto Filho, para quem, ao contrário de muitos — dada a homérica tarefa que isso obviamente representa —, Machado de Assis criou também “uma galeria de tipos absolutamente realizados e convincentes.”

Entre os inúmeros acertos de Machado de Assis, está este, sem dúvida. Em seus principais romances, é sabido que o escritor demonstra profundo ceticismo com a natureza humana, fraca e impelida sobretudo por interesses mesquinhos. Nisto é tedioso como qualquer outro que se preze. Mas há obras nas quais atenua este sentimento não com seu humor, mas com a medida, a exemplo de um conto de sabor moralizante, “A Igreja do Diabo”, em que não tanto os protagonistas (afinal mitológicos), mas a natureza humana se nos revela de forma perturbadora.

Aqui a visão maniqueísta é de certa forma posta em xeque pela conclusão de que somos uma terceira coisa: a amálgama insolúvel do bem com o mal. Esta seria nossa verdadeira natureza, que surpreendeu ao próprio Diabo, tentando implantar sua igreja entre nós. A princípio, Machado nos leva a crer que Deus é que está fadado ao fracasso, pois semeia no meio do mal — a alma do homem —, onde as virtudes diabólicas vingam com extrema facilidade, sugerindo que os instintos, e não a consciência, é que nos enformam. Daí a aceitação imediata da nova doutrina pela humanidade, ao se supor que o Diabo restitui sua verdadeira natureza: as virtudes consagradas (a solidariedade, o amor etc.) não seriam mais do que um verniz moralizante, incapaz de conter a manifestação da inveja, da gula, da avareza, da fraude etc., e pensamos que, afinal, o Diabo tem razão. Este aqui é o seu reino. Mas, não é e não tem razão: Machado não acredita que somos apenas maus, e também o Diabo fracassa em seu empreendimento. Põe o rabo entre as pernas e vai-se lamentar com Deus.

A moral da anedota é que o homem é uma contradição, a luta permanente entre as forças do bem e do mal. Por outras palavras, não somos isso “ou” aquilo, mas fatalmente isso “e” aquilo. Eis tudo, a despeito das igrejas e mesmo das ideologias, na sua quimera de tornar o homem perfeito segundo um princípio ou outro da existência. Daí o sentido de outra assertiva de Bosi: “Menos do que “pessimismo” sistemático, melhor seria ver como suma da filosofia machadiana um sentido agudo do relativo: nada valendo como absoluto, nada merece o empenho do ódio ou do amor. Para a antimetafísica do ceticismo, a moral da indiferença”.

Finalmente, Barreto Filho:“Encontramos em sua arte, ao mesmo tempo eqüidistante dos excessos sentimentais do Romantismo e da frieza do Naturalismo, o traço próprio das grandes vocações artísticas: a capacidade de fazer objetos perfeitos, aptos a provocar no espectador aquela suspensão admirativa e essa espécie de sabor particular que o espírito encontra nas obras do espírito”. (p.153)

O que nos propõe aqui, entre outras coisas, é que o segredo da obra machadiana é o equilíbrio, como equilibrada é também a obra poética de um Carlos Drummond de Andrade, segundo sugestão de Gilberto Mendonça Telles. Esse seria, portanto, do ponto de vista da análise crítica, uma qualidade dos autores mais representativos, daí porque, matreiros, não se deixam mergulhar de cabeça em fórmulas de época como seus contemporâneos, às quais opõem a própria personalidade, que finalmente se distingüe das outras e se sobressai. Essas outras, por mais representativas e dignas de canonização, seriam já problematizadas pelo tempo e pelos modismos, com seus naturais desvios, mais fiéis que são às doutrinas que à natureza.

E, entretanto, a representação fiel da natureza constitui inegavelmente um dos maiores atributos do gênio, razão pela qual Machado de Assis não foi apenas realista: foi também moderno à época do Modernismo e continua vivo num mundo pós-moderno, que certamente ultrapassará. Mas este é o seu destino.

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