Algum tempo depois, voltar ao lugar em que nasceu, sentir as diferenças, as pequenas e grandes diferenças incorporadas pela modernidade, auscultar o barulho das coisas, o marulho das águas, a sinfonia das conversas jogadas fora, da demora pouca, duma pilhéria de Canô mais adiante, do bate-papo com Manezim, que ficou cego, da visita à venda de Tio Temisse, à sapataria de Nem de Baia, ao Bar de Nego Tota, do zumzumzum da gambiras, do bate-papo na esquina com um pouco de política e de futebol, surpreendendo-se com as crianças que nasceram, cresceram e estão mais taludas que os pais, do povo vendendo e comprando bugigangas, pedir a bênça a mainha, aos tios e tias, relembrar os que morreram, abraçar os que vivem e que se fazem mutuamente felizes.
Ir ao mercado, às vendinhas do mercado, com seus de-comeres e quitutes típicos, comidas fortes como sarapatel, buchada, cuscuz, beiju de tapioca com queijo e requeijão, feijoada, bolo de arroz, broa, biscoito de queijo, quebrador, avuador, requeijão com doce de leite, carne cozida escorrendo aquele óleo mais vistoso, arroz de leite (arroz doce), canjica e uma ruma de iguarias que nos enlevam o paladar e nos levam com mais prontidão à casinha. E a gente sonha com o que não mais se vê por lá, o manuê e o cascarrão.
Esse retorno é importante e imprescindível para energizar o mundo que nos cerca com a alegria de rever as pessoas queridas, que fizeram parte de sua infância e ajudaram a construir um mundo de sonhos, fantasias, de poesia e de uma realidade dura e visceral. A gente se desafia a viver essa realidade num ente querido que se foi deste mundo e nos deixou a saudade junto com as boas recordações, histórias que completaram sua vida durante muito tempo de alegria e também nas horas de maior dificuldade.
Mesmo se deparando com tanta mudança, com muita coisa que inexistia, o barulho e o perigo dos carros e motos substituindo os cavalos e os carros-de-boi, o tilintar exótico dos telefones celulares, que nem em sonho existiam, e hoje além de tudo fotografam, filmam e dão acesso à internet. Eis aí uma outra diferença. Antes, topávamos com as oficinas de calçados, as selarias, as alfaiatarias, os folheiros, as vendinhas, um ou outro carro velho que a gente denominava de lecheba. Hoje em quase toda rua há os cybers com computadores que dão acesso à internet, rede mundial de comunicação, muita gente tem seus endereços eletrônicos para se comunicar, a televisão chegou e abarcou o tempo e virou diversão e lazer, com um mundo encantado e vasto de parabólicas. E logo, logo virão as TVs fechadas, com suas dezenas de canais e uma variedade imensa de coisas que requerem o tempo que não dispomos para tanto.
Como é bom ver e conviver com a entrada das bandeiras dos festejos do Divino Espírito Santo e de Nossa Senhora do Rosário, com a cavalaria, as caixas tocando e a flâmula santa abençoando os que acreditam e aos santos creditam. Fui em caravana de Goiânia, comandada por Laércio Correntina, para a inauguração do campinho soçaite do seu irmão Marcelo Cláudio e um show com Emídio Queiroz, Tom Chris, Fernanda, Huck Pontes, Luiz Wagner (de Mariano), o sanfoneiro Zé Américo, Vavá Cunha, que terá a música Saudade do Vapor gravada por Geraldo Azevedo, professora Ena Rocha, com seu bandolim, Zé Bezerra e seu saxofone, Henrique Soares, Lucas Ramos, Madson Frejar, Inomar Luiz, e Rodrigo Araújo.
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