Pessoa humana, pessoa animal
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Parte — 2
O signo da cidade (2008)
Embora a idéia não seja propriamente original (penso aqui em “Talk Radio”, de 1988, dirigido por Oliver Stone, com Eric Bogosian no papel do radialista), é boa. Um programa de rádio em que o(a) apresentador(a) conversa com seus ouvintes e acaba de alguma forma interferindo (e “interferido”) na vida deles, seria, em uma frase, o assunto d’ O signo da cidade, dirigido por Carlos Alberto Ricelli, com roteiro de Bruna Lombardi, atualmente em cartaz. A direção, as atuações, a fotografia, está tudo muito bom, tudo muito bem... mas realmente, mas realmente, eu preferia que Bruna estivesse... menos ansiosa por prender a atenção do espectador. Acontece coisa demais. Tragédia demais. Desnecessariamente. Pesa. Bruna errou um pouco a mão. Bastaria uma ou duas (tragédias). O resto poderia ficar no tédio. Na falta de comunicação. No isolamento. São todos pequenas tragédias que retratariam São Paulo melhor do que os dois suicídios, os assaltos, o homcídio, a auto-flagelação, as traições e trapaças... Ufa! São Paulo não é tão animada assim. Mas o filme é bom. Vá ver.
O casamento de Muriel (1994)
Comprei esse DVD na banca baratinho (no mesmo dia comprei também Miller’s crossing, dos irmãos Coen) e não dava nada por ele. Mas há vários pontos que o fazem merecedor de nossa atenção. A atuação de Toni Collette está acima da média (gordinha, pré-fama). Aliás, essa é uma atriz que vale a pena acompanhar (em “Jantar entre amigos” e “As horas”, por exemplo). O sotaque australiano, engraçado inicialmente, charmoso, à medida que nos acostumamos. A crueldade do personagem do pai, a pasqualice da mãe e a inércia dos irmãos. A música do Abba (sim, eu gosto do Abba. Por quê?! Vai encarar?). Ok, o tema é batidíssimo em filmes de língua inglesa - “bullying” (encheção de saco de jovens “vencedores” pra cima de “perdedores”) - só que o abordaram com uma mordacidade mais eficiente do que a forma mais moralista, quando a origem é norte-americana.
A língua do cinema
Também disponível nas bancas (embora não tão baratinho), uma coleção de óperas excepcional, com gravadoras de primeira linha (Deutsche Grammophon, etc). O penúltimo fascículo foi “O Príncipe Igor”, do Borodin (que era da mesma turma do Rimsky-Korsakov e do Mussorgsky, esse último autor de “Boris Godunov”, baseado num drama histórico do Pushkin, uma das óperas mais belas já realizadas por alguém). Um experimento interessante é assistir a algum Tarkovski (qualquer um, exceto “Nostalgia”, que é falado em italiano, e “Sacrifício”, em sueco) logo depois. Note como o russo é uma bela língua. Depois do sueco, que qualquer primata sabe que é a língua oficial do cinema, o russo é sério candidato a um honroso segundo lugar. Seguido do inglês e do italiano, obviamente. Espanhol, alemão e português vêm a seguir. Daí chinês, coreano, árabe e japonês. Depois romeno, húngaro, tcheco, búlgaro, os 20 dialetos suíços, os 114 dialetos africanos subsaarianos. Os 225 dialetos aborígenes. Etc, etc, etc. Por último, como qualquer neanderthal está cansado de saber, vem o francês.
Em 1994-95, quando eu era bolsista do CNPq em Boston, lembro-me de ter tido uma pequena discussão com um dono de churrascaria, que era português, na cidade de Sommerville, nos arredores de Boston (por motivos óbvios evitarei dizer “na grande Boston”). Naquela época a cidade (mais um bairro de Boston do que propriamente uma cidade, algo assim como Aparecida de Goiânia) era um nicho de imigração portuguesa, o que, conseqüentemente, a credenciou a se tornar, gradativamente, também brasileira. Já ouvi dizer até que, atualmente, há mais imigrantes brasileiros ali do que portugueses.
Nossa pequena discussão dizia respeito a um outro fenômeno, então relativamente novo, da migração de brasileiros a Portugal e como estavam sendo mal recebidos por lá. De minha parte, eu dizia que era um contra-senso, um mau-caratismo de Portugal recusar e/ou maltratar brasileiros, não só por sermos ex-colônia, mas, principalmente, porque as correntes migratórias de lá pra cá continuaram ainda por muito tempo depois da independência, entrando pelo século XX (eu, por exemplo, sou bisneto de portugueses, meus bisavós vieram ao Brasil no início do século XX).
O dono da churrascaria me desarmou com o óbvio argumento (que só a raiva não deixa enxergar) do tamanho de cada país. Portugal é um cuzinho. Por essa escala, então, poderíamos dizer que o Brasil é, geográfica e historicamente falando, uma xoxota arrombada, com o perdão do meu francês. Ok, vamos conceder. Não dá pra comparar. Se a gente decidisse invadir a praia de Portugal pra valer ia ser um Deus nos acuda. Não justifica, porém, a animosidade, o preconceito, os maus tratos.
É mais ou menos assim que estou enxergando o que está acontecendo na Espanha. (Aliás, esse assunto tem rendido bons filmes sul-americanos, particularmente argentinos). Eles não têm opção. Têm de fechar as portas. Senão a gente arromba mesmo. Além do mais, sinceramente, o que temos mandado pra lá? Putas. Estamos exportando putas, veja só! E saídas em grande parte daqui mesmo, Goiás. Puta que pariu, se me perdoam o péssimo francês novamente.
Por outro lado, assim como no caso de Portugal nada justificava os maus-tratos, também agora nesse caso. No meio da putada tem gente (muita!) bem-intencionada (não que a putada seja má, “bem-intencionada” aqui tem o sentido de “não pretende migrar”). Estudantes, profissionais, turistas, todos planejando gastar seu rico dinheirinho na península, caramba! Merecem respeito. Merecem melhores chances de provarem que não estão lá para se tornarem “lixeiros”, como os boçais da Imigração Espanhola no aeroporto chamaram os brasileiros. São do tipo que transformam um banquinho de poder em trono. Portanto, morte (lenta e dolorosa) aos espanhóis boçais (só aos boçais)!!
A mediocridade é um dos piores males. Há dois tipos. A mediocridade-lobo e a mediocridade-cordeirinho. O medíocre-cordeirinho é aquele brilhantemente retratado no filme Zelig, de Woody Allen. Leonard Zelig, o personagem, fica famoso pela impressionante capacidade de se camuflar para se parecer com quem está do lado. Entre duas pessoas gordas, Zelig fica gordo. Entre negros, negro. Entre rabinos ortodoxos, um rabino ortodoxo (com roupa e tudo). Se alguém diz que gostou de um livro, ele também gostou. Se seguem um líder, ele também. Perguntado por que fazia isso, Zelig responde: “Queria ser aceito e amado por todo mundo”. Woody, por vez, quando perguntado sobre a mensagem do filme (como se não fosse óbvia o suficiente), menciona a fraqueza de espírito das pessoas que tentam “se encaixar” o que, no limite, pode levar ao fascismo.
O medíocre-cordeirinho, ao contrário do que o nome sugere, é extremamente perigoso. Sua existência inautêntica (está dissolvido no impessoal, diria Heidegger) é moldável ao sabor dos ventos da maioria que, como já nos mostraram os sábios Nelson Rodrigues e Henrik Ibsen, é estúpida. Inércia é a palavra-chave. O medíocre-cordeirinho senta-se todo dia em frente à TV e se deixa contaminar por toda a sorte de lixo. Depois levanta-se, dorme, no dia seguinte acorda, vai ao trabalho, que executa maquinalmente, como numa Metrópolis de Fritz Lang. Aceita tudo placidamente, como vontade divina, vontade essa que lhe foi transmitida por um porta-voz auto-proclamado de Deus. Acrítico, detesta pensar, não considera que compense o esforço.
O medíocre-lobo não é muito diferente. Leva mais ou menos a mesma vidinha. Só que, por ironia do destino ou carisma (medíocres-lobos não raramente são extremamente carismáticos), assumem posições de maior ou menor poder. Esses são particularmente perigosos. Têm poder, mas não sabem usá-lo. Como são medíocres, não acham necessário justificar seus atos convenientemente. Se confrontados com a razão, teimarão, contra todas as evidências, ainda que tenham um lampejo de consciência da própria mediocridade. Parafraseando Dostoiévski, se tiverem de escolher entre a verdade e sua própria teimosia, ficarão com a última.
Há exemplos históricos de sobra. Hitler foi um típico medíocre-lobo (tudo bem, vá lá que ele não tenha levado uma vidinha mais-ou-menos, mas era um baita dum medíocre). Os alemães da época foram seus cordeirinhos. Há exemplos de sobra também aqui mesmo e agora. Mas esses eu deixo pra vocês refletirem a respeito.