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Flávio Paranhos

POR EM 22/06/2008 ÀS 07:52 PM

Pessoa humana, pessoa animal

publicado em
           
Depois de ouvir pela TV um ministro do Supremo Tribunal Federal dizer mais de uma vez “pessoa humana”, fiquei preocupado. Será que o STF também decidiu oficializar a redundância? Alguém me disse que era pra diferenciar de “pessoa jurídica” e “pessoa física”. Não engoli sem mastigar e fui procurar na internet se cabia o argumento. Achei o voto na íntegra do ministro Ricardo Lewandowski, uma dissertação de mestrado de 56 páginas (disponível aqui). Está lá, várias vezes, o “pessoa humana”. Em todas o contexto é o usual, mesmo, ou seja, bastava “pessoa” (ou, vá lá, “ser humano”).
           
Mas não vou pegar no pé de um ministro do STF por causa disso. Também não vou implicar com a quantidade de filósofos citada por ele (parei de contar quando até Heidegger e Husserl apareceram na lista), enquanto bastava o bom e velho Moore (autor de Embriologia Clínica, velho conhecido dos alunos de graduação em ciências da saúde). Nesse ponto não tenho o que criticar: não só Lewandowski cita, como me pareceu ter dominado bem o conteúdo.
           
Entretanto, como membro de um comitê de ética em pesquisa (CEP), considero-me pessoalmente atingido pelo seguinte trecho de seu voto (p.54): “Não se mostra, também, segundo penso, conveniente e nem jurídico, permitir que projetos de pesquisa e de terapia com células-tronco embrionárias humanas sejam exclusivamente aprovadas pelos comitês de ética das próprias instituições e serviços de saúde responsáveis por sua realização, a teor do que sugere o § 2º do art. 5º, aqui atacado. É que, seja-me permitido o recurso a uma conhecida parêmia romana - e com o devido respeito que os cientistas merecem -, lupus non curat numerum ovium”.
           
Não, senhor ministro, nós, dos CEP espalhados pelo Brasil, não somos lobos. E nos preocupamos, muito, com a contagem das ovelhas. Saiba o senhor que fazemos isso sem qualquer remuneração, e, não raramente, com a incompreensão dos pesquisadores que nos enxergam, às vezes, como os chatos atrasadores de seus projetos. Se tivesse tomado o mesmo cuidado que tomou em sua pesquisa de fontes filosóficas, ficaria sabendo que quaisquer pesquisas com células-tronco embrionárias se enquadram em área temática especial, e que por isso são duplamente avaliadas, local (CEP) e centralmente (CONEP). Ficaria sabendo também que o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, ao contrário do que acredita (p.52), já contempla todas as suas preocupações, assim como também no que diz respeito à composição dos comitês de ética (p.55), eles já são “pluralistas e multidisciplinares”, com integrantes de diversas áreas do conhecimento.
           
Confesso que me escapa à compreensão tanta conversa mole jurídica, num assunto que poderia ser tratado de forma mais objetiva. O procurador geral da república, motivado religiosamente, achou por bem questionar a constitucionalidade da Lei de Biossegurança. O que diz a constituição? “Inviolabilidade do direito à vida (...) a todos os brasileiros(...)” (art. 5º.). “Direito à vida” sozinho é muito vago e poderia dar a entender qualquer “vida brasileira”, o que nos proibiria de matar boi brasileiro (pessoa animal) ou colher alface brasileira (pessoa vegetal) pra comer. O bom-senso assumirá, então, que a Constituição se refere a brasileiro-gente (pessoa humana). Quando alguém pode ser considerado gente? (Não procure a resposta em Tomás de Aquino, faça-me o favor). Concordamos, então, que a falta de sistema nervoso é um parâmetro biológico aceitável? (Sim, cabe aqui feto anencéfalo). Próximo passo: a Lei de Biossegurança se preocupou em restringir o que pode ser usado em pesquisa? Sim, ela se refere a “embriões inviáveis” (nesse sentido concordo com Lewandowski, quando ele defende que se explicite “inviável”), exige consentimento dos genitores e proíbe a comercialização.
           
Pronto. Está decidido. Anjo não tem sexo.

 

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POR EM 10/06/2008 ÀS 09:52 PM

O homem que fazia chover

publicado em


Há uma discussão acadêmica antiga acerca da exigência desumana que se faz a professores para que publiquem ou pereçam. Calcada em uma premissa falsa, a de que um professor universitário será automaticamente um bom pesquisador, tal exigência desconsidera uma realidade, digamos, genética. Ensinar e pesquisar são dons diferentes. Podem até estar presentes em uma mesma pessoa, mas será exceção. Edson Amâncio é uma exceção. O homem que fazia chover (editora Barcarolla) prova isso. Seus vinte capítulos (dezenove mais um posfácio) são um prazeroso passeio pela neurologia, na forma de casos clínicos próprios, entremeados por casos alheios e correlações com exemplos retirados da biografia de artistas, principalmente escritores.
           
Não chega a ser uma surpresa a habilidade do autor com as palavras. Pelo menos para quem, mesmo não tendo a oportunidade de ser seu aluno, leu o saboroso livro de crônicas Pergunte ao mineiro, de sua autoria. Também não é surpresa sua intimidade com a literatura. Aliás, esse é justamente o ponto forte do livro. O capítulo 10 (A contribuição involuntária de Dostoiévski à neurologia), por exemplo, nos brinda com a discussão acerca das relações entre a obra do brilhante autor russo e sua conhecida doença – a epilepsia (objeto também de excelente artigo de autoria de Sebastien Dieguez na Viver Mente e Cérebro de fevereiro desse ano). Amâncio refuta veemente a conexão causal entre uma e outra:
           
 Se mergulhei fundo na investigação, foi porque aquele tipo de especulação reducionista atribui à epilepsia a capacidade criadora de artistas geniais. Dizer que Shostakovitch compôs a Sétima Sinfonia porque era epiléptico é o mesmo que atribuir à mesma Os irmãos Karamazov, de Dostoiévski; Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; Madame Bovary, de Flaubert; ou os Girassóis, de Van Gogh. (...)
           
Por outro lado, é inegável que esse grande mal deixa suas marcas. Na forma de um personagem, como o príncipe Mishkin n’O idiota de Dostoievski, ou ainda (quem sabe?) como traço de personalidade do escritor que acaba refletindo de alguma maneira em sua obra. Refiro-me à hiperreligiosidade não raramente presente em portadores de epilepsia (discutida por Amâncio e observada em alguns de seus próprios pacientes). É quase irresistível fazer-se uma associação entre a religiosidade de Dostoiévski (muito bem analisada em Crítica e profecia – A filosofia da religião em Dostoiévski, de Luiz Felipe Pondé) e a tendência à hiperreligiosidade dos epilépticos.
           
 Assim como a epilepsia, a esquizofrenia, o autismo, a depressão, as alterações causadas por lesão cerebral traumática ou hemorragia, enfim, todas as diferentes afecções neurológicas e seus conseqüentes sintomas são ao mesmo tempo fascinantes e tristes, como bem ilustrado no livro. Tristes por serem não raramente incuráveis. Mas fascinantes na medida em que nos ensinam um pouco mais dessa caixa preta chamada mente.
           
Se alguma familiaridade com as neurociências é bem-vinda para a leitura, imprescindível não será para a compreensão de O homem que fazia chover, já que, além da linguagem clara, o autor teve o cuidado de jogar as muitas notas de rodapé, com minúcias não essenciais, pra escanteio. Estão lá, pra quem quiser ver, mas separadas em canto próprio, sem truncar o texto. Trata-se, enfim, de entretenimento inteligente. Para neurocientistas, filósofos da mente e curiosos em geral.

 

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POR EM 13/05/2008 ÀS 09:11 PM

Bestas humanas

publicado em

Se você, como eu, não agüenta mais ver, ouvir ou ler a respeito do assassinato da garotinha Isabella, não siga adiante. Mas se você, como eu, a partir de certa altura passou a prestar atenção a outra nuance da história, convido-o a refletir um pouco a respeito.
           
Refiro-me aos espetáculos grotescos oferecidos pela massa humana impessoal na frente de seja lá onde fosse que o casal estivesse. Digo “impessoal” porque aquelas não são pessoas, são impessoas. São o exemplo mais puro de uma existência inautêntica que um ser vivo pode levar. São coisas. Coisas cantando “Parabéns pra você, muitos anos de vida” no aniversário da menina assassinada. Coisas sem vida (get a a life!, diriam os americanos) que funcionam apenas quando os holofotes e flashes estão ligados. Só faltou um cartaz “Galvão, filma eu!”.
           
Como se já não fossem monstruosos suficientes o fato em si e a curiosidade mórbida que alimenta a exploração do fato à exaustão (a mesma que faz o trânsito andar mais devagar ainda em caso de acidente), tais impessoas estão ali, abanando o rabinho na frente das câmeras pra nos lembrar o quão patético o ser humano é capaz de ser.
           
“Há porque vemos”, disse Fernando Pessoa em seu poema “Isto”. “O que é ignorado não existe”, fez-lhe eco Cassiano Ricardo, no poema ETC. De fato, hoje em dia (desde sempre?) já não vale o cartesiano “penso, logo existo”. Agora é “eu vejo, logo você existe”. O cineasta italiano Ettore Scola representou isso lindamente num conceito-imagem em seu filme A Família, em que o avô brinca que não vê seu neto, levando este ao desespero.
           
Se eu existo porque você me vê, então eu existo mais se muitos me virem. Finjo indignação, vou pra frente da delegacia, espero. Assim que os fotógrafos e cinegrafistas acionarem suas câmeras, eu corro, grito, choro, canto parabéns, enfim, faço o que as demais impessoas ali, aquela massa compacta, fazem.
           
Pode até ser que, em algum momento, a indignação tenha sido genuína. Mas passou rápido. Logo foi sobrepujada pelo narcisismo que, desnudado em grupo e em cadeia nacional, deveria ir para os arquivos da National Geographic, na seção “Comportamento de primatas em escala inferior da evolução”.
           
Há outro filme do Scola que representa melhor isso: Feios, sujos e malvados. Uma comédia naturalista que nos reduz ao que somos – bestas humanas.

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POR EM 19/04/2008 ÀS 09:22 PM

Fudeu, Idomeneo! parte - 2

publicado em


Parte — 2


Cena 3
– Sala de refeições no castelo. Estão Idomeneo, Idamante, Ilia, Electra e o sujeito da praia recostados em divãs comendo uvas.
 
            Fulano de tal do coro – Não é possível, o velho clichê das uvas e o divã.
            Coro – Não enche o saco!
            Sujeito da praia – Não, ele tem razão. (Dirigindo-se pro telão do coro) Qual é o seu nome mesmo?
            Fulano de tal – Fulano de tal.
            Coro – É isso mesmo. Você ouviu bem. O nome dele é Fulano de tal (repetindo cantando: O nome dele é Fulano de tal, o nome dele é Fulano de tal).
            Fulano de tal – Dá pra parar?
            Sujeito da praia – De toda forma, você tem razão, Fulano de tal, uvas ao divã é sacanagem.
            Coro – Esquece.
 
            Idomeneo – Chamem os filósofos.
            Coro – Não, os filósofos não!
            Idomeneo – Núbio, me traga um filósofo, por favor.
            Núbio – Sim, senhor. É pra já (ia saindo, pára, pensa, volta). O senhor prefere um um neo-platônico ou um neo-kantiano?
            Idomeneo – Hein?
            Coro – Hein?
            Núbio – Posso conseguir dois existencialistas pelo preço de um. Se bem que, a essa hora, não sei não. Devem estar todos se embebedando nalgum bistrô, indecisos entre entre escargots ou croissants para comer. Sabe como é, demoram um absurdo pra escolher.
            Idomeneo (perdendo a paciência) – Traga-me Sócrates.
            Núbio – O platônico da primeira fase, o platônico da segunda, o xenofôntico, ou...
            Idomeneo (perdendo completamente a paciência) – Núbio...
            Núbio – Sim, senhor. É pra já.
           
            (Todos conversam amenidades e comem uvas. Em pouco tempo o núbio chega com Sócrates).
 
            Sócrates (assustado, atropelando as palavras) – Juro por Zeus, não sei de nada. Só sei que nada sei. Não sei de coisa alguma. Nada é coisa alguma. Coisa alguma não é alguma coisa, portanto, não são a mesma coisa.
            Todos – Hein?
            Coro – Trazer Sócrates não foi uma boa idéia.
            Idomeneo – Acalma-te, meu bom e nobre filósofo. Senta e come algumas uvas.
 
            (Sócrates senta-se desajeitado num divã).
 
            Idomeneo – Isso. Come umas uvas. Depois te arrumo uns rapazinhos pra comer também.
            Sócrates (animando-se) – Mesmo?
            Idomeneo – Fresquinhos, acabaram de chegar de Atenas.
            Sócrates (animando-se mais) – Sério? Atenas?
            Idomeneo – Tem minha palavra. Mando-te uns três ou quatro para uma boa orgia. Mas agora preciso muito da tua ajuda.
            Sócrates – O que é?
            Idomeneo – Joga uma luz em nossa ignorância.
            Sócrates – Têm certeza de que precisam de um filósofo? Não seria mais o caso de um eletricista?
            Idomeneo (puxando o Núbio de lado, cochichando) – Estás certo de que esse aí é o famoso Sócrates?
            Sócrates – He, he. Bricaderinha. Estou ao vosso dispor, majestade.
            Idomeneo – Ótimo. Pra começo de conversa vamos nos tratar por você mesmo, tá bom? Esse negócio da segunda pessoa dá uma confusão danada.
            Sócrates (coçando a cabeça) – Segunda pessoa?
            Coro – Aristófanes tinha razão!
            Idomeneo – Sócrates, você acha que Deus existe mesmo?
            Sócrates (engasgando com uma uva) – Puta merda! Não dava pra começar com algo mais light?
            Coro – Estamos te sacando, oh Idomeneo. Sabemos onde quer chegar. (Depois cantando) Sabemos sim, sabemos! Sabemos onde Idomeneo quer chegar, sabemos sim, sabemos!
            Idomeneo – Dá pra parar?
 
            (O coro se cala)
 
             Idomeneo – E então, filósofo?
            Sócrates – Deus é alguma coisa. Alguma coisa é alguma coisa. Alguma coisa existe. Portanto, Deus existe.
            Idomeneo – Hein?
            Coro – Hein?
            Sócrates – Vamos colocar nos seguintes termos. Se Ele existe e nós apostamos nisso, ganhamos duplamente. Se Ele não existe, mas apostamos que não, não perdemos, nem ganhamos. Mas se Ele existe e apostamos que não... Aí, meu amigo, sai da frente.
            Coro – Isso é mesmo socrático?
            Núbio (respondendo ao coro) – Deve ser de alguma fase mais posterior. Ou revisionista, sei lá.
            Idomeneo – Sócrates, vê se não enrola. Não sou um daqueles sofistas bocós com os quais você está acostumado. Deus existe ou não existe?
            Sócrates – Tá bom. Existe. Quer dizer. Existia. Morreu.
            Coro – Sócrates matou Deus. Isso definitivamente não é socrático.
            Idomeneo – Calem-se.
            Sujeito da praia – Escuta aqui, majestade. Por que essa preocupação agora?
            Idamante – Por que, papai?
            Idomeneo – Nem queiram saber. (Para Sócrates, retomando o fio da meada) E se eu te dissesse que me encontrei com Ele?
            Sócrates – Encontrou-se com Deus?
            Idomeneo – Bem, quer dizer, com um de seus ministros, digamos.
            Sócrates – Como assim?
            Idomeneo – E se eu dissesse que estive cara-a-cara com a morte...
            Sócrates – A morte é um ministro de Deus?
            Coro – Oba! Agora a conversa vai ficar boa.
            Idomeneo (irritado) – Nada disso. Não vamos conversar sobre morte. O que estou tentando dizer é que quase morri, mas fui salvo por Netuno.
            Coro – Isso, Idomeneo, conta pra eles, vai. (Cantando): Fudeu, Idomeneo, fudeu! Fudeu, fudeu, fudeu, Idomeneo!
            Idomeneo (ignorando o coro) – O que me diz, Sócrates?
            Sócrates – O que quer que eu diga?
            Idomeneo – Deixa eu ser mais claro. Estive com netuno, que salvou minha vida, em troca de uma promessa estúpida.
            Sócrates – Cumpra a promessa.
            Idomeneo – É sobre isso mesmo que quero lhe falar. Sabe o que é... É que foi uma promessinha estúpida, não merece atenção...
            Coro (cantando) – Fudeu, fudeu, fudeu, Idomeneo!
            Sócrates – Meu caro. Cumpra a promessa. Não ouviu o que eu disse sobre apostar antes? Em assuntos de religião temos de ser pragmáticos. E olha que eu nem considerava a canja de ter falado com um ministro de Deus, como você diz. Com os deuses não se brinca. Desgraças podem acontecer. Uma tragédia, sei lá.
           
            Idomeneo, que estava de pé, empalidece e cai no colo do núbio. Ilia e Electra, até então alheias à conversa, vão em seu socorro.
 
            Ilia – Majestade, o que foi majestade?
            Idomeneo (deitando-se novamente no divã, ajudado pelo núbio) – Nada minha filha, não foi nada.
            Coro (cantando) – Pois é, Idomeneo, fudeu. Fudeu, fudeu, fudeu, Idomeneo!
 
            Cena 4 – Um cemitério. Idomeneo e o sujeito da praia. Estão de frente a um túmulo com lápide vistosa, de mármore branco, com algo escrito.
 
            Sujeito – Majestade, por que quisestes que viéssemos até aqui?
            Idomeneo (até então pensativo, lendo o epitáfio) – Hã? Ah, sim. Sabe o que é meu filho... Bem, pode me tratar por você. Podia ser meu filho...
            Sujeito – Obrigado, majestade.
            Idomeneo (lendo) – “Aqui jaz o homem mais feliz do mundo”.
            Sujeito – Como?
            Idomeneo – Leia esse epitáfio com atenção, meu rapaz.
 
            (O sujeito lê).
 
            Sujeito – Sim. E daí?
            Idomeneo – Não acha interessante?
            Sujeito – Engraçado.
            Idomeneo – Ninguém sabe de quem é esse túmulo. Apenas o encontraram com essa lápide.
            Sujeito – E?
            Idomeneo – Não acha interessante?
            Sujeito – Não sei.
            Idomeneo – Pois pra mim é fascinante.
            Sujeito – Fascinante?
            Idomeneo – Tem um significado profundíssimo, não percebe?
            Sujeito – Não.
            Idomeneo – Quer dizer que a morte é um alívio.
            Sujeito – Ou que a vida desse infeliz foi das mais miseráveis.
            Coro – Sabemos onde está querendo chegar, Idomeneo. Mas fudeu, fudeu, fudeu,!
            Idomeneo (irritado, fazendo sinal pro coro se calar) – Não acho que tenha sido isso. Saberíamos de quem é. Essa lápide foi posta aí para lembrar ao ser humano que a morte não nada, é uma coisinha à toa.
            Coro – Idomeneo, Idomeneo...
            Sujeito – A morte, uma coisinha de nada?! Mas como? A morte é o fim. Depois dela não há nada mais. Como pode ser uma coisinha de nada?
            Idomeneo – A morte faz parte da vida.
            Sujeito – Nada disso. Morte é o oposto da vida. São inimigas. Onde uma está, a outra não pode ficar. É como duas colunistas sociais de jornais concorrentes. Ou dois candidatos a prefeito na mesma solenidade. Ou dois torcedores fanáticos no mesmo lado do campo. Ou...
            Idomeneo – Tá bem, tá bem. Já se fez entender, chega.
            Sujeito – Pois então.
            Coro – Então, Idomeneo, e agora?
            Idomeneo – Acho que devemos ter uma atitude positiva em relação à morte, entende?
            Sujeito – De que maneira?
            Idomeneo – Assim como esse feliz morador desse túmulo.
            Sujeito – Aposto que não tem ninguém aí.
            Idomeneo – Como não?
            Sujeito – Manda abrir. Vai ver, não tem ninguém.
            Idomeneo – Abrir? Não podemos, seria profanar algo sagrado.
            Sujeito – Que nada, você é rei. It´s good to be the king (imitando Mel Brooks). Pode pegar na bunda de todas as mulheres gostosas do reino e nem dar satisfação. Na verdade, pode comer todas as mulheres gostosas de Creta sem dar satisfação pra ninguém. Não é um tumulozinho que vai macular sua fama.
            Idomeneo – E se eu abrir e provar pra você que há alguém aí e até está sorrindo?
            Sujeito – Eu digo: parabéns.
            Idomeneo – Vou mandar abrir pra te provar como a morte é coisinha de nada. Guardas! (Aparecem dois guardas). Abram a tampa desse túmulo.
           
            (Com alguma dificuldade os dois guardas arrastam a tampa de mármore pro lado. Suspense (música de suspense)).
 
            Idomeneo (finalmente podendo ver o que havia lá dentro) – Oh!
            Sujeito – Oh!
            Coro – Oh! (e cantando) Fudeu, Idomeneo. Fudeu, fudeu, fudeu, Idomeneo!
 
            Cena 5 - A sauna novamente. Inicialmente vazia. Entram Ilia e Electra. Estão discutindo, quase brigando.
 
            Electra – Vamos abrir o jogo, queridinha.
            Ilia – Manda, sua cascavel.
            Electra – Nossa, como ela mudou.
            Ilia – Sou bobinha, mas não sou cega. Pensa que não percebo como você se insinua pra Idamante?
            Electra – Que audácia.
            Ilia – Então nega?
            Electra – Não, minha querida, pelo contrário. Confirmo totalmente. Agora, é muita audácia a sua, imaginar que tem chance contra mim.
            Ilia – Pois é muita audácia a sua imaginar que tem qualquer chance contra mim. Vê se se enxerga, velha.
            Electra (avançando em direção a Ilia) – Olha aqui suazinha, sua putinha com cara de virgem, sua sonsa!
            (Agarram-se pelos cabelos)
            Ilia – Velha devassa!
            Electra – Putinha enrustida!
            Ilia – Sua arrombada!
            Electra – Vulgarzinha!
 
            (Rolam no chão por alguns instantes. Devagar, num crescendo, pode-se ouvir sons de vozes e gemidos vindos da sauna seca ao lado. Vão ficando mais e mais claros e audíveis).
 
            Voz de Idamante (em falsete) – Mais fundo, mais fundo!
            Voz de alguém – Porra, Idamante, essa sua vozinha indecisa entre soprano e mezzo....
 
            (Ilia e Electra param de brigar pra ouvir).
 
            Voz de Idamante – Não pára, não pára!
            Voz de alguém – Não paro, não paro.
            Voz de Idamante – Mais fundo!
            Voz de alguém – Acabou, já foi tudo. Puta merda também, né! O que você é? Relaxado? São vinte centímetros de puro prazer.
            Voz de Idamante (gemendo) – Ai, cala a boca que eu tô chegando!
            Voz de alguém – Finalmente.
            Voz de Idamante – Ai, ai, ai...
           
            (Silêncio. Pouco depois sai o núbio, ajeitando a toga. Vê Ilia e Electra. Pigarreia. Pede licença e sai. Em seguida aparece Idamante, andando mancando, com as pernas abertas, como se tivesse cagado nas calças).
           
            Idamante – Electra, Ilia, o que fazem por aqui?
            Electra (ajeitando o cabelo) – Nada. Íamos fazer um pouco de sauna. Não quer se sentar com a gente? (Ela o convida pra se sentar só de sacanagem)
            Idamante (distraído) – Claro (Senta-se, dói-lhe a bunda, levanta-se rápido). Ai! Pensando bem, por que não damos um passeio?
            Ilia (novamente patetinha) – O que foi amor, está machucado? Mostra pra sua Iliazinha onde está doendo.
            Electra (sarcástica) – É. Mostra pra ela.
            Coro – Mostra pra ela onde está doendo, Idamante! (cantando) Se fudeu, se fudeu, se fudeu, Idamante se fudeu!
            Idamante – Vão indo pro jardim do palácio, que eu encontro vocês daqui a pouco (sai, apressado, mas andando como quem está cagado).
           
            (Ilia e Electra ajeitam os cabelos e a roupa e saem também).
 
            Cena 6 – Os soldados jogam dados
 
            Soldado 1 – A vida é engraçada.
            Soldado 2 – O que é?
            Soldado 1- Me ocorreu o seguinte.
            Soldado 2 - Joga mais, fala menos.
            Soldado 1 – Já imaginou que nossa vida é exatamente isso aqui?
            Soldado 2 – Isso quê?
            Soldado 1 - Isso.
            Soldado 2 – Sei. Joga logo, vai.
            Soldado 1 – Não, é sério. Nossa vida é como um jogo de dados.
            Coro – Agora ele vai ser profundo. Um soldado com cérebro, só faltava essa. É uma tragédia!
            Soldado 1 (pro coro, enquanto isso soldado 2 continua olhando pros dados, alheio ao diálogo) – Exatamente.
            Coro – Exatamente o quê?
            Soldado 1 - Isso.
            Coro – Já se vê que clareza não é o seu forte.
            Soldado 1 – Nossa vida é uma tragédia. Estamos vivendo uma tragédia.
            Coro – Não brinca! Daqui a pouco você vai dizer que isso aqui é uma ópera séria.
            Soldado 1 (ignorando a provocação) – Os dados são jogados e tanto pode dar um como seis.
            Coro – Uau!
            Soldado 1 – Se der um eu me fodo. Se der seis, ele se fode.
            Coro – Mas que diabo de jogo é esse?
            Soldado 1 – O jogo da vida.
            Coro – Desenvolva.
            Soldado 1 – Imaginem que Zeus está nesse exato momento jogando meus dados. Os dados de minha fortuna. Se der um, eu morro. Se der seis, eu vivo.
            Coro – Zeus tem mais o que fazer do que se preocupar com insignificâncias.
            Soldado 1 – Zeus zela por nós.
            Coro – O que espera? Que uma máquina desça do nada e te salve?
            Soldado 1 – Seria legal. Seria simpático.
            Soldado 2 (jogando os dados) – Um! Deu um! Se fudeu! Se fudeu!
            Soldado 1 – Mas são dois dados, não tem como dar um.
            Coro – Fudeu, fudeu, fudeu, o soldado se fudeu!
            Soldado 1 – Ei, peraí!
            Soldado 2 – Peraí, nada, vai baixando as calças!
 
            (As luzes se apagam. Pode-se ainda ouvir o soldado 1: “Peraí, calma, vai com jeito, calma, calma. Ai....)
 
            Cena 7 – O jardim do palácio. Ilia confessa seu amor.
 
            Ilia – Idamante.
            Idamante (distraído cheirando uma flor) – Sim?
            Ilia – Sabe o que é...
            Idamante – Sim?
            Ilia – Não posso mais conter essa chama que arde dentro de mim.
            Coro – Putz!
            Ilia (ignorando o coro) – Idamante.
            Idamante – Sim?
            Ilia (perdendo a paciência) – Será que dá pra parar de cheirar a porra dessa flor?
            Idamante (assustado) – Nossa, o que foi?
            Ilia (recompondo-se) – Ida... Posso te chamar de Ida?
            Idamante – Claro que não. Que idéia!
            Ilia – Ida, meu diamante.
            Coro – Putz!
            Ilia (olhando de soslaio, irritada, pro coro, depois carinhosa, pra Idamante) – Idamante, meu diamante, eu te amo.
            Idamante – Como é que é?
            Ilia (fingindo vergonha) – Pois é. Confessei. Tirei um peso de meu coração.
            Idamante – Pois por mim você pode colocar outra vez, gracinha. Meu coração pertence a outra pessoa.
 
            (Electra entra).
 
            Coro – Electra!
            Idamante – Que Electra que nada.
 
            (Entra o núbio).
 
            Coro – O núbio!
            Idamante – Que núbio que nada.
 
            (Entram os dois rapazes atenienses).
 
            Coro – Os rapazes atenienses!
            Idamante – Que nada.
            Coro – Os soldados? Sócrates? Estamos ficando sem opções aqui.
            Idamante – Meu coração pertence a ...
 
            (Apagam-se as luzes. Música – pode ser a abertura do Idomeneo, por alguns minutos. Aliás, desde o início, entre uma cena e outra, pode-se tocar a abertura do Idomeneo por algum tempo).

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POR EM 10/04/2008 ÀS 06:29 PM

Fudeu, Idomeneo!

publicado em
  
                        Creta, logo depois da guerra de Tróia.
 
                        Personagens
 
 
                        Idomeneo – rei de Creta, retorna vencedor da guerra de Tróia
                        Idamante – filho adolescente de Idomeneo (deve ser feito por uma mezo-soprano)
                        Ilia – princesa troiana, patetinha.
                        Electra – filha de Agamêmnon, refugiada em Creta, puta velha (mas conservada)
                        Um sujeito
                        Alguns soldados, alguns rapazes atenienses
                        O coro (gravado em vídeo, exposto em telão)
                        E as participações especiais de Sócrates e um núbio musculoso

           
            (Luzes apagadas. Barulho de tempestade marítima. Pessoas gritando, pedindo clemência e coisas do tipo. Uma voz se destaca. É Idomeneo).
           
            Voz de Idomeneo – Oh, deuses, tende piedade. Piedade, meu Zeus, piedade, Netuno. Piedade! Piedade, eu não quero morrer. Piedade!
 
            Coro (ainda não visto, só as vozes) – Pietá, Numi, pietá! (Pode ser a ária toda ou só um pedaço dela)
 
            (Num crescendo, sobrepondo-se gradativamente ao “Pietá”, um barulho infernal, do mar, dos trovões, dos marinheiros gritando desesperados. Depois vai ficando mais distante, pra que se ouça a voz de Netuno).
 
            Netuno – Quem me chama?
            Idomeneo – Eu.
 
            (Nesse momento acende-se o foco sobre Idomeneo, que está abraçado ao mastro* do navio, o resto permanece escuro. Vê-se Idomeneo, mas não Netuno). *Se o diretor quiser apimentar pode ser alguma coisa fálica (mas não descarada, estilizada).
 
            Netuno – Eu quem?
            Idomeneo – Eu, oh grande Zeus.
            Netuno (irritado) – Não sou Zeus.
            Idomeneo – Quem sois, então?
            Netuno (ainda irritado) – Pra começo de conversa, será que dá pra parar com a segunda do plural? Que coisa mais aborrecida.
            Idomeneo (dando-se conta de que autoridade se trava) – Oh, sim, Netuno, grande Netuno. Mil desculpas.
            Coro – Pietá, Numi, pietá!
            Netuno – Será que dá pra parar com isso, que coisa mais melodramática.
 
            (O coro se cala)
 
            Netuno – Agradecido.
            Idomeneo – O senhor...
            Netuno – Você.
            Idomeneo – Sim?
            Netuno – Sim o quê?
            Idomeneo – Vós não me chamastes?
            Netuno (voltando a se irritar) – Está querendo me sacanear?
            Idomeneo (caindo a ficha) – Desculpe, mil perdões, senhor!
            Netuno – Você.
            Idomeneo – Sim?
            Netuno (irado) – Escute aqui, seu velhote grego comedor de rapazolas, já sentiu o peso de um de meus raios na bunda?
            Idomeneo – Mas senhor...
            Netuno – Você.
            Idomeneo – S...
            Netuno (absolutamente emputecido) – Você! É pra me chamar de você, seu pateta descerebrado!
            Idomeneo (caindo a ficha de novo) – Ah, sim, claro. Você, claro, claro. Muito obrigado pela deferência.
            Netuno – Não é deferência, imbecil. É que sou um deus ilustrado.
            Idomeneo – E faz muito bem, muitíssimo bem.
            Netuno – Pare de me puxar o saco e diga logo o que quer.
 
            (Durante todo esse diálogo, vez por outra, o barulho da tempestade e dos marinheiros desesperados aumenta e é ouvido).
 
            Idomeneo – Peço vossa... Desculpe. Imploro sua clemência, oh sapientíssimo deus dos mares.
            Netuno – Quer se safar dessa?
            Idomeneo – Apreciaria muito, se fosse possível.
            Netuno – E se eu dissesse que toda sua tripulação perecerá?
            Idomeneo – Eu diria “que pena”.
            Netuno – Só isso?
            Idomeneo – Talvez “que lástima” fosse mais apropriado?
            Netuno (suspirando) – Deixe-me recolocar a questão: o que você faria?
            Idomeneo (procurando a resposta certa) – Ahn... Deixe ver... choraria?
            Netuno (entre irritado e surpreso) – Será possível que seja tão imbecil!?
            Idomeneo – Desculpe-me, mas não consigo acompanhar sua enorme sapiência.
            Netuno – Ai, Cristo.
            Idomeneo – Cristo, quem é Cristo?
            Netuno – Deixa pra lá. É concorrência. Mas onde estávamos mesmo? Ah, sim. Você quer se safar dessa tempestade e está se lixando pra sua tripulação, certo?
            Idomeneo – Basicamente, assim, em linhas gerais, bem... é isso aí.
            Netuno – Você está com sorte. Estamos entediados no Olimpo e precisamos de uma tragédia nova pra chacoalhar o ambiente. Não agüentamos mais ver Sísifo se fuder. Desculpe, eu nunca consigo evitar esse trocadilho.
            Idomeneo (impaciente) – Mas o senhor dizia, quer dizer, você dizia...
            Netuno – Dizia que vou poupá-lo, meu caro Idomeneo. Apesar de você ser uma das criaturas humanas mais desprezíveis que tive a oportunidade de conhecer. Mas tem uma condição.
            Idomeneo (infantil) – O que é? O que é? Diga! Diga logo o que é, vai.
            Netuno – Você terá de sacrificar a primeira pessoa que encontrar na praia.
            Idomeneo (mais que rápido) – Fechado!
            Netuno – Você me dá nojo. Mas, enfim, alea jacta est.
            Idomeneo – Não entendi. Isso é grego clássico? Andei faltando umas aulas, sabe? E essa tal de guerra de Tróia ocupou todo meu tempo ocioso...
            Netuno – Ai, Cristo!
            Idomeneo – Quem?
 
            (Apaga-se o foco em Idomeneo. Escuridão total. Gritos desesperados, trovões, tempestade marítima, acompanhado das vozes do coro – Pietá, Numi, pietá. Depois calmaria. Lentamente acendem-se as luzes de todo o palco. O cenário é uma praia. É dia. Idomeneo está deitado de bruços, desacordado. Em pouco tempo aparece um sujeito caminhando pela praia assobiando. Distraído, não vê Idomeneo deitado, esbarra e cai sobre ele).
 
            Idomeneo (acordando) – Ei, o que foi isso?
            Sujeito – Desculpe-me, senhor, vinha caminhando distraído e...
            Idomeneo (acordando de vez, levantando-se) – Estou vivo! Vivo!
            Sujeito (confuso, sentando-se, batendo a areia da roupa) – Estava passando mal?
            Idomeneo – Não, é que... É uma longa história, sabe? Depois te conto.
            Sujeito (percebendo finalmente de quem se tratava) – Mas peraí, o senhor não é Idomeneo, nosso rei?
            Idomeneo (não escondendo o orgulho) – Em pessoa.
            Sujeito – Pensávamos que estivesse morto.
            Idomeneo – Na guerra? Ninguém aqui sabe que ganhamos a guerra?
            Sujeito – Todo mundo sabe disso. É que ontem , com aquela tempestade toda... Dava pra ver os navios todos emborcando, afundando. Dizem que não sobrou ninguém.
            Idomeneo (satisfeito) – Como pode ver, sobrou sim... Eu.
            Sujeito – Fico feliz pelo senhor.
 
            (Nesse momento entra Idamante, esbaforido, acompanhado de dois guardas reais).
 
            Idamante (com voz de mezzo-soprano) – Papai, papai, o senhor está bem? Pensei que estivesse morto.
            Idomeneo (entre feliz e contrariado) – Meu filho! Mas será que até hoje você não engrossou a voz? Já era tempo, né. Ô adolescência demorada.
            Idamante (abraçando Idomeneo) – Oh, papai, que medo eu tive quando vi o senhor deitado aqui na praia.
            Idomeneo – Peraí. Você me viu aqui na praia?
            Idamante – Sim, papai, há coisa de uns quinze minutos. Daí fiquei com medo e fui buscar esses dois musculosos guardas pra me ajudar.
            Idomeneo – Quinze minutos? (virando-se pro sujeito) E você, está aqui desde quando?
            Sujeito – Acabei de chegar.
            Idomeneo – Seja mais específico. Tem uns dez, uns vinte minutos?
            Sujeito – Nem cinco.
            Idomeneo – Porra!
 
            Coro (em vídeo, projetado num dos cantos do palco, telão grande) (cantando) – Fudeu Idomeneo, fudeu! Fudeu, fudeu, fudeu! Idomeneo.
           
            Idomeneo (dirigindo-se ao coro) – Calma lá. Tecnicamente, quem chegou primeiro foi o sujeito.
            Coro (cantando) – Fudeu, Idomeneo, fudeu! Fudeu, fudeu, fudeu! Idomeneo.
            Idomeneo – Nada disso. O sujeito me encontrou. Quer dizer, eu encontrei primeiro o sujeito. Netuno disse que seria quem eu encontrasse primeiro.
           
            (O vídeo do coro destaca um dos integrantes, que faz uma pose idiota enquanto aparecem as legendas explicativas: “Fulano de tal, biólogo especialista em ornitorrincos, semântica e semiótica.”)
 
            Fulano de tal – Desculpe, meu caro Idomeneo, mas o significado aqui está claro. Claríssimo, se me permite o arroubo. Netuno referia-se a encontros em sua forma genérica. É irrelevante para a questão que você estivesse dormindo quando seu filho adolescente o encontrou. Portanto, é ele, seu filho (coro: Fudeu, Idomeneo, fudeu!) quem primeiro o encontrou. Terá de matá-lo (coro, arrematando: Fudeu, fudeu, fudeu, Idomeneo!).
            Sicrano (outro do coro em destaque, com a legenda: “Sicrano, chef de cozinha e especialista em mitologia grega, com doutorado na Sorbonne e linha de pesquisa em escargots e outras gosmas) – É uma tragédia!
            Coro (cantando) – Fudeu, Idomeneo, fudeu! Fudeu, fudeu, fudeu! Idomeneo.
 
            (Enquanto isso, Idamante, os dois guardas e o sujeito permaneciam num dos cantos, menos iluminados - porém não escuros - e conversando).
 
            Idamante (separando-se do grupo e aproximando-se de Idomeneo) – Papai, podemos ir embora?
            Idomeneo (pensativo, remoendo as palavras do coro) – Hein?
            Idamante (a voz de mezzo-soprano sai pior do que de costume) – Vamos embora, papai.
            Idomeneo (despertado pela irritação com a voz do menino) – Ah, sim, está bem.
           
            (Saem os dois, mas logo voltam)
 
            Idomeneo (chamando o sujeito) – Meu bom homem.
            Sujeito – Sim?
            Idomeneo – Venha conosco, faço questão de o ter entre nossos convidados para a ceia.
            Sujeito – Não, obrigado. Estou de dieta, preciso caminhar mais, e esses banquetes e orgias, sabe como é...
            Idomeneo (fazendo sinal para que os dois guardas reais acompanhem o sujeito) – Já disse, faço questão. Deixe a dieta pra depois.
            Sujeito (sendo levado pelo braço, praticamente arrastado pelos dois brutamontes) – Tudo bem, tudo bem, já que insiste.
 
            (Apagam-se todas as luzes. Fim da cena um)
 
            Cena 2 – Uma sauna. Por enquanto estão nela apenas duas belas mulheres, semi-nuas. A mais velha é Electra. A mais nova é Ilia.
 
            Ilia (desconfortável, procurando o que dizer) – Calor, não?
            Electra (sem acreditar na patetice da observação) – Estamos numa... sauna. Dããã.
            Ilia (patetinha, sem ligar pra provocação) – Ah é. Ainda assim, que calor infernal faz em Creta, né?
            Electra (suspirando profundamente) – Putz.
 
            (Alguns segundos de constrangimento, silêncio, mudam de lugar, cruzam e descruzam as pernas. Electra não esconde sua antipatia. Ilia, sua patetice).
 
            Ilia – Você acha que Idamante vai demorar?
            Electra (interessada) – Por quê? Ele disse que vinha?
            Ilia – Ficamos de nos encontrar aqui.
            Electra – Aqui mesmo, na sauna?
            Ilia – Aham.
            Electra (a quem esse aham infantil irritava profundamente) – Sabia que dá mais trabalho dizer “aham” do que “sim”?
            Ilia (a quem escapava por completo a relevância da observação) – Aham.
            Electra (contendo-se) – Minha filha... Não, deixa pra lá. Vamos ao que interessa. Quer dizer que Idamante disse que vinha?
            Ilia – Aha...
            Electra – Não precisa responder, querida. Foi uma pergunta retórica.
            Ilia – Uma pergunta como?
            Electra – Deixa pra lá. (Pensando alto). Interessante... Ele não me disse nada. Insisti que viéssemos pra sauna mista fazer bobaginha.
            Ilia – Hein?
            Electra – Nada.
 
            (Entram dois musculosos e seminus atenienses).
 
            Electra (não escondendo a excitação) – Olha lá, menina, que tesão!
            Ilia (estava distraída com a própria toga, como um cachorrinho que se distrai com a própria cauda) – Hein?
            Electra (perdendo a paciência) – Mas será possível? (Dirigindo-se aos rapazes) Olá, vocês são novos por aqui?
            Um deles – Somos atenienses. Estamos a passeio.
            O outro – Somos turistas.
            Electra – E estão gostando?
            Os dois – Pra falar a verdade, é meio paradão aqui em Creta, né?
            Electra – Têm razão. Têm toda razão. Mas quem sabe podemos dar um jeito nisso? (Para Ilia) A que horas mesmo Idamante disse que viria?
            Ilia – Ele não marcou. Disse que daria um passeio na praia, depois viria.
            Electra (calculando) – Sei... Faz seguinte, querida, eu vou ali dentro na sauna seca um instante com os rapazes, se Idamante chegar, você dá uma batidinha na porta, tá meu amor?
            Ilia (nem de longe desconfiando) – Tá.
 
            (Electra pega os rapazes pelas mãos e os leva até a outra sauna. Será uma espécie de vidro fosco que só deixa ver as sombras. Primeiro eles jogam as togas longe, depois Electra fica entre os dois e se agacha, um a pega por trás, enquanto ela cai de boca no outro. Daí a uns instantes, eles trocam de posição e um deles fica no meio, sendo pego por trás pelo outro e caindo de boca em Electra. Depois trocam de novo e é Electra que está pegando um por trás, que cai de boca no outro. Ilia se distrai com os cabelos).
 
            Idamante (entrando apressado, ofegante) – Ilia, Ilia, você não sabe da maior, papai está vivo! Papai está vivo!
 
            (Na sauna ao lado ouvem-se gritos de clímax)
 
            Idamante – O que foi isso?
            Ilia – Ah, é mesmo. Electra...
            Electra (entrando ofegante também e arrumando a toga e os cabelos desgrenhados) – Idamante, você aqui? Que surpresa! O que disse sobre seu pai?
            Idamante – Papai está vivo, Electra! Vivo!
 
            Coro – Sim, vivo, e a que preço! (Cantam a ária Qual nuovo terrore, depois arrematam: Fudeu, Idamante, fudeu! Fudeu, fudeu, fudeu, Idamante!)
 
            (Os dois rapazes atenienses saem enfim da outra sauna. Chamam a atenção de Idamante)
 
            Idamante (para Electra) – Quem são os rapazes?
            Electra (fazendo-se de desentendida) – Quem? Ah, esses. Não sei.
            Idamante (perdendo o interesse, lembrando-se da grande notícia) – Papai está vivo, Electra (isso sai totalmente em falsete).
            Electra (irritada) – Que bom, minha criança, que bom. Vamos comemorar, então? Que tal darmos um pulinho, só nós dois, naquela sauna seca ali?
            Idamante (já saindo) – Agora não, Electra. Papai nos quer a todos pro almoço. Já está servido. Vamos?
            Electra (conformando-se) – Vamos.
           
            (Saem todos)
           
            Coro – Pobre Idamante, que não sabe o que o espera.
                        Quantas vidas serão necessárias pra manter acesa a chama da quimera?
                        Um nobre diamante, jóia rara da coroa, deixará de existir
                        E tudo isso pra tragédia persistir.
            Fulano de tal do coro – Peraí. “Manter acesa a chama da quimera”? Isso não faz sentido!
            Coro – A vida não faz sentido, fulano.
            Fulano de tal – Tá. Mas nem por isso precisamos cantar qualquer porcaria.
            Coro – Porcaria, porcaria, porcaria!
            Fulano de tal – Piedade!
            Coro – Pietá, Numi, pietá!

             ( Continua )

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POR EM 03/04/2008 ÀS 12:32 PM

Óperas sacanas

publicado em

 


O texto abaixo é minha última crônica publicada no jornal O Popular, de Goiânia. Publico-a novamente aqui, pois pretendo disponibilizar aqui o que não posso fazer lá (seria –justamente, diga-se – censurado, como vocês terão oportunidade de constatar). Ao final dessa crônica faço referência a uma sugestão de títulos novos a duas óperas. Uma delas eu colocarei aqui nas semanas seguintes.

Tem muita gente boa que acha que ópera é que nem filme pornô: dane-se a estória, vamos direto ao ponto (não faça essa cara de quem não sabe do que estou falando). Como se belas árias fossem só o que importa, desprezam o resto. Deveríamos fazer com esses que nem fazemos com criança que raspa o recheio da bolacha e joga o resto fora, proibimos de comer bolacha recheada até aprender a não desperdiçar.

Desprezar o todo de uma ópera e ouvir apenas as árias mais famosas é um pecado a ser punido com rigor. Por dois motivos. Embora alguns libretos (a estorinha por trás da ópera) sejam mesmo estúpidos, outros há sublimes. Além disso, há também árias menos conhecidas, mas, nem por isso, menos belas.

Para tanto, a tecnologia está do nosso lado. Ópera é preciso ver, além de ouvir. O que, evidentemente, seria impraticável, não fosse a popularização dos DVDs. Não dá pra desprezar a legenda, ainda que a ópera seja falada em língua que a gente entende.

Certamente você já teve oportunidade de ouvir a ária “Nessun dorma!”, de Turandot, de Puccini. Séria candidata a mais bela melodia já criada por alguém, está logo no início do terceiro ato, e é cantada por Calaf, o príncipe que desafia a princesa chinesa Turandot (Plácido Domingo e Eva Marton, respectivamente, na versão que tenho). Dura três minutos, e é impossível ouvi-la sem chorar copiosamente (podem me chamar de mulherzinha). Três míseros minutos! E o que diz Calaf? Comenta a ordem da princesa para ninguém em Pequim dormir enquanto não descobrirem seu (dele) nome. Isoladamente, estúpido. Mas pra quem teve a pachorra de acompanhar a estória toda, faz sentido.

Turandot
é uma ópera sacana. É a estória de uma princesa que não queria casar de jeito nenhum, pra não ser obrigada a fazer bobaginha. Queria morrer pura. Daí ela propõe três charadas pra quem ousar desejá-la. Se o cara errar, uma que seja, morre. Antes de Calaf todos erraram, é claro, senão não daria uma ópera. Calaf acerta. Ela não se conforma. Ele, então, propõe uma saída. Se ela descobrisse seu nome até a aurora do dia seguinte, ele morreria. Turandot não mede esforços, e pretende sacrificar toda Pequim pra descobrir a porcaria do nome. Então: “Nessun dorma!”.

Outra ópera das mais sacanas é Idomeneo, de Mozart. Embora não tenha nenhuma ária famosa, a abertura e a primeira cena são belíssimas (“Pietà, Numi, Pietà”). Mas o que Idomeneo tem de mais fascinante é a comprovação de minha teoria da cebola moral (o outro nos importa mais, quanto mais próximo nos for).

Idomeneo é rei de Creta e está voltando da vitoriosa guerra contra os troianos. Netuno, deus do mar, naufraga seus navios porque torcia pra Tróia. Todos morrem. Menos Idomeneo. Sob uma condição: teria de matar a primeira pessoa que encontrasse na praia. Nem vamos falar aqui da falta de dignidade de um rei que topa esse trato. A tragédia ainda estava por vir. Quem é a pessoa que ele encontra primeiro? O próprio filho, claro. Vejam só: se ele tivesse encontrado um qualquer na praia não teria a menor graça. Não seria tragédia. Não haveria ópera. É a cebola moral dramatizada.

Proponho novos títulos a essas duas óperas: “Turandot, a frígida” e “Fudeu, Idomeneo!”. E espero tê-los convencido a parar de raspar o recheio da bolacha. Mas quanto aos filmes pornô, podem continuar indo direto ao que interessa.

Nota aos leitores da Bula: A partir da semana que vem: Fudeu, Idomeneo! 

 


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POR EM 31/03/2008 ÀS 04:50 PM

A língua oficial do cinema

publicado em

               
O signo da cidade (2008)
               
Embora a idéia não seja propriamente original (penso aqui em “Talk Radio”, de 1988, dirigido por Oliver Stone, com Eric Bogosian no papel do radialista), é boa. Um programa de rádio em que o(a) apresentador(a) conversa com seus ouvintes e acaba de alguma forma interferindo (e “interferido”) na vida deles, seria, em uma frase, o assunto d’ O signo da cidade, dirigido por Carlos Alberto Ricelli, com roteiro de Bruna Lombardi, atualmente em cartaz. A direção, as atuações, a fotografia, está tudo muito bom, tudo muito bem... mas realmente, mas realmente, eu preferia que Bruna estivesse... menos ansiosa por prender a atenção do espectador. Acontece coisa demais. Tragédia demais. Desnecessariamente. Pesa. Bruna errou um pouco a mão. Bastaria uma ou duas (tragédias). O resto poderia ficar no tédio. Na falta de comunicação. No isolamento. São todos pequenas tragédias que retratariam São Paulo melhor do que os dois suicídios, os assaltos, o homcídio, a auto-flagelação, as traições e trapaças... Ufa! São Paulo não é tão animada assim. Mas o filme é bom. Vá ver.             

O casamento de Muriel (1994)
               
Comprei esse DVD na banca baratinho (no mesmo dia comprei também Miller’s crossing, dos irmãos Coen) e não dava nada por ele. Mas há vários pontos que o fazem merecedor de nossa atenção. A atuação de Toni Collette está acima da média (gordinha, pré-fama). Aliás, essa é uma atriz que vale a pena acompanhar (em “Jantar entre amigos” e “As horas”, por exemplo). O sotaque australiano, engraçado inicialmente, charmoso, à medida que nos acostumamos. A crueldade do personagem do pai, a pasqualice da mãe e a inércia dos irmãos. A música do Abba (sim, eu gosto do Abba. Por quê?! Vai encarar?). Ok, o tema é batidíssimo em filmes de língua inglesa - “bullying” (encheção de saco de jovens “vencedores” pra cima de “perdedores”) - só que o abordaram com uma mordacidade mais eficiente do que a forma mais moralista, quando a origem é norte-americana.               

A língua do cinema
               
Também disponível nas bancas (embora não tão baratinho), uma coleção de óperas excepcional, com gravadoras de primeira linha (Deutsche Grammophon, etc). O penúltimo fascículo foi “O Príncipe Igor”, do Borodin (que era da mesma turma do Rimsky-Korsakov e do Mussorgsky, esse último autor de “Boris Godunov”, baseado num drama histórico do Pushkin, uma das óperas mais belas já realizadas por alguém). Um experimento interessante é assistir a algum Tarkovski (qualquer um, exceto “Nostalgia”, que é falado em italiano, e “Sacrifício”, em sueco) logo depois. Note como o russo é uma bela língua. Depois do sueco, que qualquer primata sabe que é a língua oficial do cinema, o russo é sério candidato a um honroso segundo lugar. Seguido do inglês e do italiano, obviamente. Espanhol, alemão e português vêm a seguir. Daí chinês, coreano, árabe e japonês. Depois romeno, húngaro, tcheco, búlgaro, os 20 dialetos suíços, os 114 dialetos africanos subsaarianos. Os 225 dialetos aborígenes. Etc, etc, etc. Por último, como qualquer neanderthal está cansado de saber, vem o francês. 


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POR EM 24/03/2008 ÀS 02:26 PM

Grau

publicado em
 
O solitário homem do parque estava feliz. Finalmente atenderam seu pedido e lhe trouxeram um animal para cuidar. Um ganso.
- Sabia que você fede um bocado? Deve ser algum tipo de glândula, sei lá.
- Grau - respondeu apenas o ganso.
- Como grau? O que é que você quer dizer com isso?
 - Grau - repetiu o ganso.
- Sei. Quer dizer que sou obrigado a entendê-lo, por circunstâncias?
- Grau, grau.
- E o que quer dizer isso duas vezes? Sim? Ou não? Quer dizer que sim, que você concorda que eu devo entendê-lo, dadas as circunstâncias, ou não, que não passa de uma bobagem? Diga alguma coisa.
- Grau.
- Sei. E isso quer dizer “sim”.
- Grau, grau.
- Eu não perguntei se queria dizer “sim”. Eu afirmei.
- Grau.
- E você está se lixando?
- Grau, grau.
- Agora eu perguntei.
Nesse momento, o ganso voltou sua atenção para uma criança que passeava pelas proximidades do lago, segurando distraidamente um saco de pipocas doces. Seguiu-a por uns momentos, mas logo desistiu, voltando para onde estava o homem do parque.
- O que é, não gosta de pipocas doces? - perguntou o homem, sentindo a decepção do animal.
O ganso abaixou a cabeça. Mas não estava triste; vira um pedaço de pipoca - desta vez salgada - no gramado onde estava, e o apanhou com o bico.
- Gosta mesmo disso, hein?
- Grau, grau.
“Mas que coisa”, pensou o homem, e, irritado, perguntou:
- Que diabo é isso de grau?
- Grau.
- Já sei. Grau e grau, grau. Você é um ganso, não uma gralha. Por que grau?
O ganso não deu atenção ao homem. Achara outro pedaço de pipoca salgada na grama.
- Estou falando com você.
- Grau - disse o ganso, distraidamente, talvez para tranqüilizar o homem.
- Grau, ou grau, grau?
- Grau - respondeu o ganso.
- Ah. E isso quer dizer o quê, exatamente? - perguntou o homem, confuso.
O ganso, aparentemente, não considerou a confusão do homem relevante, pois nada disse.
Levantando-se para sacudir um pouco as folhinhas de grama que haviam grudado em seu joelho, o homem do parque olhou em volta, se espreguiçou e voltou a se abaixar, desta vez sentando-se de frente para o ganso, que continuava a bicar pontos na grama à procura de pipocas salgadas. Depois de uns minutos, parou, olhou para o homem e disse:
- Grau.
- Escute aqui, como é que quer que eu responda, se não me ajuda? Poderia ao menos indicar para que lado é esse grau. E o grau, grau.
- Grau, grau - repetiu o ganso.
- Está parecendo um papagaio agora.
- Grau.
Em busca de mais pipoca e - seria o caso? - enfadado com a conversa, o ganso dirigiu-se até um casal de namorados. Constatando que nada comiam, seguiu até mais próximo do lago e caminhou ao longo de sua margem.
O homem do parque observou o animal se afastar com certa tristeza. Não conseguia entendê-lo. Por mais insólita que fosse a circunstância, sentia uma grande necessidade de se comunicar com o ganso, que era um animal do parque. Ele era o homem do parque. Zelador, talvez fosse o termo mais adequado, mas preferia como as crianças o chamavam: o homem do parque, com um misto de respeito e medo. Era ele que não as permitia brincar em determinados locais, ou pisar na grama de que ele cuidava com tanto zelo. Era zelador.
- Grau - gritou o ganso, já na margem oposta do lago, percebendo que o homem devaneava, chamando-lhe a atenção.
- Sei, sei - concordou o homem, sem saber ao certo com o quê, abanando a mão para o ganso.
- Grau, grau - gritou de lá o ganso, animadamente.
No dia seguinte, topou com seu amigo logo cedo.
- Grau – cumprimentou-o o ganso.
- Grau - respondeu o homem, dando-se conta em seguida do que fizera, e desatando a rir.
- Grau, grau - O ganso até pareceu se divertir também, mas continuou seu caminhar desajeitado, passando direto pelo homem, sem parar.
- Ei, aonde você vai, com tanta pressa?
Chegando ao seu destino, um grupo de crianças, o animal se deteve por alguns minutos, o bastante para se certificar de que nenhuma se alimentava no momento e voltou para onde estava o homem.
- Viagem perdida, hein?
- Grau...
- Deixe estar. Daqui a pouco sirvo sua ração.
- Grau, grau – protestou o ganso.
- Agora parece que você disse “não”. Grau, grau significa “não”?
- Grau.
- Se é assim, grau significa...
- Grau, grau, grau. - O ganso interrompeu o homem do parque, correndo desajeitadamente ao encontro do homem do carrinho de pipoca.
- E mais essa agora? O que significa grau, grau, grau?
- Grau – o ganso respondeu, voltando decepcionado. Só tinha pipoca doce.
Mais tarde, após terminar suas tarefas, o homem foi procurar seu amigo. Trazia pipocas salgadas. Em pouco tempo o ganso apareceu, todo serelepe:
- Grau, grau, grau.
- É exatamente sobre isso que quero conversar.
- Grau.
- Acho que já sei o que significa grau e grau, grau. Mas e grau, grau, grau?
- Grau.
- Bem, grau deve ser “sim” e grau, grau é “não”, certo?
- Grau - O ganso distraía-se com as próprias penas.
- Vejamos. Três graus só podem significar algo de que você goste muito... - Parou de falar por uns instantes, meditando. - Já sei! – exclamou, concluindo triunfante: - Três graus significam “pipoca salgada”!
- Grau - disse o ganso, e o homem, interpretando isso como um “sim”, já ia comemorar, quando o animal continuou: - Grau, grau. - Depois: Grau, grau, grau. – Por fim: - Grau, grau, grau, grau. – E pulou no lago, deixando o homem do parque desconsolado.

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POR EM 14/03/2008 ÀS 04:06 PM

Morte aos espanhóis boçais!

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Em 1994-95, quando eu era bolsista do CNPq em Boston, lembro-me de ter tido uma pequena discussão com um dono de churrascaria, que era português, na cidade de Sommerville, nos arredores de Boston (por motivos óbvios evitarei dizer “na grande Boston”). Naquela época a cidade (mais um bairro de Boston do que propriamente uma cidade, algo assim como Aparecida de Goiânia) era um nicho de imigração portuguesa, o que, conseqüentemente, a credenciou a se tornar, gradativamente, também brasileira. Já ouvi dizer até que, atualmente, há mais imigrantes brasileiros ali do que portugueses.
           
Nossa pequena discussão dizia respeito a um outro fenômeno, então relativamente novo, da migração de brasileiros a Portugal e como estavam sendo mal recebidos por lá. De minha parte, eu dizia que era um contra-senso, um mau-caratismo de Portugal recusar e/ou maltratar brasileiros, não só por sermos ex-colônia, mas, principalmente, porque as correntes migratórias de lá pra cá continuaram ainda por muito tempo depois da independência, entrando pelo século XX (eu, por exemplo, sou bisneto de portugueses, meus bisavós vieram ao Brasil no início do século XX).
           
O dono da churrascaria me desarmou com o óbvio argumento (que só a raiva não deixa enxergar) do tamanho de cada país. Portugal é um cuzinho. Por essa escala, então, poderíamos dizer que o Brasil é, geográfica e historicamente falando, uma xoxota arrombada, com o perdão do meu francês. Ok, vamos conceder. Não dá pra comparar. Se a gente decidisse invadir a praia de Portugal pra valer ia ser um Deus nos acuda. Não justifica, porém, a animosidade, o preconceito, os maus tratos.
           
É mais ou menos assim que estou enxergando o que está acontecendo na Espanha. (Aliás, esse assunto tem rendido bons filmes sul-americanos, particularmente argentinos). Eles não têm opção. Têm de fechar as portas. Senão a gente arromba mesmo. Além do mais, sinceramente, o que temos mandado pra lá? Putas. Estamos exportando putas, veja só! E saídas em grande parte daqui mesmo, Goiás. Puta que pariu, se me perdoam o péssimo francês novamente.
           
 Por outro lado, assim como no caso de Portugal nada justificava os maus-tratos, também agora nesse caso. No meio da putada tem gente (muita!) bem-intencionada (não que a putada seja má, “bem-intencionada” aqui tem o sentido de “não pretende migrar”). Estudantes, profissionais, turistas, todos planejando gastar seu rico dinheirinho na península, caramba! Merecem respeito. Merecem melhores chances de provarem que não estão lá para se tornarem “lixeiros”, como os boçais da Imigração Espanhola no aeroporto chamaram os brasileiros. São do tipo que transformam um banquinho de poder em trono. Portanto, morte (lenta e dolorosa) aos espanhóis boçais (só aos boçais)!!


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POR EM 02/03/2008 ÀS 12:46 PM

Medíocres

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A mediocridade é um dos piores males. Há dois tipos. A mediocridade-lobo e a mediocridade-cordeirinho. O medíocre-cordeirinho é aquele brilhantemente retratado no filme Zelig, de Woody Allen. Leonard Zelig, o personagem, fica famoso pela impressionante capacidade de se camuflar para se parecer com quem está do lado. Entre duas pessoas gordas, Zelig fica gordo. Entre negros, negro. Entre rabinos ortodoxos, um rabino ortodoxo (com roupa e tudo). Se alguém diz que gostou de um livro, ele também gostou. Se seguem um líder, ele também. Perguntado por que fazia isso, Zelig responde: “Queria ser aceito e amado por todo mundo”. Woody, por vez, quando perguntado sobre a mensagem do filme (como se não fosse óbvia o suficiente), menciona a fraqueza de espírito das pessoas que tentam “se encaixar” o que, no limite, pode levar ao fascismo.
 
O medíocre-cordeirinho, ao contrário do que o nome sugere, é extremamente perigoso. Sua existência inautêntica (está dissolvido no impessoal, diria Heidegger) é moldável ao sabor dos ventos da maioria que, como já nos mostraram os sábios Nelson Rodrigues e Henrik Ibsen, é estúpida. Inércia é a palavra-chave. O medíocre-cordeirinho senta-se todo dia em frente à TV e se deixa contaminar por toda a sorte de lixo. Depois levanta-se, dorme, no dia seguinte acorda, vai ao trabalho, que executa maquinalmente, como numa Metrópolis de Fritz Lang. Aceita tudo placidamente, como vontade divina, vontade essa que lhe foi transmitida por um porta-voz auto-proclamado de Deus. Acrítico, detesta pensar, não considera que compense o esforço.
 
O medíocre-lobo não é muito diferente. Leva mais ou menos a mesma vidinha. Só que, por ironia do destino ou carisma (medíocres-lobos não raramente são extremamente carismáticos), assumem posições de maior ou menor poder. Esses são particularmente perigosos. Têm poder, mas não sabem usá-lo. Como são medíocres, não acham necessário justificar seus atos convenientemente. Se confrontados com a razão, teimarão, contra todas as evidências, ainda que tenham um lampejo de consciência da própria mediocridade. Parafraseando Dostoiévski, se tiverem de escolher entre a verdade e sua própria teimosia, ficarão com a última.
 
Há exemplos históricos de sobra. Hitler foi um típico medíocre-lobo (tudo bem, vá lá que ele não tenha levado uma vidinha mais-ou-menos, mas era um baita dum medíocre). Os alemães da época foram seus cordeirinhos. Há exemplos de sobra também aqui mesmo e agora. Mas esses eu deixo pra vocês refletirem a respeito.

 


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