Considerações neuro-científicas acerca do fenômeno Cora Coralina
Em sua coluna na Folha de São Paulo (“Saber e experiência”, 27/08/2009), Contardo Calligaris fala sobre nossa necessidade de um referencial quando apreciamos uma obra de arte. Contardo nos aconselha a, na próxima vez que formos a um museu, observarmos as pessoas, em vez dos quadros. Perceberemos, entre outras coisas curiosas, que elas, antes de olhar pras obras de arte, checam quem fez. Se famoso, detém-se. Se desconhecido, passam rápido. E então ele nos conta que há uma exposição acontecendo na Itália em que se omite as “plaquinhas”.
No livro “Predictably irrational. The hidden forces that shape our decisions” (Harper Collins, 2008), do professor de economia comportamental Dan Ariely, entre vários exemplos de nossa surpreendente irracionalidade, há alguns que também demonstram experimentalmente nossa necessidade de referenciais. Como no caso de escolhas em restaurantes. Ou o que achamos de uma cerveja, antes e depois de sabermos que pingaram vinagre nela (antes, gostamos, depois, não). Mas o mais interessante é o que mostra a influência do resultado de uma roleta logo antes de se perguntar a alguém o número de países na África. Gira a roleta. Deu número alto? Chuta-se número mais alto. Deu baixo? Chuta-se número mais baixo. Agora me digam: o que, diabos, tem o resultado de uma girada de roleta a ver com o número de países na África?!?
Na verdade, se pensarmos bem e cavarmos a memória de nosso dia-a-dia, nada disso é surpresa. O ser humano é essencialmente inautêntico mesmo. O ser-aí é ser-com-os-outros para o bem e para o mal (mais para o mal). Na maior parte de nosso tempo não somos pessoas, mas, sim, “impessoas”, dissolvidos no mar do impessoal. Em outras palavras, somos uma enorme, disforme e pretensiosa manada. Somos animais e vivemos nos esquecendo disso (é como se a biologia tivesse criado uma categoria pra gente. Há as plantas, os animais, e... nós).
A necessidade que nosso cérebro tem de referenciais (a todo momento, para tudo) é particularmente evidente no que diz respeito à apreciação artística. Mostre um quadro, digamos, abstrato, a alguém sem dizer que foi, digamos, Pollock, quem fez e provavelmente obterá um silêncio constrangedor. Diga que foi Pollock e virão ahs e ohs de rodo. (A propósito, há uma cena emblemática disso no filme “Manhattan”, quando Woody Allen se encontra com Diane Keaton, num museu de arte em Nova York). Mande um romance inacreditavelmente ruim a uma grande editora e espere pelo menos duas gerações (seu neto receberá uma carta muito educada de recusa). Assine Paulo Coelho e no mesmo dia o editor lhe telefonará animado (a quem interessar possa: não estou entre os que criticam Coelho sem tê-lo lido. Li dois de seus livros e vou morrer sem compreender a razão de seu sucesso).
É claro que, mesmo depois de estabelecido um referencial empático, podemos nos decepcionar. Alguns filmes recentes de Woody e a produção recente de Ignácio de Loyola Brandão, por exemplo, para citar dois meus (Loyola Brandão exerceu enorme influência em minha juventude), fazem lembrar do filósofo Hugo Chavez: por que não se calam? Ou, ainda, vários contos de Machado de Assis e Tchékhov deveriam ter sido sepultados com eles (a necessidade editorial-comercial de “esgotar” um autor é cruel com sua obra).
O caso Cora Coralina é exemplar da necessidade neurológica de referenciais e seu potencial efeito nocivo. (Antes que goianos bairristas deem à luz um nenê histérico, quero dizer que acho salutar sua fama e o que eventualmente isso traga pro turismo de Goiás Velho, sendo a família de minha mãe — Rocha Lima — de lá). Parece que ela conseguiu atravessar o Paranaíba (confesso que sempre achei essa expressão meio sem-sentido, já que quando atravessamos o Paranaíba caímos em Minas, o que, do ponto de vista editorial, é sair do espeto pra cair na brasa) por conta de um elogio de Carlos Drummond. Faz-me lembrar o que aconteceu com Augusta Faro, depois que seu livro de contos “A Friagem” foi elogiado por um colunista da "Veja". Com duas diferenças. “A Friagem” é bom. Cora, não. (Gostei d’A Friagem muito antes do tal elogio, quando ainda publicado por editora pequena e apesar de sua capa feia).
Mas há outra diferença. E essa é considerada deselegante comentar. Uma espécie de tabu. Vou apanhar por conta disso, mas vá lá: o sucesso de Cora, em minha opinião (uma professora de português dizia que era idiota escrever “minha opinião” em artigos de opinião, já que só pode ser minha mesmo, a não ser que indicado o contrário, mas aqui acho necessário frisar), está intimamente ligado ao fenômeno do “freak”. Sabe aquelas aberrações de circo que fazem sucesso? Como o homem elefante, por exemplo. Calma, não estou chamando Cora de aberração. Estou apenas tentando elaborar uma analogia. O caso dela está mais para o daquelas crianças que tem memória boa ou que aprendem a ler mais cedo que as outras e os pais ficam mostrando: “Olha que bonitinho, ela sabe escrever”. É mais ou menos por aí. Uma velhinha do interior de Goiás, simples doceira, que sabia escrever direitinho. Olha que bonitinho. O fato de haver teses acadêmicas a respeito de sua obra apenas serve para reforçar minha própria tese. Além de reforçar a impressão dostoievskiana que as ciências biológicas têm das humanas: na falta de experimentação científica, tudo é permitido.
Exagero meu? Insensibilidade minha? Pode ser. Já defendi em várias outras oportunidades que o gosto literário, por mais que se lhe atribua critérios pretensamente objetivos, sempre será... gosto. Meu gosto, seu gosto. Pode ser que eu seja um imbecil a quem escapa (por completo!) a transcendência da poesia de Cora. Pode ser que eu vá para o inferno por isso. Mas, antes, invoco em minha defesa o testemunho de alguns de seus poemas publicados no jornal “O Popular” há alguns anos, desencavados pelo escritor Heitor Rosa (que, diga-se de passagem, também “atravessou o Paranaíba”, publicando seu excepcional “Memórias de um cirurgião barbeiro” pela Bertrand, e que permanece inexplicavelmente merecedor do desprezo da inteligência local).
Desgraçadamente, procurei e não consegui encontrá-los em meus arquivos de recortes de jornal. De forma que terão de acreditar em minha palavra (seria interessante se alguém os tivesse e publicasse aqui). O professor Heitor que me perdoe, mas ele prestou um enorme desserviço a Goiás levando aquilo a público. Foi a gota d’água pra mim. Se até então tinha a incômoda sensação de que eu enxergava demais (ou de menos, dependendo do referencial) nesse mar de histeria coletiva, com a publicação daqueles poemas eu tive certeza. Era constrangedora sua puerilidade. Inacreditável sua ingenuidade (no mau sentido). Absolutamente deplorável sua ruindade. Prometi a mim mesmo nunca mais ferir meus fotorreceptores com a poesia de Cora Coralina, e guardar a sete chaves essa opinião. Até o momento consegui cumprir a primeira promessa. A segunda, acabo de quebrar.
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