O odor deletério de Dostoiévski
"Se Deus não existe, tudo é permitido". Essa deve ser uma das citações preferidas de um dos mais brilhantes filósofos que já existiu.
(Parênteses. Quando eu gosto muito de um escritor ou cineasta, concedo-lhe um "upgrade" para filósofo. Aqueles que ficaram bravos com meu artigo "Por que Woody Allen é superior a Dostoiévski", aqui na Bula, podem ter feito o juízo errado de mim, como não gostando do autor russo. Pois eu o considero brilhante, quase tão brilhante quanto Woody. A quem interessar possa, sou membro da Sociedade Internacional Dostoiévski, com muito orgulho).
Voltando à citação. Trata-se de uma referenciazinha capciosa, pois, pra começo de conversa, ela não é bem assim. Embora sua essência seja essa mesma, ela é dita de formas diferentes, em diferentes momentos do romance "Os Irmãos Karamázov". Por exemplo, quando Piotr Aliecksándrovitch conta um caso de Ivan Karamázov: "(...) se for destruída a fé em sua imortalidade, não somente o amor secará nele, mas também toda força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não haverá então nada de imoral, tudo será autorizado, até mesmo a antropofagia." (p.80 da edição da Ediouro). Aparece novamente na conversa entre Dimitri Karamázov e Rakítin, na prisão: "Mas então, o que se tornará o homem sem Deus e sem imortalidade? Tudo é permitido, por consequência, tudo é lícito?" (p.578, idem). E no discurso do promotor de justiça, a respeito de Smerdiakov: "Contou-me, lamuriando, no inquérito, como esse jovem Karamázov, Ivan Fiódorovitch, o amedrontara com seu niilismo moral: 'Tudo, segundo ele, é permitido, e, de agora em diante nada deve ser proibido'." (p.673, ibidem). Bakhtin resume isso bem: "Lembremos ainda a ideia de Ivan Karamázov, segundo a qual se não há imortalidade da alma, tudo é permitido. Que vida dialogada tensa leva essa ideia ao longo de todo o romance 'Os Irmãos Karamázov'! Que vozes heterogêneas a realizam! Em que contatos dialógicos inesperados ela entra!".
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No último final de semana arranquei-me de casa, finalmente. Já fui muito saideiro, mas tenho ficado cada vez mais neurótico pra isso. Não é só o trânsito infernal de Goiânia, nem o risco de assalto (que, diga-se, nunca me aconteceu aqui ou alhures). Não é só a falta de educação das pessoas na rua, nos shoppings, nas salas de cinema, salas de concertos, teatros. Não é apenas por causa de minha neurastenia progressiva. É preguiça mesmo. Caprichei em meu Home Theater e em minhas coleções de filmes, peças de teatro filmadas, concertos, etc. Daí fico em casa mesmo.
“Quando Williams-Sonoma lançou no mercado uma máquina de fazer pão (por U$ 275,00), a maioria dos consumidores não quis nem saber. O que, diabos, seria uma máquina de fazer pão, afinal de contas? Era boa ou ruim? Alguém precisava mesmo disso? Por que não comprar, em vez disso, uma boa cafeteira na prateleira ao lado? Frustrado pelas baixas vendas, o fabricante contratou uma firma de marketing, que deu a seguinte sugestão: lance outra máquina de fazer pão, só que maior, e cobre 50% a mais por ela. O fabricante acatou a sugestão e as vendas aumentaram significativamente. Por quê? Só porque agora os idiotas (desculpe, consumidores) tinham dois modelos entre os quais escolher. Como agora havia dois modelos, eles não precisavam tomar sua decisão no vácuo, sem referências. E aí maioria escolhia a menor.”
(O pequeno artigo abaixo saiu em 2006 na Bula, mas estou ressuscitando-o por conta de ter visto “Matrix”
Sei bem que só a ideia de um leigo se propor a fornecer um guia de museus, particularmente de arte, ainda que pequeno, já soa pretensiosa para alguns, os, digamos, profissionais. Pois isso faz tanto sentido quanto dizer que apenas escritores podem opinar sobre livrarias. Então dá licença que eu quero passar com minhas opiniões.
No fim de semana passado alugamos um carro e viajamos até a região chamada Berkshires, a duas horas de Boston, oeste do Estado de Massachusetts. É uma região bonita e com alguns pontos turísticos interessantes, para ver uma vez, como a casa de Herman Melville, em Arrowread, ou o Museu de Norman Rockwell.
Fiquei com inveja do
O que é o gosto? É possível gostar de algo “objetivamente”? É possível criar categorias classificatórias e/ou hierarquizantes para o gosto? Por que Machado de Assis é melhor do que Paulo Coelho? Ou Woody Allen do que Steven Spielberg? Ou João Cabral de Melo Neto do que Cora Coralina? A essa altura provavelmente algum leitor percebeu que os primeiros são minha preferência e já discordou de alguma delas. Pode estar se perguntando, estarrecido, “E desde quando Woody Allen é melhor do que Steven Spielberg?!”, por exemplo. Daí eu despejarei sobre esse incauto que ousou discordar de meu gosto que Woody é mais filosófico e Spielberg é mais entretenimento.
"Essas peças de louça são uma companhia de repertório, representando papéis em cada sonho. Não, não foi assim que começou. Ele disse que as peças de louça representavam um papel em cada pintura. O artista mostrava slides de naturezas mortas que havia pintado ao longo de trinta anos. Alguém na pequena e atenta platéia disse, “Essa não é a xícara do quadro de alguns anos atrás?”. Sim, era, o artista respondeu, e a tigela e a jarra e a taça também. Quem era a mulher nua encostada na mesa em que estavam dispostas as peças de louça? O artista não disse, e ninguém na pequena e atenta platéia perguntou.
Antes de seguir adiante, vale dizer algumas poucas palavras acerca da discussão sobre ser o cinema uma forma de arte. Poucas, pois argumentar demais nesse terreno é jogar precioso latim fora. Afinal, quem diz não ser arte o cinema é um de dois tipos de pessoa. Ou não acredita de fato no que diz e só o faz pelo prazer da provocação. Ou realmente acredita, e aí será o caso de alguém que, por não gostar da cor azul, afirma que azul não é cor. Nas duas situações é inútil argumentar.