Mídia esconde homossexualidade de Pedro Nava
Oscar Wilde (1854-1900), autor do romance “Dorian Gray” e de frases reverberativas, teve um affair com Alfred “Bosie” Douglas — o que o levou, depois de um escândalo popularesco, à prisão. Um pouco de seu drama é contado no esplêndido “De Profundis”, espécie de canto do cisne do escritor irlandês. Nesta pequena obra-prima, possivelmente tendenciosa (mas confirmada no geral pelo biógrafo mais crível, o norte-americano Richard Ellmann), o criador de “A Importância de Ser Prudente” sugere que praticamente foi seduzido pelo jovem lorde. Pode ter ocorrido isto. O fato é que a “crise”, provocada mais pelo moralismo da sociedade inglesa do que pela homossexualidade do escritor e de seu parceiro — este, estranhamente, apresentado como vítima, talvez pela influência política e social de seu pai, um nobre —, destruiu a carreira e a vida de uma mente privilegiada. Wilde, que morreu com apenas 46 anos, era casado e tinha filhos. Recentemente, a história da homossexualidade do escritor José Donoso escandalizou o Chile, sobretudo porque revelada pelo próprio escritor, que deixou diários. O Brasil também trata a homossexualidade como “escândalo”. Ninguém escreve a biografia de Mário de Andrade, exceto o jornalista Jason Tércio, porque teme-se tocar na sua evidente homossexualidade. O escritor Lúcio Cardoso ganhou uma biografia reveladora — que retrata sua homossexualidade não protegida por parentes e críticos zelosos. A escritora Clarice Lispector, apaixonada, foi desprezada pelo autor do romance “Crônica da Casa Assassinada”. Depois de Mário de Andrade, a história da homossexualidade mais camuflada é a do memorialista mineiro Pedro Nava, que, chantageado por um garoto de programa, matou-se em 13 de maio de 1984, aos 80 anos. Agora, no relançamento de suas memórias — em edições caprichadas da Companhia das Letras, configurando, ao lado da obra do poeta Carlos Drummond de Andrade, também pela mesma editora, a maior publicação literária de 2012 —, os jornais novamente pisaram em ovos ao tratar a homossexualidade ou, mais precisamente, a bissexualidade de Nava, como se isto, a homossexualidade, fosse crime ou afronta à Humanidade. leia mais...






A história da acumulação primitiva do capital é uma história do coração das trevas — o horror, o horror, o horror. Tanto do ponto de vista humano — vidas são sacrificadas — quanto da corrupção e da violência.
O alemão Karl Marx, que viveu como pobre e sustentado pelo amigo Friedrich Engels, um industrial rico, amava sua mulher, Jenny Marx, que, embora sem posses, era de origem aristocrática. Numa carta de 1856, o filósofo e economista escreveu: “Meu querido amor, tenho a imagem viva de você em minha frente, tomo você em meus braços, beijo você da cabeça aos pés, ajoelho-me diante de você e suspiro ‘Madame, eu a amo’. E eu de fato amo você mais do que o Mouro de Veneza jamais amou. (...) Mas o amor de uma querida, isto é, você, torna um homem novamente homem. De fato há muitas mulheres no mundo, e algumas delas são belas. Mas onde encontrarei outro rosto no qual cada traço, até cada ruga relembra as maiores e mais doces memórias de minha vida”. As biografias estão de acordo: Marx e Jenny viveram num ambiente de extrema penúria, às vezes sem dinheiro para comer, pagar aluguel e enterrar um filho, Edgar, de 8 anos, mas se adoravam. Eram cúmplices. Sobre a morte do filho, Marx escreveu a Ferdinand Lassalle: “Bacon diz que os homens realmente importantes têm tantas relações com a natureza e o mundo que eles se recuperam facilmente de qualquer perda. Eu não pertenço a estes homens importantes. A morte de meu filho abalou profundamente meu coração e minha mente e ainda sinto a perda tão vivamente como no primeiro dia. Minha pobre esposa também está completamente abatida”. A carta é de 1855 e mostra um pai amoroso lamentando a morte de seu “único” filho homem. Mas o autor de “O Capital” matou simbolicamente outro filho, Henry Frederick Demuth, o Freddy, e não se conhece algum lamento escrito de sua autoria. 
A excelente biografia “Darwin — A Vida de um Evolucionista Atormentado”, de Adrian Desmond e James Moore, saiu com erros e a Geração Editorial encomendou uma revisão técnica, relançou o livro e fez as trocas com os leitores. Bastava levar a edição antiga às livrarias e proceder à troca. Infelizmente, a Editora Objetiva mostra-se menos responsável e decidiu, mesmo depois de dezenas de erros apontados por intelectuais baianos — e certamente há outros equívocos —, manter em circulação o livro “A Primavera do Dragão — A Juventude de Glauber Rocha”, do escritor e produtor musical Nelson Motta. A Objetiva informa que vai lançar nova edição corrigida, mas a primeira edição, verdadeiro lixo de triste figura, vai continuar nas livrarias. Quem comprou a edição eivada de falhas terá de jogá-la fora ou vendê-la em algum sebo desavisado. Os erros foram anotados e divulgados pelo repórter Claudio Leal, da “Terra Magazine”.
O livro “A Maldição de Edgar” (Record, 396 páginas), de Marc Dugain, apresenta a versão de que o presidente americano John Kennedy foi assassinado por um complô que envolveu a CIA, exilados anticastristas e a Máfia. “Lee Harvey Oswald, preso e executado em Dallas, nunca matou Kennedy. Nunca participou ativamente de sua eliminação física. Esse cara estava sendo preparado como cobertura há longos meses”, escreve Dugain, baseado em supostos documentos deixados por Clyde Tolson, o segundo homem do FBI e amante de J. Edgar Hoover (o escritor Truman Capote a dupla de “Johnny and Clyde”). O FBI sabia que havia uma conspirata para matar Kennedy, mas nada fez, porque Hoover, além de considerar o presidente degenerado e fraco, não o tolerava porque tentou retirá-lo do comando da polícia federal norte-americana. Dugain afirma que o objetivo maior era reduzir a força de Bob Kennedy, o secretário (ministro) de Justiça de John, depois, em 1968, também assassinado.
O francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), o gnomo obsceno, talvez tenha sido o filósofo mais comentado e, até, lido do século 20. O que você vai ler neste texto é tão duro — sobre o baixinho mais feio do que briga entre Anderson Silva e Chael Sonnen — que dou duas dicas: há uma ampla biografia, “Sartre”, de Annie Cohen-Solal (L&PM), em português, que tem uma interpretação menos ácida e mais equilibrada do companheiro de Simone “Castor” de Beauvoir, e há “Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra” (Nova Fronteira, 2008), do historiador britânico Tony Judt. Há um “problema” para leitores preguiçosos: o livro de Cohen-Solal tem 693 páginas. Não há índice de nomes, o que é ruim numa biografia em que se cita muita gente (como o brasileiro Jorge Amado). O livro de Judt, com 478 páginas, é pau puro, e Sartre sai muito mal, com Albert Camus revalorizado. O filósofo de “O Ser e o Nada” não é, porém, o único a ser examinado neste livro esplêndido, seriíssimo.
Alberto Manguel é um crítico da estirpe de Harold Bloom, talvez com uma paixão menos militante. Embora conheça as principais teorias literárias, prefere, como Bloom, ler diretamente os livros que comenta. Há analistas que sabem tudo o que disseram teóricos e críticos mas não são leitores devotados de literatura. Pode-se dizer que alguns comentários de Manguel, argentino radicado na França e ex-secretário de Jorge Luis Borges (lia para o escritor portenho), são superficiais, mas quase sempre são deliciosos e, não raro, detalhistas. Seus artigos para o excelente suplemento literário “Babélia”, do “El País”, contêm novidades sobre o mundo literário, mesmo quando explora assuntos batidos. Na edição de 20 de agosto, escreveu uma resenha, “Em busca do sucesso por meio de um romance vergonhoso”, sobre o escritor e professor universitário norte-americano Percival Everett, de 55 anos. Não adianta procurar suas obras nas livrarias e sebos brasileiros (o Estante Virtual vende uma obra em inglês). No site da Livraria Cultura, de São Paulo, o leitor pode encomendar seus romances, mas em inglês. Companhia das Letras, Cosac Naify e Record não publicaram um livro de sua autoria. Na Casa del Libro, de Madri, é encontrado apenas um romance: “X” (Blackie Books, 358 páginas), recém-lançado na Espanha (em inglês pode ser encontrado o mesmo livro, com o título de “Erasure”). A Livraria Bertrand, de Portugal, vende cinco livros do autor — nenhum em português. Everett é um escritor desconhecido, exceto dos acadêmicos e daqueles que leem quase tudo, como Manguel. Na sua resenha, Manguel faz primeiro uma denúncia e, em seguida, a crítica literária.
Quem diz que o ego do jornalista e pintor Mino Carta, diretor de redação da revista “CartaCapital”, é hipertrofiado não pode deixar de ser chamado de amante de redundâncias. Mino Carta se acha o mais puro dos homens e, por extensão, o melhor jornalista do Brasil, quiçá do mundo — depois de Claudio Abramo, diria o italiano-brasileiro. É o que sobressai do romance “O Castelo de Âmbar” (Record, 400 páginas). Estranhíssimo roman à clef. Sustentar que “O Castelo de Âmbar” é romance talvez seja mais uma gozação de Mino Carta.