A inteligência de Lobato versus a patrulha do PC
Na minha infância, nada deleitava-me tanto quanto jogar futebol, durante o dia, e ler, durante a noite, iluminado pela luz tênue e bruxuleante da lamparina, que guardava, contra as orientações de minha mãe, a professora normalista Zinha Fagundes, debaixo da cama. De manhã, muitas vezes meus cabelos estavam sapecados, como se dizia, e cheirando querosene. Lia qualquer coisa: literatura, fotonovela (algumas traduzidas pelo poeta concretista Décio Pignatari), livros de faroeste (Marcial Lafuente Estefânia era um espetáculo), livretos de cordel (deliciava-me com as artimanhas de Cancão de Fogo e Pedro Malazartes), revistas (como “Placar”, “Demolidor”, “Tio Patinhas”, “Homem-Aranha”. Como o lutador Anderson Silva, tenho a coleção do “Homem-Aranha”, incompleta, pois deixei de ampliá-la). Mesmo pequeno, andava quilômetros à caça de livros. Ruins ou bons, lia com sofreguidão e, como havia poucas obras, lia-as repetidas vezes. Curiosamente, havia um grande intercâmbio de livros entre garotos e adultos. Porque livros, no interior, eram escassos, sobretudo histórias de boa qualidade.
Fiz o primário na Escola Dona Gercina Borges Teixeira, em Porangatu, na região Norte de Goiás. Sua biblioteca era pequena e só as professoras podiam tomar livros emprestados. Assim, fazia o possível para agradar minha mãe, ajudando-a em alguma coisa, com o objetivo de conseguir alguns livros. Li as histórias de Rapunzel, do Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho, dos Três Porquinhos, de Cinderela, da Gata Borralheira, do Rei Arthur (pelo qual tinha uma admiração mágica), Peter Pan (achava as histórias encantadoras), “As Aventuras de Huckleberry Finn” (o primeiro livro que me fez gargalhar, talvez porque a personagem tinha a ver comigo e com os garotos de minha geração), “Mowgli, o Menino Lobo” (não sabia que era uma história de Rudyard Kipling).
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Mais um livro discute a possibilidade de, ao “escapar” do cerco dos Aliados, notadamente soviéticos, ingleses e americanos, o líder nazista Adof Hitler e sua mulher, Eva Braun, terem se refugiado na Argentina. “Ultramar Sul — A Última Operação Secreta do Terceiro Reich” (Civilização Brasileira, 489 páginas, tradução de Sérgio Lamarão), dos pesquisadores Juan Salinas e Carlos De Nápoli, é uma obra cautelosa, ao contrário de “El Exílio de Hitler” (Ediciones Absalón, 493 páginas), do jornalista argentino Abel Basti. Este é peremptório: Hitler morou na Argentina, na região da Patagônia, ao lado de Braun. Os dados de Basti não avalizam sua conclusão. Salinas e Nápoli, ainda que admitam que Hitler, Braun, Martin Bormann, Heinrich “Gestapo” Müller podem ter morado na América do Sul (e citam que Walter Rauff radicou-se no Chile), escrevem: “Nada se sabe ao certo sobre o destino de Hitler. (...) Nada de novo se sabe sobre a identidade dos dirigentes nazistas desembarcados em costas patagônicas durante a fase final da operação. (...) Ainda que com as informações disponíveis não pareça sensato acreditar que Hitler e seus próximos tenham podido viajar naqueles U-Bootes [submarinos], ninguém sabe o quê ou quem desembarcou nas praias de Miramar ou Mar del Sur. (...) Embora a Operação Ultramar Sul tenha sido originalmente concebida para a fuga de Hitler, parece pouco factível que ele e sua mulher tenham chegado à Argentina nos U-Bootes que aportaram no país, aberta ou clandestinamente, em meados de 1945”. Mas “chegaram às costas da província de Buenos Aires ou da Patagônia pelo menos outros três submarinos, dois dos quais desembarcaram clandestinamente perto de Necochea. (...) Tudo indica que foram cerca de seis os submarinos que atravessaram o equador em sua viagem para o Sul e não menos de quatro chegaram às costas argentinas. (...) Chegaram a terra firme uns 80 camaradas, alguns dos quais pareciam ser altos dirigentes do regime deposto”.
Maria Rita Kehl foi contratada pelo “Estadão” para escrever sobre psicanálise. Por conta própria, escrevia sobre política, advogando posições contrárias às do jornal. Foi demitida. Ela está errada; o jornal, certo. O artigo que provocou a demissão de miss Kehl é de uma pobreza haitiana e prova, mais uma vez, que a autora entende quase nada de política e economia. Deveria continuar escrevendo sobre psicanálise.
A Academia Sueca não premiou Philip Roth, autor do magistral romance “O Teatro de Sabbath” (relançado pela Companhia das Letras), mas fez justiça ao conceder o Prêmio Nobel de Literatura ao maior escritor peruano de todos os tempos, Mario Vargas Llosa (pronuncia-se “Lhôssa”, com acento circunflexo na vogal “o”), de 74 anos.
O poeta russo Óssip Mandelstam escreveu um poema sobre Stálin, no qual chamava-o de assassino e de ter bigodes de barata, e acabou preso na Lubianka e, depois, no Gulag (campo de concentração e trabalhos forçados). “Em outubro de 1938, sem medicamentos e sem cuidados adequados, o poeta russo Óssip Mandelstam morreu em Vtoraya Rechka, paranoico e delirante”, conta a historiadora Anne Applebaum no livro “Gulag — Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos” (Ediouro, 749 páginas), digno “sucessor” do “Arquipélago Gulag”, do escritor Alexander Soljenítsyn. No conto “Licor de Cereja”, Varlam Shalamov relata os últimos dias do homem que desafiou o ditador: “Ele já não ficava de olho na ponta do pão [a mais comestível], nem chorava quando não a conseguia. Já não enfiava o pão na boca com dedos trêmulos”. O assassino intelectual de Trotski conseguiu o que planejou: destruiu física e mentalmente um dos poucos homens que, mesmo sabendo dos riscos, teve coragem de enfrentá-lo publicamente. A poesia de Mandelstam tem sido editada no Brasil e, sobretudo, em Portugal. Para conhecê-lo, é fundamental a leitura de “Contra Toda Esperança”, as memórias de sua mulher, Nadejda Iákovlevna Mandelstam. A maioria de seus poemas foi decorada por Nadejda e posteriormente, com a “morte” do stalinismo, publicada. Ela sabia literalmente todos os poemas de cor. Quem não tem acesso à obra-prima de Nadejda pode consultar o recém-lançado “De Mandelstam Para Stálin — Um Epigrama Trágico” (Record, 375 páginas, tradução de Mauro Gama; o poeta e crítico Marco Lucchesi revisou a tradução e traduziu trechos de alguns poemas), de Robert Littell.
Não é fácil resistir ao poderio de uma ditadura popular... como a nazista. Pois um trabalhador solitário, August Landmesserm, decidiu desafiar o totalitarismo do regime de Adolf Hitler. Em 1936, em Hamburgo, numa solenidade, enquanto todos saudaram o Führer, Landmesserm cruzou os braços.
A biografia “Carla — Uma Vida Secreta” (Editora Flammarion), da jornalista Besma Lahouri, será publicada em outubro, mas já está provocando polêmica. Os advogados do presidente francês Nicolas Sarkozy estão examinando o texto. Entre seus aliados há quem queira pedir à Justiça que impeça a circulação do livro, que contém informações bombásticas sobre a cantora Carla Bruni, mulher do líder francês.
Quando lançado no Brasil, em 2008, o livro “Quem Pagou a Conta — A CIA na Guerra Fria da Cultura” (Record, 556 páginas, tradução de Vera Ribeiro), de Frances Stonor Saunders, formada em Oxford, ganhou resenhas elogiosas, mas nenhum comentário crítico. O motivo é o de sempre: teorias conspiratórias de esquerda são aceitas como verdades irretorquíveis nos cadernos culturais. O jornalista e escritor inglês George Orwell, morto aos 46 anos, em 1950, é uma das “vítimas” da autora. Ao contrário de biógrafos e ensaístas, Saunders acredita na história de Isaac Deutscher de que Orwell plagiou o romance “Nós”, do russo Yevgeny Zamyatin, que, perseguido pelo stalinismo, exilou-se na França. Ex-trotskista e eterno socialista, Deutscher escreveu que faltavam ao seu adversário “senso histórico e compreensão psicológica da vida política”. Sessenta quatro anos depois da morte de Orwell, sabemos que sua crítica ao totalitarismo, de esquerda (stalinismo) e de direita (nazi-fascismo), permanece pertinente. O romance “1984”, de 1948, persiste vivo, um perceptivo mapeamento histórico e psicológico, além de resistir como literatura, de uma sociedade totalitária. O herói ou ex-herói de Deutscher, Liev Trotski, era menos perspicaz do que o autor da novela “A Revolução dos Bichos”. Se a crítica do biógrafo de Trotski não resiste a um peteleco, outra crítica é mais grave. Orwell teria sido “dedo-duro”, segundo a versão apresentada por Saunders.
As pessoas parecem não entender mais o que é artigo e o que é crônica. O artigo é, em geral, uma tentativa direta de intervenção na realidade. Assim, é francamente datado, e raros sobrevivem à corrosão do tempo. A crônica é um olhar, supostamente mais suave, sobre a realidade, e não tem o objetivo de mudá-la. Por vezes, a crônica sobrevive, porque se toma a realidade como tema, um fato do dia anterior, trata-a não raro com as tintas da literatura e, deste modo, pode acabar se tornando eterna. João do Rio, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos deixaram crônicas impagáveis, verdadeiras peças literárias. Alguns delas, lidas quarenta ou cinquenta anos depois, permanecem viçosas como o bebê que nasceu ontem.