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POR EM 04/02/2011 ÀS 04:22 PM

Jornal impresso pode acabar no Brasil em 2027

publicado em

O site Future Exploration Network (FEN), que auxilia grandes organizações a obter insights sobre o futuro e desenvolver estratégias que criem vantagens competitivas, elaborou um gráfico, baseado em estimativas e tendências atuais, que aponta para o fim do jornal impresso no mundo. Nos Estados Unidos, para ficar apenas num país, mais de 2 mil jornais foram fechados desde o advento da internet. Pátria do mais rico jornalismo do mundo, os Estados Unidos criaram, há pouco, um museu da imprensa.
 
Segundo o FEN, o primeiro país a abolir o jornal no formato impresso será os Estados Unidos, em 2017, seguido por Inglaterra, 2019, Canadá e Noruega, em 2020. Para o Brasil as previsões do fim dos impressos são para o ano de 2027. O crescimento da tecnologia móvel e o baixo custo da operacionalização, que contrasta com os valores elevados dos jornais impressos, são os principais fatores que ressaltam essa tendência. Será que o jornal impresso vai ficar como o disco de vinil? Não se sabe. O que se sabe (a tendência) é que quem sobreviver sairá com pequenas tiragens, para distribuição gratuita ou para assinantes privilegiados. Mesmo agora, ninguém, que não seja insano, aposta mais em grandes tiragens impressas.


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POR EM 30/01/2011 ÀS 11:47 AM

Morte de Rubens Paiva permanece obra aberta

publicado em

Segredo de Estado — O Desaparecimento de Rubens PaivaCom apoio de amplos setores civis, tanto nas elites quanto entre populares, militares derrubaram o presidente João Goulart, no início de abril de 1964. O primeiro presidente militar, Castello Branco, planejou uma transição com candidato civil para substitui-lo. O mineiro Bilac Pinto, um liberal, era uma de suas apostas. Não deu pé. A linha dura, liderada por Costa e Silva, optou pela continuidade da caserna e manteve o poder. A manutenção de partidos políticos, Arena e MDB, e portanto de eleições contribuiu para que a ditadura, embora autoritária, não se tornasse totalitária. A cassação de mandatos, com evidentes exageros, não impediu que políticos de proa da oposição, como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, se manifestassem com frequência. Uma das principais falhas da historiografia patropi é concentrar-se demasiadamente na ação armada dos guerrilheiros, de resto útil aos militares duros para tornar o regime ainda mais fechado, e menoscabar a oposição legalista e os liberais arenistas (que nada tinham de truculentos). Políticos emblemáticos como Ulysses e Tancredo (poderia citar outros) pressionaram o regime o tempo todo e permaneceram na oposição. Liberais da Arena, ainda que omissos em alguns pontos, também contribuíram para que o regime fosse menos cruento. É possível que a omissão pública tenha sido menor do que a pressão interna — o que cabe aos historiadores, como os rigorosos Carlos Fico, Elio Gaspari e Ronaldo Costa Couto (autor de um magnífico livro sobre a Abertura), investigar. Sobretudo, arenistas e emedebistas, especialmente os liberais, sugeriam, mesmo quando falavam pouco, que havia uma alternativa democrática ao sistema ditatorial. Tanto que, 21 anos depois do golpe de 64, os civis voltaram ao poder, numa combinação de um emedebista (peemedebista), Tancredo, com um arenista (pedessista), José Sarney. Mas tudo foi possível mais cedo porque havia uma tendência liberalizante tanto nos quarteis quanto no partido governista. Ao assumir a Presidência da República, em 1974, o general Ernesto Geisel se impôs uma missão — “matar” a ditadura por meio da Abertura. Geisel e Golbery do Couto e Silva eram, por assim dizer, discípulos de Castello Branco. Liberalizaram o regime de tal forma que João Figueiredo, mesmo com alguns duros no governo, não tinha mais energia nem legimitidade para fechar o regime. O processo de Abertura havia envolvido a sociedade política e a sociedade civil de tal forma que recuar era praticamente impossível.


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POR EM 17/01/2011 ÀS 05:00 PM

Máfia verdadeira é mais violenta do que a do filme de Coppola

publicado em

Os Últimos Mafiosos — A Ascensão e a Queda da Família Mais Poderosa da MáfiaDepois do filme “O Poderoso Chefão”, a máfia, a Cosa Nostra, jamais será a mesma. Será sempre dupla: a Cosa Nostra real e a imaginada pelo escritor Mario Puzo e, sobretudo, pelo cineasta Francis Ford Coppola (o filme dispensa o romance). A máfia de Puzo e Coppola é edulcorada, até certo ponto. Os dois mostram a duplicidade da máfia — “a” que usa a violência para ajeitar seus negócios e “a” que usa os meios legais para limpar seu capital. Mas, claro, é a mesma máfia. Os métodos variam de acordo as circunstâncias. Empresários mantiveram e mantêm ligações com mafiosos e mesmo o Banco do Vaticano não ficou longe de acordos pouco católicos. As grandes jogadas empresariais quase sempre não são limpas, mas muitas vezes são legais. A máfia, sem descurar da ilegalidade, como o tráfico de cocaína e heroína, procura trilhar os caminhos do jogo pesado aceito pela sociedade, porque revestido de legalidade e legitimidade. O livro “Os Últimos Mafiosos — A Ascensão e a Queda da Família Mais Poderosa da Máfia” (Larousse, 367 páginas, tradução de Maria Elizabeth Hallak Neilson), do jornalista John Follain, permite compreender como se estruturou a organização criminosa na qual seus integrantes se assemelham a acionistas, executivos e “soldados” (pistoleiros). A família é a Corleonese. No livro “Cosa Nostra — História da Máfia Siciliana”, John Dickie aponta que o termo máfia surgiu no século 19 — “por volta de 1860”. Mas a organização do clã Corleonese, que mais tarde passou a mandar na Cosa Nostra, se deu no século 20, com o médico don Michele Navarra. O mafioso era chamado de U Patri Nostru (Pai Nosso), “exatamente como” os sicilianos “se referiam a Deus”. O vocáculo máfia deriva, possivelmente, do árabe “mahias” (ousadia) ou “Ma àfir” (nome de uma tribo sarracena). Ao assumir o poder, entre 1922 e os primeiros anos da década de 1940, o fascista Benito Mussolini enquadrou parte da máfia. Com sua queda, “90% dos novos 353 prefeitos nomeados pelos Aliados eram mafiosos ou próximos do movimento separatista, intimamente ligado à máfia”, anota Follain. A organização criminosa se tornou parte do sistema estatal. “Talvez refletindo esse novo amanhecer, os mafiosos começaram a se referir à sua sociedade secreta como Cosa Nostra (Coisa Nossa).”


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POR EM 09/01/2011 ÀS 11:33 PM

Principais lançamentos de 2011

publicado em

J. M. Coetzee, Jonathan Franzen, Jonathan Safran e Philip Roth As editoras não revelam todos os seus trunfos e por isso não se sabe sobre a maioria dos lançamentos de 2011. Depois, alguns lançamentos são decididos durante o ano, quando os negócios são feitos com editoras e autores.  Os jornais, como “Folha de S. Paulo”, “Estadão” e “O Globo”, listaram alguns livros que serão publicados este ano. O principal lançamento, por incrível que possa parecer, é um clássico do século 19, “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói, pela primeira vez traduzido do russo, por Rubens Figueiredo (autor da proeza de traduzir “Anna Kariênina”). O livro conta a história da guerra entre a França de Napoleão Bonaparte e a Rússia dos czares, em 1812. O romance, que não trata apenas da batalha, oferece um amplo painel da sociedade russa. Há, por assim dizer, dois romances, ou mais, num só: o da guerra, “comandado” pelo general Kutuzov, e o da paz, “dirigido” por André, Natasha e Pedro. A vida continua, mesmo na guerra. A tradução que circula no Brasil, de João Gaspar Simões, tem como ponto de partida a edição francesa. A nova versão é da Cosac Naify. Proibido na Inglaterra durante 32 anos, por ser considerado “pornográfico”, o romance “O Amante de Lady Chatterley”, do prosador e poeta inglês D. H. Lawrence, volta às livrarias, com nova tradução de Sergio Flaksman, ensaio da escritora Doris Lessing e chancela das editoras Penguin e Companhia das Letras. Publicado no final da década de 1920, o livro continua forte e inspirador. É uma desgraça para o Brasil que até “a” (ou “o”) Adelaide Carraro dos ingleses é melhor do que a nossa. Sugiro, como acompanhamento, a leitura de “Mulheres Apaixonadas”, de Lawrence, com tradução, de mestre, de Renato Aguiar.


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POR EM 02/01/2011 ÀS 04:21 PM

Livros que merecem edição brasileira

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A minha lista de livros que deveriam ser publicados é penelopiana. Por conta do espaço, indico apenas 15 livros que devem ser descobertos pelas editoras brasileiras
 
1 — “A Destruição dos Judeus Europeus”, do alemão Raul Hilberg, é um clássico. Há boas edições em inglês (tenho a versão condensada) e em espanhol. Depois de Hilberg, novas pesquisas foram feitas, é claro, mas ele é o ponto de partida seguro para se entender o que aconteceu com os judeus. Ele próprio judeu, é rigoroso e nunca exagerado nas cifras sobre judeus mortos pelos nazistas. O historiador foi fundamental para estabelecer que aproximadamente 6 milhões de judeus foram assassinados pelo governo de Adolf Hitler. O escritor Halley Margon V. Jr. sempre cobra a edição deste livro.  

2 — “Ponto Último e Outros Poemas”, de John Updike, saiu em Portugal, em 2009, com tradução de Ana Luísa Amaral. Updike era o homem de cultura completo: desenhava, criticava seus pares (com elegância e inteligência), escrevia ensaios notáveis (um deles sobre Machado de Assis) e se tornou um dos maiores prosadores americanos, comparável a Nathaniel Hawthorne, Henry James e Saul Bellow, e um analista primoroso da moral e do modo de vida da classe média. No Brasil, porém, o poeta, dos bons, ainda que sem o fôlego de Marianne Moore e Wallace Stevens, permanece inédito.


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POR EM 19/12/2010 ÀS 12:59 PM

Vargas Llosa compara Jorge Amado a Dorian Gray

publicado em
“Sabres e Utopias — Visões da América Latina” (Objetiva, 430 páginas, tradução de Bernardo Ajzenberg), de Mario Vargas Llosa, contém ensaios (alguns textos são mais artigos) sobre Somoza, Pinochet, Lula, Fidel e Raul Castro, Farc, Canudos (que mereceu o romance “A Guerra no Fim do Mundo”), Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, José Donoso, Cabrera Infante, Jorge Amado, revoluções, nacionalismo, democracia, liberalismo e outros assuntos. As nove páginas do ensaio “Cem Anos de Solidão: O Amadís na América”, sobre a obra-prima de García Márquez, valem o livro. Foi publicado em 1967, em cima da hora, com base na leitura direta, sem nenhuma fortuna crítica a sustentá-lo. Comentarei única e brevemente os textos sobre Jorge Amado, José Donoso e Cabrera Infante.
 
Jorge Amado era amigo de Vargas Llosa, apesar das diferenças ideológicas. O primeiro era de esquerda e o segundo é liberal. As ideologias não os separaram, porque a amizade e o respeito eram mais fortes. Ao escrever sobre a literatura do amigo, o autor o faz com isenção e perspicácia. Nota que, “em seus romances políticos, um elemento intuitivo, instintivo e vital sempre superava o ideológico e jogava pelos ares os esquemas racionais”. 
 
Até certo momento, como em “Cacau” e “O Cavaleiro da Esperança”, biografia romanceada e floreada de Luís Carlos Prestes, Amado fazia uma literatura panfletária, atendendo aos préstimos do realismo socialista. Llosa talvez exagere quando fala em “virada” literária, porque é possível que não tenha sido tão radical assim, daí a possibilidade de a crítica ser mais “elástica” do que a própria prosa do autor de “Tieta do Agreste”. Não há limpeza total de “pressupostos ideológicos”, por exemplo. De qualquer forma, o argumento do autor de “A Casa Verde” é sugestivo: Amado “realizou uma virada profunda em sua literatura, despolitizando-a, limpando-a de pressupostos ideológicos e tentações pedagógicas, e abrindo-a cada vez mais para outras manifestações da vida, a começar pelo humor, até chegar aos prazeres do corpo e aos jogos do intelecto. (...) Jorge Amado pôs-se (...) a rejuvenescer, a partir de histórias deliciosas como ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’, ‘Gabriela, Cravo e Canela’, ‘Tereza Batista Cansada de Guerra’, ‘Tieta do Agreste’, ‘Farda Fardão Camisola de Dormir’ e as que vieram depois, em um curioso desafio à cronologia mental, algo que fez dele, como escritor, uma espécie de Dorian Gray, um romancista que, livro após livro, brinca, diverte-se e se mostra como uma criança genial, com suas travessuras verbas, sensuais e engraçadas, em verdadeiras festas literárias”. Amado teve sorte: os “policiais literários” da União Soviética não sabiam português e as traduções certamente adocicaram a prosa virulentamente erótica e, mesmo, pornográfica de seus romances.
 
Numa leitura extremamente simpática, Vargas Llosa diz que, nos romances de Amado, “todas as desventuras do mundo não são suficientes para quebrar a vontade de sobrevivência, a alegria de viver, o esforço sorridente para dar sempre a volta por cima que animam seus personagens. O amor à vida é tão grande neles que são capazes, como acontece com a maravilhosa dona Flor com seu marido defunto, de ressuscitar os mortos e trazê-los de volta a uma existência que, mesmo com todas as misérias que traz consigo, está também repleta de momentos de gozo e felicidade. Essa fruição dos prazeres menores ao alcance do ser anônimo, que cintila em todas as suas histórias — saborear um copo de cerveja gelada, uma conversa deliciosa, contar uma piada picante, dirigir galanteios a um corpo atraente que passa, a amizade fraterna —, é muito intensa e contamina seus leitores, que costumam sair de suas páginas convencidos de que, por pior que seja a circunstância em que se vive, sempre haverá na vida humana um espaço para a diversão e outro para a esperança”. Concordo em parte com Vargas Llosa, pois, embora tenha sido um crítico intolerante da prosa de Amado, li-o com extremo prazer (e concupiscência) na adolescência, sem barreiras ideológicas, de esquerda ou de direita. Mas a leitura do crítico peruano quase transforma a literatura de Amado em auto-ajuda intelectual, embora seu objetivo seja, logicamente, outro. “Jorge Amado (...) exaltou o outro lado da moeda, a cota de bondade, alegria, plenitude e grandeza espiritual também contida na existência e que, em seus romances, fazendo todas as contas, acaba sempre vencendo a batalha em quase todos os destinos individuais.” Exagero, mas, considerando que neste ensaio de 1997, Vargas Llosa diz que Amado iria para o céu, a crítica “é” aceitável, pois escritor é tratado como “santo”.
 
No ensaio “Cabrera Infante”, o cubano que escreveu o grande romance “Três Tristes Tigres” (seria interessante lê-lo em comparação com a prosa menos esfuziante e, quiçá, mais cerebral de Thomas Pynchon, nas referências ao mundo popular envolvidas e absorvidas por uma prosa altamente sofisticada e complexa), Vargas Llosa mostra-se mais atento do que na crítica empática (ainda que, no geral, verdadeira) a Amado. O autor de “Conversa na Catedral” escreve que, para Guillermo Cabrera Infante, o “humor (...) é (...) uma maneira compulsiva de desafiar o mundo tal como ele é e esfacelar suas certezas e a racionalidade em que se baseia, trazendo à luz as infinitas possibilidades de desvario, surpresa e disparates que ele mesmo oculta, e que, nas mãos de um hábil malabarista da linguagem como ele, podem se transformar em um deslumbrante fogo de artifício intelectual e delicada poesia. O humor é a sua maneira de escrever, ou seja, algo muito sério, que compromete profundamente a sua existência”.
 
A prosa de Cabrera Infante, explica Vargas Llosa, com o brilho de sempre, “é uma das criações mais autorais e insólitas da nossa língua, uma prosa exibicionista, faustosa, musical e esquisita, que não consegue contar nada sem contar ao mesmo tempo a si mesma, interpondo seus exageros e cabriolas, suas construções desconcertantes, a cada passo, entre o que se conta e o leitor, de modo que este, muitas vezes entontecido, dividido, absorvido pelo frenesi do espetáculo verbal, esquece o restante, como se a riqueza da forma pura tornasse o conteúdo apenas um pretexto, mero acidente”. A prosa de Cabrera Infante deixa mesmo esta impressão — a de que as palavras dançam, uma dança louca, e o leitor fica tonto, tendo de voltar várias vezes ao mesmo trecho, para não perder o fio da meada. Porque, e é isto que Vargas Llosa está dizendo, com precisão, em Cabrera Infante a linguagem, como conta, é tão importante quanto aquilo que é contado. 
 
O ensaio “José Donoso, ou a vida feita literatura” é, em alguns pontos, hilário. O texto é de 1996 e, por isso, não teve como incorporar a polêmica biografia do escritor chileno, escrita por sua filha, publicada este ano na Espanha. Além de relatar as maluquices da família, Pilar Donoso revela que o pai era bissexual, que, acrescente-se, nada muda em sua literatura, pelo menos substancialmente. Vargas Llosa o retrata como um louco de gênio e garante que seu romance mais ambicioso é “O Obsceno Pássaro da Noite”. 
 
Pepe Donoso era um grande contador de histórias por escrito e oralmente. Relatou, a uma plateia extasiada e assustada, que “uma taratavó atravessava os Andes em uma homérica carroça de mulas, recrutando prostitutas para os bordéis de Santiago, e outra, vítima de uma mania de embrulhar tudo, guardava suas unhas, seus cabelos, as sobras de comida, tudo que não servia mais, em belas caixinhas e sacolas que ocupavam guarda-roupas, armários, cantos, quartos e, por fim, a sua casa inteira”.
 
O personagem “mais sedutor” criador por Donoso é o velho de “El Lugar Sín Limites”, “que, no mundinho de caminhoneiros e capangas seminalfabetos em que vive, se disfarça de moça do povo e sai a dançar flamenco, embora perca a vida com isso”. Vargas Llosa afirma que Donoso escreveu “histórias de maior fôlego e mais complexas”, mas que a história do velho travestido “é a mais acabada de suas narrativas, na qual se encontra mais perfeitamente elaborado aquele mundo tresloucado, neurótico, de rica imaginação literária latino-americano, feita à imagem e semelhança das pulsões e fantasmas mais secretos de seu criador, que ele deixou a seus leitores”.

Mario Vargas Llosa“Sabres e Utopias — Visões da América Latina” (Objetiva, 430 páginas, tradução de Bernardo Ajzenberg), de Mario Vargas Llosa, contém ensaios (alguns textos são mais artigos) sobre Somoza, Pinochet, Lula, Fidel e Raul Castro, Farc, Canudos (que mereceu o romance “A Guerra no Fim do Mundo”), Gabriel García Márquez, Jorge Luis Borges, José Donoso, Cabrera Infante, Jorge Amado, revoluções, nacionalismo, democracia, liberalismo e outros assuntos. As nove páginas do ensaio “Cem Anos de Solidão: O Amadís na América”, sobre a obra-prima de García Márquez, valem o livro. Foi publicado em 1967, em cima da hora, com base na leitura direta, sem nenhuma fortuna crítica a sustentá-lo. Comentarei única e brevemente os textos sobre Jorge Amado, José Donoso e Cabrera Infante.

Jorge Amado era amigo de Vargas Llosa, apesar das diferenças ideológicas. O primeiro era de esquerda e o segundo é liberal. As ideologias não os separaram, porque a amizade e o respeito eram mais fortes. Ao escrever sobre a literatura do amigo, o autor o faz com isenção e perspicácia. Nota que, “em seus romances políticos, um elemento intuitivo, instintivo e vital sempre superava o ideológico e jogava pelos ares os esquemas racionais”. Até certo momento, como em “Cacau” e “O Cavaleiro da Esperança”, biografia romanceada e floreada de Luís Carlos Prestes, Amado fazia uma literatura panfletária, atendendo aos préstimos do realismo socialista.


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POR EM 16/12/2010 ÀS 04:52 PM

Morre a poeta russa que cantou o amor

publicado em

 Bella Akhátovna AkhmadúlinaA poeta russa Bella Akhátovna Akhmadúlina, de 73 anos, morreu no fim de novembro deste ano, com nenhuma repercussão no Brasil, onde certamente é (se é) mais conhecida por ter sido casada com o poeta Ievguêni Ievtuschênko. Em Portugal, sua morte foi noticiada no jornal “Público”. Luís Miguel Queirós conta que o poeta Joseph Brodsky, Nobel de Literatura de 1987, “a classificara como o maior poeta vivo de língua russa”. A ensaísta Sonia I. Ketchian, pesquisadora de Harvard e autora de um livro sobre Izabella (Bella) Akhmadúlina, “diz que” ela “só tem comparação, na poesia russa do século 20, com Anna Akhmátova, Marina Tsvetáieva, Óssip Mandelstam e Boris Pasternak”.  O livro “Poesia Soviética” (Algol Editora, 654 páginas, 2007), com tradução e notas de Lauro Machado Coelho, contém várias poesias de Akhmadúlina. “A ousadia de seus versos a fez ser comparada a Anna Akhmátova e Marina Tsvetáieva — dois nomes da literatura russa pelos quais ela tem verdadeira veneração”, escreve Machado Coelho. Alguns de seus livros (nenhum publicado no Brasil): “Lições de Música” (1969), “Versos” (1975), “Vela” (1977), “Tempestade de Neve” (1977), “Sonhos com a Geórgia” (1979), “Segredo” (1983), “O Jardim” (1987), “O Escrínio e a Chave” (1994), “O Ruído do Silêncio”, “Cadeia de Pedras” (1995), “Os Meus Próprios Versos” (1995), “O Som Guia” (1995) e “Algo em Dezembro” (1996).


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POR EM 13/12/2010 ÀS 08:54 AM

Facebook é a história de um vencedor e de perdedores

publicado em

Mark ZuckerbergOs vencedores sofrem com o ressentimento dos perdedores, que, como são maioria, acabam por se tornar um imenso proletariado. Aqueles que perdem têm de pôr defeitos absurdos e suspeitos naqueles que vencem. Os vencedores se tornaram vencedores porque “roubaram” alguma ideia. Nós, que não somos gênios, no sentido de gênios criativos que se tornam poderosos em termos financeiros (como Bill Gates e Steve Jobs) ou mesmo estéticos (caso de James Joyce), sempre achamos que os que pegaram uma ideia que parecia simples, e estava dando sopa no mercado, e a transformaram numa ideia lucrativa, ou, no caso literário, esteticamente avançada, só podem ter plagiado. É o caso de Mark Zuckerberg, de 26 anos, criador do Facebook, a rede social que mais cresce em todo o mundo — no Brasil ainda perde para o Orkut, mas não por muito tempo.
 
Em Harvard, Zuckerberg era um estudante inquieto, menos dedicado às aulas do que à criação de alguma coisa, qualquer coisa que pudesse revolucionar a comunicação na internet. Desenvolveu algumas ideias, como programador excelente que é, e mexeu com os ânimos numa das melhores universidades do mundo. Um dia, convocado pelos irmãos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss, mais Divya Narendra, Zuckerberg começa a desenvolver uma rede social. Ao perceber que não precisava dos três, desenvolve o Facebook sozinho, com o apoio financeiro do amigo brasileiro Eduardo Saverin, hoje com 28 anos.


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POR EM 07/12/2010 ÀS 08:03 PM

O riso de George Orwell

publicado em

Atlas segurando a Abóboda CelesteNão. Não temos ligações especiais com o além-túmulo ou, se se quiser, com Hades. O jornalista e ensaísta britânico George Orwell e o filósofo alemão Immanuel Kant feliz ou infelizmente não enviam cartas “positivas” ou “negativas” (imagine um médium psicografando a linguagem tortuosa do autor de “Crítica da Razão Pura”!). Portanto, não temos como consultá-los pelo “correio do além”. O laicato e a modéstia do pudor nos impedem de pelo menos tentar... o improvável. Mas é possível examinar algumas de suas ideias, ainda que rapidamente, expostas no romance político-filosófico “1984” (Companhia das Letras, 416 páginas, tradução de Alexandre Hubner e Heloisa Jahn), no qual a imaginação é utilizada como instrumento para entender os totalitarismos nazista e comunista. Kant não é filósofo para ser comentado de modo perfunctório, mas vamos expor, no final do Editorial, uma ou duas ideias de seu livro “À Paz Perpétua” (L&PM, 85 páginas). Não se assuste: Kant é mesmo difícil, muito complexo, mas o opúsculo, muito bem traduzido pelo filósofo Marco Zingano, professor de Filosofia da Universidade de São Paulo, é extremamente acessível e vamos citá-lo “en passant”. Orwell e Kant são convocados, como homens de espírito (no sentido, expliquemos rápido, filosófico), para nos ajudar a entender as revelações do site de vazamento de documentos secretos WikiLeaks, dirigido pelo australiano Julian Assange. No romance “1984”, o socialista George Orwell fez uma das mais agudas e corrosivas interpretações filosóficas do fenômeno totalitário.


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POR EM 28/11/2010 ÀS 01:54 PM

Chico Buarque vale mais como escritor do que Edney Silvestre

publicado em
Quem deveria ter ido para a Academia Brasileira de Letras: o político Juscelino Kubitschek, que não sabia escrever e tinha alguns ghost-writers, ou o escritor Bernardo Élis, que, ao contrário do concorrente, escrevia seus próprios livros? Bernardo Élis, é claro, mereceu ser eleito para a ABL. Porque era o escritor de fato e de direito. Uma vitória de JK teria a ver apenas com política, com um ataque inútil à ditadura civil-militar. Se a ditadura ajudou Élis, palmas para a ditadura: fez a coisa certa.
 
O mesmo ocorre agora. Chico Buarque ou Edney Silvestre: quem deveria ter faturado o Prêmio Jabuti/Livro do Ano de Ficção? Pela lógica, por ter levado o Prêmio Jabuti de Melhor Romance (Chico ficou em segundo lugar), Edney, autor de um único romance, “Se Eu Fechar os Olhos Agora”, e recém-chegado ao “clube” dos escritores, deveria ter sido o premiado. Mas, comparando romance com romance, não há dúvida de que Chico Buarque é muito mais escritor e “Leite Derramado”, que levou o Jabuti de Livro do Ano de Ficção, tem mais qualidades literárias. Edney pode até ser uma promessa, mas seu livro é frágil como romance, mesmo se visto tão-somente como romance policial. Chico, que não me agrada muito como escritor (filho tardio do nouveau roman), é muito mais senhor da forma-romance do que o ótimo repórter global. Então, mesmo errando, o Jabuti premiou o melhor escritor. Houve ingerência político-editorial? É possível. Tanto que, em Portugal, Chico levou o Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010, com o mesmo romance, “Leite Derramado”.
 
Mas quem vai faturar mesmo com a história, depois de tudo, será Edney. Apesar de trabalhar na Globo e de ter arrancado resenhas elogiosas, talvez de críticos que nem leram o livro mas quiseram agradar o simpático global, que sempre entrevista escritores e críticos literários, Edney é um prosador desconhecido, de qualidade discutível, e sua obra certamente seria ignorada. Agora, pelo barulho que fizeram, vai ser lida e o autor vai se tornar tão conhecido quanto Chico. Ele pegou uma boa carona na garupa do escritor-compositor.
 
Depois de ter declarado voto em Dilma Rousseff, não será surpresa se o governo brasileiro apresentar o nome de Chico como candidato ao Prêmio Nobel de Literatura nos próximos quatro anos.
 
Como escritor, Chico continua excelente compositor, superado, talvez, apenas por Noel Rosa. É o gênio mais refinado da música popular brasileira, acima, duas notas, de João Gilberto e Tom Jobim

Chico BuraqueQuem deveria ter ido para a Academia Brasileira de Letras: o político Juscelino Kubitschek, que não sabia escrever e tinha alguns ghost-writers, ou o escritor Bernardo Élis, que, ao contrário do concorrente, escrevia seus próprios livros? Bernardo Élis, é claro, mereceu ser eleito para a ABL. Porque era o escritor de fato e de direito. Uma vitória de JK teria a ver apenas com política, com um ataque inútil à ditadura civil-militar. Se a ditadura ajudou Élis, palmas para a ditadura: fez a coisa certa. 

O mesmo ocorre agora. Chico Buarque ou Edney Silvestre: quem deveria ter faturado o Prêmio Jabuti/Livro do Ano de Ficção? Pela lógica, por ter levado o Prêmio Jabuti de Melhor Romance (Chico ficou em segundo lugar), Edney, autor de um único romance, “Se Eu Fechar os Olhos Agora”, e recém-chegado ao “clube” dos escritores, deveria ter sido o premiado. Mas, comparando romance com romance, não há dúvida de que Chico Buarque é muito mais escritor e “Leite Derramado”, que levou o Jabuti de Livro do Ano de Ficção, tem mais qualidades literárias. Edney pode até ser uma promessa, mas seu livro é frágil como romance, mesmo se visto tão-somente como romance policial. Chico, que não me agrada muito como escritor (filho tardio do nouveau roman), é muito mais senhor da forma-romance do que o ótimo repórter global. Então, mesmo errando, o Jabuti premiou o melhor escritor. Houve ingerência político-editorial? É possível. Tanto que, em Portugal, Chico levou o Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2010, com o mesmo romance, “Leite Derramado”. Mas quem vai faturar mesmo com a história, depois de tudo, será Edney. Apesar de trabalhar na Globo e de ter arrancado resenhas elogiosas, talvez de críticos que nem leram o livro mas quiseram agradar o simpático global, que sempre entrevista escritores e críticos literários, Edney é um prosador desconhecido, de qualidade discutível, e sua obra certamente seria ignorada. Agora, pelo barulho que fizeram, vai ser lida e o autor vai se tornar tão conhecido quanto Chico. Ele pegou uma boa carona na garupa do escritor-compositor. 


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