Púchkin: o Dom Casmurro da Rússia
Há uma preciosidade no mercado: “O Botão de Púchkin” (o título, aparentemente medonho, tem explicação, que não vou revelar), de Serena Vitale (Editora Record, 416 páginas). O livro da scholar italiana não é uma biografia de Púchkin (optei por manter o acento, como fazem Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra, tradutores do russo do primeiro time), maior poeta russo, e, sim, um relato de seus últimos dias. Púchkin morreu em duelo com o francês Georges Charles d’Anthès, em 1837, aos 37 anos. O poeta bateu-se com d’Anthès porque cartas anônimas distribuídas a vários de seus amigos revelaram que o cavaleiro da guarda russa tinha um caso, ou quase, com sua mulher, Natália Puchkina.
Para evitar o duelo, d’Anthès casou-se com uma irmã de Natália, Ekaterina. Púchkin desistiu de bater-se com o oficial, mas, acreditando que as cartas anônimas haviam sido escritas pelo embaixador holandês Jacob van Heeckeren, pai adotivo (e, talvez, amante) de d’Anthès, decidiu desafiá-lo. D’Anthès assumiu as dores do pai-amante e decidiu aceitar a disputa. Ele atirou primeiro e feriu mortalmente Púchkin. Este também atirou, mas d’Anthès saiu praticamente ileso. Voltou para a França, onde morreu, senador e rico, em 1895. Serena Vitale é uma pesquisadora infatigável, mas, ao contrário de muitos acadêmicos, escreve muitíssimo bem, o que significa que seu texto é preciso, sem muletas como “em última instância” e “no bojo”. “Botão de Púchkin” é livro acadêmico, em termos de pesquisa exaustiva, mas escrito quase como um romance policial. Trata-se de uma investigação policial, judicial e históri(c)a de primeira grandeza. Não se trata de um exame da obra do poeta.
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“Dossiê Moscou” (Geração Editorial, 234 páginas), de Geneton Moraes Neto, parece, à primeira vista, apenas mais um livro de reportagens. Não é. Trata-se, isto sim, de um excelente livro de história, de um pesquisador que é repórter, vazado num tom delicioso, nada acadêmico, mas fadado a contribuir com as pesquisas sobre a extinta União Soviética. Neste texto detenho-me não no núcleo do livro, mas numa história, digamos, periférica: Geneton entrevistou o espião que articulou o assassinato de Trotski — o “stalinista renitente” Pavel Sudoplatov. A entrevista, por escrito, mesmo sem possibilidade de o jornalista retrucar e reposicionar uma questão, é muito boa.
Se o sexo é o maior tormento humano, o poder, como notou Henry Kissinger, é afrodisíaco. Na fleumática Inglaterra, os jornais há muito perceberam que não se pode dissociar vida privada de vida pública, sobretudo quando está em jogo as “grandes” vidas públicas (atores, políticos, empresários, família imperial). Talvez os jornalistas ingleses estejam obedecendo à psicanálise — e, claro, ao mercado (os jornais vendem como água mineral) — que não dissocia a vida, a biografia, das obras (as ações) dos homens. John Kennedy atribuía seu vigor político ao insaciável fôlego sexual (Bill Clinton era neném perto de Kennedy). O presidente norte-americano era priápico, como o ex-senador Bernardo Cabral, ex-amante da economista Zélia Cardoso de Mello, ministra da Economia do governo de Fernando Collor, e como o presidente Juscelino Kubitschek. No Brasil, ao contrário da Inglaterra e dos Estados Unidos, a imprensa, embora também goste de sensacionalismo, é pudica em assuntos sexuais. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek tiveram várias amantes, mas praticamente não há registro, em livros específicos, sobre o que faziam nas alcovas. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve um filho com a jornalista Miriam Dutra, mas a mídia finge, até hoje, que o sociólogo é um santo. Somos puritanos. Não na prática, mas pelo menos em termos de jornais.
A escritora Margaret Atwood, no livro “Buscas Curiosas” (Rocco, 432 páginas, tradução de Ana Deiró), recolhe uma frase de Alice Munro sobre a escritora canadense Carol Shields: “Era uma pessoa luminosa”. Atwood é precisa: “A vida humana é uma massa de estatística, apenas para os estatísticos: o resto de nós vive em um mundo de indivíduos, e a maioria deles não é proeminente. Suas alegrias, entretanto, são plenamente jubilosas, e suas perdas e sofrimentos são reais. O caráter extraordinário de pessoas comuns era o forte de Shields, que alcançou sua mais plena expressão nas novelas ‘Swann’ [Record, 384 páginas], ‘The Republic of Love’ e, especialmente, ‘Os Diários de Pedra’ [Record, 364 páginas].
Em “Os Intelectuais” (Editora Imago), o historiador inglês Paul Johnson faz um retrato nada lisonjeiro de Jean-Paul Sartre, o filósofo e escritor francês. Os críticos de Johnson dizem que, ao seu radicalismo acusatório, falta nuance. A nuance agora pode ser vista no livro “Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra” (Editora Nova Fronteira, 475 páginas), do historiador inglês Tony Judt. Este, por sinal, não cita Johnson. Não se trata, devido ao tema, apenas de um livro de história. É uma reflexão histórico-filosófica de um especialista com multifacetada formação cultural. Os que avaliam que Johnson trata Sartre com extrema grosseria vão ficar surpresos. Diferentemente de Johnson, que bate muito mas nem sempre documenta corretamente sua opinião, Judt é extremamente judicioso. Ele mostra detalhadamente como Sartre aderiu e justificou o stalinismo. Pensadores hoje mais cortejados, como Merleau-Ponty, também não saem muito bem do livro. Os heróis, mas matizados, são Albert Camus, François Mauriac e Raymond Aron.
Mesmo repórteres experimentados têm dificuldade para explicar o regime totalitário de Cuba. O correspondente do “El País” em Havana, Mauricio Vicent, publicou ótima reportagem sobre Fidel Castro no domingo, 8, mas, como muitos outros jornalistas, não interpreta com precisão o funcionamento do sistema comunista. Traduzo e comento alguns trechos de seu texto, expandindo aquilo que mostra e discute de modo superficial. Mauricio Vicent construiu sua longa reportagem, “Vida secreta de Fidel Castro”, baseado quase que exclusivamente em fontes anônimas, o que é natural, pois os cubanos, mesmo autoridades graduadas, temem dizer qualquer coisa a respeito do chefão; o que parece agradar pode desagradar. A intimidade e a saúde do Al Capone da esquerda são segredo de Estado. “Hoje”, diz uma fonte anônima, Fidel “verdadeiramente está fora do poder, dedicado às grandes estratégias e aos problemas mundiais”. Se está fora do poder, como aceita o repórter do principal jornal espanhol, como pode se dedicar “às grandes estratégias”? Elabora estratégias para quem? Para o regime do qual é tutor. Na “ausência” do imperador, Raúl Castro, o irmão Débil & Loide, é no máximo regente.
O notável historiador marxista Eric Hobsbawm avalia que, depois da “libertinagem” capitalista, decorrente da “morte” do socialismo, é provável que a vaga socialista volte, e, quem sabe, com certa força. Mas possivelmente com outro matiz. O encanecido Hobsbawm (bombardeado por Tony Judt, há pouco tempo, por não reconhecer os crimes do stalinismo com a devida correção; o livro de Judt, “O Século XX Esquecido — Lugares e Memórias”, foi editado em Portugal e merece uma edição brasileira) disse isto antes do vendaval Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Lula é um caso específico. Mas o socialismo de Chávez pouco tem a ver com o socialismo clássico, porque seu partido é uma ficção. Pouco tem a ver com o partido leninista-comunista. O poder está “assentado” na figura de Chávez, tanto que, se morrer, o “sistema Chávez” desmorona. O regime chavista é, mais do que socialista, nacionalista, mais próximo do peronismo... com a diferença do petróleo. Porque o petróleo é o sangue que movimenta as diabruras e inconseqüências do líder venezuelano. O petróleo é a Bolsa Família do governo da Venezuela. O governo de Correa é mais inconsistente do que o de Chávez e, sem Chávez para emulá-lo, possivelmente seria uma ficção. O de Morales, nem se fala. Golpes à vista. Assassinatos no horizonte. Na Venezuela, no Equador e na Bolívia. É só esperar.
“Minha Fama de Mau” (Objetiva, 357 páginas), de Erasmo Carlos, não é uma história didaticamente precisa do próprio cantor, de sua parceria com Roberto Carlos e da Jovem Guarda. É uma colagem de recortes escrita com humor e língua afiada. Um relato divertido de encontros com alguns artistas. Leitores exigentes esperavam mais do compositor preferido do rei da música brasileira, Roberto Carlos.
O editor-chefe da revista “New Yorker”, David Remnick, escreve perfis do balacobaco e tem sido imitado, às vezes com certo brilho, pelos escribas da revista “Piauí”, como João Moreira Salles. Seus escritos são verdadeiras aulas de bom jornalismo. Do jornalismo sem pressa, detalhista, próximo da literatura. Sua competência com palavras e temas pode ser verificada no livro “Dentro da Floresta — Perfis e Outros Escritos da revista The New Yorker” (Companhia das Letras, 575 páginas, tradução de Álvaro Hattnher, Celso Nogueira e Ivo Korytowski).
Poucos países têm uma música tão multifacetada quanto o Brasil. Uma lista mínima: Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, Villa-Lobos, Bidu Sayão, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso, Ary Barroso, Ataulpho Alves, Francisco Alves, Orlando Silva, Mário Reis, Pixinguinha, Dorival Caymmi, João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina, Gal Costa, Roberto Carlos, Caetano Veloso e Chico Buarque. Ao ler a introdução do livro “Nem Vem Que Não Tem — A Vida e o Veneno de Wilson Simonal” (Globo, 390 páginas), do jornalista Ricardo Alexandre, fica-se sabendo que os artistas citados não têm a mínima importância. Leia a barbaridade que Ricardo Alexandre escreveu sobre Wilson Simonal (página 11): “Talvez o mais completo, certamente o mais simbólico artista que o Brasil já viu — e que, de repente, não quis mais ver”. Na página 30, num acesso de loucura e estultice explícitas, o biógrafo sugere que Simonal é o ponto de chegada da Bossa Nova e do rock’n’roll tropical.