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POR EM 23/11/2009 ÀS 11:27 PM

Púchkin: o Dom Casmurro da Rússia

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O Botão de PúchkinHá uma preciosidade no mercado: “O Botão de Púchkin” (o título, aparentemente medonho, tem explicação, que não vou revelar), de Serena Vitale (Editora Record, 416 páginas). O livro da scholar italiana não é uma biografia de Púchkin (optei por manter o acento, como fazem Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra, tradutores do russo do primeiro time), maior poeta russo, e, sim, um relato de seus últimos dias.  Púchkin morreu em duelo com o francês Georges Charles d’Anthès, em 1837, aos 37 anos. O poeta bateu-se com d’Anthès porque cartas anônimas distribuídas a vários de seus amigos revelaram que o cavaleiro da guarda russa tinha um caso, ou quase, com sua mulher, Natália Puchkina. 

Para evitar o duelo, d’Anthès casou-se com uma irmã de Natália, Ekaterina. Púchkin desistiu de bater-se com o oficial, mas, acreditando que as cartas anônimas haviam sido escritas pelo embaixador holandês Jacob van Heeckeren, pai adotivo (e, talvez, amante) de d’Anthès, decidiu desafiá-lo.  D’Anthès assumiu as dores do pai-amante e decidiu aceitar a disputa. Ele atirou primeiro e feriu mortalmente Púchkin. Este também atirou, mas d’Anthès saiu praticamente ileso. Voltou para a França, onde morreu, senador e rico, em 1895.  Serena Vitale é uma pesquisadora infatigável, mas, ao contrário de muitos acadêmicos, escreve muitíssimo bem, o que significa que seu texto é preciso, sem muletas como “em última instância” e “no bojo”. “Botão de Púchkin” é livro acadêmico, em termos de pesquisa exaustiva, mas escrito quase como um romance policial. Trata-se de uma investigação policial, judicial e históri(c)a de primeira grandeza. Não se trata de um exame da obra do poeta. 


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POR EM 21/11/2009 ÀS 04:27 PM

Geneton Moraes Neto entrevista espião que articulou assassinato de Trotski

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Dossiê Moscou, de Geneton Moraes Neto“Dossiê Moscou” (Geração Editorial, 234 páginas), de Geneton Moraes Neto, parece, à primeira vista, apenas mais um livro de reportagens. Não é. Trata-se, isto sim, de um excelente livro de história, de um pesquisador que é repórter, vazado num tom delicioso, nada acadêmico, mas fadado a contribuir com as pesquisas sobre a extinta União Soviética. Neste texto detenho-me não no núcleo do livro, mas numa história, digamos, periférica: Geneton entrevistou o espião que articulou o assassinato de Trotski — o “stalinista renitente” Pavel Sudoplatov. A entrevista, por escrito, mesmo sem possibilidade de o jornalista retrucar e reposicionar uma questão, é muito boa. 

O primeiro contato de Geneton foi com Anatoli Sudoplatov, filho de Pavel. “O filho do agente da KGB [prefiro do KGB — o “K” significa comitê] que armou o plano para matar o então dissidente Leon Trotski se irrita comigo porque insisto em perguntar se ele não ficava chocado ao saber do envolvimento do pai em assassinatos políticos. Não, não ficara. O filho do homem estranha meu espanto. Por que diabos ele ficaria chocado? Aquilo era uma guerra ideológica. Não havia lugar para sentimentalismos inocentes”, escreve Geneton. 

Sabe-se que o articulador principal da morte de Trotski foi Beria (o mesmo que deixou Stálin morrer como um porco, mas caiu em desgraça logo depois), imediato do poderoso chefão Stálin. A fonte de Geneton não é apenas a entrevista, muito curta, de Pavel Sudoplatov; ele cita a biografia de Trotski (inédita em português) escrita pelo historiador Dmitri Volkogonov (autor da biografia “Stálin — Triunfo e Tragédia”, publicada pela Nova Fronteira). A informação relevante é que o dirigente do KGB “recebeu pessoalmente de Stálin a ordem para executar a Operação Trotski”. Isto mostra a importância de Pavel e que Stálin articulava os assassinatos em nível bem pessoal. Pavel foi levado a Stálin por Beria. “Se o fiel [Jaime Ramón] Mercader [del Rio Hernandez] foi a face visível de um dos mais famosos atentados políticos do século, Pavel Sudoplatov foi a mão invisível. O nome Sudoplatov ficou na sombra até a derrocada do regime comunista. Somente aí começou a ser citado em jornais de Moscou. O mistério começou a se desfazer quando o nome de Sudoplatov foi citado em dezenove páginas na biografia de Trotski escrita por Dmitri Volkogonov”, conta Geneton. 


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POR EM 18/11/2009 ÀS 08:24 PM

A Vida Sexual dos Ditadores

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A Vida Sexual dos DitadoresSe o sexo é o maior tormento humano, o poder, como notou Henry Kissinger, é afrodisíaco. Na fleumática Inglaterra, os jornais há muito perceberam que não se pode dissociar vida privada de vida pública, sobretudo quando está em jogo as “grandes” vidas públicas (atores, políticos, empresários, família imperial). Talvez os jornalistas ingleses estejam obedecendo à psicanálise — e, claro, ao mercado (os jornais vendem como água mineral) — que não dissocia a vida, a biografia, das obras (as ações) dos homens. John Kennedy atribuía seu vigor político ao insaciável fôlego sexual (Bill Clinton era neném perto de Kennedy). O presidente norte-americano era priápico, como o ex-senador Bernardo Cabral, ex-amante da economista Zélia Cardoso de Mello, ministra da Economia do governo de Fernando Collor, e como o presidente Juscelino Kubitschek. No Brasil, ao contrário da Inglaterra e dos Estados Unidos, a imprensa, embora também goste de sensacionalismo, é pudica em assuntos sexuais. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek tiveram várias amantes, mas praticamente não há registro, em livros específicos, sobre o que faziam nas alcovas. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve um filho com a jornalista Miriam Dutra, mas a mídia finge, até hoje, que o sociólogo é um santo. Somos puritanos. Não na prática, mas pelo menos em termos de jornais.

Já que no Brasil, em virtude do poder excessivo dos governantes (há uma espécie de “ditadura democrática”, ou democradura), não se pode falar da sexualidade dos políticos — “sexo é baixaria”, dizem, na teoria, “os agredidos” —, as editoras apostam nas alcovas de outros países. É o que faz a Prestígio Editorial, responsável por “A Vida Sexual dos Ditadores” (318 páginas), do jornalista inglês Nigel Cawthorne. O livro é sensacionalista e isto é um alerta para o leitor. Ressalve-se que algumas histórias — e vou citar aqui apenas as menos conhecidas, a dos ditadores de esquerda, que sempre são protegidos pela mídia — podem ser confirmadas por alguns livros de pesquisadores sérios, como Richard Pipes, autor de “História Concisa da Revolução Russa”. Cawthorne analisa a vida sexual de Napoleão, Lênin, Stálin, Mussolini, Hitler, Mao Tsé-tung, Fidel Castro, Juan Perón, Ferdinando Marcos, Idi Amin e Saddam Hussein.


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POR EM 17/11/2009 ÀS 05:13 PM

Carol Shields: o comum é incomum

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A escritora Margaret Atwood, no livro “Buscas Curiosas” (Rocco, 432 páginas, tradução de Ana Deiró), recolhe uma frase de Alice Munro sobre a escritora canadense Carol Shields: “Era uma pessoa luminosa”. Atwood é precisa: “A vida humana é uma massa de estatística, apenas para os estatísticos: o resto de nós vive em um mundo de indivíduos, e a maioria deles não é proeminente. Suas alegrias, entretanto, são plenamente jubilosas, e suas perdas e sofrimentos são reais. O caráter extraordinário de pessoas comuns era o forte de Shields, que alcançou sua mais plena expressão nas novelas ‘Swann’ [Record, 384 páginas], ‘The Republic of Love’ e, especialmente, ‘Os Diários de Pedra’ [Record, 364 páginas].


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POR EM 16/11/2009 ÀS 06:10 PM

Historiador denuncia canalhice intelectual do filósofo Sartre

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Passado ImperfeitoEm “Os Intelectuais” (Editora Imago), o historiador inglês Paul Johnson faz um retrato nada lisonjeiro de Jean-Paul Sartre, o filósofo e escritor francês. Os críticos de Johnson dizem que, ao seu radicalismo acusatório, falta nuance. A nuance agora pode ser vista no livro “Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra” (Editora Nova Fronteira, 475 páginas), do historiador inglês Tony Judt. Este, por sinal, não cita Johnson. Não se trata, devido ao tema, apenas de um livro de história. É uma reflexão histórico-filosófica de um especialista com multifacetada formação cultural. Os que avaliam que Johnson trata Sartre com extrema grosseria vão ficar surpresos. Diferentemente de Johnson, que bate muito mas nem sempre documenta corretamente sua opinião, Judt é extremamente judicioso. Ele mostra detalhadamente como Sartre aderiu e justificou o stalinismo. Pensadores hoje mais cortejados, como Merleau-Ponty, também não saem muito bem do livro. Os heróis, mas matizados, são Albert Camus, François Mauriac e Raymond Aron.

Mesmo Camus teve seus momentos de justificar o socialismo soviético, mas já em 1948, quando Sartre continuava apaixonado pelo stalinismo, fazia sua autocrítica. Em 1952, replicando Camus, Sartre escreveu: "Nós podemos ficar indignados ou horrorizados diante da existência desses campos [de concentração soviéticos]; nós podemos até ficar obcecados por eles, mas por que eles deveriam nos constranger?" Mais tarde, em 1973, o maoísta Sartre ainda é mais "coerente": "Um regime revolucionário deve descartar um certo número de indivíduos que o ameaçam, e não vejo outro meio para isso, a não ser a morte. Sair de uma prisão sempre é possível. Os revolucionários de 1793 provavelmente não mataram o suficiente". Antes, em 1950, Sartre distorcia a história: "Eu procurei, mas não consigo encontrar qualquer evidência de um impulso agressivo por parte dos russos nas últimas três décadas". Camus, em 1949, escreveu: "Uma das coisas que lamento é ter feito concessões demais à objetividade. A objetividade é, às vezes, uma acomodação. Hoje, as coisas estão claras, e temos que chamar de ‘concentracional’ o que o é, mesmo que se trate do socialismo. Em um certo sentido, eu nunca mais serei polido". Camus se arrependia, publicamente, de ter sido cordeiro dos comunistas.


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POR EM 16/11/2009 ÀS 02:34 PM

Jornalistas raramente entendem o regime totalitário de Cuba

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Fidel CastroMesmo repórteres experimentados têm dificuldade para explicar o regime totalitário de Cuba. O correspondente do “El País” em Havana, Mauricio Vicent, publicou ótima reportagem sobre Fidel Castro no domingo, 8, mas, como muitos outros jornalistas, não interpreta com precisão o funcionamento do sistema comunista. Traduzo e comento alguns trechos de seu texto, expandindo aquilo que mostra e discute de modo superficial. Mauricio Vicent construiu sua longa reportagem, “Vida secreta de Fidel Castro”, baseado quase que exclusivamente em fontes anônimas, o que é natural, pois os cubanos, mesmo autoridades graduadas, temem dizer qualquer coisa a respeito do chefão; o que parece agradar pode desagradar. A intimidade e a saúde do Al Capone da esquerda são segredo de Estado. “Hoje”, diz uma fonte anônima, Fidel “verdadeiramente está fora do poder, dedicado às grandes estratégias e aos problemas mundiais”. Se está fora do poder, como aceita o repórter do principal jornal espanhol, como pode se dedicar “às grandes estratégias”? Elabora estratégias para quem? Para o regime do qual é tutor. Na “ausência” do imperador, Raúl Castro, o irmão Débil & Loide, é no máximo regente.

Embora não tenha conseguido entrar na casa de Fidel, Mauricio Vicent colheu informações detalhadas. “Punto Cero [Ponto Zero] é o nome para designar o lugar da residência de Fidel.” O chefão “aposentado” e sua mulher, Dalia Soto del Valle, com quem tem cinco filhos, moram numa casa de quatro quartos, com piscina (luxo em Cuba) e amplo jardim. Nas casas próximas moram filhos, noras e netos. O “sultão comunista” teme ser morto e é protegido 24 horas por dia. Paranoico, costuma dizer que é vigiado, até quando vai ao jardim, por satélites espiões americanos.


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POR EM 12/11/2009 ÀS 10:18 PM

As ideologias são dráculas

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JudtO notável historiador marxista Eric Hobsbawm avalia que, depois da “libertinagem” capitalista, decorrente da “morte” do socialismo, é provável que a vaga socialista volte, e, quem sabe, com certa força. Mas possivelmente com outro matiz. O encanecido Hobsbawm (bombardeado por Tony Judt, há pouco tempo, por não reconhecer os crimes do stalinismo com a devida correção; o livro de Judt, “O Século XX Esquecido — Lugares e Memórias”, foi editado em Portugal e merece uma edição brasileira) disse isto antes do vendaval Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Lula é um caso específico. Mas o socialismo de Chávez pouco tem a ver com o socialismo clássico, porque seu partido é uma ficção. Pouco tem a ver com o partido leninista-comunista. O poder está “assentado” na figura de Chávez, tanto que, se morrer, o “sistema Chávez” desmorona. O regime chavista é, mais do que socialista, nacionalista, mais próximo do peronismo... com a diferença do petróleo. Porque o petróleo é o sangue que movimenta as diabruras e inconseqüências do líder venezuelano. O petróleo é a Bolsa Família do governo da Venezuela. O governo de Correa é mais inconsistente do que o de Chávez e, sem Chávez para emulá-lo, possivelmente seria uma ficção. O de Morales, nem se fala. Golpes à vista. Assassinatos no horizonte. Na Venezuela, no Equador e na Bolívia. É só esperar. 


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POR EM 11/11/2009 ÀS 09:44 PM

Os melhores amigos do compositor e cantor Erasmo Carlos

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Minha Fama de Mau“Minha Fama de Mau” (Objetiva, 357 páginas), de Erasmo Carlos, não é uma história didaticamente precisa do próprio cantor, de sua parceria com Roberto Carlos e da Jovem Guarda. É uma colagem de recortes escrita com humor e língua afiada. Um relato divertido de encontros com alguns artistas. Leitores exigentes esperavam mais do compositor preferido do rei da música brasileira, Roberto Carlos.

No capítulo “Meu segundo melhor amigo” (páginas 136, 137 e 138), Erasmo conta que ele e Roberto Carlos foram ao banheiro de um bistrô, em Los Angeles, e, quando dirigiu a mão para a maçaneta da porta, foi “impedido por Roberto, que abriu usando o ombro”. Sua justificativa: “Erasmo, evite sempre pegar em maçanetas de banheiro público. É um perigo, bicho. Tem micróbios de todo tipo”. Calado, Erasmo encaminhou-se para o mictório. “Roberto foi para a pia lavar as mãos, tendo o cuidado de antes pegar papel higiênico para abrir a torneira. Ao ver a pia do lado vazia e perceber que eu não o acompanhara, perguntou: ‘Bicho, você não lava as mãos para pegar no seu piru?’” O compositor, ao responder que não, foi advertido: “Mas deve lavar, meu irmão. Os médicos não se cansam de dizer que os órgãos sexuais masculinos e femininos são muito sensíveis a infecções, por isso sempre recomendam o máximo de higiene. Não custa nada você fazer isso, é uma questão de preservação do corpo. Se é que você gosta do seu corpo”.


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POR EM 09/11/2009 ÀS 07:10 PM

Editor da revista New Yorker mostra por qual razão Lennox Lewis nocauteou Mike Tyson

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Dentro da Floresta — Perfis e Outros Escritos da revista The New YorkerO editor-chefe da revista “New Yorker”, David Remnick, escreve perfis do balacobaco e tem sido imitado, às vezes com certo brilho, pelos escribas da revista “Piauí”, como João Moreira Salles. Seus escritos são verdadeiras aulas de bom jornalismo. Do jornalismo sem pressa, detalhista, próximo da literatura. Sua competência com palavras e temas pode ser verificada no livro “Dentro da Floresta — Perfis e Outros Escritos da revista The New Yorker” (Companhia das Letras, 575 páginas, tradução de Álvaro Hattnher, Celso Nogueira e Ivo Korytowski).

Os textos sobre Philip Roth, Don DeLillo, Soljenitsyn, Tony Blair, Vladímir Putin, Natan Sharansky e Amóz Oz são antológicos. O melhor são as 25 páginas de “As guerras da tradução”, no qual Remnick apresenta questiúnculas das traduções do russo para o inglês. A parte mais chamativa mostra a guerra entre o crítico norte-americano Edmund Wilson e o escritor russo Vladimir Nabokov. Embora não dominasse tanto o russo, Wilson disse que a tradução de “Eugene Onegin” (de Púchkin), feita por Nabokov, era ruim. Wilson não se deu por vencido, mas o autor de “Lolita” tinha razão. A polêmica é muito bem descrita no livro “Edmund Wilson — Uma Vida” (Civilização Brasileira, 681 páginas), de Jeffrey Meyers.

Um dos perfis, “O moralista: Lennox Lewis”, não é uma obra-prima, mas mostra a competência de Remnick, especialista em boxe, autor de uma biografia de Mohammad Ali. O inglês Lennox Lewis, campeão dos pesos-pesados, deixou o pugilismo porque não tinha mais adversários à altura. Faltava motivação. Sua melhor luta não foi contra Mike Tyson, porém, como mais famosa, é a ela que o jornalista dedica 14 páginas (poucos jornalistas, exceto na “New Yorker” e na “Piauí”, têm tanto espaço para contar suas histórias).


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POR EM 08/11/2009 ÀS 10:29 PM

O biógrafo que nasceu em Marte

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A Vida e o Veneno de Wilson SimonalPoucos países têm uma música tão multifacetada quanto o Brasil. Uma lista mínima: Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, Villa-Lobos, Bidu Sayão, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso, Ary Barroso, Ataulpho Alves, Francisco Alves, Orlando Silva, Mário Reis, Pixinguinha, Dorival Caymmi, João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina, Gal Costa, Roberto Carlos, Caetano Veloso e Chico Buarque. Ao ler a introdução do livro “Nem Vem Que Não Tem — A Vida e o Veneno de Wilson Simonal” (Globo, 390 páginas), do jornalista Ricardo Alexandre, fica-se sabendo que os artistas citados não têm a mínima importância. Leia a barbaridade que Ricardo Alexandre escreveu sobre Wilson Simonal (página 11): “Talvez o mais completo, certamente o mais simbólico artista que o Brasil já viu — e que, de repente, não quis mais ver”. Na página 30, num acesso de loucura e estultice explícitas, o biógrafo sugere que Simonal é o ponto de chegada da Bossa Nova e do rock’n’roll tropical.

Ricardo Alexandre deve ter nascido em Marte, com mestrado em Vênus e doutorado na Lua. Wilson Simonal não é tão ruim quanto passou a pintar a esquerda, que o acusa de ter dedurado colegas, mas não é, nem de longe nem de perto, “o mais completo artista que o Brasil já viu”. Não tenho simpatia por delatores, mas, se Simonal entregou a esquerda, contribuindo para evitar a instalação de uma “ditadura contra o proletariado” no país, perdoo-o, desde já — sem nenhum receio de patrulhamento bestialógico da esquerda.


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