Diretor do Estadão diz que até Jesus Cristo seria “corrupto” no Judiciário
O jornalista Fernão Lara Mesquista, do Conselho de Administração de “O Estado de S. Paulo”, concedeu entrevista à revista “Imprensa” na qual analisa a censura judicial ao jornal no caso da Operação Boi Barrica (ou Faktor). Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney, foi investigado pela Polícia Federal, o jornal tem informações de interesse público, mas não pode publicá-las. Fernando Sarney recorreu à Justiça e um desembargador de Brasília, amigo de sua família, decidiu censurar a publicação. O “Estadão” recorreu ao Supremo Tribunal Federal e Fernando Sarney fez o mesmo, para evitar a divulgação das denúncias.
Sobre a “intervenção legalizada”, quando o magistrado faz o papel de censor, Mesquita diz: “Antes você tinha um estranho [o censor] que, por uma série de acasos, entrava no sistema e todo o resto do sistema resistia a ele. Agora eles são todos iguais e atacam em bando. O Judiciário sempre é, mesmo nas democracias mais maduras, a peça que consolida o grupo que está no poder e cria regras para dificultar a mudança. Se você pusesse Jesus Cristo como juiz aqui, ele estava corrompido em seis meses. Um cara que tem esse poder é impossível que não se corrompa. Impossível. E se você tem um sistema judicial corrupto, o resto é insegurável. A única instituição que pode operar um milagre é a imprensa”. Se a imprensa, é lógico, quiser.
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O jornalista Ricardo Alexandre não é trouxa nem louco, mas é, possivelmente, “aluado”. Porque só com muita coragem ou desfaçatez, ao estilo do presidente Lula, para dizer a diatribe a seguir: “Talvez Simonal seja continuamente redescoberto como o maior cantor da história do Brasil”. A maluquice, ou ataque de juveniilismo, está na página 335 da hagiografia “Nem Vem Que Não Tem — A Vida e O Veneno de Wilson Simonal” (Globo, 390 páginas).
Há uma preciosidade no mercado: “O Botão de Púchkin” (o título, aparentemente medonho, tem explicação, que não vou revelar), de Serena Vitale (Editora Record, 416 páginas). O livro da scholar italiana não é uma biografia de Púchkin (optei por manter o acento, como fazem Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra, tradutores do russo do primeiro time), maior poeta russo, e, sim, um relato de seus últimos dias. Púchkin morreu em duelo com o francês Georges Charles d’Anthès, em 1837, aos 37 anos. O poeta bateu-se com d’Anthès porque cartas anônimas distribuídas a vários de seus amigos revelaram que o cavaleiro da guarda russa tinha um caso, ou quase, com sua mulher, Natália Puchkina.
“Dossiê Moscou” (Geração Editorial, 234 páginas), de Geneton Moraes Neto, parece, à primeira vista, apenas mais um livro de reportagens. Não é. Trata-se, isto sim, de um excelente livro de história, de um pesquisador que é repórter, vazado num tom delicioso, nada acadêmico, mas fadado a contribuir com as pesquisas sobre a extinta União Soviética. Neste texto detenho-me não no núcleo do livro, mas numa história, digamos, periférica: Geneton entrevistou o espião que articulou o assassinato de Trotski — o “stalinista renitente” Pavel Sudoplatov. A entrevista, por escrito, mesmo sem possibilidade de o jornalista retrucar e reposicionar uma questão, é muito boa.
Se o sexo é o maior tormento humano, o poder, como notou Henry Kissinger, é afrodisíaco. Na fleumática Inglaterra, os jornais há muito perceberam que não se pode dissociar vida privada de vida pública, sobretudo quando está em jogo as “grandes” vidas públicas (atores, políticos, empresários, família imperial). Talvez os jornalistas ingleses estejam obedecendo à psicanálise — e, claro, ao mercado (os jornais vendem como água mineral) — que não dissocia a vida, a biografia, das obras (as ações) dos homens. John Kennedy atribuía seu vigor político ao insaciável fôlego sexual (Bill Clinton era neném perto de Kennedy). O presidente norte-americano era priápico, como o ex-senador Bernardo Cabral, ex-amante da economista Zélia Cardoso de Mello, ministra da Economia do governo de Fernando Collor, e como o presidente Juscelino Kubitschek. No Brasil, ao contrário da Inglaterra e dos Estados Unidos, a imprensa, embora também goste de sensacionalismo, é pudica em assuntos sexuais. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek tiveram várias amantes, mas praticamente não há registro, em livros específicos, sobre o que faziam nas alcovas. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso teve um filho com a jornalista Miriam Dutra, mas a mídia finge, até hoje, que o sociólogo é um santo. Somos puritanos. Não na prática, mas pelo menos em termos de jornais.
A escritora Margaret Atwood, no livro “Buscas Curiosas” (Rocco, 432 páginas, tradução de Ana Deiró), recolhe uma frase de Alice Munro sobre a escritora canadense Carol Shields: “Era uma pessoa luminosa”. Atwood é precisa: “A vida humana é uma massa de estatística, apenas para os estatísticos: o resto de nós vive em um mundo de indivíduos, e a maioria deles não é proeminente. Suas alegrias, entretanto, são plenamente jubilosas, e suas perdas e sofrimentos são reais. O caráter extraordinário de pessoas comuns era o forte de Shields, que alcançou sua mais plena expressão nas novelas ‘Swann’ [Record, 384 páginas], ‘The Republic of Love’ e, especialmente, ‘Os Diários de Pedra’ [Record, 364 páginas].
Em “Os Intelectuais” (Editora Imago), o historiador inglês Paul Johnson faz um retrato nada lisonjeiro de Jean-Paul Sartre, o filósofo e escritor francês. Os críticos de Johnson dizem que, ao seu radicalismo acusatório, falta nuance. A nuance agora pode ser vista no livro “Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra” (Editora Nova Fronteira, 475 páginas), do historiador inglês Tony Judt. Este, por sinal, não cita Johnson. Não se trata, devido ao tema, apenas de um livro de história. É uma reflexão histórico-filosófica de um especialista com multifacetada formação cultural. Os que avaliam que Johnson trata Sartre com extrema grosseria vão ficar surpresos. Diferentemente de Johnson, que bate muito mas nem sempre documenta corretamente sua opinião, Judt é extremamente judicioso. Ele mostra detalhadamente como Sartre aderiu e justificou o stalinismo. Pensadores hoje mais cortejados, como Merleau-Ponty, também não saem muito bem do livro. Os heróis, mas matizados, são Albert Camus, François Mauriac e Raymond Aron.
Mesmo repórteres experimentados têm dificuldade para explicar o regime totalitário de Cuba. O correspondente do “El País” em Havana, Mauricio Vicent, publicou ótima reportagem sobre Fidel Castro no domingo, 8, mas, como muitos outros jornalistas, não interpreta com precisão o funcionamento do sistema comunista. Traduzo e comento alguns trechos de seu texto, expandindo aquilo que mostra e discute de modo superficial. Mauricio Vicent construiu sua longa reportagem, “Vida secreta de Fidel Castro”, baseado quase que exclusivamente em fontes anônimas, o que é natural, pois os cubanos, mesmo autoridades graduadas, temem dizer qualquer coisa a respeito do chefão; o que parece agradar pode desagradar. A intimidade e a saúde do Al Capone da esquerda são segredo de Estado. “Hoje”, diz uma fonte anônima, Fidel “verdadeiramente está fora do poder, dedicado às grandes estratégias e aos problemas mundiais”. Se está fora do poder, como aceita o repórter do principal jornal espanhol, como pode se dedicar “às grandes estratégias”? Elabora estratégias para quem? Para o regime do qual é tutor. Na “ausência” do imperador, Raúl Castro, o irmão Débil & Loide, é no máximo regente.
O notável historiador marxista Eric Hobsbawm avalia que, depois da “libertinagem” capitalista, decorrente da “morte” do socialismo, é provável que a vaga socialista volte, e, quem sabe, com certa força. Mas possivelmente com outro matiz. O encanecido Hobsbawm (bombardeado por Tony Judt, há pouco tempo, por não reconhecer os crimes do stalinismo com a devida correção; o livro de Judt, “O Século XX Esquecido — Lugares e Memórias”, foi editado em Portugal e merece uma edição brasileira) disse isto antes do vendaval Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Lula é um caso específico. Mas o socialismo de Chávez pouco tem a ver com o socialismo clássico, porque seu partido é uma ficção. Pouco tem a ver com o partido leninista-comunista. O poder está “assentado” na figura de Chávez, tanto que, se morrer, o “sistema Chávez” desmorona. O regime chavista é, mais do que socialista, nacionalista, mais próximo do peronismo... com a diferença do petróleo. Porque o petróleo é o sangue que movimenta as diabruras e inconseqüências do líder venezuelano. O petróleo é a Bolsa Família do governo da Venezuela. O governo de Correa é mais inconsistente do que o de Chávez e, sem Chávez para emulá-lo, possivelmente seria uma ficção. O de Morales, nem se fala. Golpes à vista. Assassinatos no horizonte. Na Venezuela, no Equador e na Bolívia. É só esperar.
“Minha Fama de Mau” (Objetiva, 357 páginas), de Erasmo Carlos, não é uma história didaticamente precisa do próprio cantor, de sua parceria com Roberto Carlos e da Jovem Guarda. É uma colagem de recortes escrita com humor e língua afiada. Um relato divertido de encontros com alguns artistas. Leitores exigentes esperavam mais do compositor preferido do rei da música brasileira, Roberto Carlos.