O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov
O romance “O Mestre e Margarida” (Alfaguara, 456 páginas), do escritor, dramaturgo e libretista ucraniano Mikhail Bulgákov, ganha sua primeira tradução patropi direta do russo — um trabalho de mestre de Zoia Prestes. A versão anterior (Nova Fronteira/Abril Cultural), a partir do inglês, é de Mário Salviano Silva. Neste texto, falo mais da tragédia do autor, narrada no excelente “O Diabo Solto em Moscou — A Vida do Senhor Bulgákov” (Edusp, 582 páginas), de Homero Freitas de Andrade. Há também traduções de contos e novelas a partir do original russo.
Bulgákov, que cedo trocou a medicina pela literatura e pelo teatro, morreu em 1940, com quase 49 anos, de complicações renais. Muito possivelmente, seu quadro agravou-se devido às pressões do regime stalinista, que o proibira de publicar livros e trabalhar com o teatro. “A partir de 1926, não conseguiu publicar nenhuma das suas obras de ficção, nem mesmo as que mais prezava”, conta Boris Schnaiderman. Sua obra só foi publicada integralmente depois da glasnost de Mikhail Gorbachev. Porque Bulgákov não aceitou o cabresto do stalinismo. Curiosamente, sua prosa era lida e apreciada por Stálin. Uma vez, em desespero, escreveu uma longa carta para o ditador pedindo emprego, pois os teatros e as editoras o censuravam e o vetavam. Stálin ligou para Bulgákov e disse: “Nós recebemos sua carta. Li com os camaradas. O sr. vai obter uma resposta favorável... Será que realmente devemos deixá-lo partir para o estrangeiro? Nós o aborrecemos tanto assim?”. Desconcertado, o escritor respondeu: “Pensei muito nos últimos tempos se um escritor russo poderia viver fora de sua terra. E me parece que não”. Conseguiu emprego num teatro, mas ficou sob vigilância expressa.
leia mais...















Quem quiser entender a literatura de James Joyce deve ler a biografia “James Joyce”, de Richard Ellmann, e, talvez, “Homem Comum Enfim”, de Anthony Burgess. Para entender o romance “Três Tristes Tigres” (José Olympio, 517 páginas, tradução de Luís Carlos Cabral), de Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), pelo menos para rir com mais proveito de algumas histórias, deve-se ler os artigos e ensaios de “Mea Cuba” (Companhia das Letras, 518 páginas, tradução de Josely Vianna Baptista) — um guia não-guia de acesso aos “segredos” cubanos —, do mesmo autor.
“Los Anos Rojos de Luis Buñuel”(Cátedra, 420 páginas), de Román Gubern e P. Hammond, provoca polêmica na Espanha. O livro prova que, ao contrário do que sempre disse, o cineasta filiou-se ao Partido Comunista Espanhol (PCE) em 1931. Não só. Buñuel se pôs, durante algum tempo, a serviço do brutal stalinismo soviético.
O que sabemos da Irlanda tem a ver com seus escritores notáveis, como Jonathan Swift, Wilde, Yeats, Shaw, Joyce e, recentemente, John Banville. Os políticos são lembrados, se são, apenas por especialistas em política internacional.
“Clarice,” (Cosacnaify, 648 páginas), de Benjamin Moser, é uma biografia do balacobaco. Clarice Lispector, a mulher e a escritora, sai maior. Ou com a estatura devida. Apesar da simpatia confessa do pesquisador americano, não se trata de hagiografia. Uma das vantagens da biografia é que Moser recolhe as melhores interpretações (esquecendo algumas) da obra da autora e oferece ao leitor as próprias leituras, quase sempre pertinentes e originais. Ele escarafuncha a vida e, paralelamente, a obra. Muitas vezes, o envolvimento com a obra é muito superior à apreensão da vida de Clarice.
No terceiro capítulo de “O Apoio de Cuba À Luta Armada no Brasil — O Treinamento Guerrilheiro”, a historiadora Denise Rollemberg discute o apoio financeiro e logístico de Cuba à Ação Libertadora Nacional (ALN), ao Grupo da Ilha, à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e ao Movimento Revolucionário — 8 de Outubro (MR-8). O incentivo se dá a partir de 1967, após o “fracasso” das Ligas Camponesas e do Fidel brasileiro, Leonel “El Ratón” Brizola. O ano de 1967, aponta Denise, “foi marcado tanto pela Conferência das OLAS, em julho e agosto, grito de guerra do projeto de exportação da revolução, quanto pela derrota do projeto de Che Guevara na Bolívia, em outubro”. O Fidel brasileiro passa a ser Carlos Marighella (“Vai, Carlos, vai ser Marighella na vida”, como dizia o poeta).
Os brasileiros leem mais a literatura dos Estados Unidos — Faulkner, Fitzgerald, Hemingway, Saul Bellow (nascido no Canadá) e Philip Roth — do que a canadense. Mas devemos ao Canadá alguns escritores do primeiro time, como Mordecai Richler (“A Versão de Barney”), Elizabeth Smart (“Junto à Central Station Sentei-me e Chorei”), Alice Munro (“Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento”), Margaret Atwood (prosadora e crítica brilhante), Nancy Huston (“Marcas de Nascença”, romance muito bom sobre crianças que foram raptadas pelos nazistas e adotadas por famílias alemãs. O livro de Huston é baseado num fato histórico, mas é literatura de primeira. Se o leitor quiser mais informação documentada, o livro adequado, em português, é "O Trauma Alemão", da brilhante jornalista e historiadora Gitta Sereny), Carol Shields (nascida nos Estados Unidos, naturalizada canadense) e o crítico literário Northrop Frye (“Anatomia da Crítica”).
Um político como Mikhail Gorbachev sabia que, como presidente da União Soviética, estava fazendo (a grande) história. Por isso a pergunta correta a fazer é: qual o grau de consciência tem o líder político quando está fazendo história? Porque, contando com o planejamento, está tentando levar a história para um rumo, mas, não poucas vezes, ele e a história acabam sendo levados para outro lado. No magnífico livro “Pós-Guerra — Uma História da Europa Desde 1945” (Objetiva, 847 páginas, tradução de José Roberto O’Shea), o historiador inglês Tony Judt diz que, ao adotar a perestroika e a glasnost, “é incontestável que ele [Gorbachev] não sabia o que estava fazendo e ficaria horrorizado se soubesse”. “As novas reformas, inevitavelmente, conduziriam o País de volta ao capitalismo”, escreve Judt. Mas Gorbachev não queria a instalação do capitalismo, pelo contrário. O líder soviético, que se considerava estadista europeu, apostava que poderia reformar o sistema. “Gorbachev acreditava piamente que o único caminho para o progresso passava pelo retorno aos ‘princípios’ leninistas. A ideia de que o próprio projeto leninista estivesse equivocado permanecia alheio ao líder soviético até bem tarde. Somente em 1990 ele, finalmente, permitiu a publicação interna de escritores abertamente antileninistas como, por exemplo, Aleksandr Soljenitsin.” Como líder, que pretendia levar a União Soviética para uma economia produtiva, mas não capitalista, Gorbachev equivocou-se. “Gorbachev e sua revolução controlada foram, em última instância, engolidos pela escala das contradições por eles mesmos gerados. (...) O líder falhou totalmente. Mesmo assim, o que ele fez foi notável. O sistema soviético só poderia ser desmantelado de dentro para fora, por alguma iniciativa vinda de cima. (...) Ele [Gorbachev] desentranhou a ditadura do próprio partido. Somente um comunista poderia fazê-lo [derrubar o sistema]. E foi um comunista que o fez. Somente o partido poderia limpar a sujeira por ele próprio espalhada.”