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Euler de França Belém

POR EM 23/03/2011 ÀS 10:12 AM

Katherine Mansfield preferia Proust a Joyce

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Katherine MansfieldO Estante Virtual, que reúne os principais sebos do país, permite-nos acesso a obras raras, ou quase raras, por preços quase sempre acessíveis. Adquiri há pouco um livro encantador, “Cartas de Katherine Mansfield” (Portugália, 550 páginas, tradução de Manuela Porto e introdução de João Gaspar Simões), de 1944. Julieta Cupertino, uma de suas melhores tradutoras brasileiras, pôs em português “Diário e Cartas” (Revan). A Cosacnaify lançou “Contos”, numa edição muito bem cuidada e traduzida. Erico Verissimo está entre seus tradutores. Clarice Lispector foi devidamente influenciada pela amiga de Virginia Woolf. As cartas resultam da cabeça de um ser humano raríssimo e extremamente perceptivo. Nascida na Nova Zelândia, em 1889, Katherine Mansfield morreu em 1923, na França, com apenas 34 anos. Pioneiramente, fala de “angústia da influência” (conceito ampliado por Harold Bloom), ao examinar a literatura de um amigo e notar que “repetia” Tchekhov, uma de suas paixões. 

Katherine Mansfield leu “Ulisses”, de James Joyce, na época de seu lançamento (morreu um ano depois). Apesar de sua resistência à linguagem inventiva e desbocada do escritor irlandês, sente que se trata de uma obra grandiosa, difícil, e não esconde seu preconceito (ou estranhamento), ressaltando que é uma falha de leitora. Proust e Tchekhov eram duas de suas maiores paixões. 


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POR EM 15/03/2011 ÀS 09:58 AM

Gay é pai das denúncias do WikiLeaks

publicado em

Bradley ManningTodo mundo sabe quem é o australiano Julian Assange, o criador do WikiLeaks, mas poucos sabem quem é o americano Bradley Manning. Aos 22 anos, Manning foi enviado para o Iraque como soldado especializado em informática. Era atípico: tem 1,57m e pesava 47 quilos. Gay assumido, foi expulso de casa pelo pai e, para sobreviver, decidiu entrar para o Exército. “Ele estava lá por seu talento para manipular computadores. Na função de analista de inteligência, Manning passava longos dias na sala de informática da base [militar], examinando cuidadosamente informações confidenciais”, contam os repórteres David Leigh e Luke Harding, do The Guardian. “Ele ficara impressionado com a falta de segurança. A porta era trancada com uma fechadura de código de cinco dígitos, mas bastava dar um empurrão e era possível entrar.”

Na base militar, as coisas não funcionavam como tradicionalmente se pensa sobre o establishment americano. Manning escreveu: “Servidores ruins, registros ruins, segurança física ruim, contrainteligência ruim, análise de sinal negligente... Uma perfeita tempestade”. A negligência “alimentava oportunidades”. Para o soldado, “essas oportunidades se apresentaram sob forma de dois laptops militares, cada um deles com acesso privilegiado a segredos de Estado norte-americanos. (...) Espanta o fato de que um soldado raso pudesse ter acesso aparentemente irrestrito a essa enorme fonte de material confidencial. E que pudesse fazê-lo praticamente sem supervisão ou salvaguardas, no interior da base, é mais impressionante ainda. Ele passava horas examinando documentos e vídeos altamente confidenciais, usando fones de ouvido e fingindo cantar Lady Gaga. Quanto mais lia, mais alarmado e perturbado ficava, chocado com o que considerava duplicidade e corrupção oficiais do próprio país. Tratava-se de vídeos que mostravam o ataque aéreo de um helicóptero equipado com metralhadoras a civis desarmados no Iraque, relatos de mortes de civis e acidentes causados por ‘fogo amigo’ no Afeganistão. E havia uma quantidade gigantesca de telegramas diplomáticos revelando segredos de todo o mundo, do Vaticano ao Paquistão”.


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POR EM 03/03/2011 ÀS 01:26 PM

Escritor francês afirma que Oscar Niemeyer é um imbecil

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A Companhia das Letras vai publicar “A Lebre da Patagônia”, memórias do francês Claude Lanzmann, de 85 anos, em junho. Na quinta-feira, 24, a “Folha de S. Paulo”, por intermédio da “colaboradora” Leneide Duarte-Plon, entrevistou o jornalista, escritor e diretor de filmes. A entrevista contém opiniões contundentes e heterodoxas sobre Oscar Niemeyer e discutíveis sobre Simone de Beauvoir (1908-1986). Sobretudo, é polêmica e, às vezes, divertida. 
 
Simone de Beauvoir e Lanzmann se tornaram amantes quando ela, escritora reconhecida, citada até como filósofa por alguns apressados, tinha 44 anos e ele, 27 anos. Uma diferença de 17 anos. “Fui o único homem com quem ela teve uma vida conjugal, marital, durante quase oito anos. Quando a conheci ela não tinha mais relações sexuais com Sartre, Muitas pessoas dizem que fazíamos sexo coletivo. Não é verdade”, sustenta Lanzmann. O problema é que a “Folha” e Lanzmann esquecem, não se sabe por quê, de citar o escritor americano Nelson Algren, uma das paixões mais flamantes da escritora. Para dizer pouco, com Algren ela teve seu primeiro orgasmo (porque Sartre, rápido como coelho, amava a si próprio, e saltava rápido de uma cama para a outra. Ela tinha 39 anos ao ter o primeiro orgasmo). Tudo bem que o relacionamento com Lanzmann seja um fato, mas ignorar a paixão explosiva de Simone de Beauvoir por Algren é deixar de informar o leitor. (Leia abaixo duas cartas da escritora para o americano intranquilo. Algren era casado e não gostou de ser citado, de forma crua, num dos livros da autora. Na sua literatura, de matiz memorialista, nada escondia sobre si e os outros. Algren pôs fim ao relacionamento — o que a deixou muito abatida. Noutro livro, “Cartas a Nelson Algren — Um Amor Transatlântico”, publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira, escancarou o relacionamento.)


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POR EM 22/02/2011 ÀS 06:36 PM

A paixão flamante de Elizabeth Smart e George Barker

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Elizabeth Smart A canadense Elizabeth Smart (1913-1986) é autora de um romance esplêndido, “By Grand Central Station I Sat Down and Wept” (“En Grand Central Station me Senté e Lloré”, na versão em espanhol). Neste livro, sofrido e prazeroso, conta a história de sua paixão pelo poeta inglês George Barker (1913-1991) — um protegido do vate americano T. S. Eliot. A história, extraordinária e muito bem contada, merece tradução brasileira. Quando penso em Elizabeth Smart lembro-me do britânico D. H. Lawrence, pela relação livre com a sexualidade, ainda que angustiada, e com a natureza. O livro é cult, no estilo (não no conteúdo) de “Werther”, do alemão Goethe. Elizabeth seguia à risca o preceito “penso que um homem põe todo o seu ser em um livro”, de Lawrence. Desconhecida no Brasil, a autora ganhou uma bela biografia, de autoria de Rosemary Sullivan. “Elizabeth Smart” (Circe, 396 páginas, tradução de Laura Freixas) mapeia, com acuidade, a vida, a obra e o tempo da autora. Leio (traduzindo trechos e poemas) a versão em espanhol, editada em Barcelona.

A história da bela e irrequieta Elizabeth daria um livro. Daria, não; deu — é o romance “By Grand Central Station I Sat Down and Wept”. Só que conta apenas parte de sua vida e é, claro, um romance. Por isso a biografia escrita por Rosemary é um empreendimento louvável. Comento, neste texto, tão-somente parte da relação de Elizabeth com Barker. Em 1937, aos 24 anos, a autora entrou na Livraria Bester Book e começou a ler um livro de poesia de Barker. “As palavras ardiam. Ali mesmo decorou as poesias, pois não lia livros — devorava-os”, revela Rosemary. “Tenho que me casar com um poeta. É a única solução”, escreveu a poeta e prosadora. “Este é o homem que estava buscando.”


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POR EM 20/02/2011 ÀS 10:48 AM

Folha de S. Paulo esconde sua história de amor com ditabranda

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A “Folha de S. Paulo”, um dos melhores jornais brasileiros, comemora 90 anos com uma iniciativa popular. O leitor é convidado a comentar, criticar e oferecer sugestões à redação. “É o momento de lembrar uma manchete de impacto, uma cobertura marcante, um colunista de sua predileção, uma caderno que mais lhe agrade ou uma foto que o tenha impressionado. Deixe um comentário, uma crítica ou uma sugestão.”
 
O leitor pode enviar texto, vídeo e áudio para o e-mail folha90anos@grupofolha.com.br. Uma equipe de jornalistas vai selecionar material para ser publicado num caderno especial.
 
Se a “Folha” aceitar, sugiro um debate: por que a cúpula do jornal aprecia falar de um passado longínquo, quando o jornal foi criado, do período das Diretas Já e do impeachment do presidente Fernando Collor, mas não discute o período do regime civil-militar? A resposta é óbvia: a “Folha” apoiou o golpe e, mesmo, teria atuado como base de apoio de setores militares (principalmente a extinta “Folha da Tarde”). O apoio ao golpe de 1964 e à ditadura não a diminui. O que torna sua história menor, com cheiro de falsificação, é ignorar uma parte dela. Em várias reportagens e publicidades, a “Folha” cita seu apoio pioneiro às Diretas Já, como se seu empenho em defesa da redemocratização fosse uma tentativa de “limpar” sua imagem, porém, nem mesmo en passant, a história da aliança com a ditabranda é mencionada. 


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POR EM 20/02/2011 ÀS 10:32 AM

A revista Veja vai aderir ao governo Dilma?

publicado em

Nos oito anos de governo Lula, a “Veja” fez jornalismo de primeira — crítico e cáustico. Marqueteira hábil, a esquerda passou a dizer que a revista fazia parte do Partido Golpista da Imprensa (PIG). Pouco acostumados à imprensa crítica, independente do poder público, muitos brasileiros aderiram à cantilena habilmente articulada em blogs e em pelo menos uma revista de qualidade, a “CartaCapital”. A falta de isenção dos outros veículos é que fazia (e faz) a “Veja”, a “Folha de S. Paulo” e o “Estadão” parecerem “golpistas” e “radicais”, ou, como dizem esquerdistas que posam de honestos mas não o são (em geral são ricos-parasitas posando de socialistas), “de direita”. Esses esquerdistas sequer discutem a veracidade das denúncias publicadas pelas três publicações mais críticas. No afã de atacar a direita, que no país é fraca ideologicamente, ficam cegos à verdade.
 
Não resta dúvida, porém, que a tática de “Veja”, de concentrar sua crítica em denúncia de corrupção não funcionou muito bem. Porque, como notou tardiamente o PSDB, o PT trocou, com rara felicidade, a tese de “partido da ética” pela tese de “partido do social”. O fato de “ajudar” os pobres de algum modo limpou a esquerda petista e seu aliados “modernos”, como José Sarney e Fernando Collor. Com correção, “Veja”, “Folha” e “Estadão” insistiram e denunciaram que, no poder, o petismo repetia governos anteriores, especialmente na questão da corrupção e, também, na perseguição ao jornalismo autônomo. A falha, se se pode dizer assim, foi ter se concentrado quase que exclusivamente no ataque direto à corrupção. As publicações talvez tenham uma explicação convincente: a equipe de Lula, pegando uma onda mundial favorável e gastando à farta recursos públicos, recriou o Milagre Econômico do presidente Emilio Garrastazú Medici. É como se nós tivéssemos deixado de ser brasileiros para nos tornar consumidores.


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POR EM 14/02/2011 ÀS 01:51 PM

Autor de livro sobre Rubens Paiva contesta comentário

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Segredo de Estado — O Desaparecimento de Rubens PaivaPrezado Euler de França Belém, sou o autor do livro sobre Rubens Paiva. Agradeço os elogios e quero rebater as críticas.

Você diz que Rubens era "Político sem muitas luzes", mas na verdade ele era uma das lideranças nacionais emergentes: vice-líder do PTB, fazia parte do grupo de maior projeção do partido, foi vice-presidente de uma CPI de grande repercussão e participava regularmente de reuniões com Jango, tudo isso num primeiro mandato e que durou pouco mais de um ano.

Você diz "No lugar de apresentar os nomes dos sequestradores e torturadores, Jason Tércio cita os “codinomes” Leão, Girafa, Morcego". No epílogo do livro eu cito os nomes dos cinco acusados pela tortura e morte de Rubens.

Você cita um trecho do livro de Elio Gaspari no qual este diz que quando Rubens morreu "Comandava o DOI o major José Antonio Nogueira Belham”. Está errado. Quem comandava o DOI, como eu digo no meu livro, era o major Francisco Demiurgo Santos Cardoso, tenho documento comprovando.

Você diz "Citando fontes, Elio Gaspari esclarece o caso." Ele não esclareceu nada, apenas resumiu a história, com outros erros que ocupariam muitas linhas aqui se eu fosse citar e rebater, e não é Gaspari que está em questão, eu o respeito muito. Eu não cito fontes em função da linguagem literária adotada, que não é jornalística nem acadêmica, embora eu domine também a linguagem acadêmica, inclusive fiz mestrado.

Você diz "Tudo indica que o corpo foi esquartejado, na Casa da Morte”. Esta é a versão de um ex-agente da repressão, na qual não acredito, por vários motivos. Há sete versões sobre o destino do corpo de Rubens, todas relatadas no final do livro. Por fim, talvez lhe tenha passado despercebido, mas meu livro revela claramente, pela primeira vez, como a cúpula do Exército, o Ministério da Justiça, o STM, o partido do governo na época e até o presidente Médici contribuíram para ocultar a morte de Rubens e impedir as investigações.


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POR EM 04/02/2011 ÀS 04:22 PM

Jornal impresso pode acabar no Brasil em 2027

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O site Future Exploration Network (FEN), que auxilia grandes organizações a obter insights sobre o futuro e desenvolver estratégias que criem vantagens competitivas, elaborou um gráfico, baseado em estimativas e tendências atuais, que aponta para o fim do jornal impresso no mundo. Nos Estados Unidos, para ficar apenas num país, mais de 2 mil jornais foram fechados desde o advento da internet. Pátria do mais rico jornalismo do mundo, os Estados Unidos criaram, há pouco, um museu da imprensa.
 
Segundo o FEN, o primeiro país a abolir o jornal no formato impresso será os Estados Unidos, em 2017, seguido por Inglaterra, 2019, Canadá e Noruega, em 2020. Para o Brasil as previsões do fim dos impressos são para o ano de 2027. O crescimento da tecnologia móvel e o baixo custo da operacionalização, que contrasta com os valores elevados dos jornais impressos, são os principais fatores que ressaltam essa tendência. Será que o jornal impresso vai ficar como o disco de vinil? Não se sabe. O que se sabe (a tendência) é que quem sobreviver sairá com pequenas tiragens, para distribuição gratuita ou para assinantes privilegiados. Mesmo agora, ninguém, que não seja insano, aposta mais em grandes tiragens impressas.


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POR EM 30/01/2011 ÀS 11:47 AM

Morte de Rubens Paiva permanece obra aberta

publicado em

Segredo de Estado — O Desaparecimento de Rubens PaivaCom apoio de amplos setores civis, tanto nas elites quanto entre populares, militares derrubaram o presidente João Goulart, no início de abril de 1964. O primeiro presidente militar, Castello Branco, planejou uma transição com candidato civil para substitui-lo. O mineiro Bilac Pinto, um liberal, era uma de suas apostas. Não deu pé. A linha dura, liderada por Costa e Silva, optou pela continuidade da caserna e manteve o poder. A manutenção de partidos políticos, Arena e MDB, e portanto de eleições contribuiu para que a ditadura, embora autoritária, não se tornasse totalitária. A cassação de mandatos, com evidentes exageros, não impediu que políticos de proa da oposição, como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, se manifestassem com frequência. Uma das principais falhas da historiografia patropi é concentrar-se demasiadamente na ação armada dos guerrilheiros, de resto útil aos militares duros para tornar o regime ainda mais fechado, e menoscabar a oposição legalista e os liberais arenistas (que nada tinham de truculentos). Políticos emblemáticos como Ulysses e Tancredo (poderia citar outros) pressionaram o regime o tempo todo e permaneceram na oposição. Liberais da Arena, ainda que omissos em alguns pontos, também contribuíram para que o regime fosse menos cruento. É possível que a omissão pública tenha sido menor do que a pressão interna — o que cabe aos historiadores, como os rigorosos Carlos Fico, Elio Gaspari e Ronaldo Costa Couto (autor de um magnífico livro sobre a Abertura), investigar. Sobretudo, arenistas e emedebistas, especialmente os liberais, sugeriam, mesmo quando falavam pouco, que havia uma alternativa democrática ao sistema ditatorial. Tanto que, 21 anos depois do golpe de 64, os civis voltaram ao poder, numa combinação de um emedebista (peemedebista), Tancredo, com um arenista (pedessista), José Sarney. Mas tudo foi possível mais cedo porque havia uma tendência liberalizante tanto nos quarteis quanto no partido governista. Ao assumir a Presidência da República, em 1974, o general Ernesto Geisel se impôs uma missão — “matar” a ditadura por meio da Abertura. Geisel e Golbery do Couto e Silva eram, por assim dizer, discípulos de Castello Branco. Liberalizaram o regime de tal forma que João Figueiredo, mesmo com alguns duros no governo, não tinha mais energia nem legimitidade para fechar o regime. O processo de Abertura havia envolvido a sociedade política e a sociedade civil de tal forma que recuar era praticamente impossível.


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POR EM 17/01/2011 ÀS 05:00 PM

Máfia verdadeira é mais violenta do que a do filme de Coppola

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Os Últimos Mafiosos — A Ascensão e a Queda da Família Mais Poderosa da MáfiaDepois do filme “O Poderoso Chefão”, a máfia, a Cosa Nostra, jamais será a mesma. Será sempre dupla: a Cosa Nostra real e a imaginada pelo escritor Mario Puzo e, sobretudo, pelo cineasta Francis Ford Coppola (o filme dispensa o romance). A máfia de Puzo e Coppola é edulcorada, até certo ponto. Os dois mostram a duplicidade da máfia — “a” que usa a violência para ajeitar seus negócios e “a” que usa os meios legais para limpar seu capital. Mas, claro, é a mesma máfia. Os métodos variam de acordo as circunstâncias. Empresários mantiveram e mantêm ligações com mafiosos e mesmo o Banco do Vaticano não ficou longe de acordos pouco católicos. As grandes jogadas empresariais quase sempre não são limpas, mas muitas vezes são legais. A máfia, sem descurar da ilegalidade, como o tráfico de cocaína e heroína, procura trilhar os caminhos do jogo pesado aceito pela sociedade, porque revestido de legalidade e legitimidade. O livro “Os Últimos Mafiosos — A Ascensão e a Queda da Família Mais Poderosa da Máfia” (Larousse, 367 páginas, tradução de Maria Elizabeth Hallak Neilson), do jornalista John Follain, permite compreender como se estruturou a organização criminosa na qual seus integrantes se assemelham a acionistas, executivos e “soldados” (pistoleiros). A família é a Corleonese. No livro “Cosa Nostra — História da Máfia Siciliana”, John Dickie aponta que o termo máfia surgiu no século 19 — “por volta de 1860”. Mas a organização do clã Corleonese, que mais tarde passou a mandar na Cosa Nostra, se deu no século 20, com o médico don Michele Navarra. O mafioso era chamado de U Patri Nostru (Pai Nosso), “exatamente como” os sicilianos “se referiam a Deus”. O vocáculo máfia deriva, possivelmente, do árabe “mahias” (ousadia) ou “Ma àfir” (nome de uma tribo sarracena). Ao assumir o poder, entre 1922 e os primeiros anos da década de 1940, o fascista Benito Mussolini enquadrou parte da máfia. Com sua queda, “90% dos novos 353 prefeitos nomeados pelos Aliados eram mafiosos ou próximos do movimento separatista, intimamente ligado à máfia”, anota Follain. A organização criminosa se tornou parte do sistema estatal. “Talvez refletindo esse novo amanhecer, os mafiosos começaram a se referir à sua sociedade secreta como Cosa Nostra (Coisa Nossa).”


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