Katherine Mansfield preferia Proust a Joyce
O Estante Virtual, que reúne os principais sebos do país, permite-nos acesso a obras raras, ou quase raras, por preços quase sempre acessíveis. Adquiri há pouco um livro encantador, “Cartas de Katherine Mansfield” (Portugália, 550 páginas, tradução de Manuela Porto e introdução de João Gaspar Simões), de 1944. Julieta Cupertino, uma de suas melhores tradutoras brasileiras, pôs em português “Diário e Cartas” (Revan). A Cosacnaify lançou “Contos”, numa edição muito bem cuidada e traduzida. Erico Verissimo está entre seus tradutores. Clarice Lispector foi devidamente influenciada pela amiga de Virginia Woolf. As cartas resultam da cabeça de um ser humano raríssimo e extremamente perceptivo. Nascida na Nova Zelândia, em 1889, Katherine Mansfield morreu em 1923, na França, com apenas 34 anos. Pioneiramente, fala de “angústia da influência” (conceito ampliado por Harold Bloom), ao examinar a literatura de um amigo e notar que “repetia” Tchekhov, uma de suas paixões.
Katherine Mansfield leu “Ulisses”, de James Joyce, na época de seu lançamento (morreu um ano depois). Apesar de sua resistência à linguagem inventiva e desbocada do escritor irlandês, sente que se trata de uma obra grandiosa, difícil, e não esconde seu preconceito (ou estranhamento), ressaltando que é uma falha de leitora. Proust e Tchekhov eram duas de suas maiores paixões.
leia mais...





Todo mundo sabe quem é o australiano Julian Assange, o criador do WikiLeaks, mas poucos sabem quem é o americano Bradley Manning. Aos 22 anos, Manning foi enviado para o Iraque como soldado especializado em informática. Era atípico: tem 1,57m e pesava 47 quilos. Gay assumido, foi expulso de casa pelo pai e, para sobreviver, decidiu entrar para o Exército. “Ele estava lá por seu talento para manipular computadores. Na função de analista de inteligência, Manning passava longos dias na sala de informática da base [militar], examinando cuidadosamente informações confidenciais”, contam os repórteres David Leigh e Luke Harding, do The Guardian. “Ele ficara impressionado com a falta de segurança. A porta era trancada com uma fechadura de código de cinco dígitos, mas bastava dar um empurrão e era possível entrar.”
A Companhia das Letras vai publicar “A Lebre da Patagônia”, memórias do francês Claude Lanzmann, de 85 anos, em junho. Na quinta-feira, 24, a “Folha de S. Paulo”, por intermédio da “colaboradora” Leneide Duarte-Plon, entrevistou o jornalista, escritor e diretor de filmes. A entrevista contém opiniões contundentes e heterodoxas sobre Oscar Niemeyer e discutíveis sobre Simone de Beauvoir (1908-1986). Sobretudo, é polêmica e, às vezes, divertida.
A canadense Elizabeth Smart (1913-1986) é autora de um romance esplêndido, “By Grand Central Station I Sat Down and Wept” (“En Grand Central Station me Senté e Lloré”, na versão em espanhol). Neste livro, sofrido e prazeroso, conta a história de sua paixão pelo poeta inglês George Barker (1913-1991) — um protegido do vate americano T. S. Eliot. A história, extraordinária e muito bem contada, merece tradução brasileira. Quando penso em Elizabeth Smart lembro-me do britânico D. H. Lawrence, pela relação livre com a sexualidade, ainda que angustiada, e com a natureza. O livro é cult, no estilo (não no conteúdo) de “Werther”, do alemão Goethe. Elizabeth seguia à risca o preceito “penso que um homem põe todo o seu ser em um livro”, de Lawrence. Desconhecida no Brasil, a autora ganhou uma bela biografia, de autoria de Rosemary Sullivan. “Elizabeth Smart” (Circe, 396 páginas, tradução de Laura Freixas) mapeia, com acuidade, a vida, a obra e o tempo da autora. Leio (traduzindo trechos e poemas) a versão em espanhol, editada em Barcelona.
A “Folha de S. Paulo”, um dos melhores jornais brasileiros, comemora 90 anos com uma iniciativa popular. O leitor é convidado a comentar, criticar e oferecer sugestões à redação. “É o momento de lembrar uma manchete de impacto, uma cobertura marcante, um colunista de sua predileção, uma caderno que mais lhe agrade ou uma foto que o tenha impressionado. Deixe um comentário, uma crítica ou uma sugestão.”
Nos oito anos de governo Lula, a “Veja” fez jornalismo de primeira — crítico e cáustico. Marqueteira hábil, a esquerda passou a dizer que a revista fazia parte do Partido Golpista da Imprensa (PIG). Pouco acostumados à imprensa crítica, independente do poder público, muitos brasileiros aderiram à cantilena habilmente articulada em blogs e em pelo menos uma revista de qualidade, a “CartaCapital”. A falta de isenção dos outros veículos é que fazia (e faz) a “Veja”, a “Folha de S. Paulo” e o “Estadão” parecerem “golpistas” e “radicais”, ou, como dizem esquerdistas que posam de honestos mas não o são (em geral são ricos-parasitas posando de socialistas), “de direita”. Esses esquerdistas sequer discutem a veracidade das denúncias publicadas pelas três publicações mais críticas. No afã de atacar a direita, que no país é fraca ideologicamente, ficam cegos à verdade.
Prezado Euler de França Belém, sou o autor do livro sobre Rubens Paiva. Agradeço os elogios e quero rebater as críticas.
O site Future Exploration Network (FEN), que auxilia grandes organizações a obter insights sobre o futuro e desenvolver estratégias que criem vantagens competitivas, elaborou um gráfico, baseado em estimativas e tendências atuais, que aponta para o fim do jornal impresso no mundo. Nos Estados Unidos, para ficar apenas num país, mais de 2 mil jornais foram fechados desde o advento da internet. Pátria do mais rico jornalismo do mundo, os Estados Unidos criaram, há pouco, um museu da imprensa.
Depois do filme “O Poderoso Chefão”, a máfia, a Cosa Nostra, jamais será a mesma. Será sempre dupla: a Cosa Nostra real e a imaginada pelo escritor Mario Puzo e, sobretudo, pelo cineasta Francis Ford Coppola (o filme dispensa o romance). A máfia de Puzo e Coppola é edulcorada, até certo ponto. Os dois mostram a duplicidade da máfia — “a” que usa a violência para ajeitar seus negócios e “a” que usa os meios legais para limpar seu capital. Mas, claro, é a mesma máfia. Os métodos variam de acordo as circunstâncias. Empresários mantiveram e mantêm ligações com mafiosos e mesmo o Banco do Vaticano não ficou longe de acordos pouco católicos. As grandes jogadas empresariais quase sempre não são limpas, mas muitas vezes são legais. A máfia, sem descurar da ilegalidade, como o tráfico de cocaína e heroína, procura trilhar os caminhos do jogo pesado aceito pela sociedade, porque revestido de legalidade e legitimidade. O livro “Os Últimos Mafiosos — A Ascensão e a Queda da Família Mais Poderosa da Máfia” (Larousse, 367 páginas, tradução de Maria Elizabeth Hallak Neilson), do jornalista John Follain, permite compreender como se estruturou a organização criminosa na qual seus integrantes se assemelham a acionistas, executivos e “soldados” (pistoleiros). A família é a Corleonese. No livro “Cosa Nostra — História da Máfia Siciliana”, John Dickie aponta que o termo máfia surgiu no século 19 — “por volta de 1860”. Mas a organização do clã Corleonese, que mais tarde passou a mandar na Cosa Nostra, se deu no século 20, com o médico don Michele Navarra. O mafioso era chamado de U Patri Nostru (Pai Nosso), “exatamente como” os sicilianos “se referiam a Deus”. O vocáculo máfia deriva, possivelmente, do árabe “mahias” (ousadia) ou “Ma àfir” (nome de uma tribo sarracena). Ao assumir o poder, entre 1922 e os primeiros anos da década de 1940, o fascista Benito Mussolini enquadrou parte da máfia. Com sua queda, “90% dos novos 353 prefeitos nomeados pelos Aliados eram mafiosos ou próximos do movimento separatista, intimamente ligado à máfia”, anota Follain. A organização criminosa se tornou parte do sistema estatal. “Talvez refletindo esse novo amanhecer, os mafiosos começaram a se referir à sua sociedade secreta como Cosa Nostra (Coisa Nossa).”