As Entrevistas da Paris Review
O volume 1 da série “As Entrevistas da Paris Review” (Companhia das Letras, 459 páginas) contém ótimas e razoáveis entrevistas. Algumas são divertidas, inteligentes e instrutivas e poucas exatamente o oposto. São entrevistados Jorge Luis Borges, Hemingway, Faulkner, Truman Capote, Billy Wilder (diretor de cinema), Primo Levi, Louis-Ferdinand Céline, Doris Lessing, Manuel Puig, Amós (na capa, saiu sem acento) Oz, Javier Marías, Ian McEwan e Paul Auster. Fiquemos com três entrevistas — do americano Capote, do inglês McEwan e do espanhol Javier Marías. Não são conversas ortodoxas, frias.
Capote revela que, mesmo escrevendo muito, lia em média cinco livros por semana. “Um romance de tamanho normal me toma cerca de duas horas.” Sobre autores que tornaram sua literatura possível, afirma: “... nunca notei nenhuma influência literária direta, embora vários críticos tenham me informado de que meus primeiros trabalhos são tributários de Faulkner, [Eudora] Welty e [Carson] McCullers. É possível. Sou um grande admirador dos três; e também de Katherine Anne Porter”. Poe, Dickens e Stevenson são considerados “ilegíveis”. Entusiasmos constantes: Flaubert, Turguêniev, Tchekhov, Jane Austen, [Henry] James, E. M. Forster, Maupassant, Rilke, Proust, Shaw, Willa Cather. Inclui, depois, James Agee. O entrevistador quer saber se, quando começa a escrever, o “livro já está inteiramente organizado” na mente de Truman Capote (autor de “A Sangue Frio” e “Bonequinha de Luxo”), ou se vai descobrir os eixos da história ao escrever. Capote responde: “Ambas as coisas. Tenho invariavelmente a impressão de que todo o arco de uma história, seu começo, seu meio e seu fim, ocorre à minha mente de maneira simultânea — que vejo tudo num relance. Mas, ao longo da elaboração, da escrita, acontecem mil surpresas. Graças a Deus, porque a surpresa, a virada, a frase que surge do nada, no momento certo, é o dividendo inesperado, aquele empurrãozinho que faz um escritor seguir em frente”.
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O corrosivo escritor austríaco Thomas Bernhard certamente “preferia” ser herdeiro de filósofos como Schopenhauer e, quem sabe, Nietzsche. Embora sua prosa seja esmagadora, sem concessões, é possível que um de seus pais — inconfesso — seja o suíço Robert Walser. A ironia indireta do romance “Jakob von Gunten — Um Diário” (Relógio D’Água, 161 páginas, tradução de Isabel Castro Silva) é mais, digamos, “sutil” do que os petardos virulentos de Bernhard. Mesmo assim, há certo parentesco, sobretudo na distância que ambos guardam da vida e do pensamento tradicionais. A diferença é que um é indireto e o outro é direto. Walser morreu, “louco” (há quem duvide disto, incluindo o próprio autor, que, perguntado porque não continuava escrevendo no hospício, redarguiu: ‘Eu estou aqui para ser louco, não para escrever”), aos 78 anos, em 1956. Ele era o autor preferido do tcheco Franz Kafka, que, como o suíço e o búlgaro Elias Canetti, escrevia em alemão.
Stálin e Hitler foram tão terríveis que homens cruéis como o cubano Fidel Castro e o líbio Muammar Kadafi parecem apenas porteiros do Hades. Deixemos Stálin, o homem que autorizou a morte de 30 milhões de soviéticos, e fiquemos com Hitler, o líder do nazismo alemão. Na Primeira Guerra Mundial, na década de 1910, o austríaco lutou pela Alemanha, como soldado e, depois, cabo. Era totalmente anódino. Em dez anos, entre 1920 e 1930, tornou-se alguém. No início da década de 1920, depois de uma arruaça travestida de tentativa de golpe, em Munique, foi preso. Na prisão, com o auxílio de Rudolf Hess, escreveu o livro “Minha Luta” — um repositório de ideias mal costuradas e furtadas aqui e ali. Mas nessa obra, em que pesem as deficiências intelectuais flagrantes do autor, há sinais do que seria o nazismo. O “filósofo” mambembe, discípulo tardio de Gobineau, associa, equivocada mas propositadamente, judeus e bolchevismo soviético, sugere a tese do “espaço vital” (para a Alemanha crescer, militar e economicamente, precisava incorporar territórios de outros países, até chegar às férteis terras da Ucrânia). Se não tivesse chegado ao poder, sem a chance de colocar suas ideias em prática, Hitler não obteria, talvez, nem mesmo uma nota no rodapé dos livros de história. Entretanto, ao ser subestimado pelos intelectuais, que o consideravam tão-somente um canastrão político, e ao elaborar um discurso que aplacou o ressentimento do povão e das classes médias, atraindo aos poucos o interesse dos ricos, Hitler tornou-se o homem mais forte da Alemanha. Não chegou ao poder por meio de golpe. Foi convocado pelos líderes alemães.
O Estante Virtual, que reúne os principais sebos do país, permite-nos acesso a obras raras, ou quase raras, por preços quase sempre acessíveis. Adquiri há pouco um livro encantador, “Cartas de Katherine Mansfield” (Portugália, 550 páginas, tradução de Manuela Porto e introdução de João Gaspar Simões), de 1944. Julieta Cupertino, uma de suas melhores tradutoras brasileiras, pôs em português “Diário e Cartas” (Revan). A Cosacnaify lançou “Contos”, numa edição muito bem cuidada e traduzida. Erico Verissimo está entre seus tradutores. Clarice Lispector foi devidamente influenciada pela amiga de Virginia Woolf. As cartas resultam da cabeça de um ser humano raríssimo e extremamente perceptivo. Nascida na Nova Zelândia, em 1889, Katherine Mansfield morreu em 1923, na França, com apenas 34 anos. Pioneiramente, fala de “angústia da influência” (conceito ampliado por Harold Bloom), ao examinar a literatura de um amigo e notar que “repetia” Tchekhov, uma de suas paixões.
Todo mundo sabe quem é o australiano Julian Assange, o criador do WikiLeaks, mas poucos sabem quem é o americano Bradley Manning. Aos 22 anos, Manning foi enviado para o Iraque como soldado especializado em informática. Era atípico: tem 1,57m e pesava 47 quilos. Gay assumido, foi expulso de casa pelo pai e, para sobreviver, decidiu entrar para o Exército. “Ele estava lá por seu talento para manipular computadores. Na função de analista de inteligência, Manning passava longos dias na sala de informática da base [militar], examinando cuidadosamente informações confidenciais”, contam os repórteres David Leigh e Luke Harding, do The Guardian. “Ele ficara impressionado com a falta de segurança. A porta era trancada com uma fechadura de código de cinco dígitos, mas bastava dar um empurrão e era possível entrar.”
A Companhia das Letras vai publicar “A Lebre da Patagônia”, memórias do francês Claude Lanzmann, de 85 anos, em junho. Na quinta-feira, 24, a “Folha de S. Paulo”, por intermédio da “colaboradora” Leneide Duarte-Plon, entrevistou o jornalista, escritor e diretor de filmes. A entrevista contém opiniões contundentes e heterodoxas sobre Oscar Niemeyer e discutíveis sobre Simone de Beauvoir (1908-1986). Sobretudo, é polêmica e, às vezes, divertida.
A canadense Elizabeth Smart (1913-1986) é autora de um romance esplêndido, “By Grand Central Station I Sat Down and Wept” (“En Grand Central Station me Senté e Lloré”, na versão em espanhol). Neste livro, sofrido e prazeroso, conta a história de sua paixão pelo poeta inglês George Barker (1913-1991) — um protegido do vate americano T. S. Eliot. A história, extraordinária e muito bem contada, merece tradução brasileira. Quando penso em Elizabeth Smart lembro-me do britânico D. H. Lawrence, pela relação livre com a sexualidade, ainda que angustiada, e com a natureza. O livro é cult, no estilo (não no conteúdo) de “Werther”, do alemão Goethe. Elizabeth seguia à risca o preceito “penso que um homem põe todo o seu ser em um livro”, de Lawrence. Desconhecida no Brasil, a autora ganhou uma bela biografia, de autoria de Rosemary Sullivan. “Elizabeth Smart” (Circe, 396 páginas, tradução de Laura Freixas) mapeia, com acuidade, a vida, a obra e o tempo da autora. Leio (traduzindo trechos e poemas) a versão em espanhol, editada em Barcelona.
A “Folha de S. Paulo”, um dos melhores jornais brasileiros, comemora 90 anos com uma iniciativa popular. O leitor é convidado a comentar, criticar e oferecer sugestões à redação. “É o momento de lembrar uma manchete de impacto, uma cobertura marcante, um colunista de sua predileção, uma caderno que mais lhe agrade ou uma foto que o tenha impressionado. Deixe um comentário, uma crítica ou uma sugestão.”
Nos oito anos de governo Lula, a “Veja” fez jornalismo de primeira — crítico e cáustico. Marqueteira hábil, a esquerda passou a dizer que a revista fazia parte do Partido Golpista da Imprensa (PIG). Pouco acostumados à imprensa crítica, independente do poder público, muitos brasileiros aderiram à cantilena habilmente articulada em blogs e em pelo menos uma revista de qualidade, a “CartaCapital”. A falta de isenção dos outros veículos é que fazia (e faz) a “Veja”, a “Folha de S. Paulo” e o “Estadão” parecerem “golpistas” e “radicais”, ou, como dizem esquerdistas que posam de honestos mas não o são (em geral são ricos-parasitas posando de socialistas), “de direita”. Esses esquerdistas sequer discutem a veracidade das denúncias publicadas pelas três publicações mais críticas. No afã de atacar a direita, que no país é fraca ideologicamente, ficam cegos à verdade.
Prezado Euler de França Belém, sou o autor do livro sobre Rubens Paiva. Agradeço os elogios e quero rebater as críticas.