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POR EM 02/02/2009 ÀS 05:33 PM

Isaac Singer diz que Schulz é maior do que Franz Kafka

publicado em
Singer, autor de contos e romances quase mágicos, é herético ao dizer que o judeu polonês Bruno Schulz, morto pelos nazistas, é superior ao tcheco Franz Kafka, tido como um dos maiores autores de todos os tempos

 
Isaac Bashevis Singer
 
Em 1976, os escritores judeus Philip Roth e Isaac Bashevis Singer mantiveram uma conversa polêmica. O registro está no livro "Entre Nós — Um Escritor e Seus Colegas Falam de Trabalho" (Companhia das Letras, 172 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto), de Philip Roth. Singer, autor de contos e romances quase mágicos, é herético ao dizer que o judeu polonês Bruno Schulz (1892-1942), morto pelos nazistas, é superior ao tcheco Franz Kafka, tido como um dos maiores autores de todos os tempos. A Editora Imago publicou "Sanatório" (231 páginas, 31 reais, tradução de Henryk Siewerki) e "Lojas de Canela" (180 páginas, 35 reais). "Lojas de Canela", romance autobiográfico, foi resenhado e elogiado po r Singer.
 
Ao iniciar a leitura de Schulz, Singer diz ter pensado: "Este aqui é um escritor de primeira. [...] A minha primeira impressão foi: este homem escreve parecido com Kafka. Há dois escritores que, segundo se diz, escrevem como Kafka. Um deles é Samuel Joseph Agnon, 1888-1970, Prêmio Nobel de Literatura de 1966]. Ele [Schulz] dizia que nunca lera Kafka. [...] Na verdade, ele leu Kafka, sim. [...] Eu não diria que ele foi influenciado por Kafka; existe a possibilidade de que duas ou três pessoas escrevam em estilos parecidos, dentro do mesmo espírito. Porque nem toda pessoa é absolutamente singular. [...] Mas quanto mais eu lia Schulz — talvez eu não devesse dizer isto — eu dizia: ele é melhor do que Kafka. Alguns de seus contos têm mais força. Além disso, ele é muito forte no absurdo, mas não de uma maneira ingênua, e sim inteligente. Eu diria que entre Schulz e Kafka existe uma coisa que Goethe chama de Wahkverwandtschaft, uma afinidade de almas que a própria pessoa escolhe".
 
Discreto, Roth não defende a mesma tese de Singer, sobre Schulz ser "maior" do que Kafka, mas admite sua importância: "Assim como em 'Lojas de Canela' ele reimagina sua cidade nativa, Drohobycz, como um lugar mais terrível e mais maravilhoso do que era na verdade — em parte, diz ele, para 'se libertar das torturas do tédio' —, ele reimagina fragmentos de Kafka para seus próprios fins. Kafka pode ter lhe dado algumas idéias engraçadas, mas o indício mais forte de que os objetivos dele são diferentes é talvez o fato de que no livro de Schulz o personagem que se transforma em barata não é o filho, e sim o pai. Imagine Kafka imaginando uma coisa dessas! Fora de questão. Algumas predileções artísticas são semelhantes, mas elas estão associadas a desejos radicalmente diferentes. Como você sabe, Schulz traduziu 'O Processo' para o polonês em 1936".
 
Embora tenha sido generoso com a prosa estranha de Schulz, Singer ressalvou, numa resenha de 1963, citada por Roth: "Se Schulz tivesse se identificado mais com seu povo, talvez não tivesse gastado tanta energia em imitações, paródias e caricaturas". Ao próprio Roth, Singer disse: "Há muito deboche nos escritos de Schulz e nos de Kafka, se bem que em Kafka o deboche é mais disfarçado. A meu ver, Schulz tinha potencial para escrever romances de verdade, sérios, mas em vez disso escrevia coisas semelhantes a paródias. E acho que, acima de tudo, ele desenvolveu esse estilo porque não se sentia realmente em casa, nem entre os poloneses nem entre os judeus. É um estilo que também caracteriza Kafka, porque Kafka também achava que não tinha raízes".
 
Roth diz que o tédio e a claustrofobia pesam mais na prosa de Schulz. "Me parece inteiramente consciente do fato de que sua imaginação agitada o levava até a fronteira da loucura, ou da heresia. [...] A impressão que se tem é que Schulz mal conseguia se identificar com a realidade, quanto mais com os judeus. Isso nos faz pensar no comentário feito por Kafka sobre as suas afinidades comunitárias: 'O que é que tenho em comum com os judeus? Não tenho quase nada em comum comigo mesmo, e por mim ficaria quietinho num canto, contente por poder respirar'. Schulz não tinha por que ficar em Drohobycz se achava o lugar tão sufocante assim. [...]. Mas é possível que o ambiente claustrofóbico que não atendia às necessidades do homem fosse precisamente o que dava vida à espécie de arte que ele produziu. Uma de suas palavras prediletas é 'fermentação'. Talvez sua imaginação só pudesse fermentar em Drohobycz".
 
Nascido na Polônia, Singer passou a vida escrevendo em iídiche (chegou a ser traduzido pelo excepcional prosador Saul Bellow) e mudou-se para os Estados Unidos para fugir do nazismo. Roth pergunta: "E ao sair da Polônia, você teve medo de perder o contato com o seu material?" Singer responde: "É claro, e esse medo se tornou ainda mais forte quando cheguei a este país. Cheguei aqui e vi que todo mundo falava inglês". Numa reunião de chassídicos, duzentas mulheres diziam: "delicious, delicious, delicious" (delicioso). "Naquele momento", diz Singer, "a Polônia me pareceu muito distante. Quando morre uma pessoa que é próxima a você, nas primeiras semanas depois da morte essa pessoa fica tão distante de você quanto é possível se estar; é só com o passar dos anos que ela se torna mais próxima, e aí chega um momento em que você está quase vivendo com ela. Foi o que aconteceu comigo. A Polônia, a vida judaica na Polônia, está mais próxima de mim agora do que estava naquela época".

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POR EM 31/01/2009 ÀS 06:14 PM

Tarso de Castro

publicado em
Tarso de Castro ganha biografia que expõe sua história sobre a criação do jornal que abalou a República e relata a paixão da atriz americana Candice Bergen pelo jornalista
 
 
O jornalista que criou o Pasquim  e domou a atriz Candice Bergen
 
Para alguns jornalistas, como o excelente Ruy Castro, nada é mais importante do que Ipanema. A Segunda Guerra Mundial certamente começou, em 1939, porque Millôr Fernandes, o guru de Paulo Francis e Ruy Castro, estava com dor de dente. Então, como o Rio de Janeiro, que a "turma" chama de "Rio", é o centro do universo, discute-se, em livros e jornais, como se fosse a informação mais relevante do mundo, a verdadeira paternidade de O Pasquim, depois apenas Pasquim, sem o artigo. Há, claro, a tendência, admitida até pelo patoteiro milloriano Ruy Castro, de excluir o nome de um dos fundadores do tablóide que mexeu com os nervos e mandíbulas (todos riam, militares na linha de frente) - o jornalista gaúcho Tarso de Castro. Agora, finalmente, surge a versão de outra patota, a de Tarso de Castro, morto, de tanto ingerir (putz!, dirá a turma do Pasca) bebida alcoólica - seu café da manhã era vodca. O livro 75 Kg de Músculos e Fúria: Tarso de Castro - A Vida de Um dos Mais Polêmicos Jornalistas Brasileiros, do jornalista Tom Cardoso, publicado pela Editora Planeta, resgata e restaura a história do fundador do Pasquim, tido, por muitos, apenas como "porra-louca". E ele era, mas não só isso.

Ruy Castro, no livro de baba-ovismo Ela É Carioca - Uma Enciclopédia de Ipanema (subtítulo ideal: "Deus criou o mundo a partir de Ipanema"), editado pela Companhia das Letras, traça a história do Pasquim com certa isenção, mas puxando sardinha, é claro, para a armada de Millôr Fernandes. Ruy Castro, que felizmente não é parente de Fidel Castro, escreve: "... O Pasquim [fundado em junho de 1969] sobreviveu àquele período inicial porque era diferente do que todo mundo esperava. Os militares, que não tolerariam uma oposição política explícita, custaram a perceber que o deboche do jornal na área dos costumes e da cultura o tornava ainda mais 'subversivo'". Um dos segredos do sucesso, registra Ruy Castro, é que os jornalistas e colaboradores "podiam escrever do jeito que quisessem. (...) O Pasquim não parecia 'escrito', mas 'falado'. (...) Mas a grande atração eram as entrevistas, desde a nº 1, com Ibrahim Sued. Elas não eram 'editadas'. Não se tratava de uma estratégia editorial, mas, no caso das primeiras entrevistas, de preguiça e correria mesmo. O público adorava aquela espontaneidade e ela se tornou padrão nas entrevistas. Os leitores adotaram apaixonadamente o Pasquim e fizeram sua circulação disparar: 14 mil exemplares no nº 1; 94 mil no nº 19; 117 mil no nº 22 (com a entrevista de Leila Diniz); 140 mil no nº 23; 200 mil no nº 27". A grande fase do jornal ocorreu entre 1969 e 1975. Com a distensão e a abertura, o jornal ficou sério demais e perdeu público. Mas o jornal abriu espaço para o Opinião e para o Movimento, jornais mais engajados.
 

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POR EM 27/01/2009 ÀS 11:56 AM

Joyce Carol Oates produz obra-prima

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O lei­tor do ro­man­ce efe­ti­va­men­te não pre­ci­sa sa­ber que a his­tó­ria de Oa­tes é ba­se­a­da em fa­tos re­ais — fic­cio­na­li­za­dos pa­ra se­rem ilu­mi­na­dos, por­que o re­al sem um pou­co de luz extra, das co­res da fic­ção, di­ga­mos as­sim, per­de a gra­ça — pa­ra en­ten­der que se tra­ta de uma his­tó­ria po­de­ro­sa


 
Joyce Ca­rol Oa­tes

"A Fi­lha do Co­vei­ro" (Al­fa­gu­a­ra, 599 pá­gi­nas, tra­du­ção afi­a­da de Ve­ra Ri­bei­ro), obra-pri­ma de Joyce Ca­rol Oa­tes, é um ro­man­ce que exi­be a be­le­za (Re­bec­ca Schwart, a mú­si­ca de Be­e­tho­ven) cer­ca­da por imen­sa dor (na­zis­mo ale­mão, in­to­le­rân­cia ame­ri­ca­na, vi­o­lên­cia fa­mi­liar). Uma tra­gé­dia gre­ga, con­ta­da por uma Dos­toi­évski que ves­te saia, com uma es­pé­cie de re­den­ção, mas não re­li­gi­o­sa, e sim ter­ri­vel­men­te hu­ma­na.

Nu­ma en­tre­vis­ta ao "El Pa­ís", con­ce­di­da a An­drea Agui­lar, em ou­tu­bro de 2008, Oa­tes ex­pli­ca co­mo cons­tru­iu o ro­man­ce. Em maio de 1986, seu pai, sep­tu­a­ge­ná­rio, con­ta-lhe, ca­su­al­men­te, um se­gre­do de fa­mí­lia guar­da­do a se­te-cha­ves: a his­tó­ria de seu avô Mor­gen­stern que, de­pois de ati­rar na mu­lher, ma­tou-se com um ti­ro. Blan­che Mor­gen­stern, a fi­lha do ca­sal, es­ta­va no mes­mo re­cin­to. O bi­sa­vô de Oa­tes era co­vei­ro. No li­vro, a úni­ca pis­ta da­da pe­la es­cri­to­ra es­tá na de­di­ca­tó­ria: "Pa­ra mi­nha avó, Blan­che Mor­gen­stern, a 'fi­lha do co­vei­ro'".

Pos­ta a in­for­ma­ção, o lei­tor po­de pen­sar que se tra­ta de uma bi­o­gra­fia e não de um ro­man­ce, o que não é, po­rém, cer­to. "A Fi­lha do Co­vei­ro" é uma be­la obra de fic­ção, mas, co­mo é ba­se­a­da em fa­tos re­ais, ex­pli­ca­dos e adensados pe­los am­plos re­cur­sos da fic­ção, que cria vi­da on­de os do­cu­men­tos e a me­mó­ria fa­lham, a pró­pria Oa­tes ex­pli­cou-se na en­tre­vis­ta ao "El Pa­ís". "A fic­ção e a au­to­bi­o­gra­fia — que ami­ú­de é uma me­mó­ria se­mi­fic­cio­na­li­za­da — são mei­os pa­ra ex­plo­rar o pas­sa­do. É pre­ci­so ima­gi­nar, mas não in­ven­tar; se há in­ven­ções, fic­ção pu­ra, is­so de­ve bro­tar do re­al, do que ver­da­dei­ra­men­te ocor­reu", dis­se Oa­tes. "En­fren­tei a his­tó­ria as­som­bro­sa da vi­da de mi­nha avó, mas não po­dia apro­pri­ar-me de­la di­re­ta­men­te por­que não sa­bia re­al­men­te na­da de pri­mei­ra mão. Só po­dia che­gar a ela de for­ma elíp­ti­ca e por in­ter­mé­dio da ar­te. Ain­da as­sim pen­so que a voz que ima­gi­nei pa­ra mi­nha avó re­fli­ta de for­ma exa­ta a sim­pa­tia, o pa­thos e a no­tá­vel re­sis­tên­cia de sua vi­da des­co­nhe­ci­da", acres­cen­ta a pro­sa­do­ra. "Um dos da­dos que Oa­tes des­co­nhe­cia so­bre Blan­che era sua as­cen­dên­cia ju­dia", re­ve­la An­drea Agui­lar.

O lei­tor do ro­man­ce efe­ti­va­men­te não pre­ci­sa sa­ber que a his­tó­ria de Oa­tes é ba­se­a­da em fa­tos re­ais — fic­cio­na­li­za­dos pa­ra se­rem ilu­mi­na­dos, por­que o re­al sem um pou­co de luz extra, das co­res da fic­ção, di­ga­mos as­sim, per­de a gra­ça — pa­ra en­ten­der que se tra­ta de uma his­tó­ria po­de­ro­sa.

Fu­gin­do dos am­plos ten­tá­cu­los do na­zis­mo de Hit­ler, o ca­sal Ja­cob e An­na Schwart che­gam aos Es­ta­dos Uni­dos, com três fi­lhos, Hers­chel, o mais ve­lho, Au­gust (Gus) e a caçula Re­bec­ca, que, nas­ci­da no na­vio, é ci­da­dã ame­ri­ca­na. Re­bec­ca é Blan­che Mor­gen­stern, a avó de Oa­tes.

Na Ale­ma­nha, Ja­cob era pro­fes­sor de ma­te­má­ti­ca e lia fi­ló­so­fos, co­mo He­gel e Scho­pe­nhau­er, e An­na to­ca­va pi­a­no e ama­va a mú­si­ca de Be­e­tho­ven. Um ca­sal ju­deu de clas­se mé­dia. Nos Es­ta­dos Uni­dos, de­sen­ra­i­za­do, Ja­cob con­se­gue ape­nas o em­pre­go de co­vei­ro, em Mil­burn.

Não era uma vi­da fá­cil, e ale­mã­es na­que­le tem­po, mes­mo não na­zis­tas e mes­mo ju­deus, eram exe­cra­dos pe­los nor­te-ame­ri­ca­nos, es­pe­ci­al­men­te os jo­vens. Pa­ra pro­te­ger a fa­mí­lia, Ja­cob ten­tou iso­lá-la do mun­do. Pro­i­biu a mu­lher de fa­lar ale­mão e obri­gou os fi­lhos a não te­rem ami­gos. Era co­mo se ti­ves­se in­ven­ta­do seu pró­prio gue­to. Mo­ra­vam nu­ma ca­si­nha su­ja e ve­lha no in­te­ri­or do ce­mi­té­rio. Não ra­ro a ca­sa e tú­mu­los eram pi­cha­dos com a su­ás­ti­ca na­zis­ta. Ja­cob fi­ca­va hor­ro­ri­za­do e ten­ta­va apa­gar a pre­sen­ça os­ten­si­va da in­to­le­rân­cia ame­ri­ca­na.

Um dia, Ja­cob com­pra um rá­dio, mas não per­mi­te que nin­guém da fa­mí­lia o li­gue. Só o co­vei­ro po­de ou­vir as no­tí­cias, que o ir­ri­tam quan­do tra­tam das vi­tó­rias de Hit­ler. Quan­do Ja­cob sai, An­na às ve­zes cha­ma Re­bec­ca pa­ra ou­vir mú­si­ca eru­di­ta — o que, mais tar­de, vai mar­car a for­ma­ção do fi­lho de Re­bec­ca.

Quan­do Hers­chel e Gus sa­em de ca­sa, fu­gin­do da ti­ra­nia do pai, ti­ra­nia com a qual acre­di­ta­va que pro­te­gia sua fa­mí­lia, Ja­cob, tal­vez por jul­gar que per­deu o con­tro­le da fa­mí­lia e por não ter cum­pri­do a pro­mes­sa de uma vi­da me­lhor pa­ra to­dos, ma­ta a en­tor­pe­ci­da An­na e se ma­ta. Re­bec­ca fi­ca vi­va, apa­ren­te­men­te por­que, sen­do ame­ri­ca­na, na­da se po­de­ria fa­zer con­tra ela, na vi­são do pai, uma ví­ti­ma tar­dia do na­zis­mo e de seus pró­prios me­dos.

Com a mor­te do pai, Re­bec­ca re­nas­ce, por as­sim di­zer. Mas, an­tes de se tor­nar adul­ta, mo­ra na ca­sa de uma re­li­gi­o­sa, a pro­fes­so­ra apo­sen­ta­da Ro­se Lut­ter. Re­bec­ca sai de ca­sa, ain­da me­nor, por não su­por­tar a ca­ro­li­ce da tu­to­ra.

Jun­ta-se a ami­gas e co­me­ça a tra­ba­lhar num ho­tel, co­mo ca­ma­rei­ra. Aí, de cer­to mo­do, des­co­bre o mun­do. Um hós­pe­de ten­ta es­tu­prá-la e ou­tro hós­pe­de, Ni­les Tig­nor, a protege.

Tig­nor, ho­mem for­te e im­po­nen­te, con­quis­ta o co­ra­ção de Re­bec­ca, uma ga­ro­ta durona de 17 anos. Ca­sam-se. Tig­nor, con­quis­ta­dor in­ve­te­ra­do, diz que é re­pre­sen­tan­te de uma cer­ve­ja­ria e, no iní­cio, car­re­ga Re­bec­ca por vá­ri­as ci­da­des ame­ri­ca­nas. De­pois, ins­ta­la-a, grá­vi­da, nu­ma ca­sa ve­lha de fa­zen­da. Pa­ra ter o fi­lho, Ni­ley, Re­bec­ca pre­ci­sa da aju­da de vi­zi­nhos pa­ra le­vá-la ao hos­pi­tal. Tig­nor es­ta­va no mun­do e, co­mo não lhe da­va mais di­nhei­ro, Re­bec­ca te­ve de tra­ba­lhar na fá­bri­ca Tu­bos de Fi­bra Ni­á­ga­ra. Um tra­ba­lho du­ro, mas ne­ces­sá­rio.

Com o tem­po, Tig­nor per­de o vi­ço e o em­pre­go, en­vol­ven­do-se com cri­mi­no­sos. Tor­na-se ciu­men­to e vi­o­len­to. Es­pan­ca bru­tal­men­te Re­bec­ca e o pe­que­no Ti­ley. Pa­ra so­bre­vi­ver e, so­bre­tu­do, sal­var o fi­lho, a co­ra­jo­sa Re­bec­ca es­pe­ra Tig­nor dor­mir e fo­ge.

Pa­ra es­ca­par de Tig­nor, e tal­vez de sua pró­pria his­tó­ria fa­mi­liar ma­ca­bra, Re­bec­ca mo­ra em vá­ri­as ci­da­des dos Es­ta­dos Uni­dos. Nu­ma das ci­da­des, con­se­gue mu­dar seu no­me e o de Ni­ley. Ela pas­sa a se cha­mar Ha­zel Jo­nes e Ni­ley se tor­na Za­cha­ri­as Au­gust Jo­nes. Os dois rein­ven­ta­ram-se, pa­ra so­bre­vi­ver e se­guir no­vo ca­mi­nho.

Nu­ma das ci­da­des pa­ra on­de se mu­dam, Re­bec­ca-Ha­zel co­nhe­ce o pi­a­nis­ta de jazz e jor­na­lis­ta Chet Gal­lag­her, fi­lho de uma es­pé­cie de Ro­ber­to Ma­ri­nho dos Es­ta­dos Uni­dos.

Chet des­co­bre que Zack é apai­xo­na­do por pi­a­no e fi­nan­cia seus es­tu­dos. Sob ori­en­ta­ção de um pro­fes­sor ju­deu, Zack de­sen­vol­ve seu ta­len­to. Ha­zel ca­sa-se com Chet, mes­mo sem amá-lo. Bo­ni­ta e sen­su­al, Ha­zel é uma pre­sen­ça ilu­mi­na­do­ra — há um quê de fan­tas­mal ou má­gi­co nes­ta per­so­na­gem sólida como uma rocha.

O vir­tu­o­se Zack en­can­ta a to­dos no mun­do do pi­a­no. Ha­zel fi­ca fe­liz com o su­ces­so do ga­ro­to, co­mo se fos­se um pre­sen­te tar­dio à sua mãe que, no par­di­ei­ro do ce­mi­té­rio, le­vou-a es­cu­tar a mú­si­ca "Ap­pas­sio­na­ta" de Be­e­tho­ven to­ca­da por Ar­thur Schna­bel. Num ra­ro mo­men­to de in­ti­mi­da­de, a la­cô­ni­ca An­na diz pa­ra a garota Re­bec­ca: "Quan­do eu era me­ni­na, na mi­nha ve­lha ter­ra [Munique, na Ale­ma­nha], to­ca­va es­sa ´Ap­pas­sio­na­ta´. Não co­mo o Schna­bel, não to­ca­va, mas ten­ta­va". Sem o sa­ber, ao to­car "Ap­pas­sio­na­ta", Zack ar­ran­cou An­na do tú­mu­lo e res­tau­rou o tem­po per­di­do. Um pe­da­ço de Re­bec­ca, que ha­via si­do am­pu­ta­do na in­fân­cia, po­de ser ins­ta­la­do em seu cor­po.

Qua­se no fi­nal, há dois mo­men­tos di­la­ce­ran­tes. Gus vê Re­bec­ca, mas es­ta fin­ge que não o co­nhe­ce, por­que já era a ri­ca e protegida Ha­zel Jo­nes e não que­ria que o pas­sa­do vol­tas­se a as­som­brá-la — mais do que sua me­mó­ria im­pla­cá­vel a ator­men­ta­va. De­pois, des­co­bre que Freyda, a pri­ma que jul­ga­va mor­ta pe­lo na­zis­mo, é uma ci­en­tis­ta fa­mo­sa, au­to­ra de uma au­to­bi­o­gra­fia na qual con­ta a his­tó­ria de sua fa­mí­lia num cam­po de con­cen­tra­ção e ex­ter­mí­nio. Freyda esnoba a prima e, quando de­ci­de en­con­trá-la, é mui­to tar­de. Re­bec­ca-Ha­zel, com cân­cer, não tem mais condições de se comunicar.

Freyda es­cre­ve nu­ma car­ta aqui­lo que tal­vez re­su­ma o ro­man­ce: "Os fa­tos só são 'ver­da­dei­ros' de­pois de ex­pli­ca­dos". Fiz uma sín­te­se pá­li­da do ro­man­ce, mas na­da dis­se so­bre a for­ma po­de­ro­sa e su­til de Oa­tes narrar sua bela e dolorosa história. A lin­gua­gem do ro­man­ce é, de cer­to mo­do, sua mais po­de­ro­sa "per­so­na­gem".

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POR EM 25/01/2009 ÀS 06:01 PM

Philip Roth: um grande entrevistador

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“Hoje em dia considero ‘Ulisses’ o livro mais divertido, brilhante, complexo e menos chato de todos que já li. A qualquer momento eu posso pegá-lo, ler algumas páginas e sentir que acabei de ter uma transfusão de cérebro. Quanto a me sentir intimidado, a questão não cabe — Joyce está simplesmente além dos limites, além de todos nós, lá nas ‘longínquas ilhas dos Açores’, como ele dizia”

Philip Roth não é apenas um excelente prosador, autor de romances que certamente serão lidos daqui a cem anos com o mesmo prazer com o qual são lidos hoje. É também ótimo entrevistador e crítico, como prova o livro “Entre Nós — Um Escritor e Seus Colegas Falam de Trabalho” (Companhia das Letras, 172 páginas).

Roth conversa com Primo Levi, Aharon Appelfeld, Ivan Klíma, Isaac Bashevis Singer, Milan Kundera, Edna O´Brien, relê Saul Bellow, retratae Bernard Malamud (autor de “O Faz-Tudo”, Editora Record) e comenta desenhos de Guston.

Começo pelo texto mais tortuoso e comovente. Roth e Malamud foram amigos e se visitavam. Eles se conheceram em 1961. Roth o chama de Bern.

O crítico Roth anota: “A meu ver, ele [Malamud] estava fazendo pelos judeus solitários e suas maneiras de fracassar, típicas dos imigrantes e dos judeus — por aqueles malamudianos “que não paravam de sofrer” — tanto quanto Samuel Beckett, em suas obras de ficção mais longas, fazia pelos infelizes Molloy e Malone. Os dois escritores [...] isolavam as memórias raciais do contexto social e histórico [...], criavam parábolas de frustração embebidas da gravidade dos filósofos mais pessimistas”.

Em 1985, Roth visita Malamud e descobre que o amigo está muito doente. Diz, citando William Blake, que “a oposição é a verdadeira amizade”, mas, quando Malamud mostra-lhe o esboço de uma história que deveria ser transformada em romance, fica indeciso sobre o que dizer. “Nunca antes ele pedira minha opinião a respeito de uma obra ainda em construção, e seu pedido me surpreendeu.” Malamud exibe trechos do romance em andamento e quis saber a opinião do amigo. “Eu não queira mentir para ele; porém, vendo aquelas poucas páginas tremendo em suas mãos frágeis, não fui capaz de dizer a verdade, mesmo que ele esperasse isso de mim. Um pouco evasivo, comentei que aquilo parecia um começo como qualquer outro. [...] Tentando ser construtivo, observei que a narrativa começava devagar demais e que talvez fosse melhor começar a ler um trecho mais adiante, num dos capítulos posteriores. Perguntei-lhe para onde a história caminhava.” Malamud irritou-se: “O que vem depois não vem ao caso”. Apesar disso, a amizade foi mantida, até o fim — Malamud morreu em 1986.

Perguntado se não se sente estranho na França, culturalmente isolado, O tcheco Milan Kundera diz: “Gosto muitíssimo da cultura francesa, e devo muito a ela. Em particular, à literatura mais antiga. Rabelais é, de todos os escritores, o que mais amo. E Diderot. Adoro ‘Jacques, o Fatalista’, tanto quanto adoro Laurence Sterne. Eles foram os maiores experimentadores formais de toda a história do romance. E os experimentos deles foram, digamos, divertidos, cheios de alegria e júbilo, coisas que desapareceram da literatura francesa e sem as quais tudo na arte perde o significado. Sterne e Diderot viam o romance como um grande jogo. Eles descobriram o humor da forma romanesca. Quando ouço pessoas argumentando a sério que o romance esgotou suas possibilidades, o que sinto é exatamente o contrário; no decorrer de sua história, o romance deixou de lado muitas possibilidades. Por exemplo, há impulsos para o desenvolvimento do romance ocultos em Sterne e Diderot que não foram explorados por nenhum sucessor”.

Convém ler o que diz Kundera: “[...] As pessoas gostam de dizer: a Revolução é bela; é só o terror que decorre dela que é mau. Mas isso não é verdade. O mal já está presente na beleza, o inferno já está contido no sonho do paraíso, e se queremos compreender a essência do inferno, é necessário examinar a essência do paraíso em que ele tem origem. É muito fácil condenar os gulags, mas rejeitar a poesia totalitária que leva ao gulag passando pelo paraíso continua sendo tão difícil quanto sempre foi. Hoje em dia [a conversa com Roth é de 1980], em todo o mundo, as pessoas rejeitam categoricamente a idéia do gulag, porém ainda se deixam ser hipnotizadas pela poesia totalitária e marcham rumo aos novos gulags ao som da mesma canção lírica cantada por [Paul] Éluard no tempo em que ele pairava sobre Praga como o grande arcanjo da lira, enquanto a fumaça do cadáver de Kalandra subia ao céu, saindo da chaminé do crematório”.

O que motivou Roth a entrevistar, ou conversar, com Kundera foi o romance (ou quase-romance) “O Livro do Riso e do Esquecimento”. Diz Kundera: “Esse [o esquecimento] é o grande problema privado do homem: a morte como perda do eu. Mas o que é esse eu? É o somatório de tudo daquilo que lembramos. Assim, o que nos apavora na morte não é a perda do futuro, e sim a perda do passado. O esquecimento é uma forma de morte que está sempre presente na vida”.

“O evento básico do livro”, acrescenta Kundera, “é a história do totalitarismo, que rouba a memória das pessoas e desse modo as transforma numa nação de crianças. Todos os totalitarismos fazem isso. E talvez toda a nossa era técnica faça isso, com seu culto do futuro, da juventude e da infância, sua indiferença ao passado, sua desconfiança em relação ao pensamento. No seio de uma sociedade implacavelmente juvenil, um adulto dotado de memória e ironia se sente como Tamina na ilha de crianças”. Adiante, afirma: “Um romance não afirma nada; ele busca e formula questões. [...] A burrice das pessoas vem de elas terem uma resposta para tudo. A sabedoria do romance vem de ele ter uma pergunta para tudo”.

A conversa com a escritora irlandesa Edna O’Brien é um espetáculo à parte, pela inteligência e capacidade de articulação. No Brasil foram publicados apenas o romance “Dezembros Selvagens” (Bertrand Brasil, 39 reais, 304 páginas) e a biografia “James Joyce” (esgotada).

Inquirida por Roth a respeito de explorar tanto a infância em seus livros, Edna diz: “O período da vida em que você está mais vivo e mais consciente é a infância, e a gente passa o resto da vida tentando recuperar aquela consciência acentuada”.

O pai de Edna era violento, ela foi educada num convento e viveu numa fazenda isolada. Disto não deveria resultar muita coisa, sugere Roth, mas deu numa escritora notável. “Minha própria resistência me surpreende, sim, mas não acho que sobrevivi a isso tudo incólume. Não sei dirigir nem nadar; essas atividades estão além das minhas forças. Sob vários aspectos eu me sinto aleijada. O corpo era sagrado como um tabernáculo, e tudo era potencialmente pecaminoso. Agora parece engraçado, mas na verdade nem tanto — o corpo contém a história da vida tanto quanto o cérebro. Eu me consolo com a idéia de que se uma parte é destruída, a outra floresce”.

Sobre James Joyce: “Hoje em dia considero ‘Ulisses’ o livro mais divertido, brilhante, complexo e menos chato de todos que já li. A qualquer momento eu posso pegá-lo, ler algumas páginas e sentir que acabei de ter uma transfusão de cérebro. Quanto a me sentir intimidado, a questão não cabe — Joyce está simplesmente além dos limites, além de todos nós, lá nas ‘longínquas ilhas dos Açores’, como ele dizia”.

A respeito das mulheres, quando Roth pergunta se são tão promíscuas quanto os homens: “Às vezes são, mas a promiscuidade não dá a elas a mesma sensação de realização. A mulher, ouso afirmar, é capaz de um amor mais profundo e mais duradouro. Eu acrescentaria também que ela tem mais medo de ser abandonada. [...] O que nós sentimos e fazemos é o que nos determina. As mulheres não estão mais seguras em suas emoções do que antes. Apenas sabem lidar com elas melhor. A única segurança verdadeira seria abrir mão dos homens, afastar-se deles, mas isso seria uma pequena morte — ao menos para mim”.


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POR EM 10/12/2008 ÀS 08:10 PM

A vingança de Roberto Marinho contra Adolpho Bloch

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Quebrado, Adolpho Bloch saiu à caça de um salvador da pátria. O único que poderia salvá-lo era Roberto Marinho. A história é contada pelo próprio criador da Manchete: "Esperei quatro horas e quando entrei ele tentou falar primeiro, mas eu fui mais rápido: ´Doutor Roberto, eu preciso de ajuda´. Ele demorou uma eternidade para responder. ´Adolpho, há dez anos eu estou esperando você retornar o meu telefonema. Passar bem´. E a secretária me levou até a porta"

A vingança é um prato que, às vezes, se come frio. No governo de Leonel Brizola, a Manchete conquistou o direito de transmitir ao vivo, com exclusividade, os desfiles das escolas de samba em 1984. "Roberto Marinho telefonou várias vezes para Adolpho [Bloch], em busca de uma solução compartilhada." Conluiado com Brizola, o empresário não atendeu el rei. A TV de Adolpho Bloch obteve altos índices de audiência e faturou muito dinheiro. "Era a primeira e inédita derrota de Marinho", diz o jornalista Arnaldo Bloch. Anos depois, quebrado, Adolpho saiu à caça de um salvador da pátria. O único que poderia salvá-lo era Roberto Marinho. A história é contada pelo próprio criador da Manchete: "Esperei quatro horas e quando entrei ele tentou falar primeiro, mas eu fui mais rápido: ´Doutor Roberto, eu preciso de ajuda´. Ele demorou uma eternidade para responder. ´Adolpho, há dez anos eu estou esperando você retornar o meu telefonema. Passar bem´. E a secretária me levou até a porta". A história está relatada no excelente "Os Irmãos Karamabloch — Ascensão e Queda de um Império Familiar" (Companhia das Letras, 339 páginas), do jornalista Arnaldo Bloch, colunista de "O Globo".

Quando Adolpho pôs a Manchete no ar, em 1983, conquistou até mesmo o apoio de Roberto Marinho, depois de garantir ao rei: "Que é isso, doutor Roberto. Novela não é coisa pra mim". Marinho enviou até Boni para ajudar a montar a tevê.

Quem espera uma biografia da família Bloch, detalhada e cronológica, deve desistir da leitura. Mas quem gosta de boas histórias sobre uma família de realizadores, complicados e ousados, está diante de um livro que relata bastidores deliciosos. Diferentemente da biografia de Roberto Marinho escrita pelo jornalista Pedro Bial, o texto de Bloch não preserva a família nem edulcora suas histórias. É um retrato simpático, mas nu e cru (conta até a história do avô, Arnaldo, que morreu transando com a amante). Bóris, Arnaldo e Adolpho brigavam muito, daí o jornalista Otto Lara Resende, empregado de Adolpho, ter chamado o três de "irmãos Karamabloch". "Os Bloch eram um só torvelinho: uma família solidamente unida pela desunião", disse Otto.

Adolpho ficou famoso por ter criado a revista "Manchete", que, durante certo momento, superou a famosa "O Cruzeiro", de Assis Chateaubriand, o Chatô. Depois, começou a fazer água e o empresário, eternamente endividado, tentou vendê-la para Roberto Marinho e Samuel Wainer. A saída? A contratação do jornalista Hélio Fernandes, irmão de Millôr Fernandes e pai do atual editor-chefe de "O Globo", Rodolfo Fernandes. Hélio impôs uma condição: "Quero total independência na linha editorial". "Mas não posso nem palpitar?", perguntou Adolpho. "Não. Só vai ver a revista depois de impressa." Deu certo: a revista voltou a crescer e a dar lucro. Tinha colaboradores como Fernando Sabino, Rubem Braga, Antônio Maria, Leon Eliachar, Ibrahim Sued e Carlinhos de Oliveira.

Apesar do sucesso, a empresa estava sempre descapitalizada, mas Adolpho era craque na arte de explorar os atentíssimos bancos. Relata Arnaldo: "E, na arte de tirar dinheiro de pedra, ele era o rei. Criou um notável sistema de compensação de cheques, geralmente envolvendo o Banco do Brasil e o Banco de Crédito Real de Minas Gerais, na Praça da Bandeira. A coisa funcionava mais ou menos assim: depositava o cheque descoberto do Crédito Real no caixa do Banco do Brasil; fazia o saque, na confiança, com o gerente, que segurava o cheque até ele cobrir o saldo; cobria o saldo no Crédito Real com um outro cheque, este do Banco do Banco do Brasil, contando com a paciência do respectivo gerente; voltava ao Banco do Brasil e começava tudo de novo". Daria, como se vê, um puta financista.

Um dia, com as torneiras fechadas pelos banqueiros, Adolpho atacou o caixa do boteco do Joaquim. "Você está rico, Joaquim. Eu estou morrendo." "Morrendo de quê? O senhor está até corado!" "Me dá!" "Não dou, seu Adolpho!" "Você não era nada, eu te salvei, te dei freguesia!" "Com todo o respeito, isso não lhe dá o direito de dispor do meu caixa!" "Me dá!" O relato de Arnaldo: "Num acesso, passou pela portinhola sob o balcão, invadiu a tasca, tirou o Joaquim do caminho e avançou sobre o caixa". A caminho do banco, Adolpho gritou: "Joaquim, você é um santo. Deus vai te pagar. E ieu [como dizia eu] também".

Noutra ocasião, em Roma, Adolpho encontrou o poeta Paulo Mendes Campos e disse: "Amanhã vamos ver o homem." "Que homem?", perguntou Paulo. "Na janela. Ele aparece todo dia." "Adolpho, você é judeu e eu sou poeta!" "Judeu, poeta, todo mundo tem que ver o papa."

Foram ver o papa Pio XII. "Quando o velhinho deu as caras e o povo o saudou, Paulo, que cochilava em pé, acordou assustado. A seu lado, Adolpho, de braços esticados, brandia, na direção da janela papal, um grosso maço de papel." Paulo inquiriu: "Que merda é essa, Adolpho?" "Depois eu explico." Só foi explicar um mês depois. Adolpho convocou Paulo e passou a conversar, por telefone, com o banqueiro Magalhães Pinto, do Banco Nacional. "Magalhães? Espera um minutinho que o poeta Paulo Mendes Campos vai falar." E recomendou ao poeta: "Diz pra ele, Paulinho, quem abençoou as duplicatas". "Foi o papa", disse o escritor. "Meia hora depois o portador do banqueiro veio buscar os papéis que ele endossou, pessoalmente, um a um", conta Arnaldo.

O poeta Ferreira Gullar era revisor da "Manchete" e Otto Lara Resende convocou-o para militar na redação. "Não pode, iele [ele] é revisor", barrou Adolpho. Lara Resende insistiu: "Adolpho, este revisor é um dos maiores poetas brasileiros, em nascedouro!" O empresário contra-atacou: "Mas é revisor". Certo dia, com Rubem Braga de porre, Gullar escreveu sua crônica. "Otto, adorei a última crônica do Rubem", disse Adolpho. "Pois saiba, Adolpho, que esta crônica do Braga na verdade foi escrita pelo revisor Ferreira Gullar."

O jornalista e político Carlos Lacerda atacava Samuel Wainer e também o judeu Arnaldo Bloch. Mas as irmãs de Adolpho adoravam o udenista. "Eu não voto no senhor, mas elas sim", confidenciou Adolpho. Mina, uma das irmãs de Adolpho, "passava horas assistindo aos discursos na tevê. O sobrinho Leonardo implicava. Punha-se na frente da televisão, checava se havia alguém por perto e mostrava o peru". "Olha o Lacerdaaaa!".

Depois do golpe civil-militar de 1964, "numa recepção para militares cinco estrelas para a qual alguns homens de imprensa são convidados, Adolpho conversa com Manuel Francisco do Nascimento Britto, do ´Jornal do Brasil´. Diz-lhe: ´Ieles [eles] não vão sair cedo de Brasília.´´Como é que você pode ter certeza, Adolpho?´´Olha a alegria das mulheres dos generais. Você tem alguma dúvida?´"

Leal ao senador Juscelino Kubitschek, que teve seus direitos políticos cassados, Adolpho foi, segundo Arnaldo, a "voz fundamental a convencê-lo a partir para o auto-exílio". Chegou a arriscar "a pele para ajudá-lo". "´Tem judeu afrontando a Revolução´, mandaria dizer dona Yolanda Costa e Silva, instalada no camarote vizinho ao de Adolpho, no Carnaval do Municipal, em 1965, quando o público cantou em peso o ´Peixe Vivo´e o russo acompanhou. O tumulto foi tal que, na saída, a primeira-dama levou até mão na bunda da irreverência popular. Leal ao cliente e contumaz descontador de duplicatas, o golpista Magalhães Pinto procuraria Adolpho para avisar que estavam querendo prendê-lo. Um militar da altíssima, cruzando no calçadão da Atlântica com um sobrinho do editor, exaltaria a coragem do homem: ´Você não é sobrinho do Bloch? Pois vou dizer: ele tem colhão´". Naturalmente, apesar da proteção a JK, Adolpho não fez oposição à ditadura. Pelo contrário, pragmático, integrou-se à tese do "Brasil potência".

Em 1976, JK disse ao amigo: "Quer saber, Adolpho? Bateu saudade da Maria Lúcia [Pedrosa, amante do mineirinho]. Vou de carro para o Rio". "Não faz isso, presidente. Vai de avião", sugeriu o dono da "Manchete". Morto o presidente bossa nova, Carlos Lacerda visita Adolpho e, aos soluços, o abraça. "´Ele era realmente um grande estadista´, lamentou, em lágrimas de crocodilo", escreve Arnaldo.

A hora da novela — Chatô e Roberto Marinho foram decisivos para a consolidação da televisão brasileira. Mas Adolpho também deu sua contribuição. A Manchete, pelo menos no início, talvez tenha sido a primeira televisão intelectualizada do país. O "Jornal da Manchete" teria chegado a influenciar até mesmo o jornalismo da Globo. Era mais penetrante. Mas Adolpho rompeu o trato com o doutor Roberto: "Agora ieu [eu] quero novela".

Não há dúvida de que a Globo é responsável pelas melhores novelas do país. Mas a Manchete foi a tevê que mais chegou perto do padrão globo de qualidade, eventualmente, superando-o. Como Adolpho queria novela, o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony assumiu o comando do núcleo de teledramaturgia. A minissérie "Marquesa", sobre a marquesa de Santos, estrelada pela bela Maitê Proença e por Gracindo Jr., alcançou sete pontos de audiência.

A primeira novela foi "Dona Beija", com texto de Walter Aguiar Filho e direção de Herval Rossano. Com Maitê e Gracindo, a novela fez sucesso. "Chegou a bater, numa noite boa, o especial de Chico e Caetano, na Globo. O prestígio crescia, assim como as dívidas. No governo Sarney, chegou a 30 milhões de dólares. Desorganizado, Adolpho foi roubado por funcionários espertos.

Mais tarde, com a dívida se aproximando dos 100 milhões de dólares, a Manchete, ou seja, Adolpho, investiu mais dinheiro numa grande produção, "Kananga do Japão", com roteiro de Cony, texto de Wilson Aguiar Filho, direção de Tizuka Yamasazi (Arnaldo escreve "Yamakazi") e estrelas do porte de Tônia Carrero, Sérgio Brito, Cláudio Marzo, Julia Lemmertz, Christiane Torloni.

Para tentar encher os cofres, Adolpho contratou José Wilker para a dramaturgia, ou seja, mais novelas. Ele articulou "Corpo Santo", "Helena", "Carmen" e "A Rainha da Vida".

O grande lance de Adolpho foi mesmo a novela "Pantanal", de Benedito Ruy Barbosa, direção de Jayme Monjardim e estrelada pela atriz Cristiana de Oliveira. Manchete gastou 10 milhões de dólares em sua produção. "O que não se esperava era que, já nos primeiros capítulos, ´Pantanal´marcasse 40 por cento de audiência, superando em dobro os picos de novelas anteriores, e batendo a Globo de goleada. (...) Com uma audiência daquelas, a Globo tinha que reagir. Passou a atrasar ´Rainha da Sucata´em uma hora, para fazer frente. Não adiantou: se a audiência ficou mais dividida, a surra de ´Pantanal´era diária, e duraria os dez meses sucessivos em que esteve no ar. Um massacre. Feito considerado impossível desde sempre e até o fim dos tempos. E que de tal forma marcaria a história da televisão brasileira que, desde essa época, a tradicional novela das oito da Globo começa às nove", escreve Arnaldo, com uma pontinha de prazer e orgulho.

"Pantanal" deu dinheiro, "mas", diz Arnaldo, "ficou um gostinho de que poderia ter sido uma enxurrada: como a tabela de publicidade fora calculada para uma audiência trinta pontos menor, os anunciantes faziam fila para anunciar por aquele precinho. Para tentar compensar o prejuízo relativo, Benedito Ruy Barbosa era obrigado a alongar os capítulos, e as seqüências de paisagens e de receitas caseiras começaram a tomar conta da trama. Sem, contudo, afetar a audiência".

Outra jogada acertada da Manchete foi o lançamento da modelo e manequim Xuxa Meneghel, que, com aquele jeito de menina-menino, encantou as crianças e mesmo os adultos como apresentadora do "Clube da Criança".

Depois de "Pantanal", mesmo com outras novelas, como "Ana Raio e Zé Trovão" e "Amazônia", a Manchete afundou.

No início da década de 1990, por conta de papagaios impagáveis, Adolpho decide vender a Manchete. O senador pelo Distrito Federal Paulo Octávio, hoje no DEM, um dos mais empedernidos colloridos, entra no páreo para comprá-la. A entrevista de Pedro Collor à revista "Veja", denunciando "o esquema de corrupção" supostamente "capitaneado" pelo presidente da República, detonou a venda da Manchete. Adolpho decidiu negociá-la com o grupo que dirigia o Instituto Brasileiro de Formulários (IBF), do empresário Hamilton Lucas de Oliveira, ligado a PC Farias. O impeachment de Collor derrubou o negócio. Em 2000 Jaquito, o herdeiro de Adolpho, "assinou a falência de Bloch Editores". Era o fim.

Uma prova de que os poderosos tratam a imprensa, sobretudo a que está caindo, com o maior desrespeito está na descrição do encontro de Adolpho e o presidente Fernando Collor. O empresário diz: "Presidente, eu estou no fim". Collor é seco: "O senhor está no fim e eu estou no começo. Com licença". Os dois estavam no fim, a diferença é que Bloch sabia e Collor, não.

Há dois errinhos no livro. Arnaldo chama Paulo Octávio de "Otávio" e diz que Paraíso do Norte fica no Tocantins. Quando era Paraíso do Norte, a cidade ficava em Goiás, mas, com a fundação do novo Estado, passou a ser chamada de Paraíso do Tocantins, e não fica no Norte do Estado. Arnaldo conta que Adolpho e Hélio Wrobel criaram a fazenda Bloch-Wrobel na terra do governador Marcelo Miranda.

De resto, uma conclusão óbvia: não se faz mídia no Brasil, em São Paulo, locomotiva do País, ou em Goiás, sem recursos públicos.


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POR EM 10/12/2008 ÀS 07:58 PM

Revolução Russa de Stálin devorou Maiakóvski

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A Edi­to­ra Re­cord lan­ça, de­pois de lon­ga de­mo­ra, Mai­akóvski — O Po­e­ta da Re­vo­lu­ção (559 pá­gi­nas), do rus­so Aleksandr Mikhai­lov, com pre­fá­cio de Ale­xei Bu­e­no e tra­du­ção esmerada de Zoia Pres­tes.
 
No pre­fá­cio, Bu­e­no no­ta “a ri­que­za me­ta­fó­ri­ca e rít­mi­ca da po­e­sia de Vla­dí­mir Mai­akóvski, sua mes­tria no uso de hi­pér­bo­les, seu hu­mor cáus­ti­co, seu vir­tu­o­sis­mo no jo­go de pa­la­vras”. Àque­le lei­tor que não quer ape­nas sa­ber os fa­tos da vi­da do po­e­ta, que di­zia de­tes­tar fo­fo­cas, re­co­men­do três li­vros: Po­e­mas, de Mai­akóvski, com tra­du­ções de Bo­ris Schnai­der­man, Au­gus­to e Ha­rol­do de Cam­pos, Po­e­sia Rus­sa Mo­der­na, com tra­du­ções do mes­mo trio, e An­to­lo­gia Po­é­ti­ca, de Mai­akóvski, com tra­du­ção de E. Car­re­ra Guer­ra.
 
Mai­akóvski ma­tou-se, aos 36 anos, em 1930, quan­do Stá­lin, se­nhor do po­der, ha­via ex­pur­ga­do ad­ver­sá­rios de pe­so co­mo Li­ev Trotski e en­qua­dra­va aque­les que pen­sa­vam di­fe­ren­te­men­te da or­to­do­xia do par­ti­do.
 
Por que Mai­akóvski se ma­tou, com um ti­ro no pei­to, se ha­via con­de­na­do o su­i­cí­dio do poeta Sier­guéi Ies­siê­nin, em 1925? Mikhai­lov es­cre­ve, com per­ti­nên­cia: “A pes­soa que dei­xa vo­lun­ta­ria­men­te a vi­da le­va con­si­go o mis­té­rio de sua de­ci­são. Ne­nhu­ma ex­pli­ca­ção (in­clu­si­ve as de Mai­akóvski) pe­ne­tra na es­sên­cia re­al da ati­tu­de to­ma­da. Elas so­men­te en­tre­a­brem a cor­ti­na so­bre o se­gre­do, mas o pró­prio se­gre­do per­ma­ne­ce es­con­di­do atrás do fi­nal tris­te da vi­da. (...) En­con­tra­mos os mo­ti­vos, mas o se­gre­do per­ma­ne­ce em se­gre­do”.
 
Há dois pon­tos cen­tra­is. Pri­mei­ro, a Re­vo­lu­ção que Mai­akóvski ha­via co­la­bo­ra­do pa­ra cri­ar e for­mu­lar saía dos ei­xos e tra­ba­lha­va pa­ra en­qua­drar, cer­car e subordinar a li­te­ra­tu­ra, su­ge­rin­do que só a li­te­ra­tu­ra pro­le­tá­ria era li­te­ra­tu­ra. O po­e­ta ten­tou se en­qua­drar, fez po­e­mas en­ga­ja­dos-proletários, pro­du­ziu car­ta­zes re­vo­lu­ci­o­ná­rios, mas sua cri­a­ti­vi­da­de, ti­da co­mo ex­ces­si­va e con­ta­gi­an­te, cho­ca­va os co­mu­nis­tas re­tró­gra­dos e não era en­ten­di­da pe­las mas­sas. Es­cri­to­res ge­ni­ais co­mo Mai­akóvski têm seu es­to­que de in­ge­nui­da­de po­lí­ti­ca e acre­di­tam que po­dem in­flu­en­ciar as re­vo­lu­ções e os po­lí­ti­cos, sem per­ce­be­rem que, adi­an­te, as re­vo­lu­ções, co­mo a Bol­che­vi­que, co­me­çam a de­vo­rar seus pró­prios fi­lhos. O sa­tur­no co­mu­nis­ta de Lê­nin e Stá­lin de­vas­tou es­cri­to­res, ma­tan­do-os, en­vi­an­do-os pa­ra mor­rer no Gu­lag ou exi­lan­do-os. Mai­akóvski ava­liou, er­ra­do, que po­de­ria se adap­tar. Aca­bou re­jei­ta­do pe­la po­lí­ti­ca da li­te­ra­tu­ra pro­le­tá­ria, mais pro­le­tá­ria, em ter­mos de qua­li­da­de, do que li­te­ra­tu­ra.Che­ga­ram a boi­co­tar a en­ce­na­ção de sua pe­ça te­a­tral Os Ba­nhos. O bi­ó­gra­fo Mikhai­lov diz: “...as cir­cun­stân­cias de sua vi­da pes­so­al eram-lhe in­con­tor­ná­veis. Vi­via em pro­fun­do es­ta­do de de­pres­são e pas­sa­va por uma cri­se de cri­a­ção em fa­ce de con­fron­to com o po­der so­vi­é­ti­co, mes­mo sem ain­da ter a con­sci­ên­cia do que se­ria no fu­tu­ro, mas sen­tin­do uma enor­me pres­são que pri­va­va a li­te­ra­tu­ra do ar de li­ber­da­de”. Ima­gi­ne, pa­ra um cri­a­dor do por­te de Mai­akóvski, ter de pro­du­zir uma po­e­sia de bai­xa qua­li­da­de, pa­ra ser com­pre­en­di­do pe­las mai­o­ri­as e acei­to pe­la bu­ro­cra­cia, que ele abo­mi­na­va. Es­sa bu­ro­cra­cia me­dí­o­cre não acei­ta­va a sua sá­ti­ra, seu mo­der­nis­mo.
 
Se­gun­do, Mai­akóvski nu­tria pai­xão por du­as mu­lhe­res ca­sa­das — Lí­lia Brik e, nos úl­ti­mos anos, Ve­rô­ni­ca Vi­tol­dov­na Po­lonskaia, a No­ra. Quis se ca­sar com No­ra, che­gou a pro­cu­rar um apar­ta­men­to, mas sua de­pres­são e cer­ta vi­o­lên­cia, as­sus­ta­do­ra num gi­gan­te co­mo ele, in­co­mo­da­vam a atriz, que o ama­va. Pro­va­vel­men­te, ao sen­tir que a Re­vo­lu­ção não era o pa­ra­í­so li­ber­tá­rio que ima­gi­na­ra e que era in­fe­liz no amor, roí­do pe­la de­pres­são, Mai­akóvski op­tou por ma­tar-se. Ti­nha cer­ta con­sci­ên­cia de que o fu­tu­ro o aguar­da­va... pa­ra en­ten­dê-lo. Mas, de­pois de sua mor­te, quan­do não mais in­co­mo­da­va, Stá­lin o trans­for­mou no po­e­ta da re­vo­lu­ção e, nu­ma car­ta a Ie­jov, es­cre­veu: “Pe­ço que dê aten­ção à car­ta de Lí­lia Brik. Mai­akóvski foi e con­ti­nua sen­do o me­lhor e mais ta­len­to­so po­e­ta da épo­ca so­vi­é­ti­ca. A in­di­fe­ren­ça com a sua obra é um cri­me”.
 
Só não en­ten­do por­que Zoia Pres­tes não acen­tua o no­me Mai­akóvski, se ou­tros tra­du­to­res ga­ba­ri­ta­dos, co­mo Bo­ris Schnai­der­man, Au­gus­to de Cam­pos e Ha­rol­do de Cam­pos, acen­tuam. No ca­so de Stá­lin, tam­bém não acen­tu­a­do, a fi­lha de Lu­iz Car­los Pres­tes, óti­ma tra­du­to­ra de Dou­tor Ji­va­go, o ro­man­ce-vin­gan­ça de Bo­ris Pas­ter­nak, se­gue o in­glês, lín­gua sem acen­tos. Em por­tu­guês, Stá­lin tem acen­to.

A Vladimir Maiakóvski
MARINA TZVIETÁIEVA
 
Acima das cruzes e dos topos,
Arcanjo sólido, passo firme,
Batizado a fumaça e a fogo —
Salve, pelos séculos, Vladímir!
Ele é dois: a lei e a exceção,
Ele é dois: cavalo e cavaleiro.
Toma fôlego, cospe nas mãos:
Resiste, triunfo carreteiro.
Escura altivez, soberba tosca,
Tribuno dos prodígios da praça,
Que trocou pela pedra mais fosca
O diamante lavrado e sem jaça.
Saúdo-te, trovão pedregoso!
Boceja, cumprimenta — e ligeiro
Toma o timão, rema no teu vôo
Áspero de arcanjo carreteiro.
(Poema de 1921)
Tradução de Haroldo de Campos
 

O bilhete do suicida
 
Vladímir Maiakóvski matou-se no dia 14 de abril de 1930 e deixou um bilhete.
 
"A todos
"De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso.
"Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém), mas não tenho saída.
"Lília, ame-me.
"Ao governo: minha família são Lília Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia.
"Caso torne a vida delas suportável, obrigado.
"Os poemas inacabados entreguem aos Brik, eles saberão o que fazer.
´Como dizem:
caso encerrado,
O barco do amor
espatifou-se na rotina.
Acertei as contas com a vida
inútil a lista
de dores,
desgraças
e mágoas mútuas.´
Felicidade para quem fica.
 
Vladímir Maiakóvski
12/IV/30
 

Não entendem nada
MAIAKÓVSKI
 
Entrei na barbearia e disse, sem espera:
"Por gentileza, penteie-me as orelhas."
O meloso barbeiro ficou cheio de abelhas,
seu rosto se alongou com uma pêra.
"Mentecapto!
Palhaço!" —
saltaram as palavras.
Insultos relincharam pelo espaço,
e l-o-o-o-o-ngamente
ouviu-se o rinchavelho
de uma cabeça que brotou por entre a gente
como um rabanete velho.

(O poema é de 1913, quatro anos antes da Revolução Russa de 1917. Mas a burocracia soviética, que queria poemas úteis à causa, podia compreender a sátira de Maiakóvski? Não, certamente.)
Tradução de Augusto de Campos
 

Hino ao crítico
MAIAKÓVSKI
 
Da paixão de um cocheiro e de uma lavadeira
Tagarela, nasceu um rebento raquítico.
Filho não é bagulho, não se atira na lixeira.
A mãe chorou e o batizou: crítico.
O pai, recordando sua progenitura,
Vivia a contestar os maternais direitos.
Com tais boas maneiras e tal compostura
Defendia o menino do pendor à sarjeta.
Assim como o vigia cantava a cozinheira,
A mãe cantava, a lavar calça e calção.
Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira
E a arte de penetrar fácil e sem sabão.
Quando cresceu, do tamanho de um bastão,
Sardas na cara como um prato de cogumelos,
Lançaram-no , com um leve golpe de joelho,
À rua, para tornar-se um cidadão.
Será preciso muito para ele sair da fralda?
Um pedaço de pano, calças e um embornal.
Com o nariz grácil com um vintém por lauda
Ele cheirou o céu afável do jornal.
E em certa propriedade um certo magnata
Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,
E logo o crítico, da teta das palavras
ordenhou as calças, o pão e uma gravata.
Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco
Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,
E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso
Mordiscar-lhe de leve os tornozelos loucos.
Mas se se infiltra na rede jornalística
Algo sobre a grandeza de Púchkin ou Dante,
Parece que apodrece ante a nossa vista
Um enorme lacaio, balofo e bajulante.
Quando, por fim, no jubileu do centenário,
Acordares em meio ao fumo funerário,
Verás brilhar na cigarreira-souvenir o
Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.
Escritores, há muitos. Juntem um milhar.
E ergamos em Nice um asilo para os críticos.
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar
A nossa roupa brancos nos artigos?

(poema de 1915)
Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman

 


A plenos pulmões
VLADÍMIR MAIAKÓVSKI
 
Primeira introdução ao Poema
 
Caros
camaradas
futuros!
Revolvendo
a merca fóssil
de agora,
perscrutando
estes dias escuros,
talvez
perguntareis
por mim. Ora,
começará
vosso homem de ciência,
afogando os porquês
num banho de sabença,
conta-se
que outrora
um férvido cantor
a água sem fervura
combateu com fervor. (1)
Professor,
jogue fora
as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
de mim
de minha era.
Eu — incinerador,
eu — sanitarista,
a revolução
me convoca e me alista.
Troco pelo "front"
a horticultura airosa
da poesia —
fêmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim
virgem
vargem
sombra
alfrombra.
"É assim o jardim de jasmim,
o jardim de jasmim do alfenim".
Este verte versos feito regador,
aquele os baba,
boca em babador, —
bonifrates encapelados,
descabelados vates —
entendê-los,
ao diabo!,
quem há-de...
Quarentena é inútil contra eles —
mandolinam por detrás das paredes:
"Ta-ran-ten-n-n..."
Triste honra,
se de tais rosas
minha estátua se erigisse:
na praça
escarra a tuberculose;
putas e rufiões
numa ronda de sífilis.
Também a mim
a propaganda
cansa,
é tão fácil
alinhavar
romanças, —
Mas eu
me dominava
entretanto
e pisava
a garganta do meu canto.
Escutai,
camaradas futuros,
o agitador,
o cáustico caudilho,
o extintor
dos melífluos enxurros:
por cima
dos opúsculos líricos,
eu vos falo
como um vivo aos vivos.
Chego a vós,
à Comuna distante,
não como Iessiênin,
guitarriarcaico.
Mas através
dos séculos em arco
sobre os poetas
e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
não como a seta
lírico-amável,
que persegue a caça.
Nem como
ao numismata
a moeda gasta,
nem como a luz
das estrelas decrépitas.
Meu verso
com labor
rompe a mole dos anos,
e assoma
a olho nu,
palpável,
bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
versos como ossos,
Se estas estrofes de aço
Acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
mas terrível.
Ao ouvido
não diz
blandícias
minha voz;
lóbulos de donzelas
de cachos e bandos
não faço enrubescer
com lascivos rondós.
Desdobro minhas páginas
— tropas em parada,
E passo em revista
o "front" das palavras.
Estrofes estacam
chumbo-severas,
Prontas para o triunfo
ou para a morte.
Poemas-canhões,
rígida coorte,
apontando
as maiúsculas
abertas.
Ei-la,
a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
alerta para a luta.
Rimas em riste,
sofreando o entusiasmo,
eriça
suas lanças agudas.
E todo
este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
proletários do planeta,
cada folha
até a última letra.
O inimigo
da colossal
classe obreira,
é também
meu inimigo figadal.
Anos
de servidão e de miséria
comandavam
nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
volume após volume,
janelas
de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
saberíamos o rumo!
onde combater,
de que lado,
em que frente.
Dialética, não aprendemos com Hegel. Invadiu-nos os versos
Ao fragor das batalhas,
Quando,
sob o nosso projétil,
debandava o burguês
que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
— glória —
se arraste
após os gênios,
merencória.
Morre,
meu verso,
como um soldado
anônimo
na lufada do assalto.
Cuspo
Sobre o bronze pesadíssimo,
cuspo
sobre o mármore, viscoso.
Partilhemos a glória, —
entre nós todos, —
o comum monumento:
o socialismo,
forjado
na refrega
e no fogo.
Vindouros,
Varejai vossos léxicos:
do Letes
brotam letras como lixo —
"tuberculose",
"bloqueio",
"meretrício".
Por vós, geração de saudáveis, —
um poeta,
com a língua dos cartazes,
lambeu
os escarros da tísis.
A cauda dos anos
faz-me agora
um monstro,
fossilcoleante.
Camarada vida,
vamos,
para diante,
galopemos
pelo qüinqüênio afora. (2)
Os versos
para mim
não deram rublos,
nem mobílias
de madeiras caras.
Uma camisa
Lavada e clara,
e basta, —
para mim é tudo.
Ao
Comitê Central
do futuro
ofuscante,
sobre a malta
dos vates
velhacos e falsários,
apresento
em lugar
do registro partidário
todos
os cem tomos
dos meus livros militantes.
 
[Dezembro, 1929/janeiro, 1930]

Notas
1 — Maiakóvski escreveu versos de propaganda sanitária.
2 — Alusão aos Planos Qüinqüenais soviéticos.
(Provavelmente, como não tenho controle da página do jornal na internet, o poema vai perder a forma na qual foi escrito. Espero que, pelo menos, ao se ter preservado o conteúdo, o leitor se contente com a poesia de Maiakóvski, com um de seus poemas mais conhecidos. A tradução é de Haroldo de Campos. Onde está "saudáves", pus saudáveis. E. Carrera Guerra usa, na sua versão, "ágeis e robustos".)   
 


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:52 PM

Virginia Woolf tentou 'curar' sua loucura pelo suicídio

publicado em

Virginia não gostava da crítica acadêmica, que achava estéril. Talvez fosse uma vingança por não ter obtido educação universitária. Talvez fosse pela percepção de que, como denuncia Gore Vidal, muitos teóricos da literatura querem substituir a literatura pela teoria literária

Em 28 de março de 2012, fez 71 anos que a escritora inglesa Virginia Woolf se matou. Virginia, que hoje tende a ser comparada (desfavoravelmente) a James Joyce, que ela considerava (invejosamente) um operário autodidata, morreu aos 59 anos, jogando-se no Rio Ouse, em 1941.

A obra de Virginia permanece gerando polêmica. Para alguns, ainda é inovadora. Para outros, teria envelhecido. A revolução de Virginia estaria obscurecida pela revolução de Joyce. Talvez o mais justo seja não comparar os dois autores, percebendo, antes, que há diferenças, apesar de estarem próximos (literalmente), entre eles.

Sobre sua vida, é possível saber alguma ou muita coisa, principalmente depois da sensível e abrangente biografia de Quentin Bell. Infelizmente, a autobiografia de Leonard Woolf ainda não foi traduzida para o português. Leonard foi a pessoa que mais entendeu Virginia. É provável que ela tenha escrito a maioria de suas obras porque teve o apoio firme do marido e amigo. Leonard sacrificou-se pelo talento de Virginia. Trata-se do sacrifício do menor talento pela afirmação do maior talento. O casamento sequer lhe proporcionou prazer sexual.

Virginia Woolf — Uma Biografia (1882-1941), do escritor Quentin Bell, sobrinho de Virginia e filho de Vanessa e Clive Bell, é um livro belíssimo e traz fotografias excelentes. O meu texto é uma pálida síntese da esplêndida obra de Quentin Bell — publicada no Brasil pela Editora Guanabara, com tradução de Lya Luft. O único senão é a revisão, catastrófica, como de hábito no "nosso" doce Bananão.

Para sorte dos leitores, a biografia, embora esgotada, pode ser encontrada em sebos. Um detalhe relevante para os preguiçosos leitores brasileiros, filhos diletos da televisão: a biografia tem 614 páginas. É um cartapácio. Um detalhe convidativo: o texto de Quentin Bell é agradável e não tem ranços acadêmicos.

Leslie Stephen
Leslie Stephen , o pai

Como disse, meu texto é uma pálida síntese do livro de Quentin Bell. Há histórias interessantíssimas sobre Virginia, que tinha o apelido de "Cabrita", mas, se fosse contar todas, precisaria de mil páginas e o leitor não leria o livro. Registrarei mais o "crescimento" efetivo e literário de Virginia.

Os familiares de Virginia, por parte de pai, eram todos escritores. Eram da alta classe média inglesa. Virginia Stephen nasceu no dia 25 de Janeiro de 1882. Só aprendeu a falar depois dos 3 anos. Aos 6 anos, falava bem e contava estórias deliciosas. Era uma espécie de Hemingway de saias. Mas nada sacava de aritmética.

Ainda jovenzinha, foi bolinada pelo meio-irmão George. Pode ter sido a causa de sua permanente frigidez sexual. Antes dos 13 anos, depois de várias leituras, buscando sem conseguir um estilo próprio, começou a copiar Nathaniel Hawthorne. Aos 16 anos, apaixona-se por uma mulher, Madge. Nada de sexo. Puro amor. Afeto. Paixão adolescente.

Virginia era uma leitora compulsiva. Queria compensar, em tempo recorde, o fato de não ter educação formal, universitária. Os irmãos Thoby e Adrian estudaram em Cambridge. Ela não pôde estudar lá. Ficou ressentida a vida inteira. A saída foi ler bastante, aprender sozinha ou com o pai, Leslie Stephen, um homem sábio mas de personalidade frágil e difícil.

Depois da morte do pai, em 1904, Virginia tenta se matar, pulando de uma janela, mas não consegue. A janela era baixa e ela se machucou muito pouco. Mas a alma estava profundamente ferida. A garota estava tão maluca que ouvia os pássaros cantando em grego. E já estava apaixonada por outra mulher — Violet Dickinson. De novo, nada de sexo. É o que diz o informadíssimo Quentin Bell. Seu sobrinho, vale ressaltar.


Julia Stephen, a mãe

Entretanto, apesar de parente, Quentin aparentemente não esconde fatos, o que pode ser comprovado lendo outras biografias de Virginia. O autor é franco e claro, embora Lya Luft, a tradutora, procure termos mais suaves para falar do "lado" lésbico de Virginia e do homossexualismo dos amigos da escritora. Safismo e sodomita são palavras que estão registradas nos dicionários brasileiros, mas não no vocabulário do nosso leitor médio. No lugar de sodomita, para ficar mais claro, a tradutora poderia ter ousado e escrito "viado" (com i) ou, pelo menos, "homossexual". Mas isso não importa tanto. São detalhes de nenhuma importância. 

Em 1904, por interferência de Violet, Virgínia começa a escrever críticas (não assinadas) para The Guardian. Em 1905, Thoby começa as noites de quinta-feira, no famoso bairro de Bloomsbury, com a presença de Saxon Sydney-Tuner, Leonard Woolf, Lytton Strachey (irmão do grande tradutor de Freud, James Strachey), Clive Bell e Desmond MacCarthy. Jack Pollock, E. M. Forster, Bertrand Russell e John Maynard Keynes também participavam da "farra" intelectual.

Henry James, amigo do pai de Virginia, não gostou do grupo de Bloomsbury, que achava de baixo nível. Rebelde, o grupo usava roupas esdrúxulas e falava palavrão. Vanessa, pintora, mãe de Quentin Bell, também participava das reuniões e era adepta do "sexo livre". Ela própria era chifrada por Clive Bell e chifrava o marido. Nenhum dos dois, porém, gostava das chifradas. O liberalismo na prática é uma piada.

As reuniões de Bloomsbury ajudaram imensamente na formação da "inculta" Virginia. Os participantes eram intelectuais, alguns em formação e, outros, com alto preparo. Ela absorvia, "antenada" e "babando", tudo que eles falavam ou sugeriam.

Mas a morte de Thoby, o irmão e amigo adoradíssimo, bagunça a família Stephen, que nunca fora muito ajustada. Vanessa, desesperada, se casa com o garanhão come-tudo Clive Bell. Virginia não gostou do casamento. No início. Ela e Adrian, o mais moço dos irmãos e o mais atrapalhado, vão morar juntos.

Os amigos e parentes declaram: "Virginia precisa casar". Queriam arrumar uma pessoa para cuidar da "incuidável" Virginia. Irritada, Virginia escreveu à amiga Violet: "Eu queria que todo mundo não me ficasse repetindo que devo casar. Será uma irrupção da rude natureza humana? Eu acho repulsivo". Apesar de sua ira, os amigos e parentes continuaram insistindo para que ela se casasse.


Julia e Virginia

Entre 1907 e 1908, Virginia começa a escrever Melymbrosia, mais tarde publicado como The Voyage Out (este primeiro romance de Virginia foi editado no Brasil sob o título de A Viagem). Exigente, Virginia queimou sete versões de The Voyage Out. Ela não publicou ficção até os 33 anos.

"Seu laconismo literário era em parte resultado de timidez; ainda ficava aterrorizada com o mundo, aterrorizada de se expor. Mas unia-se a isso outra emoção, mais nobre — um alto conceito de seriedade de sua própria profissão. Para produzir algo que atingisse seus critérios particulares, era necessário ler vorazmente, escrever e reescrever continuamente, e, sem dúvida, se não estava escrevendo na hora, agitar as idéias que expressava em sua mente", nota Quentin Bell.

No plano afetivo, a vida de Virginia continuava difícil. Lytton Strachey quis se casar com ela, mas não deu certo. Lytton era viadíssimo da silva. Outro amigo de Virginia, o competente e célebre economista John Maynard Keynes, embora tenha se casado com uma bailarina, também era sodomita (palavra bastante usada por Quentin Bell). Keynes morou na casa de Virginia e Adrian.

Em 1912, Leonard Woolf e Virginia se casam. Leonard se apaixonou por Virginia. Doce e perdidamente. O casamento foi um grande "negócio" para Virginia. A união com Leonard aumentou o seu equilíbrio emocional e a sua segurança como escritora. O curioso é que a família Stephen não avisou Leonard dos problemas de saúde de Virginia. Tudo indica que a família procurou esconder que Virginia era "meio louca" com medo que Leonard desistisse do casamento. O casamento não agradou Clive Bell. Clive andou tirando umas casquinhas de Virginia. Mas sossegue: o vigoroso marido de Vanessa não conseguiu papar Virginia. Só tirou casquinhas. Virginia, diga-se, gostava do atrevimento de Clive.

Leonard adorava Virginia, sua capacidade intelectual, e não se preocupava com a frigidez sexual dela. Quentin Bell, um biógrafo às vezes discreto, sugere que Virginia "considerava o sexo não tanto com horror, mas com incompreensão; havia em sua personalidade e em sua arte uma qualidade estranhamente etérea, e, quando as necessidades literárias a compeliam a considerar o prazer sexual, ela se afastava ou nos revelava algo tão distante de bolinas e empolgações quanto a chama de uma vela é distante de seu sebo".


Talland House, a casa da família

Virginia conclui The Voyage Out e o entrega à editora. Doente, pensa que a libertação (a cura) está no suicídio. Toma 6,5 gramas de veronal e quase morre. Quentin Bell registra que até 1913, data da tentativa de suicídio, Freud era pouco conhecido na Inglaterra. "Ernest Jones começou a praticar em Londres em 1913", informa Quentin. Virginia não se interessava muito por Freud. Mas Leonard achava que o conhecimento das idéias de Freud poderia ser útil no seu tratamento.

The Voyage Out foi publicado em março de 1915. Os amigos de Virginia e a crítica gostaram. Edward Morgan Forster (autor de Passagem Para a Índi", mais conhecido no Brasil pelo bom filme de David Lean), que também era gay renitente, elogiou o livro de Virginia no Daily News: "Eis finalmente um livro que chega ao mesmo patamar de O Morro dos Ventos Uivantes, embora por um caminho diferente". A critica era esperada ansiosamente por Virginia. Queria ver se seu talento era confirmado.

"Virginia", escreve Quentin Bell, "estava sempre imaginando que, para o mundo exterior, [seus romances] pudessem parecer simplesmente doidos ou, pior ainda, fossem realmente doidos, seu horror à zombaria rude do mundo continha o medo mais profundo de que sua arte, e por isso ela mesma, fosse uma espécie de impostura, um sonho imbecil sem valor para os outros. Por isso, para ela, uma nota favorável valia mais que o mero elogio; era uma espécie de certificado de sua sanidade mental".

"O problema", continua Quentin, "deve estar presente quando pensamos em sua extrema sensibilidade à crítica, uma sensibilidade que podemos considerar mórbida e que realmente, em certo sentido, era mórbida, pois nascia de um estado enfermiço. Os ataques e acoites da crítica, que seriam facilmente enfrentados por um organismo mais robusto, no caso dela podiam reabrir feridas que jamais se tinham curado inteiramente e que nunca deixariam ser muitíssimo delicadas".

Quentin Bell nota que a saúde de Virginia melhorou em 1915 por causa das criticas favoráveis. Virginia, temendo a crítica, escreveu: "Imagine acordar e descobrir que se é uma fraude. Esse horror era parte da minha loucura".

Em 1917, um tanto ranzinza mas admirada, Virginia escreveu à adorada e protetora irmã Vanessa: "Tive um breve encontro com Katherine Mansfield; que me parece um caráter desagradável mas enérgico & absolutamente inescrupuloso".

Quentin Bell explica bem: "Elas [Virginia e Mansfield] sempre tendiam a discordar, mas na verdade nunca discordariam. Unidas pela devoção à literatura e divididas na sua rivalidade como escritoras, achavam uma à outra sobremodo atraentes, mas muito irritantes. Ou pelo menos eram esses os sentimentos de Virginia. Ela admirava Mansfield; também estava fascinada por aquele lado da vida de Katherine que ficava além da sua própria capacidade emocional".

"Katherine", revela Quentin, "andara pelo mundo, ficara magoada; dera vazão a todos os instintos da fêmea, dormira com todo tipo de homens; tornara-se objeto de admiração — e piedade. Era interessante, vulnerável, talentosa, encantadora. Mas também se vestia e se portava como uma prostituta. Penso que Katherine Mansfield retribuía a admiração de Virginia e também sua animosidade. Virginia com certeza apreciava bastante o talento de Katherine, a ponto de querer editar um de seus contos".

É provável que Virginia tenha lançado um olhar masculino em Katherine Mansfield. O homem em geral deprecia a mulher inteligente e diferente, mas também a cobiça sexualmente. Outra coisa: Virginia não gostava de elogiar escritores vivos. Só deu importância a D.H. Lawrence, o autor de Mulheres Apaixonadas, depois que ele morreu. Os vivos eram seus concorrentes.

Junto com Leonard Woolf, Virginia foi dona da Hogarth Press, que editou grandes escritores e poetas, como Katherine Mansfield e T.S. Eliot, além do psicanalista Freud. Quentin Bell e os outros biógrafos revelam algo curioso: Virginia escrevia um romance vigoroso (como As Ondas) e, em seguida, um romance mais leve e fácil (como Os Anos). Parece que tal artifício visava tranqüilizar os seus nervos e, ao mesmo tempo, testar novos caminhos para o romance. "O romance peso-pesado é sucedido por um livro peso-pluma — que ela chamava 'uma piada'", só que Quentin Bell não acha que Noite e Dia seja uma piada. Não acha o livro bom. Mas não concorda que seja totalmente ruim.


Virginia e Adrian Stephen 1891

O manuscrito de Ulysses, de James Joyce, foi oferecido à editora de Virginia, que não pôde ou não quis publicá-lo. Quentin Bell tenta explicar: "Era uma obra que Virginia não podia rejeitar nem aceitar. O poder e a sutileza da obra eram evidentes o bastante para despertar a admiração dela e, sem dúvida, inveja. Parecia-lhe ter uma espécie de beleza, mas também um brilho rude, arguto, de sala de fumantes. Joyce usava instrumentos parecidos com os dela, e isso era doloroso, pois era como se a pena, sua própria pena, tivesse sido arrancada de suas mãos e alguém rabiscasse com ela a palavra fodano assento de um vaso sanitário".

Virginia "também sentia", segundo Quentin, "que Joyce escrevia para um pequeno grupo, e, quando se refere a ele, escreve 'essa gente' — como se o classificasse tal qual Ezra Pound e não sei que outras figuras do 'submundo'. A reação dela talvez seja significativa; a rudeza gratuita e impudente de Joyce fazia-a sentir-se, súbito, desesperadamente 'uma dama'. Mesmo assim foi perspicaz o bastante para ver que era algo digno de ser publicado; era claro, também, que estava absolutamente além da capacidade técnica da Hogarth Press". Para mim, era o lado mundano de Joyce que não agradava Virginia. Ao contrário de Joyce e de Proust, não sacava muito do lado "sujo" da vida.

O leitor pode ler mais sobre o assunto na admirável biografia de James Joyce escrita pelo americano Richard Ellmann. "Os Woolfs disseram-lhe (à emissária de Joyce) que não poderiam imprimir (Ulysses) porque levaria dois anos na sua impressora manual, embora dissessem que estavam muito interessados nos quatro primeiros episódios que leram. Na verdade parecem tê-lo considerado 'vulgar', embora Katherine Mansfield, que deu uma olhada no manuscrito certo dia enquanto os visitara, tenha começado ridicularizando-o e depois de repente tenha dito: 'Mas há qualquer coisa nisso: uma cena que deveria figurar, suponho, na história da literatura'."

A história de Virginia Woolf escritora é tão interessante como a de Virginia Woolf editora. T.S. Eliot foi amigo de Virginia e a Hogarth Press editou seus primeiros poemas e o mais famoso, A Terra Estéri". Virginia tentou tirar T.S. Eliot do emprego em um banco. Mas não conseguiu. Mais tarde, ficou irada porque Eliot se tornou editor de uma casa rival, The Criterion.

Em 1919, Virginia publica Noite e Dia. A crítica não gostou. E.M. Forster (1879-1970) e Katherine Mansfield (1888-1923) odiaram. Mas Forster, amigo, foi elegante e discreto. Disse que o livro não era melhor que The Voyage Out. (Forster mais tarde ficou chateado com algumas críticas ferinas de Virginia.) Mansfield foi dura: Noite e Dia era "uma mentira da alma. Falando sobre esnobismo intelectual — o livro dela fede a isso. (Mas não posso dizê-lo.) É muito longo e cansativo". Virginia, que não sabia assimilar criticas, ficou abalada.

Mas Virginia se curava dos petardos da crítica de um modo extraordinário: no lugar de ficar bloqueada, produzia mais, e melhor. Se o romance anterior fosse considerado ruim, até pelos amigos que adorava, como Forster, procurava escrever outro melhor, mais inventivo. Foi o que o ocorreu depois de Noite e Dia. Em 1922, publicou pela Hogarth Press O Quarto de Jacob. T.S. Eliot festejou: "Você se libertou de qualquer compromisso com o romance tradicional e seu talento original. Parece-me que construiu uma ponte sobre certa lacuna que existia entre seus outros romances e a prosa experimental de Monday or tuesday, conseguindo um sucesso notável".


Duckworth group, 1892

O Quarto de Jacob, para Quentin Bell, marca o inicio de sua maturidade e fama. Em 1925 Virginia publicou Mrs. Dalloway, que agradou à crítica. Forster elogiou Mrs. Dolloway. Thomas Hardy leu The Commom Reader com prazer. Virginia ficou maravilhada.

Entre 1925 e 1928, Virginia lança Passeio ao Farol e concebe As Ondas. Nesse período ela conhece Vita, a sua grande paixão. Vita era lésbica, mas casada, como Virginia. Quentin Bell é discreto e diz pouco sobre o assunto. Tudo indica que as duas não chegaram a ter um caso no sentido moderníssimo. Vita escreveu para Virginia: Você gosta mais das pessoas pelo cérebro do que pelo coração. Fosse hoje, o texto de Vita teria acréscimo: Você gosta mais das pessoas pelo cérebro do que pelo coração e pelo corpo.

Na verdade, Virginia era de uma carência extremada e todo mundo que lhe dava atenção recebia alguma esperança, de sexo ou afeto. Só que, afeto, tudo bem, sexo, nada. Pelo menos, a se acreditar na versão do sobrinho.

Quem leu Orlando sabe que Vita é Orlando. Para Quentin Bell, Orlando é o único dos romances de Virginia que se aproxima da emoção sexual, ou antes, homossexual; pois, enquanto o herói/heroína sofre uma transformação física, sendo no começo um esplêndido jovem e depois uma linda dama, a metamorfose psicológica é muito menos completa. O livro vendeu bem. Mas Orlando, sabia Virginia, não era um grande livro. Julgamento que os leitores de hoje não partilham, sobretudo por que as questões sexuais se tornaram mais importantes, na avaliação do romance, do que as literárias.

Em 1931, Virginia, a mulher que adorava charutos, publica As Ondas, para os críticos, sua obra-prima. Leonard Woolf, que sempre opinava, criticamente, sobre os livros de Virginia, disse: O livro é uma obra-prima, a melhor das suas obras. Ela adorou. Leonard era suspeito, até por que conhecia a fragilidade emocional de Virginia, mas era, ao mesmo tempo, prudente, justo e rigoroso. 

O indefectível E. M. Forster escreveu que encontrara um clássico. A opinião dele era muito respeitada por Virginia. Um tinha inveja do outro. Mas, éticos, respeitavam as diferenças entre suas obras. Virginia gostava de conversar sobre homossexualismo com Forster, que adorava rapazes.

Virginia não gostava da crítica acadêmica, que achava estéril. Talvez fosse uma vingança por não ter obtido educação universitária. Talvez fosse pela percepção de que, como denuncia Gore Vidal, muitos teóricos da literatura querem substituir a literatura pela teoria literária.

Quentin Bell registra um aspecto curioso: Virginia adorava mexericos, fofoca, e dizia o que pensava, não importando as conseqüências. Outra coisa curiosa: como Joyce e outras, ela aproveitou a história de sua família e as relações com os amigos nos seus romances. Vida e obra, estetizadas, estão ligadíssimas e indissociáveis em Virginia. Mas é óbvio que a escritora não escreve biografias literárias e, claro, tinha uma imaginação poderosa.

Na década de 30, alguns críticos atacam Virginia, deixando-a desequilibrada emocionalmente. O mais virulento, Wyndham Lewis, escreve: Ela é sobremodo insignificante. Ninguém mais a leva a sério. Os críticos de esquerda não atacavam Virginia. Stephen Spender e Cecil Day-Lewis (pai de Daniel Day-Lewis, ator de A Insustentável Leveza do Ser e Meu Pé Esquerdo) gostavam de sua obra.

Em 1937, Virgínia pública Os Anos e sente a loucura chegando. Leonard achou o livro ruim, mas ficou calado, ou melhor, temendo que Virginia se matasse, mentiu: Acho que é extraordinariamente bom. Virginia sabia que o livro era ruim. O economista Keynes gostou do livro, de forma irrestrita. Em 1939, Virginia foi ver Freud, que estava exilado em Londres. Ele teria impressionado Virginia como um homem alerta. Mas torto encarquilhado muito velho e a velha chama agora bruxuleante. Freud disse a Virginia e Leonard que seria necessária uma geração para eliminar aquele veneno [o nazismo de Hitler].


Wyndham Lewis, crítico mordaz de Virginia, escreveu:
Ela é sobremodo insignificante. Ninguém mais a leva a sério

Por causa da Segunda Guerra Mundial, Leonard e Virginia Woolf chegaram a pensar em suicídio. Obtiveram até uma dose letal de morfina. Mas, com Londres bombardeada, Virginia deixou de falar em suicídio. Numa carta a Ethel Smyth, escreveu: ... o que tocou e na verdade feriu o meu coração em Londres [durante os bombardeios dos nazistas] foi aquela velha mulher, suja de fuligem nos aposentos dos fundos, preparando-se, depois de um ataque aéreo, para enfrentar o próximo... E também a paixão da minha vida, a cidade de Londres — ver Londres em escombros, isso também atingiu meu coração.

No inicio de 1941, Virginia estava desesperada, louca. Mesmo assim tentou convencer a médica Octavia Wilberforce, uma amiga, de que não estava doente mentalmente. Mas confessou partes de seus medos. Medos de que o passado voltaria, de que nunca mais conseguiria escrever.

É triste e pungente como Quentin Bell fala do fim de sua tia escritora: Na manhã de sexta-feira, 28 de março, um dia claro, luminoso e frio, Virginia foi como de costume ao seu estúdio no jardim. Lá, escreveu duas cartas, uma para Leonard e outra para Vanessa — as duas pessoas que mais amava. Nas duas cartas explicava que vinha ouvindo vozes e acreditava que nunca mais ficaria boa; não podia continuar estragando a vida de Leonard. Ela colocou o bilhete sobre a lareira da sala de estar, e cerca de 11h30 esgueirou-se para fora, levando sua bengala de passeio; e atravessou os prados até o rio. Leonard acreditava que ela já havia feito uma tentativa para se afogar: assim, teria aprendido com o fracasso, e estava decidida a não falhar de novo. Deixando a bengala na margem, ela esforçou-se para pôr uma grande pedra no bolso do casaco. Depois encaminhou-se para a morte, 'a única experiência', dissera um dia a Vita, 'que nunca descreverei'.

Última carta a Leonard Woolf

Querido,

Tenho certeza de que estou enlouquecendo de novo. Sinto que não podemos passar por outra daquelas terríveis fases. E desta vez não ficarei curada. Começo a ouvir vozes, e não posso me concentrar. Assim, estou fazendo o que me parece melhor. Você me deu a maior felicidade possível. Não creio que duas pessoas pudessem ser mais felizes até chegar esta doença terrível. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida e que sem mim você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Está vendo, nem consigo mais escrever adequadamente.

Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você toda a felicidade da minha vida. Você foi absolutamente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso — e todo mundo sabe. Se alguém pudesse me salvar, teria sido você. Perdi tudo, menos a certeza da sua bondade. Não posso mais continuar estragando sua vida.

Não creio que duas pessoas tenham sido mais felizes do que nós fomos. 

Para Virginia, as escritoras devem ter seu próprio teto

O leitor brasileiro tem muita sorte: os principais livros de Virginia Woolf forma publicados no Brasil em traduções esmeradas. A Nova Fronteira já publicou vários livros, todos bem cuidados. Orlando foi traduzido pela poeta Cecília Meireles; Mrs. Dalloway, por Mario Quintana; O Quarto de Jacob, Entre Atos e As Ondas, por Lya Luft; Noite e Dia, por Raul de Sá Barbosa; Passeio ao Farol, por Luiza Lobo; e Um Teto Todo Seu, por Vera Ribeiro. A mesma editora publicou Os Anos e Uma Casa Assombrada. A editora Companhia das Letras publicou Os Diários. É uma seleção dos registros pessoais da escritora.

A melhor biografia de Virginia foi escrita por Quentin Bell. Outra biografia, complementar e mais sintética, é Virginia Woolf (Jorge Zahar Editor, coleção Vidas Literárias, tradução de Isabel do Prado), de John Lehmann. O autor trabalhou na Hogarth Press com Virginia e Leonard Woolf. Contém excelentes fotografias.

Aspectos do Romance (Editora Globo, 1974), de E. M. Forster, traz ricas informações sobre Virginia e outros escritores. O livro foi relançado no Brasil recentemente, com nova tradução. Trata-se de livro de um escritor importante escrevendo sobre o ofício literário.

O Mundo Moderno — Dez Grandes Escritores (Companhia das Letras, tradução de Paulo Henriques Britto), de Malcolm Bradbury, tem um capítulo, muito bom, sobre Virginia.

Língua ferina


John Lehmann, como Quentin Bell, tem a mania de revelar quem é quem nos livros de Virginia Woolf. O Percival de As Ondas, por exemplo, teria sido inspirado em Thoby, um dos irmãos de Virginia. O leitor que não se importa com biografia pode achar isso uma chatice. E, afinal, ele nem sabe quem foi Thoby. Mas é interessante saber que o pai de Virginia tinha relações de amizade com Henry James e Oliver Wendell Holmes e que ela mesma recebia em sua casa o escritor e político Winston Churchill.

Lehmann, reverberando Quentin Bell, conta que Virginia gostava de conversas animadas e amistosas, repletas de piadas, e tinha uma curiosidade intensa a respeito da vida das pessoas com quem se encontrava. Ainda assim durante toda sua vida teve língua ferina — e pena ferina, também, o que muitas vezes apareceria em suas cartas e em seu diário.

Quentin Bell, um biografo de idéias arejadas, fala pouco do chamado fluxo de consciência, mas Lehmann deita e rola sobre o assunto.

Escreve Lehmann: Enquanto o impressionismo de O Quarto de Jacob reduzira suas personagens a visões repentinas, impressões de sobras, em Mrs. Dalloway, usando o 'fluxo de consciência', ela [Virginia] as constrói com pessoas reais, com uma habilidade espantosa. Cada uma das principais personagens é vista interiormente através de seus pensamentos individuais, assim como se refere nos pensamentos das outras; pensamentos, lembranças, juízos que se estendem por sobre o passado e até o presente, de modo que no fim tem-se a impressão de conhecê-las intimamente, em toda a significação de suas vidas, tanto quanto nas suas aparências exteriores e suas excentricidades de comportamento.

Passeio ao Farol é visto por Lehmann como o mais visionário e formalmente perfeito dos romances-poemas de Virginia. Seria uma nova espécie de poema sobre o sentido e o mistério da vida e das relações humanas, que explora os movimentos secretos da mente e o papel e o poder do artista criador. No lugar de fluxo de consciência, Lehmann prefere a expressão impressionismo interior.

Vida total

As Ondas, a obra-prima de Virginia, no entender de muitos críticos, era, na opinião da própria escritora, uma tentativa completamente nova de se fazer literatura. Pode-se dizer, argumenta Lehmann, que seu objetivo era dar um quadro da vida total, desde o amanhecer da primeira sensação à ultima; um quadro de seus sonhos, ambições, aspirações, realizações e fracassos, até as decepções finais, acompanhadas, talvez, pela aceitação ou alegra descoberta da sabedoria. O que ela nos oferece, como jamais o fizera antes, é a vida da alma, eliminando tudo que pudesse obstar ou obscurecer essa visão. A estrutura do livro é inteiramente formal, e a narrativa totalmente interiorizada.

Malcolm Bradburv nota que o método de Virginia Woolf, a narrativa da consciência, deve alguma coisa a James Joyce, mas não é idêntico. Na obra da romancista inglesa, os ritmos da consciência são essencialmente os da visão de criação estática da autora. Há um outro aspecto: a forte consciência de um mundo alterado pela própria modernidade. Bradbury cita E. M. Forster, que era amigo de Virginia, para tentar entender a obra dela.

Disse Forster: Ela está sempre debaixo de sua árvore encantada, esticando o braço e recolhendo pedacinhos de fluxo da vida cotidiana que passam por ela, e é com esses pedacinhos que constrói seus romances. Para Forster, os livros de Virginia nunca terminaram, sempre começavam com poesia e chegavam ao lirismo de modo demasiadamente imediato.

Leonard Woolf, mais conhecido como marido de Virginia Woolf (até o sobrenome Woolf, de Leonard, ficou conhecido por causa de Virginia), era um escritor talentoso e socialista mas não revolucionário. Desconfiava das ortodoxias. Virginia acompanhou Leonard em algumas reuniões e achava a política tediosa, mas deixou alguns escritos feministas importantes. Prefiro dizer que os textos de Virginia são para além do feminismo. São humanos, isto é, não pensam só nas mulheres.

Dinheiro e ficção

Um Teto Todo Seu é um ensaio ressentido mas luminoso. Virginia Woolf defende a seguinte tese nesse livro: A mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se pretende mesmo escrever ficção (página 8). Para Virginia, ter dinheiro era mais importante que votar. Ela mostra que a produção literária das mulheres sempre foi menor porque elas recebiam uma educação de segunda categoria, não tinham um teto (um quarto) todo seu. Mesmo no século 19, há o caso de escritoras que se escondiam atrás de nomes de homens (Currer Bell, George Eliot e George Sand).

Mas o que acho mais interessante no livrinho (149 páginas) é que Virginia admite que o ressentimento prejudicou boas obras, como Jane Eyre, de Charlotte Brontë (que usava o pseudônimo masculino de Currer Bell). Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, teria escapado do ressentimento. Não deixa de ser curioso que Virginia aconselhasse as escritoras a colocarem o ressentimento de lado, embora ela própria fosse profundamente ressentida com os homens.

O bom escritor, na opinião de Virginia, deve sacar que há dois sexos na mente. Ela diz que a mente andrógina é ressoante e porosa. O livro Feminismo e Arte — Um Estudo Sobre Virginia Woolf (Interlivros, 1975, tradução de Fernando Cabral), de Herbert Mander, aprofunda e explica as idéias feministas ou pós-feministas de Virginia Woolf. Mas o importante mesmo é ler a fúria de Virginia. O leitor pode discordar das idéias, mas os argumentos da escritora são sempre instigantes. 

Virginia Woolf
25/01/1822 - Londres - Inglaterra
28/03/1941 - Rodmell - Inglaterra


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:51 PM

Um dia de Henry James na vida de Woody Allen

publicado em

Alguns intelectuais não devem gostar tanto do filme, porque devem preferir os mais “densos”, como “Crimes e Pecados” e “Match Point”, filmes acima da média e que colocam Allen no mesmo patamar de Ingmar Bergman

A crítica de cinema não percebeu que, de algum modo, “Vicky Cristina Barcelona”, o novo filme de Woody Allen, não deriva da literatura russa, sobretudo Dostoiévski e seu “Crime e Castigo”, e sim retoma (indiretamente, claro) a literatura do grande Henry James. O diretor americano mostra-se sempre surpreendente, fazendo o cinema dialogar com a literatura, com a música e as artes plásticas sem o didatismo de cineastas que devem ser considerados documentaristas.

Autor dos excelentes romances “Retrato de uma Senhora”, “As Asas da Pomba”, “A Taça de Ouro”, James tem o hábito de “transportar” americanos para a Europa, notadamente Inglaterra e Itália, e colocá-los em confronto com a sedimentada cultura desses países. Os burgueses americanos, com sede de ver, sentir e consumir a cultura mais antiga, convivem, meio extasiados, com integrantes de antigas famílias decadentes, algumas nobres, e, em certos casos, golpistas. Um dos pontos fortes da notável e ambivalente literatura de James resulta deste “choque”, ou encontro, entre povos diferentes. Allen coloca os americanos em Barcelona, na Catalunha (nem escrevi Espanha), e, apesar de alguns conflitos, mais existenciais do que artísticos, catalães e os filhos da Nova Inglaterra se dão relativamente bem e, no final, os grupos reassumem seus “lugares”, sem que nenhum deles se sinta usado. São diferentes. Têm perspectivas diversas.

Alguns intelectuais não devem gostar tanto do filme, porque devem preferir os mais “densos”, como “Crimes e Pecados” e “Match Point”, filmes acima da média e que colocam Allen no mesmo patamar de Ingmar Bergman. Mas em “Barcelona” os conflitos individuais dos seres humanos, e não digo nem modernos, porque certos conflitos são eternos — a abordagem é que pode ser moderna ou atualizada —, como sexo, tesão, paixão, ciúme, interesses, são esboçados com energia. A abordagem, por ser leve, tende a ser confundida com superficial.

Outra compatibilidade entre James e Allen, o Allen deste filme, é que as mulheres são mais consistentes e cheias de vida. Nos três romances citados, as mulheres são protagonistas, mesmo quando sofrem barbaramente, e os homens parecem marionetes nas mãos do narrador, espécie de anjo castigador. Há, por fim, outra identidade: o filme e alguns dos romances de James não parecem finalizados.

Daniel Piza escreveu no “Estadão”, no domingo, que Woody Allen dirigiu o filme “Crime e Castigo”. Dirigiu “Crimes e Pecados”. De algum modo, Piza está certo, porque pelo menos dois filmes de Allen, “Crimes e Pecados” e “Match Point”, pertencem à inclassificável “escola” literária de Dostoiévski. Pertencer à “escola” não significa repetir o autor russo. Allen pertence a uma escola mais cínica e não acredita em redenção pela bondade ou pela religião. Se se pode dizer assim, e talvez não seja possível, Allen aposta numa redenção se o indivíduo assumir a culpa (assumir, no caso, significa fazer o que é preciso fazer), ainda que não penalmente, e seguir adiante. A vida é assim mesmo: é preciso seguir adiante.

São lindas e competentes as três atrizes que fazem de “Barcelona” um bom filme. Penelope Cruz (Maria Elena), que prova que uma personagem estereotipada também pode ser ótima, Scarlett Johansson (Cristina) e Rebecca Hall (Vichy) estão muito bem. Assim como Javier Bardem, que não tem nada de bobo. Pode ser néscio alguém que consegue fazer três mulheres maravilhosas dormirem com ele? Não só dormem. Gostam do ótimo Bardem.


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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:31 PM

Poder devorou o repórter Ricardo Kotscho

publicado em

Ele sustenta que, quando estava ao lado do rei, não sabia nada de mensalão e Marcos Valério. Era da cozinha de Lulla, como Delúbio Soares e José Dirceu, mas, como o presidente, não sabia de nada. É provável que, no poder, Kotscho tenha deixado de ser repórter. O poder costuma devorar a alma dos grandes repórteres

Quem espera revelações sensacionais do livro "Do Golpe ao Planalto — Uma Vida de Repórter" (Companhia das Letras), de Ricardo Kotscho, terá de tirar o Lullinha da chuva. Não há, em nenhum momento, o tom explosivo de "Minha Razão de Viver", de Samuel Wainer, nem a riqueza de informações de "Chatô", de Fernando Morais. O texto é muito bom, escraviza o leitor, mas, para dizer pouco, falta contexto histórico, apresentado apenas de relance. Daí alguns leitores terem dito que o livro, apesar de bem-escrito e contar histórias interessantes, é decepcionante.
 
"Do Golpe ao Planalto" é a história de um repórter correto e, vá lá, criativo. Desses que têm uma vocação humanista e não estão preocupados, digamos assim, com o chamado jornalismo investigativo (talvez mais destrutivo do que investigativo — por falta de uma gota de humanismo. A ânsia de, à força, corrigir o homem, de ter tudo explicado, é uma tarefa mais para ditadores do que para repórteres). Se fosse historiador, Kotscho certamente seria adepto da história das mentalidades. O forte do livro, que não será comentado aqui, é a sua história de repórter, com muitos acertos e alguns equívocos, que o autor admite sem tergiversar (cita até certa covardia pessoal). A pior parte, porque mais emocional e política (que não é o forte do repórter), é o posfácio, que será comentado rapidamente. Muitos certamente vão dizê-lo ingênuo ou, como está na moda, idealista. Talvez seja melhor assim, pois Kotscho não parece um profissional desonesto. Pelo contrário, é de uma seriedade exemplar. Um repórter da velha guarda, no melhor dos sentidos.
 
A crença de Kotscho em Lulla parece coisa de parvos, o que o repórter não é. Tudo indica que a paixão dele pelo petista o cega. Mesmo assim, o repórter, quando a razão aflora, o que ocorre raramente, percebe o Lulla real. Por não amar o poder, e amar a família, Kotscho deixou o disputado cargo de secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (o repórter-primeiro amigo conta que, por telefone, ainda tenta influenciar o governo Lulla, quer dizer, não está inteiramente afastado do Collor de Garanhuns). É a sua explicação para abandonar o barco de Lulla. Ele sustenta que, quando estava ao lado do rei, não sabia nada de mensalão e Marcos Valério. Era da cozinha de Lulla, como Delúbio Soares e José Dirceu, mas, como o presidente, não sabia de nada. É provável que, no poder, Kotscho tenha deixado de ser repórter. O poder costuma devorar a alma dos grandes repórteres. Kotscho não me parece a figura do execrável bajulador, do tradicional dobrador de joelhos, mas, no poder, na presença do rei, perdeu o senso. O livro mostra que ainda não o recuperou, mas está próximo de reconquistá-lo. Kotscho é sério, mesmo quando está atraído mortalmente pela serpente Lulla. Na ótima revista "Brasileiros", Kotscho parece ter reencontrado o equilíbrio.
 
Afastado do governo, mas não de Lulla, Kotscho diz que tinha alguns pressentimentos: “O principal era que o presidente, a vida toda habituado a aplausos e elogios, a ouvir muita gente antes de tomar uma decisão, postergando-a, esperando que os problemas se revolvessem com o tempo, não estivesse psicologicamente preparado para enfrentar uma onda daquele tamanho. Querendo agradar a todos, Lulla talvez não soubesse perceber a tempo e reagir à altura quando o vento virasse contra ele. Se nos períodos de calmaria qualquer contrariedade ou problema menor já o deixava irritado além da conta, eu temia que sua reação diante de uma crise mais séria acabasse agravando-a. O governo e o presidente primeiro demoraram a entender a gravidade da situação e depois reagiram mal, partindo da defesa para o ataque sem uma estratégia definida”.
 
Adiante, mais uma estocada, talvez a possível, pois Kotscho e Lulla continuam amigos: “Após algum tempo de perplexidade, dei-me conta de que a reação do presidente e do governo fora ainda mais danosa à imagem de ambos do que a crise em si, já bastante traumática. Quando a ficha finalmente caiu, meses depois das primeiras denúncias, Lula parecia ter voltado à época das assembléias dos metalúrgicos, achando que poderia resolver tudo no gogó, nos discursos de palanque. Reagiu com o fígado, o que é um veneno em política. Começou a viajar mais pelo país e para o exterior, em vez de pôr a casa em ordem e preparar sua tripulação para enfrentar a tempestade na mídia e no Congresso Nacional”.
 
É o máximo que Kotscho se permite de crítica a Lulla. Seu livro inaugura, de certo modo, uma espécie de bibliografia positiva do presidente petista, assim como o livro do senador e economista Aloizio Mercadante.
 
No final do posfácio, Kotscho revela um diálogo que manteve com o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, quando este era presidente da República:
 
— Presidente, o senhor conseguiu a reeleição, já está no segundo mandato, por que não dá um murro na mesa e governa do seu jeito, com quem achar melhor para o país?
 
— Você está maluco? Se eu fizer isso, meu governo acaba no dia seguinte.
 
A citação a Fernando Henrique Cardoso, algo sutil, é um lembrete aos que atacam Lulla por ter mantido (ou manter) uma relação fisiológica com os políticos tradicionais. Noutras palavras, Kotscho sugere que não é possível fazer diferente. O realismo de Kotscho, que às vezes posa de romântico, tem o objetivo de “perdoar” os “erros” de Lulla e, por isso, é lamentável. Como se vê, quem explica Lulla não é Kotscho, e sim Raymundo Faoro, o de "Os Donos do Poder" (espécie de biografia das elites políticas brasileiras).
 
"Do Golpe ao Planalto" é um excelente livro para estudantes de jornalismo e repórteres que estão começando na profissão. Por exemplo: Kotscho diz que reportagens feitas por telefone, sem contato com o mundo real, empobrecem a qualidade tanto das informações quanto do texto. Ele tem razão: os contatos por telefone, por mais que sejam eficientes (pela rapidez), esfriam as relações e raramente permitem que o repórter “entre” na intimidade dos entrevistados. Nada vale mais do que uma conversa olho no olho (mente-se com mais facilidade por telefone do que cara a cara). Bob Woodward, um dos repórteres que contribuíram para a queda de Richard Nixon, raramente conversava com sua principal fonte, Garganta Profunda, por telefone. Num tempo de grampos multiplicados, o telefone é a geladeira das conversações.
 
Sugiro uma ligeira mudança no (sub)título do livro: "Do Golpe ao Planalto: Uma Vida de Repórter e Assessor de Lulla". Sim, porque, de algum modo, mesmo a distância, Kotscho continua como auxiliar, ainda que informal, de Lulla. O próprio livro é uma assessoria qualificada. Uma pena, pois Kotscho é mesmo um repórter brilhante e íntegro. Mas qual integridade resiste às necessidades e seduções do poder?

 

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POR EM 08/12/2008 ÀS 06:13 PM

Memórias da poeta russa Marina Tsvetáieva

publicado em
 
A Editora Martins Fontes é responsável por um lançamento espetacular: Vivendo Sob o Fogo (763 páginas), da escritora russa Marina Tsvetáieva, que, sob pressão do stalinismo, matou-se, aos 49 anos, em 1941.
 
Na verdade, Marina não escreveu nenhuma obra com o título de Vivendo Sob o Fogo. O livro, muito bem organizado pelo crítico Tzvetan Todorov, com tradução precisa e amorosa de Aurora Fornoni Bernardini, contém cartas e páginas dos diários da poeta. Há textos profundamente dramáticos, mas percebe-se a escritora atenta mesmo nos lamentos bem mais pessoais.
 
O livro não pôde ser trabalhado por Marina, pois morreu no auge do stalinismo, mas, o que poderia parecer defeito, acaba sendo virtude, pois temos a autora em carne viva falando de si, de familiares e da vida sob a ditadura comunista. “Não será exagero ver neste livro sua obra mais acabada”, escreve, no excelente prefácio, Todorov.
 
Como tenho dúvidas sobre o que disse Todorov, que me parece excessivamente empolgado com o material que organizou, sugiro aos leitores que consultem duas versões da poesia de Marina, feitas a partir do russo por tradutores competentes: Indícios Flutuante — Poemas (Editora Martins Fontes. 208 páginas, R$ 38,30), com tradução de Aurora Fornoni Bernardini, e Marina (Travessa dos Editores, 151 páginas, R$ 28), com tradução de Décio Pignatari.  
 
Um poema, duas traduções
 
A seguir, transcrevo o poema "À Vida", de Marina Tsvietáieva, com duas traduções, uma de Haroldo de Campos e a outra de Augusto de Campos. Os poemas foram extraídos do livro Poesia Russa Moderna e as duas traduções indicam como um poema pode ser recebido noutra línguas de várias formas.
 
À VIDA  
MARINA TSVIETÁIEVA
 
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
 
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cabelo
Árabe — E abre a veia da vida.
 
[Poema de 1924, tradução de Haroldo de Campos]
 
À VIDA  
MARINA TSVIETÁIEVA
 
Não colherás no meu rosto sem ruga
 
A cor, violenta correnteza.
 
És caçadora — eu não sou presa.
 
És a perseguição — eu sou a fuga.
 
Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes — o corcel.
 
Árabe.
 
[Tradução de Augusto de Campos]  
 
 
Boxe, a sétima arte
 
O diplomata Guillermo Rivera, ex-repórter do Jornal Opção, ao voltar de Rabat, capital do Marrocos, traduziu, no avião, um texto da revista "The Economist" sobre boxe. Discordo do texto ao apresentar Muhammad Ali como um homem do poder, pois o boxeador é muito mais do que isto tanto para o boxe quanto para a história dos Estados Unidos. Por certo esqueceram que foi preso por se recusar a lutar no Vietnã.
 

BOXE

Uma história cultural
 
 
Pugilistas e estetas não estão, necessariamente, em cantos opostos. Em uma história do esporte que remonta a Homero, Virgílio e outros fãs antigos de lutas, Kasia Boddy, uma palestrante de Inglês no University College de Londres, examina a estranha atração que o boxe exerce sobre os intelectuais. Ela nos fornece uma leitura prazerosa ao mesmo tempo em que explora como os lutadores profissionais estimulam a imaginação de escritores, artistas e intelectuais.
 
Alguns dos seguidores mais pretensiosos do esporte são intelectuais franceses. François Mauriac descreveu Georges Carpentier, um campeão mundial da categoria meio-pesado, como sendo "um desses Apollos graciosos, levemente arranhados pela picareta durante o processo de sua exumação", e "o tipo de homem honesto a quem Pascal quereria bem". Jean Cocteau era empresário de um boxeador profissional e, para ele, compôs rapsódias sobre sua "poesia ativa" e sua "sintaxe misteriosa". Jean Genet escreveu poemas para um "boxeador-gatuno" e uma "rosa musculosa".
 
Os equivalentes norte-americanos desses intelectuais são mais assertivos. Vários deles subiram aos ringues para tentar lutar, mesmo que fosse apenas para participar como sparrings. Rodolfo Valentino foi uma exceção que tentou uma luta verdadeira. O ídolo das matinês dos anos 20 ficou tão enfurecido de ter sido chamado de "esponja de pó-de-arroz" por um jornal de Chicago que desafiou o repórter a enfrentá-lo no ringue. Norman Mailer via o boxe como metáfora para suas ambições de se tornar o campeão da escrita mundial. T.S. Eliot teve aulas de boxe dadas por um ex-pugilista em um ginásio mais ou menos barra-pesada na Zona Sul de Boston. Wyndham Lewis surpreendeu-se quando entrou no estúdio parisiense de Ezra Pound e encontrou o poeta norte-americano usando luvas de boxe e treinando com um jovem esplendidamente em forma, que viria a ser Ernest Hemingway. Os celebrados estudos de Thomas Eakins incluem uma fotografia de jovens de punhos nus lutando em uma floresta que, para Boddy, evocava tanto o classicismo pastoril e o quadro "Déjeuner sur l´herbe", de Manet.
 
Alguns poucos boxeadores se confraternizavam com a intelligentsia. Gene Tunney contava com George Bernard Shaw, Sherwood Anderson e Thornton Wilder entre seus amigos e agregava às suas conversas palavras como "ineficaz" e "mudanças cosméticas". Muhammad Ali, de maneira mais típica, aceitava a admiração de seus fãs cultos com uma afeição embasbacada. Ele até posou para George Lois como capa da revista Esquire, em pose de São Sebastião, de Boticelli, até que se deu conta, repentinamente, de onde provinha o assunto. "Ei George", ele gritou, "esse cara é cristão!". A sessão de fotos teve de ser interrompida até que Ali tivesse consultado seu líder espiritual muçulmano para saber se as poses seriam apropriadas.
 
De maneira mais séria, Boddy explora as tensões étnicas no esporte, especialmente entre brancos e negros nos EUA. O racismo já foi escancarado. Quando Jack Johnson, o primeiro negro campeão mundial dos pesos pesados, entrou no ringue em Reno em 1910 para derrotar a mais recente "Esperança Branca", a banda tocou "All Coons Look Alike to Me" ("Todos os Crioulos Parecem Ser Iguais para Mim"). Menos de três décadas depois, as coisas haviam mudado de maneira evidente. Joe Louis, o "Bombardeador Marrom", contou com o apoio fanático de norte-americanos de todas as cores quando defendeu o mesmo título contra o alemão Max Schmeling, em uma luta rotulada como sendo uma competição entre a democracia e o nazismo.
 
O sucessor deles, Muhammad Ali, um radical que se tornou patriota, tornou-se por completo uma figura do establishment. Ele fez campanha para Ronald Reagan, na eleição presidencial de 1980, e em 1990 voou ao Iraque para tentar assegurar a libertação de reféns norte-americanos aprisionados por Saddam Hussein. O atual presidente George Bush tem sido um apreciador especial dos esforços do ex-campeão para persuadir muçulmanos dos EUA a apoiarem as guerras no Iraque e no Afeganistão e, em 2005, o condecorou com a Medalha Presidencial. Esse cara é, agora, um pilar da sociedade.

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