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Euler de França Belém

POR EM 07/06/2009 ÀS 10:43 AM

Centenas de brasileiros lutaram ao lado dos nazistas

publicado em

Pela legislação nazista, filhos de alemães eram considerados alemães e, em tempo de guerra, eram obrigados a prestar serviço militar na Wehrmacht — forças armadas alemãs


 Dennison de Oliveira, autor de "Os Soldados Brasileiros de Hitler"

 
O mestre em ciência política e doutor em ciências sociais Dennison de Oliveira, professor da Universidade Federal do Paraná, escreveu um livro muito bom, mas ainda exploratório, sobre brasileiros, filhos de alemães, que lutaram na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) ao lado dos nazistas de Adolf Hitler. “Os Soldados Brasileiros de Hitler” (Juruá, 122 páginas) não contém aquelas pesquisas exaustivas típicas de scholars europeus e norte-americanos. Leitores exigentes, e não apenas os do meio acadêmico, certamente estranharão o fato de que os personagens do livro, todos reais, não aparecem com seus nomes verdadeiros. Os nazistas teuto-brasileiros só falaram com o historiador com a garantia de que suas identidades seriam preservadas. Como se sabe, os caçadores de nazistas não se aposentaram e, de repente, aqueles que lutaram apenas como soldados, sem comprometimento algum com o Holocausto e os outros crimes bárbaros, podem ter suas vidas expostas e, em consequência, execradas. Para provar que os depoimentos são verdadeiros, que não há invenção literária, Dennison divulga fotografias e dados precisos sobre os militares nazistas. Um escarafunchador de arquivos e entrevistador implacável como o repórter Fernando Morais faria miséria com a história dos soldados patropis de Hitler.

Pela legislação nazista, filhos de alemães eram considerados alemães e, em tempo de guerra, eram obrigados a prestar serviço militar na Wehrmacht (forças armadas alemãs). “Presumo que algumas centenas de brasileiros lutaram na Segunda Guerra Mundial sob a bandeira da Alemanha nazista”, escreve Dennison. O termo “presumo” significa que o assunto está à espera de uma pesquisa rigorosa, que, quem sabe, poderá ser feita pelo próprio historiador, que apurou (bem) as primeiras pistas.

Um dos primeiros entrevistados de Dennison era conhecido por seus colegas soldados como “Der Amerikaner” (o Americano), por ter nascido no Brasil. Como seu apelido era Gingo (ou Güingo, a pronúncia), o historiador usa as iniciais G. S.

Gingo (está vivo) nasceu em São Paulo, em 1925, filho de alemães que vieram para o Brasil em 1923. Em agosto de 1939, Gingo é levado para a Alemanha, para se “tratar” de febre amarela. Aos 14 anos, teve se filiar na Jungvolk, “organização juvenil controlada pelo regime nazista”. A doutrinação ideológica, segundo o entrevistado, não era fanática nem excessiva. Em 1942, aos 18 anos, foi convocado para o serviço militar. Alegou que era brasileiro e recebeu como resposta: “Se você tivesse nascido na África isso faria de você um negro?”

Enviado para a Tchecoslováquia, Gingo se tornou sargento-canhoneiro. O comando nazista decidiu enviá-lo para lutar na Itália. “Não me nego a ir ao front, mas não contra meus patrícios brasileiros”, disse ao capitão de sua unidade. Por se recusar a lutar, deveria ser fuzilado. “O sargento G. S. suava de escorrer suor pelas costas e nádegas”, mas resistiu. Um major decidiu protegê-lo, alegando que estava gravemente doente. Mais tarde, transferido para a infantaria, lutou contra o Exército Vermelho, na atual Eslováquia. Em Budapeste, “no posto de 3º sargento da infantaria, ele foi colocado no comando de um grupo de combate de sete homens, equipados com fuzis e uma única metralhadora de origem tcheca capturada aos partisans. As restrições no que se refere ao remuniciamento também eram pesadas: ele lembra de só ter disponíveis uns vinte tiros para cada arma, o que explica as limitações impostas: máximo de um ou dois disparos por arma; acima disso podia-se atirar somente com ordem superior”.

Intensamente bombardeado pelos soviéticos, o grupo de Gingo praticamente não dormia. Ele diz que às vezes dormia andando. Na região do lago Valence, G. S. se destacou nos combates e recebeu a Cruz de Ferro de Segunda Classe por bravura e foi promovido a 1º sargento. O militar conta que os húngaros temiam mais os soviéticos do que os alemães. O soviéticos estupravam meninas, mulheres adultas e idosas.

Preso pelos soviéticos, Gingo teve o relógio, presente de um padrinho brasileiro, roubado por um comissário esquerdista. Percebendo que teria um fim trágico nas mãos dos comunistas, Gingo escapou, junto com outros militares, e encontrou uma garota (os soviéticos “pregaram o avô dela com um prego pela língua” numa mesa, bateram em sua irmã, criança, e estupraram a avô e a mãe). Depois, o sargento caiu nas mãos dos americanos. “Para os soldados alemães era um alívio, um mal menor, ser prisioneiro dos americanos e não dos russos. O alemão não tinha medo, mas sim pavor do russo”, conta Gingo.

Num campo de prisioneiros, Gingo passou a fazer trabalhos braçais para os americanos. “A obra a qual foi destinado foi o desenterramento do cabo terrestre de comunicação Berlim-Roma, enterrado a três metros de profundidade, cujos condutores os americanos ambicionavam para si.” Relata o sargento G. S.: “Os soldados retornados às suas cidades recebiam as cartelas de racionamento de alimentos pelo prazo de três semanas. Mas tinham que obrigatoriamente assistir ao filme ‘Moinho do Diabo’ sobre atrocidades cometidas pelos alemães contra seus prisioneiros. De repente esse filme foi tirado de circulação, pois muitos soldados se reconheceram nesse filme como sendo eles os prisioneiros, e os Aliados, os carrascos”, conta Gingo. (Leia mais no site www.jornalopcao.com.br, na coluna Imprensa).

O sargento Gingo, deslocado para trabalhar numa pedreira, disse que era brasileiro e, por isso, perdeu o cartão de racionamento. Acusado de ser líder proeminente da Juventude Hitlerista, foi enviado para Hammelburg, um campo de concentração. Ficou três dias sem se alimentar e foi obrigado a trabalhar. “Com o tempo ele se convenceu de que havia o propósito da administração do campo em exterminar os detentos através da fome induzida. Para complementar a dieta ele teve de comer capim e cascas de árvores e lixo da cozinha”. Muitos prisioneiros morreram. Certa vez, a Cruz Vermelha enviou pacotes de alimentos e os guardas pró-americanos, supostamente filhos de judeus alemães, “colocaram os prisioneiros em forma e jogaram gasolina em cima de tudo e colocaram fogo”.

As pressões só cessaram quando o general americano George Patton visitou o campo. “Patton considerava o soldado alemão um soldado exemplar, que deveria ser respeitado”, anota o historiador. “Der Amerikaner atribui a essa visita do general americano o fato de sua vida e a de seus companheiros terem sido poupadas.”

Gingo ficou oito meses em Hammelburg e três meses em Darmstadt, “um grande campo para estrangeiros que serviram ao III Reich”. Em fevereiro de 1948, com o aval da Junta de Desnazificação e do subchefe da Missão Militar Brasileira, tenente-coronel Aurélio de Lyra Tavares, o Americano voltou ao Brasil, no navio Santarém.

A história de Fritz (pseudônimo) e seus irmãos é uma das mais interessantes do livro de Dennison. Fritz nasceu em São Paulo, em 1928. Os pais, que chegaram ao Brasil em 1923, tiveram cinco filhos, Renate, Karl e Martin, nascidos na Alemanha, e Peter e Fritz, nascidos no Brasil. Peter lutou como nazista, na frente russa, e sobreviveu, radicando-se em São Paulo.

Martin contou a Dennison a história dos irmãos Gerd Emil Brunckhorst e Paul Heinrich. O primeiro lutou na Itália, ao lado dos brasileiros. O segundo morreu no front russo, lutando como nazista.

No início da década de 1940, com 14 anos, Fritz filiou-se à Jungvolk. Em 1942, a família foi informada da morte de Karl, do Afrika Korps, na África do Norte. Lutou sob o comando do marechal Erwin Rommel. “Entre 1943 e 1944”, Fritz “entrou para a Marine-Hitlerjugend, a Juventude Hitlerista Naval.” Em 1944, foi convocado para “prestar serviço como” auxiliar “da defesa antiaérea”. Em Berlim, presenciou os ataques diurnos dos aviões Aliados. “Nunca tinha visto tantos aviões juntos de uma só vez.” Os incêndios pareciam tomar conta de toda a Berlim. Viu pessoas queimadas, desfiguradas e mortas. Na cidade de Wetzlar, no Estado de Hessen, Fritz foi “incorporado ao serviço ativo no exército alemão”. Foi enviado para lutar contra os americanos. “Seu grupo foi dizimado. Ele e mais dois colegas conseguiram ir de carona, sem terem recebido ordens para isso, num caminhão carregado de munição até a Turíngia.” Os americanos o aprisionaram em março de 1945. Passou fome durante o transporte para um campo de prisioneiros de Bad Kreuznach.

O relato de Dennison a partir dos apontamentos do ex-soldado: “Fritz lembra que ele e seu grupo foram os primeiros a entrar no campo que consistia de um descampado plano, cercado de arame farpado. Inexistiam alojamentos ou instalações sanitárias, o que obrigava os reclusos a dormirem ao relento, sob um clima úmido e extremamente frio, sempre dispondo de pouca comida. Nesse momento a fala de Fritz se torna mais contida, ao recordar o elenco de misérias e brutalidades a que foram submetidos os prisioneiros alemães. (...) Ele conta que as pessoas defecavam e urinavam em grandes fossas a céu aberto. Os mais enfraquecidos pela fome e pela doença caíam dentro dessas fossas e, sem forças para se safar, morriam afogados da maneira mais abjeta em excrementos humanos. No desespero de obterem pelo menos algum conforto, os prisioneiros chegavam a trocar suas alianças de ouro por alguns cigarros com seus guardas norte-americanos”. A história contada por Fritz raramente aparece nos livros, porque, teoricamente, muitos acreditam que, como fizeram sofrer, os alemães também deveriam sofrer. A história da internação dos alemães, no fim da guerra, é um capítulo que merece resgate mais amplo. A versão dos americanos como captores benevolentes talvez precise ser refeita, embora não fossem, é claro, tão bárbaros quanto os soviéticos.

No campo, relata Fritz, “um grupo significativo de alemães morria” todo dia. “Se você perguntar a qualquer alemão o que foi um campo de extermínio, certamente ele irá te mencionar algum desses, de prisioneiros de guerra que os americanos improvisaram”. Fritz pegou tifo no campo e passou muito mal.

Em 1945, doente, Fritz conseguiu voltar para a casa dos pais. Recebeu informações sobre os irmãos. Martin havia sido aprisionado pelos russos, na Romênia. Peter estava na zona de ocupação inglesa. Renate estava em Portugal, na Embaixada Alemã. Recuperado, Fritz trabalhou na zona de ocupação russa e, mais tarde, fugiu para o lado americano, escapando para a Holanda. Em 1947, ele e Peter voltam para o Brasil, “no navio Santarém, primeiro navio brasileiro a fazer a rota até a Alemanha, saindo de Hamburgo com escala em Lisboa”.

Como saíra jovem do Brasil, Fritz descobriu que não sabia mais falar português e teve de ser amparado pelo irmão Peter, que não havia esquecido a língua. Fritz trabalhou na fábrica de fogões Wallig, em São Paulo, e na empresa MacMillan. Foi funcionário e sócio da Jarosch & Cia, representante da fábrica de armarinhos Ipu, de Nova Friburgo.

Ao contrário de nazistas que esqueceram o nazismo, Fritz contou a Dennison que era “entusiasta do regime”. “Ele se recorda de que, ao contrário do que hoje se imagina, as preleções políticas e doutrinárias aos jovens não tinham nada de exagerado. A despeito da inexistência de qualquer esforço para ‘fanatizar’ os jovens, ele próprio manteve até o fim a fé na vitória da Alemanha sobre os seus inimigos, mesmo quando já se encontrava em um campo de prisioneiros norte-americano em março de 1945. Ele lembra que os mais velhos — cita a sua própria mãe como exemplo — eram consideravelmente mais céticos com relação ao futuro do país sob regime nacional-socialista”.

Fritz foi entrevistado por Dennison em São Paulo, em 2002, e faleceu em 2006. Estava muito doente quando conversou com o historiador.

Cruz de ferro — Martin, irmão de Fritz, foi entrevistado por Dennisson em 2002, em São Paulo. Convocado em 1941, foi enviado para Posen, “no antigo corredor polonês”. Lutou contra partisans, na Lituânia, e contra tropas soviéticas. Foi condecorado (com a cruz de ferro) pelas batalhas contra as tropas comunistas. Ferido em combate, foi levado para a França. Recuperado, voltou para a mortal frente soviética, na Ucrânia, “sem armas. Toda divisão seria reequipada e armada lá mesmo na frente russa, na região de Poltava, tendo seguido depois para as margens do Rio Dnieper ao sul de Kharkhov”. Contraiu malária e foi retirado do front. Retornou à luta em abril de 1944, na artilharia, na Romênia. Tornou-se comandante de uma bateria. “O dia mais marcante no front, segundo suas lembranças, foi 22 de agosto de 1944. Naquele dia, intenso fogo de artilharia russa engolfou as posições alemãs de norte a sul, em apoio de um grande ataque das tropas soviéticas.” Sob pressão dos soviéticos, as tropas alemãs recuaram e entupiram as estradas, em fuga. Foi ferido outra vez, pelos soviéticos.

Capturado pelos soviéticos, Martin foi roubado. “Apesar de estar precariamente vestido, os seus captores fizeram questão de tirar-lhe os pertences pessoais, as botas, e parte das calças, estas últimas tiradas a faca pelos” soviéticos, “como resposta a sua alegação de que esta não sairia facilmente de seu corpo.” No trajeto para um campo de prisioneiros, foi novamente roubado pelos soviéticos, “que desta vez levaram-lhe as meias, que ele recorda estarem já empapadas de sangue coagulado. Quando finalmente chegou ao campo, estava descalço e seminu”.

Martin passou cinco anos em campos de prisioneiros para militares alemães. Passou fome e foi intensamente pressionado pelos soviéticos. “Em 1950 ele foi devolvido pela URSS à recém-fundada República Federal da Alemanha.” De lá, voltou ao Brasil. Mora em São Paulo e planeja escrever um livro sobre sua história.

Banzo brasileiro — Hans (pseudônimo), brasileiro que lutou como nazista, foi entrevistado por Dennison em 2002. Nasceu em São Paulo, em 1926. Os pais, austríacos, voltaram para a Europa em 1938. Na Alemanha, filiou-se à Jungvolk e, depois, à Juventude Hitlerista. Lembra-se de Hamburgo bombardeada pelos Aliados. “A fúria dos ataques aliados promovera incêndios tão extensos (e prolongados — foi em Hamburgo que se empregou pela primeira vez a tática de revezamento ininterrupto de bombardeios diurnos norte-americanos com noturnos britânicos — naquilo que era conhecido como o ‘round-o-clock bombing’) que o asfalto das ruas se derretia e neles as pessoas em fuga acabavam presas.”

Em 1944, o garoto Hans foi convocado “para prestar o serviço militar no exército”. No fim desse ano, foi enviado para a Tchecoslováquia. Em busca de alimentos, encontrou grãos de café e sentiu saudade do Brasil. Em 1945, ainda na Tchecoslováquia, quase perdeu os pés, por conta do frio. “Os médicos decidiram pela amputação de parte das extremidades dos dedos dos seus dois pés, irremediavelmente comprometidos pela gangrena. Apesar de anestesiado, no período pós-operatório delirou intensamente, xingando e praguejando o tempo todo em português, para assombro do pessoal médico que o assistia.”

Hans diz ter ficado sabendo do relacionamento entre Hitler e Eva Braun apenas em 1945, quando, prisioneiro dos americanos, leu uma reportagem num jornal do exército dos Estados Unidos. A imprensa alemã não divulgava a história.

Repatriado, Hans chegou ao Brasil em 1947 e seus pais, em 1948. “Ele lembra que foram os primeiros brasileiros a serem repatriados.” Ele vive em São Paulo.

Selvageria soviética — Filho de alemães, Max nasceu no Brasil, em Santa Leopoldina, em 1928. Quando tinha 7 anos, em 1935, os pais voltaram para a Alemanha. Aos 10 anos, em 1938, entrou para a Jungvolk. Em 1942, aos 14 anos, ingressou na MarinerHitlerJugend, o ramo da juventude hitlerista administrado pela Marinha. O irmão Hans (que não é o Hans citado anteriormente) foi morto na frente soviética.

Entre 1944 e 1945, Max “ofereceu-se como voluntário para o trabalho de cavar trincheiras antitanques perto de Bratislava, na Tchecoslováquia. (...) No início de 1945 voltou a Berlim para se alistar seguindo logo depois para Viena na Áustria. Não chegou a se envolver em operações de combate”.

Max diz que o bombardeio de Berlim foi impressionante. “Numa única noite de bombardeio todo seu bairro foi inteiramente arrasado.” No fim da guerra, ele estava em Berlim. Sua família entrou em contato com o major Rubens, do Exército brasileiro com o objetivo de voltar para o Brasil. “Nessa ocasião [Max] presenciou diversas cenas de atrocidades por parte das tropas” soviéticas “de ocupação. Ele se recorda de que o comportamento e o nível de instrução das tropas sob comando” soviético “era extremamente rude e primitivo. Ele se lembra de ter visto soldados” soviéticos “arrancarem e levarem consigo as torneiras das paredes de banheiros e cozinhas, imaginando que assim poderiam ter água em qualquer lugar... Lembra também de vários casos de violência sexual perpetrada por russos contra mulheres alemãs de todas as idades que, até onde ele pôde perceber, eram tolerados senão encorajados pelos próprios escalões superiores da hierarquia militar soviética.”

Para livrar-se dos soviéticos, Max fugiu para a zona de ocupação francesa, onde viveu até 1947. Voltou para o Brasil nesse ano. Max vive em São Paulo.

Fome e porcos — Chicco (pseudônimo) foi o último entrevistado de Dennison. Nasceu em São Paulo, em 1927, e foi enviado pelos pais para a Áustria em 1939. Ele e um irmão se filiaram à Juventude Hitlerista. Em 1943, tornou-se auxiliar da Força Aérea Alemã. Participou de treinamentos na Alemanha, na Dinamarca e na Holanda. O soldado britânico que o capturou gritou: “... um brasileiro! Pegamos um brasileiro!” Depois de interrogado, foi jogado “por seus captores num chiqueiro onde havia alguns porcos grandes e famintos. Ali ele passou o seu primeiro dia como ‘prisioneiro de guerra’”.

Como falava inglês fluentemente, Chicco trabalhou para os ingleses. Na Holanda, contou o soldado, “se passava muito frio e se sofria muita fome”. Ele relata que “presenciou vários linchamentos de soldados alemães pelos civis locais”. Em maio de 1945, quando a guerra acabou, Chicco estava na cidade de Neuburg, próximo ao Rio Reno.

Chicco “convenceu seus captores a libertá-lo, o que possibilitou viajar até Antuérpia, na Bélgica. Lá ele finalmente conseguiu ser recebido pelo vice-cônsul brasileiro que, na sua lembrança, se chamava Júlio Diogo. Ele é que providenciou seu retorno ao Brasil de navio”. O pesquisador optou por não verificar quem é Júlio Diogo. Chicco trabalhou na Volkswagen e morreu em São Paulo em 2008.

Depois da guerra, cerca de 5 mil pessoas foram “repatriadas”. O coronel Lyra Tavares contabilizou “o envio para o Brasil de 2.445 brasileiros e 2.752 estrangeiros”.
 

 


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POR EM 05/06/2009 ÀS 07:33 PM

Quatro comentários breves sobre livros recentes

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"Eles Foram Para Petrópolis" de Ivan Lessa e Mario Sergio Conti e "Literatura Brasileira Modos de Usar" deLu­ís Au­gus­to Fis­cher


Livro mais tedioso do ano


Reli “Ligações Perigosas”, o romance epistolar de Choderlos de Laclos, na tradução magnífica de Carlos Drummond de Andrade. É uma história maravilhosa. Escrita por um cérebro de gênio.

Decidi, então, ler “Eles Foram Para Petrópolis — Uma Correspondência Virtual na Virada do Século”, cartas trocadas entre o intelectueba Ivan Lessa e o jornalista Mario Sergio Conti. Algumas cartas são engraçadinhas, principalmente as do intelectueba, mas quase todas são tediosas. A vaidade dos autores não é a dos gênios, plenamente justificada (só acredito em gente vaidosa e pretensiosa), e sim a dos néscios que querem parecer mais sábios do que o resto (isto mesmo, resto) da humanidade.

O “trabalho” de Lessa e Conti é sério candidato a pior livro do ano. Para melhorá-lo, sugiro outro título: “Eles Foram Para o Inferno e Todos Torcem Para Que Fiquem Por Lá”.

 An­ti­ma­nu­al de li­te­ra­tu­ra

Lu­ís Au­gus­to Fis­cher, crí­ti­co li­te­rá­rio ga­ú­cho de 51 anos, es­cre­veu um li­vri­nho in­te­li­gen­te e po­lê­mi­co: “Li­te­ra­tu­ra Bra­si­lei­ra — Mo­dos de Usar” (L&PM, 143 pá­gi­nas). Quem tem pre­gui­ça de con­sul­tar vá­rios li­vros, ou tra­ta­dos aca­dê­mi­cos, ga­nha­rá mui­to se ler o opús­cu­lo do pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral do Rio Gran­de Sul. Su­as opi­ni­ões são con­tro­ver­sas, mas ele não te­me apre­sen­tá-las.

Ci­tan­do Jo­ão Ca­bral de Mel­lo Ne­to, apre­sen­ta­do co­mo nú­me­ro dois da po­e­sia bra­si­lei­ra (Car­los Drum­mond de An­dra­de é o nú­me­ro um), Fis­cher diz que há dois ti­pos de es­cri­to­res: “... os de cam­bão, que pu­xam pa­ra a fren­te, e os de coi­ce, que pre­fe­rem pa­rar; os pri­mei­ros ou­sam, os se­gun­dos tra­vam. A com­pa­ra­ção ren­de bem, es­ten­di­da so­bre a his­tó­ria da po­e­sia bra­si­lei­ra: di­ga­mos que um Sou­sân­dra­de pu­xa sem­pre pa­ra a fren­te, ao pas­so que um Bi­lac sem­pre tra­va ou pu­xa pa­ra trás”.

Não se pen­se que o li­vro, em for­ma­to de bol­so, é um ma­nu­al, da­que­les que apre­sen­tam ob­vi­e­da­des, con­cei­tos “tra­va­dos”. Na­da dis­so. Mes­mo quan­do é di­dá­ti­co, Fis­cher dis­cu­te a li­te­ra­tu­ra bra­si­lei­ra de mo­do apai­xo­na­do e, co­mo dis­se, po­lê­mi­co.
 


"Um Encontro" de Milan Kundera e “A Arte da Ficção” de David Lodge
 

Kun­de­ra des­ta­ca Gar­cía Már­quez


O tche­co Mi­lan Kun­de­ra, de 80 anos, é, além de pro­sa­dor no­tá­vel, um crí­ti­co li­te­rá­rio do pri­mei­ro ti­me. De­pois de qua­tro anos de si­lên­cio, lan­ça o li­vro “Um En­con­tro”, no qual ana­li­sa a li­te­ra­tu­ra de Dos­toi­évski, Kafka, Cé­li­ne, Beckett, Cur­zio Ma­la­par­te, Gar­cía Már­quez, Phi­lip Roth, Car­los Fu­en­tes.

Co­men­tá­rio pu­bli­ca­do no “Cla­rín” diz que Kun­de­ra com­pa­ra a ar­te de Ba­con, “cu­jos re­tra­tos ‘ques­ti­o­nam os li­mi­tes do eu’, com a li­te­ra­tu­ra de Beckett. Mas per­gun­ta se as idéi­as de Beckett não “aca­ba­ram por ma­tar sua cri­a­ção”. In­fe­liz­men­te, a pu­bli­ca­ção ar­gen­ti­na não am­plia a dis­cus­são.

“Cem Anos de So­li­dão”, do ca­na­lha (de gê­nio, es­pé­cie de Cé­li­ne da es­quer­da) Gar­cía Már­quez, é vis­to por Kun­de­ra co­mo o “fim do gran­de ro­man­ce”. Su­as pa­la­vras: “Te­nho a im­pres­são de que es­te ro­man­ce, uma apo­te­o­se li­te­rá­ria, é às ve­zes um ade­us di­ri­gi­do à era do ro­man­ce”.

Kun­de­ra afir­ma que “os pro­ta­go­nis­tas dos gran­des ro­man­ces não têm fi­lhos. Ape­nas 1% da po­pu­la­ção não tem fi­lhos, mas ao me­nos uns 50% dos gran­des per­so­na­gens no­ve­les­cos sa­em do ro­man­ce sem ha­ver re­pro­du­zi­do”. “Nem Pan­ta­gru­el nem Dom Qui­xo­te ti­ve­ram des­cen­dên­cia. Nem Val­mont, nem a mar­que­sa de Mer­teu­il, nem Wer­ther. To­dos os pro­ta­go­nis­tas de Stendhal ca­re­cem de fi­lhos, co­mo os de Bal­zac e Dos­toi­évski. E, no sé­cu­lo que aca­ba de ter­mi­nar, Mar­cel Proust e to­dos os gran­des per­so­na­gens de Mu­sil”, es­cre­ve o au­tor de “A In­sus­ten­tá­vel Le­ve­za do Ser”.

Há pou­co tem­po, dis­se­ram que Kun­de­ra ha­via, co­mo “agen­te co­mu­nis­ta”, de­nun­ci­a­do an­ti­co­mu­nis­tas. Uma men­ti­ra de per­nas cur­tís­si­mas, por­que Kun­de­ra é um crí­ti­co vis­ce­ral do to­ta­li­ta­ris­mo es­quer­dis­ta.

Da­vid Lod­ge ana­li­sa “La­ran­ja Me­câ­ni­ca”

As re­se­nhas qua­se sem­pre bri­lhan­tes de Da­vid Lod­ge sa­em em li­vro: “A Ar­te da Fic­ção” (L&PM, 245 pá­gi­nas). A es­cri­to­ra A. S. Byatt diz, com acer­to: “Os tex­tos de Lod­ge são úte­is, des­pre­ten­si­o­sos, aces­sí­veis. ‘A Ar­te da Fic­ção’ é um li­vro pa­ra se con­sul­tar mui­tas e mui­tas ve­zes”. Dis­cor­do de que se­jam “des­pre­ten­si­o­sos”, por­que, em ter­mos de li­te­ra­tu­ra, só de­vem ser le­va­dos a sé­rio tra­ba­lhos pre­ten­si­o­sos. Lod­ge exa­mi­na o ro­man­ce “La­ran­ja Me­câ­ni­ca”, de An­thony Bur­gess: “O lei­tor so­fre uma es­pé­cie de con­di­cio­na­men­to pav­lo­vi­a­no, mas com um re­for­ço po­si­ti­vo (a pos­si­bi­li­da­de de acom­pa­nhar a his­tó­ria) em vez de pu­ni­ções. A lin­gua­gem es­ti­li­za­da man­tém os cri­mes he­di­on­dos que são des­cri­tos a uma cer­ta dis­tân­cia es­té­ti­ca e evi­ta que fi­que­mos mui­to cho­ca­dos — ou mui­to em­pol­ga­dos — com a vi­o­lên­cia”. 

 

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POR EM 29/05/2009 ÀS 03:11 PM

Livro de Peter Gay sobre modernismo provoca polêmica

publicado em

O mo­der­nis­mo “deu aos ar­tis­tas a li­ber­da­de de le­var a sé­rio su­as fan­ta­si­as de in­su­bor­di­na­ção, de en­ca­rar com in­di­fe­ren­ça os câ­no­nes que por tan­tos sé­cu­los ha­vi­am di­ta­do os te­mas e as téc­ni­cas, de de­ci­dir se era o ca­so de mo­di­fi­car — ou, mais ra­di­cal­men­te, de der­ru­bar — os cri­té­rios vi­gen­tes, e que se­ri­am eles a em­pre­en­der a re­vo­lu­ção”, es­cre­ve Gay

 
O li­vro “Mo­der­nis­mo: O Fas­cí­nio da He­re­sia — De Bau­de­lai­re a Beckett e Mais um Pou­co” (Com­pa­nhia das Le­tras, 578 pá­gi­nas, tra­du­ção de De­ni­se Bottmann), de Pe­ter Gay, pro­vo­ca po­lê­mi­ca nos jor­nais pa­tro­pis. Mar­ce­lo Co­e­lho pu­bli­cou pe­tar­do, na “Fo­lha de S. Pau­lo”. O jor­na­lis­ta e mes­tre em ci­ên­cias so­ci­ais ga­ran­te que Gay não in­cor­po­ra as dis­cus­sões re­cen­tes so­bre o mo­der­nis­mo e se­ria ra­so em algumas ques­tões. Fi­co com a im­pres­são de que Co­e­lho es­tá pre­o­cu­pa­do com a crí­ti­ca (po­si­ti­va) de Gay ao ci­ne­ma. A crí­ti­ca pa­re­ceu-me re­al­men­te in­su­fi­ci­en­te, mas não pe­los mo­ti­vos apon­ta­dos pe­lo jor­na­lis­ta, e sim por con­ta de uma pai­xão tal­vez ex­ces­si­va por Or­son Wel­les (su­pe­res­ti­ma­do) e Cha­plin.

O “Es­ta­dão” en­trou na dan­ça com en­sai­os de Tei­xei­ra Co­e­lho e Fran­cis­co Alam­bert, pro­fes­so­res da USP.

O se­gun­do Co­e­lho, o Tei­xei­ra, diz que Gay de­ve­ria fa­lar em “mo­der­nis­mos” e dis­cor­da da te­se de que o mo­der­nis­mo con­ti­nua vi­vís­si­mo. “É uma fu­ra­da”, de­nun­cia, sem di­zer por quê, o mes­tre. Ou­tra im­pli­cân­cia de Co­e­lho, tal­vez jus­ta, é com a pre­fe­rên­cia de Gay por Ga­bri­el Gar­cía Már­quez (tam­bém ama­do por nin­guém me­nos do que Ge­or­ge Stei­ner) e o es­que­ci­men­to de Jor­ge Lu­is Bor­ges e Ju­lio Cor­tá­zar.

Pa­ra não pa­re­cer Po­li­car­po Qua­res­ma, Co­e­lho não ci­ta Gui­ma­rã­es Ro­sa (“Gran­de Ser­tão: Ve­re­das”), mas po­de­ria ter ci­ta­do Le­za­ma Li­ma (“Pa­ra­di­so”) ou Ale­jo Car­pen­ti­er (“O Sé­cu­lo das Lu­zes”). Le­za­ma, bar­ro­co, não se­ria mo­der­nis­ta? Tal­vez se pos­sa di­zer que se tra­ta de um mo­der­nis­ta que tam­bém é bar­ro­co. Gay es­cla­re­ce que sua pre­o­cu­pa­ção mai­or é mes­mo com a Eu­ro­pa.

Fu­ri­bun­do, Co­e­lho sus­ten­ta que o li­vro de Gay é uma es­pé­cie de “Re­a­der´s Di­gest”. Um ata­que abai­xo da li­nha de cin­tu­ra, mas, di­ga­mos, di­ver­ti­do e atra­en­te. Não ser­ve “nem pa­ra quem se ini­cia, nem pa­ra quem é ini­ci­a­do. Aci­ma de tu­do, não pa­ra o lei­tor do sé­cu­lo 21”. Pa­ra ter­mi­nar, Co­e­lho es­cre­ve o no­me de Eric Hobs­bawm (“Hobs­bawn”) er­ra­do. Não tem na­da mais mo­der­no do que o des­lei­xo com a for­ma.

Alam­bert, quem sa­be me­nos res­sen­ti­do, diz que Gay vê “coi­sas que ge­ral­men­te são omi­ti­das pe­las lei­tu­ras for­ma­lis­tas ou his­to­ri­cis­tas. Por exem­plo, o pa­pel de­sem­pe­nha­do por in­ves­ti­do­res e ga­le­ris­tas na for­ma­ção do câ­no­ne mo­der­no (e, pos­te­rior­men­te, em sua des­mon­ta­gem) e na re­cri­a­ção do sis­te­ma ca­pi­ta­lis­ta de ar­te de­pois da re­vo­lu­ção mo­der­nis­ta”.

O mes­tre, me­nos con­tun­den­te do que os Co­e­lhos, ad­mi­te que Gay é pre­ci­so ao di­zer que “o mo­der­nis­mo foi uma du­pla li­ber­ta­ção psi­co­ló­gi­ca, pa­ra os pro­du­to­res e tam­bém pa­ra os con­su­mi­do­res de al­ta cul­tu­ra” (o tex­to en­tre as­pas é de Gay). O mo­der­nis­mo “deu aos ar­tis­tas a li­ber­da­de de le­var a sé­rio su­as fan­ta­si­as de in­su­bor­di­na­ção, de en­ca­rar com in­di­fe­ren­ça os câ­no­nes que por tan­tos sé­cu­los ha­vi­am di­ta­do os te­mas e as téc­ni­cas, de de­ci­dir se era o ca­so de mo­di­fi­car — ou, mais ra­di­cal­men­te, de der­ru­bar — os cri­té­rios vi­gen­tes, e que se­ri­am eles a em­pre­en­der a re­vo­lu­ção”, es­cre­ve Gay, com o en­dos­so do his­to­ri­a­dor Alam­bert.

O mo­der­nis­mo foi gran­de­men­te in­flu­en­cia­do pe­las idéi­as de Marx, mas so­bre­tu­do pe­las de Ni­etzsche. Gay e Alam­bert con­cor­dam.

O es­cri­tor Hal­ley Mar­gon V. Jr. não apro­va o que leu do li­vro de Gay. “O ca­pí­tu­lo so­bre mú­si­ca é, no mí­ni­mo, clau­di­can­te.” Hal­ley su­ge­re a lei­tu­ra de “O Res­to é Ru­í­do — Es­cu­tan­do o Sé­cu­lo XX” (Com­pa­nhia das Le­tras, 646 pá­gi­nas, tra­du­ção de Cláu­dio Ca­ri­na e Ivan Weisz), de Alex Ros­s. “É sen­sa­ci­o­nal. Pou­cas ve­zes li al­gu­ma coi­sa que é, ao mes­mo tem­po, pa­ra es­pe­cia­lis­tas e lei­gos (ou es­tú­pi­dos). É pre­ci­so, pro­fun­do e cla­ro.” O pro­mo­tor de jus­ti­ça Mar­ce­lo Fran­co es­tá en­tre os ad­mi­ra­do­res da po­lê­mi­ca obra do his­to­ri­a­dor ger­ma­no-ame­ri­ca­no. 
 
A pri­mei­ra li­te­ra­tu­ra cos­mo­po­li­ta do Oci­den­te desde a Idade Média

Na po­lê­mi­ca pro­vin­ci­al so­bre o li­vro “Mo­der­nis­mo”, de Pe­ter Gay, fo­ram ci­ta­dos obras de te­ó­ri­cos do mo­der­nis­mo e do pós-mo­der­no. Mas dei­xa­ram de ci­tar du­as obras im­por­tan­tes e com­ple­men­ta­res, tal­vez por­que mais his­tó­ri­cas do que te­ó­ri­cas. A com­pa­ra­ção ten­de a ser mais pro­du­ti­va se fei­ta com tex­tos si­mi­la­res.

“Os Pri­mei­ros Mo­der­nos — As Ori­gens do Pen­sa­men­to do Sé­cu­lo XX” (Re­cord, 571 pá­gi­nas, tra­du­ção de Cynthia Cor­tes e Pau­lo So­a­res), de Wil­li­am R. Ever­dell, é uma história alentada. “O mo­der­nis­mo na ar­te veio an­tes do mo­der­nis­mo na fic­ção e as re­a­ções a es­te (mes­mo por par­te de mo­der­nis­tas) fo­ram as mais vis­ce­ra­is.”

Co­mo Gay, Ever­dell ci­ta Knut Ham­sun e Au­gust Strindberg co­mo mo­der­nis­tas, in­de­pen­den­te­men­te de su­as opi­ni­ões po­lí­ti­cas ou mo­ra­lis­tas. O pro­fes­sor es­cre­ve que Ja­mes Joyce per­ce­beu que “a li­te­ra­tu­ra mo­der­nis­ta não era na­ci­o­nal mas eu­ro­peia, tal­vez a pri­mei­ra li­te­ra­tu­ra ver­da­dei­ra­men­te cos­mo­po­li­ta do Oci­den­te des­de a Ida­de Mé­dia”. O ca­pí­tu­lo “Ja­mes Joyce — O Des­pe­da­ça­men­to do Ro­man­ce” é do primeiro time.

“Mo­der­nis­mo: Guia Ge­ral — 1890-1930” (Com­pa­nhia das Le­tras, 556 pá­gi­nas, tra­du­ção de De­ni­se Bottmann), or­ga­ni­za­do por Mal­colm Brad­bury e Ja­mes McFar­la­ne, contém en­sai­os de vá­rios au­to­res. Al­gu­mas aná­li­ses são mais sa­tis­fa­tó­ri­as do que as de Pe­ter Gay, ain­da que me­nos po­lê­mi­cas e mais aca­dê­mi­cas. “Su­por que al­gum es­tu­do se­ja ca­paz de apre­sen­tar pa­ra um exa­me se­re­no o ti­po de sí­tio ar­que­o­ló­gi­co que re­pre­sen­ta o mo­der­nis­mo é não en­ten­der a pró­pria na­tu­re­za do fe­nô­me­no”, es­cre­vem Brad­bury e McFar­la­ne. Eles acres­cen­tam al­go que cor­ro­bo­ra, de cer­ta ma­nei­ra, a te­se de Gay de que o mo­der­nis­mo con­ti­nua e que o pós-mo­der­no é uma fic­ção: “O mo­der­nis­mo, em mui­tas ca­rac­te­rís­ti­cas su­as, ain­da é em lar­ga me­di­da a nos­sa li­te­ra­tu­ra, ain­da con­ser­va um ca­rá­ter de no­vi­da­de que sur­pre­en­de e per­tur­ba, ain­da é po­lê­mi­co, di­fí­cil nos man­ter­mos afas­ta­dos de­le, di­fí­cil fa­lar­mos so­bre ele”.

O pro­fes­sor Franz Ku­na, no be­lo tex­to “O ro­man­ce de du­pla fa­ce — Con­rad, Mu­sil, Kafka, Mann”, an­te­ci­pa Gay ao es­cre­ver: “O es­que­ma di­a­lé­ti­co ofe­re­ci­do por Ni­etzshe pa­re­ce ter-se tor­na­do o ar­ca­bou­ço, o pro­tó­ti­po es­té­ti­co pa­ra qua­se to­dos os gran­des ro­man­ces do sé­cu­lo XX. (...) Foi o ro­man­ce mo­der­no que in­cor­po­rou mais so­fre­ga­men­te a fór­mu­la ni­etzsche­a­na so­bre a du­pla fa­ce do ho­mem mo­der­no, fa­da­do a exis­tir de mo­do trá­gi­co”. O en­saio “O ro­man­ce sim­bo­lis­ta — De Huysmans a Mal­raux”, de Mel­vin J. Fri­ed­man, diz que “os ro­man­ces de [Henry] Ja­mes, [Mar­cel] Proust, [Ja­mes] Joyce, [Jo­seph] Con­rad, [Wil­li­am] Faulkner e Vir­gi­nia Wo­olf são, em cer­to sen­ti­do, her­dei­ros fic­cio­nais da po­e­sia sim­bo­lis­ta fran­ce­sa”. Fri­ed­man ana­li­sa, mui­to bem, en­tre ou­tros, o ro­man­ce “En­quan­to Ago­ni­zo”, de Faulkner. O li­vro con­tém aná­li­se per­cu­ci­en­te do mo­der­nis­mo rus­so.

O li­vro de Gay não es­go­ta o mo­der­nis­mo. Pe­lo con­trá­rio, ao his­to­riá-lo, trans­for­ma-o em pro­ble­ma, daí a po­lê­mi­ca, que cer­ta­men­te não é só bra­si­lei­ra. Ao con­trá­rio do que diz Tei­xei­ra Co­e­lho, não é ru­im, ain­da que pos­sa con­ter fa­lhas e análises controversas.

O “Es­ta­dão” en­trou na dan­ça com en­sai­os de Tei­xei­ra Co­e­lho e Fran­cis­co Alam­bert, pro­fes­so­res da USP.
 


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POR EM 22/05/2009 ÀS 08:05 PM

Livros para entender a Segunda Guerra Mundial

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A livraria Amazon listou 54.673 livros sobre a Segunda Guerra. Impossível ler tudo. Impossível ler 10%


Churchill, Roosevelt & Stálin

No dia 1º de setembro, numa terça-feira, faz 70 anos que começou a Segunda Guerra Mundial, terminada em maio de 1945 (no cenário europeu). Por isso as editoras brasileiras estão lançando tantos livros sobre o assunto.

“Europa na Guerra — 1939-1945” (Record, 599 páginas, tradução de Vitor Paolozzi), do historiador inglês Norman Davies, conta a história da Segunda Guerra sob novo prisma, realçando a decisiva participação dos soviéticos e a omissão dos líderes ocidentais em relação aos abusos do stalinismo. Davies apresenta, nas últimas páginas, e mesmo durante a maior parte do livro, uma discussão muito interessante sobre a historiografia da guerra.

Laurence Rees é autor do notável “Stálin, os Nazistas e o Ocidente” (Larousse, 567 páginas, tradução de Luis Fragoso). Mostra que os erros absurdos de Stálin, que, em determinado momento, teve medo de ser liquidado por seus camaradas, e a vitalidade dos soldados russos. O comprometimento de Stálin com Hitler e o nazismo foi muito maior do que em geral é descrito noutros livros de história.

Rees apresenta uma história pouco citada: quando Stálin quis matar Jukov, o exército reagiu, e o ditador apenas o transferiu para uma província distante. Rees escreve, muito bem, sobre o massacre de Katyn e outros, sobre a deportação dos tártaros, outro capítulo da Segunda Guerra pouco mencionado nos livros de história. O historiador inglês também apresenta fartos dados e prova como Churchill e Roosevelt (este provou ser indiferente ao destino dos poloneses. Harry Hopkins, um homem admirável, também fica muito mal, pois parece ter sido seduzido por Stálin) praticamente entregaram a Polônia a Stálin.

“Os Três Grandes — Churchill, Roosevelt & Stálin Ganharam Uma Guerra e Começaram Outra” (Nova Fronteira, 487 páginas, tradução de Gleuber Vieira), de Jonahtan Fenby, ainda não li, mas é um livro elogiado, talvez por ser escrito num tom mais jornalístico. Pouco citado, mas muito bom, é “Os Senhores da Guerra — Hitler, Stálin, Churchill e Roosevelt” (Record, 447 páginas, tradução de Vitor Paolozzi), de Simon Berthon e Joanna Potts.

Falta traduzir muita coisa, como “A Grande Enciclopédia Soviética”, que saiu em inglês em 1970. É um ponto de partida, segundo Davies, para conhecer a versão soviética da guerra. “The Road to Stalingrad” (de 1975) e “The Road to Berlim”, de John Erickson, são pró-soviéticos.

De Richard Evans falta publicar “The Coming of the Third Reich” (2003); de Michael Burleigh, ‘The Third Reich: A New History” (2000). Não chegou ao Brasil “The Dictators: Hitler’s Germany e Stalin’s Russia” (2004), de Richard Overy. Davies diz que o livro é “excelente”. “Ivan’s War” (2005), de Catherine Merridale, ainda não ganhou tradução. De Gerhard Weinberg falta editar “A World at Arms” (1994). Trata-se um livro importante, segundo Davies (que faz apenas uma ressalva).

Para Davies, “Armaggedon, 1944-5” (2005), de Max Hasting, é um livro importante. Hasting também é autor de “Overlord”.

Davies diz que “Stálin — A Corte do Czar Vermelho” (2003), de Simon Sebag Montefiore, “abrirá muitos olhos”. Este saiu pela Companhia das Letras. “Gulag”, de Anne Applebaum, é apresentado por Davies como “soberbo”. Saiu, no Brasil, pela Ediouro. Para quem ainda não internalizou os crimes do stalinismo como semelhantes aos crimes do nazismo, o livro de Applebaum, rigorosamente documentado, com dados recuperados nos arquivos do governo soviético, é fundamental. “The Great Terror: A Re-Assessment” (1992), de Robert Conquest, não saiu em português. Mas a versão anterior, muito boa, saiu pela Expressão e Cultura com o título de “O Grande Terror” (o leitor pode conseguir um exemplo no site www.estantevirtual.com.br). Conquest foi pioneiro na apresentação documentada dos crimes stalinistas. Foi muito atacado, mas a história deu-lhe razão.

Um dos historiadores mais elogiados por Davies é o inglês Antony Beevor, autor de vários livros publicados no Brasil. Davies cita “Stalingrado” (Record) e “Berlim 1945: A Queda” (Record, 600 páginas, tradução de Maria Beatriz de Medina). A selvageria dos soviéticos é fartamente documentada. Faltou citar o excepcional “Creta: A Batalha e Resistência na Segunda Guerra Mundial — 1941-1945” (Record, 460 páginas, tradução de Maria Beatriz de Medina, com revisão técnica de Márcio Scalercio).

“O Longo Inverno — A Batalha do Bulge e a História do Pelotão Mais Condecorado da Segunda Guerra Mundial” (Record, 347), de Alex Kershaw, é muito bom, mas, salvo engano, passou batido na mídia brasileira.

Até o fim do ano, deve sair, pela Companhia das Letras, a biografia de Hitler escrita pelo historiador Ian Kershaw. É a mais equilibrada e atualizada biografia do líder nazista. Tenho a edição espanhola, em dois volumes. Li que a Companhia das Letras vai publicar num só volume. Espero que não fique um volumão difícil de ser manuseado, com letras pequenas, sem fotografias e notas. Dois aperitivos de Kershaw: os magníficos “Hitler — Perfil do Poder” (Jorge Zahar, 254 páginas) e “Dez Decisões Que Mudaram o Mundo — 1940-1941” (Companhia das Letras, 687 páginas, tradução de Berilo Vargas, Celso Mauro Paciornik, Clóvis Marques e Fernanda Abreu).

Se o leitor quiser saber mais sobre o nazista-chefe deve consultar “O Hitler da História” (Jorge Zahar Editor, 250 páginas), de John Lukacs. Trata-se de um balanço do que se publicou de mais importante sobre Hitler.

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POR EM 22/05/2009 ÀS 03:25 PM

Memórias russas de amor, arte e sangue

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Há dois se­nões edi­to­ri­ais. Stá­lin, mais uma vez, é gra­fa­do sem acen­to, por­que, co­mo o li­vro foi ver­ti­do do in­glês, o tra­du­tor (ou a edi­to­ra) age co­mo mu­ji­que, alie­na­da­men­te. O mes­mo ocor­re com o no­me do po­e­ta Púchkin, que, além de per­der o acen­to, ga­nhou a gra­fia tí­pi­ca da lín­gua in­gle­sa, “Pushkin”

O jor­na­lis­ta in­glês Owen Mat­thews é jo­vem e, em ter­mos de me­mó­ri­as, jo­vens têm pou­co o que con­tar, ex­ce­to no ca­so de Ke­ats, Büchner, Rim­baud e Ra­di­guet. Owen tem pou­co a ver com os qua­tro, au­to­res que mor­re­ram jo­vens mas nas­ce­ram ve­lhos.

En­tre­tan­to, sur­pre­en­den­te­men­te e tal­vez nem tan­to, Owen tem o que con­tar, e con­ta, com fer­vor, do­san­do emo­ção e ra­zão no mes­mo co­po de vi­da. Seu “A He­ran­ça de Stá­lin — Três Ge­ra­ções de Amor e Guer­ra” (Glo­bo, 366 pá­gi­nas, tra­du­ção de Max Altman) é um mag­ní­fi­co li­vro so­bre a vi­da.

Se con­tas­se ape­nas sua his­tó­ria, ain­da cur­ta, Owen te­ria es­cri­to um li­vro tal­vez bom, mas não tan­to. Co­mo sa­be que a his­tó­ria de um in­di­ví­duo é só de­le, mas de­pen­de do ca­di­nho de ou­tras vi­das, Owen re­la­ta a his­tó­ria do avô Bo­ris Bi­bikov e dos pa­is, a so­vi­é­ti­ca Lyud­mi­la (Mi­la) Bi­biko­va e o in­glês Mervyn Mat­thews. Bi­bikov foi as­sas­si­na­do pe­la po­lí­cia de Stá­lin, em 1937. Acu­sa­ção: trai­ção. Qual trai­ção? Ne­nhu­ma. Era co­mu­nis­ta, dos mais fi­éis.

Lê-se “A He­ran­ça de Stá­lin” co­mo se fos­se um ro­man­ce, de cer­ta for­ma é. Res­sal­va: o “san­gue” re­ve­la que, por mais ina­cre­di­tá­vel que se­ja, a um pas­so da fic­ção, a Uni­ão So­vi­é­ti­ca foi, ao la­do da Ale­ma­nha de Adolf Hit­ler e da Chi­na de Mao Tsé-tung, o pi­or pe­sa­de­lo do sé­cu­lo 20.

Há dois se­nões edi­to­ri­ais. Stá­lin, mais uma vez, é gra­fa­do sem acen­to, por­que, co­mo o li­vro foi ver­ti­do do in­glês, o tra­du­tor (ou a edi­to­ra) age co­mo mu­ji­que, alie­na­da­men­te. O mes­mo ocor­re com o no­me do po­e­ta Púchkin (o Car­los Drum­mond de An­dra­de dos rus­sos), que, além de per­der o acen­to, ga­nhou a gra­fia tí­pi­ca da lín­gua in­gle­sa, “Pushkin”.

Re­co­men­da-se que o lei­tor do li­vro de Owen, da equi­pe da “Newswe­ek” na Rús­sia, leia tam­bém o mag­ní­fi­co e do­lo­ro­so ro­man­ce “Ca­sa de En­con­tros” (Com­pa­nhia das Le­tras, 238 pá­gi­nas, tra­du­ção de Ru­bens Fi­guei­re­do), de Mar­tin Amis.

Se ti­ver um pou­co de pa­ci­ên­cia, e quem sa­be tem­po, de­ve-se ler “Gu­lag — Uma His­tó­ria dos Cam­pos de Pri­si­o­nei­ros So­vi­é­ti­cos” (Edio­u­ro, 749 pá­gi­nas, tra­du­ção de Má­rio Vi­le­la e Ibraí­ma Da­fon­te), de An­ne Ap­ple­baum, que ga­nhou o Prê­mio Pu­lit­zer de 2004. É, sem ti­rar nem pôr, o me­lhor li­vro, “o” li­vro, so­bre o Gu­lag. Os que fa­lam tão-so­men­te do so­fri­men­to dos ju­deus, do Ho­lo­caus­to, têm o de­ver de ler so­bre o Ho­lo­caus­to so­vi­é­ti­co des­cri­to pe­la com­pe­ten­te e ri­go­ro­sa Ap­ple­baum.

Por fa­lar em ju­deus, Stá­lin ma­tou mi­lha­res de ju­deus. Co­mo Hit­ler, Stá­lin ti­nha uma im­pli­cân­cia es­pe­ci­al com os ju­deus. Era uma de su­as pa­ra­nói­as.
 


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POR EM 15/05/2009 ÀS 06:44 PM

George Eliot e Nechama Tec viram homens no Brasil

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Des­con­fio que al­guns re­se­nhis­tas não le­em os li­vros que co­men­tam, tal­vez por ex­ces­so de tra­ba­lho ou, quem sa­be, pre­gui­ça. Mui­tos le­em o pre­fá­cio, a in­tro­du­ção ou o pos­fá­cio e es­cre­vem as re­se­nhas

George Eliot e Nechama Tec  

A in­gle­sa Ge­or­ge Eli­ot (1819-1880) é uma es­cri­to­ra tão po­de­ro­sa quan­to Vir­gi­nia Wo­olf. Por ter as­si­na­do seus li­vros com no­me mas­cu­li­no, Mary An­ne Evans é con­fun­di­da, so­bre­tu­do no Bra­sil, com ho­mem. Na tra­du­ção de um li­vro de en­sai­os de Go­re Vi­dal, Di­o­go Mai­nar­di (o er­ro de­ve ter si­do do re­vi­sor, pois Mai­nar­di co­nhe­ce bem li­te­ra­tu­ra) es­cre­ve: “Em­bo­ra um Ge­or­ge Eli­ot...”. Na se­ma­na re­tra­sa­da, li o mes­mo num jor­nal bra­si­lei­ro, não me lem­bro qual. Al­guns dos me­lho­res li­vros de Eli­ot fo­ram pu­bli­ca­dos no Bra­sil: “Middle­march — Um Es­tu­do da Vi­da Pro­vin­ci­a­na” (Re­cord, 882 pá­gi­nas), “Da­ni­el De­ron­da” (Paz e Ter­ra, 694 pá­gi­nas, tra­du­ção de Ma­ri­sis Ara­nha Ca­mar­go) e “O Mo­i­nho So­bre o Rio” (Cír­cu­lo do Li­vro, 554 pá­gi­nas, tra­du­ção de Gil­da Stu­art). Sua vi­da po­de ser co­nhe­ci­da na ex­ce­len­te bi­o­gra­fia “Ge­or­ge Eli­ot — A Voz de um Sé­cu­lo” (Re­cord, 877 pá­gi­nas, tra­du­ção de Laís Li­ra), de Fre­de­rick R. Karl. Sua vi­da da­ria li­te­ra­tu­ra, ali­ás, deu, por­que a bi­o­gra­fia é tão ri­ca quan­to um dos me­lho­res ro­man­ces de Eli­ot.

Des­con­fio que al­guns re­se­nhis­tas não le­em os li­vros que co­men­tam, tal­vez por ex­ces­so de tra­ba­lho ou, quem sa­be, pre­gui­ça. Mui­tos le­em o pre­fá­cio, a in­tro­du­ção ou o pos­fá­cio e es­cre­vem as re­se­nhas. Há pou­co, na “Fo­lha de S. Pau­lo”, Os­car Pi­la­gal­lo re­se­nhou, num tex­to de pou­cas li­nhas, “Eu­ro­pa na Guer­ra” (Re­cord), de Nor­man Da­vi­es, e “Stá­lin, os Na­zis­tas e o Oci­den­te” (La­rous­se), de Lau­ren­ce Re­es. De for­ma la­pi­dar, co­mo con­vém ao re­se­nhis­mo bra­si­lei­ro, diz que as du­as obras não con­têm na­da de no­vo. O que não é ver­da­de (os li­vros mu­dam o fo­co de in­ter­pre­ta­ção da guer­ra). Pi­la­gal­lo im­pli­ca com a va­lo­ri­za­ção da par­ti­ci­pa­ção da Uni­ão So­vi­é­ti­ca na Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al, in­si­nu­an­do que, so­bre­tu­do Da­vi­es, des­va­lo­ri­za o front oci­den­tal. É fa­to que Da­vi­es re­va­lo­ri­za o front ori­en­tal, for­ne­cen­do da­dos que com­pro­vam sua te­se, o que Pi­la­gal­lo não men­ci­o­na, por­que se­não der­ru­ba­ria sua “te­se”, mas não des­con­si­de­ra a par­ti­ci­pa­ção de in­gles­es e ame­ri­ca­nos. Da­vi­es faz mui­to mais: va­lo­ri­za ca­na­den­ses, po­lo­nes­es, ucra­nia­nos, bi­e­lo-rus­sos, en­tre ou­tros po­vos. E faz um aler­ta: os rus­sos so­fre­ram na guer­ra, mas é pre­ci­so di­zer, no lu­gar de rus­sos, “so­vi­é­ti­cos”, por­que ou­tros po­vos, co­mo ucra­nia­nos e bi­e­lo-rus­sos, fo­ram, pro­por­ci­o­nal­men­te, mui­to mais agre­di­dos pe­los na­zis­tas ale­mã­es. Ao mes­mo tem­po em que re­gis­tram a atu­a­ção de­ci­si­va da URSS, Da­vi­es e Re­es apon­tam, com far­ta do­cu­men­ta­ção, os cri­mes do sta­li­nis­mo e, de cer­to mo­do, a omis­são dos prag­má­ti­cos Wins­ton Chur­chill e Franklin D. Ro­o­se­velt.

Er­ro es­pan­to­so foi co­me­ti­do pe­la re­vis­ta “Is­toÉ”. O re­pór­ter Ivan Clau­dio es­cre­veu: “Da­ni­el Cra­ig se des­piu do uni­for­me de es­pi­ão bri­tâ­ni­co pa­ra en­car­nar o re­fu­gi­a­do ju­deu Tu­via Man­del no fil­me ‘Um Ato de Li­ber­da­de’, de Edward Zwick. A his­tó­ria se ba­seia em fa­tos re­ais ocor­ri­dos du­ran­te a Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al e nar­ra­dos em li­vro ho­mô­ni­mo pe­lo es­cri­tor Ne­cha­ma Tec”. “Um Ato de Li­ber­da­de” é ba­se­a­do no li­vro “De­fi­an­ce” (“Re­bel­dia”), tra­du­zi­do no Bra­sil, por con­ta do fil­me, co­mo “Um Ato de Li­ber­da­de — Os Guer­ri­lhei­ros de Bi­elski” (Edi­to­ra Re­cord, 402 pá­gi­nas, tra­du­ção de Di­nah Aze­ve­do). Cor­re­ção: Ne­cha­ma Tec é mu­lher, so­ci­ó­lo­ga e pro­fes­so­ra da Uni­ver­si­da­de de Con­nec­ti­cut.
 


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POR EM 15/05/2009 ÀS 06:22 PM

Historiador diz que participação do Brasil na Segunda Guerra não foi simbólica

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Bo­na­lu­me Ne­to acer­ta quan­do diz que Wil­li­am Wa­ack se­gue a ma­nia de al­guns bra­si­lei­ros: tu­do que vem do “es­tran­gei­ro” é ver­da­de in­con­tes­tá­vel 
 

William Waack
William Waack
 
O po­e­ta e jor­na­lis­ta Car­los Wil­li­an me pe­de uma lis­ta mí­ni­ma de li­vros so­bre a par­ti­ci­pa­ção do Bra­sil na Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al.

O lei­tor, se ini­ci­an­te, de­ve co­me­çar pe­lo opús­cu­lo (mui­to bom) “Os Bra­si­lei­ros e a Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al” (Jor­ge Za­har, 78 pá­gi­nas), do dou­tor em his­tó­ria pe­la USP Fran­cis­co Cé­sar Fer­raz. O his­to­ri­a­dor diz que, “em um ba­lan­ço so­bre a atu­a­ção da FEB [For­ça Ex­pe­di­cio­ná­ria Bra­si­lei­ra] em com­ba­te, seu de­sem­pe­nho po­de ser equi­pa­ra­do ao das me­lho­res uni­da­des ali­a­das en­vol­vi­das na fren­te ita­li­a­na” (pá­gi­na 65).

Cé­sar Fer­raz acres­cen­ta: “Pes­qui­sas his­tó­ri­cas sé­rias, com me­to­do­lo­gi­as ade­qua­das, e que ten­tam man­ter-se dis­tan­tes de pre­con­cei­tos, mos­tra­ram que, se a atu­a­ção bra­si­lei­ra não foi de­ci­si­va pa­ra a vi­tó­ria dos Ali­a­dos na Itá­lia — e ja­mais po­de­ria ser a de qual­quer di­vi­são de exér­ci­to iso­la­da, em meio a ou­tras 23 di­vi­sões no mes­mo Te­a­tro de Ope­ra­ções — tam­pou­co sua im­por­tân­cia foi nu­la. (...) É tam­bém um er­ro afir­mar que a par­ti­ci­pa­ção bra­si­lei­ra, com pou­co mais de 25 mil ho­mens, foi ‘sim­bó­li­ca’” (pá­gi­na 71).

“A Nos­sa Se­gun­da Guer­ra: Os Bra­si­lei­ros em Com­ba­te — 1942-1945” (Ex­pres­são e Cul­tu­ra, 224 pá­gi­nas), do jor­na­lis­ta Ri­car­do Bo­na­lu­me Ne­to, é uma obra sé­ria e equi­li­bra­da. Tra­ba­lho de re­pór­ter com vo­ca­ção pa­ra his­to­ri­a­dor. Não li, mas di­zem que é bom: “On­de Es­tão Nos­sos He­róis? — Uma Bre­ve His­tó­ria dos Bra­si­lei­ros na Se­gun­da Guer­ra”, de Ce­sar Cam­pi­a­ni Ma­xi­mi­a­no. O li­vro mais po­lê­mi­co é “As Du­as Fa­ces da Gló­ria — A FEB Vis­ta Pe­los Seus Ali­a­dos e Ini­mi­gos” (No­va Fron­tei­ra, 250 pá­gi­nas), de Wil­li­am Wa­ack. Com ba­se em do­cu­men­tos ale­mã­es e ame­ri­ca­nos, ten­ta des­mo­ra­li­zar a FEB. Bo­na­lu­me Ne­to acer­ta quan­do diz que Wa­ack se­gue a ma­nia de al­guns bra­si­lei­ros: tu­do que vem do “es­tran­gei­ro” é ver­da­de in­con­tes­tá­vel.

O dou­to­ra­do de Cé­sar Fer­raz não foi pu­bli­ca­do, mas pre­su­mo que sua pes­qui­sa se­ja ri­ca: “A Guer­ra Que Não Aca­bou: A Re­in­te­gra­ção So­ci­al dos Ve­te­ra­nos da For­ça Ex­pe­di­cio­ná­ria Bra­si­lei­ra, 1945-2000”. Ele a de­fen­deu na USP, um cen­tro de ex­ce­lên­cia aca­dê­mi­ca.

“O Bra­sil na II Gran­de Guer­ra” (Bi­bli­o­te­ca do Exér­ci­to), de Ma­no­el Tho­maz Cas­te­lo Bran­co, é, se­gun­do Bo­na­lu­me Ne­to, “uti­lís­si­mo pa­ra se acom­pa­nhar a cam­pa­nha”. Ou­tro li­vro elo­gi­a­do pe­lo jor­na­lis­ta é “A Ma­ri­nha do Bra­sil na Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al” (Ca­pe­mi Edi­to­ra), de Ar­tur Os­car Sal­da­nha da Ga­ma. O his­to­ri­a­dor ame­ri­ca­no Frank McCann diz que “De­poi­men­tos de Ofi­ci­ais da Re­ser­va So­bre a FEB” (de 1949) é “um dos li­vros mais úte­is so­bre a FEB”. McCann, por si­nal, é um dos crí­ti­cos do li­vro exa­ge­ra­do de Wa­ack.

Bo­ris Schnai­der­man, o de­ca­no dos tra­du­to­res do rus­so no Bra­sil, lu­tou na guer­ra e es­cre­veu o ro­man­ce “Guer­ra em Sur­di­na” (Co­sac­naify, 246 pá­gi­nas). Schnai­der­man diz que o ro­man­ce “Mi­na R”, de Ro­ber­to de Mel­lo e Sou­za, é “bom, for­te”. Jo­a­quim Xa­vi­er da Sil­vei­ra es­cre­veu “Cru­zes Bran­cas — O Di­á­rio de um Pra­ci­nha” (Jo­sé Olympio, de 1947. Mi­nha edi­ção saiu pe­la Jo­sé Ál­va­ro, Edi­tor) e “A FEB Por um Sol­da­do” (No­va Fron­tei­ra, de 1989). O ma­re­chal Flo­ri­a­no de Li­ma Brayner deu sua ver­são em “A Ver­da­de So­bre a FEB” (Ci­vi­li­za­ção Bra­si­lei­ra, 1968). Um dos li­vros mais co­nhe­ci­dos é a “FEB Por Seu Co­man­dan­te”, do ma­re­chal J. B. Mas­ca­re­nhas de Mo­ra­es.

“Crô­ni­cas da Guer­ra na Itá­lia (Re­cord), de Ru­bem Bra­ga, não é tra­ba­lho de cor­res­pon­den­te de guer­ra tra­di­cio­nal, e sim de es­cri­tor, de cro­nis­ta aten­to à mi­nu­dên­cia que de­li­cia e co­mo­ve. Os jor­na­lis­tas Jo­el Sil­vei­ra, a Ví­bo­ra, e Thas­si­lo Mitke pu­bli­ca­ram “A Lu­ta dos Pra­ci­nhas” (Re­cord). Jo­el Sil­vei­ra es­cre­veu "O In­ver­no na Guer­ra" (Ob­je­ti­va, 176 pá­gi­nas).
 

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POR EM 08/05/2009 ÀS 01:54 PM

Historiador inglês discute a literatura transnacional sobre a Segunda Guerra Mundial

publicado em

Davies discute a produção literária que enfoca a Segunda Guerra Mundial, mas não do ponto de vista estético, e sim a respeito de como apresentaram o assunto


Norman Davies 

O crítico de cinema Herondes Cezar talvez tenha razão: Norman Davies possivelmente entende muito de história e pouco de cinema. Talvez o mesmo ocorra com suas interpretações literárias. No capítulo final do livro “A Europa na Guerra: Uma Vitória Nada Simples — 1939-1945” (Record, 599 páginas), Davies discute a produção literária que enfoca a Segunda Guerra Mundial, mas não do ponto de vista estético, e sim a respeito de como apresentaram o assunto.

A tese de que poucos poetas discutiram a Segunda Guerra é, na visão de Davies, uma percepção anglo-americana. O historiador nota que os Aliados ignoram inclusive os bardos soldados. Ele cita como exemplo o poeta e soldado inglês Keith Douglas, morto por um mosteiro aos 24 anos, e cita seu poema “Actors Waiting in the Wings”. Li, é fraco. “Alamein to Zem-Zem” é apontado, por Davies, como tendo “momentos brilhantes”, mas nem parte do poema é transcrito.

Alexander Soljenitsin provou, com o “Arquipélago Gulag”, que estava à frente dos historiadores, documentando a devastação do povo e da intelligentsia soviética pelo stalinismo. Foi massacrado pelos críticos literários de esquerda, que, como de hábito, não fizeram autocrítica, quando, abertos os arquivos soviéticos, descobriu-se que “era tudo verdade”. Em “Noites Prussianas” escreveu um épico russo sobre a Segunda Guerra, no entendimento de Davies. Kamil Baczynski, morto aos 23 anos, em 1944, durante o Levante de Varsóvia (poloneses atacaram os nazistas e foram destroçados), é apontado por Davies como um grande talento.

T. S. Eliot tratou a Segunda Guerra episodicamente, em “Quatro Quartetos”. Dylan Thomas roçou o assunto. George Orwell “estava bem adiante de seu tempo ao notar as semelhanças totalitárias entre o inimigo nazistas e o aliado soviético”. No “Tribune”, onde foi editor, Orwell criticou os crimes soviéticos durante o Levante de Varsóvia. Há um trecho de “A Revolução dos Bichos”, de 1945, que, na opinião de Davies, diz tudo: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros”. Trata-se de uma crítica corrosiva ao stalinismo, à sua burocracia assassina e totalitária. Em 1949, Orwell publicou seu retrato final do totalitarismo, o romance “1984”. Era a ficção dando conta, com felicidade, da abrangência da era totalitária.

Davies nota que outros grandes escritores ingleses voltaram-se para entender a guerra, a partir de focos diferentes. Em “Fim de Caso” (que rendeu dois filmes), de 1951, Graham Greene “enfoca os romances notoriamente frágeis do período da guerra”. Evelyn Waugh (um autor notável, mas subestimado, possivelmente por não ser de esquerda) publicou a trilogia “A Espada da Honra”, entre 1952 e 1961. Davies diz que é “semi-satírica”. Não entendo o “semi”, porque a obra, apesar dos cuidados com o registro histórico, é mesmo satírica. Lawrence Durrell, em “O Quarteto de Alexandria”, quatro volumes densos (publicados no Brasil com ótima tradução), “conduziu ‘uma investigação do amor moderno’ no sórdido ambiente do fim do Egito imperial”.

Para Davies, a maior surpresa, em termos qualitativos, é o romance “Senhor das Moscas”, de 1954, de William Golding. O Nobel de Literatura empregou “sua pena ácida para recontar a velha história de homens presos em uma ilha deserta” e ofereceu “sua convicção quanto à selvageria subjacente da natureza humana. Sua convicção de que a selvageria ficava logo abaixo da superfície da civilização obviamente havia sido alimentada pelas observações do autor durante a guerra”. Golding foi tenente da Marinha Real.

Por ser mais historiador do que especialista em literatura, Davies resgata do anonimato um autor do segundo ou do terceiro time. Nicholas Monsarrat, autor do romance “Mar Cruel” (publicado, pela Editora Mérito, na década de 1950), foi oficial naval. Davies diz que Monsarrat procurou “tornar a ficção realista mais real do que a história” e sustenta que é um dos “melhores” livros sobre a guerra. O livro conta a história dos tripulantes dos navios Compass Rose e Saltash, que circularam, sob intenso perigo, pelo Atlântico Norte. Davies diz que o filme extraído do romance é “soberbo”.

Norman Lewis é destacado como um dos melhores autores que escreveram sobre a guerra. “Graham Greene definiu-o como ‘incomparável’, e alguns críticos classificaram-no como ‘o escritor dos escritores’.” Lewis, que serviu no Corpo de Inteligência britânico na Itália em 1943-1945, publicou “The Honoured Society”, em 1964, e “Nápoles 1944”, em 1978.

O existencialismo é, segundo Davies, produto da guerra. Ele diz, irônico, que a guerra gerou também “muita pose marxista”. Albert Camus, talvez o maior escritor francês do século 20, depois de Proust e ao lado de Gide, escreveu “O Estrangeiro”, de 1942, durante a guerra, “A Peste”, de 1946, e “O Homem Revoltado”, de 1951. Camus “era profundamente obcecado com o absurdo da condição humana e talvez por isso fosse menos abertamente político. Sartre não via contradição entre ser um comunista de carteirinha e filosofar sobre a liberdade”.

Escritores americanos também usaram a guerra como fonte. Norman Mailer publicou “Os Nus e os Mortos”, de 1948. Joseph Heller escreveu “Ardil 22”, de 1961. Kurt Vonnegut, prisioneiro de guerra, é autor de “Matadouro 5”.

Os alemães escreveram sobre a guerra, mas, no geral, fugiram do tema. Davies cita, como uma tentativa de “conciliar-se com o passado”, de Bernhard Schlink, o romance “O Leitor”, de 1995. (Curiosamente, ignora a prosa complexa de Thomas Bernhard.) O historiador arrola também Henrich Boll (“O Anjo Silencioso”, de 1992) e Günter Grass (“O Tambor”, de 1959, e “Passo de Caranguejo”, de 2002).

Se a literatura reproduziu bem a desnazificação, criticando asperamente os crimes de Hitler e acólitos, continuou, senão escondendo, pelo menos omitindo os crimes do stalinismo. Davies diz que, na Alemanha, prefere-se, mais recentemente, a autofragelação. “A moda de sentir culpa foi encorajada, mesmo entre jovens que não eram nascidos na época de Hitler, e radicais esquerdistas ganharam proeminência entre os árbitros dos gostos literário e intelectual. Um ex-policial do serviço de segurança stalinista, Marcel Reich-Ranicki (nascido em 1920), pôde tornar-se um influente crítico literário.” Aqui, digamos, reside um dos problemas de Davies: não ficamos sabendo se a crítica de Ranicki tem qualidade, e sim que foi policial. O historiador afirma que a prosa de Jürgen Habermas é “impenetrável” e que o filósofo, “neomarxista”, é propenso à polêmica. E daí? Davies é, não raro, extremamente sintéticos e impreciso.

Os escritores soviéticos não tiveram refresco durante e depois da guerra. Stálin, no lugar de afrouxar o controle, continuou a caça às bruxas (Stálin, como se sabe, mandou prender Óssip Mandelstam porque o poeta escreveu que ele tinha bigodes de barata). “Um ‘delego’ muito limitado aconteceu após o ‘discurso secreto’ de Khruschov em 1956. Mas, em essência, duzentos milhões de cidadãos soviéticos e um conjunto de nações cativas foram mantidos por meio século em camisa de força mental e física.”

Escrever sobre a participação da União Soviética na guerra só com “triunfalismo”. “As críticas ao Grande Stálin ou ao alto-comando soviético eram proibidas.” Ilia Ehrenburg (1891-1967) rompeu o cerco, no entendimento de Davies (que não nota, por outro lado, que Ehrenburg, na França, articulou um movimento para destruir o dissidente Victor Serge), e publicou “A Queda de Paris”, em 1941, “A Tempestade”, em 1948, e “O Degelo”, em 1954. O escritor apresentou temas tabus, como o Holocausto e o Pacto Nazi-Soviético. Davies diz que Ehrenburg era importante para o stalinismo, como propagandista do sistema — “Ehrenburg vale por várias divisões”, disse Molotov —, e por isso sobreviveu. Entre seus feitos estavam os apelos para os soviéticos matarem alemães e, durante a Guerra Fria, atacarem americanos. Era um stalinista ao qual permitia-se arranhar, bem levemente, o stalinismo. Era o rebelde consentido.

Um escritor mais consistente, como Vassili (ou Vasily) Grossman (1905-1964), que Davies conta ter sido protegido de Ehrenburg, foi perseguido pelo stalinismo. Por seu imenso talento, ganhou o cargo de correspondente do jornal “Krasnaia Zviezda”, e escreveu livros ditos ortodoxos por Davies, como “Povo Imortal”, de 1942, e “Stalingrado”, de 1943, “e até mesmo se safou com uma obra testemunhal sobre o Holocausto, ‘O Inferno de Treblinka’”, de 1944. Quando decidiu ousar, dotando sua obra de um matiz mais crítico, o regime endureceu. “Na Causa Justa”, de 1954, sobre Stalingrado, depois de oito anos censurado, foi publicado, mas com mutilações. A obra-prima de Grossman, “Vida e Destino”, de 1960, ficou sob censura durante 20 anos. Mikhail Suslov, principal ideólogo soviético, disse que “a obra só seria impressa depois de 250 anos”. Surpreende que Davies, quase sempre atento, não cite o excelente “Um Escritor na Guerra” (Objetiva, 495 páginas, tradução de Bruno Casotti), livro que recolhe as reportagens de guerra de Grossman. A obra foi editada e traduzida do russo para o inglês pelo historiador inglês Antony Beevor e pela bióloga e jornalista russa Luba Vinogradova.

Judeus, Ehrenburg — Davies o apresenta quase que como “rebelde”, o que nunca foi — e Grossman recolheram farto material para escreverem um Livro Negro sobre o destino dos judeus soviéticos. Davies garante que os dois queriam comparar o Holocausto nazista com o sofrimento dos judeus russos. “Mas, à mente soviética, a própria idéia de criminalidade soviética, quanto mais de comparações com a criminalidade nazista, era uma abominação.”

Ievguêni Ievtushênko, nascido em 1933, teve a sorte de escrever e, portanto, publicar depois da morte de Stálin. Publicado em 1958, o longo poema “Bábi Iár” (uso a grafia com acentos, não a de Davies. Vitor Paolozzi não põe acentos porque traduziu o livro do inglês) é visto, por Davies, “como um ato de grande coragem”. Porque Stálin havia falecido, intoxicado pela paranóia, cinco anos antes, mas o stalinismo (seus seguidores), como notou o próprio Ievtushênko, no célebre poema “Os herdeiros de Stálin”, permanecia vivo.

Transcrevo o trecho inicial do longo poema “Bábi Iár”, na tradução de Lauro Machado Coelho (“Poesia Soviética”, Editora Algol, 654 páginas): “Em Bábi Iár não há monumento./Uma rocha escarpada, apenas, como a lápide mais rude./Tenho medo./Hoje, sinto-me tão velho/Quanto todo o povo judeu./Vejo-me como um antigo israelita./Perambulo pelas estradas do antigo Egito/E, na cruz, morro torturado:/Até hoje carrego nas mãos a marca dos pregos./Parece que eu sou o próprio Dreyfus.”

O objetivo de Ievtushênko, com o poema, “não era divulgar o massacre de 1941 [o de Katyn], mas sim lamentar a recusa das autoridades soviéticas em permitir a discussão da história judaica em geral. (...) Ele falou dos pogroms czaristas: ‘Eu vejo a mim mesmo como um menino em Belostok,/E sangue corre pelo chão//Eu sou odiado como um judeu/E é por isso que digo que sou russo’”.

Alexander Soljenitsin, citado antes, foi, segundo Davies, “o pugilista literário que desferiu os golpes mais potentes. Um veterano da guerra e um russo profundamente patriota, ele ficou indignado pelos seus anos perdidos no Gulag e encheu-se de determinação em mostrar ao mundo a realidade das repressões soviéticas — que não pararam durante a guerra, como muitos ocidentais pensavam, e que prosseguiam. Seu primeiro meio escolhido foi a ficção. O romance ‘Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch’ (1962), que foi apenas o começo, causou uma sensação. ‘Pavilhão dos Cancerosos’ (1968) e ‘O Primeiro Círculo’ prosseguiram no tema das reações humanas a dificuldades extremas. Por esse motivo, foi expulso da União dos Escritores Soviéticos. Mas isso foi um mero prelúdio à erupção vulcânica que viria com sua abrupta deportação da URSS”.

Enquanto os soviéticos tentavam escrever sobre a guerra, num estilo enviezado, para tentar escapar da censura — que não acabou com a morte de Stálin, em 1953 —, no mundo democrático viu-se uma enxurrada de livros, a maioria sem qualidade. Davies diz que a produção excessiva “atesta o poder da Segunda Guerra Mundial na imaginação popular, ou seja, o impacto contínuo do mais memorável dos eventos passados sobre a consciência atual”.

Os espiões, com suas histórias fabulosas, ganharam dezenas de livros (faltou citar um livro sobre Kim Philby, o espião dos espiões). Alguns dos melhores foram escritos por Graham Greene (“O Ministério do Medo”, de 1943) e John Le Carré. Davies cita um autor que não conheço, Alan Furst (nascido em 1941, autor de “Dark Star”, de 1991, e “Red Gold”, de 1999. A Record publicou “No Reino das Sombras”), que “tem um toque invejável e uma sensibilidade para o lado exótico do Leste Europeu”. O historiador diz que a “alohistória”, ou história alternativa, “parece ter surgido da ficção científica”. “E se a Operação Leão-Marinho tivesse dado certo?” — é o que perguntam Len Deighton (“Bomber”, de 1970, e “SS-GB — A Grã-Bretanha Ocupada pelos Nazistas”, de 1978) e Robert Harris (“Pátria Amada”, de 1992, e “Enigma”, de 1995).

Davies diz que alguns prosadores, depois de enfocarem as ações dos vitoriosos Aliados (a guerra naval, a guerra aérea e o deserto ocidental), mudaram o rumo de seus livros. “Nos anos 1970 e 1980, o Holocausto tornou-se uma grande preocupação, após longa negligência. Como no campo da história, seu tratamento ficcional caracterizou-se por uma profunda compaixão pela tragédia judaica e muitas liberdades tomadas em relação à ambiência.” Leon Uris (“Mila 18”, de 1961) e William Styron (“A Escolha de Sofia”, de 1979) se tornaram peças-chaves do debate universitário nos Estados Unidos. Filmes semidocumentários, como “Shoah”, de 1986, de Claude Lanzmann, “foram arquitetados para promover o efeito desejado”. Outros livros sobre o Holocausto: “A Noite” (1958), de Elie Wiesel; “O Pássaro Pintado” (1965), de Jerzy Kosinski; “O Planeta do Sr. Sammler” (1970); “É Isto um Homem?” (1947) e “Se Não Agora, Quando? (1982), de Primo Levi; “A Seta do Tempo” (1991), de Martin Amis.

Aos poucos, de forma lenta e segura, “a Frente Oriental impôs-se com justiça como um tópico dominante”. Dizer que Stálin é um monstro, tudo bem, mas não se pode deixar de admitir que os soviéticos lutaram bravamente e foram decisivos na Segunda Guerra Mundial. Os dois temas, os crimes do stalinismo e a face guerreira dos soviéticos, chegaram ao palco da história e da literatura. “O choque de duas tiranias titânicas, que se encontram no núcleo da Segunda Guerra Mundial, podia finalmente tomar o palco central. A pura escala do sofrimento exigia nada menos do que isso.”

Davies cita como exemplo de prosa de qualidade, que combina a apresentação da Frente Oriental com o Gulag, o livro “Siege”, de 2001, do americano Russ Schneider. O escritor (e historiador) Schneider escreve sobre “as tribulações de três fictícios soldados alemães no cenário real da Batalha de Velikie Luki, em 1942. Mas o livro começa e acaba não no campo de batalha, e sim no maior campo de concentração da Europa”. Trecho do livro: “Vorkuta fica bem embaixo dos montes Urais. Fica não nas partes remotas da Sibéria, mas na porta da Sibéria... Tudo era indescritível... O Gulag está em todas as partes e todas as partes são a Rússia. Há rios de morte e longas distâncias de trilhos colocados, metro por metro, sobre os ossos de homens...” Schneider também escreveu “Demyansk”, de 1995.

Sven Hassel é autor de “Morte nas Estepes” (1976). Seus livros podem ser encontrados no site www.estantevirtual.com.br. A Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br) disponibiliza suas obras em inglês, português (edições de Portugal) e espanhol.

Quando romancistas constroem laços entre o maior teatro de ação militar e os maiores órgãos de repressão civil, eles estão penetrando nas áreas mais cruciais da Segunda Guerra Mundial na Europa”, escreve Davies.

É difícil entender a omissão de Davies a respeito da poesia de Anna Akhmátova, uma das principais e mais altivas vítimas do stalinismo.
 


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POR EM 01/05/2009 ÀS 10:35 AM

A Segunda Guerra Mundial e o trabalho controverso dos historiadores

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Se os historiadores têm dificuldade de lidar com fatos ocorridos há certo tempo, com documentação em geral farta, imagine o trabalho dos jornalistas no dia-a-dia. Os jornalistas, acreditando numa objetividade impossível, avaliam que traduzem a realidade à risca, quando, na verdade, fazem um recorte superficial, muitas vezes contestado no dia seguinte, da realidade

Lidar com a história da Segunda Guerra Mundial, depois de 64 anos de seu fim, parece fácil, mas não é, diz Norman Davies, no livro “Europa na guerra — 1939-1945” (Record, 599 páginas). Observe-se que apenas na década de 1990 os historiadores tiveram oportunidade de examinar os arquivos de guerra do NKVD e o Ministério do Exterior soviético. “Entretanto”, nota Davies, “imensas lacunas persistem, especialmente com respeito ao Ministério da Defesa soviético e aos Arquivos do Troféu. Adolf Hitler morreu em abril de 1945. Seu crânio só foi localizado (numa caixa de sapatos) nos arquivos do NKVD em 1992 e o arquivo completo do NKVD sobre Hitler só foi liberado em 2002. O primeiro guia com base em arquivos do sistema de campos de concentração soviético só foi publicado em 1998. Enquanto isso, o mundo acostumou-se à ideia de que só os nazistas tinham campos de concentração durante a guerra”.

Mas as imensas dificuldades com alguns arquivos não impediram uma enxurrada de livros. Davies faz um rastreamento do que há de mais interessante e, infelizmente, muito não foi traduzido para o português. As memórias de Winston Churchill, ainda que idiossincráticas, foram vertidas. Há também os relatos de De Gaulle, Albert Speer, Jukov (o general que Stálin não conseguiu matar, porque o Exército reagiu), Goebbels. “Relatos pessoais do Holocausto, como o diário de Anne Frank, somam número muito maior do que as narrativas vindas do Gulag”, ressalta Davies.

Milovan Djilas, entre os comunistas, deu o “testemunho mais chocante”, segundo Davies, sobre os bastidores do regime de Stálin. Ele apontou, em primeira mão, o surgimento de uma “nova classe”, no clássico “A Nova Classe”. O regime stalinista era gerido “por uma brutal e ditatorial ‘Classe Nova’ de puxa-sacos do partido” (comunista).

Em 1951, seis anos depois do fim da guerra, Alan Bullock, de Oxford, pôs nas livrarias o livro “Hitler — Estudo de uma Tirania”. O historiador teve “acesso privilegiado a arquivos alemães”. “Na época, cinco anos antes do ‘degelo’, Stálin estava vivo e ninguém ainda concebera um estudo sobre a tirania stalinista.”

Depois da obra de Bullock, esgotada no Brasil, saíram livros de Joachim Fest, autor de uma biografia clássica de Hitler (publicada pela Nova Fronteira), Michael Burleigh, Richard Evans e Ian Kershaw (o mais completo biógrafo do líder nazista). “O mais interessante é que vários dos biógrafos de Hitler também foram atraídos por Stálin. O duelo épicos dos dois homens durante a Segunda Guerra Mundial é um tema central, sem o qual pode haver muito mal-entendidos a respeito de ambos.” Em 1991, Bullock lançou “Hitler and Stálin: Parallel Lives” (pode ser encontrado nos sites da Livraria Cultura e do Estante Virtual).

“Mais recentemente, Richard Overy agarrou o touro pelos chifres com mais firmeza. Ninguém sugeriu que os dois tiranos [Hitler e Stálin] fossem idênticos. Mas ambos eram tiranos vis. E não faz sentido argumentar que Stálin era de algum modo menos tirano porque tinha combatido o tirano Hitler”, critica Davies.

Logo depois da guerra, os historiadores alemães evitaram estudar o período nazista. O tema ficou na “geladeira durante muitos anos”. Gerhard Ritter, uma das exceções, procurou negar a “relação” entre Hitler e os grandes homens da história alemã. Fritz Fischer argumentou, no livro “Griff nach der Weltmacht”, de 1961, “que a Alemanha vinha seguindo uma ‘Sonderweg’, ou ‘trilha especial’, desde o Império”.

A partir de 1960, dois temas começaram a tomar conta dos debates, o Holocausto judaico e o histórico criminoso de Stálin. Lucy Dawidowicz, Raul Hilberg, Yehuda Bauer e Martin Gilbert “colocaram a tese principal sobre o genocídio nazista de cerca de 6 milhões de judeus, a maioria da Polônia ocupada pelos alemães, acima de qualquer suspeita”.

Para Davies, “o tema dos crimes de Stálin veio à cena como resultado direto do não tão secreto discurso de Khruschov em fevereiro de 1956, do subseqüente ‘degelo’ na cultura soviética e da brutal repressão do levante húngaro. (...) A percepção se fortaleceu com os escritos de Soljenitsin, as investigações históricas de Robert Conquest e a onda seguinte de opressão soviética na Tchecoslováquia”.

Apesar das evidências dos crimes do stalinismo, que não acabaram com a morte de Stálin, e “até os anos 1990, obras criticando a URSS eram rotuladas como ‘controversas’ ou ‘anti-soviéticas’ e, consequentemente, não exatamente confiáveis”.

No campo da história militar, John Keegan foi pioneiro com “A Face da Batalha”, de 1976. Keegan examinou o trabalho dos soldados, na linha de frente. Seguiram-se “Pegasus Bridge” (1984) e “Band of Brothers” (1992), “O Dia D” (1994) e “Soldados e Cidadãos” (1997), de Stephen Ambrose. O defeito básico de Ambrose é o americocentrismo. Os soldados americanos eram “tudo”.

Como “a história evolui por meio de controvérsias”, é preciso citar o célebre “A Segunda Guerra Mundial” (1963), de A. J. P. Taylor. O historiador inglês sustentava que Hitler, “nos anos 1930, não trabalhava com um cronograma planejado de agressão. Em vez disso, Taylor defendia a tese de que Hitler gostava de correr riscos, era um blefador e um oportunista. (...) Nos anos 1960, a demonização de Hitler estava bem avançada, e a idéia de que o Führer não seguiu o diabólico plano que delineara em ‘Mein Kampf’ foi vista por muitos com um insulto”.

Depois da controvérsia provocada por A. J. P. Taylor, surgiu outra. Alguns historiadores sugeriram que a Segunda Guerra Mundial era decorrente da Primeira Guerra Mundial, das rivalidades (“profundamente enraizadas”) entre as potências europeias, e não das ambições de Hitler e aliados. No livro “A Última Guerra Europeia” (não se sabe o motivo do tradutor pôr os títulos em inglês para livros traduzidos), de 1976, John Lukacs postulou que o nacionalismo havia sido superado e que o essencial era entender as rivalidades entre as superpotências.

Dez anos depois, no livro “Der Europäische Bürgerkireg, 1917-1945”, o historiador alemão Ernst Nolte “sustentou que algumas das técnicas e práticas políticas dos nazistas foram copiadas das da União Soviética”. Davies percebe que Nolte estava conectando comunismo e fascismo ao totalitarismo. Ele estava dizendo que “comunismo e fascismo tinham muito em comum, especialmente suas aspirações a controle total”. Em tese, Nolte seguia o pensamento da filósofa Hannah Arendt, que provocou irritação, mesmo em círculos judaicos, com seu livro “Origens do Totalitarismo” (1951).

No seu livro, Arendt ressaltou “a singularidade do Holocausto e o papel dos comunistas judeus”. Notou também uma espécie de “irmandade” entre os totalitarismos comunista e nazista (não deixa de ser curioso que Hitler e Stálin tinham uma imensa curiosidade um sobre o outro e, claro, foram parceiros durante algum tempo). Mais tarde, em 1963, a filósofa lançou outro livro igualmente polêmico “Eichmann em Jerusalém — Um Relato Sobre a Banalidade do Mal”. Num artigo, “O passado que não irá morrer”, de 1986, Nolte irritou ainda mais a esquerda. Ele disse que “o fascismo” era “uma ‘reação defensiva’ ao comunismo”.

O historiador Andreas Hilgrüber, no livro “Zweierlei Untergang” (“Ruína Dupla”), de 1986, sugeriu “que a Alemanha havia sido vitimada duas vezes — uma pela derrota militar e outra pelas expulsões” (dos alemães do leste, entre 1945-1947). Foi atacado pelo filósofo Jürgen Habermas (tratado como confuso e radical por Davies). Os adversários de Hilgrüber não aceitaram a tese de que o sofrimento dos alemães, expulsos do leste, podia ser comparado ao Holocausto. Por que não falar das duas mil mulheres estupradas pelos soldados russos e das dezenas de milhares de civis alemães que foram queimados e mortos nos bombardeios dos Aliados, principalmente ingleses e, em seguida, soviéticos?

Por trás do debate, havia, nota Davies, a tese de que os alemães, por meio do governo nazista, eram responsáveis pelo maior sofrimento ocorrido durante a guerra. Esquecia-se do sofrimento, digamos massacre, dos soviéticos nos campos de concentração, o Gulag. Porque, em tese, o governo soviético, de Stálin e pós-Stálin, representava o Bem, enquanto o nazismo representava o Mal. Com a derrocada do comunismo, e as consequentes denúncias, agora plenamente documentadas pelos arquivos soviéticos, se pôde entender, em toda a sua extensão, os crimes do stalinismo. Davies não diz isto, mas eu assinalo: se os soviéticos não reclamavam, e não denunciavam o Gulag e os expurgos, apesar de serem bem conhecidos — Robert Conquest foi um dos pioneiros a denunciá-los, documentada e analiticamente, no livro “O Grande Terror — Os Expurgos de Stálin” (Expressão e Cultura, 600 páginas, tradução de Henrique Benevides, 1968. Publicado no Brasil em 1970) —, a situação, teoricamente, não era tão ruim assim. Ninguém supera a esquerda em propaganda política — nem mesmo o nazista Joseph Goebbels. A direta, excluindo Goebbels, sempre foi superada, em propaganda, pela esquerda. A esquerda é o “Bem” e não se condena o “Bem”, mesmo quando este, para além das aparências, não é nada “Bem”, e sim é, sobretudo, o “Mal”. Quando quer, a esquerda manipula, com mestria, o maniqueísmo. Quando julga necessário, critica o maniqueísmo. Por que os crimes do comunismo não são internalizados como crimes contra a humanidade iguais aos do nazismo? Em regra, porque a propaganda comunista foi e, apesar da abertura dos arquivos soviéticos (e outros), continua sendo muito eficiente. Enfrentar a esquerda, o “Bem”, é quase impossível. A pessoa, ainda que seja um intelectual sólido, como Robert Conquest, pode ser execrada pelo resto de seus dias. Então, o silêncio, ou neutralidade do muro, é um dos caminhos protetores das carreiras intelectuais e acadêmicas.

Entretanto, “nos anos 1990, quando vozes russas se juntaram às persistentes condenações do sistema soviético, a maioria de seus antigos defensores perdeu o ímpeto. A publicação, em 1997, de ‘O Livro Negro do Comunismo’, compilado por uma equipe de desiludidos comunistas franceses e europeus do Leste, mostrou-se irrefutável. A partir daí, os crimes soviéticos figuraram na agenda ao lado dos crimes nazistas”. (Vale acrescentar que, mesmo no Brasil, vozes se levantaram para criticar o livro como produto de um trabalho sistemático da direita — omitindo-se, é claro, que os autores eram egressos da esquerda, e de uma esquerda profundamente respeitável, não contaminada pelo direitismo militante. Basta citar, como exemplo, o seriíssimo François Furet. Chegaram a produzir um livro negro do capitalismo, nos quais crimes que ocorreram antes de o capitalismo se tornar o modo de produção dominante foram arrolados como “crimes do capitalismo”.)

O historiador Tony Judt, citado por Davies, escreveu no “New York Times”: “O mito dos bem-intencionados fundadores — o bom czar Lênin traído por seus diabólicos herdeiros — foi enterrado de uma vez por todas. Ninguém poderá mais alegar ignorância ou incerteza a respeito da natureza criminosa do comunismo e aqueles que começaram a esquecer serão forçados a se lembrar novamente”. Judt comenta, no jornal americano, o surgimento do “Livro Negro do Comunismo” (que, depois, teve uma sequência, muito boa, porém pouco divulgada).

Doze anos após o colapso da União Soviética, a historiografia sobre os acontecimentos do Leste europeu renasceu com vigor, sobretudo porque os historiadores passaram a ter acesso aos documentos de arquivos que permaneceram décadas fechados aos pesquisadores. Davies relata que vários livros instigantes foram publicados — os principais, felizmente, traduzidos no Brasil. Dmitri Volkogonov (o general soviético, informadíssimo, escreveu uma biografia, em dois volumes, de Stálin e, depois, um livro sobre todos os líderes que governaram a União Soviética. Ele mostrou a mediocridade dos governantes, com exceções que confirmam a regra), Robert Service (sua biografia de Stálin não foi publicada no Brasil; saiu, entre nós, a biografia “Lênin — A Biografia Definitiva”, eivada de erros de tradução e um título absurdo. Service jamais disse que sua biografia era “definitiva”, afinal é um historiador do primeiro time) e Simon Sebag Montefiore publicaram livros desmitificados sobre Stálin e sua gangue. O livro “Stálin — A Corte do Czar Vermelho”, de Montefiore, não resta dúvida, é muito bom. Mas fica-se com a impressão de que o historiador, consciencioso, superestima Stálin como intelectual, aparentemente, porque o ditador leu muitos livros. No afã de compreender, de superar a demonização, é provável que Montefiore tenha cristalizado uma impressão razoavelmente positiva de Stálin, ainda que o monstro apareça com toda a sua fúria no livro. Trata-se, muito mais, de uma impressão de leitor. Talvez o que fica mesmo é a “presença” monstruosa de Stálin, muitíssimo bem descrita pelo historiador britânico. O modo como o ditador operava o sistema stalinista, transformando os aliados em peões suspeitos, aterrorizando-os, é descrito com mestria. Para uma visão mais nuançada, que ressalta os muitos equívocos políticos e estratégicos do ditador soviético, convém ler “Stálin, os Nazistas e o Ocidente — A Segunda Guerra Mundial Entre Quatro Paredes” (Larousse, 568 páginas), o brilhante livro de Laurence Rees. O historiador observa que, a partir de certo momento, Stálin começou a manipular, aí, sim, com rara habilidade, o inglês Winston Churchill e o americano Franklin D. Roosevelt, que, precisando do aliado do Leste, cederam em vários pontos, como no caso da Polônia. O livro de Rees não é citado por Davies, talvez porque seja tão recente quanto o seu livro.

Davies nota que “Stalingrado”, de Antony Beevor, o brilhante historiador inglês, é um relato notável. Um retrato equilibrado do heroísmo soviético, mas também da violência do governo de Stálin. Davies faz justiça a um dos mais importantes livros publicados nos últimos anos, “Gulag — Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos” (Ediouro, 2004, 749 páginas, tradução de Mário Vilela e Ibraíma Dafonte), de Anne Applebaum. Trata-se, escreve Davies, de “um soberbo estudo condenatório sobre o Gulag, que deixa sem argumentos todos os céticos e negadores”. Mesmo assim, como notei antes, há quem não consiga perceber tais crimes como tão monstruosos quanto os crimes do nazismo. O livro de Applebaum, um soco na cara dos que não querem perceber a barbárie stalinista (assim como não querem perceber que Che Guevara era um político sanguinário e não um rebelde romântico), é uma obra-prima sobre a tragédia soviética.

“Os mecanismos do NKVD [antiga KGB] podem agora ser documentados. (...) As vítimas do comunismo soviético podem agora ter a mesma dignidade e reconhecimento que as vítimas do nazismo há muito possuem”, anota Davies. Ou será que a esquerda vai dizer, agora, que uns são mais vítimas do que outros? É bem possível que, mesmo livros sérios, continuem tratados como “propaganda capitalista” ou da direita.

Nos Estados Unidos, segundo Davies, a argumentação patriótica — fruto, em parte, dos livros do historiador Stephen Ambrose (no geral, fascinantes) e, segundo o historiador, também da cinematografia de Steven Spielberg (entre outros) — começa a ceder. Os EUA de Franklin D. Roosevelt, afinal, admitem os americanos (muitos deles, pelo menos), não venceram a guerra sozinhos — como prova Davies, no seu notável livro, embora tenham sido decisivos na sua finalização, demoraram muito a participar dos combates e participaram de poucos combates verdadeiramente decisivos. Tornaram-se decisivos, isto sim, em decorrência da história que se escreveu sobre eles. Os americanos não têm o hábito de discutir a cruenta batalha de Kursk, uma das mais decisivas, senão a mais decisiva, da guerra.

A idéia de que os soldados e generais americanos decidiram a guerra, algo romântica, no entendimento de Davies, foi ampliada, depois de Ambrose, por Tom Brockaw, no livro “The Greatest Generation”, de 1998. Um pouco antes, em 1975, o americano Paul Fussell, criticou o romantismo interessado (a tese é mais ou menos a seguinte: os Estados Unidos merecem dominar o mundo, pois o salvaram de Hitler) de seus compatriotas. “A parte aliada da guerra de 1939-1945 foi higienizada e romanceada pelos sentimentais, pelos patriotas tolos, pelos ignorantes e pelos sanguinários a ponto de se desfigurar”, escreveu Fussel, no livro “Wartime and Behavior”, de 1989. Os americanos tendem a excluir, a omitir ou a reduzir o peso da violenta e decisiva guerra no território soviético. Morreram na guerra 27 milhões de soviéticos, 400 mil americanos e 400 mil ingleses. Os números dizem tudo. Os soviéticos foram usados como bucha de canhão por Stálin, diretamente, e, indiretamente, pelos demais Aliados. Antes os soviéticos, certamente pensaram os estadistas democratas, do que os ingleses e os americanos. Davies nota também que vários povos, como poloneses, lutaram na Grã-Bretanha contra os ataques alemães. Mas persiste o mito de que os ingleses lutaram sozinhos. Sem os soviéticos, como os Aliados teriam se virado? Talvez vencessem a guerra, mas os sacrifícios humanos teriam sido muito maiores entre ingleses, americanos e outros aliados.

No fim de seu ensaio (sim, é um ensaio, ainda que preso a um texto mais amplo) sobre o trabalho dos historiadores, Davies diz que “a tarefa de compor uma estrutura concisa e exata da história da Segunda Guerra Mundial parece estar ficando mais viável”. Ele cita que os primeiros a tentar uma síntese foram os ingleses A. J. P. Taylor, John Ray e R. A. C. Parker. Em 1994, Gerhard Weinberg (americano de origem alemã), no livro “A World At Armas: A Global History of World War II”, combinou “uma perspectiva americana com a eficácia germânica”.

Davies diz que um livro muito elogiado é “Total War”, de 1972, de Peter Calvocoressi, Guy Wint e John Pritchard. A edição mais recente saiu com o título de “The Penguin History of the Second World War”. Davies ressalva: “Mesmo assim, a perspectiva continua decididamente anglo-americana, para não dizer churchilliana. A parte devotada ao período do Pacto Nazi-Soviético ainda tem o título ‘As Guerras de Hitler’. Na parte da derrota do Reich, ‘A Vitória da URSS’ ocupa apenas um entre 25 capítulos. Semelhantes ênfases não refletem adequadamente a realidade histórica. Se isso é o melhor que os historiadores podem fazer, eles têm que continuar ‘tentando, tentando e tentando de novo’”.

Se os historiadores têm dificuldade de lidar com fatos ocorridos há certo tempo, com documentação em geral farta, imagine o trabalho dos jornalistas no dia-a-dia. Os jornalistas, acreditando numa objetividade impossível, avaliam que traduzem a realidade à risca, quando, na verdade, fazem um recorte superficial, muitas vezes contestado no dia seguinte, da realidade. Davies mostra que, com o trabalho dos historiadores, por incrível que possa parecer, não é muito diferente. Mas deveria ser.

Um detalhe às vezes negligenciado pelos historiadores, mas não por Davies: grande parte da documentação sobre a Segunda Guerra Mundial está na internet. O historiador fornece vários sites. Consultei alguns e é um verdadeiro maná. Mas, claro, os livros, como os de Davies e Laurence Rees, ainda são as melhores fontes.
 


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POR EM 23/04/2009 ÀS 05:53 PM

Uma lista de faroestes subestimados

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John Ford também tem seus faroestes subestimados: “Sangue de Heróis”, “Caravana de Bravos”, “O Céu Mandou Alguém”, “Crepúsculo de uma Raça”. “No Tempo das Diligências” não é subestimado claro, porque é a matriz de muitos filmes de faroeste, mas não é citado na lista de Ademir Luiz.

Provocado pelo médico e escritor Eberth Vencio, o historiador e crítico Ademir Luiz elaborou uma lista dos melhores filmes de faroeste e provocou polêmicas. Esqueceu de citar “Shane” (“Os Brutos Também Amam”), como notou (com acerto) Irapuan Costa Junior. Há também outros excelentes diretores que são subestimados, não por Ademir, mas pelos críticos que só percebem os chamados “clássicos dos clássicos”.

Entre os subestimados podem ser citados: Henry King (“Jesse James”, “O Matador”), Fritz Lang (“A Volta de Frank James”, “O Diabo Feito Mulher”), Joseph L. Mankiewicz (“Ninho de Cobras”. “Cada homem traz em si um pouco de Mal”, acreditava Mankiewicz), Delmer Daves (“A Árvore dos Enforcados”, “Flechas de Fogo”), Raoul Walsh (“Sua Única Saída”. O crítico Gomes de Mattos diz que o filme “introduz a psicanálise no western”), William Wellman (“Consciências Mortas”), Howard Hawks (“Rio Vermelho”, “Onde Começa o Inferno”), King Vidor (“Duelo ao Sol”. “Apresentou o sexo em doses tão elevadas que foi logo impugnado pela censura.” Talvez seja o faroeste mais sensual da história do cinema, com Jennifer Jones e Gregory Peck como protagonistas de um romance tórrido e destrutivo), Howard Hughes (“O Proscrito”), “Anthony Mann” (“Almas em Fúria”, “O Caminho do Diabo”, “Winchester 73”, “O Preço de um Homem”, “O Homem do Oeste”), Budd Boetticher (“O Resgate do Bandoleiro”, “Entardecer Sangrento”, “Fibra de Herói”, “O Homem Que Luta Só”, “Cavalgada Trágica”, “Sete Homens Sem Destino”. Este, elogiado por André Bazin), John Sturges (“Sem Lei e Sem Alma”, a mesma história de “Paixão dos Fortes”, de John Ford), André De Toth (“Terra do Inferno”, “Quadrilha Maldita”), Arthur Penn (“Um de Nós Morrerá”), Marlon Brando (“A Face Oculta”. Como diretor, Brando quase faliu o estúdio e quase enlouqueceu os produtores), Gordon Douglas (“Ouro Que o Destino Carrega”, “Rio Conchos”. Este, sem dúvida, um belíssimo faroeste), Sam Peckinpah (“Meu Ódio Será Tua Herança”, “Pistoleiros ao Entardecer” e “Juramento de Vingança”).

John Ford também tem seus faroestes subestimados: “Sangue de Heróis”, “Legião Invencível” e “Rio Bravo” (trata-se da “trilogia militar” ou “trilogia da Cavalaria”), “Caravana de Bravos” (“O western mais puro e mais simples que já fiz”, disse Ford), “O Céu Mandou Alguém”, “Crepúsculo de uma Raça”. “No Tempo das Diligências” não é subestimado claro, porque é a matriz de muitos filmes de faroeste, mas não é citado na lista de Ademir Luiz.

O livro “Publique-se a Lenda: A História do Western” (Editora Rocco), do crítico e professor da PUC A. C. Gomes de Mattos, contém ótimas sínteses sobre os melhores faroestes. O título tem a ver com o dito mais famoso do filme “O Homem Que Matou o Facínora”, de John Ford: “No Oeste, quando a realidade se converte em lenda, publicamos a lenda”.

O crítico Herondes Cezar tem uma coleção interessante sobre filmes de faroeste da época do cinema mudo (parecia mais teatro do que cinema). O professor e crítico Lisandro Nogueira tem cópia de um ensaio magistral de Davi Arrigucci, um dos mais qualificados críticos literários do país, sobre “O Homem Que Matou o Facínora”, de John Ford. Arrigucci continua estudando a obra de Ford. Parece que analisando-a em comparação com textos de Jorge Luis Borges e Guimarães Rosa.
 


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