Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis
Livro de Fernando Jorge diz que, além de copiar textos alheios, o jornalista cometeu vários erros de informação tanto nos jornais quanto ao participar da elaboração da Delta Larousse

Desperdício. É palavra mais precisa para definir a biografia (se é mesmo possível defini-la como biografia) “Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis — O Mergulho da Ignorância no Poço da Estupidez”, do indefectível Fernando Jorge, que já passou a limpo a vida de Getúlio Vargas e Olavo Bilac (um estudo bem-feito). Fernando Jorge não escreve mal, mas a revisão do livro poderia ser um pouco mais cuidadosa, sobretudo porque o autor se diz tão exigente em relação ao jornalista-escritor criticado. Exemplo de desleixo: “diconário” (dicionário). Um problema, ainda que menor — numa obra de crítica tão acerba, de uma virulência implacável, Fernando Jorge mostra-se indulgente: chama dom Pedro II de “bondoso” e o Estado do Maranhão de “terra fértil sob todos os aspectos”. Só faltou chamar o senador-escritor José Sarney de Shakespeare do Nordeste.
Este texto começa com a palavra desperdício porque, em 501 páginas (putz!), Fernando Jorge não cumpre o que promete e, assim, não desconstrói o jornalista e o escritor Paulo Francis (1930-1997). A agressividade irracional (redundância) de Fernando Jorge impede que conheçamos mais o célebre jornalista que escreveu na “Senhor”, no “Correio da Manhã”, na “Folha de S. Paulo” e em “O Estado de S. Paulo” e foi comentarista da TV Globo e debatedor do “Manhattan Connection”. O sr. Massacre perdeu uma grande oportunidade. Poderia ter provado, ou pelo menos tentado, o fracasso literário de Paulo Francis. Não mostrou nada convincente. Bastava consultar pelo menos uma crítica arrasadora de José Guilherme Merquior — infelizmente, apenas esboçada. Antes de se tornar “amigo” do jornalista, Merquior disse que, depois de “Cabeça de Negro”, o jornalista certamente publicaria o romance “Cabeça de Vento”. Paulo Francis tentou ser o Thomas Mann do Brasil, ao publicar romances de ideias, mas não chegou aos pés de Heinrich Mann. Toda a obra literária do brasileiro, descendente de alemães, não chega aos pés do menor romance de Thomas Mann. Paulo Francis tinha informação, escrevia bem, mas faltava-lhe imaginação literária.
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A excelente biografia “Darwin — A Vida de um Evolucionista Atormentado”, de Adrian Desmond e James Moore, saiu com erros e a Geração Editorial encomendou uma revisão técnica, relançou o livro e fez as trocas com os leitores. Bastava levar a edição antiga às livrarias e proceder à troca. Infelizmente, a Editora Objetiva mostra-se menos responsável e decidiu, mesmo depois de dezenas de erros apontados por intelectuais baianos — e certamente há outros equívocos —, manter em circulação o livro “A Primavera do Dragão — A Juventude de Glauber Rocha”, do escritor e produtor musical Nelson Motta. A Objetiva informa que vai lançar nova edição corrigida, mas a primeira edição, verdadeiro lixo de triste figura, vai continuar nas livrarias. Quem comprou a edição eivada de falhas terá de jogá-la fora ou vendê-la em algum sebo desavisado. Os erros foram anotados e divulgados pelo repórter Claudio Leal, da “Terra Magazine”.
O livro “A Maldição de Edgar” (Record, 396 páginas), de Marc Dugain, apresenta a versão de que o presidente americano John Kennedy foi assassinado por um complô que envolveu a CIA, exilados anticastristas e a Máfia. “Lee Harvey Oswald, preso e executado em Dallas, nunca matou Kennedy. Nunca participou ativamente de sua eliminação física. Esse cara estava sendo preparado como cobertura há longos meses”, escreve Dugain, baseado em supostos documentos deixados por Clyde Tolson, o segundo homem do FBI e amante de J. Edgar Hoover (o escritor Truman Capote a dupla de “Johnny and Clyde”). O FBI sabia que havia uma conspirata para matar Kennedy, mas nada fez, porque Hoover, além de considerar o presidente degenerado e fraco, não o tolerava porque tentou retirá-lo do comando da polícia federal norte-americana. Dugain afirma que o objetivo maior era reduzir a força de Bob Kennedy, o secretário (ministro) de Justiça de John, depois, em 1968, também assassinado.
O francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), o gnomo obsceno, talvez tenha sido o filósofo mais comentado e, até, lido do século 20. O que você vai ler neste texto é tão duro — sobre o baixinho mais feio do que briga entre Anderson Silva e Chael Sonnen — que dou duas dicas: há uma ampla biografia, “Sartre”, de Annie Cohen-Solal (L&PM), em português, que tem uma interpretação menos ácida e mais equilibrada do companheiro de Simone “Castor” de Beauvoir, e há “Passado Imperfeito — Um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-Guerra” (Nova Fronteira, 2008), do historiador britânico Tony Judt. Há um “problema” para leitores preguiçosos: o livro de Cohen-Solal tem 693 páginas. Não há índice de nomes, o que é ruim numa biografia em que se cita muita gente (como o brasileiro Jorge Amado). O livro de Judt, com 478 páginas, é pau puro, e Sartre sai muito mal, com Albert Camus revalorizado. O filósofo de “O Ser e o Nada” não é, porém, o único a ser examinado neste livro esplêndido, seriíssimo.
Alberto Manguel é um crítico da estirpe de Harold Bloom, talvez com uma paixão menos militante. Embora conheça as principais teorias literárias, prefere, como Bloom, ler diretamente os livros que comenta. Há analistas que sabem tudo o que disseram teóricos e críticos mas não são leitores devotados de literatura. Pode-se dizer que alguns comentários de Manguel, argentino radicado na França e ex-secretário de Jorge Luis Borges (lia para o escritor portenho), são superficiais, mas quase sempre são deliciosos e, não raro, detalhistas. Seus artigos para o excelente suplemento literário “Babélia”, do “El País”, contêm novidades sobre o mundo literário, mesmo quando explora assuntos batidos. Na edição de 20 de agosto, escreveu uma resenha, “Em busca do sucesso por meio de um romance vergonhoso”, sobre o escritor e professor universitário norte-americano Percival Everett, de 55 anos. Não adianta procurar suas obras nas livrarias e sebos brasileiros (o Estante Virtual vende uma obra em inglês). No site da Livraria Cultura, de São Paulo, o leitor pode encomendar seus romances, mas em inglês. Companhia das Letras, Cosac Naify e Record não publicaram um livro de sua autoria. Na Casa del Libro, de Madri, é encontrado apenas um romance: “X” (Blackie Books, 358 páginas), recém-lançado na Espanha (em inglês pode ser encontrado o mesmo livro, com o título de “Erasure”). A Livraria Bertrand, de Portugal, vende cinco livros do autor — nenhum em português. Everett é um escritor desconhecido, exceto dos acadêmicos e daqueles que leem quase tudo, como Manguel. Na sua resenha, Manguel faz primeiro uma denúncia e, em seguida, a crítica literária.
Quem diz que o ego do jornalista e pintor Mino Carta, diretor de redação da revista “CartaCapital”, é hipertrofiado não pode deixar de ser chamado de amante de redundâncias. Mino Carta se acha o mais puro dos homens e, por extensão, o melhor jornalista do Brasil, quiçá do mundo — depois de Claudio Abramo, diria o italiano-brasileiro. É o que sobressai do romance “O Castelo de Âmbar” (Record, 400 páginas). Estranhíssimo roman à clef. Sustentar que “O Castelo de Âmbar” é romance talvez seja mais uma gozação de Mino Carta.
O mais polêmico e destemido crítico de música do Brasil volta a atacar, agora na revista “Cult”. Na entrevista “João Gilberto é um bom malandro”, concedida ao jornalista Daniel Silveira, José Ramos Tinhorão não economiza palavras fortes nas suas críticas e prova que permanece como um “devorador” de mitos. A música “Chega de saudade”, de Tom Jobim, “vem do tema do filme ‘Sob o Domínio do Mal’, de 1962, de John Frankenheimer. ‘Desafinado’ é igual a uma canção de Gilberto Alves, e ‘Eu sei que vou te amar’ é a mesma melodia de ‘Dancing in the dark’”. Tinhorão não usa a palavra “plagiário”, mas aponta, sem tergiversar, as “fontes” de Jobim.
No clássico “O Holocausto — História dos Judeus da Europa na Segunda Guerra Mundial” (Hucitec, 1022 páginas), do historiador inglês Martin Gilbert, há referências aos ciganos e homossexuais mortos nos campos de concentração e extermínio dos nazistas de Adolf Hitler, ainda que escassas. “Em pouco mais de quatro meses, mais de 30 mil pessoas tinham sido mortas em Mauthausen [campo de concentração alemão], ou tinham morrido de inanição e doença. Judeus e ciganos formaram os maiores grupos dos mortos, mas outros grupos também tinham sido selecionados pelos nazistas: homossexuais, testemunhas de Jeová, prisioneiros de guerra espanhóis”, revela Gilbert. “Dos assassinados” — Gilbert não está citando só Mauthausen —, entre 1939 e 1945, “cerca de um quarto de milhão eram ciganos, dezenas de milhares de homossexuais e dezenas de milhares de ‘deficientes mentais’.” É pouca informação, mas Gilbert pode alegar, com razão, que seu foco são os judeus. Por isso o livro “Triângulo Rosa — Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista” (Mescla Editorial, 182 páginas, tradução de Angela Cristina Salgueiro Marques), de Jean-Luc Schwab e Rudolf Brazda (o texto é exclusivo de Schwab), tem grande importância. É o resgate da história do alemão (“tchecoslovaco, por ascendência”) Rudolf Brazda. Ainda vivo, com 98 anos, Brazda foi preso no campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha, porque havia cometido o crime de ser homossexual. Não se pretendia tão-somente purificar a raça alemã. O governo nazista trabalhava para mudar comportamentos tidos como desviantes e, quando não conseguia, prendia ou matava as pessoas.
Se a poeta Emily Dickinson é a grande rival de Walt Whitman, no século 19, a prosadora Joyce Carol Oates, de 73 anos, é a principal rival de William Faulkner no século 20. (Ian McEwan é seu par inglês.) Joyce escreve literatura de qualidade (tida como sombria, quando, na verdade, sombrios são a vida e o mundo) e crítica literária. E escreveu um bom livro sobre boxe. Sua obra-prima, o romance “A Filha do Coveiro”, conta a história de sua avó Blanche Morgenstern. A autora tem o hábito de vasculhar os segredos de família e ficcionalizá-los. Agora, com “Memórias de uma Viúva” (inédito no Brasil), conta um drama pessoal — a morte do marido, o editor Raymond Smith, em 2008. “É o livro mais pessoal e impactante de Joyce Carol Oates, firme candidata ao Prêmio Nobel de Literatura”, diz a “Revista de Letras” do jornal “La Vanguardia”, de Barcelona. O livro contém “agudas reflexões e, às vezes, humor negro”. Sobretudo, “narra uma comovente história de amor, lírica, moral e implacável, como as que povoam suas novelas, e oferecem um inédito retrato de sua intimidade, até agora zelosamente protegida”. A “Revista de Letras” transcreve trecho da resenha de Ann Hulbert, publicada no suplemento “The New York Times Book Review”: o livro, diz a crítica, “hipnotizará e comoverá o leitor... Um livro mais dolorosamente auto revelador do que a Oates novelista ou crítica se atreveria a publicar”. Joyce ficou casada por 47 anos e 25 dias com Ray. Quando ele morreu, em 2008 — oito anos mais velho do que Joyce, Ray não se recuperou de uma pneumonia —, o mundo da escritora desmoronou. Ao se recompor, escreveu “Memórias de uma Viúva”. “La Vanguardia” publicou um capítulo do livro (a tradução para o espanhol é de María Luisa Rodríguez Tapia), do qual dou notícia e traduzo trechos.